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ORFÃOS DE JÂNIO – página

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OS ÓRFÃOS DE JÂNIO

De Millôr Fernandes

Importante para a interpretação
Minha última peça, É..., é um discurso sobre a falência das ideologias. Mais obviamente, coisa que foi notada pela maioria absoluta dos espectadores, é um trabalho sobre a inutilidade das teorias. Todas as palavras, ações e referências, inclusive a mitos (deuses gregos), emprestam-lhe o claro e angustiante clima, sempre presente em tudo que tenho feito – inclusive nas artes plásticas – a partir de determinado momento de minha vida: o sentido metafísico da existência, a teoria ocasional da vida e, conseqüentemente, da História. Não há leis.

Claro, isso foi transformado, pela eterna minoria reacionária mafiosa e, sobretudo, simplória, da pobre imprensa brasileira, numa “peça de costumes”!, numa “relação de casais”!!, numa, Deus do céu!, “comédia de bulevar”!!! Sancta Simplicitas!

Por isso deixo assinalado aqui, para evitar, pelo menos, equívocos iniciais, que, nesta peça (apesar de seu conteúdo intensamente político ser capaz de fazer algumas peças ditas políticas parecerem teatro infantil), o conteúdo político não é o mais importante. Esta é, basicamente, uma peça sobre a angústia humana.
M. F.
PERSONAGENS
Barman – Negro. Um símbolo quase silencioso. O Autor?

Conceição – Branca. Uma funcionária pública que amava Jânio.


Beto – Negro. Um cantor que esteve lá em cima. (Apesar de suas afirmativas, não deve ficar definido se é homossexual, ou não. Atitudes agressivas, vagos maneirismos.)
Nelita – Branca. Uma moça que se emancipou. Ainda usa alguns colares e anéis, restos do tempo em que foi “A Rainha dos Berloques”.
Carlos – Branco. Jornalista, isto é, prisioneiro de uma profissão excessivamente vulnerável.
Gilda – Branca. Uma diletante que jamais entendeu bem o enredo. Apenas uma, da turma.
A Concetta de Napole e Maria Viola Fernandes, de um outro mundo.
We must not then add but rather lead and ballast to the understanding, to wings, prevent its jumping or flying.”
Bacon. Novum Organum, I, 104.
Este pensamento vai no original não por pedantismo, mas para dificultar ainda mais sua compreensão. Aprendi isso observando o comportamento de inúmeras lideranças.
M. F.
OS ÓRFÃOS DE JÂNIO

ATO I




Cenário



(Bar, meio fechado. Não um bar ostensivamente de luxo, um bar fingidamente sem luxo. Tipo Vilarino, na Av. Presidente Wilson, 68. Na frente, uma loja, que pode ou não ser vista, onde se vendem bebidas, queijos, conservas e coisas do gênero. Na parte do bar propriamente dito, onde se desenrola a ação, as mesas são simples, com tampos grossos, de mármore branco. Em volta, caixotes, sacos etc.)

A representação deve ser feita em arena.



Atenção, Direção e Atores:

Os personagens fazem referências indiscriminadas a posições políticas, sociais e artísticas. Gozam, criticam e atacam, segundo vários pontos de vista. Portanto, nesta peça, mais do que em qualquer outra, é extremamente perigoso alterar ou omitir palavras e frases, sem uma visão total do conjunto.


(Blecaute. Durante 30 segundos. Ouve-se, forte, o som de fita de gravador, voltando. Luz sobe em resistência. Em cena, o Barman que, durante a representação, vai servindo os fregueses, de acordo com os pedidos, os gestos, ou por ver que estão de copo vazio. Conceição já está em casa. Magra, ossuda, meia-idade, usa a roupa colonialista, baseada na que os ingleses usavam na Índia, e que Jânio pretendia adotar nas repartições públicas brasileiras. Em Conceição, isso é uma forma de ecmnética física. Ela está de pé, hesitando onde sentar, por isso vê-se bem a roupa. Senta. Olha para cima. O som da fita pára. O Barman serve e, enquanto isso, fala. Num certo ponto, fala pro alto, com naturalidade, como se ali houvesse uma cabine de um técnico de tevê. Mas não deve dar nenhuma ênfase especial a isso.)
BARMAN
O século XIX só acabou em 1918, no fim da Primeira Guerra Mundial. (Com tédio.) Isso já foi muito dito. O século XX acabou vinte anos antes... pra ser exato (Olha o relógio.), hoje, agora. (Sorriso.) É a primeira vez que isso está sendo dito. Première Mundial. (Pausa.) A verdade é que todas as propostas para o século XXI já foram feitas. Não há mais absolutamente nenhuma proposta a fazer. (Agora fala pro alto.) Os personagens, a não ser nos dois ou três breves momentos em que eu indiquei, não dialogam. Estão falando pra si próprios, ou dando entrevistas, estão no confessionário, num julgamento, lecionando, num psicanalista, num interrogatório. Ou apenas pensando, curtindo. Ruminando. (Pausa. Agora, no tom inicial.) O homem é um animal que se justifica. (Vai pra trás do bar, fechando a garrafa.)
CONCEIÇÃO
Agosto é fogo. Pela primeira vez eu fui pro Ministério com aquela roupa que o presidente tinha recomendado – e ele próprio usava! Uma idéia muito socialista, mas coisa descontraída, tropical, nada daquele uniforme chinês que é uma pobreza. O presidente tinha pegado a idéia na Índia, não, no Egito – ele era tarado pelo Nasser: eu era tarada por ele. Tudo que ele fazia eu estava de acordo – fiquei de acordo até quando, lá no Palácio Alvorada, ele mandou o Zé Aparecido botar a mala do governador Carlos Lacerda no meio da rua – e eu era fanzíssima do Lacerda! Tinha colegas que achavam ridículo. Presidente não deve se meter em certas coisas. Eu acho que presidente tem que se meter em tudo. Ele é o pai de todos nós. Jânio era. Eu assisti ele na televisão, com o Estado de S. Paulo na mão – isso, no tempo em que os Mesquitas mandavam no país: o Estadão falou, tá falado. Mas Jânio não via cara: mandou brasa nos Mesquitas, explicando pra gente que aquele montão de papel cheio de anúncios era tudo subsidiado! Tudo pago pela gente. Uma pouca – vergonha. Olha: pra ser presidente da República tem que ser macho. É por isso que eu sou contra mulher em política. (Bebe. Beto entra. Preto. Alto. Veste roupa envenenada, na linha do cabeleireiro Silvinho. Olha em torno, agressivo, absoluto ar de desdém. Subitamente, se atira no chão, beija o chão, como o papa. Os outros não tomam conhecimento. Conceição acaba de beber, fala, enquanto Beto vai ao balcão. O Barman lhe dá um copo maluco – deve ser uma exigência habitual dele – com uma bebida de uma cor impossível. Ele fica bebendo, de cabeça baixa.) Jânio era macho. Levantava às 5 da manhã e lia todos os jornais – não era recorte não; com ele não tinha esse negócio de sinopse! Lia tudinho enquanto tomava café. E tacava bilhetinho pra todo mundo: ministro, general, embaixador, pra Deus e o diabo na terra do sol. Agora, tudo no devido respeito. E com português perfeito, chamando todo mundo de V. Excelência. “V. Excelência, senhor contínuo da 3ª Auditoria, vem sendo reiteradamente relapso em suas obrigações funcionais, o que, em breve, torná-lo-á...” (Pausa.) Você já imaginou o prefeito de Muribeca dos Curibocas recebendo um bilhetinho de censura do presidente? Se borrava todo. Eu sei do que tou falando; minha maior emoção foi no dia em que meu chefe me disse: “Dona Conceição, o presidente mandou um bilhetinho pra senhora”. Achei que era trote. Todos sabiam que eu adorava ele. Mas, quando vi o timbre do papel, meu coração saltou pela boca. Comecei a suar e a tremer. (Da bolsa, com a mão tremendo, ela tira um bilhete velhíssimo, exageradamente velho, todo amassado, um papel que já foi lido e relido mil vezes. Abre. Lê.) “Senhorita Maria da Conceição Crisóstomo, sua eficiência e probidade...” (Continua lendo, sem som, desiste, acaba guardando o bilhete, com mão trêmula.) As duas maiores emoções da minha vida – essa e a outra, naquele dia calorento de agosto de 1961, quando seu Pelé, o pretão enorme, chefe da limpeza, entrou na minha sala, quase branco, e gritou pra todo mundo: “O presidente se matou!”
BETO
(Se levanta, o copo na mão, bebe tudo. Pega o copo como um microfone, afasta fios invisíveis, canta, no máximo da voz, prolongando bem as palavras.)
Morreeeeeu

Malvadeza Durão

Malandro.

Mas muito considerado.


O que é que faz a porra de um toureiro que engordou? O que é que faz um Pitangui com a porra de um delirium tremens? (Olha o copo, longamente. Quebra o copo no chão, com violência.) O que é que faz a porra de um cantor sem microfone? What am I doing here? Me diz, que é que estou fazendo aqui? (Patada no chão.) Não, aqui neste bar não. Nesta rua. Nesta rua, uma porra. Nesta cidade. Na porra deste mundo? Que é que estou fazendo aqui, na porra desta galáxia, se a única pessoa que me interessa, já me interessou e vai me interessar não me interessa? Bicha é fogo. Não que eu seja. Fogo, eu digo. (Carlos entra como quem vem do banheiro, abotoando a braguilha. Já é meio grisalho. Senta. Fuma e bebe o tempo todo.)
CONCEIÇÃO
Alguém tinha misturado a renúncia de Jânio com o suicídio de Getúlio e seu Pelé gritava que Jânio tinha estourado os miolos. Mas, no arquivo, o rádio tava dando tudo. Eu não entendia é por que ele es­tava preso em Cumbica; não tinha renunciado? Era crime? Todo mundo fazia declarações cívicas, es­tavam procurando o vice-presidente na China – o que é que o vice estava fazendo na China, Deus do céu, na hora em que o presidente mais necessitava dele? O negócio é que a essa altura já tinha mais de mil urubus voando em cima da carniça do poder – tinha os milicos, tinha o cunhado do Jango, tinha as multinacionais e, como sempre, tinha o Tancredo Neves. A Laura, uma miudinha muito dadeira da recepção, entrou saracoteando na sala, comendo um sanduíche de mortadela (Dizer mortandela.) e resumiu tudo: – “Vamsimbora, pessoal, que a moleza já voltou – todo mundo pra praia”.
BETO
Sempre fui udigrudi. Tudo normal. No Brasil, tirando os empresários paulistas, tudo é udigrudi. Mas eu me safei bem. Engrenei com uns bacanas aí da (Hesita na palavra.) inteligêntzia (Pronuncia inteliguêntízia.), aprendi muito de oitiva. (Aponta pro ouvido.) Ouvido absoluto. Sei mais de mil parolas. Mas o que eu queria mesmo era ser astro da Globo. Disco de ouro. Cantor de esquerda. Os pascácios da classe média todos botando dinheiro na minha bilheteria e eu protestando. Os pascácios da (Mesma hesitação anterior.) inteligêntzia me fazendo apenas pequenas restrições. Acontece que, quando pintei no mercado, a praça já tava com excesso de cantor de esquerda. Tive que cavar meu espaço onde desse, e, quando vi, estava abrindo o bico numa boate “bem”, e a crítica me rotulou de crooner de direita. Alguém tinha que ser. Bom, já lá vão cem anos, muita merda passou por baixo da ponte. Mas, ó, ainda agora, se você quiser me ouvir de terça a sábado, é só pagar o preço de um churrasco rodízio que o rouxinol aqui recebe dez por cento do cuvér. Eu canto no Babaca.
NELITA
(Entra. Mulher um tanto gasta. Deve ter sido bonita. Breves, quase imperceptíveis tiques nervosos. Senta.) Pronto, aqui estou eu de novo. Daqui a pouco estou comemorando bodas de prata de promessa de nunca mais pisar aqui. É mesmo? Eu sou uma alcoólatra? Alcoólatra bebe pra esquecer, pô! Eu bebo pra lembrar. Pra mim só tem vida pra trás. O Dr. Pelegrino, meu psicanalista, chama isso de ecmnésia. Este bar devia se chamar Ecmnésia. Isso aqui era uma imundície de artistas e contestadores. Todos achando que o que tramavam aqui repercutia no Araguaia. O pior é que, às vezes, repercutia. O Rio ainda era a capital intelectual, aqueles babados. Por que é que ninguém fala? O bar não é o mesmo? Perdi o charme? Ou foi a revolta que perdeu? (Bebe.) É isso aí: quem está revoltado já num tá cum nada. A palavra de ordem agora é a ordem unida.
CARLOS
(Dá uma baforada, amassa o cigarro no cinzeiro. Bebe uma boa golada de uísque.) Eu não fumo nem bebo. (Pausa.) E nunca minto. Todos me consideram o paladino da verdade. Eu sou o ladino da verdade. Nunca, em toda a minha vida de dono de jornal, eu passei um cheque com fundos. Meu jornal já foi fechado e arrebentado pela direita, pela esquerda, por um ministro mais corrupto do que o combinado, e, naturalmente, por credores, cansados de colaborar com a minha indômita resistência cívica. Em 61 eu tinha trinta anos. Vinte anos depois, estou com 60. Trinta por cento de correção monetária pelas paradas que topei. Claro que fui a favor da posse do Jango. Ele é que não foi. Se o Brizola não empurrasse, ele ficava se tostando lá na Costa do Sol, numa boa. E tinha mudado a história, pra melhor. Do poder, o que ele gostava mesmo era das coristas do teatro rebolado. Um liberal! Mas como liberalismo tem hora, mandou me prender, no dia em que publiquei uma frase dele: “Os dias do poder são bons mas as noites do poder são gloriosas”. (Aponta pra si próprio.) Treze prisões em quinze anos – e 127 vezes arrastado pra prestar declarações. “Hay gobierno? Soy contra. No hay gobierno? Soy contra también.” Imprensa é oposição: o resto é armazém de secos e molhados. Mas em armas eu não peguei, não. Não sei nem onde é que fica o gatilho de um revólver. Meu negócio é acabar com as forças armadas: por que é que vou apoiar outra força armada? Mas, na hora do pega pra capar, garotos, eu não dei no pé, não. Tão lembrados? Eu sou um daqueles que não foram embora. Bom, não estou criticando os que se mandaram. Medo é medo – quem tem orifício anal sabe disso. (Noutro tom.) E quem tem próstata, depois dos cinqüenta, vive no banheiro. (Vai saindo pro banheiro.) Mas teve gente que se mandou muito cedo. (Volta-se.) Minha maior paixão é criticar meu próprio lado.
BETO
Babaca. Você da classe mérdia não tá acreditando que tem um bar com esse nome, tá? Deve ter aí até gente da burocrácia cochichando que não davam alvará prum nome desses. Tá bem!: com mil pratas lubrificando a burocrácia o bar podia até se chamar Xoxota. Agora, também não é aí no meião da granfinagem, claro. Fica na estrada Dutra, Km 42. Chegando ali, você toma uma estradinha de terra, à direita, logo depois vê uma placa: “Coisinha, a dois quilômetros”. Coisinha, não é delicado? O espanhol do Babaca tem suas finesses.
CONCEIÇÃO
Foi o primeiro porre que tomei na minha vida – e eu já tava com vinte e sete anos. O pessoal do arquivo descolou um uísque nacional e eu fui a primeira a encarar o gargalo. Tem uma coisa – ninguém vai ficar pensando que eu sempre falei assim, cheia de gíria. Eu colocava todos os pronomes, e palavrão me dava nojo. Tinha gente que até encarnava em mim porque uma das coisas que eu mais admirava no presidente era a forma mesoclítica. Ele não perdia uma. Fui professora seis anos, português eu sei. Às vezes eu ficava ouvindo ele falar (Corrige, irônica.) ouvindo-o falar e pensava: nessa próclise ele vai entrar bem, mas nunca! Acertava todas na mosca. Outro sensacional era o Lacerda. Começava uma frase, abria um parênteses, esculhambava todo mundo e, quando fechava, a concordância batia certinho. Lé com cré. Como é que agora a gente pode respeitar uns politicóides que, quando falam uma frase com mais de dez palavras, o sujeito não se dá mais com o predicado? Não conseguem organizar uma frase e querem organizar o país? O mundo? Qual é? (Bebe.) São uns ineloqüentes.
NELITA
Eu sou de boa família. De Cuiabá. Tem gente aí que pensa que só Rio e São Paulo têm grã-fino. Nunca viram grã-fino de Cuiabá. Nem a família real da Baviera se compara. Só depois eu aprendi que isso é uma bosta, que a gente nunca mais se livra disso: formação pequeno-burguesa. Você nem imagina como me doeu a primeira vez em que me cuspiram em cima essa expressão. Eu nem sabia bem o que era; me doeu como uma ofensa mortal. Depois fui à forra: usei em cima de todo mundo! (Pausa.) Eu, desde menina, não agüentava Cuiabá. Vivia de olho no Rio e em São Paulo. Lia tudo quanto era jornal, sobretudo notícia social e as fofocas sobre intelectuais prafrentex, grandes artistas de vanguarda. E fingia que lia os livros sérios, mas esses, francamente, eu não tinha saco. Acho que ninguém tem. Mas eu era crente. Sou dessas pessoas que acreditam. Em quê? Em tudo. Eu estava lá em Cuiabá, mas não vivia lá – vivia num filme. Aqueles intelectuais cariocas que passavam o dia bebendo e queimando fumo no Castelinho – depois eu descobri que os intelectuais que puxavam fumo no Castelinho eram os paulistas imitando o que os cariocas não faziam – pra mim aqueles intelectuais eram os mesmos que estavam na luta armada contra a ditadura. Eu era menina, pra mim não tinha incoerência – dá uns tiros no mato, corta, está bebendo no Degrau. É preso pela Polícia, corta, está jogando frescobol na Montenegro. Pra mim era tudo em 16 milímetros. E tinha uns caras poderosos – poderosos? – divinos-maravilhosos, que controlavam esse cinema-novo existencial e montavam a realidade brasileira na moviola de minha cabeça de grã-fina cuiabana – o Glauber, o Fernando Henrique, o Paulo Francis, o Vandré, o Zé Celso, o Sérgio Dourado. Nessa época, o Sérgio Dourado estava entrando violentamente na especulação imobiliária e eu jurava que era um puta intelectual de esquerda defendendo corajosamente a ecologia carioca. Foi por isso que um dia, ainda meio menina, tinha 16 anos!, contra tudo e contra todos, minha mãe chorando e meu pai gritando, eu arrumei a mala e desci. (Carlos volta.)
BETO
(Como quem sonha.) Foi aí que os compositores começaram a cantar.
CONCEIÇÃO
Meu chefe, um velho de mais de quarenta anos, falou que tinham sido os comunistas, pra botar Jango no poder. Um despachante da alfândega, um antipaticão, aliás, votou contra: “É evidente que foi o complexo industrial-militar a serviço do imperialismo ianque procurando conservar os latifúndios improdutivos da oligarquia paulista. Nós sabemos”. Eu também sabia quem era nós. O encarregado de Relações Públicas lembrou que Jânio Quadros já tinha renunciado uma vez, no meio da campanha: “Está pensando que vai voltar de novo nos braços do povo, mas o povo já encheu”. Mas quem me deu raiva mesmo foi o calhorda do crioulo da limpeza, um tremendo cachaceiro, que rosnou: “Não foi nada disso não, puta que pariu!” Assim mesmo; esse palavrão. Porque, nessas ocasiões, a primeira coisa que desaparece é o respeito e a hierarquia. A gente vê que tudo não passa de um verniz. O crioulão, com a voz já enrolada, disse: “Não tem forças ocultas nenhuma! Eu conheço muito bem essas forças”. E, com todo mundo boquiaberto, ele arrematou: “Bebeu mal!”
GILDA
(Entra. Bem vestida. Uma capa. Bolsa. Roupa de muito boa qualidade. Aos poucos, no decorrer da ação, vai tirando peças de roupa, até que, em sua última fala, está apenas de colant. Na medida do possível, imita Leila Diniz.) Eu não tenho nada a dizer. Mas digo sempre. Ininterruptamente. Meu nome é Gilda. Meu pai me botou esse nome em homenagem àquela mera atriz do cinema, hi, tem tanto tempo! (Faz sinal pra orquestra. Entra música forte. Luz muda. Foco apenas sobre ela. Ela canta, imitando Rita Hayworth.)
Amado mio

Love me forever

And let forever

Begin tonight. (Pára de cantar com a música.)


Pois é: tô aqui há trinta e cinco anos, na merda deste mundo, e só sei isso – que é uma merda. Até agora, não entendi picas de mirandolina do que se passa em volta de mim. E dá, só com curso primário? O que me salvou – me salvou ou me perdeu, depende do cristal com que se mira – é que eu sempre fui de enturmação. Lá em Bagé era com o time do Guarani local – e jogador era grosso paca! Ninguém nem podia imaginar que vinte anos depois ia aparecer um doutor! Jogando! Doutor Sócrates. Pelé estava apenas começando!: ainda nem era branco. Mas eu levava uma incontestável vantagem sobre as outras moças da cidade – eu dava. E não fazia mistério. Era uma pioneira. Era popular. Agora, com toda essa precocidade, minha vida só começou mesmo quando eu já estava no Rio e conheci Leila Diniz. E terminou poucos anos depois, quando ela explodiu naquele avião, lá na Zenânbia, na Monróvia, na Rodésia, sei lá, um desses países ai do Fidel Castro. Eu vi Tem Banana na Banda vinte e sete vezes; vi não sei quantas vezes aquele filme lindo que o marido dela fez com ela, tinha pilhas de retratos dela. Nem ela tinha tanta coisa sobre ela. Um dia eu li numa coluna que ela estava mudando daquele apartamentinho Já-vi-tudo – perto da praia –, ela estava conversando com o Millôr, de uma janela pra outra, dizendo que ia mudar e isso saiu no jornal porque a colunista do Globo ouviu, numa outra janela – Ipanema era assim, uma grande família! Ipanema era um sonho! Quando eu soube que ela ia mudar, fiz minhas contas depressa e telefonei pra ela perguntando se não podia me recomendar ao dono do apartamento. Foi assim que eu enturmei com ela. Ela marcou encontro comigo, já no apartamento novo, eu subi correndo os três lances da escada, era um edifício antigo, no Jardim de Alá, sem elevador, e, quando ela abriu a porta, de maiô biquíni, tão simples, um pano na cabeça, tão humana, toda empoeirada da arrumação, tão natural, meu Deus, tão gente, e me sorriu, simpática, com aquela cara gorduchinha tão linda, você, olha, ninguém vai acreditar – eu desmaiei.
BETO
Meu nome é Beto Maria: não vem com essa não, claro que lembra. Beto Maria João Aquidabã. Ah, meus sais aromáticos! Sempre tive esse nome! Quer dizer, mudei uma vez, mas também ninguém ia conseguir fazer carreira com meu nome de batismo: Esterônio Valvular de Outubro. Beto Maria

– Betinho. Participei daqueles festivais de música popular, todo mundo ainda vivo sabe disso. Você não sabe? Então está morto! Participei de todos. Comecei por baixo, no primeiro, e fui subindo nos outros porque topava tudo – consegui chegar a ser o cantor mais vaiado pela platéia encarregada de radicalizar. Não sabia? Pô, você não sabe nada. A gente dividia os concorrentes, como aqueles campeonatos de catch da televisão – tinha o bonzinho, tinha o contestador sistemático e o contestador ocasional, e tinha o péssimo caráter, aquele que no catch chuta a cara do adversário caído e enfia o dedo no olho. Esse aí era eu. Que foi, xará, desbundou? Pensava que aquilo lá era pra valer? Oh, meu trato! Foi o próprio Marx quem disse – tudo é tutu. Lá nos isteites, os agentes da Joan Baez e do Bob Dylan tinham que se virar pra manter aquelas imagens. Custava uma nota. E o Bob Hope? Gastava mais de um milhão de dólares por mês pra ser esculhambado pela esquerda. Com isso ganhava vários milhões, com o patrocínio da direita. Copiamos tudo dos americanos, cara! O que é bom pros Estados Unidos é bom pro Brasil. Isso aqui não é um país, nego. E uma paródia. (Pausa.) Macacobrás.


CARLOS
Nestes dez anos, sabe quantos artigos meus foram censurados? Todos. Mas eu sentava e escrevia, todos os dias. Teve um dia em que o jornal saiu com uma folha só, ou melhor, uma página. Mas saiu. Você alguma vez já leu ele, o meu jornal? É do Estado do Rio. Nunca foi grande coisa, não. Mas chegou a ter trinta redatores. Quando a guerra acabou, acabou o tal do AI-5, só tinha oito redatores. Durante esse tempo todo, a redação tinha mais polícia do que jornalista. Sem falar que um dia eu descobri que três redatores eram da polícia.
NELITA
É isso então: pra não perderem de vez a filhinha mimada mas rebelde, meus queridos papais pequenos-burgueses tinham me deixado ir sozinha para São Paulo. E, de repente, eu tava lá, na big metrópole, estudando na USP CUSP, com todos aqueles professores superbacanas. A primeira pessoa famosa que eu conheci – sabe como é, dessas pessoas famosas que são, na verdade, superfamosas exatamente porque o povão não sabe que elas são famosas, só a gente – foi o Fernando Henrique. Que bonito! Eu mostrava até a obturação do dente siso quando, na aula, ele olhava para mim. Diziam que ele transava com umas alunas. Pô, eu, com aquela pinta, transava todas. (Bebe.) Quando eu entrei na faculdade, São Paulo já estava fervendo. E os estudantes todos, quisessem ou não quisessem, estavam naquela panela de pressão. Fui morar num apartamentinho ali em Pinheiros, junto com duas colegas um pouco mais velhas, do interior do estado. Naturalmente, a cabecinha feita aí está esperando eu confessar que pouco tempo depois descobri que uma era sapatão e a outra terrorista. (Pausa, sorri. Simpática. Cúmplice. Logo, com raiva.) Pois não eram! Nem uma coisa nem outra. Tem que ser?! Agora, as duas eram ativas, estavam em todas. E, como eu não tinha ligações, ia a todos os lugares com elas, ia a tudo que era biboca incrementada e, quando percebi, eu, que vivia a dolce vida cuiabana, eu, que tinha descido pra ampliar meu gozo existencial, viver a vida deslumbrante da juventude alienada da minha geração, quando vi, tinham me virado pelo avesso. E estava nas passeatas (Bebe.), de mãos dadas, formando uma corrente pra frente, me esgoelando, eufórica, uma voz na multidão de milhares: “O povo unido jamais será vencido”. Eu não entendia o que se pretendia com aquilo, mas, no fundo do meu coração, eu sabia que era alguma coisa contra meus pais, lá em Cuiabá.
CONCEIÇÃO
Acho que o Brasil não tem é sorte. Quando o Jânio tomou posse, pareceu até que a coisa ia engrenar. Depois daquela roubalheira toda do JK – bem, não vou dizer que ele roubou pessoalmente, a gente sempre tem que dizer que o presidente é uma vítima, está mal cercado; país em que o presidente rouba pessoalmente é republiqueta. Depois do Juscelino, ter entrado o Jânio, forte, decidido, com seis milhões de votos!, eu achei uma coisa sensacional! O Jânio era honestérrimo. E impunha esse carisma. Foi com ele, aliás, que essa palavra ficou popular. Nos Ministérios, ninguém levava mais nem um clip pra casa. Antes sumia até aparelho de ar-condicionado. E, de repente, tum!, tudo acabado. Um azar! Eu, se fosse presidente – embora seja contra mulher... eu já disse? Ah! Bom, se eu fosse, a primeira coisa que fazia era nomear um ministro da umbanda pra fechar o corpo do país. Todo despacho presidencial realmente importante seria feito sexta-feira, numa encruzilhada, acompanhado de um despacho do ministro tranca-ruas. A Igreja Católica tem muita urucubaca! (Se benze, inclusive beijando os dedos.) Deus me perdoe!
GILDA
(Deixa a bebida, pega outro copo, enche a mão com pílulas, engole, bebe água.) Eu queria ser uma grande mulher, a partir do meu corpo. Superior. A Leila era superior assim. Transava com quem bem entendia e quando resolveu botar a barriga grávida, enorme, na cara da macacada, no sol de Ipanema, botou mesmo. Eu achei horrível. Depois achei lindo. E logo todas as gatas paridas do país inteiro foram atrás dela. Ela era a estrela, o resto era figuração. Eu, se ela dissesse, sai de bunda de fora, eu saía. Mas ela nunca disse isso. Essa moda não foi ela que lançou. Quem foi a revolucionária da bunda de fora eu não conheço, já não é do meu tempo.
CONCEIÇÃO
Depois que todo mundo foi embora, eu fiquei ali, na repartição, sozinha, meio no escuro; já era bem tarde, pensando. Depois, apaguei as luzes, uma a uma, e desci pra rua México, completamente vazia – eram quase dez horas da noite. Eu fui andando, bem devagar, me segurando porque o uísque tinha subido bastante. Em cada esquina, no escuro, eu via a silhueta de dois soldados do Exército, armados com rifles. Perto do Obelisco, tinha dois tanques.
GILDA
No Natal de 70, eu já estava enturmada com o melhor: estive até no Festival de Curta-Metragem de Berlim, com tudo pago, e ganhei o prêmio de melhor penetra penetrada – uma gozação da turma! – só porque dei pro cônsul da Alemanha. A gente ia a tudo que era lugar quente, exposições, filmes, shows de cantores, peças de teatro – tudo estréia, claro, quando não era estréia não tinha graça. Pra mim, cultura é badalo. Me lembro de uma noite em que eu e duas bichas minhas amigas nos vestimos todos, isto é, todas, bem envenenadas e chegamos numa vernissage do Hélio Oiticica, dentro de um camburão. Você já viu alguém chegar numa festa num camburão? Sair, todo mundo já viu, que vantagem! É, mas essas coisas não duram, não. Quando eu voltei de São Paulo, dia 2 de junho de 1972, passei lá em casa da Leila e foi aí que me deram um soco na cara. Foi um soco na cara! Tinha dois rapazes barbudos na salinha – eu não conhecia, acho que eram primos – e um deles me disse, sem aviso: “Você ainda não sabe? Ela morreu. O avião dela explodiu lá na Índia, em Nova Delhi”. E eu disse uma coisa bem idiota, assim: “Explodiu como? Eu nem sabia que ela estava viajando!” Como se o fato deu não saber impedisse o avião dela de explodir, ou de cair, ou de bater, ou que diabo seja, ou tenha sido, na merda deste mundo de merda, que não deixa ninguém, ninguém, ninguém, nem mesmo ela, que era a mais linda, a mais esplêndida de todas – ser feliz!
BETO
Bem, esse ano não adianta – não posso aceitar mais nada: já estou todo programado. É bem verdade que só faltam dois meses pra fechar o ano, mas, com a crise do petróleo, tem colega aí que não está conseguindo cantar nem no banheiro. Eu não – quando terminar minha temporada no Babaca vou me apresentar dois dias num cassino clandestino, numa palafita, na Favela das Marés, depois, faço uma curta temporada na varanda do Alcazar, pegando chepa dos turistas – eu canto em várias línguas, todas elas mais ou menos em português – e depois já estou apalavrado pra irritar os fregueses de outra churrascaria de rodízio, em Niterói, e fazer com que eles comam menos. Tenho que ganhar a vida. Só sei – já me negaram tudo, mas isso ninguém nega, ou nega, negam tudo! –, só sei cantar. Enquanto isso vou marretando a bicharia velha que vai ali na estradinha de Caxias pra dar o que é seu, o que, dizia minha avó, não é desdouro. Pois o que esse espanhol comunista, dono dessa birosca nojenta em que eu canto, explora mesmo, não é a comida fudida nem o show escroto – é a prostituição masculina. Uma manada de nordestinos famintos, uns mulatinhos sestrosos, vaselinados, o mais velho deve andar aí pelos 17. Todos subnutridos e analfabetos. Mas parece que a subnutrição e o analfabetismo não afetam a tesão de ninguém porque, com cachê entre 200 e 500 pratas, os paus-de-arara estão sempre a postos (Gesto de tesão.), prontos pra traçar os velhos grã-finos pelanquentos que já não encontram mais macho na zona sul – nem pagando. Bom, péra aí, também não é assim tão imoral! Os rapazes do Babaca também têm seus princípios. Por exemplo: não topam beijo na boca. (Pausa.) De vez em quando, eu pego umas rebarbas. De um lado e de outro. No sentido exato – eu me viro.
GILDA
Durante dez dias, eu não botei o pé fora de casa. Pedia comida no bar, em baixo, e ficava ouvindo a mensagem de amor e fé que todos os jornais tinham publicado, mas que ela deixou foi pra mim, no gravador do meu telefone, pouco antes de viajar: “Eu me achava muito auto-suficiente e muito maravilhosa. Mas tive uma filha, e estava sozinha. Chorei pra burro, foi muito difícil. E pedi socorro. Agora não sei até quando vai durar isso, mas estou demais contente com as pessoas, amando todo mundo, passou todo o medo. Estou tranqüila e dando de mamar pra minha filha”. (Bebe.) A voz dela. (Tira frasco da bolsa, põe algumas pílulas na mão, toma com o uísque.)
NELITA
Em dois anos eu cresci muito. Já não era mais menina, já tinha opiniões, já achava velho uma desgraça, já repetia chavões, já sabia que tudo que a gente detesta é reacionário – até jiló, já morava no Rio, já não era mais virgem. Quer dizer, eu já não era mais virgem em Cuiabá, mas foi negócio às pressas, não valeu. Aqui eu tinha ratificado muitas vezes. Aqui eu aprendi também a queimar fumo, no Pier, aprendi a ter vergonha da minha formação familiar, a falar chiado, usava um cabelo maluco, e vivia coberta de penduricalhos das origens mais va­riadas – brincos astrológicos, pulseiras africanas, anéis orientais, colares ecológicos. Eu era A Rainha dos Berloques.
CARLOS
Pois é: o Jânio deixou cair a bola, o Jango chutou mal, os militares agarraram firme e, claro, passaram a se julgar donos da bola e tome cartão vermelho pra tudo quanto é jogador adversário! E nós, no meio do campo, já sem idade pra correr mais noventa minutos num jogo sem regras, começamos a levar canelada de todos os lados. Pois o time da Igreja, que nunca foi muito católico, não nos dava apoio. Os milicos nos odiavam. Os intelectuais foram todos pra tevê pra evitar que os inimigos pegassem aqueles altos salários. Os empresários acendiam uma vela a Deus e outra ao milagre. As multinacionais deitavam e rolavam. E os jovens nos olhavam com absoluta e compreensível desconfiança. Pois, de repente, no meio disso tudo, passou a ser um crime horrendo ter mais de trinta anos, mesmo que fosse menos de quarenta. Os culpados disso foram aqueles músicos cabeludos lá de Liverpool, que, por sinal, nem eram tão cabeludos assim. Mas, tudo legal! (Pausa.) Bem, meninos e meninas do júri, podem estar certos de que não me ofenderei se vocês, enojados diante da minha degradação física e moral, deixarem a sala sem ouvir minha defesa. Só quero declarar que minha deca­dência não foi vocacional, nem planejada. Em criança, quando me perguntavam o que pretendia ser quando crescesse, eu jamais respondi: “Um homem de meia-idade”. Jamais. Simplesmente, aconteceu. Um erro de toda a minha geração. Que, estou certo, a de vocês saberá evitar. E espero que conte a meu favor o fato deu não ter me entregado facilmente. Discuti muito com meus cúmplices de geração. Todas as noites, antes de dormir, eu dizia pra minha mulher: “Amélia, querida, não adianta racionalizar. Chegarmos aonde chegamos é uma ofensa irreparável aos novos tempos. Eles têm razão, Amélia: nós somos podres, podres, podres”. E Amé­lia me respondia:
BETO (No papel de Amélia.)
“É verdade, Carlos, eles têm razão. Só que eu sou muito mais podre do que você. Fui eu que impus a eles os falsos valores de uma sociedade condenada – café da manhã, banho, sinteco e mais duas refeições por dia. Com isso, empurrei-os para a alienação, o uso de drogas, inevitável rebelião contra o sistema, canibalismo e, sobretudo, cáries dentárias só explicáveis pelo excesso de afeição com que foram tratados.”
CARLOS – MARIDO
A tua capacidade de sacrifício maternal é monstruosa, Amélia, mas eu sou o maior monstro. Como pai, não tive capacidade de orientá-los para uma corrupção compatível com o mundo corrupto que lhes entregamos.
BETO – AMÉLIA
Não, fui eu que lhes dei amor demais, tornando-os fracos, incapazes de resistir às condições ecológicas adversas e às matérias cancerígenas da sociedade de confumo.
BARMAN
(Bem discreto.) Consumo.
BETO – AMÉLIA
(Pra ele. Discreta.) Consumo?
NELITA
Mamãe esteve só uma vez comigo, aqui no Rio. Foi me visitar no meu apartamentinho, na Morada da Luz, ali perto do Canecão. A maluca resolveu me fazer uma surpresa, vejam só! A surpreendida foi ela. Quando entrou – a porta vivia escancarada – eram duas da tarde. O Alfredão percussionista ainda estava dormindo na sala, o sol na cara, nu como veio ao mundo, os bagões de fora, o seu sono inocente absolutamente imperturbável diante do esporro que o Laurinho fazia num sax alto, enquanto o Manfredo tocava outra música completamente diferente numa aporrinhola. A velha pensou que tinha errado de endereço! Pensou que tinha errado de mundo, tão distante aquilo estava do mundo da filhinha dela. Mas não tinha errado não, ela viu logo, no fundo do pequeno corredor, porque o banheiro não tinha porta e, sentada no vaso, da maneira mais natural, liberta de tudo que a velha tinha ensinado, na sua santa e bem-intencionada repressão, lá estava Nelita, a filhinha dela, cagando para a burguesia. Dona Gisela Saturnino Marinho, minha mãe, hesitou, parou e declarou, numa última tentativa crítica: “Minha filha, como você está mudada!”
