Morte em Heidegger



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Encontro02.09.2018
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Morte em Heidegger
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável! (...)”
Este fragmento do poema “Versos íntimos” de Augusto dos Anjos mostra um breve episódio que ocorrerá ao menos uma vez na vida de cada um de nós: a Morte. Uma palavra por muitas vezes temida e até muito mal compreendida. Um misto de curiosidade, prazer e receio. Esta palavra é a única certeza de nossa condição finita, da nossa condição mortal. Mas, antes de sermos para a morte, nós somos... mas somos o que?

O homem é muito mais que um ser racional. O que nos coloca na condição de homem não é meramente sermos racionais, mas em última medida saber que somos algo, é ter relação com o nosso próprio ser.

Embora este tema (o ser) seja muito discutido, de acordo com Heidegger, ainda nos é algo obscuro, pois tivemos concepções distorcidas sobre nós mesmos. Parte desta confusão se dá pela dificuldade em diferenciar o ôntico (referente ao ente) do ontológico (referente ao ser).

Por esse motivo, nem tudo o que existe é. Nosso mundo está repleto de coisas meramente lançadas e seres existentes. Qual dentre todas as coisas no mundo que realmente existe? O único que existe é aquele capaz de compreender que de fato ele existe, ou seja, o homem é o único que possui compreensão de seu ser. Ainda no homem, temos aquele que se encaixa unicamente como “ente” e aquele que se encaixa como “ser-aí”, ou seja, “Dasein”.Cito Heidegger:
O ser, que está em jogo no ser deste ente, é sempre meu ( ... )O ser-aí nunca poderá ser apreendido ontologicamente como caso ou exemplar de um gênero de entes simplesmente dados. Pois, para os entes simplesmente dados, o seu “ser” é indiferente ou, mais precisamente, ele são de tal maneira o que seu ser não se lhes pode tornar nem indiferente nem não diferente. (2009,§9, p.86)

O homem enquanto ente possui uma existência inautêntica, pois existe imediatamente em um mundo, mas sua existência se torna, de grosso modo, algo sem sentido. Ele sobrevive dia após dia, como qualquer outro animal, buscando suprir suas necessidades naturais e artificiais.

o homem enquanto ser-ai, além de existir na sua existência cotidiana, junto com outros homens tendo suas preocupações e afazeres mundanos, ele é a junção do ser homem e mundo, através de seu discernimento ele é capaz de se projetar no mundo em que habita galgando uma transcendência das possibilidades de sua existência, deixa de estar no plano das necessidades e passa a existir no plano das possibilidades. Cito Heidegger: “A frase o “homem existe” significa: o homem é aquele ente cujo ser é assinalado pela in-sitência ex-sistente no desvelamento do ser a partir do ser e no ser” ( 1989, p.59 ).

Somos, pois, um ente dotado de ser que existe em um mundo, conceitualmente chamados de ser –no - mundo. Essa distinção é essencialmente importante pois o ser-ai-no-mundo demonstra que habitamos o mundo e somos tão dependentes dele quanto ele é de nós.

Este habitar indica que não estamos vulgarmente lançados no mundo, lançados em um espaço delimitado, mas sim, que determo-nos neste espaço, moramos nele e deixamos de ser, portanto, uma coisa-ente simplesmente dado no mundo ou “intramundano”. Cito Heidegger: “ Para se ver o mundo, é, pois, necessário visualizar o ser-no-mundo cotidiano em sua sustentação fenomenal”. (2009, §14, p.113).

O existir no mundo pode ser dado de duas maneiras: existir como categorias (no caso das coisas) e existir de forma existencial (no caso do ser-aí) que existe e habita o mundo. O que vai caracterizar este distinção de categorias e existência é o modo com o qual o ser-aí se relaciona com o mundo. O ser-aí é o que confere ao mundo sua mundanidade, ou seja, seu aspecto de mundo, pois faz do mundo a extensão de si conforme se relaciona com os instrumentos que se encontram nele (o mundo).

Mas como bem sabemos, e é ótimo que seja assim,não vivemos apenas entre instrumentos e objetos, somos cercados por outros entes que possuem o modo de ser do Dasein, isso quer dizer, outros homens. Aqui deriva-se o “ser-com”. Esta relação entre um Dasein e outro não corresponde à uma relação entre sujeitos, ela é uma relação de dependência entre os homens que decorre da ocupação destes com seus entes. O ser-aí se ocupa de um ente qualquer, mas se pré-ocupa com os homens.

