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Steven D. Levitt


Stephen J. Dubner


FREAKONOMICS
O LADO OCULTO E INESPERADO DE
TUDO QUE NOS AFETA

TRADUÇÃO: Regina Lyra Professora de Tradução da PUC -RJ

Revisão técnica Ronaldo Fiani - Prof. do Instituto de Economia da UFRJ

7" EDIÇÃO - Editora Campus



Do original: Freakonomics
Tradução autorizada do idioma inglês da edição publicada por
William Morrow
- HarperCoIlins Publishers Copyright © 2005 by Steven D. Levitt & Stephen J. Dubner © 2005, Elsevier Editora Ltda.

Editado por:

www.ebooksbrasil.noonhost.com
Apoiando pela Democratização da Leitura
O que é mais perigoso, uma arma ou uma piscina? O que os professores e os lutadores de sumo têm em comum? Por que os traficantes de drogas moram com as mães? Qual a importância real dos pais? Que tipo de impacto teve o caso Roe x Wade, que levou à legalização do aborto nos Estados Unidos, sobre a criminalidade?
Talvez essas não pareçam perguntas de um economista, mas Steven D. Levitt
não é um economista como os outros. Um acadêmico superaclamado, ele estuda a rotina e os enigmas da vida real - da trapaça à criminalidade, dos esportes à criação dos filhos - e suas conclusões costumam virar de cabeça para baixo o senso comum, geralmente a partir de uma montanha de dados e de uma pergunta simples nunca feita. Algumas dessas perguntas tratam de questões de vida ou morte, outras têm uma natureza assumida-mente esdrúxula. Daí surge o novo campo de estudo apresentado neste livro: freakonomics.
Steven Levitt e Stephen Dubner demonstram que a Economia é, em essência, o
estudo dos incentivos - como as pessoas conseguem o que desejam ou lhes é necessário, principalmente quando outros desejam a mesma coisa ou dela necessitam. Em Freakonomics, ambos se dispõem a explorar o lado oculto de... ora, de tudo. A estrutura de uma gangue de crack; a verdade sobre os corretores de imóveis; os mitos do financiamento de campanhas eleitorais; as pistas que apontam um professor trapaceiro; os segredos da Ku Klux Klan.
O que liga essas histórias é a crença de que o mundo moderno, a despeito de
aparentemente confuso, complicado e enganoso, não é impenetrável nem indecifrável. Na verdade, quando se fazem as perguntas certas, o mundo é ainda mais interessante do que supomos. É preciso, apenas, uma visão nova. Steven Levitt, por meio de um raciocínio incrivelmente inteligente e objetivo, mostra como é possível ver as coisas de maneira clara nessa barafunda.
Freakonomics levanta esta premissa heterodoxa: se a moralidade representa o
modo como gostaríamos que o mundo funcionasse, a Economia representa o modo como ele realmente funciona. É verdade que os leitores vão tirar deste livro enigmas e histórias para entreter interlocutores em muitas e muitas festas, mas Freakonomics traz mais que isso. Ele redefine a maneira como encaramos o mundo.

Steven D. Levitt leciona economia na Universidade de Chicago e recebeu recentemente a Medalha John Bates Clark, concedida a cada dois anos ao melhor economista americano de menos de quarenta anos.

Stephen J. Dubner mora em Nova York e escreve para o The New York Times e The New Yorker. É o autor dos best-sellers Turbulent Souls e Confessions of a Hero-Whorshiper.

Consulte nosso catálogo completo e últimos lançamentos em: www.campus.com.br



FREAKONOMICS

"Steven Levitt é dono da mente mais interessante dos Estados Unidos, e a leitura de Freakonomics equivale a passear despreocupadamente com ele num dia ensolarado de verão e vê-lo gesticular e virar do avesso tudo que acreditávamos ser verdade. Prepare-se para ser confundido."


Malcolm Gladwell - autor de The Tipping Point e Blink

"Na época em que circula por todo lado um excesso de senso comum fantasioso, e um igual excesso de empenho intelectual se espreme em invólucros ideológicos pré-fabricados, Freakonomics é politicamente incorreto na melhor e mais essencial expressão da palavra. Levitt e Dubner inferem todo tipo de verdades surpreendentes - algumas importantes, outras simplesmente fascinantes - por meio de uma avaliação inteligente, minuciosa, profunda e aberta dos fatos, sem se importarem com quem possa se sentir atingido. Trata-se de estimulante diversão da mais alta qualidade."


Kurt Andersen - apresentador do programa radiofônico Studio 360 e
autor de Turn of the Century

"Se Indiana Jones fosse um economista, ele seria Steven Levitt." The



Wall Street Journal

Prefácio à edição brasileira


Conheci Steven Levitt em 1999 na Universidade de Chicago, onde ele leciona. Simpático, cara de garoto, vestido de forma simples e, ao contrário de muitos jovens economistas menos brilhantes do que ele, sem nenhuma arrogância. Durante a conversa deu para perceber uma outra característica sua, a de que seus interesses estão longe de ser os de um economista tradicional, pelo menos de acordo com o papel que se espera de um economista no Brasil. Aqui, associamos economia a assuntos macroeconômicos, como inflação, juros e câmbio, e espera-se que todo economista discorra com extrema segurança e sapiência sobre estes temas e que faça projeções definitivas sobre o rumo da economia.


Dado este cenário, a conversa com Steven Levitt foi um sopro de ar
fresco. Ele se define incompetente para analisar e comentar quaisquer daqueles assuntos. Apesar de ter um doutorado pelo MIT, uma das melhores e mais prestigiadas universidades americanas, ele não se considera proficiente em matemática, em econometria ou em macroeconomia. Não acompanha conjuntura, não dá opiniões sobre política fiscal ou monetária e muito menos faz projeções, a não ser sobre temas não-usuais, como quais serão os nomes mais populares de crianças nos Estados Unidos em 2015.
O que fez então Steven Levitt para merecer a medalha Clark, prêmio
dado a cada dois anos ao economista americano de menos de quarenta anos de idade com contribuições notáveis à profissão? O que ele fez foi formular perguntas - e responder a elas - sobre temas originais e instigantes que desafiam a "sabedoria convencional". Este termo, segundo explicado no terceiro capítulo deste livro, foi cunhado pelo conhecido economista John Kenneth Galbraith, e se refere à associação entre verdade e conveniência. O comportamento econômico e social na vida real é extremamente complexo. Entendê-lo e analisá-lo com profundidade requer trabalho e tempo, fora do alcance ou da vontade da maioria das pessoas. Logo, estas tendem a aderir a uma visão do tema em questão que seja simples de entender, conveniente, confortável e que esteja de acordo com seus credos e valores, ainda que muitas vezes incorreta. Questionar a "sabedoria convencional" em tópicos relevantes tem sido o tema constante do trabalho de Steven Levitt, e seu sucesso neste campo lhe rendeu a medalha Clark.
Após ter ganho a medalha, Levitt foi entrevistado por um jornalista da
The New York Times Magazine, Stephen Dubner. A extensa matéria,

