Missão de santa tereza: equívocos, anacronismos e exclusãO Étnico-social na história da fundaçÃo da cidade de imperatriz-ma



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MISSÃO DE SANTA TEREZA: OS IMPASSES DA HISTORIOGRAFIA LOCAL SOBRE AS ORIGENS DA CIDADE DE IMPERATRIZ-MA
Francisco Chagas Vieira Lima Júnior
RESUMO
O presente artigo aborda os processos, vícios e pressupostos que, embora compostos em época remota, jamais foram totalmente revisados e ainda imperam na historiografia regional e local da cidade de Imperatriz-MA. Tendo como foco os problemas e impasses existentes na história da fundação dessa cidade, abordando temas relacionados aos antecedentes dessa fundação, aos aspectos que caracterizaram essa fundação e as relações sociais e étnicas que ocorreram após essa fundação. Assim, debate a influência de interesses políticos e ideologias étnico-exclusivistas na formação e consagração dessa historiografia, denunciando o papel negativo dessa influência na desconstrução da identidade indígena na história original da região.
Palavras-chave: Missão. História local. Colonização.
ABSTRACT
The presente article addresses the processes, addiction and assumptions that, although compounds in remote time, have never been fully revised and still hold sway in the local and regional historiography of Imperatriz-MA city. Focusing on existing problems and bottlenecks in the history of the founding of this city, addressing issues related to the history of this foundation, the aspects that characterized this foundation and the social and ethnic relations that occurred after this foundation. So debate the influence of political and ethno-exclusivist ideologies in the formation and recognition of this history, denouncing the role of negative influence on the deconstruction of the original Indian identity in the history of the region.


Keywords: Mission. Colonization. Local history.
1 CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES
Em meados dos do século XIX, um missionário religioso da Ordem dos Carmelitas, nascido na Bahia e contratado pelo governo da província do Pará, adentrou, com mais dois companheiros, as matas e os campos ribeirinhos do lado oriental do Rio Tocantins, ao sul de São João do Araguaia e ao norte de Boa Vista (atual cidade de Tocantinópolis). Seu nome era Frei Manoel Procópio do Coração de Maria e sua missão era encontrar um local adequado para o assentamento de uma Missão indígena.

No início da segunda metade do ano de 1852, o missionário se estabeleceu na área ribeirinha de um território que, mais tarde – cerca de 10 (dez) depois (1862) – passaria a ser chamado “Nova Vila de Imperatriz”, correspondente a atual cidade de Imperatriz-MA. O local que passou a denominar-se “Missão de Santa Teresa”.

A Missão havia sido constituída sob a incumbência de converter, aldear, catequizar os índios com fins de apaziguamento para futura colonização e estabelecimento de comércio na região. Porém, com o passar dos anos, em meio ao processo de colonização por homens brancos na região e principalmente por motivações étnicas e políticas, essa história foi suplantada e substituída por uma narrativa histórica anacrônica, elaborada nos moldes do colonizador branco, que reconstruiu a história da fundação da cidade de acordo com a tendência clássica de descrever o passado segundo os elementos do presente.

De acordo com esta versão, Frei Manoel Procópio foi o responsável pela missão de encontrar um local adequado para o estabelecimento de uma colônia civil-militar composta por indivíduos brancos. Essa colônia passou a ser chamada de “colônia de Santa Tereza”.

Assim, segundo essa versão, não haviam índios a serem catequizados ou reunidos por Procópio em Santa Tereza (a historiografia local tende a projetar os nativos para as “proximidades” da missão), mas apenas colonos para serem liderados e uma povoação, estabelecida segundo os moldes provinciais tão comuns à época, a ser administrada. Tal é a versão amplamente difundida pela historiografia local tradicional da cidade.

O presente artigo tem como objetivo conscientizar acerca da necessidade de revisar os equívocos, anacronismos e incoerências existentes na história das origens da cidade, ao mesmo tempo em que tenta contribuir para o resgate da identidade indígena da história das origens de nossa cidade, suplantada e esquecida devido à visão étnico-exclusivista subjacente à historiografia local tradicional de Imperatriz-MA.

Para isso, apresenta uma pesquisa documental, selecionando os documentos oficiais da província do Pará e Maranhão elaborados entre os anos de 1844 a 1864, e uma pesquisa bibliográfica, focada nos principais representantes da historiografia local, entre os quais: César Marques, Carlota Carvalho, Edelvira Barros e Adalberto Franklin, os principais representantes da historiografia local tradicional.

