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­E destes modos da verdade:
Não atravessaste tu o conhecimento de toda a dor - primeira

verdade?
Não venceste tu o rei dos Maras em Tsi, a porta da reunião (48)

- segunda verdade?
Não destruíste tu o pecado à terceira por­ta, atingindo a

terceira verdade?


Não entraste tu para Tau, o caminho que leva ao conhecimento

(49) a quarta verdade?


E agora, descansa sob a árvore de Bodhi, que é a perfeição de

todo o conhecimento, porque, sabe-o, és possuidor de Samadhi - o estado da

visão infalível.
Vê! tornaste-te a luz, tornaste-te o som, és o teu Mestre e o

teu Deus. Tu próprio és o objeto da tua busca: a voz sem falha, que ressoa

através de eternidades, isenta de mudança, isenta de pecado, os sete sons

em um,
A Voz do Silêncio.


Om Tat Sat.


SEGUNDO FRAGMENTO


OS DOIS CAMINHOS


E AGORA, ó Mestre da compaixão, ensina tu o caminho aos outros

homens. Olha, todos aqueles que, batendo para que os admitam, esperam na

ignorância e na escuridão ver abrir-se a porta da suave Lei!
A voz dos candidatos:
Não quererás tu, Mestre da tua própria misericórdia, revelar a

doutrina do coração (50)? Recusar-te-ás a conduzir os teus servos até ao

Caminho da libertação?
Diz o mestre:
Os caminhos são dois; as grandes perfeições três; seis as

virtudes que transformam o corpo na árvore da sabedoria (51) .


Quem se aproximará delas?
Quem primeiro entrará para elas?
Quem primeiro ouvirá a doutrina dos dois caminhos em um, a verdade

sem véu a respeito do Coração Secreto (52) ? A lei que, rejeitando o

aprender, ensina a sabedoria, revela uma história de dor.
Ai de nós, ai de nós, que todos os homens possuam Alaya, sejam

unos com a grande Al­ma, e que, possuindo-a, Alaya de tão pouco lhes sirva!


Repara como, qual a lua se reflete nas ondas tranqüilas, Alaya

é refletida pelos peque­nos e pelos grandes, espelhado nos átomos ínfimos,

e contudo não consegue chegar ao coração de todos. Ai de nós, que tão

poucos sejam os homens que se aproveitem do dom, do dom sem preço, de

aprender a verdade, a verdadeira percepção das coisas existentes, o

conhecimento do não-existente!


Diz o aluno:
Ó Mestre, que farei eu para atingir a sabedoria? Ó Sábio, que

farei para conseguir a perfeição?


Procura os caminhos. Mas, ó Lanu, sê puro de coração antes que

comeces a tua jornada. Antes que dês o primeiro passo, aprende a separar o

real do falso, o transitório do eterno. Aprende sobretudo a separar a

ciência da cabeça da sabedoria da Alma, a doutrina dos "olhos" da doutrina

do "coração".
Sim, a ignorância é como uma vasilha fechada e sem ar; a Alma

uma ave dentro dela. Não canta, nem pode mexer uma pena; mas jaz num torpor

e morre de não poder respirar.
Mas mesmo a ignorância é melhor do que a ciência de cabeça sem

a sabedoria de Alma para a iluminar e guiar.


As sementes da sabedoria não podem germinar e crescer no espaço

sem ar. Para viver e comer experiência, o espírito precisa espaço e

profundidade e pontos que o guiem para a Alma de Diamante (53) . Não

procures esses pontos no reino de Maya; mas ergue-te acima das ilusões,

busca o eterno e imutável Sat (54), desconfiando das falsas sugestões de

fantasia.


Porque a mente é como um espelho; cobre-se de pó ao mesmo tempo

que reflete (55). Precisa que as brisas leves da sabedoria de Alma limpem o

pó das nossas ilusões. Procura, ó principiante, fundir a tua mente e a tua

Alma.
Afasta-te da ignorância e da ilusão também. Vira o rosto às

decepções do mundo; desconfia dos teus sentidos; eles mentem. Mas dentro do

teu corpo - escrínio das tuas sensações - procura no impessoal o Homem

Eterno (56) e, tendo-o procurado, olha para dentro; tu és Buda (57).
Rejeita o aplauso, ó crente; o aplauso conduz à ilusão de si

próprio. O teu corpo não é Personalidade, a tua Personalidade é, em si, sem

corpo, e o elogio ou a censura não a atingem.
O contentamento de si próprio, ó discípulo, é uma torre

altíssima, à qual um insensato orgulhoso subiu. Ali se senta em orgulhosa

solidão, invisível a todos, salvo a si próprio.
A falsa ciência é rejeitada pelos sábios, e espalhada aos

ventos pela Boa Lei. A sua roda gira para todos, tanto para os humildes

como para os orgulhosos. A doutrina dos olhos é para a multidão; o doutrina

do coração para os eleitos. Os primeiros repetem, orgulhosos: "Vede, eu

sei"; os últimos, aqueles que humildemente fizeram a sua colheita,

confessam em voz baixa: "Assim ouvi" (58).


