Michèle Petit a arte de ler ou como resistir a adversidade



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Michèle Petit
A ARTE DE LER

Ou como resistir a adversidade


Tradução Arthur Bueno e Camila Boldrini
Editora 34

2009



SUMÁRIO


A ARTE DE LER 2

Ou como resistir a adversidade 2




Aos mediadores de livros e histórias, a quem devo estas páginas.


AGRADECIMENTOS
Esta obra é resultado inteira ou quase inteiramente das conversas que me proporcionaram os mediadores culturais, assim como dos textos e documentos que eles me apresenta­ram. A eles, meus agradecimentos mais calorosos. Nem todos encontrarão seu nome nestas páginas (seriam necessários vá­rios volumes), mas cada um me ensinou alguma coisa e me ajudou a reformular as questões.

Minha gratidão se dirige também às pessoas, instituições e associações que, convidando a me exprimir publicamente, me propiciaram um grande número de trocas, em diferentes países. Ofereceram-me a ocasião de formalizar minha reflexão em exposições das quais este livro retoma, sob uma for­ma modificada, alguns trechos.

Citarei apenas o nome de dois amigos, pois, sem eles, não teria conhecido a maior parte do que se seguiu: Daniel Goldin, que editou e difundiu minhas pesquisas no conjunto do mundo hispanófono e a quem devo tudo de feliz e apaixonante que lá vivi em dez anos; Gustavo Bombini, coorde­nador do Plano Nacional de Leitura argentino (2003-2008), que se ofereceu de pronto, com entusiasmo, a cooperar com o meu trabalho e me permitiu encontros surpreendentes.

Aqueles e aquelas aos quais agradeço deram prova da mais bela das qualidades: a hospitalidade.


INTRODUÇÃO
"Eles tiveram que forjar para si uma arte de viver em tempos de catástrofe para nascer uma segun­da vez e em seguida lutar, com o rosto descober­to, contra o instinto de morte que está ativo em nossa história."

Albert Camus
A idéia de que a leitura pode contribuir para o bem-estar é sem dúvida tão antiga quanto a crença de que pode ser pe­rigosa ou nefasta. Seus poderes reparadores, em particular, foram notados ao longo dos séculos. "O estudo foi para mim o remédio soberano contra os desgostos da vida, não tendo existido jamais uma dor que uma hora de leitura não afas­tasse de mim", escreveu Montesquieu. Mais perto de nós, no século XX, pensemos no papel que a leitura ou a recordação de textos lidos desempenharam para tantos deportados nos campos de concentração nazistas, ou para os que resistiram ao degredo stalinista. Primo Levi recitava Dante a seu amigo Pikolo, em Auschwitz, e os companheiros de Robert Antelme se lembravam dos poemas que transcreviam em pedaços de cartão, encontrados no depósito da fábrica. Brodsky, con­denado a trabalhos forçados em um lugar próximo ao círculo polar, lia Auden, de onde tirava forças para sobreviver e enfrentar os carcereiros. E a biblioteca que Chalámov en­controu depois de ter deixado o campo de Kolimá lhe pôs de pé: "A extraordinária biblioteca de Karaiev — não havia um único livro que não merecesse ser lido — me ressuscitou, me rearmou para a vida o quanto era possível".

Nas prisões dos militares argentinos e uruguaios, vários homens e mulheres redescobrirão essa importância vital dos livros ou da recordação de textos lidos. Assim como fará Jean-Paul Kauffmann, prisioneiro durante três anos no Líba­no: quando não tinha mais nada para ler, recordava os poe­mas ou romances "de antes", empenhando-se em recuperar "a impregnação":


"Essa ginástica da memória não se ocupava de ma­neira alguma da história. Reconstituir a intriga de O vermelho e o negro, Eugénie Grandet ou Madame Bovary não era o objetivo que eu perseguia. Recriar a lem­brança de uma leitura, reconhecer em mim os rastros que perduraram, recuperar a impregnação, eis a meta que estabeleci. Dar um significado àquilo que eu lia era secundário. Procurava embeber-me do texto, não a sua interpretação. [...] Eu jamais tinha devorado [um texto] com tamanha intensidade. Esquecia a cela. Enfiado no fundo da minha leitura, produzindo em mim mesmo um outro texto. Fruição estranha, eqüivalia a uma recon­quista provisória da liberdade. [...] Encarcerado e sob a luz de uma vela, conheci a adesão absoluta ao texto, a fusão integral com os símbolos que o compunham — a questão do sentido, repito, era secundária".
Para além dessas situações extremas, a contribuição da leitura para a reconstrução de uma pessoa após uma desilu­são amorosa, um luto, uma doença etc. — toda perda que afeta a representação de si mesmo e do sentido da vida — é uma experiência corrente, e numerosos escritores a testemu­nharam, como Sérgio Pitol em uma entrevista que encontro na noite em que escrevo estas linhas: tendo perdido seu pai, quando era bebê, e logo depois sua mãe, com cinco anos de idade, ele fica gravemente doente; embora não pudesse mais ir à escola, a casa onde sua avó o acolheu era repleta de li­vros: "Minha avó lia sem parar. E eu apanhava tudo o que me caía nas mãos. [...] Com doze anos, descobri Guerra e paz e não fiquei mais doente. Continuo acreditando que Tolstói me salvou".

De maneira semelhante, Marc Soriano contou um dia como Pinóquio o ajudara, quando criança, a sobreviver à morte de seu pai e à grave anorexia que em seguida ameaçou sua vida. Ele teria "devorado, mastigado, ingerido, regurgitado Pinóquio", no qual teria encontrado "ao mesmo tempo o seu crime e a salutar revolta que lhe deu força para lutar contra o massacrante sentimento de culpa que a morte bas­tante real de seu pai ameaçava tornar irreversível e fatal". Avaliamos aí o quanto uma obra, às vezes, nutre literalmente a vida. Em troca, Soriano dedicou a sua a estudar contos.



Tomo emprestado um último exemplo de Laure Adler, que, ao se referir à morte de seu filho, declarou: "Se eu não me matei, foi porque me deparei sem querer com Uma bar­ragem contra o Pacífico, de Marguerite Duras", encontrado em uma casa alugada para uma temporada de verão:
"[...] sempre tive o sentimento de que ele de fato me esperava. Naquele verão eu tinha acabado de passar por uma dessas provações pessoais às quais nunca imaginamos subsistir. Posso garantir que um livro, substi­tuindo o meu tempo pelo seu, o caos da minha vida pela ordem da narrativa, me ajudou a retomar o fôlego e a vislumbrar o amanhã. A determinação selvagem e a in­teligência do amor manifestadas pela jovem de Uma bar­ragem foram para isso, sem dúvida, influentes".
Anos de guerra, "anos-biblioteca"
Não é apenas no momento de desarranjos internos que os livros servem de auxílio, mas também quando acontecem crises que afetam simultaneamente um grande número de pessoas. "Nos anos 1930, nos Estados Unidos, a crise, segundo várias análises, levou milhares de norte-americanos para as bibliotecas", escreve Martine Poulain:
"Às vezes, os desempregados buscavam na leitura uma oportunidade de se distanciar do real e de sua pró­pria situação, esperando que ela lhes levasse para 'fora do mundo'. Às vezes, esperavam o contrário, que lhes mantivesse 'dentro do mundo'. A leitura de jornais e pe­riódicos era então a mais apreciada, seja porque a leitu­ra de 'notícias' sancionava essa necessidade de se sentir parte de uma comunidade, seja porque a consulta das ofertas de emprego assinalava mais diretamente uma busca de reintegração".
Em muitos lugares, a Segunda Guerra Mundial suscitou igualmente um forte aumento das práticas da leitura, fato testemunhado por muitas pessoas, como Thais Nasvetnikova, na Rússia, quando recorda o inverno de 1941: "Lembro que todo mundo lia... muito... eu nunca vi isso... esgotamos a biblioteca destinada às crianças e aos adolescentes. Então nos permitiram ler os livros dos grandes". Ou Le Clézio, que se encontrava em Nice: "Não podíamos sair, era demasiada­mente perigoso. Os caminhos e os campos estavam minados. [...] Assim era impossível vadiar. Não tínhamos muitos ami­gos, vivíamos confinados. Era preciso ocupar aquele vazio, e os livros estavam lá para isso". Ou Marina Colasanti, que fala da sua infância na Itália:
"Mas em pleno nomadismo, uma normalidade está­vel foi criada pelos meus pais, para mim e para meu ir­mão.