Os documentos pesquisados foram organizados segundo um critério cronológico, a fim de proporcionar uma visão abrangente e concatenada das situações históricas pautadas, além de terem sido analisados crítica e comparativamente com a bibliografia representativa da historiografia local tradicional, com o fim de alcançar uma visão histórica mais contundente e autêntica sobre a história da fundação da cidade.

Acreditamos que uma leitura comparativa entre as duas versões, a documental e a historiográfica, possa contribuir para resgatar o capítulo perdido da história de Imperatriz sobre a identidade indígena de seus momentos iniciais e assim dirimir os equívocos que posteriormente foram integrados e perpetuados pelos escritores e pesquisadores da história da cidade.
2 OS ANTECEDENTES DA HISTÓRIA DA FUNDAÇÃO DA CIDADE DE IMPERATRIZ-MA
No início do século XIX, o processo de interiorização do território brasileiro ainda estava em andamento. Nas décadas que seguiram a publicação da Carta Régia no ano de 1798, o governo imperial havia passado a investir e promover meios para descobrir e navegar os principais rios interinos do país, que levavam para regiões ainda desconhecidas e habitadas por nativos. (MARQUES, 1864, p. 08).

Porém, um dos grandes entraves oferecidos pelo rio Tocantins para a navegação fluvial exploratória e colonizadora, eram as cachoeiras de Itaboca, localizada no Remansão (atual Tucuruí), região considerada a porta de entrada para o Alto Tocantins (PARÁ, 1851, p. 65).

No início do ano de 1849, o presidente da Província do Pará, Jerônimo Francisco Coelho, designou uma comitiva com o fim de fundar uma colônia militar “nas proximidades da cachoeira Itaboca, contanto que reúna os quesitos de segurança, salubridade e fertilidade. A nova colônia será denominada Santa Teresa do Tocantins” (PARÁ, 1849, p. 139).

A comitiva contava com a presença da força militar, de um representante da religião oficial e de dezenas de colonos, sendo chamada de “Expedição para Exploração e Colonização do Alto Tocantins”, a qual seguiu do porto de Belém em junho de 1849 rumo ao sul, subindo o rio Tocantins com 11 (onze) embarcações e 92 (noventa e dois) colonos e suas famílias. (loc. cit.).

O representante da religião católica era Frei Manoel Procópio do Coração de Maria, estava incumbindo de “missionar e aldêar onde fôr mais conveniente, e segundo a opportunidade das circunstancias, as tribus, que habitaô naõ só ás margens do Rio Tocantins, mas as do seu confluente Araguaya, até onde chegaõ as extremas desta Provincia com a de Goyaz”. (PARÁ, 1849, p. 83). Ou seja, a missão do frade não deveria se limitar à colônia militar estabelecida no Itaboca, mas deveria transcendê-la até os limites interprovinciais.

Em apenas 3 (três) meses, no dia 15 de outubro do mesmo ano (no dia de Santa Teresa D’ávila), a Expedição chegou ao local determinado, estabelecendo de fato em Itaboca a colônia militar de Santa Teresa do Tocantins. (PARÁ, 1850, p. 17-22).

As expectativas sobre o futuro da colônia eram promissoras, porém, três grandes epidemias de febre na região dizimaram grande parte dos colonos nos meses que se seguiram. Muitos morreram, outros desistiram, fugindo para outras regiões ou retornando à capital. Cerca um terço da população da colônia foi diminuída (GOIÁS, 1951, p. 51).

Em abril de 1850 a colônia militar de Santa Teresa do Tocantins foi abandonada e extinta. Os integrantes da expedição voltam à capital (Belém), enquanto os restantes foram enviados para outras colônias, principalmente para duas: a recém-fundada colônia militar em S. João do Araguaya, onde já havia um presídio, e a decadente colônia de Pedro II. O tenente da expedição, Constâncio Dias Martins, é convocado para se dirigir a São João do Araguaia juntamente com o religioso, Frei Manoel Procópio.

Após esse episódio, Frei Manoel Procópio dirige-se a região do Alto Tocantins, com o fim de catequizar nativos e criar uma missão. Toda a região que se estendia ao longo do Rio Tocantins desde São João do Araguaia, passando por Boa Vista, até Carolina era considerada perigosa desde o início dos anos 40 do século XIX devido à presença de nativos belicosos dos povos Timbira. (apud FRANKLIN, 2005, p. 17; cf. CASTELNAU, 1850, p. 370).

