Modulo 7- crises, embates ideológicos e mutaçÕes culturais na primeira metade do século XX



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História

Modulo 7- CRISES, EMBATES IDEOLÓGICOS E MUTAÇÕES CULTURAIS NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX

Unidade 1

As transformações das primeiras décadas do século XX

Débora Martinho


    1. Um novo equilíbrio global


Quatro anos de destruição e morte, tantos quanto durou a Primeira Guerra Mundial, terminaram em 11 de novembro de 1918.
A Conferência de Paz teve inicio em janeiro de 1919, em Paris.

Contou apenas com a presença das potências vencedoras tal como a França com Clemenceau; a Grã-Bretanha através de Lloyd George; e os Estados Unidos com Wilson.


A mensagem em 14 pontos serviu de base às negociações. Defendia a pratica de uma diplomacia transparente, a liberdade de navegação e de trocas, a redução dos armamentos, o respeito para com as nacionalidades e a criação de uma liga de nações.

Os acordos de paz surgiram a partir de junho de 1919.


1.1.1. A geografia política após a Primeira Guerra Mundial; A sociedade das Nações




  • O triunfo das nacionalidades e da democracia

Os tratados conduziram a uma profunda transformação do mapa da Europa e do Médio Oriente.

Na Europa, á Finlândia, á Estónia, á Letónia e á Lituânia, libertou do poder Russo, juntam-se a Polónia, a Checoslováquia, a Jugoslávia, e a Hungria, que se separa da Áustria.

Na Ásia, a Arábia nasce como um Estado independente, o Curdistão e a Arménia alcançam a autonomia, a Síria, o Líbano, a Mesopotâmia e a Palestina são transformados em mandatos da França e da Grã-Bretanha.

Outros estados ampliam as suas fronteiras. A França recupera a Alsácia-Lorena. A Bélgica ganha os cantões de Eupen e Malmédy. A Itália obtém as 'terras irredentas' do Tirol e da Ístria. A Dinamarca vê regressar a parte norte de Schleswig. A Roménia recebe a Transilvânia e a Bessorábia. A Grécia toma posse da Trácia.

Para os vencidos, as perdas foram pesadas e violentas. A Áustria ficou reduzida aos Alpes Orientais e a uma pequena parte da planície danubiana. A Bulgária viu-se privada do acesso ao Mediterrâneo. A nova Turquia reduziu-se a Constantinopla e á Anatólia Superior.

A grande perdedora foi a Alemanha, considerada como responsável pela guerra. Viu-se amputada de 1/7 do seu solo, de 1/10 da sua população e cortada em duas. Perdeu todas as suas colónias. a frota de guerra. Parte da frota mercante, as minas de carvão do Sarre e foi obrigada a reparar financeiramente os prejuízos causados pela guerra. O exército ficou reduzido; o serviço militar deixou de ser obrigatório; o Estado-Maior alemão foi extinto; a margem esquerda do Reno sofreu a ocupação aliada e a desmilitarização; desmilitarizada ficou também uma faixa de 50 km na margem direita do mesmo rio. Com os impérios autocráticos abatidos e a emancipação de muitas nações por elas subjugadas, acreditou-se no triunfo da justiça e da equidade e num futuro risonho para a Humanidade. Provam-no a extensão dos regimes republicanos e das democracias parlamentares a muitos dos novos países e, mesmo, aos vencidos da véspera, como a Alemanha. Provam-no, igualmente, os esforços diplomáticos que convergiram na criação de um organismo destinado a salvaguardar a paz e a segurança internacionais - a Sociedade das Nações.


  • A Sociedade das Nações: esperança e desencanto

A SDN (1919) empenhou-se na cooperação entre os povos, na promoção do desarmamento e na solução dos litígios pela via da arbitragem pacífica.

A sede fixou-se em Genebra, onde se reuniam regularmente os estados-membros em Assembleia Geral. Destes, apenas 9 formavam o Conselho, encarregado de gerir os conflitos que ameaçassem a paz. O secretariado preparava os trabalhos. O tribunal Internacional de Justiça, o Banco Internacional, a Organização Internacional do Trabalho, a Comissão Permanente dos Mandatos, dava cumprimento ao audacioso programa da SDN.

A SDN foi um instrumento de esperança. Desejava-se que a Grande Guerra tivesse sido a última, tal não veio a acontecer, tanto por incapacidade da SDN como da nova ordem internacional que se revelou ameaçada desde a própria Conferência de Paz.

Humilhados, os povos vencidos sempre rejeitaram os tratados em cuja elaboração não participaram. A Alemanha, acabou por permitir a ascensão do nazismo e, com ele, o segundo conflito mundial.

Nem todos os vencedores se mostravam satisfeitos com os tratados de paz. A regulamentação de fronteiras e a não resolução, de forma satisfatória, da questão das 'minorias nacionais' inquinaram, desde cedo, as relações internacionais. O principio das nacionalidades, tal como o século XIX o defendera, apenas foi parcialmente aplicado.

A questão das reparações de guerra tornou-se outro obstáculo a uma paz duradoura e ao 'espírito de Genebra'. A França fez profissão de fé do principio de que a ' Alemanha pagará'. Os E.U.A contrariaram as pretensões hegemónicas dos aliados da véspera. Os E.U.A desistiram de participar na SDN. Cada vez mais, esta se tornou um clube restrito de países vencedores. Assim, a SDN viu-se impossibilitada de desempenhar o seu papel de organizadora da paz.

1.1.2 A difícil recuperação económica da Europa e a decadência em relação aos Estados Unidos




  • O declínio da Europa

A Primeira Guerra Mundial deixou uma Europa arruinada, no plano humano e material.

Durante a guerra, a Europa tornou-se extremamente dependente dos E.U.A, seu principal fornecedor. Acumulou dívidas. Acontece que, finalizado o conflito, as economias europeias registaram grandes e naturais dificuldades de reconversão.

A população ativa foi substancialmente ceifada; os campos, queimados, não produziam; as fábricas, as minas e frotas estavam destruídas e as finanças desorganizadas. Por isso, a Europa continuou compradora de bens e serviços americanos e viu o endividamento então agravar-se.

O recurso á emissão massiva de notas afigurou-se, aos dirigentes europeus, a melhor solução para multiplicar o meios de pagamento e fazer face ás dividas. Mas a circulação de uma maior quantidade de moeda fiduciária, sem um incremento correspondente na produção, provocou uma desvalorização monetária que se traduziu numa alta de preços interna. Em 1920, a Europa viu-se a braços com uma inflação galopante. A situação atingiu contornos gravíssimos entre os vencidos da guerra, obrigados ao pagamento de pesadas indemnizações. Em 1922, o Estado austríaco declarou falência e foi colocado sobre o controlo financeiro da SDN. Em 1923, na Alemanha desvalorizou-se o marco. Filas de espera criavam-se constantemente á porta dos bancos para obter novas notas dada a perda de valor das anteriores.



  • A ascensão dos Estados Unidos e a Recuperação Europeia

Os E.U.A apresentavam, em 1919, uma imagem de sucesso, patente numa prodigiosa capacidade de produção e na prosperidade da sua balança de pagamentos.

Mas a economia americana não ficou imune ás dificuldades da Europa. Em 1920-21, registou mesmo uma crise breve, mas violenta, relacionada com a dificuldade da procura externa. A produção industrial desceu, o índice de preços caiu e o desemprego cresceu. Um esforço na aplicação dos métodos de racionalização do trabalho, a fim de diminuir os custos de produção, permitiu que muitas empresas, embora com baixa de lucros, continuassem viáveis, A concentração capitalista de empresas tornou-se uma medida necessária para rentabilizar esforços e relançar a economia nos países industrializados.

Entretanto, a Europa procurava a estabilidade monetária.

Foi, porém, nos créditos americanos que repousou a recuperação económica europeia. Os E.U.A prestaram uma especial atenção ás finanças europeias. Empréstimos avultados seguiram, desde 1924, para a Europa, nomeadamente para a Alemanha, permitindo-lhe pagar as reparações devidas á França e á Inglaterra. Ficaram estes paises, em consequência, em condições de reembolsar os Estados Unidos das dívidas de guerra e dos empréstimos entretanto efetuados. A dependência da Europa em relação aos Estados Unidos estava
consagrada. Entre 1925 e 1929, finalmente, o mundo capitalista respirou fundo. Sob o lema de uma produção de massa para um consumo de massa, viveram-se os anos da prosperidade americana e os ' felizes anos 20' na Europa. A produção de petróleo e de eletricidade conheceu notáveis progressos, tal como a siderurgia e a química. Eletrodomésticos e automóveis satisfaziam a febre consumista de americanos e europeus.

1.2. A implantação do marxismo-leninismo na Rússia: a construção do modelo soviético


Em outubro de 1917, a Rússia viveu uma revolução que fez do pais o primeiro Estado Socialista do Mundo. Em Marx buscaram os revolucionários a inspiração. Em Lenine encontraram o líder incontestado e o grande responsável pela implementação dos princípios marxistas. As suas ideias e a sua ação deram corpo ao chamado marxismo-leninismo.

1.2.1. 1917: O ano das Revoluções





  • Uma situação explosiva

Em 1917,o Império Russo, governado autocraticamente pelo Czar Nicolau II, estava á beira do abismo.

Haviam inúmeras tensões sociais e políticas. Os camponeses chamavam por terras, concentradas nas mãos dos grandes senhores e latifundiários. O operariado exigia maiores salários e melhores condições de vida e de trabalho. A burguesia e a nobreza liberal desejavam a abertura politica e a modernização do pais. A contestação política era protagonista pelos socialistas-revolucionários, que reclamavam a partilha de terras; pelos sociais-democratas, divididos em bolcheviques e mecheviques; pelos constitucionais-democratas, adeptos do parlamentarismo á maneira ocidental. A participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial agravou as fraquezas do regime. Liberais e Socialistas denunciavam a incompetência do Czar e dos seus ministros. Na frente de batalha, os soldados desertavam ou chegavam ao ponto de se automutilarem para não combaterem.





  • Da Revolução de fevereiro á Revolução de outubro

Entre 22 e 28 de fevereiro, Petrogado, sucederam-se grandiosas manifestações de mulheres, acompanhadas de greves de operários da cidade. Reunidos numa assembleia popular denominada Soviete, os operários incitavam ao derrube do Czar.

A adesão dos soldados ao Soviete resultou no assalto do Palácio do inverno.
Despromovido de apoios, Nicolau II abdicou a 2 de março. O Czarismo chegou ao fim e a Rússia tornou-se uma república.

Os destinos da Rússia ficaram nas mãos do Governo Provisório. Empenhou-se na instauração de uma democracia parlamentar e na continuação da guerra com a Alemanha, que acreditava poder ganhar. Toda a Rússia cobria-se de Sovietes, que apelavam á retirada imediata da guerra, ao derrube do Governo Provisório que apelidavam de burguês, á entrega do poder aos sovietes, á confiscação da grande propriedade.

A Rússia vivia uma autêntica dualidade de poderes.

Entre 24 e 25 de outubro, Petrogado assistiu a uma nova revolução. Os Guardas Vermelhos (milícias bolcheviques), assaltaram o Palácio de inverno e derrubaram o Governo Provisório nele sediado. O II congresso dos Sovietes entregou, de imediato, o poder ao Conselho dos Comissários do Povo.

Pela primeira vez na História, os representantes do proletariado conquistavam o poder político. Exatamente como Marx preconizara: recorrendo á luta de classes e á revolução.

1.2.2. Da Democracia dos Sovietes ao Centralismo Democrático




  • A democracia dos sovietes; dificuldades e guerra civil (1918-1920);

O novo Governo iniciou funções com a publicação dos decretos revolucionários.

O decreto sobre a terra aboliu, sem indemnização, a grande propriedade, entregando-a a sovietes camponeses. O decreto sobre o controlo operário atribuía aos operários das empresas a superintendia e a gestão da respetiva produção.

O decreto sobre as nacionalidades conferia a todos os povos do antigo Império Russo a estatuto de igualdade e o direito á autodeterminação.

Os sovietes converteram-se nos grandes protagonistas da Revolução. Os primeiros tempos da Revolução de outubro viveram-se sob o signo da democracia dos sovietes. A Rússia assinou em 3 de março de 1918 uma paz separada com a Alemanha. Proprietários e empresários criavam os maiores obstáculos á aplicação dos decretos relativos á terra e ao controlo operário. O regresso de 7 milhões de soldados, sem hipótese imediata de reintegração na vida civil, a persistência de carestia e da inflação e o banditismo que se fazia sentir concorrera, igualmente, para a débil adesão da população Russa ao projeto bolchevique. A resistência ao bolchevismo resultou num dos mais dramáticos episódios da revolução Russa, a terrível guerra civil iniciada em março de 1918 e que se prolongou até 1920. Custou a vida a 10 milhões de seres humanos, tendo a grande maioria padecido de fome, frio e epidemias.

Os brancos (opositores ao bolchevismo), contaram com o apoio de corpos expedicionários da Inglaterra, França, Estados Unidos e Japão.

Venceram os Vermelhos (bolcheviques) que dispuseram de um coeso e disciplinado Exército Vermelho, organizado por Trotsky desde janeiro de 1918.


  • O Comunismo de guerra, face da ditadura do proletariado (1918-1921)

A ditadura do proletariado, conceito-chave na teoria marxista, assume-se como uma etapa transitória, no processo de construção da sociedade socialista. O proletariado retiraria 'todo o capital á burguesia' e centralizaria todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, entendido como representante exclusivo e legitimo do proletariado.


O estádio a que Marx chamava “a forma mais alta de organização da sociedade” é o comunismo. Nela, o Homem alcançaria o verdadeiro bem-estar, a verdadeira liberdade.
Profundamente fiel ao marxismo, Lenine jamais escondeu os seus propósitos de implementação imediata da ditadura do proletariado. Na Rússia bolchevista, ela revestiu-se porém de aspetos bem específicos. Um deles foi a composição do próprio proletariado. (Marx incluía nele operários vitimas de exploração capitalista, já Lenine também incluía os camponeses pois tinha em consideração o atraso industrial da Rússia e as suas estruturas arcaicas e rurais).
A democracia dos sovietes chegou ao fim com o abandono dos decretos revolucionários que concediam a terra aos camponeses e o controlo das fábricas aos operários.
Toda a economia foi nacionalizada, o que está de acordo com as propostas de Marx de “centralização dos meios de produção nas mãos do Estado”.

Apelando ao heroísmo revolucionário para desenvolver a produção, o Governo bolchevique instaurou o trabalho obrigatório dos 16 aos 50 anos; prolongou o tempo de trabalho; reprimiu a indisciplina; atribuiu o salário de acordo com o rendimento.

A ditadura do proletariado foi, porém, antes de mais, a ditadura do Partido Comunista, nome adotado pelo Partido Bolchevique em março de 1918.

A mesma orientação seria seguida nos sovietes, que se viram depurados dos seus membros mencheviques e socialistas-revolucionarios.

A tcheca, policia politica criada em dezembro de 1917, foi investida de elevados poderes, na ausência de uma justiça organizada. Prendia os suspeitos e julgava-os rapidamente.


  • O centralismo democrático

Desde 1922, a Rússia converteu-se na união das repúblicas socialistas soviéticas (URSS), um Estado multinacional e federal cujas republicas iguais em direitos dispunham de uma constituição e de uma certa autonomia. Para Lenine impunha-se que o estado soviético fosse forte, disciplinado e democrático de modo a garantir a vitória do socialismo. A conciliação da disciplina e da democracia conseguiu-se com a formula do centralismo democrático. Teoricamente todo o poder emanava da base, isto é, dos sovietes e escolhidos por sufrágio universal, tinham âmbito local e regional, cabendo-lhes representar o conjunto das repúblicas federadas e as nacionalidades.
Ao congresso dos sovietes competia, por sua vez, designar o comité executivo central, uma espécie de parlamento dotado de duas câmaras: o Conselho de união e o conselho das nacionalidades. A esta estrutura democráticas baseada no sufrágio universal e exercida de baixo para cima impunha-se porém o controlo de duas forças, uma exercia-se de cima para baixo, por parte dos órgãos do topo do estado cujas diretrizes eram rigorosamente obedecidas pelas respetivas bases. A outra fazia-se sentir por parte do partido comunista, uma hierarquia paralela ao estado e que o subordinava.

A hegemonia do partido comunista na organização do estado acabava por fazer dos sovietes simples elementos de transmissão entre as instâncias dirigentes do partido e a população da URSS.




  • A Nova politica económica (1921 – 1927)

Em inícios de 1921 a economia do país estava na ruína. A produção de cereais descera para metade da de 1913. Obrigados a requisição de géneros os camponeses não produziam, escondiam ou destruíam as suas colheitas.



Nas cidades e nas fábricas, a situação não se mostrava mais favorável. A produção industrial diminuira ¾ relativamente à de 1913. O comunismo de guerra cedera lugar à nova política económica (NEP), um recuo estratégico que recorreu ao capitalismo, já que o socialismo não deveria edificar-se sobre ruínas.
As primeiras medidas da NEP visaram a recuperação agrícola. Em julho, foi a vez de a indústria ser alvo de medida. Desnacionalizaram-se as empresas com menos de 20 operários, sendo muitas delas entregues aos antigos proprietários. Embora o regresso ao capitalismo tivesse sido parcial os transportes, os bancos, a média e grande industria e o comercio externo continuaram nacionalizadas, não deixaram de se fazer sentir as criticas. Uma classe de camponeses abastados (os kulaks) e de pequenos comerciantes (os nepmen) suscitou os ódios dos bolcheviques e do partido comunista que não tardaram a repor a ortodoxia marxista.

1.3 A regressão do Demoliberalismo
1.3.1 O impacto do socialismo revolucionário; Dificuldades económicas e radicalização dos movimentos sociais; Emergência de autoritarismos


O calvário da Europa parecia não ter fim, com os seus campos destruídos, , as suas fabricas paradas, os seus transportes desorganizados, as suas finanças deficitárias e o espectro da inflação galopante.
Neste contexto de difícil recuperação económica, grandiosas greves e movimentos revolucionários sacudiram a Europa.

  • Komintern e o impacto do socialismo revolucionário

O komintern propunha-se a coordenar a luta dos partidos operários a nível mundial para que o marxismo-leninismo triunfasse. Reativava-se, pois, a máxima marxista do internacionalismo proletário.
Lenine e Torsky, os grandes mentores do Komintern, impuseram condições rigorosas para que a revolução socialista se concretizasse na Europa. Deveria ser conduzida por partidos comunistas decalcados do modelo russo e fies ao marxismo-leninismo. No segundo congresso do Komintern, realizado em julho de 1920, os partidos socialistas e sociais-democratas foram mesmo obrigados a libertarem-se das tendências reformista-revisionistas, anarquistas e pequeno-burguesas, bem como a defenderem a Rússia bolchevista e o centralismo democrático! Aqueles que o fizeram passaram a ser designados por partidos comunistas, enquanto os partidos socialistas e sociais-democratas ficaram para sempre identificados com o reformismo.

  • Radicalização social e política

Fruto do caos económico do pós-guerra, do socialismo revolucionário implementado na Rússia e das atividades do komintern, a Europa assistiu, entre fins de 1918 e 1923, à radicalização social e política.
Na Alemanha os tumultos remontam a novembro de 1918 quando o país capitulava perante os Aliados. Constituíram-se conselhos de operários. Logo depois, a fação de extrema-esquerda do partido social-democrata alemão pegava em armas contra a republica parlamentar de Weimar. Os revolucionários auto-apelidavam-se de espartaquistas e proclamaram em Berlim uma “república socialista”.
A execução dos seus chefes, Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht, cobriu de martírio o movimento comunista e minou a confiança do proletariado alemão na República democrática de Weimar.
Embora sem sucesso, a hostilidade operaria e comunista voltaria a manifestar-se nos meses seguintes, bem como em 1920 no Ruhr, em 1921 na Alemanha central e, em 1923, na Saxónia, na Turíngia e em Hamburgo.

Também a Itália se viu atingida por uma grande efervescência revolucionaria inspirada no bolchevismo. Durante o verão de 1919, os camponeses ocuparam terras incultas, indo ao ponto de reivindicar a partilha dos latifúndios.


Em 1920, a greve dos metalúrgicos de Turim desencadeou uma vaga de ocupação de fábricas. Mas a falta de créditos bancários e o acordo entre o Governo, o Partido Socialista e a Confederação Geral do Trabalho, na base de progressos sociais, determinaram o fim do movimento grevista e do controlo operário da produção.
Enfim, nenhum país da Europa pareceu poupado pela vaga grevista. Até em Portugal, o precário nível de vida, em virtude de os salários não acompanharem a inflação dos preços, esteve na origem de violentas greves, algumas gerais entre 1919 e 1921.