Seria cômico senão fosse trágico. A partir de uma aparente idéia sensata nos perdemos em meio à distorções da realidade, nos preocupamos demasiadamente com os outros, perdemos o ser para o impessoal. Agora deixo, imperceptivelmente de ser eu e passo a ser o nós e/ou a gente. Passamos a ser doutrinados e adestrados pela sociedade, sem face, que dita as regras, determina quem serei e o que farei.

Como poderei desembaçar o espelho da minha vida e voltar a ver o meu rosto? O meu ser? Para tudo há se um jeito. Como anteriormente foi dito, o homem é uma junção de mundo e ser... é através do mundo que nosso ser será contemplado.

O homem permanece no mundo cercado de sentimentos ou disposições da alma. Pois bem, inserido nessa disposição o ser-aí compreende o mundo através de uma “linguagem” que não utiliza conceitos, compreende-se o mundo porque se está com-preendido nesta situação de mundo. Mas como isso é possível? Para Heidegger a compreensão antecede a interpretação. Apresenta-se então a disposição, a compreensão e o discurso como constituintes para a abertura do mundo para o ser. Mas isso só não basta, pois apesar de termos esse acesso o negamos, decaímos para o esquecimento da verdadeira essência. Essa decadência é derivada por outros três fenômenos: o falatório, a curiosidade e a ambigüidade; por isso o Dasein se perde no ambiente público e impessoal, característica marcante de um ser inautêntico.

Presos nessa impessoalidade, nessa cotidianidade, passamos a nos entediar com os entes que nos cercam. Para sairmos deste tédio buscamos outros entes no mundo, buscamos outras ocupações que inicialmente nos satisfaz, mas posteriormente nos joga, novamente, ao tédio. Essa indiferença derivada do tédio causa uma angústia. Essa angústia não possui em si um objeto determinado, simplesmente nos angustiamos pelo próprio ser-no-mundo.

O mundo deixa de ter sentido. As coisas já não causam mais impacto. Adquire-se essa característica fundamental do homem: a angústia, devido sua existência no mundo que resulta do tédio e da “decepção”.

Essa angústia, tida por Heidegger como a causa e efeito o nada, na medida em que, na impessoalidade, sua causa é indeterminada. O nada se coloca por si só na angústia, ele não precisa ser criado. O nada nos lança em um constante nada, ao qual ele mesmo é o sujeito de si.

Bem, o nada juntamente com a angústia, toma o todo ser do Dasein, fazendo com que o próprio ser-no-mundo seja abalado em suas bases e seja sentido em seu fundamento como angustiante, pois o que nos angustia é um nada que nadifica constantemente. Esse nada seria uma espécie de “contra-face” ao ser-no-mundo.

Novamente, o homem se angustia devido o tédio da cotidianidade na qual se mantém, na rotina. Este homem possui na angústia o momento para virar seus olhos para si, contemplando assim o ser. Pois mesmo não sendo singular, a angústia singulariza o homem ao seu “eu”, assumindo sua autenticidade.

Através da preocupação, estrutura fundamental enquanto cuidado pela existência, o homem toma consciência do caráter finito de sua existência, toma posse de seu caráter temporal do ser, despertando assim, através da angústia para a morte, o fato de que o homem tem um fim e se caracteriza, como dito inicialmente, em ser-para-a-morte.

Essa limitação originária do ser-aí pertence ao poder-ser, contendo em si a possibilidade de não-ser do Dasein. Mas a morte não é necessariamente um ponto final. Ela é meramente um fenômeno da própria existência. Não significa pois, que devamos pensar constantemente neste fato, mas sim que devamos encarar como a manifestação da própria existência que é.

Assim como a angústia, a morte é capaz de singularizar o ser-aí, de tira-lo de sua cotidianidade permitindo –se que seja possível assumir uma consciência de toda sua existência, localizando assim sua verdade no tempo e ainda assumir esta existência de maneira individual , pois a morte será sempre minha. Cito Heidegger:
O ter-por-verdadeira a morte – a morte é sempre apenas própria- mostra um outro modo de certeza, sendo mais originário com relação á certeza referente a um ente que vem ao encontro dentro do mundo ou aos objetos formais; trata-se do estar- certo de ser-no-mundo”.. (2009,§53, p.342)
O homem tenta aprisionar o tempo em paredes de metal cercado de engrenagens. Tenta dominá-lo em toda sua existência para iludir a si mesmo com uma vida mais longa, mas esta é uma guerra perdida pois o “tempo não tem mais tempo para ter tempo para o mundo” para esperar o homem e sobrepujar sua existência.



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