Meu Quixote querido



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Encontro06.05.2017
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Meu Quixote querido.
Estou em 2005 e sua imagem não sai de minha cabeça desde que te li em minha adolescência. Imortal como meu desejo, és acima de tudo uma linda imagem de um cavaleiro cinqüentão que não deixa rastros para inimigos e busca um tempo perdido. Tal qual às vezes me vejo e me sinto nesses dias medievos. Sonhas novelas de cavalaria e eu sonho com minhas utopias deitadas ao relento para que um vento as leve de vez. Sei que não me aconselharias a fazer isso, pois sonhaste com um mundo diferente, tal qual eu ainda sonho. Os cavaleiros andantes, hoje, são tão velozes que não se deixam ver, somente deixam sombras apagadas. As guerras são cada vez mais sem espadas, mas trazem o sangue derramado nas mãos de irmãos e vizinhos. Pensaram que a razão pudesse dominar o mundo e nos fizeram acreditar que o racionalismo era o melhor para a humanidade e com toda a positividade possível. Disseram que éramos loucos por acreditar, como tu, no imaginário como a maior força do humano. A ordem em que nos fizeram entrar não trouxe progresso como queriam os positivistas, herdeiros daquele momento clássico pelo que passaste. O delírio agora é o que nos resta. Mas sem ilusões. Talvez o mesmo de Alonso Quijano, que se fez Dom e Quixote e de La Mancha. A História tornou-se também ficção. Ficção de quem a conta e contou pelos séculos seculorum. A realidade agora é a loucura. A ficção se instalou nos jornais do mundo e o fanatismo se apegou às pontas das religiões. Fostes feliz nos brindes da amizade. Pança te acompanhou na fantasia e o povo da Espanha e do mundo toma vinho, bebemorando tuas aventuras entre moinhos e ventos. Enquanto isso Lazarillo de Tormes torce o nariz, esperando tamanha amizade de seu povo. Tem ciúmes com certeza. Não teve tua sorte. Sem pai e odiado pela igreja, denunciando a hipocrisia e a falsidade de então, restou-lhe o título de pícaro. Aqui era o lugar dele, e deveria ter feito muito sucesso, como tu, caso a igreja não o censurasse com tal veemência, pois sabes que ele é do tipo malandro-agulha, anti-herói por excelência, um Macunaíma.

Até hoje se discute por aqui, em nossos quintais literários (ou quem sabe cozinhas), se voltastes à realidade, renunciando, ao fim de tua caminhada, à loucura. Morreste mesmo? Se morreste, encontraste no espaço com Quincas Berro d’Água? De quantas mortes precisa um herói para morrer de fato? Agora, matamos todos os heróis, pois nos disseram que eles estavam podres de ideologia, que a Indústria Cultural incutiu neles.



Esse seu canto de liberdade, Quixote, repercute até hoje. Gabriel Garcia Marques, MarioVargas Llosa, Alejo Carpentier... E tantos outros fora de tua língua, ainda não esqueceram esse grito, que está sempre reprimido em nossas gargantas e em que também nos fizeram acreditar: a palavra liberdade. Mulheres e homens de todos os tempos clamaram através de tua voz: La libertad... es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieron los cielos; con ella no pueden igualarse los tesoros que encierra la tierra ni el mar encubre; por la libertad así como por la honra se puede y debe aventurar la vida, y, por el contrario, el cautiverio es el mayor mal que puede venir a los hombres”(II,58). A virtude e a bondade desapareceram do mundo, amigo. Covardias, perversões de toda ordem reinam em toda parte. Em todo mundo, sem fronteiras geográficas, pátrias, mátrias e frátrias tornaram-se abstrações dos grandes impérios do capital. E o outro, como diferença, não passa de um fantasma. Tua Espanha sofre com o terror. Repetição da História? Farsa? Tragédia? Estamos num barco da História cujo vento nos leva como se fôssemos bêbados a algum lugar. Talvez tudo se passe no mundo de seu narrador árabe-muçulmano: Cide Hamete Benengeli.
Teu pai foi muito esperto, quando pediu a alguém para contar tua estória. Imagino como teria sido tu contares tua estória... Mais trágico ou mais cômico? Ou nem uma coisa nem outra? Dois narradores contam muitas peripécias e tu ficas no meio do mundo como Riobaldo, no meio dos redemoinhos, entre vidas e mortes, entre moinhos e redes criadas pelo real e pelo imaginário. Onde está Alonso? Onde está Wally?Onde está Quixote? Em que tempo me meteste? Em que espaço me ocultaste? Cronos não me diz mais da tua existência. Vivo outro tempo, outros tempos. Num cristal. Por isso remanejo meus mapas de tempo. Como tu o fizeste, num jogo em que multiplicas a ficção e a vida. Daí que continuas cavalgando em meus sonhos, em meus versos. Como um Quixote que foste e que és, para sempre em mim.
Da tua,


  1. Vera Casa Nova


No quarto centenário de Don Quixote de la Mancha de Miguel de Cervantes.



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