  • Emergência de autoritarismos

Este surto revolucionário deixou a Europa apavorada.
O medo do bolchevismo faz tremer, naturalmente, a grande burguesia proprietária e financeira, a quem jamais poderia agradar o controlo operário e camponês da produção.
Com manifesta desaprovação, assistiam à escala grevista e às regalias sociais concedidas aos “insurretos” pelos governos democráticos que elas haviam ajudado a eleger. Os patriotas, os conservadores, amantes da ordem, e as classes médias juntamente com as classes possidentes acabaram a defender um governo forte como garantia da paz social, da riqueza e da dignidade.
Não admira por isso, que soluções autoritárias de direita, conservadoras e nacionalistas, começassem a estar na moda no espectro político europeu, desde inícios do dos anos 20. Especialmente nos países onde a democracia liberal não dispunha de raízes sólidas e/ou onde a guerra provocaria gravíssimos problemas económicos, humilhações e insatisfações.
Mercê de uma ditadura baseada no partido e nas organizações fascistas, o fascismo ficou, desde 1925, implantado na Itália, servindo de modelo de inspiração a muitos outros países europeus durante mais de 20 anos.
Na Espanha, entre 1923 e 1930, viveu-se a ditadura militar do general Miguel Primo de Rivera, que contou com o apoio do rei Afonso XIII.
Outros regimes autoritários instalaram-se, entretanto, na Hungria (1920), na Bulgária e na Turquia (1923), na Grécia, em Portugal, na Polónia, na Lituânia (1926) e na Jugoslávia (1929). A Áustria teve, desde 1922, um governo conservador e autoritário. A Alemanha assistiu, em 1923, ao Putsch de Hitler em Munique dirigido contra a Republica democrática de Weimar.
Agastada com a recuperação económica, contestada pelo proletariado, pelas classes médias e grandes proprietários, a democracia liberal europeia, triunfante em 1919, parecia, em fins dos anos 20, um organismo pálido e doente. A emergência dos autoritarismos confirma, de facto, a regressão do demoliberalismo.

1.4. Mutações nos comportamentos e na cultura
1.4.1. As transformações da vida urbana


Nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, contavam-se, na Europa, 180 aglomerados urbanos com mais de 100 000 habitantes, e alguns, como Londres, Paris, Moscovo ou Berlim, atingiam já uma escala gigantesca, congregando vários milhões de almas. Pela primeira vez na História, no mundo industrializado, a população urbana superou a das zonas rurais.

  • A nova sociabilidade

Os citadinos dirigem-se para o trabalho a mesma hora, partilham os mesmos transportes, consomem os mesmos produtos, habitam casas semelhantes e mesmo os lazeres tendem para a massificação. O crescimento da classe media e sobretudo a melhoria do nível de vida proporcionam uma nova cultura do ócio que a cidade fomenta, oferecendo inúmeras distrações. A convivência entre os sexos, outrora contida por rígidas convenções sociais torna-se mais livre e ousada. Quem pode desloca-se com frequência de carro ou de comboio, quer para um dia passado nos arredores, quer para uma viagem entre as grandes cidades da Europa ou da America.
Este gosto pelo movimento, pela “ação” fomenta a pratica desportiva que pela primeira vez entra nos hábitos quotidianos. O ritmo de vida, outrora lento e pacato acelera-se e nos anos 20 torna-se quase frenético. A brutalidade da primeira guerra mundial pôs em causa as instituições, os valores espirituais e morais, todo o edifício social que tinha sustentado a ordem burguesa do século XIX. O impacto da destruição gerou um sentimento de descrença e pessimismo, que afetou tanto os intelectuais como a gente comum. Do choque da guerra e da deceção por ela provocada nasceu, pois, a convicção de que o mundo não mais voltaria a ser o que era. Uma vaga de contestação a todos os níveis abalou a sociedade que, mergulhada numa profunda “crise de consciência” se viu sem referentes sólidos.

  • A emancipação feminina

O movimento feminista organizado remonta ao século XIX. As primeiras feministas lutaram por alterações jurídicas que terminassem com o estatuto de eterna menoridade que a sociedade burguesa oitocentista reservava à mulher. Cerca de 1900, o direito de participação na vida politica (direito ao voto) passou a assumir um papel preponderante nas reivindicações femininas. Organizam-se então numerosas associações de sufragistas que com um enorme espírito de militância desencadearam uma luta tenaz pelo voto feminino.
em Portugal fundou-se em 1909, a liga republicana das mulheres portuguesas e mais tarde, a associação de propaganda feminista (1911) que perseguiam objetivos idênticos aos das pessoas congéneres europeias e contaram com a dedicação e o esforço de mulheres prestigiadas.
Com exceção de um pequeno punhado de países como a Austrália ou a Finlândia, as pretensões políticas femininas chocaram ate à Primeira Guerra Mundial, com uma forte oposição, sendo alvo da censura e do escárnio dos poderes políticos e da própria sociedade, maioritariamente conservadora. As convulsões da guerra vieram alterar este estado de espírito. Com os homens nas trincheiras, as mulheres viram-se libertas das suas tradicionais limitações como donas de casa, assumindo a autoridade do lar e o sustento da família.
Embora a efetiva igualdade entre os dois sexos tenha demorado a concretizar-se e se depare ainda hoje com algumas resistências o movimento feminista do inicio do século derrubou as principais barreiras e abriu à mulher uma nova etapa da sua história.

