Missa do galo



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Encontro30.07.2018
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MISSA DO GALO

Julieta de Godoy Ladeira


"Boa Conceição! Chamavam-lhe 'a santa', e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido."

Machado de Assis


Não vem à tona com freqüência. Seria mau. Surge entre minhas tarefas quando há calma e silêncio, trazendo seu perfume e sua culpa, seu mistério, a inocência que me faz sorrir imaginando se hoje, afinal, ele compreende, e se nessa compreensão há benevolência. Suponho que não. Julgo mais fácil o esquecimento ou a dúvida ainda, o sentimento de perda.

Isso não importa. Faz tempo.

Sabia-o lá embaixo, lendo. Esperava os amigos, iriam à missa do galo. Terno escuro, camisa nova. O banheiro guardara o cheiro da loção. Sem encostar de todo a porta de meu quarto, ouvi quando foi à cozinha tomar água, fechando devagar a geladeira. Os ponteiros verdes brilhavam num ângulo aberto, estendiam-se em compasso crescente, dez e tanto. Ritmo ofegante, quase insuportável, mas contínuo.

Hábitos sempre iguais.

Refeições servidas cedo, a criada saindo antes das oito, Menezes e o jornal, minha mãe tricotando junto ao rádio. No quintal eu molhava as plantas, lentamente, encontrando prazer nessa momentânea solidão. Depois servia o chá. Uma ou outra vez íamos ao cinema, nunca fora do bairro. Primeira sessão. Quando o Menezes saía eu aproveitava para costurar até mais tarde, conversar com a vizinha, ficar sentada na varanda olhando a rua. Capim entre as pedras, árvores velhas, raízes quebrando o cimento das calçadas. A princípio aguardava apreensiva. Tivemos cenas. A época não era a de hoje, minha mãe aconselhou-me a ter paciência. Não havia ciúme, não houvera amor. Entretanto, humilhada, eu sofria. Deixou de voltar pela madrugada, passando a somente aparecer no dia seguinte. Salvava as aparências com desculpas.

Nada faltava em casa. Eu o envolvia numa tranqüila atmosfera de ódio complacente. Alguns sabiam, a piedade das pessoas me irritava, mas também disso afastei-me. Um dia o vitral seria quebrado, precisava estar preparada, em ninguém colocando minha força, minha espera. Comprazia-me roubando a ambos o resto da semana, as tardes de domingo, o nome, o quotidiano, o respeito. Agora ao pensar nisso amoleço num mal-estar que me entristece.

Julgavam-me acomodada à situação.

Quando escreveram sobre a vinda do parente para as férias, Menezes hesitou em responder. Não lhe agradava a idéia de ver um estranho por ali, a entrar e sair, tornando constrangedoras suas metódicas ausências. Mas não podia negar, devia favores ao pai. Arrumei o quarto de costura, arranjei uma estante para os livros, forrei os armários, fiz nova coberta para a cama. Minha mãe, no aposento ao lado, não o incomodaria. A velhice tornava-a quieta e deslizante.

Amigos convidavam-no a jantar, conhecer a cidade. Subia a escada com todo o cuidado, apagando a luz do corredor antes de ir dormir. Quando a claridade, como um sinal, deixava de aparecer, sentia-me bem sabendo-o perto. Aquele rapaz, seus olhos deslumbrados já à hora do café amanhecendo em minhas roupas, meus braços, levando-me a um reencontro com o esquecido desejo de posar, à consciência perdida de meus seios, minhas formas de mulher.

Vozes e músicas chegavam de longe. Cães latiam. O Menezes e a outra, essa noite, como em várias. O fato de ser Natal alterava a minha passividade, atingindo-me com sua carga de imagens vulgares. A mesa, a família, os presentes, mais difícil fugir.

Afastando a cadeira, dera alguns passos pela sala. Era como se o visse. Há muito esperava uma aproximação maior, agora possível, embora ameaçada, o ângulo verde se abria, luminoso, lento mas preciso. Tinha que descer.

