Mortalidade de Corbicula fluminea



Baixar 196,86 Kb.
Encontro12.08.2017
Tamanho196,86 Kb.

Mortalidade de Corbicula fluminea (MÜLLER, 1774) (Bivalvia: Corbiculidae) em função da exposição a diferentes condições de turbidez

Fernando Frachone Neves1; Ricardo Cunha Limar2; Wagner Eustáquio Paiva Avelar3



Resumo: A disponibilização de sedimentos aos manancias, em função dos fenômenos erosivos, é de grande relevância para os pesquisadores, para os gestores e tomadores de decisões políticas, assim como para a população da área a ser estudada. Além da perda de importante camada do solo, a deposição de sedimentos dos cursos d’água pode ocasionar assoreamento, além de constituir-se numa das principais fontes de poluição e alteração das condições físico-químicas dos recursos hídricos, impactando drasticamente nas comunidades aquáticas. Embora Corbicula fluminea (MÜLLER, 1774), espécie exótica de bivalve, possa, em geral, tolerar as alterações ambientais nos sistemas aquáticos, evidenciou-se, experimentalmente, uma intolerância à turbidez de 200 NTU, valor medido em dois pontos de estudo, na ocorrência de intensos eventos hidrológicos, que podem determinar a diminuição sazonal da população destes bivalves, indicando ser esta a provável causa da mortalidade dos animais, uma vez que se utilizam do mecanismo da filtração para alimentarem-se.

Palavras-Chave: bivalve exótico, erosão, turbidez, bacia hidrográfica

Abstract: The availability of sediment to water sources, according to the erosive phenomena is of great importance for researchers, for managers and policy decision-makers as well as for the population of the area to be studied. Besides the loss of important soil layer, the deposition of sediments in water courses can cause siltation, and turn into one of the main sources of pollution and alteration of physico-chemical conditions of water, dramatically impacting on aquatic communities. Although Corbicula fluminea (Müller, 1774), exotic species of bivalve, can tolerate, in general, environmental change in aquatic systems, it was found, experimentally, an intolerance to the turbidity of 200 NTU, measured value in two points of study, in the occurrence of severe hydrological events, which may determine the seasonal decrease of the population of these bivalves, indicating that this was the likely cause of mortality of animals, since they use the mechanism of the filter to feed themselves.

INTRODUÇÃO

Corbicula fluminea (MÜLLER, 1774)(Bivalvia: Corbiculidae), espécie exótica de bivalve, introduzida na América do Sul em 1970 (Ituarte, 1981), provavelmente pelo estuário do Rio da Prata, por intermédio de água de lastro de navios, tem sido alvo de interesse de muitas pesquisas, por sua grande capacidade de dispersão e por ter-se tornado um importante competidor com as espécies de bivalves nativos de água doce, fato que se torna potencial causador de desequilíbrio ecológico.

Esta espécie não apresenta uma preferência por textura de sedimento (Belanger et al. 1985) ou por substrato ou cobertura vegetal, apresentando elevada resistência a mudanças físico-químicas nos parâmetros da água (Morton, 1982).

De modo geral, os bivalves dulciaqüicolas vivem, principalmente, enterrados em fundos lamosos ou arenosos, em profundidades que variam de acordo com o tamanho dos exemplares (de 5 mm a 2 cm), variando também na coluna d´água (de 20cm a 15m). Sua alimentação é suspensívora filtrador.

C. fluminea pode tolerar alterações ambientais em sistemas aquáticos, as quais os bivalves estão continuamente expostos (Kat, 1982), resistindo a mudanças extremas de parâmetros físico-químicos como temperatura e salinidade (Morton, 1982).

Em estudos realizados em duas microbacias hidrográficas, observou-se uma mortalidade inespecífica de C. fluminea nas épocas chuvosas, fato que culminou na redução da população deste bivalve nos pontos avaliados.

Ambas microbacias hidrográficas apresentam elevado potencial à erosão, derivado de características importantes como manejo inadequado do solo, ausência de cobertura ripária que constitui as áreas de preservação permanente, monocultura, fragilidade dos solos à erosão e grande intensidade dos eventos hidrológicos que, combinados, podem determinar o aumento do carreamento de sedimentos, em função de processos erosivos, para os corpos d’água. (Neves et al. 2006).

Embora os sedimentos sejam componentes naturais dos corpos d’água, quando intensivamente carreados aos mananciais podem modificar aspectos da hidrologia dos canais, principalmente pelo fenômeno do assoreamento, além de diminuir a penetração da luz na coluna d’água, afetando drasticamente a produção primária e conseqüentemente a dinâmica das populações.

Do aumento da vazão dos rios, nas épocas chuvosas, deriva o aumento na velocidade da corrente d’água que está associada à ressuspensão do sedimento de fundo bem como no transporte de solutos aportados pelos processos erosivos nas margens (Neves et al. 2006), elevando a turbidez da água.

O objetivo do presente trabalho é estudar, em laboratório, o comportamento de indivíduos de C. fluminea à exposição a diferentes condições de turbidez.