publicada na edição de domingo do jornal em agosto de 2003, fez enorme sucesso, incentivando os dois a estendê-la e complementá-la, gerando este livro. A parceria com Dubner funcionou muito bem. Pelo fato de o estudo de economia ter sido dominado pelo rigor de modelos matemáticos complexos e técnicas de estimação sofisticadas, com ênfase em demonstrações formais


e não em argumentação, os jovens economistas geralmente escrevem mal. Para quem leu a matéria no Times fica claro que se o conteúdo do livro é puro Levitt, a forma é puro Dubner. A junção das duas competências torna o livro ao mesmo tempo profundo e agradável de ler, o que é raro em livros do gênero. Não à toa, Freakonomics se tornou um best-seller nos Estados Unidos, chegando a estar em primeiro lugar na lista do Boston Globe.
Dentre os tópicos abordados no livro, um se destaca por ser uma das
especialidades de Levitt e por ter causado comoção nos Estados Unidos: as causas da forte redução da criminalidade a partir de 1990. Este é um assunto repleto de "sabedorias convencionais". O crime é função da pobreza e do desemprego, e o importante é inovar no policiamento, controlar a venda de armas, fazer a economia crescer e dar sentenças alternativas que permitam a reinserção mais rápida do preso na sociedade.
O problema é que estas teorias são muitas vezes validadas por

correlações que não significam necessariamente causa e efeito.


Tome-se, por exemplo, a idéia de que mais prisões com sentenças mais
duras ou o aumento do policiamento são inúteis. Um número maior de presos não está diretamente associado a um aumento da criminalidade? Se quando o número de crimes aumenta o de policiais e de presos também aumenta, o que adianta colocar mais policiais na rua e prender mais gente? Não será este um caso típico de alta correlação entre as variáveis, mas de relação causa e efeito equivocada? No verão aumenta o número de mosquitos assim como a venda de inseticidas. Isto quer dizer que se fossem vendidos menos inseticidas teríamos menos mosquitos? Ou que usar inseticidas é inútil?
O difícil é provar a relação correta de causalidade. Dada a forte
correlação entre uma coisa e outra, precisaríamos de um fato novo, não previsto (o que os economistas chamam de "evento exógeno"), que afetasse a variável de estudo para que a relação de causa e efeito possa ser demonstrada. Em geral, mudanças de legislação ou outros eventos do gênero que impliquem descontinuidades de comportamento são particularmente úteis para este fim.
No caso de criminalidade, dois fatores geraram ótimas oportunidades de

análise. O primeiro foi a mudança de costumes e percepções da sociedade americana nos anos setenta, que gerou uma tendência a leniência quanto a criminalidade e a sentenças mais brandas, junto com a reversão desta tendência nos anos noventa. O segundo foi o fato de que, para angariar votos, os prefeitos normalmente aumentam o policiamento das cidades pouco antes das eleições. Como as eleições não são sincronizadas, pode-se comparar o efeito isolado do aumento do policiamento. A conclusão da análise daqueles dois fatores foi inequívoca: mais policiais na rua e mais detenções junto com sentenças mais duras reduzem a criminalidade, ao contrário do que propõe a "sabedoria convencional".


Entretanto, aqueles dois fatores explicam, em conjunto, apenas 40% da
redução observada na criminalidade nos Estados Unidos a partir de 1990.0 que explicaria o resto? Crescimento da economia? Pouco, uma vez que 1 % de redução no desemprego gera apenas igual redução na criminalidade. Técnicas policiais inovadoras como a do famoso inspetor William Bratton, de Nova York? Muita espuma e pouco efeito. Controle de venda de armas? Não, dada a facilidade com que criminosos continuavam tendo acesso a elas.

O que então teria sido?


Mais uma vez, uma importante mudança na legislação, ocorrida alguns
anos antes e fora do radar da "sabedoria convencional" teria sido decisiva: a legalização do aborto, ocorrida nos Estados Unidos em 1973. Embora em alguns estados, como Nova York e Califórnia, ele já fosse permitido, a decisão abrangeu todo o país. Ora, pobreza na infância e um lar com pai (ou mãe) ausente são dois importantes previsores de futuro comportamento criminoso. Como a maioria dos cerca de um milhão e meio de mulheres que abortaram, anualmente, utilizando-se da legalização eram pobres, adolescentes e solteiras, era de se esperar que, caso aquelas crianças tivessem nascido, o número de criminosos quinze a vinte anos à frente teria sido maior. Logo, a redução da criminalidade teria sido um bônus, não previsto, da legalização do aborto. Usando técnicas estatísticas sofisticadas, Levitt estima que a legalização do aborto explica cerca de metade da queda do nível de criminalidade nos Estados Unidos entre 1990 e 2000.
Embora Levitt não faça julgamentos morais e nem políticos em seus
estudos, este trabalho sobre aborto, compreensivelmente, lhe gerou críticas e ataques de todos os lados. De grupos religiosos de direita por estar atribuindo um benefício social ao que eles vêem como crime injustificável. Da esquerda por ter associado crime à pobreza, implicando que a redução no número de marginalizados, em geral membros de minorias étnicas, poderia

ser melhor para a sociedade. Em função das críticas, os autores no livro fazem uma rápida análise custo-benefício mostrando que a perda de vidas pelo aborto não teria compensado os ganhos gerados pela redução da criminalidade. Terreno pantanoso. Teria sido melhor que tivessem suprimido a análise e simplesmente mostrassem os fatos, deixando que cada um tirasse suas conclusões.


A ligação entre aborto e criminalidade é uma das idéias mais originais do
estudo recente das ciências sociais. Mas a originalidade de Levitt não pára aí. O que há de comum entre professores de escolas públicas americanas e lutadores de sumo? Será que os dois grupos trapaceiam, os primeiros manipulando os testes de seus alunos em exames de aferição estaduais e os segundos deixando-se vencer em lutas cujo resultado implicaria o rebaixamento do adversário? Como você provaria isto? Qual a semelhança entre a Ku Klux Klan e os corretores de imóveis? O que os fere de morte? Que fatores relativos à infância e à educação no lar afetam o desempenho escolar das crianças? Pode estar certo de que não são os que parecem óbvios. O que se pode inferir sobre os nomes que os pais dão a seus filhos? Esses nomes têm alguma influência sobre o destino das crianças? O tráfico de drogas é rentável para quem?
Além de original, Levitt é sem dúvida eclético em seus interesses. Mas
originalidade e ecletismo só não bastam. A grande qualidade de Levitt é ter a habilidade extraordinária de pesquisar, obter, analisar e decifrar bancos de dados extensos e complexos, usando princípios econômicos e ferramentais estatísticos para provar seu ponto. Estes fatores, aliados à sua juventude, fazem com que ele possa continuar a nos surpreender e deleitar com descobertas que irão contradizer a "sabedoria convencional" ainda por muitos anos. Aguardo, com muita expectativa, o seguimento deste livro.