Essa normalidade foi a leitura. [...]

Quando penso nesses anos, eu os vejo forrados de livros. São meus anos-biblioteca. [...]

Olhava pela janela da nossa sala, via o símbolo do fascio aposto à fachada do Duomo, e lia. Comíamos couve-flor sete dias na semana, um ovo passou a custar uma lira, dizia-se que o pão era feito de serragem, e eu lia. Deixamos a cidade, buscamos refúgio na montanha. Ago­ra, acordando de manhã, todas as manhãs, as colunas de fumaça no horizonte nos diziam que Milão estava debai­xo de bombardeios, e eu, ah! eu continuava lendo".
Mais recentemente, no dia seguinte ao 11 de setembro de 2001, em um tempo em que o audiovisual já era onipre­sente, uma multidão acorria às livrarias nova-iorquinas, en­quanto a freqüência em todos os outros comércios diminuía: "o público se volta para a leitura para compreender a crise", relata o Le Monde de 22 de setembro de 2001. Após o pri­meiro impacto, as pessoas "vieram procurar os livros para superar a dificuldade", comentou a diretora de uma grande livraria. Na França, os livreiros também constataram um movimento semelhante.
Qual o poder da leitura nestes tempos difíceis?
Hoje, é possível dizer que o mundo inteiro é um "espa­ço em crise". Uma crise se estabelece de fato quando trans­formações de caráter brutal — mesmo se preparadas há tem­pos —, ou ainda uma violência permanente e generalizada, tornam extensamente inoperantes os modos de regulamenta­ção, sociais e psíquicos, que até então estavam sendo prati­cados. Ora, a aceleração das transformações, o crescimento das desigualdades, das disparidades, a extensão das migra­ções alteraram ou fizeram desaparecer os parâmetros nos quais a vida se desenvolvia, vulnerabilizando homens, mu­lheres e crianças, de maneira obviamente bastante distinta, de acordo com os recursos materiais, culturais, afetivos de que dispõem e segundo o lugar onde vivem.

Para boa parte deles, no entanto, tais crises se manifes­tam em transtornos semelhantes. Vividas como rupturas, ain­da mais quando são acompanhadas da separação dos próxi­mos, da perda da casa ou das paisagens familiares, as crises os confinam em um tempo imediato — sem projeto, sem fu­turo —, em um espaço sem linha de fuga. Despertam feridas antigas, reativam o medo do abandono, abalam o sentimen­to de continuidade de si e a auto-estima. Provocam, às vezes, uma perda total de sentido, mas podem igualmente estimular a criatividade e a inventividade, contribuindo para que outros equilíbrios sejam forjados, pois em nosso psiquismo, como disse René Kaês, uma "crise libera, ao mesmo tempo, forças de morte e forças de regeneração". "O desastre ou a crise são também, e sobretudo, oportunidades", escrevem Chamoiseau e Glissant, após a passagem de um ciclone. "Quan­do tudo desmorona ou se vê transformado, são também os rigores ou as impossibilidades que se vêem transformados. São os improváveis que, de repente, se veem esculpidos por novas luzes".

A leitura pode garantir essas forças de vida? O que espe­rar dela — sem vãs ilusões — em lugares onde a crise é par­ticularmente intensa, seja em contextos de guerra ou de re­petidas violências, de deslocamentos de populações mais ou menos forçados, ou de vertiginosas recessões econômicas?

Em tais contextos, crianças, adolescentes e adultos po­deriam redescobrir o papel dessa atividade na reconstrução de si mesmos e, além disso, a contribuição única da literatu­ra e da arte para a atividade psíquica. Para a vida, em suma. A hipótese parecerá paradoxal em uma época de mutações tecnológicas na qual é a eventual diminuição da prática da leitura o que preocupa. Parecerá mais audaciosa, até mesmo incoerente, visto que o gosto pela leitura e a sua prática são, em grande medida, socialmente construídos. Pensemos nos exemplos dados anteriormente: trata-se de homens e mulhe­res que provavelmente desde a mais tenra idade mergulharam nos livros, ou que ao menos foram introduzidos precocemente nos usos da cultura escrita. A avó de Sérgio Pitol lia sem parar, e, se Marina e seu irmão viveram "anos-biblioteca", foi graças a seus pais. A leitura é uma arte que se transmite, mais do que se ensina, é o que demonstram vários estudos. Estes revelam que a transmissão no seio da família permane­ce a mais freqüente. Na maioria das vezes, tornamo-nos lei­tores porque vimos nossa mãe ou nosso pai mergulhado nos livros quando éramos pequenos, porque os ouvimos ler histórias ou porque as obras que tínhamos em casa eram tema de conversa. Nesse sentido, será a experiência de Jean-Paul Kauffmann, Marc Soriano ou Marina Colasanti aplicável a categorias sociais mais distanciadas da escrita, que são as mais afetadas pelas transformações atuais?

Os trabalhos que desenvolvi anteriormente, nos espaços rurais ou nos bairros populares da periferia urbana, leva­ram-me a pensar que, sob certas condições, a experiência da leitura poderia ser aplicável em tais contextos, assim como era possível estendê-la para as gerações mais novas, em ge­ral apresentadas como mais resistentes à cultura escrita que aquelas que as antecederam. Essas pesquisas me ensinaram, na verdade, que essa experiência não diferia de acordo com a condição social ou com a geração. Em particular, o que meus colegas e eu encontramos durante nossas enquetes aten­tava amplamente, de maneira espontânea e detalhada, para a importância dessa atividade na construção ou reconstrução de si mesmo, ainda nos casos em que a leitura fosse realizada esporadicamente. Mas, tais processos se davam por meio de apropriações singulares, às vezes até mesmo desviando-se dos textos lidos. Com um senso de descoberta desconcertante, cada um "farejava" o que estava secretamente vinculado com as suas próprias questões, o que lhe permitia escrever sua própria história nas entrelinhas: estávamos nas "artes de fazer" que estudara Michel de Certeau.

Nossos interlocutores se referiam a alguma coisa mais abrangente do que as acepções acadêmicas da palavra "lei­tura": aludiam a textos que tinham descoberto em meio a um tête à tête solitário e silencioso, mas também, algumas vezes, a leituras em voz alta e compartilhadas; a livros relidos obs­tinadamente, e a outros que haviam somente folheado, apropriando-se de uma frase ou de um fragmento; aos momentos de devaneio que se seguiram à relação de convívio com a es­crita; às lembranças heterogêneas que ali encontravam, às transformações pelas quais passavam. Mais do que a decodificação dos textos, mais do que a exegese erudita, o essen­cial da leitura era, ao que parecia, esse trabalho de pensar, de devaneio. Esses momentos em que se levantam os olhos do livro e onde se esboça uma poética discreta, onde surgem associações inesperadas.

De todo modo, o que distinguia um meio social de outro eram os obstáculos. Para alguns, tudo era dado de nascença, ou quase; para outros, o distanciamento geográfico se soma­va às dificuldades econômicas e às interdições culturais. Se chegaram a ler, foi sempre graças a mediações específicas, ao acompanhamento afetuoso e discreto de um mediador com gosto pelos livros, que fez com que a apropriação deles fosse almejada.