BETO
Já está chovendo sem parar há dois anos e meio. (Olha o relógio, sacode no ouvido.) Exatamente: 972 dias. É chuva paca. Nunca aconteceu antes, por isso tinha gente que achava impossível. Tem gente que só acredita na gravidade quando um objeto bem pesado cai na cabeça delas. Aí, pegam o objeto, vêem que não é tão pesado assim e acreditam: “Pô, só pode ser a tal da gravidade”. Tem gente que só vai acreditar na bomba nuclear quando ela cair na cabeça deles. Quer dizer – nem vão ter tempo de acreditar. Quando o sol não nasceu foi a mesma coisa. Eu sempre disse: o fato do sol ter nascido todo dia há milhares de anos não obriga ele a nascer amanhã, ué. Aliás, eu nem sei se o sol nasce há milhares de anos. Eu não vivi milhares de anos – isso é o que me ensinaram. Mas também me ensinaram que no Brasil não existe preconceito racial. O que eu sei, porque experimentei na minha pele morena, é que o sol nasce todo dia há 37 anos e que o Brasil é um país com um nojento preconceito racial. Não me interessa se é de origem biológica, econômica, astronômica ou alcoólica, pô! O que interessa é que, se você é preto, 99 por cento, das pessoas brancas te olham com a absoluta certeza de que você quando não caga na entrada caga na saída. Embora eu tenha que reconhecer que há um pequeno número de brancos, uma minoriazinha de artistas e intelectuais, democratas de verdade, que nos tratam de igual pra igual – o que lhes dá um extraordinário sentimento de solidariedade huma­na e lhes permite ir contar anedotas racistas no primeiro botequim.
CONCEIÇÃO
No dia seguinte, passei na Igreja de Santa Luzia e rezei por ele, pelo presidente, e rezei pelo Brasil. Agora eu já sabia de tudo; que ele estava mesmo preso em Cumbica, que tinham traído ele, lendo logo a renúncia, quando o certo era esperar a opinião do povo, e saiu aquela invenção das forças ocultas, quando ele nunca, nunca falou isso. Ele falou em forças terríveis que não tinham nada de ocultas. Era gente assim mesmo, como esse Auro Mazzili e esse Rainiere de Moura Andrade que logo repartiram o poder com os militares. Eu estava com medo. Todo mundo estava. Na repartição, a bagunça voltou logo ao que era antes. Nesse mês, desapareceram três máquinas de escrever.
GILDA
Quando estava em Bagé e me sentia na fossa tinha um objetivo – vir pro Rio. Mas o que é que faz uma pessoa na fossa aqui no Rio? Volta pra Bagé? Por que é que vocês todos não voltam, pombas? Vai dizer que são todos cariocas? Tá bem! Carioca mesmo, ó: só dei pra dois cariocas, em toda a minha vida. A não ser que você esteja contando também com o Maurício Palhares, mas esse é carioca honorário. E, nesse tempo todo, tive que me virar sozinha. E me virei muito mal, confesso. Também, fui cair numa roda que não dava pra ficar nem pra sair. Eu vibrava com tudo que era vanguarda no teatro, no cinema, na pintura, tudo que era revolucionário, rasgado, malfeito, ilegível, contra, emborcado, sem moldura, sem tela. O maior filme que eu já vi na minha vida era um filme completamente infilmado. O diretor, ele mesmo tinha riscado as imagens na fita com um prego. A gente tinha que ver as imagens, quadro por quadro, na mão dele, contra a luz, porque ele não tinha projetor. E a luz era de vela porque ele, naquele mês, não tinha pago a conta da Light. Mas eu, firme, sempre de boca aberta, todo mundo me adorando, pudera: eu sozinha era a maior platéia do universo. Quanto menos eu entendia mais vibrava – era uma deslumbradona! E tem mais uma coisa: eu tinha muito carinho dentro de mim: quando alguém estava a perigo eu dava. Bom, às vezes dava também profissionalmente pruns caras que apareciam no bar e eram meio aspones, sabe, assessores de porra nenhuma, porque eles descolavam uma nota de alguma mordomia estatal e me pagavam bem. Nessas horas eu não tinha a menor dúvida: dividia tudo com a turma (Diz tiurma), quer dizer, muita gente podia até pensar que eu estava me prostituindo, que eles estavam me explorando, mas não era nada assim tão primário, tão sem ideologia. Era tudo em nome da arte e da redenção pela arte – e pra mim era até muito mais que isso. Era ser permitida no Santuário. Porque, no fundo, eu sabia que não tinha nenhum direito de entrada a não ser o meu corpo. Que é que há, Zé, não vale? Sem essa. No mundo de baixo ou de cima, meu filho, na granfinagi ou no udigrudi cada um entra com o que tem. Era muito fácil dizer que eles dependiam de mim até pruma droguinha, mas quando eu quis sair eu percebi que a dependente era eu. E aí cai numa fossa federal. Nunca mais eu ia me livrar daquela vida. Nunca mais eu podia viver a vida correta e decente que tinha aprendido, viver bem casada, cuidando dos meus filhos e traindo meu marido direitinho, como minha mãe tinha me ensinado. (Atenção: ela diz isso sem ironia.)
BETO
Eu vim de baixo. Você já tinha percebido? Percebeu pela cor ou pelo sotaque inglês aqui do papai? Não, não – vai, diz! Eu agüento o tranco, boneco. Eu conheço todas as falsificações. Eu sou todas as falsificações. Tá bem, nem todas. Você fica com seus 90 por cento. Eu já fiz de tudo; diz aí uma coisa que eu não fiz. Fui cavador de poço, limpador de fossa e vendedor de lata d’água. Isso, até os seis anos de idade, quando saí de Panelas de Miranda, onde nasci. Panelas fica no interior de Pernambuco, mais ou menos uns 400 quilômetros depois de onde o vento faz a curva. Gregório Bezerra, esse líder comunista, também é de lá. Cê vê; Panelas de Miranda é uma árvore que dá pitanga e melancia. Mas também fui entregador de caixão de defunto, em Feira de Santana, babá de cachorro, em Ipanema, e baitolo de certos messiês entendidos, você manja o enrustidão de meia-idade com pimenta no rabo? Não maaaaaaaanja! Eu sei! Pois é; se a grana pinta qual é a moral? No showbis também fiz de tudo. Muito trabalho coletivo, naquele esquema: todo mundo trabalha a leite de pato e, como não pode sair o nome de todo mundo, o diretor-produtor se sacrifica e empresta o nome pra identificar o grupo. Uma vez, trabalhamos num espetáculo coletivo desses durante nove anos. Quando o espetáculo ficou pronto durava 38 horas. Aí, vimos que não dava, discutimos e reduzimos tudo pra quarenta e cinco minutos. Era sobre a construção da pirâmide de Queofres, pra ser representado num areal de Parnaíba. (Gesto.) Clima! A censura cortou 20 minutos.



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