CLÁUDIO L. S. HADDAD



Presidente do lbmec São Paulo

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Nota de esclarecimento

O jovem economista mais brilhante dos Estados Unidos - ao menos aquele assim considerado por seus pares mais velhos -pára num sinal de trânsito na zona pobre de Chicago num dia ensolarado do mês de junho. Ele está ao volante de um velho Chevette com o painel empoeirado e uma janela que não fecha direito, produzindo um ronco surdo da quinta marcha em diante.
No momento, porém, o carro está silencioso, como também estão as ruas
nesta hora de almoço. Reina o silêncio nos postos de gasolina, nas calçadas e nos prédios de janelas de madeira.
Um mendigo idoso se aproxima. Traz uma tabuleta que o identifica
como sem-teto e aproveita para pedir dinheiro. Veste um casaco surrado, quente demais para um dia de calor, e um imundo boné vermelho de beisebol.
O economista não tranca sua porta nem engrena a primeira. Também
não remexe no bolso atrás de algum trocado. Simplesmente observa, como se olhasse um aquário. Passado um tempo, o mendigo se afasta.
"Que fones bacanas", diz o economista, ainda acompanhando o velho
pelo espelho retrovisor. "Mais legais do que os meus. Afora isso, acho que ele não possui muitos bens."
Steven Levitt não vê as coisas como a maioria das pessoas. Nem como a
maioria dos economistas. Essa pode ser uma característica formidável ou incômoda, dependendo da opinião que você tenha dos economistas.
- The New York Times Magazine, 3 de agosto de 2003

No verão de 2003, a The New York Times Magazine encarregou o escritor e jornalista Stephen J. Dubner de elaborar um perfil de Steven D.

Levitt, um jovem economista badalado da Universidade de Chicago.
Dubner, que na época fazia pesquisas para um livro sobre a psicologia do
dinheiro, vinha entrevistando vários economistas, tendo descoberto que o inglês dos mesmos correspondia a uma quarta ou quinta língua. Levitt, que acabara de receber o prêmio John Bates Clark (concedido a cada biênio ao melhor economista de menos de quarenta anos), vinha sendo entrevistado por diversos jornalistas, tendo descoberto que o raciocínio dos mesmos não era muito... consistente, como diria um economista.
Mas Levitt concluiu que Dubner não era um rematado idiota. E Dubner

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descobriu que Levitt não era uma régua de cálculo humana. O escritor ficou fascinado pela criatividade dos trabalhos do economista e por seu talento para explicá-los. Apesar das excelentes credenciais de Levitt (diploma de Harvard, Ph.D. no MIT e uma coleção de prêmios), ele falava de economia de um jeito nada ortodoxo. Dava a impressão de ver as coisas não como um acadêmico, mas como um pesquisador extremamente inteligente e curioso - à maneira de um diretor de documentários ou um investigador policial, ou, quem sabe, de um bookmaker cujos negócios abranjam do esporte ao jogo do bicho, passando pela cultura pop. Parecia pouco interessado pelo tipo de questões financeiras que logo vêm à cabeça quando se pensa em economia; de certa forma, exalava modéstia. "Não entendo muito de economia", disse a Dubner a certa altura. "Não sou bom em matemática, não domino econometria e também sou fraco em teoria. Se pedirem a minha opinião sobre se as ações vão subir ou cair, se me perguntarem se a economia vai crescer ou encolher, se deflação é uma coisa boa ou ruim, ou se quiserem que eu fale de impostos, eu seria um charlatão se opinasse sobre qualquer um desses temas."
Levitt se interessa pelo dia-a-dia e seus enigmas. Suas pesquisas fariam a
festa de qualquer pessoa que buscasse entender como o mundo realmente funciona. Sua postura atípica foi retratada no artigo escrito por Dubner:

Na visão de Levitt, a economia é uma ciência com instrumentos excelentes para chegara respostas, mas sofre de uma tremenda escassez de perguntas interessantes. O talento notável de Levitt é a capacidade de formular tais perguntas. Por exemplo: Se os traficantes de drogas ganham tanto dinheiro, por que ainda moram com suas mães? O que é mais perigoso, uma arma ou uma piscina? Qual foi, realmente, o fator responsável pela queda do índice de criminalidade na década passada? Por que os casais negros dão aos filhos nomes que podem prejudicar suas chances profissionais? Os professores trapaceiam para conseguir boas avaliações? O sumô é um esporte corrupto?

E mais: Como um mendigo arrumou dinheiro para comprar fones de $50?
Muita gente - inclusive um bom número de seus colegas - talvez não chamasse
de economia o que Levitt faz. No entanto, ele apenas depura a chamada ciência soturna, levando-a ao que é o seu objetivo primeiro: explicar como as pessoas conseguem o que querem. Ao contrário de muitos estudiosos, Levitt não tem medo de usar comentários pessoais e curiosidades, do mesmo jeito que não foge das piadas e das histórias (mas foge dos cálculos matemáticos). E um intuitivo. Mergulha numa pilha de dados para descobrir algo ainda não descoberto por ninguém. Inventa uma maneira de medir um efeito que economistas veteranos rotularam de imensurável. Seus interesses prioritários - embora ele afirme que
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jamais se envolveu pessoalmente com eles - são a fraude, a corrupção e o crime.

A insaciável curiosidade de Levitt revelou-se atraente para milhares de leitores da The New York Times Magazine, que se apressaram a lhe mandar perguntas e dúvidas, enigmas e pedidos -desde a General Motors e o time dos Yankees de Nova York até senadores americanos, além de presidiários, pais de família e de um homem que há vinte anos vinha registrando com exatidão a quantidade de broas que vendia. Um ex-campeão do Tour de France ligou para Levitt pedindo sua ajuda para provar que a competição vive atualmente atolada no doping, e a CIA quis saber de Levitt como usar dados econômicos para apanhar quem faz lavagem de dinheiro e terroristas.


A atenção de toda essa gente foi despertada pela força da crença básica
de Levitt: a de que o mundo moderno, a despeito de aparentemente confuso, complicado e ostensivamente enganoso, não é impenetrável, não é indecifrável e - desde que sejam feitas as perguntas certas - é ainda mais intrigante do que imaginamos. Basta adotar uma nova maneira de vê-lo.