Incríveis experiências literárias compartilhadas
Nos anos que se seguiram a essas pesquisas, as contin­gências do destino profissional — ou melhor, as manobras do desejo que me reconduziam para onde anteriormente eu ha­via vivido por tanto tempo — fizeram com que eu viajasse com freqüência pela América Latina. Desde 1998, todo ano eu fazia várias estadias, encontrando um grande número de mediadores culturais e conversando com eles. Dessa forma, eu descobri incríveis experiências literárias compartilhadas, organizadas por diversos profissionais (professores, bibliotecários, psicólogos, artistas, escritores, editores, livreiros, tra­balhadores sociais ou humanitários...) com crianças ou adul­tos expostos a um isolamento social mais ou menos acentua­do, somado a adversidades múltiplas.

De fato, programas em que a leitura ocupa um lugar fundamental estão atualmente sendo realizados em diferentes regiões do mundo que são cenário de guerras ou de violên­cias, crises econômicas intensas, êxodos de populações ou catástrofes naturais. Na maior parte das vezes, essas expe­riências têm uma circulação ruim e acabam ignoradas ou subestimadas, não só na Europa (onde a presunção etnocêntrica nos proíbe de considerar que ganharíamos se nos informássemos a respeito do que é empreendido no exterior), mas também a alguns poucos quilômetros dos lugares onde são realizadas. E, no entanto, elas são ricas em ensinamentos.

Mantidas por organizações internacionais, por institui­ções públicas, associações ou fundações privadas, tais expe­riências apresentam a particularidade de se voltar para aque­les que estão mais distantes dos livros: crianças, adolescentes, mulheres ou homens, em geral pouco escolarizados, oriundos de ambientes pobres, marginalizados, cujas culturas são do­minadas. Vários provêm de sociedades onde é a tradição oral, muito mais do que a escrita, que há muito fornece as balizas, os recursos que tornam possível a associação entre a experiência particular e as representações culturais compartilha­das. Mitos, contos, lendas, provérbios, cantos, refrões permitiam-lhes, em certa medida, simbolizar emoções intensas ou acontecimentos inesperados, representar conflitos, dar for­ma a paisagens interiores, inserindo-se ao mesmo tempo em uma continuidade, uma transmissão. Construir um sentido. Ao menos, esse era o caso das sociedades que mantiveram uma mitologia viva, reformulada ou enriquecida ao sabor dos encontros. Entretanto, hoje em dia, em muitos lugares, a tradição oral se encontra desarticulada, as balizas simbóli­cas desorganizadas, com todos os riscos que comporta uma tal alteração da "rede" da cultura. Em tais contextos, a in­trodução de propostas nas quais a escrita é central pode ser­vir de reparo a essa tradição, talvez reativá-la, ou, ao contrá­rio, ameaça o que dela subsiste?

Além disso, a análise desses programas e a sua confron­tação permitem precisar os mecanismos exigidos para sua implantação, delimitar o papel dos mediadores, a sua mar­gem de manobra e as parcerias que o "sucesso" de tais empreendimentos pressupõe. Fornecem também pistas para se identificar os processos que se põem em prática e esclarecer os benefícios que podem ser esperados da leitura em tais con­textos, assim como os limites, os impasses e a eventual par­cela de risco que essas iniciativas implicam.

Ora, se o recurso a essa prática em tempos de crise tem sido ressaltado com freqüência, a natureza dos processos vi­sando à reconstrução de si mesmo raramente é trazida à to­na. Tampouco em instituições como hospitais ou prisões, on­de serviços públicos e associações empenham-se em facilitar o acesso aos livros. Uma parte dos que colaboram com esses projetos tem consciência da complexidade dos processos, mas outra enfatiza apenas o papel de "distração" da leitura e, no caso do universo penitenciário, somente os aspectos funcio­nais que podem contribuir para uma futura reinserção pro­fissional. Basta pensar nos apontamentos de Jean-Paul Kauffmann ou de Marc Soriano, citados anteriormente, para des­confiar de que uma grande parte das vivências é ignorada.

Em contrapartida, existe uma literatura científica no campo da psicanálise. Nas mediações culturais que são ins­piradas por ela, a leitura de contos, mitos e, com menos fre­qüência, de livros ilustrados, romances, peças de teatro etc. é por vezes utilizada especialmente com crianças ou adoles­centes com dificuldades escolares, com psicóticos ou autistas, na psicologia clínica intercultural ou em terapias de família. Entretanto, tanto essas observações quanto a conceitualização que as acompanha permanecem pouco conhecidas fora dos círculos especializados.

Uma parte dos profissionais que realizam programas centrados na leitura em espaços em crise fala em "biblioterapia", que foi desenvolvida e teorizada na América do Nor­te, na Europa do Norte ou na Rússia. As definições dadas são múltiplas: em geral designa a utilização de materiais de leitura selecionados como suplemento terapêutico à cura me­dicinal ou psiquiátrica, mas recebe às vezes acepções mais amplas, até o ponto de cobrir um conjunto de mediações cul­turais seguidas de discussões em grupo, em contextos que ultrapassam o âmbito hospitalar.

Analisar as experiências relatadas nas obras publicadas sob essa designação, particularmente no mundo anglo-ame­ricano, seria rico em aprendizado, mas seria um trabalho distinto daquele em que me engajei neste livro. Nos contextos onde trabalhei, o conceito de biblioterapia é raramente em­pregado, mesmo entre os que trabalham no meio hospitalar. Não é unicamente uma questão de hábito cultural: nas ativi­dades que reivindicam pertencer a essa disciplina, como o seu nome indica, espera-se antes de mais nada um resultado te­rapêutico; ora, a maior parte dos mediadores de livros que encontrei considera o seu trabalho algo muito mais vasto do que o tratamento, julgam-no algo da ordem cultural, educa­tiva e, por certos aspectos, política.

Para os que vivem na América Latina, muitas das "cri­ses" são conseqüência de uma exploração econômica selva­gem, de processos de segregação prolongados, de uma domi­nação social feroz, ou de uma territorialização da pobreza. Quando uma pessoa ou uma população foi gravemente ata­cada em sua existência, em seu corpo, sua dignidade, ou es­poliada em seus direitos essenciais, a "reparação" deveria ser jurídica ou política. Para eles parece fundamental que cada um disponha de uma atividade que lhe permita assegurar, de maneira digna, a sua subsistência e a dos seus próximos; e que tenha voz no capítulo do futuro comum. Nenhum da­queles cujo trabalho acompanhei o encara como um bálsamo ou assistência, menos ainda como contenção: ver-se re­duzidos a conduzir e disciplinar zonas marginalizadas seria para eles insuportável.

Trata-se muitas vezes de pessoas engajadas em lutas so­ciais e para quem o acesso à cultura, ao conhecimento, à in­formação constitui um direito excessivamente desprezado. Assim como a apropriação da literatura. Ela lhes parece de­sejável por vários motivos, como veremos: porque quando aí se penetra, torna-se mais hábil no uso da língua; conquista-se uma inteligência mais sutil, mais crítica; e também torna-se mais capaz de explorar a experiência humana, atribuindo-lhe sentido e valor poéticos.


Confrontar pesquisas-ações
E em grande parte na análise de experiências latino-americanas que me basearei para, neste livro, buscar elementos capazes de responder às questões levantadas. Assim, no de­correr dos últimos anos, realizei trocas com aqueles que con­duzem uma quinzena desses programas e são considerados por seus colegas como particularmente talentosos: trata-se de "boas práticas", como se diz hoje em dia. De maneira mais pontual, coletei dados sobre um grande número de outras experiências.

Dois países em particular nutriram a minha reflexão: a Argentina e a Colômbia. O primeiro sofreu nestes últimos anos uma crise econômica de uma gravidade extrema, de­sembocando em um desastre social sem precedentes e uma multiplicação das patologias ligadas ao estresse, à depressão, ao pânico. Em certo sentido, o desenvolvimento de novas formas de solidariedade permitiu que os danos fossem con­tidos, como também o fez o dinamismo artístico, a multiplicação das iniciativas culturais. Como dizia Silvia Bleichmar, psicanalista, "nessa resistência, a cultura ocupa com fre­qüência um lugar central: cultura do trabalho em primeiro lugar, da valorização do conhecimento, da educação... Mas o que é fundamental é a resistência a serem reduzidos a me­ros seres biológicos. [...] A resistência da cultura é o direito ao pensamento".