MATERIAIS E MÉTODOS

Área de estudo

O estudo foi conduzido em áreas localizadas em duas microbacias hidrográficas pertencentes ao Estado de São Paulo, Brasil.

O primeiro ponto de estudo, localizado no município de Serrana-SP, foi demarcado pelas coordenadas 21° 10 ' 44.9 '' S e 47° 34 ' 30.5 '' W, inserindo-se na bacia hidrográfica do rio Pardo.

O segundo ponto de estudo localiza-se no município de Porto Ferreira-SP (coordenadas 21°50 '36.1 '' S e 47 °29 '44.5 '' W) e pertence à bacia hidrográfica do rio Mogi-Guaçu.



Coleta e aclimatação de animais

Nos dois pontos de estudo, tanto para as análises laboratoriais, bem como para fomento dos experimentos, foram coletados 400 indivíduos de C. fluminea, tateando-se o sedimento de fundo de ambos pontos.

Os animais coletados foram dispostos em caixas térmicas e mantidos a uma temperatura de 25 °C, sendo posteriormente transportados até o laboratório e aclimatados à temperatura de 27 °C.

No laboratório, os animais foram dispostos em tanques com circulação aberta de água de mina, mantendo-se os padrões físico-químicos similares aos da natureza, conforme monitoramento dos fatores abióticos realizado no período de outubro de 2007 a outubro de 2008, em ambos os pontos de estudo.

Tanto em fase de aclimatação quanto em fase experimental, aos bivalves fora ofertado microalgas cultivadas à partir de amostra coletada em cada rio de estudo.

O período de aclimatação foi de, no mínimo, 72 horas.



Monitoramento de fatores abióticos

O monitoramento de fatores abióticos, nos pontos de coleta das microbacias hidrográficas pertencentes aos rios Pardo e Mogi-Guaçu, realizou-se pelas leituras de oxigênio dissolvido (em percentual), obtida a partir do aparelho Oxímetro modelo YSI52; leituras de turbidez, obtidas a partir de amostras de água dos rios, coletadas em frascos de vidro, e posteriormente analisadas com o uso do aparelho Turbidímetro portátil modelo 2100P. Já as leituras de temperatura (em graus Celsius) e condutividade elétrica (em US) foram obtidas pelo uso do aparelho Condutivímetro modelo YSI30.



Exposição de indivíduos de C. fluminea a diferentes condições de turbidez

Os indivíduos de C. fluminea foram expostos a cinco classes de condições de turbidez: 0, 100, 150, 200 e 250 NTU. Tais classes foram parametrizadas tendo em vista os valores observados nos pontos de estudo, nas épocas de intensas chuvas.

Para tanto, aproximadamente cinco quilos de sedimentos foram coletado dos rios Mogi Guaçu e Pardo, em ambos os pontos de estudo, raspando-se a superfície do leito e dispondo-o, em caixas térmicas com gelo, onde foram transportadas ao laboratório e submetidas a peneiramento em malha grossa, para extração de sujeiras e outras impurezas, e posterior secagem em estufa a 60 ° C, por 72 horas.

Após secas, as amostras foram divididas em lotes de 30 g cada e separados conforme o rio de origem, os quais foram adicionados à água de um aquário contendo água de mina, lote a lote, até que a turbidez desejada fosse atingida e estabilizada. A temperatura da água dos experimentos foi mantida a 27 ° C, controlada pela troca térmica com o ar refrigerado da sala de experimentos do laboratório.

Também para controle da temperatura da água, um sistema de recirculação foi dimensionado para que uma porção de cinco metros de condutor (mangueira) permanecesse submersa em uma caixa d’água resfriadora.

A oxigenação da água dos experimentos foi mantida entre o intervalo de 9 a 10 mg/L, com auxílio de um soprador.

A condutividade elétrica foi aferida pela utilização de condutivímetro (aparelho já determinado) e os valores foram calibrados para aproximarem-se daqueles mensurados em campo.

Para cada teste de turbidez, foram adicionados em cada aquário (experimento e controle) vinte animais os quais foram mantidos suspensos em sacos de nylon, pelo tempo do experimento.

Com uma periodicidade de 24 horas, o estado geral dos animais foi avaliado quanto a eventual mortalidade de bivalves e estabilidade das condições físico-químicas da água, a qual foi controlada com extremado rigor.

O tempo de cada experimento foi determinado pela morte de 50 % da amostra de indivíduos, por grupo teste.



Análise estatística

Para a análise dos resultados de mortalidade de C. fluminea foi utilizado análise de variância (ANOVA), de duas vias, sendo obtido índice de confiança de 95 % para os parâmetros.

Foi utilizado o programa Statistica (Statsoft, Inc).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O monitoramento dos fatores abióticos em ambos os pontos de coleta fora realizado no período de outubro de 2007 a outubro de 2008 e os resultados foram plotados nos Figuras 1 e 2.



