Mão na massa na França, abc na Ciência no Brasil: princípios universais, singularidades culturais



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Mão na massa na França, ABC na Ciência no Brasil: princípios universais, singularidades culturais.


Drª. Danielle Grynszpan


  • Coordenadora do Projeto no Rio de Janeiro

  • Pesquisadora do Departamento de Imunologia do Instituto Oswaldo Cruz - Fiocruz
    Setor de Alfabetismo Científico 
    Programa de Pós-graduação em Educação Científica
    Departamento de Ensino - Instituto Oswaldo Cruz/ Fiocruz

RESUMO

O objetivo deste trabalho é relatar a experiência de implantação da extensão do projeto La main à la pâte (Lamap) no Brasil, onde toma o nome de "ABC na Ciência". Esta designação está relacionada ao fato do projeto estar especialmente voltado para o ensino das ciências na escola primária, bem como reflete o compromisso assumido entre a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e sua correlata francesa. Em um primeiro momento, optou-se pela realização das atividades apenas nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. É a experiência desenvolvida neste último, especialmente com relação ao processo de formação continuada dos professores públicos, que gostaríamos de discutir, destacando a preocupação com a démarche pédagogique enfatizada também no Lamap da França. No Rio de Janeiro temos ressaltado o estímulo à criação de estratégias e materiais educativos próprios que são produto de pesquisa por parte dos professores envolvidos.O objetivo maior é a integração da ciência às culturas locais, principalmente através da música e de ditados populares, assim como também a inter-relação entre ciência e tecnologia por meio de convites à elaboração de produtos simples de nosso cotidiano.

A. GIORDAN, J.-L. MARTINAND et D. RAICHVARG, Actes JIES XXIV, 2002

1. INTRODUÇÃO

Em nossos dias, a educação em ciência tem como desafio a formação de profissionais para uma sociedade em mutação, o que requer, cada vez mais, compromissos sociais, éticos e uma abordagem interdisciplinar (Matalon, 1998). Sendo assim, há que se pensar em estratégias de educação que promovam um esforço constante no sentido de estimular o desenvolvimento da criatividade no ensino das ciências da natureza, bem como a interação horizontal entre as diferentes áreas do saber. Há que se enfatizar, igualmente, a importância da contribuição do pesquisador na sociedade, como parceiro de projetos educacionais, evidenciando o seu papel de provedor de respostas às questões ligadas à qualidade de vida, com um enfoque mais humanista e menos cientificista (Leselbaum, 1998).Por outro lado, faz-se necessário acentuar a responsabilidade da academia não apenas com a transmissão de um conhecimento correto e atualizado, mas também com a construção compartilhada de um saber relacionado à cultura nos diversos rincões do país.



2. O CONTEXTO

Vivemos sempre no Instituto Oswaldo Cruz (IOC/FIOCRUZ), prestigiada instituição de pesquisa no Brasil, uma situação dialética de tradição e transformação. Se por um lado sentimos o peso de sermos uma instituição acadêmica antiga, por outro, e ao mesmo tempo, nesta tradição está incorporada a concordância em possibilitar um compromisso de formação de pessoal para atuar em diversos níveis e setores, com uma orientação clara no sentido de contribuir para a resolução de problemas que afetam a população brasileira. Assim, alguns pesquisadores vêm desenvolvendo trabalhos, desde a década de 80, no âmbito da educação e popularização da ciência através de diversos eventos, da realização de cursos (especialmente dedicados a professores públicos) e da produção de materiais educacionais que têm sido utilizados pelas Secretarias Municipal e Estadual de Educação do Rio de Janeiro ou em programas específicos de âmbito nacional. Desde o início da década de 90 vimos desenvolvendo, em nosso laboratório, uma linha de pesquisa intitulada "Educação, Saúde e Ambiente", desde sempre voltada para o ensino primário (chamado de "fundamental" no Brasil), já que grande parte da população brasileira não supera este patamar de escolaridade. Nosso trabalho se ampliou em nível nacional, envolvendo cursos voltados prioritariamente para os professores primários e a orientação de projetos interdisciplinares (quando possível transdisciplinares) em escolas de capitais e municípios do interior dos Estados do Pará, Maranhão, Sergipe, Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo, além do próprio Rio de Janeiro.

A partir da constatação do aumento acelerado da influência da ciência no cotidiano, nosso grande desafio, neste milênio, é contribuir para diminuir a distância existente entre o acúmulo crescente de conhecimento acadêmico, por um lado, e, por outro, a quantidade/ qualidade daquilo que chega ao grande público, de modo que vários de nossos pesquisadores se uniram em torno de uma proposta educacional que tem por objetivo precípuo a aproximação entre pesquisadores e professores, potenciais mediadores de ciência. 

Em abril de 2001 fomos convidados a participar de um projeto internacional , como fruto da cooperação entre as Academias de Ciência da França e do Brasil, denominado na França "La Main à la Pâte" e por nós designado "ABC na Ciência" por ser destinado especialmente à melhoria da educação científica no ensino primário, ao mesmo tempo em que representa a primeira iniciativa concreta da Academia Brasileira de Ciências neste sentido. Tivemos a oportunidade de conhecer in loco o desenvolvimento do projeto em três diferentes regiões da França (Lyon, Bergerac e Creille) a fim de implementá-lo no Brasil.