Em Nova York, os editores insistiram com Levitt para escrever um livro. "Escrever um livro?", disse ele. "Não quero escrever um livro." Já lhe


sobravam enigmas para decifrar e faltava tempo para fazê-lo. Por outro lado, Levitt não se via como escritor e por isso recusou. Não estava interessado - "a não ser", propôs, "que Dubner e eu trabalhássemos juntos".
Escrever em parceria não funciona para todo mundo. Mas os dois -
doravante "nós" dois - decidiram discutir o assunto para ver se a empreitada seria viável. Concluímos que sim. Esperamos que você concorde.

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Sumário


INTRODUÇÃO: O lado oculto de tudo 14
Onde é apresentada a idéia central do livro, ou seja: se o moralismo representa a
maneira como gostaríamos que o mundo funcionasse, a economia mostra como ele funciona na realidade.
Por que a sabedoria convencional em geral é equivocada... Como os
especialistas - dos criminologistas aos corretores de imóveis, passando pelos cientistas políticos - torcem os fatos... Por que saber o que avaliar e como avaliar é a chave para entender a vida moderna... O que vem a ser "freakonomics", afinal?

1. O que os professores e os lutadores de sumô têm em

comum? 21
Onde exploramos o lirismo dos incentivos, bem como seu lado negro - a

trapaça.


Quem trapaceia? Praticamente todo mundo... Como os trapaceiros trapaceiam,
e como desmascará-los... O caso de uma creche israelense... O repentino sumiço de sete milhões de crianças americanas... Os professores trapaceiros de Chicago... Porque trapacear para perder é pior do que trapacear para vencer... Será que no sumo, o esporte nacional do Japão, existe corrupção?... O que o Homem das Broas testemunhou: a humanidade talvez seja mais honesta do que imaginamos.

2. Em que a Ku Klux Klan se parece com um grupo de

corretores de imóveis? 53
Onde defendemos que não há nada mais poderoso do que a informação,

principalmente quando esse poder é manipulado.


Penetrando como espião na Ku Klux Klan... Por que os especialistas de todo gênero
estão na posição ideal para explorar você... O antídoto para a manipulação da informação: a Internet... Por que um carro zero perde tanto do seu valor quando sai da agência...
Quebrando o código do corretor de imóveis: o que significa, realmente, “em bom estado"...
Trent Lot é mais racista do que a média dos concorrentes do programa ''''The Weakest Link"?... Sobre o que mentem os paqueradores online?

3. Por que os traficantes continuam morando com as mães?

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Onde vemos que a sabedoria convencional quase sempre é uma mistura de

invenções, interesse pessoal e conveniência.


Por que os especialistas costumam inventar estatísticas; a invenção da halitose
crônica... Como fazer uma boa pergunta... A longa e estranha viagem de Sudhir Venkatesh à toca do crack... A vida é um torneio... Porque as prostitutas ganham mais do que os
11


arquitetos... O que um traficante de drogas, um zagueiro da escola secundária e um assistente editorial têm em comum... Como a invenção do crack de cocaína lembra a invenção das meias de náilon... Será que o crack foi a pior coisa que se abateu sobre os negros desde Jim Crow?

4. Onde foram parar todos os criminosos? 101 Onde separamos os fatos da ficção, no caso da criminalidade.
A lição aprendida por Nicolae Ceausescu - a duras penas - sobre o aborto... Por que os
anos 60 foram uma ótima época para a atividade criminosa... Você acha que a economia em crescimento acelerado dos anos 90 freou a criminalidade? Pense bem... Por que a pena capital não impede o crime... A polícia reduz os índices de criminalidade?... Cadeias por todo lado... Investigando o "milagre" da polícia de Nova York... Afinal, o que é uma arma?... Por que os primeiros traficantes de crack eram uma espécie de milionários da Microsoft e os traficantes recentes mais se parecem com a Pets. com... O superpredador versus o cidadão respeitável... Jane Roe e a queda da criminalidade: como a legalização do aborto alterou tudo.

5. O que faz um pai ser perfeito? 125 Onde fazemos, sob uma variedade de ângulos, uma pergunta premente: os pais

são realmente importantes?


Como a parentalidade deixou de ser uma arte para se tornar uma ciência... Por
que os especialistas em criação de filhos gostam de aterrorizar os pais... 0 que é mais perigoso: uma arma ou uma piscina?... A economia do medo... Pais obsessivos e a polêmica natureza x criação... Por que uma boa escola não é tão boa quanto se imagina... O abismo entre as notas escolares de negros e brancos e o "comportamento de branco"... Oito coisas que melhoram o desempenho escolar de uma criança e oito que são inócuas.

6. Pais perfeitos, parte II; ou uma Roshanda seria tão doce se

tivesse outro nome? 150
Onde ponderamos a importância do primeiro ato oficial dos pais - dar nome ao

bebê.
Um menino chamado Winner e seu irmão Loser... Os nomes mais negros e os


nomes mais brancos... A segregação cultural: por que o seriado "Seinfeld" nunca entrou na lista dos "50 mais" dos telespectadores negros... Se seu nome é realmente ruim, vale a pena trocá-lo?... Nomes da classe alta e nomes da classe baixa (e como os da primeira chegam a segunda)... Britney Spears: um sintoma, não uma causa... Aviva será o substituto de Madison?... O que os pais estão querendo dizer ao mundo quando dão nomes aos filhos.

EPÍLOGO: Dois Caminhos para Harvard 170

Onde a confiabilidade dos dados encontra a casualidade da vida.

12

Notas 172

Agradecimentos 192

13


Levitt tinha uma entrevista na Society of Fellows, o venerando clube intelectual em Harvard que paga a jovens acadêmicos para que produzam os próprios trabalhos, ao longo de três anos, sem compromisso. Levitt acreditava não ter chance alguma. Para começar, não se considerava um intelectual. Sena entrevistado, durante um jantar, pelos membros veteranos, um punhado de filósofos, cientistas e historiadores de renome internacional. Sua preocupação era não ter conversa bastante para chegar ao segundo prato.
Para piorar, um dos veteranos disse a Levitt: "Estou tendo
dificuldade para entender o tema unificador do seu trabalho. Poderia explicá-lo?"
Levitt ficou sem fala. Não fazia idéia de qual era seu tema
unificador, se é que havia um.
Armartya Sen, futuro Prêmio Nobel de Economia, apressou-se a
resumir o que considerava ser o tema de Levitt.
"Isso mesmo", arrematou Levitt ansioso, "este é o meu tema".
Outro membro da entidade apresentou outro tema.
"Tem razão", disse Levitt, "é este o meu tema".
E assim prosseguiu a entrevista, meio como uma matilha de cães
descarnando um osso, até que o filósofo Robert Nozick interrompeu o festim.
"Quantos anos você tem, Steve?", perguntou.
"Vinte e seis." Nozick virou-se para seus pares: "Ele tem 26 anos. Por que
precisaria de um tema unificador? Talvez se trate de uma dessas pessoas com talento bastante para dispensar um tema. Perguntado sobre algo, ele dará a resposta e ponto final."