Em um país que conheceu recentemente uma ditadura que inibiu o acesso aos livros, estes se mantêm cobiçados, mesmo no momento da telenovela e dos reality shows. A qua­lidade e a vitalidade da produção literária argentina tampouco são infundadas. Se as práticas de leitura, de modo sig­nificativo relacionadas aos níveis de estudo, permanecem me­nos importantes do que na França, as manifestações em tor­no do livro acolhem um número elevado de visitantes. Para além das categorias sociais "letradas", muitas pessoas têm um conhecimento da importância vital da literatura, oral ou escrita. Um velho chiste diz que os mexicanos descendem dos astecas, os peruanos dos incas e os argentinos do barco. Mais do que do barco, os argentinos descendem do conto, e não é de se admirar que entre eles tenham nascido um Borges, um Cortázar, um Bioy Casares.

Da Colômbia, a mídia francesa só mostra a guerra, os sequestros, os narcotraficantes, a delinqüência. Porém, os profissionais do livro que lá estiveram sabem que existem bibliotecas entre as mais belas do mundo e também entre as mais visitadas. Ali se encontram, por exemplo, salas de mú­sica como eu jamais vi na Europa, com pianos disponíveis para os que queiram praticar. Na capital, os freqüentadores de bibliotecas podem pedir livros por telefone, que serão le­vados até as suas casas por um entregador: nas ruas, mais do que assassinos com capacetes, como no filme de Schroeder, La Vierge des tueurs, os motoboys transportam às vezes belas histórias, narrativas eruditas ou histórias em quadrinhos.

Talvez esses contextos demasiadamente expostos per­mitam explicitar o que permanece invisível ou tácito em ou­tros lugares. Oferecem a oportunidade de ter um olhar dis­tanciado da nossa realidade imediata, de encontrar diferenças para nos questionar, ou semelhanças, ecos de nossas próprias experiências.

Tudo muda, claro, de um lado a outro do Atlântico: a história dos povos, a amplitude da pobreza, o nível de escolarização, as representações da escrita, do livro, o compro­metimento do serviço público, a intensidade das crises atuais etc. De qualquer forma, nas duas margens do oceano, obser­vações e comentários parecidos emergem de tempos em tem­pos. E contrastando com tais experiências latino-americanas, serão invocadas, algumas vezes, iniciativas levadas a cabo em outras regiões do mundo, como França ou Espanha, Cambo­ja, Irã ou Canadá.

Do mesmo modo que nas minhas pesquisas anteriores, foi pela experiência dos leitores que me interessei. Alguns deles me relataram as suas no decorrer de uma entrevista, de uma conversa, ou por um testemunho escrito. Mas, em geral, tive que captá-las observando os que estimulam ou animam esses programas. É difícil, sem dúvida, ser juiz ou tomar par­tido. Porém, vários desses profissionais colocam em prática verdadeiras pesquisas-ações e criam instrumentos para poderem manter um pouco a distância e registrar, com o apoio de relatórios e diários, o transcorrer das sessões, ou as anedotas, pequenas frases através das quais os participantes deixam entrever indícios do que foi despertado. Com freqüência, mediadores que não mantêm nenhuma relação entre si, que exercem trabalhos distintos e não fazem referência às mesmas correntes teóricas, tecem comentários semelhantes em Bue­nos Aires, Teerã ou Cidade do México: não tenho razão, com base nisso, para duvidar do rigor de suas observações...

Este texto se pretende também uma homenagem aos mediadores culturais dos países do Sul, dos quais não se fala nunca e que trabalham muito, pois estão convencidos de que os recursos culturais, de linguagem, narrativos e poéticos são tão vitais quanto a água. Foram eles que possibilitaram este livro. Que foi também alimentado por alguns encontros rea­lizados na França e na Espanha, assim como pela leitura de escritores e de psicanalistas que estudam a formação do pen­samento e da linguagem nos primeiros anos da vida.

Pela confrontação desses materiais, pistas serão levan­tadas — que estão longe de esgotar o tema —, para tentar esclarecer a contribuição da leitura em contextos críticos. Tudo começa, como veremos, com situações gratificantes de intersubjetividade, encontros personalizados, uma recepção, uma hospitalidade. A partir daí, as leituras abrem para um novo horizonte e tempos de devaneio que permitem a cons­trução de um mundo interior, um espaço psíquico, além de sustentar um processo de autonomização, a construção de uma posição do sujeito. Mas o que a leitura também torna possível é uma narrativa: ler permite iniciar uma atividade de narração e que se estabeleçam vínculos entre os fragmen­tos de uma história, entre os que participam de um grupo e, às vezes, entre universos culturais. Ainda mais quando essa leitura não provoca um decalque da experiência, mas uma metáfora.

Esses são elementos que, juntamente com outros, distinguirei para efeito de análise, mas que, na realidade, estão entrelaçados, formando uma única e mesma experiência tes­temunhada tanto pelas meninas quanto pelos meninos, provenientes de diferentes meios sociais e culturais, tendo prati­cado a leitura individualmente ou travado leituras comparti­lhadas. Uma mesma experiência que pressupõe invariavel­mente dispositivos específicos para que os textos lidos sejam objeto de uma verdadeira apropriação e não sejam entendi­dos como algo que se impõe e sobre o que é preciso prestar contas.

Para além dos "espaços em crise", as páginas que se­guem tratam de todos nós. Se me interessei por essas temá­ticas foi provavelmente porque fucei muito nos livros para enfrentar as angústias que tive que atravessar. Mas em al­gum momento da vida, cada um de nós é um "espaço em crise". Os seres humanos têm, diga-se, uma predisposição originária, antropológica, à crise: nascendo prematuros, nós somos marcados por uma fragilidade cujos vestígios permanecem ao longo da vida. Porém, saídas nos são oferecidas para que não sejamos atingidos pelos componentes destruti­vos daquilo com que somos confrontados.

Proust dizia que as idéias eram "sucedâneos das afli­ções": "no momento em que as aflições se transformam em idéias, perdem uma parte de sua ação nociva sobre nosso coração, e mesmo, no primeiro instante, a própria transfor­mação subitamente libera alegria". Os livros lidos ajudam algumas vezes a manter a dor ou o medo à distância, trans­formar a agonia em idéia e a reencontrar a alegria: nesses contextos difíceis, encontrei leitores felizes. Viviam em um ambiente pouco habituado à felicidade. Seus olhares eram às vezes bastante sofridos. E, no entanto, souberam fazer uso de textos ou fragmentos de textos, ou ainda de imagens, pa­ra desviar sensivelmente o curso de suas vidas e pensar as suas relações com o mundo. Longe de ser um catálogo do sofrimento humano, este livro pretende ser um questiona­mento sobre algumas das maneiras que permitem uma ex­pansão das possibilidades, uma saída dos caminhos pré-moldados, um respiro.


1

TUDO COMEÇA POR UMA RECEPÇÃO
"Aquilo que é meu, eu sempre consigo de outras mãos."

Antonio Porchia
No momento em que esboço este capítulo, alguns rostos ressurgem. Muitos são jovens — mulheres, em grande parte, mas também meninos. São bastante sorridentes, embora te­nham vivido episódios difíceis em decorrência da violência ou da ditadura que seus países conheceram. Basta ouvi-los um pouco para que contem espontaneamente histórias. E contam bem. Quando penso neles, vejo-os sempre em movi­mento. Alguns seguem viagem mesmo com jumentos carre­gados de livros, tal como Luis Soriano, com Alfa e Beto, no norte da Colômbia. Ou levam livros ilustrados em barcos e navegam até as ilhas ao sul do Chile, enquanto outros atra­vessam o Paraná ou a Amazônia, como os jovens do grupo Vaga Lume. "Os livros adoram a errância", diz a iraniana Noush-Afarin Ansari, e os "que ficam na biblioteca são livros tristes".