Figura 1. Fatores abióticos do Rio Mogi Guaçu (Porto Ferreira – SP)



Figura 2. Fatores abióticos do Rio Pardo (Serrana – SP)

Na época que compreendeu de outubro de 2007 a abril de 2008, época de chuvas, houve um incremento tanto da condutividade elétrica quanto da turbidez em ambos rios, sendo que tais incrementos mostraram-se mais expressivos, em valores absolutos, no rio Mogi-Guaçu.

Os valores obtidos podem ser explicados pelo aumento da vazão nos canais, o que influencia na ressuspensão tanto de sedimentos quanto da matéria orgânica e elementos químicos depositados no sedimento de fundo dos rios.

Outro fator bastante importante no aumento da turbidez e condutividade elétrica é o aporte de sedimentos, oriundos dos processos erosivos nas margens dos canais, bem como a disponibilização, pelo mesmo processo ou via, de matéria orgânica e solutos provavelmente oriundos da atividade agropecuária.

Tanto a temperatura e o oxigênio dissolvido na água dos rios mantiveram-se constantes, com discreta diminuição da temperatura no período de inverno (junho e julho).

Os dados dos fatores abióticos coletados demonstraram coerência, quando correlacionados à bibliografia.

Em relação aos resultados de mortalidade de indivíduos de C. fluminea os dados mostram que o efeito da turbidez não é significativo na mortalidade dos animais tanto do rio Mogi, quanto do rio pardo, porém o efeito tempo foi significativo na mortalidade dos animais (p < 0,001) em ambos rios.

Tanto para animais do rio Pardo quando para animais do rio Mogi-Guaçu, a mortalidade ocorre à partir de 72 horas de exposição (Tabelas 1 e 2).


Tempo (horas)

Turbidez (NTU)

0

100

150

200

250

24

0

0

0

0

0

48

0

0

0

0

0

72

0

0

2,5

0

2,5

96

0

2,5

30

47,5

32,5

120

0

20

55

60

65

Experimento realizado em triplicata (n=40)

Tabela 1. Porcentagem de mortalidade de indivíduos de C. fluminea, coletados no rio Mogi Guaçu, expostos a diferentes índices de turbidez (n=40).




Tempo (horas)

Turbidez (NTU)

0

100

150

200

250

24

0

0

0

2.5

5

48

0

0

2.5

0

0

72

0

0

10

5

17.5

96

0

2.5

40

22.5

42.5

120

0

25

62.5

57.5

70

Experimento realizado em triplicata (n=40)
Tabela 2. Porcentagem de mortalidade de indivíduos de C. fluminea, coletados no rio Pardo, expostos a diferentes índices de turbidez (n=40).

As chuvas, nas bacias hidrográficas estudadas, quando ocorrem continuadamente, tem grande importância na manutenção da turbidez elevada nos rios, via processos erosivos, fator que pode estar causando a mortalidade da população de C. fluminea.

Neste sentido, quando expostos a elevada turbidez por longos períodos os animais parecem perder a capacidade de tolerar as condições do meio, fato que culmina em mortalidade provavelmente ocasionada pela saturação da cavidade palial por sedimentos.

É apropriado sugerir que a ausência da vegetação ciliar no entorno das margens dos rios estudados, que compõe as áreas de preservação permanente, tem grande contribuição no aporte de sedimentos, via processos erosivos, fator este que pode contribuir diretamente para a mortalidade dos indivíduos de C. fluminea, conforme os resultados do presente assim sugerem.



REFERÊNCIAS

Belanger SE, Farris JL, Cherry DS &. Cairns JJr. 1985. Sediment preference of the freshwater Asiatic clam, Corbicula fluminea. Nautilus, 99(2–3): 66–73.

Ituarte C. 1981. Primera noticia acerca de la introducción de pelecípodos asiáticos em El área rioplatense (Mollusca, Corbiculidae). Neotrópica, 27: 79-83.

Kat PW. 1984. Parasitism and the Unionacea (Bivalvia). Biology Review, 59: 189-207.

Morton B. 1982. Some aspects of the population structure and sexual strategy of Corbicula cf. fluminalis (Bivalvia: Corbiculacea) from the Pearl River, People’s Republic of China. Journal Molluscan Studies, 48(1): 1-23.

Neves FF, Silva, FGB, Crestana, S. 2006. Uso do modelo AVSWAT na avaliação do aporte de nitrogênio (N) e fósforo (P) aos mananciais de uma microbacia hidrográfica contendo atividade avícola. Engenharia Sanitária e Ambientalvol.11 no.4. Rio de Janeiro Oct./Dec. 2006 – 311-317.



AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à CAPES pela bolsa de doutorado concedida aos dois primeiros autores e ao programa de pós-graduação em Biologia Comparada, do departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo.



1 Biólogo, Advogado, Mestre em Ciências da Engenharia Ambiental, Doutorando no programa de pós-graduação em Biologia Comparada do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto. FFCLRP-USP. ffneves@terra.com.br


2 Oceanógrafo, Mestre em Fisiologia Animal Comparada, Doutorando no programa de pós-graduação em Biologia Comparada do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto. FFCLRP-USP. occunhalima@gmail.com

3 Professor Doutor do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Ribeirão Preto. FFCLRP-USP. waavelar@ffclrp.usp.br






©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal