Modulo III



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MÓDULO III
REPÚBLICA VELHA – 1889 A 1930

Durante esse período passaram pelo governo treze presidentes. A denominação república velha nasceu em função de a maioria dos presidentes serem representantes da oligarquia cafeeira. O quadro a seguir mostra todos os presidentes e os períodos em que estiveram no poder.



PERÍODO

PRESIDENTE

1889 a 1891

Manuel Deodoro da Fonseca

1891 a 1894

Floriano Vieira Peixoto

1894 a 1898

Prudente José de Morais Barros

1898 a 1902

Manuel Ferraz de Campos Sales

1902 a 1906

Francisco de Paulo Rodrigues Alves

1906 a 1909

Afonso Augusto Moreira Pena

1909 a 1910

Nilo Procópio Peçanha

1910 a 1914

Hermes Rodrigues da Fonseca

1914 a 1918

Venceslau Braz Pereira Gomes

1918 a 1919

Delfim Moreira da Costa Ribeiro

1919 a 1922

Epitácio da Silva Pessoa

1922 a 1926

Artur da Silva Bernardes

1926 a 1930

Washington Luis Pereira de Souza

O Marechal Deodoro da Fonseca assume o governo provisório em 15 de Novembro de 1889, decreta o Regime Republicano Federalista, transformando as antigas províncias em Estados da Federação. Tomou outras medidas como: separação da Igreja do Estado, naturalização de todos os estrangeiros, criação do casamento civil. Rui Barbosa foi convidado para a pasta da Fazenda de onde começou a tomar as primeiras medidas financeiras do Brasil republicano.

A liderança, nos primeiros dias, cabe indiscutivelmente a Rui Barbosa; mas a Proclamação dos Membros do Governo Provisório, no dia 15 de novembro, apesar de evidenciar o mesmo espírito dos documentos posteriores, não leva sua assinatura nem a de Campos Sales. Aí se proclama que o “Povo, o Exército e a Armada Nacional, em perfeita comunhão de sentimentos com os nossos concidadãos residentes nas províncias” acabam de decretar a deposição da família Imperial. O governo Provisório, que garante a ordem, dirigirá a nação, até que os órgãos competentes escolham o futuro governo definitivo; a ordem será mantida e os compromissos externos respeitados. Outro documento, do mesmo dia, redigido por Rui Barbosa, é mais incisivo; “fica proclamada provisoriamente e decretada como forma de governo da Nação Brasileira – A República Federativa”; as províncias, reunidas pelo lado da federação, ficam constituindo os Estados Unidos do Brasil; cada Estado decretará oportunamente sua constituição e elegerá seus governos e corpos deliberantes etc (CARONE, 1981).

A composição heterogênea do governo provisório promoverá futuras divergências. A pasta da Justiça ficou com Campos Sales, o Ministério do Interior foi ocupado por Aristides Lobo, Rui Barbosa na pasta da Fazenda, Benjamin Constant encarregou-se da pasta da Guerra, Eduardo Wandenkolk na Marinha, Quintino Bocaiúva com as Relações Exteriores e Demétrio Ribeiro respondia pela pasta da Agricultura, comércio e Obras Públicas.

De todas as medidas ministeriais a que mais se destacou foi a do ministro da Fazenda Rui Barbosa. A falta de numerário (moeda corrente) foi sanada pela política emissionista deliberada pelo ministro da Fazenda. Ilusoriamente pensavam que emitindo moeda poderiam sanar o déficit existente. Tinham como objetivo inicial realizar o pagamento do trabalho assalariado, pois após a libertação dos escravos fazia-se necessário ter moeda corrente para o pagamento do trabalhador. Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul passaram a ser centros emissores de moeda. Ingenuamente não perceberam que o despejo de papel sem valor no mercado causaria inflação, a economia não possuía uma base sólida ou lastro, fator que causou imensa especulação, enriquecimento instantâneo através da compra de ações que supervalorizavam da noite para o dia. Encilhamento foi a denominação dada a está política de emissão de papéis desordenadamente.

Rui, não sem certa ingenuidade, acreditava estar impulsionando a base econômica indispensável para o florescimento da democracia: “A República se consolidará entre nós em bases seguras, quando o seu funcionamento repousar sobre a democracia do trabalho industrial, peça necessária no mecanismo do sistema, que trará o equilíbrio conveniente para o seu regular funcionamento”. Com ou sem êxito, entretanto, o fato é que a expansão dos bancos-emissores, a enxurrada de papel moeda e de emissões de ações por parte de companhias que se formavam, confirmam que entre as forças que se beneficiaram imediatamente com a proclamação da República contavam-se setores industrial-financeiros urbanos. O período 1890/1891 –fase em que ocorreu o “Encilhamento”, isto é, as emissões de moeda e de ações que geraram enormes especulações – foi marcadamente inflacionário e “industrialista” (FAUSTO, 1985).

As divergências começaram a surgir logo no inicio do governo provisório, todo o ministério era contra a política do encilhamento, Rui Barbosa tinha apoio apenas de Deodoro da Fonseca. Em 1891 a economia brasileira apresentava-se em um verdadeiro caus.

Em 24 de fevereiro de 1891 foi convocada uma Assembléia constituinte que elaborou a primeira Constituição Republicana para substituir a de 1824. A Constituição de 1824 foi inspirada no liberalismo francês, a de 1891 foi moldada ao estilo norte-americano. Segundo a Constituição os Estados Unidos do Brasil era composto por vinte Estado, distrito federal, com organização pautada em base republicana, federativa e representativa, tendo no executivo um presidente. Foram adotados apenas três poderes: Executivo exercido pelo presidente da república, o Legislativo exercido pela Câmara dos Deputados e Senado Federal e Judiciário representado pelo Superior Tribunal Federal. Três poderes que governavam juntos, mas independentes entre si. No nível estadual e municipal seguia-se o mesmo modelo de governo.

A Constituição não resolveu os problemas econômicos e políticos brasileiros. A maioria de seus artigos não saiu do papel, não foi possível aplicá-la devido ao caráter agrário e colonial do Brasil, a descentralização dos estados e a economia voltada para o mercado externo mantinham a mesma estrutura existente no Império. Os estados mais desenvolvidos como Rio de janeiro e São Paulo saíram à frente, tinham estrutura para dominar o poder central em detrimento das outras regiões.

O poder político andava junto com o poder econômico. A República Velha foi chamada então por “República do Café”, pois os grandes fazendeiros produtores de café das regiões do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais dominavam a economia e também a direção política do país. Os demais estados brasileiros ficavam às margens do poder, não opinavam nas decisões políticas e não conseguiam atenção para seus problemas regionais. A população, a grande massa, totalmente excluída, continuou como meros expectadores dos acontecimentos republicanos.

Passado o primeiro momento, o período do governo provisório, as divergências começavam a aflorar. A partir de 1891 a República se consolida e seus fundadores, civis e militares, apresentam as primeiras discordâncias. As divergências estão pautadas na questão federalista. Os republicanos civis defendiam o federalismo enquanto os militares desejavam fortalecer o poder federal.

Deodoro no governo – O Generalíssimo (que nunca fora republicano) não parecia apto a governar segundo “princípios abstratos”. Antes, para servir-me da qualificação de um diplomata estrangeiro citado por Hahner, atuava no contexto de um “governo militar, temperado pelo nepotismo”. Em muitas das antigas províncias (mas não assim em São Paulo ou Minas, naturalmente, onde o elemento civil republicano controlou as rédeas do governo) o chefe do Governo Provisório nomeou militares. Mesmo na condução dos negócios do Estado o Generalíssimo (e não era apenas ele) queria continuar práticas de favoritismo, como, p.ex., no caso sul, que levou Rui à demissão. O confronto entre o doutrinarismo dos republicanos históricos civis com os “brios militares” foi continuo. E tanto peso tinha os interesses reais representados pelos primeiros (sempre urgindo a necessidade da institucionalização e da legitimidade para os créditos externos e a boa ordem dos negócios), que Deodoro chamou eleições a 15/9/1890 (FAUSTO, 1985).

O primeiro presidente (1891-1894) foi Deodoro da Fonseca que renunciou após diversos conflitos, o vice era Floriano Peixoto que completou o governo do período. Deodoro representava a facção militar, Prudente de Morais representava os civis. O congresso era totalmente contra Deodoro devido ao desgaste do governo provisório com a política do encilhamento e também porque o Congresso Nacional desejava ter seu poder fortalecido.

Os candidatos eram os seguintes: Deodoro da Fonseca para presidente e Wandenkolk para vice, em oposição disputavam Prudente de Morais para presidente e Floriano Peixoto para vice.

Apesar de Deodoro ter sido eleito (mas seu vice, Almirante Eduardo Wandenkolk ser derrotado) acabou por renunciar em favor de Prudente de Morais devido à enorme hostilidade do Congresso Nacional e da facção política do Estado de São Paulo. Candidatos a presidente e a vice-presidente eram votados, muitas vezes eram eleitos presidentes de uma facção e vice-presidente de outra representação política. Este “casamento” de presidente e vice-presidente de partidos diferentes trazia muitas divergências e literalmente brigas. Deodoro foi eleito, mas seu vice não. Quando renunciou, assumiu a presidência Floriano Peixoto, que havia sido votado para ser vice de Prudente de Morais.

Praticamente todo o período de Deodoro – e é desnecessário seguir os ziquezagues das conjunturas – vai caracterizar-se, pelo impasse até sua renúncia a 23-11-1891 (depois do “golpe de Lucena” do dia 3, quando o Generalíssimo dissolveu a câmara, e o contragolpe, fruto da resistência generalizada no Pará, no Rio Grande, em Santa Catarina, em Minas, em São Paulo, de civis e militares) (FAUSTO, 1985).


Conforme relatado por SODRÉ (1998) o governo de Floriano representava a classe média no poder com diretrizes militares, o que levou a sérios conflitos gerando a crise da república. O apoio político a Floriano baseava-se em militares e oligarcas contrários a Deodoro da Fonseca. Ao assumir o poder Floriano promoveu a dissolução do congresso excluindo todos os governadores que apoiavam Deodoro. Esta decisão deixou clara a linha de governo garantida pela força. Os problemas nacionais eram intensos e acreditava-se que somente pela força seriam resolvidos. Como era de se esperar a oposição fez protestos exigindo novas eleições. Na verdade, Floriano tinha de convocar eleições porque, de acordo com a Constituição republicana de 1891, se o presidente da republica fosse impedido de governar por alguma razão, antes de ter passado dois anos no poder, deveriam ser convocadas novas eleições.

De acordo com SILVA et al (1985) Floriano não convocou eleições como previa a constituição e teve que enfrentar revoltas por parte de generais, conhecidas como revoltas dos fortes de santa cruz e de lages. Agindo pela força mandou fuzilar o líder da revolta e exonerou os treze generais e em 1892 o congresso legitimou o Marechal de Ferro (apelido de Floriano) como governante Floriano teve ainda que combater a Revolução federalista e a Revolta da Armada.

A economia no período do governo de Floriano caracterizou-se por ações que favoreciam a classe média e a burguesia. Floriano isentou do pagamento de taxas sobre importações de máquinas e equipamentos para a indústria, autorizou empréstimos, adotou medidas de combate à especulação gerada desde o encilhamento. Essas medidas favoreciam os industriais brasileiros que passaram a apoiar o governo. Os banqueiros estrangeiros e as oligarquias cafeeiras eram fortes opositores ao seu governo.

“o término do florianismo marca o inicio do fim da crise da República. Novamente unificada, a oligarquia agrícola retomou o comando da vida econômica do país. A classe média estava fadada a sofrer os defeitos de uma política econômica que atirava ao consumidor os ônus cada vez mais pesados da valorização do café” (SODRÉ, 1964).


A República era um produto de alianças entre o Exército e os fazendeiros do café contra o Império. Os governos de Deodoro e Floriano, ambos militares, foram marcados por atos de força, imposição. A partir do primeiro presidente eleito, mesmo que por eleições indiretas, os civis cafeicultores começaram a reivindicar sua parte no poder, iniciam-se as divergências entre militares e civis. Terminado o governo de Floriano, assumiu o poder Prudente de Morais (1894-1898) representante das oligarquias cafeeiras, dando inicio à política das oligarquias agrárias ou república dos fazendeiros.

A organização sócio-econômica do país, polarizando, num extremo, as oligarquias com origem assentada na grande propriedade territorial e, noutro, a grande massa de desprovidos, bloqueava as oportunidades destes, mantendo-os alienados, através dos laços de dependência a que estavam submetidos” (TELAROLLI, 1982).


Prudente de Morais foi o primeiro civil a assumir o poder, seu governo herdou agitações do governo de Floriano, teve que reprimir florianistas radicais que não aceitavam o seu governo, anistiou revoltosos do Rio Grande do Sul remanescentes da Revolta Federalista. O maior problema de seu governo foi a Guerra de Canudos.

A guerra de canudos, conforme relatado por AQUINO et al (2000) foi a expressão da revolta de despossuídos e marginalizados sertanejos, brasileiros que viviam a margem do poder. Relata-se que em canudos chegou a ter cerca de 30 mil pessoas, imigrantes de várias regiões da Bahia e do nordeste, estas pessoas buscavam a liberdade longe dos grandes proprietários de terras que os exploravam no trabalho, buscavam a terra prometida imbuídos pela fé religiosa.

Ainda segundo AQUINO et al (2000) a seca de 1877 a 1879 e a nascente usina de açúcar no nordeste foram fatores contribuintes para a migração para canudos (embora chamasse Belo Monte), o apelido Canudos veio do hábito de fumar enormes cachimbos denominados canudos. A comunidade localizava-se à margem do rio Vaza-Barris, situação geográfica privilegiada.

Antonio conselheiro ou Antonio Vicente Mendes Maciel, tornou-se o líder da comunidade, era um beato e chefe político da comunidade, leitor assíduo da Bíblia e também de obras como A guerra do Imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França. Em suas andanças carregava consigo livros de preces e de atos piedosos, escritos pelo padre Manuel Gonçalves Couto.

Em suas peregrinações, Antônio Conselheiro deixou crescer os cabelos e a Barba. Passou a usar um camisolão azul, tendo à cabeça um chapéu de abas largas, com fitas caídas. Em uma das mãos, apoiava-se em um bastão. Na outra, carregava livros de preces. Com clareza e simplicidade, pregava de vila em vila. Falava de Deus. Construía ou reparava igrejas. Dava conselhos. Defendia os humildes. Organizava procissões. Desde 1874 começou a ser seguido por centenas de sertanejos. Chamavam-no Santo Antônio dos Mares, Santo Antônio Aparecido, Santo Conselheiro e Bom Jesus Conselheiro (AQUINO, et al, 2000).
O primeiro opositor a Antonio Conselheiro foi a igreja, discordavam das pregações feitas por ele, nas quais prometia vida melhor neste mundo. Alguns membros da diocese da Bahia solicitou a intervenção do governo no sentido de fazer com que Antonio Conselheiro parasse de efetuar pregações. A cada dia novos seguidores apareciam abandonando o trabalho nas propriedades rurais, os fazendeiros se sentiam então prejudicados pelo movimento e também se opunham ao beato. Com a abolição dos escravos muitos se juntaram ao movimento, desfalcando ainda mais as fazendas, todos eram simpatizantes das pregações do beato que condenava os poderosos pelo egoísmo e a miséria do povo.

A pressão contra Antonio Conselheiro continuou após a proclamação da republica, consideravam seu discurso anti-republicano, os jornais veiculavam suas pregações. Na verdade esta informação não era bem uma verdade porque a monarquia nada havia feito a favor de canudos, enquanto que a república legitimou o casamento civil, separou a igreja do estado pondo fim a legitimidade divina de governar o Brasil. A verdade era outra, pretendia-se desmantelar canudos e era necessária uma justificativa.



Em junho de 1893 Antonio Conselheiro chegou a canudos e fundou Belo Monte, a comunidade cresceu rápido e transformou-se em uma das cidades mais populosas da Bahia na época. Foram criadas escolas gratuitas, uma cadeia , proibição de bebida alcoólica e inexistência de prostíbulos e bares (AQUINO, et al, 2000).
Conforme AQUINO et al (2000) em 1896 ocorreu um pretexto para que as autoridades militares invadissem canudos. Antonio Conselheiro havia comprado madeira para construção da Igreja, o vendedor alegou não ter pessoal suficiente para efetuar a entrega, diante do fato Antonio Conselheiro se propôs a ir buscar, tal noticia se espalhou pela cidade que canudos iria invadir a cidade com seus seguidores.

Quatro expedições foram realizadas em combate a canudos. Uma primeira que terminou após cinco horas de combate. Em 1897 a segunda expedição com 600 soldados e dois canhões também fracassou diante das emboscadas dos sertanejos. Uma terceira tentativa foi feita, composta por 1200 soldados, quatros canhões e uma companhia de cavalaria, fracassando perseguidos pelos sertanejos. Em 1897, a quarta expedição foi integrada por tropas de onze Estados da Federação, cabendo o comando ao general Artur Oscar. Chegou a reunir quase 6.000 homens, a ordem era riscar Canudos do mapa (AQUINO et al, 2000).


Canudos demorou a se render, mais três mil homens foram convocados para reforço, e mesmo após a morte de Antônio Conselheiro, a comunidade continuava a resistir sob a fome e a poeira. Em 5 de outubro de 1897 Canudos foi totalmente tomada.

O cadáver de Antônio Conselheiro foi desenterrado e, após cortarem-lhe a cabeça, enviaram-na para Salvador. As ruínas das casas de Canudos foram queimadas. Mas a campanha de Canudos trouxe o enfraquecimento do florianismo e certo descrédito do Exército. A revelação das atrocidades cometidas contra os conselheiristas, bem como os atos de violência ocorridos nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, em nada melhoraram a imagem do Exército (AQUINO et al, 2000).
Campos Sales (1898-1902): Também representante da oligarquia cafeeira, Campos Sales enfrentou sérias crises econômicas deixadas pela política de encilhamento. No governo anterior houve certa pacificação dos movimentos sociais, Campos Sales não teve muitos problemas nesse sentido. O período de 1898 a 1902 solidificou a hegemonia cafeeira paulista através do Partido Republicano Paulista, o PRP. O período foi marcado pela “política dos governadores”, que consistia na adaptação do sistema republicano aos interesses dos fazendeiros produtores de café. O federalismo propiciou o domínio dos grandes estados sobre os demais, ou seja, os estados mais ricos dominados pelos cafeicultores como São Paulo e Minas Gerais.

Havia então um sério problema: os outros estados do país ficaram isolados politicamente. Esta conjuntura não era favorável, pois a “guerra” geográfica representava um entrave no crescimento nacional. Os poderes estaduais e federais estavam sempre em conflito. Para resolver tal conflito o Presidente da República chamou todos os governadores estaduais e fez a seguinte proposta: daria todo o apoio as oligarquias estaduais que estivessem no poder, em troca todas deveriam apoiá-lo garantindo a manutenção da sua hegemonia no poder. Isto chamava-se “política dos governadores”. Este acordo em nada favorecia, como sempre, a massa trabalhadora, os pequenos comerciantes e até mesmo parte de agricultores com menor poder aquisitivo. Literalmente o poder foi monopolizado nas mãos de grupos oligárquicos regionais, estaduais e federais.

Para a instalação e manutenção da política dos governadores eram necessários alguns instrumentos: a instituição da comissão verificadora e o Coronelismo. A comissão verificadora era composta por membros do poder legislativo, estes davam o caráter legal de uma eleição, reconheciam oficialmente um resultado eleitoral. O Presidente da República tinha influência sobre esta comissão, os “resultados eleitorais” eram moldados à conveniência da presidência. Por outro lado, regionalmente, imperava o coronelismo. Os chamados “coronéis” eram grandes proprietários de terras, cercados por bandos de jagunços armados, impunham suas vontades pela força. Toda a população subordinada ao coronel obedecia, sem discussão, as ordens dadas pelo chefe político da região. Com o tempo estes laços foram se quebrando, mas por longas datas o voto foi controlado pela violência na maioria das regiões do Brasil.

A primeira república (1889-1930) foi caracterizada por uma constituição liberal que garantia a liberdade política, econômica e religiosa, neste período o poder político foi monopolizado pelos grandes proprietários de terras, alguns monarquistas aderiram ao novo regime. Economicamente o estado protegia o setor exportador controlando os preços do café. São Paulo e Minas Gerais controlavam o poder político e se alternavam, esporadicamente, esta alternância ficou conhecida como “política do café com leite.

A população continuava a ser excluída das decisões, resumindo-se a depositar o voto nas urnas em épocas de eleição. A indústria brasileira, ainda incipiente, era considerada por muitos um empreendimento desnecessário ao país, outro fator era o aparecimento do operariado considerado perigoso.

Uma alta divida externa foi herdada pelos republicanos, e o pagamento foi realizado mediante aumento de impostos, interrupção de obras públicas e não incentivo a industria nacional, o que caracterizou uma política recessiva e impopular. Para a manutenção desta ordem política foi feito o pacto da “política dos governadores” onde estes apoiariam o poder central garantindo a hegemonia do poder, pacto cumprido as espessas de muita violência e submissão de trabalhadores através do coronelismo.

A Política dos Governadores consolidou o poder das famílias ricas dos Estados formando as oligarquias. Em Minas as principais famílias eram representadas pelos: Cesário Alvim, Bias Fortes, Bueno Brandão, Afonso Pena, Francisco Sales, Artur Bernardes entre outras. Para integrar a oligarquia mineira contavam "os laços de família, educação e dinheiro" estando aberta aos indivíduos talentosos que formavam-se principalmente em Direito nas Universidades do Rio de Janeiro e São Paulo. De volta ao Estado, ele tornava-se promotor público, juiz, casava-se com moça da elite da cidade, podia tornar-se político elegendo-se vereador, prefeito e deputado (PEDRO, 2006).
O Coronelismo
O termo coronelismo foi criado para expressar a conduta de proprietários rurais em suas relações sociais e políticas. Os grandes proprietários rurais exerciam poder absoluto sobre as pessoas que viviam em seu entorno, seus trabalhadores ou agregados que dependiam da terra para sobrevivência. As raízes patriarcais desta relação estão no sistema arcaico da estrutura agrária pela qual o Brasil foi submetido.

A palavra coronel está relacionada ao militarismo, remonta a criação da guarda nacional em 1831. Os proprietários de terras recebiam a denominação de coronel, com este título poderiam impor a ordem sobre o povo e os escravos. Em troca desta “concessão de título” impunha, pela força, que seus trabalhadores votassem naquele que ele escolhia. O “coronel”, dono de terras, expulsava de sua fazenda, perseguia e até matava aqueles que lhe mostravam contrários. Esta forma de controle permeou várias décadas da política rural brasileira.

Nos núcleos urbanos as lideranças personificaram este mandonismo, tornando a questão do voto cativo uma prática legal e comum. A República favoreceu o poder das localidades dando real sustentação as relações de compadrio. No meio rural formava-se vários núcleos de “eleitores de currais” denominação dada a conduta política desempenhada pelos senhores de terras.

Encontrar coronéis de oposição era um evento raro, pois opor-se ao poder central significava não ter nenhum apoio político para a região, nem financeiro e nem do fisco.

Com o tempo a relação de coronelismo perdeu fôlego e entrou em declínio. O crescimento da população rural e urbana, as migrações, abertura de estradas e surgimento de meios de comunicação tornaram o eleitor menos submisso e mais sabedor de seus desejos políticos. Foram surgindo novas lideranças que tinham facilidade em entrar em contato com o povo, minando o laço de compromisso com os coronéis. O “voto de cabresto” foi sendo extinto juntamente com o poder político delegado aos coronéis. Esta relação esteve presente na política brasileira até finais do século XX, os políticos mais velhos eram sempre referenciados como “coronéis” por terem posturas rígidas e controladoras.

Resumindo: o poder central estabeleceu a política dos governadores que tinha como instrumentos o controle do legislativo e o controle na base através dos fazendeiros que dominavam a política regional (coronelismo).

De 1902 a 1906 Rodrigues Alves pautou pela modernização e urbanização da capital, Rio de Janeiro. Em seu governo ocorreu a Revolta da Vacina. Oswaldo Cruz coordenou a campanha de vacinação obrigatória contra a varíola, a população se revoltou sob o comando de operários, anarquistas e socialistas. Os florianistas interessados na queda de Rodrigues Alves apoiaram o movimento. Após vários conflitos o governo regulamentou a vacinação facultativa.

Outro desafio enfrentado por Rodrigues Alves foi a política de valorização do café. O produto desde 1895 vinha sofrendo queda de preços devido ao aumento da oferta e a diminuição das exportações.

Em 1906 firmou-se o convênio de Taubaté, com o objetivo de efetuar proteção ao café, este estabelecia um preço mínimo por saca, o governo compraria o excedente, que haveria uma estabilização do câmbio. Rodrigues Alves, já no seu último ano de governo, não concordou com o acordo, no entanto, o Congresso Nacional aprovou e este foi cumprido pelo próximo presidente.

Ainda no governo de Rodrigues Alves o território do Acre foi incorporado ao Brasil. O Acre era então um território pertencente à Bolívia. O ministro das relações exteriores, Barão do Rio Branco negociou a indenização em dois milhões de libras para a Bolívia, articulou a construção da Estrada de Ferro Madeira –mamoré.


O avanço da Indústria

A industrialização do Brasil inicia-se com a política de valorização do café. Após o Convênio de Taubaté os cafeicultores conseguem obter mais lucros devido à proteção sobre a produção do café. A partir de 1910, com medo de nova crise no setor cafeeiro, os produtores começaram a investir seus lucros na indústria. A moeda brasileira, em constante desvalorização devido à emissão exagerada favorecia os exportadores, pois estes recebiam moeda estrangeira, muito mais valorizada. Importar era muito caro, nosso dinheiro desvalorizado não motivava a importação, produzir internamente tornou-se conveniente. A industrialização então estava favorecida tanto pelos lucros dos cafeicultores quanto pela necessidade de produção de bens nacionais. A primeira guerra mundial impulsionou a indústria brasileira, pois muitos paises deixaram de exportar por estarem envolvidos no conflito.

Muitas empresas estrangeiras vieram para o Brasil, principalmente empresas norte-americanas como General Motors, Ford, Armour Swift etc. Dessa maneira a indústria foi se instalado em território brasileiro mas com tecnologias desenvolvidas no exterior, e, principalmente pautada em capitais estrangeiros.

De 1906 a 1918 o Brasil foi governado por Afonso Pena, Nilo Peçanha, Hermes da Fonseca e Venceslau Brás. Afonso Pena (1906-1909) priorizou a política de valorização do Café, incentivou a imigração utilizando o lema “Governar é povoar”. Não teve um governo expressivo, pautou-se na defesa da política das oligarquias. Nilo Peçanha (1909-1910) completou o mandato de Afonso Pena (morreu antes de terminar o mandato), o ponto mais expressivo de seu governo foi a criação do Serviço de Proteção ao Índio. Hermes da Fonseca (1910-1914) passou por períodos difíceis, era representante da situação, seguia os princípios políticos do governo anterior. Seu governo ficou marcado pela Revolta da Chibata (os marinheiros se revoltam devido aos maus tratos), Revolta dos fuzileiros navais, Revolta do Juazeiro (liderada por Padre Cícero) e Guerra do Contestado.

A região chamada de “contestado” ficava entre os atuais estados de Santa Catarina e Paraná, era um território disputado por ambos porque ainda não havia um limite estabelecido, o conflito ocorreu entre 1912-1916.

Conforme relatado por CEZINI (2011) o conflito de contestado deve ser visto além das motivações religiosas ou messiânicas como tem relatado a história ao longo dos tempos, compreendendo que para análise da Guerra do Contestado é necessário considerar todos os elementos presentes naquele contexto empregando para seu entendimento os pressupostos marxistas de luta pela vida e pela sobrevivência daquela população.

As relações econômica e sociais estabelecidas no Brasil desde a época imperial eram de submissão de trabalhadores (antes escravos) aos seus senhores, grandes proprietários de terras então denominados coronéis, pessoa central de núcleos de produção rural, respeitado pelo seu poderio econômico e de mando. Com o nascimento da indústria no país estas relações começam a ser quebradas, as idéias vão se transformando e mesmo nos núcleos mais distantes começam a sentir as mudanças nas relações sociais.

Quanto mais afilhados e compadres o coronel tinha, mais era seu poder de dominação: o beija-mão e o pedido de benção ao padrinho eram ensinados desde cedo às crianças para saber respeitar a classe dominante (CEZINI, 2011).

Santa Catarina contestou por diversas vezes as ações dos paranaenses junto ao governo Imperial, havia uma disputa política entre as duas províncias, esta repetição de embates, sempre contestando a ação da outra província acabou por dar nome a província do contestado.

A disputa pela região foi aguçada com a promulgação da Constituição Republicana de 1891, que assegurava aos estados o direito de decretar impostos sobre exportações de mercadorias de sua propriedade e sobre indústrias e profissões. Procurando aumentar sua arrecadação, tanto um quanto outro estado lançava impostos sobre uma mesma propriedade entendendo que esta fazia parte de seu território. Em 1904 o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa a Santa Catarina. O estado do Paraná interpôs recurso. Cinco anos mais tarde, em 1909, o Supremo Tribunal Federal pronunciou-se novamente favorável a Santa Catarina, repetindo este posicionamento em 1910 e rejeitando os embargos propostos por Rui Barbosa que advogava pelo Paraná. Os paranaenses que viviam na região, inconformados com a perda da causa, decidiram formar um estado federado independente denominado Missões. Com a capital em União da Vitória esse estado teria como limites os Rios Iguaçu e Negro ao Norte, Peperi-Guaçu e Santo Antonio a Oeste, ao Sul o Rio Uruguai e a Leste a Serra do Mar. A implantação desse projeto foi desmobilizada por tropas federais. A questão de limites entre os estados arrastou-se até 20 de outubro de 1916 quando, mediados pelo presidente da República Wenceslau Braz, os governadores do Paraná Afonso Camargo e de Santa Catarina Felipe Schimidt assinaram um acordo estabelecendo os limites entre os dois estados que vigora até os dias atuais (CEZINI, 2011)



A Primeira Guerra Mundial
1914-1918: Governo de Venceslau Brás, legítimo representante da política dos governadores, seu governo coincidiu com o período da primeira guerra mundial. O Brasil, como se sabe, tinha fortes vínculos com a Inglaterra, e com outros paises como a França e os EUA.

A primeira guerra mundial foi um conflito mundial ocorrido entre 1914 a 1918. Ocorreu entre a Tríplice Entente (Inglaterra, França, Império russo e EUA) contra a Tríplice Aliança (Alemanha, império Austro-húngaro e Império Turco-otomano). O conflito mudou a forma do mapa geo-político da Europa e do médio oriente.

No inicio da guerra a Itália era aliada da Tríplice Aliança, mas posteriormente se retirou declarando-se neutra, o conflito iniciou-se na Áustria. A primeira guerra mundial deixou um saldo de mortos de 19 milhões. A antiga ordem mundial criada após a revolução francesa foi totalmente alterada com a primeira guerra mundial que destruiu de vez o absolutismo monárquico europeu. Três impérios europeus foram destruídos e desmembrados: Alemão, o Austro-Húngaro e o Russo. Houve no pós guerra um redesenho do mapa mundial, onde impérios caíram e novas nações surgiram.

O inicio da guerra é atribuído a morte do arquiduque Francisco Ferdinando, mas historiadores tem atribuído a outros eventos ainda hoje não completamente esclarecidos. Alguns fatores seriam: a crescente indústria de armas, o militarismo, a idéia de domínio dos mares para ser absoluto, disputa por territórios, a disputa comercial internacional personalizada no capitalismo imperialista etc.

O Brasil entrou na guerra em 1917, a participação foi pequena resumindo-se a algumas ações de pilotos da força aérea e apoio médico, além de fornecimento de alimentos e matérias primas, a Marinha realizava a patrulha do litoral para evitar a ação de submarinos inimigos, principalmente alemães.
O Brasil na Primeira Guerra mundial

Como já foi mencionado no inicio da guerra formaram-se dois blocos oponentes: de um lado a Alemanha e a Áustria; de outro a Rússia, a França, a Inglaterra, a Bélgica, a Sérvia, o Montenegro e o Japão. O conflito militar de deu em terra, mar e ar e se estendeu pela França, Europa oriental, Ásia menor e extremo oriente e em 1917 o EUA, até aquele momento nação neutra, entrou na guerra.

O Brasil, também nação neutra no conflito, só teve sua participação já no final da guerra. Em 1907 Ruy Barbosa foi o representante brasileiro na Convenção de Haia, nesta convenção o Brasil acordou sua posição de neutralidade em relação a conflitos internacionais, esta posição foi respeitada durante o conflito, só foi quebrada quando os alemães fizeram uma proclamação restringindo a liberdade marítima de paises neutros provocando a decisão do Brasil a dar apoio aos aliados.

Wencesclau Braz não aceitou as intervenções alemãs, com violações dos portos nacionais disfarçados de navios mercantes e tentativas de mobilização das colônias de origem germânica aqui radicadas.

A motivação para declaração de guerra por parte do Brasil foi o afundamento de um navio brasileiro que navegava no canal da mancha, nas proximidades da França, mesmo ostentando a bandeira brasileira, não foi poupado. As relações diplomáticas entre Brasil e Alemanha foram cortadas, porém mantida a neutralidade.

Decidiu-se mediante votação que o Brasil declararia guerra a Alemanha quando outros navios mercantes nacionais foram torpedeados, como o Tijuca, o Macau, o Acari, o Guaíba e o Tupi, o que levou o Congresso, de pleno acordo com o Executivo, a reconhecer pelo Decreto nº 3.361, de 26 de outubro de 1917, o estado de guerra entre a Alemanha e o Brasil.

  Após votação e autorização do congresso nacional os portos brasileiros foram abertos aos navios de guerra dos aliados, o Brasil tomou como tarefa a patrulha do atlântico sul, a colaboração foi limitada face às necessidades da guerra e as condições brasileiras.

Em maio de 1918 o Brasil enviou a mares europeus navios brasileiros, até aquele momento as ações do país se restringiam a patrulhar a orla marítima do atlântico. Em agosto tropas brasileiras aportaram em Freetown (serra Leoa – África) onde ficaram por 14 dias e começaram a adoecer vítimas da gripe espanhola. Além da participação da Marinha havia também aviadores navais que foram para a Inglaterra para efetuar treinamento intensivo para executar missões de combate. Mobilizou-se também um grupamento médico com a finalidade de instalar um hospital para tratamento de feridos de guerra na França.

Embora modesto em quantidade, o nosso concurso à causa aliada foi bastante significativo. Externamente o Brasil, pela primeira vez em sua história, lutou ao lado das nações mais poderosas do mundo, revelando a capacidade de atuar em pé de igualdade com elas. Internamente houve uma melhoria na imagem das Forças Armadas e ampliou-se a idéia de nação armada e de cidadão-soldado, no sentido da proclamação que Olavo Bilac fizera em 1915. "A caserna é uma escola. Sendo soldados, sereis cidadãos." (O Exército na História do Brasil. Rio de Janeiro: BiBliEx; Salvador: Odebrecht, 1998. 3 vol. Disponível em www.aman.ensino.eb.br/. Acesso em 20/02/2006)

Além da participação bélica o Brasil forneceu alimentos e matérias-primas às nações da Tríplice Entente (Inglaterra, Franca e Rússia). As importações diminuíram e as exportações cresceram favorecendo a balança comercial. Houve necessidade de substituição das importações levando a indústria brasileira a se mobilizar para suprir a escassez de produtos importados. A indústria cresceu significativamente no período da guerra, a classe operária, por conseqüência também aumentou. Surgiu então novos problemas relacionados a uma política salarial baixa levando os operários aos movimentos grevistas.

O operariado era composto por indivíduos de várias nacionalidades como italianos, espanhóis, portugueses e vários outros, juntos promoveram greves operárias reivindicando melhores salários, melhores condições de trabalho, assistência social e médica, proteção ao trabalho do menor e da mulher. Enfim, desejavam melhores condições de trabalho, inclusive regulamentação do número de horas trabalhadas. Segundo SILVA et al (1985) entre 1917 e 1921 ocorreram 196 greves no estado de São Paulo e 84 no Rio de Janeiro.
1917 a 1922 – Eclodem os movimentos artísticos

Já estava instalada uma crise econômica, o sistema capitalista sofria mudanças que não eram muito analisadas pelos brasileiros, a quebra da bolsa de Nova York em 1929 dará consciência a gravidade.

Enquanto o operariado gritava por justiça trabalhista, as artes iam muito bem. As transformações culturais Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia e Mário de Andrade movimentavam a sociedade paulistana com pintura, poesias e muitas manifestações consideradas anti-acadêmicas. As artes refletiam o novo, contradiziam a oligarquia governante. As opiniões se dividiam com as críticas dos poetas. Monteiro Lobato publicou no jornal O Estado de São Paulo um artigo com o título de “Paranóia ou Mistificação?” , questionando a “arte de Anita Malfatti” , em alguns momentos do artigo demonstra suas tendências conservadoras. Veja parte do texto:

“Estas considerações são provocadas pela exposição da Sr.Malfatti, onde se notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso & Cia. Essa artista possui um talento vigoroso, fora do comum. Poucas vezes, através de uma obra torcida em má direção, se notam tantas e tão preciosas qualidades latentes. Percebe-se, de qualquer daqueles quadrinhos, como a sua autora é independente, como é original, como é inventiva, em que alto grau possui umas tantas qualidades inatas, das mais fecundas na construção duma sólida individualidade artística. Entretanto, seduzida pelas teorias do que ela chama arte moderna, penetrou nos domínios de um impressionismo discutibilíssimo, e pôs todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura. Sejamos sinceros: futurismo, cubismo, impressionismo e tutti quanti não passam de outros ramos da arte caricatural.( www.pitoresco.com.br/brasil/anita/lobato.htm- acesso em 23/02/2006).




Quadros pintados por Anita Malfatti (www.pinturabrasileira.com/artistas- acesso em 23/02/2006)


Em 1922 aconteceu a Semana de Arte Moderna, movimento literário de grande expressividade, nasceu o movimento Modernista. O movimento, na verdade, tinha outros significados. Procurava-se romper com os antigos padrões, questionar a ordem política existente.

A união de artistas e literários de São Paulo e Rio de Janeiro criou um clima de mudança que certamente não iria ser esquecido. Com o fim da primeira guerra mundial já haviam se estabelecido novos rumos para o mundo. O Brasil sentiu influências das mudanças filosóficas mundiais.


O Tenentismo

A crise política, após a primeira guerra mundial aconteceu por dois motivos básicos: descontentamento do exército com o encaminhamento político e insatisfação da classe média urbana, categoria sempre excluída do processo político. Os militares estavam relegados a segundo plano desde o governo de Floriano, todos os que passaram pela presidência após o período de Floriano não permitiram que os militares tivessem voz ativa. A partir de 1909 a cúpula militar se alia à oligarquia gaúcha em oposição a Minas e São Paulo. A eleição de Nilo Peçanha foi marcada por grande movimentação política. A política do Café-com-leite sofreu sérios abalos.



A crise dos anos 20
O Brasil tinha sua economia baseada na exportação do café e com a eclosão da guerra o mercado externo sofreu abalos que prejudicaram os negócios relativos à exportação do produto, o preço caiu e só deve nova alta após o termino da guerra. De 1917 a 1920 o café teve leve alta, a economia retomou o crescimento após 1918 com o aquecimento do mercado internacional.

Com o fim da guerra surgiram grandes organizações financeiras internacionais que passaram a comercializar praticamente sem concorrentes, cada qual em seu setor de atuação. O café do Brasil ficou sob o domínio de um grupo inglês chamado Lazard Brothers Co.Ltda, nesta época criou-se o Instituto do café, órgão regulador da comercialização do produto com o mercado externo. Como o Brasil fornecia cerca de 60% do café comercializado no mercado internacional passou a efetuar sério controle de estoques através do Instituto do café.

A valorização constante e artificial dada ao produto café incentivava a adesão de mais produtores, aumentando cada dia mais a oferta do produto, o que o Brasil não contava era com a crise financeira de 1929 que abalaria o mundo.