THE NEW YORK TIMES MAGAZINE, 3 DE AGOSTO DE 2003.

14
INTRODUÇÃO: O lado oculto de


tudo

Qualquer pessoa que morasse nos Estados Unidos no início dos anos 90 e prestasse um mínimo de atenção aos jornais e telejornais diários teria motivos para viver morta de medo.


A vilã era a criminalidade, que vinha crescendo incessantemente - um
gráfico mostrando a escalada dos índices de criminalidade em qualquer cidade americana nas décadas anteriores assemelhava-se a uma montanha - e agora parecia prenunciar o fim do mundo. Mortes provocadas por armas de fogo, intencionais ou não, eram lugar-comum. O mesmo acontecia com o roubo de carros, o tráfico de crack, os assaltos e os estupros. A violência virará uma companheira funesta e constante. E a situação estava prestes a piorar. Piorar muito, afirmavam todos os especialistas.
A causa: o chamado superpredador. Na época, só se falava nele. Andava
nas capas das revistas semanais e nos gordos relatórios da segurança pública. "Ele" era um adolescente magricela da cidade grande, com uma arma barata na mão e muito ódio no coração. Havia milhares deles, segundo se dizia, uma geração de assassinos prontos a mergulhar o país no mais profundo caos.
Em 1995, o criminologista James Alan Fox elaborou um relatório para o
ministro da Justiça dos Estados Unidos detalhando em cores sombrias a escalada dos homicídios cometidos por adolescentes. Fox apresentou um cenário otimista e outro pessimista.
No otimista, a taxa de homicídios adolescentes cresceria 15% na década
seguinte; no pessimista, ele previa um crescimento de mais que o dobro desse percentual. "A próxima onda de crimes será tão terrível", disse ele, "que nos fará sentir saudades de 1995".
Outros criminologistas, cientistas políticos e observadores igualmente
bem-informados previam o mesmo futuro tenebroso, incluindo-se nesse coro o Presidente Clinton. "Sabemos que dispomos de uns seis anos para reverter a escalada do crime juvenil", disse Clinton, "ou o nosso país irá mergulhar no caos e meus sucessores não mais falarão das grandes oportunidades da

15

economia global, pois estarão tentando manter vivos nas ruas os habitantes de nossas cidades". As apostas, nitidamente, se concentravam nos criminosos.
Então, em vez de subir e de continuar subindo, os índices de
criminalidade começaram a baixar. A baixar e a continuar baixando. A queda da criminalidade surpreendeu em vários aspectos: foi ubíqua, com os índices de todos os crimes caindo em todas as cidades do país. Foi persistente, caindo cada vez mais a cada ano. E foi totalmente inesperada - principalmente para os especialistas que haviam previsto precisamente o oposto.
O tamanho da virada foi impressionante. O índice dos crimes praticados
por adolescentes, em vez de subir 100% ou mesmo os 15% preconizados por James Alan Fox, caiu mais de 50% em cinco anos. Em 2000, o índice nacional de homicídios nos Estados Unidos havia atingido seu nível mais baixo em 3 5 anos e o mesmo acontecera com quase todos os crimes, dos assaltos aos roubos de automóvel.
Embora os especialistas não houvessem antecipado a queda da
criminalidade - que, na verdade, já vinha ocorrendo à época de suas catastróficas previsões -, eles se apressaram a explicá-la. De modo geral, as teorias pareciam lógicas. O acelerado crescimento econômico dos anos 90 ajudou a frear o crime, concluiu-se. O mérito é da proliferação das leis de controle sobre as armas, disseram eles, ou das inovadoras estratégias políticas adotadas em Nova York, onde os crimes caíram de 2.245 em 1990 para 596 em 2003.
Essas teorias não eram apenas lógicas, mas também encorajadoras, pois
atribuíam a queda da criminalidade a iniciativas humanas específicas e recentes. Se o crime fora detido pelo controle sobre as armas, por estratégias políticas inteligentes e empregos que pagavam melhor, o poder para neutralizar os criminosos estivera ao nosso alcance o tempo todo. E voltaria a estar, caso - Deus nos livre - a criminalidade voltasse a crescer com tanto fôlego.
Essas teorias passaram, ao que tudo indica, sem questionamentos, da
boca dos especialistas para os ouvidos dos jornalistas e, daí, para a cabeça do público. Em pouco tempo viraram "sabedoria convencional".*
*Nota da Tradutora: A expressão conventional wisdom, em português corrente "senso comum", será traduzida aqui por "sabedoria convencional" por motivos que serão vistos adiante.

Só havia um problema: não estavam corretas.


16

Um outro fator em muito contribuiu para a maciça queda da criminalidade nos anos 90. Ele adquirira forma mais de 20 anos antes e tivera como protagonista uma jovem de Dallas chamada Norma McCorvey.


Como o proverbial espirro dado num continente que acaba causando um
terremoto em outro, Norma McCorvey, sem querer, alterou drasticamente o curso dos acontecimentos. Ela queria apenas fazer um aborto. Aos 21 anos era pobre, alcoólatra e usuária de drogas. Tinha baixa escolaridade e nenhuma aptidão profissional. Já entregara dois filhos à adoção e, em 1970, se viu novamente grávida. No Texas, como em quase todos os estados americanos então, o aborto era ilegal. A causa da jovem acabou encampada por gente mais poderosa que ela, tornando-a autora de uma ação coletiva em prol da legalização do aborto. O poder público foi representado por Henry Wade, o procurador-geral do Condado de Dallas. O caso acabou na Suprema Corte, sendo que, nessa época, Norma McCorvey já figurava na ação como Jane Roe. No dia 22 de janeiro de 1973, o tribunal decidiu a favor da Srta.
Roe, o que acarretou a legalização do aborto em todo o país. Naturalmente a essa altura já era tarde demais para a Srta. McCorvey/Roe fazer um aborto. A criança havia nascido e sido adotada. (Anos mais tarde, Norma McCorvey renunciou à sua antiga causa e se tornou uma ativista pró-vida.)
Como, então, Roe x Wade pode ter contribuído, uma geração depois,

para a maior queda da criminalidade na história contemporânea?