Após tentativas e insucessos em aldear diversas tribos, no ano de 1851 Frei Manoel Procópio dirigiu-se à margem oriental do rio, no território que mais tarde pertenceria a Província do Maranhão, com o fim de catequizar os índios. Nesse ínterim, conseguiu manter contato com as tribos Gaviões e Krĩkatis, influenciando inclusive os líderes das tribos (PARÁ, 1851, p. 57).

Esses nativos foram aldeados em um lugar chamado “Campo dos Frades” (atual povoado do município de Cidelândia), onde o carmelita conseguiu agregar cerca de 1.000 (mil) nativos (PARÁ, 1851, p. 57-58).

No entanto, a terra escolhida para o assentamento da missão pertencia ao Dr. Antônio de Aguiar e Silva, de modo que a estada de Procópio no Campo dos Frades não demorou muito tempo, tendo que se deslocar para outro lugar para aldear indígenas (BARROS, 1993, p. 17).


3 A FUNDAÇÃO DA MISSÃO DE SANTA TEREZA
Em meados do mês de julho de 1852, Frei Manoel Procópio, exercendo seu chamado como apóstolo itinerante da fé católica e obedecendo a sua designação como aldeador e catequizador de nativos na região denominada “Alto Tocantins”, subiu ainda mais o Rio Tocantins, distanciando-se de Frades e estabelecendo no lado oriental do Rio Tocantins. Assim, estabeleceu sua missão em meio a matas e campos ribeirinhos, em um lugar apropriado para a reunião de múltiplas tribos “selvagens” e adequado para catequização indígena das regiões próximas. Esta passou a ser denominada “Missão de Santa Teresa”.

O local passou a ser designado nos documentos oficiais da Província do Pará como “Missão de Santa Teresa”, o mesmo nome da extinta colônia estabelecida 3 (três) anos antes em Itaboca. Procópio escolheu o território da futura cidade de Imperatriz por causa da enorme quantidade de indígenas existentes na região. Ali Procópio conseguiu reunir diversas etnias nos próximos anos, como os Gaviões, Krĩkatis, entre outras.


3.1 Os “primeiros elementos” da futura Vila Nova de Imperatriz
O estabelecimento da “Missão de Santa Teresa” decorreu das épicas disputas e conflitos entre nativos e colonos na região, o que gerou da parte do governo provincial a necessidade de enviar missionários religiosos com o fim de catequizar e domesticar os índios que habitavam a margem esquerda do Rio Tocantins entre o território que se estendia desde o presídio de São João do Araguaia até o povoado de Boa Vista na outra margem do rio.

A primeira descrição de Santa Teresa em sua situação inicial ocorre em 1870, quando o escritor quando César Marques escreveu seu “Dicionário Histórico-geográfico da Província do Maranhão”. O seguinte relato apresenta a descrição da chegada do missionário à região:


Em 16 de julho de 1852 lançou ele [Frei Manoel Procópio] os primeiros elementos dessa fundação em terreno plano e arenoso, e regado por abundantes olhos de água cristalina, e colocou-se logo sob os auspícios da Virgem de Ávila, Teresa de Jesus. Acompanharam Frei Manoel Procópio em sua peregrinação apostólica até este ponto as famílias dos cidadãos Juvenal Simões de Abreu e Zacarias Fernandes da Silva, e um pequeno piquete de quatro praças. (MARQUES, 1870, apud SANCHES, p. 145).
Tal relato, porém, foi elaborado em um período marcado por uma longa disputa entre dois povoados pelo título de vila, uma disputa que havia cismado a população de ambos os povoados e fomentado a produção de ideais voltados aos respectivos desejos e interesses dos mesmos. Isso se torna evidente na palavra “fundação” a que Marques se refere ao fazer alusão aos “primeiros elementos dessa fundação” é sua elevação à categoria de vila, episódio com o qual Marques inicia seu relato e que revela, portanto, sua primazia e importância na mente do escritor.

Para Marques, que escreveu logo após a elevação de Santa Tereza à categoria de vila, esse evento constituiu o principal marco da recente de Santa Tereza, de modo que todos os demais eventos históricos (inclusive seus momentos iniciais) passaram a serem lidos sob o prisma desse marco.