Para compreender a crise de 1920 é necessário entender o contexto econômico do Brasil na época, o país era essencialmente agrário exportador até o fim do século XIX, a produção do país se distribuía conforme tabela abaixo:




Região amazônica

Produção e exportação de borracha

Região Norte e Nordeste

Produção de açúcar, algodão, fumo e cacau

Região sul e sudeste (SP, MG, ES,RJ)

Produção de café

Região sul (RS)

Produção de couro, pele, mate, charque

A indústria já vinha se instalando no Brasil desde 1880, caminhava paralelamente a produção agrícola exportadora, na verdade surgiu em função de capitais acumulados a partir da agroexportação e também de capitais externos. Com a crise de 1929 os produtores rurais perderam sua hegemonia e a indústria passou a fazer parte significativa da economia do país.

A transição da mão-de-obra escrava para a livre ocorreu com a implantação da economia cafeeira, basicamente no estado de São Paulo. Os grandes cafeicultores estavam no oeste paulista, fato que favoreceu o nascimento e fortalecimento da indústria justamente nesta região do país. A indústria, portanto, não se desenvolveu por toda parte ficando restrita na região sudeste. No inicio o café fazia parte da indústria e esta, por sua vez, fazia parte do café, a economia incluía estes dois setores. Na realidade o café era produzido nas grandes fazendas e ia para a indústria para passar pelo beneficiamento, neste caminho haviam estradas de ferro para o transporte, bancos, escritórios de exportação, dentre outros serviços que davam suporte à produção e venda do café no mercado externo.

Outros produtos eram comercializados pelo Brasil, com menor importância econômica, no entanto utilizavam toda a estrutura de importação e exportação montada para o sistema cafeeiro. A industrialização sofria as altas e baixas que o café sofria ao longo dos anos.

A política de proteção ao café acabava por estimular a industrialização, pois quando o governo aumentava tarifas de alfândega ou quando desestimulava as importações a indústria se beneficiava.

Ainda hoje, o Brasil tem traços do modelo econômico adotado pela colônia, cabia ao colonizado fornecer produtos tropicais e importar os manufaturados, esta tradição marcou todo o período colonial e a fase cafeeira. Diz-se na atualidade que o Brasil tem vocação agroexportadora e esta prática é responsável por uma grande fatia do PIB. Esta “vocação” acabou por inibir o desenvolvimento da indústria nacional e o interesse pela busca de tecnologia nacional, fazendo-nos refém da tecnologia criada por outras nações.

A indústria nacional se desenvolveu gravitando em torno do café, iniciou-se por volta de 1870 quando começaram a surgir pequenos estabelecimentos artesanais, buscavam fornecer alguns produtos que só os importadores forneciam.

Dessa situação, saíram duas soluções: a primeira foi a dos próprios importadores montando indústrias, e a segunda, a dos industriais criando a sua rede comercial, dando origem aos importadores-industriais e industriais-comerciantes, respectivamente.

A primeira guerra alterou os rumos da indústria, houve redução de investimentos na atividade, durante o período de guerra houve falta de matéria prima, máquinas e outros equipamentos que eram importados. Com a guerra o governo percebeu que era necessário ter uma indústria mais vigorosa e muda a atitude em relação à atividade.

 

Arthur Bernardes – (1922-1926)



Neste período a crise econômica já se instalara, conflitos políticos e revoltas armadas marcaram o governo de Arthur Bernardes. Foi um governo em permanente “estado de sítio”, ou seja, com o executivo absoluto em poderes em detrimento dos direitos e liberdades individuais.

O “estado de sítio” é um instrumento que se caracteriza por suspensão temporária dos direitos e garantias constitucionais dos cidadãos e submissão dos poderes legislativo e judiciário ao poder executivo. O executivo, para a defesa da ordem pública, assume uma postura não democrática. Esta é uma medida provisória, não pode ser utilizada por mais de 30 dias, somente em períodos de guerra pode ser prorrogada. O “estado de sítio” é instituído com o consenso do congresso nacional.


Artur Bernardes usou os poderes de que dispunha para neutralizar seus opositores por meio de leis que proibiam a liberdade de imprensa e os direitos individuais, o governo procurou desmantelar as organizações políticas estaduais que eram adversárias, as elites agrárias menos influentes ficaram descontentes, aquelas que não pertenciam ao eixo Minas gerais e São Paulo. As oligarquias do Rio grande do sul, descontentes, se afastaram do grupo cafeicultor, se reorganizaram politicamente e criaram uma política ferrenha contra o governo federal.


As elites descontentes procuraram se aproximar dos outros setores também discordantes do governo, como o exército (tenentismo). Em julho de 1922 ocorreu a revolta do forte de Copacabana, movimento de jovens oficiais do exército demonstrando a revolta das forças armadas. Em 1924 houve outro levante tenentista em São Paulo onde inúmeras unidades militares se rebelaram. As exigências eram a renúncia de Arthur Bernardes, a formação de um governo provisório, a eleição de uma assembléia constituinte e a adoção do voto secreto.

A coluna Prestes

O governo convocou tropas militares fiéis para combater as revoltas, acuados foram expulsos para o interior onde se aliaram a tropas do Rio grande do Sul chefiados por Luís Carlos Prestes e general Miguel Costa. A Coluna prestes era composta por cerca de 1500 homens armados que percorreram o território brasileiro entre 1925 a 1927 incentivando a população a combater as oligarquias locais. Foram combatidos diversas vezes por jagunços armados e por tropas governamentais, só se desfazendo em 1927 e os lideres se refugiaram na Bolívia.

Faltava ao movimento tenentista uma ideologia política concreta, de fato não tinham um projeto político consistente que pudesse substituir a ordem governamental, alguns defendiam princípios reformistas que agradavam as camadas médias urbanas, aspiravam acabar com a corrupção do processo eleitoral e as injustiças sociais. O movimento não buscou se conectar com massas urbanas descontentes como, por exemplo, o operariado, a falta de bases e de uma idéia real de governo levou o movimento ao esfacelamento. Como militares, os tenentes se consideravam guardiões da pureza das instituições republicanas e responsáveis pela "salvação nacional". Defendiam esses ideais em nome de um povo inerte e incapaz, que carecia de lideranças políticas que estivessem aptas para governá-lo.

Luís Carlos prestes defendia o radicalismo, desejava acabar com a república oligárquica enquanto que outra corrente do movimento defendia reformas políticas liberais de forma moderada associada a grupos menos radicais do governo.

Foram os militares, notadamente os da baixa oficialidade que colocaram na ordem do dia os protestos mais veementes contra o regime representado pela República Velha. Vale lembrar, porém, que embora tais protestos assumissem em sua maioria, um caráter radical, este em realidade, se concretizava apenas na expressão do enfrentamento armado. Isto é, suas demandas em quase nada, propunham reformas estruturais. Em geral se resumiam em uma ingênua tentativa de “qualificar” e moralizar o sistema vigente, com medidas que visavam atenuar as descaradas fraudes eleitorais tendo no voto secreto uma das suas principais bandeiras. O movimento Tenentista foi, sem dúvida, o principal e mais eficiente contestador da ordem imposta pelos oligarcas da República Velha (SOUZA, 2010)
Washington Luís – 1926 – 1930

Mesmo com todos os conflitos Arthur Bernardes conseguiu terminar seu mandato e eleger um substituto tirado do núcleo “café com leite”. Washington Luís continuou a política do governo anterior.