Acontece que, quando se trata de criminalidade, nem todas as crianças
nascem iguais. Ou mesmo parecidas. Décadas de estudo demonstraram que uma criança nascida em um ambiente familiar adverso tem muito mais probabilidade que outras de se tornar um bandido. E os milhões de mulheres com mais probabilidade de fazer um aborto na esteira de Roe x Wade - pobres, solteiras e adolescentes para as quais, no passado, os abortos ilegais costumavam ser caros demais ou pouco acessíveis - eram, em sua maioria, exemplos rematados de adversidade, ou seja, precisamente as mulheres cujos filhos, se nascidos, teriam mais probabilidade do que outras crianças de se tornarem criminosos. Devido, contudo, ao caso Roe x Wade, essas crianças não nasceram. Esse famoso processo viria a produzir um efeito drástico no futuro distante: anos mais tarde, justamente quando essas crianças não-nascidas atingiriam a idade do crime, o índice de criminalidade começou a despencar.
Não foi o controle sobre as armas nem uma economia em crescimento ou
as novas estratégias políticas o que finalmente reverteu a onda americana de criminalidade, mas, entre outros, o fato de o número de criminosos

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potenciais ter minguado drasticamente.
Agora vejamos: quando os especialistas em queda de criminalidade (os
ex-profetas da catástrofe) apresentaram à mídia suas teorias, quantas vezes a legalização do aborto foi mencionada?
Nenhuma.

Trata-se da típica mistura de negócios e companheirismo: você contrata

um corretor para vender a sua casa.
Ele capta o charme do imóvel, tira umas fotos, faz a avaliação, bola um
anúncio sedutor, mostra o local como bom profissional, negocia as ofertas e acompanha a venda até a escritura. Lógico que é trabalhoso, mas ele está levando uma boa fatia do bolo. Na venda de uma casa de $300 mil, a comissão habitual de 6% de corretagem chega a $18 mil. Dezoito mil é um bocado de dinheiro, mas você sabe que, sozinho, jamais teria vendido a casa por $3 00 mil. O corretor soube - qual foi mesmo a frase que ele usou? - "maximizar o valor do imóvel". E conseguiu um ótimo preço para você, não foi?

Não foi?


Um corretor de imóveis é um especialista diferente de um
criminologista, mas tão especialista quanto este último, ou seja, conhece sua área de trabalho melhor do que o leigo em nome do qual atua. Está mais bem-informado sobre o valor da casa, sobre as condições do mercado imobiliário e até quanto às expectativas do comprador. Você depende dele para esse tipo de informação. Foi por isso, aliás, que contratou um especialista.
A medida que o mundo foi ficando mais especializado, inúmeros desses
especialistas se fizeram igualmente indispensáveis. Médicos, advogados, empreiteiros, corretores de ações, mecânicos, estrategistas financeiros: todos eles dispõem de uma gigantesca superioridade no capítulo "informações". E utilizam essa superioridade para ajudar você, a pessoa que os contrata, conseguindo precisamente o que você quer pelo melhor preço.

Certo?
Seria ótimo acreditar que sim, mas os especialistas são humanos e os


seres humanos reagem a incentivos. Assim, o tratamento que você vai receber de qualquer especialista depende de como os incentivos dele funcionam. É possível que funcionem a seu favor. Por exemplo: um estudo com os mecânicos da Califórnia descobriu que eles cobravam pouco para

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regular os carros para a vistoria obrigatória. O motivo? Mecânicos camaradas são recompensados com a fidelidade do cliente. Mas há casos em que os incentivos do especialista podem funcionar contra você. Um estudo médico revelou que os obstetras que atuam em áreas com índices de nascimento em queda estão muito mais propícios a realizar cesarianas do que os obstetras de áreas cujos índices de nascimento se encontram em ascensão. Infere-se daí que, quando o trabalho escasseia, os médicos tentam impingir procedimentos mais caros.
Uma coisa é especular sobre o abuso dos especialistas, outra é provar
que ele existe. A melhor maneira de fazê-lo seria comparar a forma como o especialista trata você com a forma como ele age quando faz o mesmo serviço para si próprio. Infelizmente um cirurgião não opera a si mesmo, e sua ficha médica não está aberta ao público. Também não temos acesso às notas dos serviços que um mecânico realiza no próprio carro.
As vendas de imóveis, porém, estão sujeitas ao escrutínio público, e os
corretores com freqüência vendem suas próprias casas. Um conjunto recente de dados abrangendo a venda de aproximadamente 100 mil casas nos arredores da cidade de Chicago mostra que mais de 3 mil delas pertenciam aos próprios corretores.
Antes de mergulhar nos dados, vale a pena fazer uma pergunta: Qual é o
incentivo do corretor de imóveis ao vender a própria casa? É simples: conseguir o melhor negócio possível. Supostamente esse também é o incentivo que move você quando se trata da venda da sua casa. Assim, à primeira vista o seu incentivo e o do corretor estão em perfeita sintonia.

Afinal, a comissão que lhe cabe é calculada sobre o preço de venda.


Quando falamos de incentivos, porém, as comissões são algo
complicado. Em primeiro lugar, a taxa habitual de 6% de corretagem costuma ser repartida entre o corretor do comprador e o do vendedor. Cada um deles entrega a metade da sua parte à agência, o que significa que apenas 1,5% do preço de venda entra, efetivamente, no bolso do corretor.
Por isso, pela venda da sua casa de $300 mil, o corretor abocanha, da
comissão de $18 mil, não mais que $4.500. Ainda é uma boa quantia, você diz. E se a casa, na verdade, valesse mais de $300 mil? E se, com um pouquinho mais de esforço e paciência e alguns anúncios adicionais nos jornais, ele pudesse conseguir $310 mil? Descontada a comissão, isso significaria $9.400 extras no seu bolso. Só que a parcela adicional no bolso do corretor - o 1,5% líquido que lhe caberia sobre $ 10 mil - seria de meros $150. Se o seu lucro chega a $9.400 enquanto o dele não passa de $150,

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talvez os incentivos de vocês dois não estejam tão sintonizados assim (principalmente porque é ele quem paga os anúncios e tem todo o trabalho). Será que o corretor estaria disposto a investir todo esse tempo, dinheiro e energia extras em troca de míseros $150?
Existe uma maneira de descobrir: pesquisar a diferença entre os dados de
venda das casas que pertencem a corretores e os das casas que eles vendem em nome de clientes. Utilizando os dados das vendas daqueles 100 mil imóveis de Chicago e respeitando todas as variáveis - localização, idade e estado da casa, aparência etc. -verifica-se que um corretor mantém sua própria casa no mercado, em média, por um período 10 dias maior e a vende por um preço 3 % mais alto - ou seja, $10 mil, no caso de um imóvel de $300 mil. Quando se trata da venda da própria casa, um corretor espera a melhor oferta; quando a casa é do cliente, ele o estimula a aceitar a primeira proposta decente que surgir. Como um corretor de ações almejando comissões, o corretor quer fechar negócios. E rapidamente. Por que não? A parte que lhe cabe no caso de uma oferta melhor - $150 - é um incentivo muito insignificante para encorajá-lo a agir de outro modo.