1.4.2. A descrença no pensamento positivista e as novas conceções científicas.


No início do século XX, o pensamento ocidental rebela-se contra este quadro de estrita racionalidade valorizando outras dimensões do conhecimento. Na filosofia, Henri Bergson defende haver realidades (como a atividade psíquica) que escapam as leis da física e da matemática e só podem ser compreendidas através de uma outra via a que chama intuição.

  • O relativismo

Foi Albert Einstein e a sua teoria da relatividade quem protagonizou a revolução cientifica do inicio do século. Einstein destruiu as mais sólidas bases da física ao negar o caráter absoluto do espaço e do tempo. As teorias de Max Planck e Einstein provocaram um profundo choque na comunidade cientifica que se viu obrigada a reconhecer que o universo era mais instável do que ate ai se pensava e a verdade cientifica menos universal do que se tinha acreditado.
Abriu-se uma nova conceção de ciência – o relativismo – que aceita o mistério, a desordem, a probabilidade como partes integrantes do conhecimento, rejeitando o determinismo racionalista fundado na clareza, na ordem, na previsibilidade de todos os fenómenos. Embora tal mudança tenha representado de facto, um avanço, o certo é que contribuiu para abalar a fé na ciência e na sua capacidade para compreender e controlar a natureza.

  • As conceções psicanalíticas

Freud, compreendeu que, sobre o estado hipnótico, os pacientes se recordavam de pensamentos, factos e desejos que aparentemente haviam esquecido, esta constatação revelou a existência de uma zona obscura, irracional, na mente humana, que o individuo não controla e da qual não tem consciência, mas que se manifesta permanentemente no comportamento – o inconsciente. Foi com base nesta descoberta que Freud elaborou, a partir de 1897, os princípios do que veio a chamar psicologia analítica ou psicanálise. Segundo a psicanálise, o psiquismo humano estrutura-se em 3 níveis distintos: o consciente, o subconsciente e o inconsciente.
Por influência das normas morais o indivíduo tem tendência para bloquear desejos ou factos indecorosos e culpabilizantes, remetendo-os para o inconsciente onde ficam aprisionados, num aparente esquecimento. No entanto os impulsos e sentimentos assim recalcados persistem em afluir à consciência, materializando-se em lapsos (troca de palavras), esquecimentos súbitos, pequenos gestos de que não nos damos conta ou, de forma mais grave, em distúrbios psíquicos a que Freud chama neuroses. Para alem de uma teoria revolucionária sobre o psiquismo, a psicanálise engloba ainda um método de tratamento das neuroses que, basicamente consiste em fazer emergir o recalcamento (trauma) que lhes deu origem e racionaliza-lo. Esta terapeuta baseia-se em grande parte na “livre associação”, em que, sob a orientação do médico, o paciente deixa fluir livremente, as ideias que lhe vêm à mente, e na análise dos sonhos, considerados por Freud a “via regia do acesso ao consciente”.

1.4.3. As vanguardas: ruturas com os cânones das artes e da literatura


Nas primeiras décadas do século XX, uma autêntica explosão de experiencias inovadoras convulsiona as artes.
Este movimento cultural, conhecido como modernismo, irradiou de Paris que era, então, o centro artístico da Europa.
A cidade era, pois, o cerne da vanguarda cultural europeia, plena de talentos e entusiasmo.

  • O fauvismo

É facto aceite que o fauvismo constituiu a primeira vaga de assalto da arte moderna propriamente dita.
As telas que se encontravam na sala eram, de facto, chocantes: um colorismo muito intenso, aplicado de forma aparentemente arbitrária, tornava-as, à primeira vista, obras estranhas, quase selvagens.
Os fauvistas, encabeçados por Henri Matisse, reivindicam o primado da cor sobre a forma e é na cor que encontram a sua forma de expressão artística. A cor, afirmou Matisse, constitui um “meio de expressão íntimo e não descritivo” e deve, por isso, ser usada com total liberdade.
Assim catapultada ao papel de protagonista, a cor desenvolve-se em grandes manchas que delimitam planos.
Aparece pura, aplicada em pinceladas ora curtas (segundo a técnica pontilhista), ora estendidas, em tons intensos, sem sombreados, pois o claro-escuro “suja” a cor.
O colorido autonomiza-se completamente do real, isto é, não tem de concordar com as cores do objeto representado mas refletir “a verdade inerente que deve ser desenvencilhada da aparência exterior do objeto(…) a única verdade que interessa”, pois, “a exatidão não é verdade”
O fauvismo foi um movimento marcadamente francês a que estão alheias quaisquer intenções de índole social ou psicológica.