Esbarrei na árvore enfeitada, as bolas tilintaram. Ergueu a vista do livro. Parei ao espelho soltando os fios dourados que se prenderam a meus cabelos. Penteara-me como havia muito não o fazia, escolhendo o roupão de rendas do enxoval, pouco usado, com um leve odor a naftalinas que se desfez ao perfumar-me.

-Ainda esperando?

-É cedo.


Sentei-me à sua frente, como durante as refeições, até então os momentos mais importantes do dia. Não o percebi logo, ao começo cheguei a aparecer com o rosto sem pintura, trajes descuidados. Aquilo – nem mesmo sabia o quê – insinuou-se entre uma e outra atenção, partida de mim, que sem consultar razões as criava e repetia, certa de apenas oferecer hospitalidade, o carinho que não tinha a quem proporcionar. Trocava as flores da jarra de seu quarto. Toalhas limpas. À tarde, só, bordava sentada à sua cama, repousando depois no travesseiro onde o fumo persistia, uma cumplicidade imóvel. Enquanto falava ao Menezes, eu o observava, a seguir o sentia a acompanhar meus gestos que fazia vagarosos, pegando os talheres com requinte, procurando abrir os lábios em estudada maciez para o pão, a sobremesa. Fingia não ter fome. Ele gostava de doce de leite, baba-de-moça. Vendo-os nas compoteiras, agradecia a iniciativa à minha mãe, que se esmerava.

-A senhora parece que adivinha, dona lnácia.

-Nada, senhor Nogueira. A lembrança foi de Conceição.

Pela primeira vez sós, ao redor da mesa, como ainda ao almoço o imaginara, ignorando a criada, o serviço, os outros. Mas sem nada em que tocar, nem copos nem descansos, as mãos ficavam sem rumo, dominadas pelo impulso da procura. As tábuas sem toalha, eram também um elemento novo que se dava.

-Por que acendeu só o abajur? Ler com pouca luz faz mal.

-A lâmpada é boa, dá bem.

Minha presença o preocupava. Fizera algum barulho para acordar-me?

-Não, não tinha sono. Pensei que já tivesse ido. Desci para buscar um livro.

-Tenho alguns que talvez não conheça. Posso ir ver.

-Deixe estar. Depois. Não se incomode.

-Vou num instante.

-Mamãe pode acordar. Tem sono leve.

Inclinei-me um pouco, fechando o livro sobre suas mãos, para ler a capa:

-Os Maias?

-Nem senti o tempo passar. A senhora já leu?

Aquela adolescência. Etapa natural, um caminho percorrido que não devia nos distanciar. Precisava retrair-me, citar leituras românticas, deixá-lo à vontade. Pressentia a transposição fácil, bastaria adotar uma determinada postura, dizer uma frase de certa maneira, para que instintivamente passasse a ver em mim Maria Eduarda, e outras associações ocorressem. Estranho como crescia. Os pulsos, a penugem das mãos, um homem. Nascido de temores e enlevos, durante minhas insônias. O ondular dos cabelos era uma necessidade de bocas, nos olhos se quebravam visões de peles, meus pés, o colorido das chinelas, as pernas entre as dobras do roupão, o tecido tocava-as, aconchegante, ao levantar-me caminhava arrastando uma esteira ardente, um sol, pavão em seu instante de leque. O teto de madeira bem mais alto. A janela aberta abafava, encostei-a arranjando as dobras da cortina.

Examinei os discos, espalhando-os sobre a tampa da vitrola.

-Gosta de Debussy?

Em outras noites ouviríamos todos os concertos, tinha muitos. Agora era impossível, melhor falarmos baixo, evitando ruídos. Quase não se abria aquele armário, os álbuns estavam empoeirados. Ao Menezes aborrecia a música fina. Vinham do meu tempo de solteira. Mas sem companhia se perde o gosto para ouvir. Não é mesmo? Não tem graça. Como árvore de Natal. Há tantos anos não a armava. Ficou bonita?

-A senhora tem muito gosto.

-Já tive. Ando perdendo o jeito. Deve ser velhice.

-Que é isso, dona Conceição! Imagine.

-Não me acha velha?

A resposta provocada descia por meu corpo, e eu renascia junto a seu rosto. Muito próximos. Ficaria a noite toda olhando-o assim, fixamente. Ouvia-o. Falava encobrindo o embaraço, mas desamparado nas pausas pedia-me apoio, negava-o, insistente, na mesma posição, o rosto entre as mãos cruzadas, um desafio, dona Inácia lá em cima, longe o Menezes, de onde surgira aquele estranho? De mim? Formas que, projetadas na parede, são como desejamos, parecem bichos, dragões que se desfazem quando baixando as mãos deixamos de brincar. Queria-o estático, vulnerável, meu.

-E se esquecerem de passar por aqui?

-Paciência. Vou dormir.

-Eles virão.

Sorriu à minha séria afirmativa.

-Como é que a senhora sabe?

-Não ficaram de vir?

-Sim, mas se esquecerem...

-Você vai dormir. Eu também. Não está com sono? Mandei a criada tirar a colcha de sua cama, por causa do calor.

-Tenho dormido quase sempre descoberto.

-Psiu...fale mais baixo. Ela pode acordar.

Diminuímos bastante o tom de voz. Quase murmurando, sentei-me a seu lado no sofá.

-Eu sei. Vejo como as cobertas amanhecem. Não sou capaz de dormir assim. Preciso sentir o peso do lençol, da colcha. Sem isso não pego no sono. É engraçado, tenho a impressão de ficar desprotegida.

Levantou-se, olhou-me de frente, parado, indo depois para a poltrona, junto ao bar.

-Quer tomar alguma coisa? Podíamos bem comemorar nosso Natal.

-Se a senhora quiser...

Segurava o copo sob a luz, diante do livro. Atrás do líquido, as letras pareciam maiores, as frases se deformavam numa dança circular. Falava-me de sua terra, os costumes, reminiscências de criança, os pais, a faculdade.

-É um lugar pequeno.

-Como aqui.

-Aqui?

-Em casa.



Ergui o copo, sorrindo, passando-o por seu rosto. Ria também, desviava-se, até fechar os lábios numa pesada gravidade. Apertou o botão do abajur, ficamos surpresos e assustados, por um segundo talvez, tão grande, logo nos vimos, aqueles semblantes tensos, os dois paralisados ao redor da mesa. Tirou o copo de minha mão num contato demorado, deixou-o de lado, ficou de pé. Com movimentos ágeis fui até à escada, fingindo escutar algum barulho.

-Você ouviu?

Não respondeu.

-Um estalo...

Agora meu corpo, ereto, parecia uma coisa a mais, crescida na planície como um fenômeno que o chão quisesse de volta. Ele em seu hermético silêncio, a poucos metros, tornando desconcertante aquela fuga.

A mágoa do recuo, a vergonha, a raiva, o peso da hora, minha casa e as toalhas de crochê, as plantas, a paciência e os anos, uma mulher e sua vingança, queria o Menezes ali atrás das cortinas, todos os homens me vendo, rostos sérios, punhos cerrados, à espera. Todas as mulheres andavam em meus passos, sentindo-se atraentes e nuas quando atravessei a sala, indo para a poltrona, como se não o visse. Sabia que nunca em minha vida estaria como então, eu que nem mesmo de ordinário me achava bonita. Ao sentar-me, ajeitei o roupão, as pregas esconderam os pés que ele, concentrado, admirava.

-Dona Conceição...

-Sente aqui.

-Penso que são horas.

-Ainda é cedo.

-Não, deve ser quase meia-noite.

-Baixo, fale baixo.

Fechei os olhos, aguardando, e então o que via, a se debruçar sobre meu peito, eram as paredes do quarto, familiares, com sua antiga solidez, e os ponteiros luminosos percorrendo estradas, cidades, abandonos. Não sei quanto tempo ficamos assim, lado a lado. Levantei-me, impedindo que se movesse, as mãos em seus ombros. O pano do paletó não tirava a impressão de meus dedos apertando sua pele, queria dizer as palavras exatas, mas achava que todas, mesmo as capazes de conduzir, quebrariam aquele encanto, para sempre uma entrega.

Já delineado, suspenso no ar, o movimento de encostar sua cabeça a meu peito. Bastaria uma suave pressão. O vento tornava a afastar a janela. Senti frio. Voltei para perto da mesa. Cansada. Aragem, dor, sua timidez, reparava só agora nos cabelos arranjados de modo vulgar, o aspecto provinciano, o olhar onde faltava vida conquistada, posse de milagres, nele o homem ainda ausente. Ato sem horizonte?

O livro ainda na mesma página, os copos ao lado. Natural vê-los assim, mas incrível permanecerem iguais. Qualquer coisa continuar do mesmo modo. O aparador, as paredes, os quadros.

-Não gosto dessas molduras. Ele é que adora dourados, anjos, arabescos.

-O rococó é um estilo.

-Para cabarés de luxo.

-A senhora nunca foi a nenhum.

-Não, mas imagino. Devem ser assim. Com miçangas, almofadas, odaliscas pintadas nas paredes, espelhos enfeitados. Não são? Lâmpadas coloridas, gatos em canapés. Vou mandar pintar esta sala, modificar os móveis. Quero que fique bem clara. Depois, ali, ponho o oratório que está em meu quarto, com os santos barrocos. Alguns são bem antigos. Já viu? De Ouro Preto.

Saltava de um para outro trapézio, as mãos agarravam as cordas esticadas, procurando equilíbrio. Eu estava só, há muito tempo, muitos anos, por que não compreender isso mais fundo, uma noite pode ser mais longa do que a vida inteira, odiava aquela voz feminina tagarelante, o ressentimento de mulher medrosa, a maldade atirada contra mil arestas, até contra o fato de ser ele, não outro.

Esse acordar, uma esperança, gente passando pela rua, desânimo, gostaria que não tivesse entendido, no dia seguinte sua lucidez me seria desagradável. Vazia, sem aquele papel que me servia tão bem. A senhora do Menezes. Invulnerável. Um desempenho que caía descansado em meu corpo.

-Estudei em colégio de freiras.

Desfilei imagens antigas num esforço para fazê-lo ver a inocência anterior, julgá-la presente, tê-la nas mãos e em todos os dias que restavam. Um equívoco. Falso à-vontade, frases entrecortadas, o passado jogado à sua frente, com desprezo, como se mostra uma peça de tecido. A qualidade é boa. Veja. Você não é capaz de rasgar.

Aquilo? Não é nada. Um defeito sem importância.

-Vou mudar também as cortinas.

Atirada de cima, agitava-me na rede, antes de num último impulso saltar para o chão. Um ensaio. Sem público. Pela primeira vez só em sua presença, ignorando-a. Os ombros caíam, encostava-me à cadeira sem precisar estudar posições, sabendo que isso me envelhecia. Queria que esse momento se prolongasse ainda, um pouco mais, mesmo assim, já perdido. Sentiria falta, mais tarde, daqueles cuidados, das horas em que o observava, entre um e outro prato. A mocidade daquela expectativa, a vibração daquelas noites, a luz do corredor, um sinal, um chamado de longe.

Estremecemos, ouvindo a campainha. Ele teria adormecido? Levantava-se do sofá com lentidão, arranjando o paletó. Quase um menino.

-Estão aí. Vou subir. Se quiser, convide para entrar, ofereça alguma coisa.

-Não, obrigado, já é tarde.

-Não posso aparecer assim.

Subi a escada ouvindo-o abrir a porta, falar com os amigos, fechá-la, girando a chave duas vezes. Parei nos últimos degraus. Tornei a descer. Guardei o livro, lavei os copos, esvaziei o cinzeiro. Passando por seu quarto, tive vontade de entrar. Pena eu não o ter retido, mas pelo menos restara um certo desafogo. No dia seguinte vagaríamos pelo mesmo mar, decerto recomeçando.



Partiu em fins de janeiro. O relógio continuou a marcar aquela casa com seu ritmo estreito, brilhando em noites pequenas que não me encontraram a mesma. Agora tolerante, alheia. Passeios demorados, sonolências, vagares. Inclinava-me para outro, o gerente de nossa firma, com quem me casaria após a morte do Menezes.

O rapaz não voltou nem deu notícias.



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