De todos os truísmos relativos à política, um é considerado mais verdadeiro do que os demais: o dinheiro compra votos. Arnold Schwarzenegger, Michael Bloomberg, Jon Corzine são apenas alguns exemplos chamativos recentes do truísmo na prática. (Esqueça, por um momento, os exemplos contrários de Howard Dean, Steve Forbes, Michael Huffington e, principalmente, Thomas Golisano, que nas últimas três campanhas eleitorais em Nova York gastou $93 milhões do próprio bolso, conseguindo, respectivamente, 4, 8 e 14% dos votos.) A maioria das pessoas diria que o dinheiro exerce uma influência exagerada nas eleições e que somas excessivas são gastas nas campanhas políticas.


É verdade que os dados eleitorais demonstram que o candidato que gasta mais numa campanha costuma ganhar a eleição. Mas será o dinheiro a razão da vitória?
Parece lógico pensar que sim, da mesma forma como pareceu lógico
creditar a redução da criminalidade ao crescimento econômico acelerado dos anos 90. No entanto, apenas porque duas coisas são correlatas isso não implica que uma delas tenha como conseqüência a outra. Uma correlação aponta simplesmente para a existência de uma relação entre dois fatores - X e Y, digamos -, mas nada revela.

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Reflitamos sobre tal correlação: as cidades com muitos homicídios também costumam ter muitos policiais. Tomemos agora a correlação polícia/homicídio numa dupla de cidades reais. Denver e Washington têm mais ou menos a mesma população -mas a força policial de Washington é quase três vezes maior do que a de Denver, e a capital também tem oito vezes mais homicídios. A menos que você disponha de mais informações, porém, é difícil dizer qual fator é a causa disso. Algum desavisado poderia examinar esses números e concluir que esses policiais a mais sejam a razão do número maior de crimes. Esse raciocínio obtuso, que tem uma longa história, em geral produz uma reação obtusa, como na lenda do czar que foi informado de que a província com maior incidência de doenças era também a que contava com mais médicos. Sua solução? Mandou imediatamente fuzilar todos os médicos.
Voltando à questão dos gastos de campanha: para descobrir a relação
entre o dinheiro e as eleições, vale a pena considerar os incentivos em jogo no financiamento de campanhas eleitorais. Digamos que você seja o tipo de pessoa disposta a doar $1 mil para um candidato. Essa decisão ocorrerá, provavelmente, em uma destas duas situações: um pleito apertado em que lhe pareça que o dinheiro possa influir no resultado, ou uma eleição em que um dos candidatos seja favorito absoluto e apeteça a você tirar partido dessa glória ou receber algo em troca no futuro. Com toda certeza, seu dinheiro não irá para o azarão (basta perguntar a qualquer postulante à presidência que fracasse inapelavelmente em Iowa e New Hampshire). Assim, os favoritos e os candidatos à reeleição levantam muito mais fundos do que os que têm menos chances de vencer. E quanto ao gasto desse dinheiro? Obviamente, os favoritos e os candidatos à reeleição dispõem de mais numerário, mas só o gastam quando se vêem diante de um risco real de derrota, pois que sentido faz detonar uma poupança que poderá ser mais útil no futuro, quando um adversário mais forte aparecer?
Imaginemos agora dois candidatos: um intrinsecamente atraente e outro
nem tanto. O candidato atraente arrecada muito mais dinheiro e vence com facilidade. Mas terá sido o dinheiro o responsável por lhe conseguir votos, ou terá sido o seu charme o responsável pelos votos e pelo dinheiro?
Eis uma pergunta crucial, mas muito difícil de responder. Afinal, charme

de candidato é difícil de quantificar. Como poderíamos medi-lo?


Na verdade não podemos, salvo em uma circunstância especial. A dica é
comparar um candidato a... si próprio, ou seja, o Candidato A de hoje provavelmente será igual ao Candidato A de daqui a dois ou quatro anos. O

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mesmo se aplica ao Candidato B. Basta que o Candidato A dispute com o Candidato B duas eleições consecutivas, porém gastando quantias diferentes em cada uma delas. Nesse caso, sendo mais ou menos constante o charme do candidato, poderíamos medir o impacto do dinheiro.
Com efeito, os mesmos dois candidatos concorrem um contra o outro em
eleições consecutivas o tempo todo - para ser exato em quase mil campanhas para o Congresso americano desde 1972. O que dizem os números nesses casos?
Aqui está a surpresa: o volume de dinheiro gasto pelos candidatos
praticamente não faz diferença. Um candidato vencedor pode cortar pela metade seu gasto e perder apenas 1% dos votos. Enquanto isso, um candidato derrotado que dobre seu gasto não conseguirá aumentar sua votação senão em percentual idêntico a esse. O que realmente faz a diferença quando se trata de um político não é a quantia de dinheiro despendida; o que faz a diferença é quem ele é (o mesmo pode ser dito - e será, no capítulo 5 - a respeito dos pais). Alguns políticos exercem uma atração inerente sobre os eleitores e outros, simplesmente, não. E não há nada que o dinheiro possa fazer para reverter esse quadro (os Srs. Dean, Forbes, Huffington e Golisano, é lógico, já estão fartos de sabê-lo).
E quanto à outra metade do truísmo eleitoral - a de que os fundos para
financiamento de campanha são obscenamente volumosos? Em um típico período eleitoral que inclua campanhas para a presidência, o Senado e a Câmara, cerca de $1 bilhão é gasto por ano - o que parece um bocado de dinheiro, salvo se você comparar essa quantia a algo menos importante que uma eleição democrática.
Esse mesmo bilhão de dólares os americanos gastam, por exemplo,
anualmente com chicletes.

Este não é um livro sobre o preço do chiclete versus gastos de campanha nem sobre corretores de imóveis espertinhos ou o impacto da legalização do aborto sobre a criminalidade. Ele decerto abordará tais cenários e dezenas de outros, da arte de ser pai à mecânica da embromação, do funcionamento interno da Ku Klux Klan à discriminação racial no programa de televisão The Weakest Link. O que este livro^z é descarnar levemente a superfície da vida moderna e descobrir o que acontece por debaixo dela. Faremos um bocado de perguntas, algumas frívolas e outras envolvendo questões cruciais. As respostas muitas vezes soarão estranhas, mas, em retrospectiva,

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também bastante óbvias. Buscaremos tais respostas nos dados - sejam eles oriundos das notas dos alunos de escolas primárias ou da estatística dos crimes cometidos em Nova York ou, ainda, do balanço financeiro de um traficante de crack (várias vezes lançaremos mão de padrões presentes, porém deixados de lado - como a esteira de fumaça que um avião traça no céu -, nesses dados). É bom e salutar opinar ou teorizar sobre determinado assunto, como a humanidade tem o hábito de fazer, mas quando o moralismo é substituído por uma aceitação honesta dos dados, o resultado costuma ser novo e surpreendente.