Ainda que não sejam responsáveis por bibliotecas am­bulantes, as pessoas em que penso parecem estar sempre en­tre duas viagens: acabam de percorrer a Patagônia, as Minas Gerais ou as Chiapas, de carro ou ônibus, onde lêem duran­te horas, como Javier mergulhado no Quixote e morrendo de rir sozinho, rodeado de passageiros intrigados.

São os mediadores de livros: bibliotecários, fomentado­res de leitura, professores que propõem experiências um pou­co diferentes, poetas, ilustradores, psicanalistas. Eles também vão a pé, como as jovens em torno da biblioteca El Tunal, que sobem nos bairros mais estigmatizados de Bogotá, car­regando nas costas muitas histórias que serão lidas para as crianças e para os adolescentes. E estes, com o passar do tem­po, as seguem até o prédio de arquitetura futurista onde ago­ra trabalham. Um pouco mais longe, nos jardins públicos da cidade andina, jovens montam grandes estandes onde livros (ilustrados ou não) são dispostos. Crianças se aproximam, ou seus pais; observam o que é proposto; e também aí os intercessores lêem.

Um mundo que caminha e narra. Na África e na Ásia existem mediadores semelhantes a eles. Na Europa também, claro. Eles têm o desejo de transmitir, de ensinar, de dividir suas questões e percorrem também dezenas, centenas de quilômetros, para pensar suas experiências junto com os seus pares, ou com escritores, com pesquisadores.

Muitos são artistas das relações e da palavra, que exer­cem sua arte com talento e generosidade, aproveitando-se de sua experiência profissional, de sua intuição, de sua imagina­ção. Outros são menos seguros ou mais rígidos e pedem re­ceitas que ninguém será capaz de lhes dar. A maioria, como eu disse, situa-se muito ao largo da caridade e das boas obras: estão convencidos de que todos têm o direito de se apropriar da cultura escrita e de que uma tal privação leva a uma marginalização ainda maior. Sem ingenuidade, sentem que o que fazem, pelo contrário, é em grande medida uma história de amor: com aqueles que os acompanham e com os objetos do seu trabalho. Mas, como escreve Thomas Pavel, "a inteligên­cia do coração não exclui a do intelecto, ela a convoca". Ela pressupõe conhecimentos, noções literárias, observação aten­ta, um questionamento sobre si mesmo, uma reconsideração. Tanto mais porque atravessam períodos desestimulantes, nos quais chegam a perder até o sentido do que fazem e de seu engajamento, e o futuro do seu trabalho é incerto, ameaçado por uma mudança política, a perda de uma subvenção, o ca­pricho de uma autoridade tutelar. Dada a realidade social e política difícil enfrentam.
Um mecanismo aparentemente muito simples
No centro daquilo que desenvolviam aparece, com va­riações, um mecanismo aparentemente muito simples: o intercessor propõe alguns suportes escritos para pessoas que estão habitualmente distantes deles e os lê em voz alta; de­pois, entre os participantes, surgem histórias, ou algumas vezes uma discussão; ou ainda o silêncio. O que acontece nesses encontros? Dois grupos que têm uma longa experiên­cia nesse tipo de mediação, cada um à sua maneira, dão uma idéia mais aproximada.

A Cor da Letra desenvolve desde 1998 projetos centra­dos na leitura e na literatura em várias regiões do Brasil. Esse centro de estudos trabalha com instituições que se dedicam a cuidar de crianças e jovens em situação de risco, ONGs, escolas públicas e privadas, hospitais, bibliotecas, centros so­ciais e culturais, em especial nos bairros urbanos pobres e no interior. Forma pessoas muito diferentes nessa arte das rela­ções, da qual eu falava anteriormente, a fim de que "a leitu­ra de histórias seja incorporada na rotina das instituições ou em diversos espaços da comunidade", com a esperança de que essas "ilhas de expressão, de transmissão e de criação de cultura" se multipliquem. Afinal, qualquer pessoa, segundo esse grupo, pode se transformar em um mediador de leitura se for determinada, se dispuser de um pouco de tempo e de um vínculo com uma instituição ou uma comunidade locais, para garantir uma continuidade ao trabalho.

Quando parcerias institucionais são possíveis, com hos­pitais pediátricos, por exemplo, A Cor da Letra ensina ao pessoal (nesse caso, ao pessoal da saúde, do médico-chefe às enfermeiras e aos encarregados da limpeza) a entrar no uni­verso das narrativas, a conhecer e respeitar a diversidade das culturas, dos tempos, das escolhas, a ler um texto em voz al­ta, exatamente como está escrito, e a acolher as palavras ou respeitar o silêncio das crianças. Quando os serviços públicos inexistem, a associação forma jovens ou moradores, para que assegurem essa mediação de forma militante e possam, por sua vez, iniciar outras pessoas nessa atividade.

Porém, no Brasil, assim como em vários lugares, não é fácil transmitir o gosto pela leitura aos adolescentes, espe­cialmente quando eles cresceram nos meios populares. Quan­do as animadoras de A Cor da Letra chegaram nas favelas e começaram a tirar livros da mochila, muitos jovens se decep­cionaram ou ficaram desconfiados. Tais objetos eram des­providos de sentido; esses jovens só tinham conhecido a lei­tura na escola, o que não lhes trazia boas lembranças: "A escola foi uma experiência sem valor", comenta Vai, "a lei­tura era obrigatória, imposta, aprendi apenas a memorizar os textos, o ato de ler não tinha nenhum sentido, eu só deci­frava símbolos. Assim, logo anestesiei a criatividade, a pos­sibilidade e a capacidade de descobrir. Durante vários anos, era como a Bela Adormecida, não distinguia nada, não ou­via, nem dizia nada".

Onde habitualmente ninguém acredita na capacidade dos adolescentes, onde a atitude usual com relação a eles é a desconfiança, as mulheres que levam adiante A Cor da Letra tiveram confiança na criatividade, na audácia e na energia deles. Modificando o olhar sobre eles, "nós os mudamos de lugar", diz Patrícia Pereira Leite. Como não havia prova final e uma vez que eles foram tocados pelas palavras, ou pela voz, ou pela energia dos adultos que vinham ler histórias e depois lhes propunham juntarem-se a eles, dezenas de jovens se mostraram abertos a receber uma formação.

A partir daí, foi sugerido que falassem da infância, por exemplo pensar em um objeto de que gostassem muito e em uma história associada a ele. "Nós refletimos juntos, a partir de temas que eles apresentam", aponta Patrícia: "todo mun­do tem histórias para contar". Vemos que o repertório cul­tural a partir do qual a associação trabalha não se constitui somente do que os formadores trazem, mas igualmente do que cada um propõe. Desde a idade mais tenra, todo meni­no, toda menina é considerado como sujeito ativo na cons­trução de seus conhecimentos e de sua cultura.

Os adolescentes se perguntaram por que ter acesso aos livros era importante, e debateram o assunto. Vídeos que in­cluem crianças com livros ilustrados foram mostrados, anali­sados, comentados; elementos teóricos foram fornecidos so­bre o desenvolvimento da linguagem na criança; estabeleceu-se a diferença entre contar e ler (o livro garante a repetição da história, a estabilidade). Se questionaram sobre o lugar que ocupavam, distinto daquele do professor ou de um ami­go — muitos deles estariam na posição de dar a outros o que eles mesmos não puderam receber. As reuniões de formação também recorreram ao mecanismo e aos suportes que acaba­riam usando: foi-lhes proposto ler um livro ilustrado em voz alta e depois comentar essa experiência. No começo, a maio­ria não ousava fazê-lo, com medo de gaguejar, deformar as palavras, de serem ridicularizados. Ficaram surpresos quan­do alguém os ouviu com atenção, ao constatarem que a sua voz, sua palavra, tinha um valor, surpresos com a possibili­dade de serem ouvidos. Aos poucos, eles se familiarizaram e a inibição que sentiam se atenuou.