Além disso, a época de Marques também foi uma época marcada pelo etnocentrismo decorrente das perspectivas religiosas, filosóficas e científicas do século XIX e pelo ideal colonizador e civilizador pregado pelo governo imperial.

Portanto, a imagem ideal de uma vila provincial recém-fundada, na qual se alocavam distintas personalidades dos âmbitos políticos, econômicos e militares, era uma imagem adequada aos ditames da sociedade brasileira. (VALENTIM, 2010).


3.2 Interações inter-étnicas na Missão de Santa Teresa
Oficialmente, a Missão de Santa Teresa foi fundada por Frei Manoel Procópio sob a orientação do Regimento das Missões, elaborado em 1845, que estabelecia como deveria ser o trabalho dos missionários entre os índios. Pelo referido Regimento as responsabilidades dos missionários eram atrair, aldear, pacificar e catequizar os índios.

Em 12 de junho de 1852, o governo expediu o Decreto n° 639, que designava o limite territorial entre as províncias do Pará e do Maranhão. O local onde Procópio estabeleceu sua missão passou a integrar o território da Província do Maranhão. Porém, Frei Manoel Procópio somente veio a conhecer das novas demarcações meses depois, e ainda assim continuou a vincular Santa Teresa ao domínio da Província do Pará.

O aldeamento estabelecido no local denominado Santa Teresa, na então província do Pará e que mais tarde passou a ser domínio da província do Maranhão, representou uma missão indígena importante para o Império, pois a criação desse aldeamento caracterizou o encontro entre os ditos “selvagens” e civilizados nas margens do Tocantins. Os companheiros que Procópio trouxe consigo na viagem o ajudaria nessa empreitada.

No ano de 1853, Frei Manoel Procópio conseguiu reunir mais de 500 indígenas em Santa Teresa, sendo cerca de 300 da tribo Krĩkati. O número desse contingente permaneceria estável até o próximo ano, quando os relatórios confirmam que frade reuniu mais de 800 indígenas em sua missão:


O Missionario de Santa Thereza de Tocantins, que é um dos poucos dignos deste nome, communicou-me em fins do anno passado, que nessa occazião havião descido do Sertão para a sua missão 500 indigenas; em consequencia do que, e a seu pedido, mandei remetter-lhe novos objectos e ferramentas para lhes serem distribuidos; e ultimamente participou-me haver reunido ahi mais 302 da tribu Cracaty. (PARÁ, 1854, p. 37).
No entanto, muitos latifundiários que habitavam a região vários anos antes da chegada de Procópio nutriam antipatia em relação aos povos indígenas. Viam muito mais vantagem na colonização branca da região que no aldeamento e catequização dos nativos:
Antes, pois, de Frei Manoel Procópio aqui chegar, nosso sertão já era povoado com fazendas [...]: a de Francisco Gomes de Gouveia, que de tanto brigar com índios denominava-se ‘Forte’; a de Amaro Batista Bandeira que em campo aberto ferrava mil bezerros por ano, e se chamava ‘Fortaleza’, talvez pelo mesmo motivo da anterior [...] antes de sermos povoação já éramos posse da família Bandeira Barros e judicialmente território administrativo de Pastos Bons (BARROS, 1993, p. 13).
Além da “Fazenda Fortaleza” de Amaro Batista Bandeira, a mais importante de todas, havia também a “Fazenda Campo Alegre da família Milhomem; Fazenda Soledade de Marcos Gomes de Moraes; Fazenda Praia Chata de José Pinto da Silva; Fazenda Vitória de Eusébio Luis Rodrigues e muitas outras” (BARROS, 1972, p. 33).

Assim, a desavença entre os nativos e fazendeiros (ou melhor, a necessidade do branco de submeter o nativo) era épica mesmo antes da chegada de Frei Manoel Procópio na região. A atividade de Procópio possibilitou que a região fosse pacificada e que fazendeiros e nativos pudessem conviver em um mesmo território. Mais que isso, contribuiu para que os indígenas fossem submetidos aos mesmos sem o auxílio de armas.