Poderíamos dizer que o moralismo representa a forma como as pessoas
gostariam que o mundo funcionasse, enquanto a economia representa a forma como ele realmente funciona. A economia é, acima de tudo, uma ciência feita para medir. Possui um conjunto incrivelmente eficiente e flexível de ferramentas capaz de acessar de maneira confiável uma variedade de informações a fim de identificar o efeito de qualquer fator isolado ou mesmo o efeito integral. No final das contas, a "economia" é isso: uma variedade de informações sobre empregos, imóveis, finanças e investimentos. Mas as ferramentas da economia também podem ser utilizadas com relação a temas mais... Ora, mais interessantes.
Por isso este livro foi escrito a partir de uma visão de mundo muito

específica, baseada em algumas idéias fundamentais:


Os incentivos são a pedra de toque da vida moderna. Entendê-los -ou,
na maior parte das vezes, investigá-los - é a chave para solucionar praticamente qualquer enigma, dos crimes violentos à trapaça nos esportes ou ao namoro na Internet.
A sabedoria convencional em geral está equivocada. Não havia escalada
da criminalidade nos anos 90, o dinheiro sozinho não ganha eleições e - surpresa! - ninguém jamais comprovou que ingerir oito copos de água por dia faça bem à saúde. A sabedoria convencional costuma ser mal fundamentada e muitíssimo difícil de investigar, mas isso não é impossível.
Causas distantes e até mesmo sutis podem, muitas vezes, provocar
efeitos drásticos. A solução de um determinado enigma nem sempre está diante dos nossos olhos. Norma McCorvey teve um impacto bem maior sobre a criminalidade do que a combinação do controle de armas, do crescimento econômico e das estratégias policiais inovadoras. É possível dizer o mesmo, como veremos adiante, de um homem chamado Oscar Danilo Blandon, também conhecido como Johnny Rei do Crack.
Os "especialistas" - dos criminologistas aos corretores de imóveis -usam

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suas informações privilegiadas em benefício próprio. No entanto, eles podem ser vencidos em seu próprio jogo. Além disso, com o advento da Internet, sua superioridade em termos de informação cada dia encolhe mais - como comprova, entre outras coisas, a queda de preço dos caixões e dos seguros de vida.
Saber o que medir e como medir faz o mundo parecer muito menos
complicado. Quando se aprende a examinar os dados de forma correta, é possível explicar enigmas que do contrário pareceriam inso-lúveis, pois nada como o poder dos números para remover camadas e camadas de desconhecimento e contradições.
Assim, a meta deste livro é explorar o lado oculto de... tudo. É possível
que seja até frustrante. Haverá momentos em que a sensação será a de espiar o mundo através de um canudo ou a de visitar a sala dos espelhos de ura parque de diversões. A idéia, porém, é buscar vários cenários e examiná-los de uma maneira como poucas vezes se fez. Sob alguns aspectos, esse é um tema estranho para um livro. A maioria deles se propõe a apresentar um único assunto, secamente expresso em uma frase ou duas, e depois contar toda a história acerca do mesmo: a história do sal; a fragilidade da democracia; o uso e o mau uso da pontuação. Este livro não tem um tema unificador nesse sentido. Chegamos a pensar, durante uns cinco minutos, em escrever um livro que girasse em torno de um único tema - a teoria e a prática da microeconomia aplicada, que tal? - mas optamos, em vez disso, por uma espécie de caça-ao-tesouro. E certo que a nossa abordagem emprega as melhores ferramentas de análise que a economia tem a oferecer, mas também nos permite acompanhar toda e qualquer curiosidade excêntrica que nos ocorra. Daí o nosso campo de estudo inventado: Freakonomics* As histórias contadas aqui não costumam fazer parte das aulas de economia, mas talvez isso mude no futuro. Como a ciência da economia é, em princípio, um conjunto de ferramentas e não uma matéria em si, nenhum tema, por mais alheio que lhe pareça, deve ser considerado fora do seu alcance.
* Nota da Tradutora: Intraduzível em uma só palavra, o termo cunhado pelos autores significa economia excêntrica.

Vale a pena lembrar que Adam Smith, o fundador da economia clássica, foi, antes de tudo, um filósofo. Esforçou-se para ser um moralista e, nesse processo, se tornou um economista. Quando publicou a teoria dos sentimentos morais em 1759, o capitalismo moderno dava seus primeiros passos. Smith ficou fascinado com as mudanças radicais que essa nova força


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acarretou, mas os números não foram o único foco do seu interesse. Ele concentrou sua atenção no efeito sobre as pessoas, no fato de as forças econômicas estarem alterando profundamente a maneira de pensar e de agir de uma pessoa em uma determinada situação. O que levava alguém a trapacear ou a roubar enquanto outro se abstinha de fazê-lo? Como a escolha - boa ou ruim - aparentemente inofensiva de alguém afetava várias pessoas ao longo da corrente? Na época de Smith, o fenômeno causa-efeito sofreu uma incrível aceleração; os incentivos foram multiplicados por dez. A gravidade e o impacto dessas mudanças foram tão avassaladores para os cidadãos de então quanto a gravidade e o impacto da vida moderna o são para nós atualmente.


O verdadeiro tópico de estudo de Smith era o conflito entre o desejo
individual e as normas sociais. O historiador do pensamento econômico Robert Heilbroner, escrevendo em The Wordly Philosophers, especulou sobre como Smith fora capaz de separar os feitos do homem, uma criatura autocentrada, do grande plano moral em que atua. "Smith defendia que a resposta está na nossa capacidade de nos colocarmos na posição de um terceiro, um observador imparcial", concluiu Heilbroner, "e dessa maneira construir uma noção dos méritos objetivos de uma questão".
Considere-se, pois, leitor, na companhia de um terceiro -ou, sé preferir,
de dois terceiros - ansioso para investigar os méritos objetivos de questões interessantes. Tais investigações costumam partir de uma pergunta simples nunca dantes formulada. Por exemplo: O que os professores têm em comum com os lutadores de sumô?

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"Eu gostaria de reunir um conjunto de ferramentas que nos permitisse pegar terroristas", disse Levitt. "Ainda não sei direito como fazer isso, mas com os dados certos, tenho quase certeza de que descobriria a forma."
Talvez pareça absurdo um economista desejar pegar terroristas.
Da mesma forma que você acharia absurdo, se fosse um professor de Chicago, ser chamado à diretoria e informado de que, imagine, os algoritmos bolados por aquele magricela de óculos revelaram que você é um trapaceiro e, por isso, está despedido. Ainda que Steven Levitt não tenha uma fé absoluta em si mesmo, de uma coisa ele não duvida: professores, criminosos, corretores de imóveis, políticos e até mesmo peritos da CIA podem mentir, mas os números não mentem.


THE NEW YORK TIMES MAGAZINE, 3 DE AGOSTO DE

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