Então, eles vão ler para outros, geralmente para crianças menores, diante da porta de suas casas. Foi-lhes demonstra­da a necessidade de observar e depois anotar o que surgia durante as sessões: as crianças se exprimem mais do que antes, ou não?; estão mais à vontade para falar delas mesmas?; a relação delas com os outros se transforma?; o que muda para elas na escola?; etc. Tudo isso é comentado e analisado durante as supervisões que ocorrem quando das reuniões mensais.

Com o passar dos meses, a própria possibilidade de ex­pressão lingüística deles, oral e, às vezes, escrita, desenvolveu-se significativamente, fato confirmado por algumas avalia­ções realizadas por lingüistas. Algumas dessas crianças retomaram os estudos. Outras participaram de eventos em con­textos que excedem e muito o meio social a que pertencem e seu espaço de vida habitual, como de alguns Encontros Na­cionais de Adolescentes ou da inauguração de uma bibliote­ca ligada ao Movimento dos Sem Terra. Também visitaram museus localizados em outros bairros.

O psicolinguista Evelio Cabrejo-Parra e eu encontramos alguns deles. São mediadores em favelas, em casas para me­ninos em situação de risco, em hospitais, ou no campo. Fica­mos impressionados com a enorme capacidade deles de se exprimir e falar de sua experiência de maneira direta, engaja­da, e não a partir de um discurso informativo sobre os su­postos benefícios da leitura; pela acuidade de suas observa­ções, pela atenção e pelo respeito com que tratam aqueles a quem seu trabalho de mediação se destina. Assim como fi­camos impressionados com a qualidade da atenção dos res­ponsáveis pela associação, que em nenhum momento intervinham no que diziam, não substituíam as suas palavras.

É verdade que duas são profissionais da escuta: Patrí­cia Pereira Leite é psicanalista e Mareia Wada, psicóloga, ao passo que Cintia Carvalho tem formação literária. Todas re­conhecem, pelo seu trabalho, que os rumos de um destino podem ser reorientados por meio de uma intersubjetividade, uma disponibilidade psíquica, uma atenção, e que isso, as­sim como a simbolização, é o cerne da construção ou da re­construção de si mesmo. Mas elas fazem uma distinção bas­tante clara entre o trabalho clínico que realizam e sua ativi­dade no interior de A Cor da Letra. Conhecem o poder da literatura por experiência e gosto pessoal e citam o crítico Antonio Cândido:
"[...] assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura. [...] Vista deste modo a literatura aparece claramente como manifestação uni­versal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação. [...] Ora, se ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da fic­ção e da poesia, a literatura concebida no sentido amplo a que me referi parece corresponder a uma necessida­de universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito".
A atuação delas é baseada na consideração da contribui­ção da literatura para o desenvolvimento psíquico, com a convicção, lastreada pela experiência e por observações, de que a arte da narrativa, em particular, permite organizar a própria história e transformá-la. Foi, no início, com René Diatkine, da Unidade Noturna da Fundação Martine Lyon, integrada ao setor de Saúde Mental do 13° Arrondissement de Paris, e da associação ACCES, que Patrícia Pereira Lei­te se formou. Ali, ela aprendeu que um novo desdobrar das possibilidades sempre é desejável, não importa quais sejam os percalços da vida social ou psíquica do sujeito, se sabemos ouvi-lo e mudar o olhar dirigido a ele; e entendeu que o horror ao texto experimentado por certas crianças ou adolescen­tes, para quem a escrita havia sido sinal de exclusão, é rever­sível "sobretudo se não se reconstitui uma situação de ava­liação formal, se não se propõem questões destinadas a verificar se o ouvinte entendeu bem o que se gostaria que ele entendesse".

Alguns dos jovens mediadores de A Cor da Letra lem­bram do reconhecimento que conquistaram, particularmente junto aos moradores do lugar onde vivem, como esta jovem: "Com esse trabalho, não sou mais uma menina qualquer nes­sa comunidade, sou uma referência para as crianças, quando passo na rua, todos me reconhecem". Ou esta outra: "Você sabe, as pessoas ouvem! Alguém prestou atenção em mim!".

Outros falam do sentimento de responsabilidade, da im­portância do fato de se sentirem participando de uma coisa mais vasta que eles próprios, como este jovem: "Fui respon­sável por algo que não era apenas a minha vida, algo que fazia com que saíssemos de nós mesmos". Ou Vai que agora trabalha na associação, depois de ter retomado os estudos: "Ao trabalhar com jovens inseridos na mesma realidade em que me encontrava anteriormente, eu sentia que tinha uma responsabilidade muito grande: abrir os caminhos que tor­nam a transgressão possível" — transgressão que consiste em deixar as imposições sociais e se apropriar dos lugares e dos objetos que não eram destinados a eles.

Eles não farão isso a vida inteira; consideram a partici­pação em A Cor da Letra como um tempo, mas um tempo importante. E sempre existe a idéia de multiplicação. Por exemplo, no projeto Mudando a História, no qual 338 jovens se formaram em São Paulo, no Rio de Janeiro e em duas ou­tras cidades. Eles transmitiram, por sua vez, o que sabiam a 2.459 novos mediadores e, ao final, cerca de 30 mil crian­ças e adolescentes foram beneficiados. "Abrimos clareiras, outros se apoderam desses objetos e os carregam para mais longe", diz Patrícia.


Espaços não submetidos ao rendimento escolar
Cruzemos a fronteira que separa o Brasil da Argentina e ouçamos Javier Maidana, professor em um colégio de um bairro popular da grande Buenos Aires. Ele relembra o dia em que duas mulheres vieram propor a abertura de um "Cen­tro de Leitura para Todos". Ele estava lá, do lado dos alu­nos, tão desconfiado quanto aqueles jovens brasileiros quan­do viram chegar as animadoras de A Cor da Letra. Uma das duas visitantes, Ani Siro, leu em voz alta um texto que falava da descoberta dos paraísos pessoais e perguntou se eles ti­nham um tal paraíso:
"Aconteceu comigo uma coisa bizarra, eu redescobri o prazer de ouvir uma história, como quando eu era pequena, a voz da nossa leitora nos envolvia delicada­mente e eu esquecia tudo, que era professora, que era adulta, que estava diante de meus alunos, e viajei até a minha infância. E me lembrei que meu paraíso era den­tro dos banheiros precários que existiam na minha casa. Eram feitos de madeira e a umidade fazia marcas que adquiriam formas humanas, ou demoníacas, ou se trans­formavam em monstros mitológicos com quem eu po­dia conversar se quisesse ou se tivesse necessidade de fa­zê-lo, ou ficar ouvindo o que me diziam. Ali, quando eu tinha sete anos, me sentia protegida. [...] Não consegui resistir e tive que compartilhar essa lembrança com aque­les que participavam da reunião. Em seguida, alguma coisa mudou. O ambiente ficou mais relaxado, tudo pa­recia mais à vontade e todos começaram a falar de seus paraísos".
Javier se tornou um dos animadores desse centro de lei­tura. E se esse centro está localizado dentro de um colégio, ele é ao mesmo tempo dotado de uma certa extraterritorialidade: como dizem seus entusiastas, é "um espaço de não obrigação no meio da obrigação", uma terra de liberdade não submetida ao rendimento escolar, e os adolescentes, me­ninos e meninas de doze a dezessete anos, fazem parte do projeto porque optaram por isso. Nem todos são bons alunos e a maioria não teve uma infância embalada por leituras noturnas, mas nesse centro eles desfrutam da presença calo­rosa e da escuta de mulheres ou homens que adoram a lite­ratura e que se sobressaem na arte de falar de sua própria experiência como leitores.