A partir de então, diversos migrantes que subiam e desciam o Rio Tocantins começaram a se estabelecer na pacificada região de Santa Teresa. Nesse ínterim, passaram a ocorrer constantes evasões indígenas, obviamente ocasionadas pelo processo colonizador branco que tendeu a excluir os nativos da região.
3.3 Conflitos entre brancos e nativos na Missão de Santa Teresa
A autoridade dos grandes fazendeiros passou a exercer forte influência na região, tanto sobre o povo quanto sobre os nativos civilizados e inclusive sobre o próprio frei Manoel Procópio. O tenente-coronel Amaro Batista Bandeira foi um dos mais influentes latifundiários da região. Com a influência exercida por esses indivíduos, crescia também a antipatia dos mesmos em relação aos nativos. Tal atitude negativa atingiu seu auge no ano de 1855, quando o presidente da Província do Pará relata que o contingente de indígenas existentes na Missão de Santa Teresa estava provocando medo e receio no próprio Frei Manoel Procópio, sendo necessário que alguns praças tivessem que ser deslocados para manter a ordem:
Ultimamente tive participação de que para a Missão de Santa Theresa do Tocantins havião descido uns 800 indigenas da Tribu “Gaviões” e que á requisição do respectivo Missionario, que manifestára receios, tinha ido até lá com algumas praças, das quaes deixou algumas, o Commandante do destacamento de S. João d’Araguaia. O dito Missionario por occasião dessa mesma descida representou-me sobre a necessidade de crear-se ali um Districto de Paz, e de Subdelegacia de Policia, bem como de um destacamento mais forte; reconhecendo fundamentos neste pedido, não pude annuir á ultima parte delle á vista da pouca força de linha de que hoje dispõem a Provincia; no entretanto consultei-o sobre pessoa que pudesse ser nomeada Subdelegado na intençaõ de crear o Districto de Policia, e resolver posteriormente sobre o de Paz; á V. Ex.ª caberá a tarefa de prover a essa necessidade d’aquelles lugares tão afastados da acção da autoridade. (PARÁ, 1855, p. 8-9).
De fato, o número elevado de indígenas agregados em aldeamentos existentes na Missão de Santa Teresa propiciou o conflito que desencadeou atitudes de retaliação e rebeldia da parte dos nativos e principalmente ataques às diversas fazendas de criação bovina e agrícola existentes na região. Nesse sentido, a instauração de um Distrito de Paz e de Subdelegacia de Policia era essencial para a manutenção da ordem. Porém, a assimilação dos costumes e comportamentos do homem branco por parte dos índios, o desterritoriamento dos nativos mais valentes e principalmente o massacre dos mesmos eram elementos ainda mais eficazes. Dentro desse contexto, era esperado que em dentro de poucos anos a Missão de Santa Teresa se tornasse um povoado composto por homens brancos e por indígenas “civilizados”.

Em 1856, o relatório do presidente da província do Maranhão comunicou que diariamente os nativos depredavam o gado que estavam sendo agregados na missão e possivelmente o gado dos fazendeiros da região:


O missionario da nova missão de Santa Thereza [...] recorreu ao juiz de direito da comarca da Carolina pedindo força e protecção por causa das ameaças e depredações de gado, que quotidianamente erão feitas, segundo sua phrase, por mil arcos que circundão a missão, como o dito juiz acaba de trazer ao conhecimento da presidencia [....].(MARANHÃO, 1856, p. 70).
Não havia mais um destacamento militar oriundo da província do Pará devido a desanexação desse território em virtude da lei provincial n. 398 de 21 de julho do ano de 1855. Frei Manoel Procópio, que havia recusado restabelecer a missão de Santa Teresa em território paraense após tomar conhecimento dos novos limites territoriais, agora pedia auxilio ao governo do Maranhão contra os indígenas que ele mesmo estava incumbido de converter. Tratava-se, com certeza, de índios não aldeados, revoltados com a invasão do homem branco em seu território.
4 SANTA TEREZA: DE MISSÃO À VILA
4.1 A Missão frente ao processo colonizador
O cenário que estava sendo formado entre os anos de 1855 e 1856 na Missão de Santa Tereza exerceu considerável influência nas atitudes e decisões de Frei Manoel Procópio. O cenário de poucos anos atrás havia mudado; agora, o missionário tinha responsabilidades religiosas, políticas e sociais não apenas com relação aos indígenas aldeados e por aldear, mas também com relação aos fazendeiros da região e aos migrantes que habitavam ou passaram a habitar aquele lugar.