3. METODOLOGIA E RESULTADOS

Neste momento, no Rio de Janeiro, estamos ainda em fase experimental, implantando gradualmente o projeto em algumas escolas do município e outras pertencentes ao Estado. Neste trabalho temos investido bastante na formação do professor, dentro da orientação metodológica original que privilegia a démarche investigativa, acreditando na atuação dedicada dos professores públicos, mas aliando esta expectativa a um processo de formação continuada em serviço que tem perdurado, desde o início do ano de 2001, com cursos e estágios concentrados às sextas-feiras e sábados.

O acordo com a Secretaria de Educação garante a participação de professores regentes em todo o Estado, com representantes em cada uma das 29 coordenadorias regionais nas quais se distribuem as 1860 escolas estaduais. Este contrato firmado permite que os professores públicos possam estar sendo preparados para assumir o papel de responsáveis pela criação e manutenção de Centros de Recursos Humanos e Materiais nos diferentes municípios do Estado do Rio de Janeiro. Alguns, inclusive, já estão envolvidos no processo de criação dos primeiros módulos: água, ar e corpo, contando para isto com a colaboração de cientistas especializados nestes assuntos-chave, bem como com a colaboração de professores e pesquisadores do campo da educação em ciência.

O processo compartilhado de criação de estratégias e materiais inéditos sobre o tema "água" já está em conclusão, tendo o grupo optado por subdividir os materiais em três kits: "propriedades da água", " água e vida" e "água e saúde". A integração de docentes de diferentes esferas e níveis que, normalmente, nunca se tangenciam - como é o caso dos professores estaduais e municipais - colaborou para a melhor adequação das propostas às faixas etárias e às distintas realidades, já que uns têm uma maior preocupação com o conteúdo, dado que são especializados em um campo das ciências, enquanto os outros, por serem polivalentes, tinham maior facilidade para desenvolver uma abordagem mais interdisciplinar. Esteve sempre presente a preocupação com o desenvolvimento da capacidade de argumentação oral e da estruturação da expressão escrita, tendo em vista que contribuem para o desenvolvimento global do educando.



4. CONCLUSÃO

Nossa proposta de trabalho traz em seu bojo a idéia de que a educação científica deve ser compreendida como um pressuposto fundamental para o exercício da cidadania e condição sine qua non para a inserção na cultura. Dessa maneira, um dos objetivos importantes é que as atividades pedagógicas possam retratar a integração da ciência às culturas locais, principalmente através da música e de ditados populares, assim como também a apreensão da interrelação entre ciência e tecnologia, por meio de convites à elaboração de produtos simples de nosso cotidiano a partir do estudo de noções científicas básicas.

Mais ainda, há atividades mais adaptadas à sala-de-aula, mas outras que ensejam a ligação com o entorno físico e social da escola. Como exemplo, citamos o trabalho realizado na enseada da Urca, um local da baía de Guanabara onde, na cidade do Rio de Janeiro, gerações de alunos tiveram seu primeiro contato com a vida marinha. Apesar dos efeitos da poluição, ela ainda mantém uma riqueza de fauna e flora. Uma atividade do projeto foi lá realizada, dentro da linha de estímulo à postura investigativa. No roteiro distribuído, algumas perguntas levavam à observação do ambiente aquático e à descrição dos seres encontrados, enquanto outras levavam à relação entre as formas e funções dos seres no ecossistema além de uma discussão da importância da diversidade entre eles. Por fim, o roteiro também suscitava a indicação dos fatores ambientais possivelmente envolvidos com a distribuição dos seres vivos bem como aos problemas derivados do lixo e outras formas de poluição.

No desenvolvimento do projeto ABC en Sciences - La Main à la Pâte, no Rio de Janeiro, temos ressaltado o estímulo à criação de estratégias e materiais educativos próprios. Estes são elaborados, em parte, como produto de pesquisa realizada pelos próprios professores envolvidos, que levantam previamente dados sobre o conhecimento, crenças e opiniões sobre os assuntos tratados. Outro ponto-chave é a busca da integração entre pesquisadores da área das ciências naturais e das ciências da educação (englobando neste grupo aqueles profissionais que se dedicam à didática das ciências), porque acreditamos ser esta uma parceria necessária, embora por vezes difícil.Tendo sempre como meta a integração das ciências às culturas locais, os princípios universais são enfocados levando em conta as singularidades culturais. O grande desafio na confecção dos materiais e na proposição das estratégias educativas é, portanto, promover a cultura científica, ou seja, buscar uma maior integração do conhecimento científico ao saber regional, procurando também incentivar processos de cunho investigativo que suscitem, mais do que respostas, uma sucessão infinita de questões.



BIBLIOGRAFIA

Charpak, G. "La Main à La Pâte - les sciences a l´école primaire" , Flammarion, Paris, 1996.



Leselbaum N. "Éducation sanitaire", "Promotion", "Prévention", "Éducation à la Santé". In Éducation à la Santé - rôle et formation des personnels d'éducation, Institut National de Recherche Pédagogique, Paris, p.131-138, 1998.

Matalon B, La Marche des Idées Scientifiques: évolution ou révolutions? Sciences Humaines 21: 24-26, 1998



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