Assim como os adolescentes brasileiros, eles aprenderam a ler em voz alta sem temer o olhar dos outros. No início, também ficavam apavorados: "Eu não tinha medo dos livros, tinha medo da rejeição das pessoas para quem eu lia". Tam­bém eles foram reconhecidos, como Dario, que se lembra da primeira vez que leu em público: "Quando eu os olhava, via um pequeno sorriso em seus rostos que me fazia sentir como em minha casa, e o melhor momento foi quando, no final, eles me aplaudiram. Pela primeira vez na minha vida, eu me senti importante. [...] Quando leio para as crianças e elas me aplaudem, me sinto único e importante". Aqueles que dese­jam vão ler para outros no colégio ou fora dele, enquanto seus companheiros são "exploradores de livros", que reno­vam as leituras propostas depois de ter aprofundado os cri­térios de seleção. Todas as semanas eles se encontram, pri­meiro para momentos de especulação pessoal, de intimidade com os livros, depois comentam suas impressões, suas prefe­rências, suas histórias singulares de leitores. Em seguida, o coordenador lê em voz alta um texto que selecionou e todos debatem as possíveis interpretações. Como na experiência brasileira, às vezes são organizadas saídas culturais que levam à descoberta de outros bairros.

Na véspera da minha chegada, eles haviam buscado na internet poemas de Jacques Prévert de que gostavam para que eu lesse em francês e eles, em espanhol. Também deram voz a outros poemas e a contos que, em sua maioria, falavam de amor e, algumas vezes, da morte; depois discutiram um de­les, no caso, o conto "A dama ou o tigre?", do americano Raymond Smullyan. Sentia-se no grupo muita amizade e, ouvindo-os, eu pensava que havia ali uma escola de atenção delicada ao outro — e ao outro sexo. Alguns leram os pró­prios textos e um deles contou que escrevia sempre sobre uma mulher, até o dia em que um poeta foi ao centro e lhe disse para tentar encontrar a beleza que buscava naquela mulher na natureza. "Gostei daquilo, me abriu muitas portas. Fiz uma poesia combinando a mulher com a natureza." A partir da mulher sonhada, o mundo entrou em seus poemas. Um outro garoto, Juan Carlos, disse: "Era preciso que eu fizesse algo por minha vida. Se não tivesse encontrado o centro de leitura, não sei o que teria sido dela". E uma jovem, Soledad: "O centro de leitura me ajuda a ser a pessoa que sou, a en­contrar vida nas palavras [...] é um espaço para descobrir a si mesmo, um lugar para compartilhar, um lugar para estar com os livros, sem pudores".
Uma disponibilidade essencial
De fato, para "encontrar vida nas palavras", é preciso "estar com os livros, sem pudores", como essa jovem diz tão bem. Em outras palavras, esses objetos não podem constituir um monumento intimidador, enfadonho. Se o adulto impõe à criança o comportamento que ela deve ter, o bom jeito de ler, se ela se submete passivamente à autoridade de um texto, encarando-o como algo que lhe é imposto e sobre o que ela deve prestar contas, são poucas as chances de o livro entrar na experiência dela, na sua voz, no seu pensamento. Apro­priar-se efetivamente de um texto pressupõe que a pessoa te­nha tido contato com alguém — uma pessoa próxima para quem os livros são familiares, ou um professor, um bibliote­cário, um fomentador de leitura, um amigo — que já fez com que contos, romances, ensaios, poemas, palavras agrupadas de maneira estética, inabitual, entrassem na sua própria ex­periência e que soube apresentar esses objetos sem esquecer isso. Alguém que desconstruiu o monumento, fazendo com que encontrasse uma voz Singular.

Alguém que manifesta à criança, ao adolescente, e tam­bém ao adulto, uma disponibilidade, uma recepção, uma presença positiva e o considera como sujeito. Os que viveram o mais distante dos livros e que puderam, um dia, considerá-los como objetos próximos, companheiros, dizem que tudo começa com encontros, situações de intersubjetividade pra­zerosa, que um centro cultural, social, uma ONG, ou a bi­blioteca, às vezes a escola, tornam possíveis. Tudo começa com uma hospitalidade.

Ouvindo-os, eu lembrava das palavras daquelas e da­queles que meus colegas e eu encontramos na França, nos bairros ditos "sensíveis". Graças a mediações sutis, calorosas e discretas, em vários momentos do percurso deles, a leitura entrou na experiência de cada um. Eles não se tornaram ne­cessariamente grandes leitores, mas os livros não os entedia- vam, não lhes botavam medo. Ajudaram a que colocassem mais palavras em suas histórias, a tornarem-se mais atores delas. Isso não seria suficiente para modificar radicalmente a linha de seus destinos sociais, mas contribuiria para que evi­tassem certas armadilhas.

Eles também tinham evocado a importância decisiva da hospitalidade, do lugar que lhes foi dado: "Saber que alguém está lá, que te ouve... O fato de ter um lugar determinado na biblioteca. Alguém te diz bom-dia, te chama pelo nome, 'Tu­do bem?', 'Tudo', isso é suficiente... Somos reconhecidos. Te­mos um lugar. Estamos em casa". Chamaram a nossa atenção para esse tempo em que um mediador está inteiramente dis­ponível. Ao ouvi-los, compreendíamos que o que é precioso não é apenas a aptidão técnica do bibliotecário para se orien­tar no mundo da documentação. É que ele acolha a criança, o adolescente. E assim eles vão fazer uso dessa disponibili­dade, que raramente encontram nos adultos, apoiar-se neles para a sua busca, mas também para elaborar esse lugar que lhes é oferecido, para dar novamente um movimento aos seus pensamentos, aos seus desejos, seus sonhos, suas vidas; e para ir mais longe.

É o que encontra Claire Jobert em uma experiência com crianças trabalhadoras de um bairro popular de Teerã: "Me­diações individuais inscritas no tempo [podem] vencer as he­sitações de uns e a inabilidade de ler de outros. Mediações simples, fundamentando-se, antes de mais nada, em uma grande disponibilidade de tempo e de espírito, na escuta des­sas crianças e adolescentes tão sensíveis à atenção que lhes é dedicada".

Para meninos e meninas estigmatizados por alguma ra­zão — porque cresceram em uma favela ou porque seus pais imigraram, porque fazem parte de um grupo subjugado — é conhecida a importância dessa hospitalidade, de ser reconhe­cido em sua singularidade, chamado pelo nome, ouvido. E isso por alguém diferente de seus próximos, que é o mediador de um outro mundo.

Isso é ainda mais sensível para quem viveu um drama, uma catástrofe, algumas vezes até perdeu uma parte dos seus provedores. Quanto a esses, quem tentou identificar os ele­mentos apropriados a uma reconstrução de si mesmo depois de tais dramas alertou para a importância dessas intersubjetividades: toda reconstrução psíquica pressupõe um acom­panhamento, "toda crise demanda não uma lógica do indi­víduo, mas uma lógica relacionai", escreve Kaès. Outros lembraram o papel decisivo dos "encontros significativos", dos "adultos referentes" ou dos "tutores de desenvolvimen­to" ou de "resiliência", nos quais a qualidade da presença e da escuta é um ponto fundamental.
Em busca de novos impulsos
Ao olhar a criança ou o adolescente de uma outra forma, os mediadores culturais criam uma abertura psíquica, ainda mais porque eles não são os intercessores de qualquer objeto, mas de livros, que antes eram símbolo de tédio ou de exclu­são, e que, como esses jovens vão descobrir, também os "ou­vem" e lhes dedicam uma atenção singular, enviando-lhes ecos do mais profundo deles mesmos.