Naquela mesma época houve a desanexação do território da Província do Pará ao Maranhão. Sendo que o decreto n. 639 de 12 de junho de 1852 designou o rio Gurupi como limite entre as províncias do Maranhão e do Pará e o decreto n. 773 de 23 de agosto de 1854 marcou os limites entre as províncias de Pará e Goiás, era natural que Santa Teresa ou fosse extinta ou fosse incorporada aos domínios da Província do Maranhão. No entanto, o relatório da Província do Maranhão informa que nenhumas das alternativas vieram a ocorrer naquele momento:


Como, porem, este territorio, ultimamente incorporado á provincia do Maranhão, pertencia á do Pará, a presidencia desta determinou que para elle [Procópio] se transferisse a missão de Santa Thereza que, não obstante estar comprehendida no territorio da jurisdicção da diocese do Maranhão, recusou prestar-lhe obediencia. [...] [não deixando de] pertencer, como d’antes, á jurisdicção do parocho da Chapada, desde a cachoeira de Santo Antonio e Serra da Desordem até as raias do Pará [...]. (MARANHÃO, 1856, p. 69-70).
Deste modo, frei Manoel Procópio recusou-se restabelecer a missão de Santa Teresa em território paraense, após tomar conhecimento dos novos limites territoriais e que havia fundado sua missão em território maranhense, não paraense – chegando a desobedecer a uma determinação do governo provincial. Porém, já não eram mais claros os interesses de Procópio ao manter a missão. As alusões aos acontecimentos na Missão de Santa Tereza, entre os documentos da Província do Pará, começaram a gradualmente desaparecer a partir de então, o que significa que a decisão de Procópio no sentido de permanecer sob as raias do governo provincial do Pará não durou muito tempo.

Entre os anos de 1854 e 1856, a Missão de Santa Teresa havia entrado em um processo de transformação que culminaria no estabelecimento explícito de uma Colônia de Santa Teresa. Em apenas três anos depois de sua fundação, Santa Teresa já estava agregando uma aglomeração significativa de homens brancos e suas famílias. Por causa de sua localização relativamente estratégica no curso do rio Tocantins, os contatos entre navegantes e colonos aumentaram significativamente nos anos que seguiram ao início da atividade missionária de Procópio na região. Os próprios documentos oficiais da Província do Pará e Maranhão elaborados na época não mais se reportavam a Santa Teresa como missão, mas passaram a designá-la nominalmente como “Colônia de Santa Teresa”. (cf. PARÁ, 1857, p. 9).

A Missão estava fadada a compartilhar do mesmo destino de diversas outras missões indígenas: “[...] das antigas aldeias desta província, umas desapareceram, voltando os selvagens as suas antigas habitações, e outras se converteram em povoações, confundindo-se os originários habitantes com o resto da população” (MARANHÃO, 1854, p. 30). Diversos aldeamentos acabaram se tornando povoados, freguesias e vilas, como é o caso de Monção, Guimarães e Viana, Pastos-Bons, Barbados, entre outras. Santa Teresa foi um desses aldeamentos transformados em povoados e que alcançaria seu auge mais tarde, quando transformada em vila.

Assim, a partir do momento em que o missionário encontrou-se desvinculado às exigências originais estipuladas pela Província do Pará acerca da catequização e aldeamento indígena na região, e vendo quão infrutíferas estava sendo sua missão, agora diante de uma realidade propícia a colonização e ao estabelecimento de atividades econômicas, era natural que pleiteasse ambições diferentes e assumisse novas posições dentro daquela realidade social.


4.2 A controvérsia sobre a criação da Vila Nova de Imperatriz
No entanto, a possibilidade real de Santa Teresa prosperar como colônia surgiu no ano de 1856, quando veio a tona um dos mais importantes marcos, segundo a historiografia oficial, para a história de Imperatriz: a lei provincial n.º 398 de 27 de agosto de 1856, assinada pelo presidente da Assembleia Legislativa provincial do Maranhão, Manoel Gomes da Silva Belfort, o “Barão de Coroatá, estipula um território próximo a Santa Teresa fosse elevado a categoria de vila:
Art. 1. Fica criada a Vila Nova da Imperatriz, sobre a margem direita do Tocantins, no sítio que o governo julgar mais apropriado para o assento da mesma, fronteiro, com pouca diferença, a vila da Boa Vista, da província do Goiás, logo que haja nele começo de povoação, e casas para funcionarem as respectivas autoridades locais. (MARANHÃO, 2010 [online]).
Os grandes fazendeiros que viviam ao redor de Santa Teresa viram nessa lei a oportunidade de trazer o mundo civilizado para aquelas terras. A criação de gado da região prometia um futuro promissor caso houvesse colonização na região. O próprio “ciclo econômico do gado” foi essencial para que, rapidamente, Santa Teresa deixasse de ser uma missão indígena e passasse a desempenhar o papel de colônia civil ou povoado em processo de transformação em vila.