  • O expressionismo

A vanguarda artística a que damos o nome de expressionismo nasce quase ao mesmo tempo em diversas cidades alemãs (Dresden, Munique, Berlim) como uma tentativa de abalar o conservadorismo em que vegetava a arte oficial, apadrinhada pelo kaiser Guilherme II mas nasce também como um grito e revolta individual contra uma sociedade excessivamente moralista e hierarquisada, onde as inquietações da alma raramente se podiam expressar, abafadas por normas e preconceitos. Defendiam uma arte impulsiva fortemente individual, que representasse “diretamente e sem falsificações” o impulso artístico criador. Tal como os fauvistas, os pintores de Die Brücke (que em breve puderam contar com novos elementos como Emil Nolde, Max Pechstein e Otto Mueller) recorriam à utilização de grandes manchas de cor, intensas e contrastantes, aplicadas livremente. Mas, ao contrário do espírito fauve desenvolviam uma temática pesada, que privilegiava a angustia, o desespero, a morte, o sexo, a miséria social. À semelhança de outras vanguardas, os expressionistas reduziram deliberadamente o seu vocabulário estético e formas primitivas e simples. Uma forte tensão emocional obtida por formas distorcidas e cores intensas apossa-se dos quadros, transmitindo ao espectador sensações de desconforto, repulsa e mesmo angústia. Algo diferente é a expressividade do grupo Der Blaue Reiter (o cavaleiro azul) que nasceu em Munique pela mão de Vassily Kandinsky e Franz Marc, em 1911.
A pintura dos elementos do cavaleiro azul apoiava-se num desenho menos pesado do que o dos seus colegas de Dresden e evidenciava um grau de intelectualização bastante maior.
Como corrente organizada, o expressionismo permaneceu um movimento marcadamente alemão.
Como forma de expressão individual, porém, o expressionismo não conheceu fronteiras.

  • O cubismo

Em 1907, Pablo Picasso, pintor catalão radicado em Paris, decide iniciar um óleo de grandes proporções ao qual, mais tarde, seria dado o nome de Les Demoiselles d’Avignon (as meninas de Avinhão). O resultado foi um quadro desconcertante representando 5 mulheres nuas provavelmente uma cena de bordel. Fortemente influenciados pelo geometrismo de Cezanne, de quem se tinha organizado uma retrospetiva no Salon d’Automne de 1907, e pela estilização volumetria da arte africana, cujo valor começava a ser reconhecido. Braque e Picasso lançaram-se no desenvolvimento lógico da nova conceção artística iniciada pelas Demoiselles.

O cubismo analítico

Braque e Picasso geometrizaram e simplificaram formas embrenhando-se num tratamento lógico e construtivo dos volumes. A verdadeira verdade do cubismo não estava porem na geometrização dos volumes mas na destruição completa das leis da perspetiva que apesar de todas as investidas continuavam a dominar o espaço pictórico.


Braque e Picasso consideravam a representação tradicional redutora e mentirosa, pois mostrava apenas uma parte da realidade, aquela que percebemos de um ponto de vista fixo, num determinado momento. Nos anos que se seguiram Braque e Picasso continuaram o percurso que tinham iniciado: os motivo são cada vez mais minuciosamente decompostos em facetas geométricas que se intercetam e sucedem.
Ao volume fechado e circunscrito, os cubistas opõem assim um volume aberto, que ocupa todo o espaço do quadro. Pouco a pouco as cores restringem-se a uma paleta quase monocromática de azuis, cinzentos e castanhos, de forma a não perturbar o rigor geométrico da representação.

O cubismo sintético. Os novos materiais

Ora, como nunca fora intenção dos cubistas praticar uma pintura abstrata, tornava-se necessário um processo de reconstrução/recriação. Os elementos fundamentais que resultam do desmantelamento analítico do motivo foram reagrupados de uma maneira mais coerente e mais lógica, mais de acordo com as leis da perceção. Todo o pormenor foi, neste processo de síntese eliminado. Nesta nova fase que ficou conhecida por cubismo sintético, a cor regressa as telas. Mas não só. Picasso e Braque, acompanhados agora por Juan Gris juntam aos materiais da pintura objetos comuns que, ate ai, lhes eram completamente estranhos: papeis, cartão, tecidos, madeira, corda…



Em síntese

  • Destruiu as leis tradicionais da perspetiva e da representação que, embora abaladas pelos movimentos anteriores, se mantinham, no geral, validas.

  • Alargou os horizontes plásticos introduzindo neles materiais comuns, de uso quotidiano ate ai completamente alheios ao mundo da arte.

  • Proporcionou meios de expressão a outras correntes, nomeadamente ao futurismo (a representação de visões simultâneas).



  • O abstracionismo

A ideia de descolar a pintura da representação do real constituía, por isso uma completa novidade e terá sido concretizada, pela primeira vez, em 1910, numa famosa aguarela da autoria do pintor russo Vassily Kandinsky. Nos anos que se seguiram, o abstracionismo atraiu outros artistas que desenvolveram esta corrente enveredando por caminhos diversificados e ate opostos.

O abstracionismo sensível ou lírico

A forma abstrata, conclui Kandinsky, porque se dirige à perceção sensorial comum à espécie humana, é, tal, como a música, uma linguagem universal. Por outras palavras, as abstrações de forma e de cor, tal como a musica, atuam diretamente na alma.


Consciente de que a arte não representativa pode tornar-se, com facilidade, uma mera decoração, Kandinsky insiste simultaneamente na sua interioridade e na sua composição meticulosa. “É belo”, diz o pintor, “o que provém de uma necessidade interior da alma” que, para se materializar em arte e tocar quem a vê, obriga à correta combinação de formas e cores.

O abstracionismo geométrico

Uma outra via do abstracionismo tem o seu expoente no pintor holandês Piet Mondrian.


Mondrian, que entre 1911 e 1914 se deixou seduzir por Paris e pelo cubismo, procurou fazer da pintura um meio de expressar a verdade essencial e inalterável das coisas. Impressionado com a violência e o sofrimento de um mundo em guerra, Mondrian procurou para o seu trabalho, uma função social além de uma nova dimensão estética.
Isto implica a supressão, na obra de arte, de toda a emotividade pessoal e também de tudo o que é efémero ou acessório. Pretende-se atingir uma pintura depurada, liberta de tudo o que não é essencial, circunscrita aos elementos básicos: a linha, a cor, a composição e o espaço bidimensional.
O desenvolvimento desta opção levará o pinto à mais matemática das artes.