A prioridade deste governo foi construir estradas e efetuar reformas financeiras, outra preocupação era baixar a inflação. A rodovia Rio-São Paulo foi construída em seu governo.

O café entrou em crise a partir de 1925, a produção nacional superava e muito o consumo mundial, sobrava café no mercado, lembrando que governos anteriores fizeram altos empréstimos para bancar o preço do café, divida que deveria ser paga nos governos posteriores. Outros produtos como o cacau e a borracha também estavam em crise.

As oligarquias, diante das crises, não eram mais hegemônicas, as idéias divergiam, havia um anseio por mudanças. Para a sucessão de Washington Luís se apresentaram três candidatos: Getúlio Vargas, Antonio Carlos de Andrada e Júlio Prestes. Júlio Prestes era governador de São Paulo e de acordo com a política do “café com leite” era a vez de eleição de um mineiro. Getulio Vargas era governador do Rio grande do sul, nunca haviam elegido um sulista, não era tradição. Antonio Carlos de Andrada, governador de Minas Gerais estava inserido na política vigente, grande candidato de acordo com a tradição.

Em São Paulo havia um grupo de oligarcas dissidentes que fundaram o Partido Democrático, tendiam a apoiar Getulio Vargas formando um bloco de oposição.


A crise de 1929 – A crise de superprodução.

O EUA foi grande fornecedor de mercadorias para os paises europeus em guerra, após o termino da guerra continuou a exportar para os paises em reconstrução. Passado alguns anos a demanda por produtos diminuiu e formaram-se grandes estoques. A maioria dos industriais e da população tinha investimentos na bolsa, com a queda das exportações as ações das empresas caíram e o mercado de ações entrou em colapso. Ricos tornaram pobres do dia para a noite e o desemprego assolou o país.

Como o EUA era o maior importador de café brasileiro a crise chegou ao Brasil. A crise alastrou-se para todos os países com os quais o EUA tinham relações comerciais gerando conseqüências catastróficas. O Brasil perdeu o seu maior mercado consumidor: Os créditos internacionais foram suspensos. A política de valorização do café entrou em colapso, afundando o restante da economia nacional.

As eleições foram realizadas no Brasil elegendo Júlio Prestes para presidente e Vital Soares para vice, mas não tomaram posse, vinte e dois dias antes de findar o mandato instalou-se o Golpe de 30 liderado por Getúlio Vargas. A insatisfação havia chegado ao seu nível máximo pondo fim aos anos de mandonismo da República das oligarquias.

A crise política das oligarquias, mais precisamente a cisão entre os políticos paulistas com os mineiros, favoreceu o fortalecimento do grupo contrário.


RESUMO DA REPÚBLICA DAS OLIGARQUIAS
CRONOLOGIA – 1894 A 1930

Economia: baseava-se no café, extrativismo vegetal, cacau e borracha
Política:

A republica velha (1894 a 1930) foi marcada pela chamada política do café-com-leite, são Paulo produzia café e tinha o partido republicano paulista (PRP), era o estado mais rico com a melhor economia do país. Minas Gerais era representada pelo partido republicano mineiro (PRM), tinha o maior colégio eleitoral, produzia leite, tinha muitas fazendas conduzidas por “coronéis”.

No nível federal o PRP e o PRM se revezavam na ocupação da presidência, na esfera estadual ocorria a política dos governadores, aliados ao poder federal garantiam a eleição dos candidatos escolhidos, ocorria uma troca de favores políticos. A base dos votos estava na esfera dos coronéis que exigia daqueles que dependiam de seus favores que o voto fosse dado ao escolhido, formava-se na esfera municipal os “currais eleitorais” e o chamado “voto de cabresto”, situação mantida pela violência e morte conduzida por coronéis e capatazes. As três esferas de poder monopolizavam as eleições, direcionavam o voto e trocavam favores e regalias como pagamento.

Criou-se na época uma comissão de reconhecimento para impedir que eleitos não ligados ao acordo tomassem posse ou fizessem oposição ao governo, o eleito era impedido de tomar posse através de repressão, tinham que desistir ou eram mortos. O exército era chamado quando o problema era de difícil resolução.

O exército acompanhou todo esse processo de fraudes, mandonismo, corrupção política e injustiças, ao longo da república velha o exército se conscientiza das irregularidades políticas o que irá culminar com o golpe de 1930 que põe fim ao período de governos oligárquicos.
Economia:
-Política do encilhamento

-Substituição de importações: 1914 a 1920 – a indústria passa a produzir mais no período da primeira guerra, produtos que eram importados passam a ser produzidos pela indústria nacional, operariado passa a trabalhar de 12 a 18 horas por dia para aumentar a produção o que gera conflitos. Os imigrantes italianos trazem idéias anarquistas e formam sindicatos clandestinos, o operariado vivia quase um sistema de escravidão.


Movimentos sociais
Canudos-1893-1897

Revolta da Vacina-1906

Revolta da Chibata-1910

Revolta de Juazeiro do Norte-1911

Contestado-1914

Tenentismo-1922-1924



REFERÊNCIAS
AQUINO, R.S.L. et al – História das sociedades americanas. Edit.Record, 2000, 764 p
CEZINI, L.S. A Guerra do Contestado: para além do Messianismo. Disponível em http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/2285-8.pdf?PHPSESSID=2010012208174796. Acesso em 21/1/2011.
CARONE, E. República Velha, A. Editora Bertrand Brasil: São Paulo, 1ª Edição, 1981
FAUSTO, B. História do Brasil, Edusp, 1985
O Exército na História do Brasil. Rio de Janeiro: BiBliEx; Salvador: Odebrecht, 1998. 3 vol. Disponível em www.aman.ensino.eb.br/. Acesso em 20/02/2006
PEDRO, F.C. A republica velha 1889 a 1930 – Disponível em www.hystoria.hpg.ig.com.br/
SODRÉ, N.W. Formação Histórica do Brasil. Editora Civilização Brasileira, 9ª Edição, 1998.
SODRÉ, N W.; História da Burguesia Brasileira, 1964.
SOUZA, R.P. ; A coluna prestes: uma abordagem necessária. Revista Historiador, n.3, ano 03. Dezembro de 2010 Disponível em: http://www.historialivre.com/revistahistoriador
TELAROLLI, R. Eleições e fraudes eleitorais na República velha. São Paulo: Brasiliense, 1982.
www.pitoresco.com.br/brasil/anita/lobato.htm- acesso em 23/02/2006

www.pinturabrasileira.com/artistas- acesso em 23/02/2006)



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