Tel Samir fala de uma bibliotecária que o aconselhava na infância: "Ela conhecia os meus gostos. No início, eu era orientado por eles, e ela sentia que não era o meu caminho principal, e depois, eu mesmo não sabia. E ela me aconselhou outros livros; eu pensei: olha, isso não tem nada a ver com o que eu queria, mas até que eu gosto. E toda vez ela mudava, e sempre eu gostava". Malika faz quase o mesmo comentá­rio: "Minha melhor lembrança é Philippe, o bibliotecário. Tenho a impressão de que éramos verdadeiros amigos... Ele sempre sabia tudo, os livros de que eu ia gostar: 'Eu li isso, você poderia ler'. Ele sabia que tipo de livro agradaria a essa ou àquela pessoa". Como Samir, Malika se sentiu acolhida por alguém que parecia ter um saber que ela ainda não tinha. Pois esses livros ilustrados que o bibliotecário compartilhava, essas pequenas histórias que lia ou aconselhava, diziam res­peito a ela no mais alto grau. Tais livros sabiam muito sobre ela, seus desejos, seus medos, regiões dela mesma que ela não tinha explorado, ou não sabia expressar.

É evidente que essa não é uma experiência própria das crianças e dos adolescentes que vivem em contextos de cri­se. Ao longo da vida, procuramos as bolas que nos são lan­çadas e que nos permitirão discernir melhor o que existe ao redor de nós, e mais ainda o que acontece dentro de nós e não conseguimos exprimir. Precisamos do outro para "reve­lar" nossas próprias fotografias, tomando emprestado uma imagem de Proust que, em O tempo redescoberto, evoca es­ses "inúmeros clichês, inúteis porque não 'revelados' pela inteligência".

Do nascimento à velhice, pensamos unicamente em res­posta ao que nos foi lançado por outros, ainda mais quando desconfiamos de que eles sabem de alguma coisa, um segre­do, ao qual não temos acesso. Sem o outro, não existe sujei­to. Em outras palavras, o gesto da partilha ou da troca, a relação, está na origem mesma da interioridade, que não é um poço onde se mergulha, mas que se constitui entre dois, a partir de um movimento em direção ao outro. Está também na origem mesma da identidade (se é que esta existe, o que pode ser discutido), que se constitui em um movimento si­multaneamente centrífugo e centrípeto, em um impulso em direção ao outro, um desarraigamento de si, uma curiosida­de — uma vontade também, por vezes feroz. Na origem mes­ma da cultura.

Em busca de novos impulsos, de sentido, nós os furta­mos onde podemos, pegamos dos outros e emendamos com frases que ouvimos no ônibus ou na rua, mas também com o que encontramos nos conservatórios de sentido típicos da sociedade em que vivemos, lendas, crenças, ciências, biblio­tecas. E os escritores que revelam o mais profundo da expe­riência humana, devolvendo às palavras sua vitalidade, têm aí um lugar essencial.

Compreendemos melhor o fundamento das coisas se nos voltamos ao princípio da vida humana. Além disso, como já foi notado e o será novamente, é para um retorno à infância, às primeiras lembranças da descoberta das palavras, das histórias, dos livros ou dos objetos amados, que os mediadores impelem aqueles que encontram.


As intersubjetividades na origem do pensamento
Recentemente, a psicanálise e a psicologia cognitiva apro­fundaram muito a análise da parte interativa e relacional da construção do psiquismo desde os primeiros meses da vida, bem como iluminaram os processos de aquisição da lingua­gem e de desenvolvimento do pensamento. Como escrevem François Flahault e Nathalie Heinich, "o recém-nascido dis­põe de bases neurológicas que lhe permitem tornar-se uma pessoa. Mas a ativação das suas possibilidades passa por in­terações com o adulto que cuida dele". Somente a reorientação pelo outro lhe permite dar, aos poucos, sentido e forma ao que vivência, construir um significado e encaminhar-se para a linguagem verbal.

Essas disciplinas mostraram que as primeiras bolas que são lançadas à criança são fundamentais: delas dependerá, em grande medida, seu desenvolvimento. Todos os grandes especialistas nessa idade assinalaram a importância, para o despertar sensível, intelectual e estético das crianças, das tro­cas precoces que a mãe (ou a pessoa que a representa) tem com o bebê. Insistiram no papel fundamental dessas intera­ções que apelam para todos os sentidos: o tato, o olfato, o paladar, a audição e a visão, e que se organizam de forma recorrente em pequenos esquemas.

D. Winnicott já havia lembrado a "delicadeza do que é pré-verbal, não verbalizado, não verbalizável, a não ser, tal­vez, por meio da poesia". Falou da importância da manei­ra como a criança é segura (o holding), tratada, manipulada (o handling). Comentou também sobre o papel exercido pe­lo rosto da mãe, em direção ao qual a criança conduz o seu olhar esperando que ele reflita alguma coisa sobre ela mesma, esse rosto que tenta "ler" para decifrar o humor da pessoa que cuida dela, "assim como estudamos o céu para adivi­nhar o tempo que vai fazer". A psicoterapia era "um deriva­do complexo do rosto que reflete o que ali está para ser vis­to". A leitura também, talvez, pois o que a criança explora ou teme nos livros é em larga escala esse ser estranho, inquietante, fascinante, que está dentro dela, do qual ela ignora porções inteiras e que às vezes se revela, se constrói por aca­so quando encontra uma página; esse lugar distante no inte­rior, o mais íntimo, o mais escondido, que é, contudo, onde nós nos abrimos aos outros. Aí encontra-se grande parte do segredo que procuram os leitores, às vezes freneticamente — e que outros, ao contrário, esforçam-se em evitar.

Os sucessores de D. Winnicott estudaram essa explora­ção visual do rosto materno realizada pelo bebê. Observaram o papel do envolvimento tátil, da maneira como a criança é segurada — fontes da organização de si mesmo. Eles mostraram que a função referencial e informacional da linguagem se desenvolvia sobre a base preliminar de seu impacto afetivo e existencial: para entrar na ordem da linguagem é preciso que a criança tenha experimentado o prazer do diálogo, seu interesse, sentido que, através dele, ela pode ter um efeito sobre o outro, tocá-lo. Além disso, trataram da importância da voz: o valor da palavra se encontra antes de mais nada em suas modulações, seu ritmo e seu canto.

Sabemos hoje como são preciosos para o desenvolvimen­to psíquico os momentos nos quais a mãe se dedica ao seu bebê fazendo um uso lúdico, gratuito, poético, da linguagem, quando canta para ele uma pequena canção, ou quando lhe diz uma parlenda acompanhada de gestos de ternura, sem outro objetivo além do prazer compartilhado das sonoridades e das palavras. Em todas as culturas do mundo, aprende-se primeiro a música da língua, sua prosódia, que não se ensina, mas se transmite. E cantigas de ninar, parlendas, rimas infan­tis — que são uma forma de literatura — são colocadas à disposição das crianças.

Pelas suas repetições, seu retorno, a melodia dessa lin­guagem traria uma continuidade reconfortante, daria uma unidade às experiências corporais da criança. A partir des­sas percepções, ela extrairia estruturas rítmicas que participam de sua aquisição da linguagem. Essa noção de ritmo — presente, talvez, desde a vida uterina — seria central nes­sas interações precoces e na constituição da psique e da lin­guagem. Diferentes trabalhos teriam mostrado a sensibili­dade das crianças, em particular, para a estrutura rítmica das cantigas de ninar, que seria muito próxima da estrutura do soneto na poesia clássica.

A partir dos seis meses de idade, é possível saber a qual cultura pertence um bebê, pois ele constrói pouco a pouco a sua própria voz se apropriando das formas sonoras em­pregadas pelas pessoas que falam com ele. "É impossível ter uma voz sem ter ouvido alguém falar", escreve Evelio Cabrejo-Parra. "Se os outros não nos dessem acesso à voz, perma­neceríamos acomodados no grito, sem poder atingir nossos destinos de seres de palavra. O bebê ouve, capta nas vozes que escuta os traços acústicos que devolverá em eco no mo­mento da produção das primeiras sílabas, na forma de 'ta-ta- ta', 'ma-ma-ma"'. Sem pensar nisso, o adulto entra no jogo da criança e lhe devolve, por sua vez, um eco da produção silábica dela, reconhecendo a sua atividade psíquica, incentivando-a. Por meio desse diálogo, muito antes de a criança saber falar, as regras da conversação, baseadas em um reveza­mento, são também assimiladas pelo pequeno ser humano.



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