  • O futurismo

O Manifesto de Marinetti, verdadeiro hino à vida moderna, rejeita o passado (passadismo) e glorifica o futuro que antevê prodigioso graças ao progresso da técnica. A maquina, conquista e emblema do mundo moderno, assume lugar central de ídolo dos futuristas e, com ela, a velocidade a que devotam um verdadeiro culto.
Desligada do passado, a estética futurista centra-se na representação do mundo industrial: a cidade, a máquina, a velocidade, o ruído. Procura igualmente fazer-se eco do tempo que rege o dinamismo universal: a obra de arte não pode ser estática porque nada o é. Na Natureza tudo se transforma incessantemente.
A busca de uma solução formal que representasse o dinamismo conduziu os futuristas à diluição das formas, à justaposição das imagens fugazes que passam na retina em frações de segundo, bem como à decomposição da realidade em segmentos representando pontos de vista simultâneos que se interpenetram, numa amálgama de movimento, som e cintilações de luz.
Com esta ultima solução, os futuristas aproximam-se dos cubistas e com eles partilham o simultaneísmo e a decomposição fragmentada.
Ironicamente, o deflagrar da Grande Guerra truncou, de modo trágico, o desenvolvimento da estética futurista.

  • O dadaísmo

O dadaísmo nasceu em Zurique, na Suíça, em 1916, pela mão de um grupo de jovens de varias nacionalidades (mas que se consideravam apátridas), que ai procuravam refugio da guerra.
Unidos pela mesma fome de absurdo, pela necessidade compulsiva de destruir os fundamentos de arte, os dadaistas exprimiram-se das formas mais dispares: os assemblages de Kurt Schwitters, as composições ao acaso de Max Ernst e Hans Arp, os ready made de Duchamp, tudo servia para negar a arte e o seu valor.
Ao mesmo tempo que tentavam criar a antiarte, os dadaistas provocaram grande agitação nos meios artísticos com panfletos e artigos obscenos (publicados nas suas revistas), insultos ao publico que visitava, curioso, as suas exposições, e espetáculos desconcertantes em que montavam pequenas peças teatrais sem nexo e declamavam, ao som, de campainhas, poemas desarticulados, por vezes sem uma única palavra inteligível.
No afã de tudo negar, os dadaistas acabaram por se negar a si próprios e abriram-se à Arte.

  • O surrealismo

Por volta de 1922 o dadaísmo tinha chegado ao fim da sua evolução. O culto do absurdo tornara-se cada vez mais extremo e esgotava-se em repetições sucessivas cujo impacto era cada vez menor. Ao surrealismo aderiram homens de letras como Louis Aragon e Paul Eluard; artistas plásticos como Andre Masson, Hans Arp, Juan Miró, Max Ernst, René Magritte, Salvador Dali, realizadores de cinema como Luís Bunuel. O movimento iniciado por Breton mergulhava sob a influência de Freud e da psicanálise nas profundezas do inconsciência e reduzia todas as expressões artísticas a um meio de explorar o psiquismo dos seus autores. Deste modo, o modelo da arte que erradamente tinha sido sempre procurado na realidade exterior. Deslocava-se para o mundo da interioridade, era procurado no inconsciente do artista. Ao contrario de Dada que negava a importância de tudo, o surrealismo funda-se na importância conferida ao inconsciente. Mas como Dada não se prende com querelas formais. Cada um exprime-se à sua própria maneira, cada um encontra a sua vida pessoal de acesso ao inconsciente. Por esta razão, a extrema diversidade ou mesmo disparidade de estilo dos surrealistas não tem equivalente em nenhuma outra corrente anterior ou contemporânea. O surrealismo que como movimento se mostrou tão ativista como o dadaísmo, colheu a adesão internacional e prolongou-se no tempo.
Geralmente considera-se que com o surrealismo se encerra o período fecundo das primeiras vanguardas que revolucionaram a arte europeia.

  • Os caminhos da literatura

À semelhança do que aconteceu nas artes plásticas e basicamente pelos mesmos motivos, o inicio do século XX correspondeu, no campo das letras, a uma verdadeira revolução que pôs em causa por vezes de forma radical, os valores e as tradições literárias. Não será por isso possível dado o pouco espaço de que dispomos, elaborar uma síntese da revolução literária do inicio do século sem deixar de fora numerosas tendências, obras de vulto e autores consagrados. Fixemos porem a ideia que a literatura percorreu nesta época todas as vias que a expressão escrita permite percorrer. Nas primeiras décadas de novecentos os esforços concentravam-se, sobretudo na libertação da obra literária face à realidade concreta. As obras voltam-se para a vida psicológica e interior das personagens mais do que para a narrativa de uma ação. Se a modernidade das obras de que falamos se situa ao nível do tema e da sua abordagem, outras há que se destacam pela introdução de novas formas de expressão ao nível da linguagem e da construção frásica. Estas correntes se bem que efémeras e pouco produtivas em termos de qualidade literária romperam convenções e abriram as portas a obras de grande valor verdadeiramente inovadoras.



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