Com a elevação do povoado emergente que ficava na Missão de Santa Teresa, à categoria de vila, o território gozaria de desenvolvimento e segurança, sendo que as fazendas e gados estariam protegidos da belicosidade dos nativos. Além disso, o gado poderia ser escoado com maior facilidade e segurança, tanto por via fluvial quanto por via terrestre, já que a fundação de uma vila requeria a criação de estradas.

No entanto, outro povoado, fundado ao sul do território de Santa Teresa, também estava em processo de desenvolvimento: Porto Franco. O processo de povoação desse povoado foi diferente ao de Santa Teresa; Porto Franco não foi fundado por missionário, mas por agricultores oriundos de Boa Vista (atual Tocantinópolis), que ficava defronte a mesma. Não havia interesse original em atividade catequética, mas em produção agropecuária para fins comerciais. Tal processo de povoação começou em 1854, atingindo um auge de desenvolvimento entre os anos de 1858 a 1878. (RODRIGUES, 2001, p. 135).

Tendo em vista o fato de que a lei provincial n.º 398, de forma alguma, estipulava se e qual dentre os dois povoados, Santa Teresa ou Porto Franco, seria a sede da então criada Vila Nova de Imperatriz, daí iniciou-se uma cisma entre as duas povoações pelo título de vila. Não se trata de elevação de categoria, mas de estabelecimento de uma nova vila, algo comum nos tempos do Império. A região maranhense fronteiriça à vila de Boa Vista do Goiás não era Santa Teresa, e sim Porto Franco.

Assim, o próprio frei Manoel Procópio investiu esforços no sentido de fazer de Santa Teresa, sua antiga missão, um povoado, e de estabelecer ali, em 1856, a Vila Nova de Imperatriz, em detrimento de Porto Franco, o povoado correto onde a vila deveria sediar:
O que o governo queria mesmo era a criação de uma vila fronteiriça à de Boa Vista, hoje cidade de Tocantinópolis... As provas apresentadas por [....] Frei Manoel Procópio, que afirmavam ser [Santa Teresa] [...] a localização [estabelecida pela Lei provincial n.º 398 de 27 de agosto de 1856], foram derrubadas pelas justas e verídicas alegações de Porto Franco (BARROS, 1972, p. 27).
Porém, foi somente em 09 de junho de 1859 que a Vila Nova de Imperatriz passou a sediar oficialmente em Porto Franco. Entretanto, devido às acirradas disputas entre os dois povoados, principalmente a grande influência dos grandes fazendeiros da região, em 05 de dezembro de 1862, o governo decidiu sediar a vila em Santa Teresa.

Desse modo, em plena virada dos anos 1850 para 1860, no auge da disputa política entre Santa Teresa e Porto Franco pelo título de Vila Nova de Imperatriz, a missão que Frei Manoel Procópio estabelecera naquela localidade já havia sido deixada para trás: “Há um aldeamento [...] em Santa Teresa do rio Tocantins [...] no mesmo estado dos antecedentes [...] em completa decadência” (PARÁ, 1859, p. 59).

O estabelecimento da Nova Vila de Imperatriz constituiu um marco histórico de enormes proporções para os habitantes locais, ecoando em toda a região, inclusive no trabalho de escritores e historiadores, como César Marques. Mais tarde, no ano de 1924, a vila, que gozava cada vez mais de ascendência progressiva, seria elevada à categoria de cidade.

Nesse ínterim, no entanto, deve-se ressaltar que muitos indígenas já haviam adentrado em um nível elevado dentro do processo de colonização, adquirido hábitos “civilizados”, o que contribuiu cada vez mais para a criação de um ambiente adequado ao estabelecimento da Vila Nova de Imperatriz em Santa Tereza. No entanto, a maior parte dos indígenas da extinta Missão de Santa Tereza foram simplesmente expulsos do território e obrigados a viver uma odisséia em busca de terras que duram até os dias de hoje.


5 COLONIZAÇÃO OU CATEQUIZAÇÃO: REVISANDO A HISTÓRIA LOCAL



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