"A Grande Joeira" é o nome da Doutrina do Coração, ó discípulo.
A roda da Boa Lei gira rapidamente. Noite e dia mói. Afasta o

joio do trigo dourado, e a casca da farinha. A mão do Carma guia a roda; as

rotações marcam o bater do coração cármico.
O verdadeiro conhecimento é a farinha, a falsa ciência é a

casca. Se queres comer o pão da sabedoria, tens de amassar a tua farinha

com a água límpida de Amrita (59). Mas, se amas­sas cascas com o orvalho de

Maya, só podes criar alimento para as pombas negras da mor­te, as aves da

nascença, da decadência e da tristeza.
Se te disserem que para te tornares Arhan tens de deixar de

amar todas as coisas - dize-lhes que mentem.


Se te disserem que para te libertares tens de odiar a tua mãe e

desprezar o teu filho; de renegar o teu pai e chamar-lhe dono de casa (60);

de renunciar toda a compaixão pelos homens e pelos animais - dize-lhes que

as suas palavras são falsas.


Assim ensinam os Tirthikas (61) , os descrentes.
Se te ensinarem que o pecado nasce da ação e a felicidade da

inação absoluta, dize-lhes que se enganam. A não-permanência da ação

humana, a libertação da mente da sua escravidão pela cessação do pecado e

das culpas não são coisas para os Eus Devas (62). Assim reza a doutrina do

coração.
O Dharma (63) dos olhos é a corporização do externo e do

não-existente.


O Dharma do coração é a corporização de Bodhi (64), o eterno e

o permanente.


A lâmpada brilha bastante quando estão limpos pavio e óleo.

Para limpá-los é preciso quem os limpe. A chama não sente o processo de

limpeza. "Os ramos de uma árvore são sacudidos pelo vento; o tronco fica

imóvel".
Tanto a ação como a inação podem caber em ti; o teu corpo

agitado, a tua mente tranqüila, a tua Alma límpida como um lago de

montanha.


Queres tu tornar-te um iogue do círculo do tempo? Então, ó

Lanu:
Não creias que sentando-te em florestas escuras, em orgulhosa

reclusão, longe dos homens; não creias que a vida alimentada a plantas e

raízes, saciada a sede com a neve da. grande Cordilheira - não creias, ó

devoto, que isto te levará à meta da libertação final.
Não julgues que o partir dos ossos, o rasgar da carne e dos

músculos, te unirá à tua Personalidade silenciosa (65). Não julgues que

quando estão vencidos os pecados da tua for­ma grosseira, ó vítima das tuas

sombras (66) , o teu dever está cumprido para com a natureza e com os

homens.
Os bem-aventurados não quiseram fazer assim. O Leão da Lei, o

Senhor da Misericórdia (67), percebendo a verdadeira causa da dor humana,

imediatamente abandonou o repouso suave mas egoísta das solidões

sossegadas. De Aranyaka (68) tornou-se o Mestre da humanidade. Depois de

Julai (69) ter entrado para o Nirvana, ele pregou em montanhas e planícies,

fez sermões nas cidades, aos Devas, aos homens e aos Deuses (70) .


Semeia boas ações e colherás o seu fruto. A inação num ato de

misericórdia passa a ser a ação num pecado mortal.


Assim diz o Sábio:
Por que queres abster-te da ação? Não é assim que a tua Alma

conseguirá a sua liberdade. Para chegar ao Nirvana é preciso chegar ao

conhecimento de Si próprio, e o conhecimento de Si próprio é filho de ações

caridosas.


Tem paciência, candidato, como quem não teme falhar, nem

procura triunfar. Fixa o olhar da tua Alma na estrela cujo raio és (71), a

estrela chamejante que brilha nas profundezas sem luz do ser eterno, nos

campos sem limite do desconhecido.


Tem perseverança, como aquele que tem de sofrer eternamente. As

tuas sombras vivem e desaparecem (72); aquilo que em ti viverá para sempre,

aquilo que em ti conhece (porque é o conhecimento) não é da vida

transitória; é o Homem que foi, que é, e que há de ser, para quem a hora

nunca soará.
Se queres colher a suave paz e o descanso, discípulo, semeia as

sementes do mérito nos campos das colheitas futuras. Aceita as dores da

nascença.
Afasta-te da luz do sol para a sombra, para dares mais espaço

aos outros. As lágrimas que regam o solo árido da dor e da tristeza fazem

nascer as flores e os frutos da retribuição cármica. Da fornalha da vida

humana e do seu fumo denso, saltam chamas aladas, chamas purificadas, que,

erguendo-se alto, sob o olhar cármico, tecem por fim o tecido glorioso das

três vestes do Caminho (73).


Essas vestes são: Nirmanakaya, Sambhogakaya, e Dharmakaya,

traje sublime (73).


A veste Shangna, (74) é certo, pode comprar a luz eterna. A

veste Shangna, por si só, dá o Nirvana da destruição; pára o renascer, mas,

ó Lanu, também mata a compaixão. Os Budas perfeitos, que vestem a glória do

Dharmakaya, já não podem contribuir para a salvação humana. Ai de nós!

Devem as personalidades ser sacrificadas a uma só? Deve a humanidade ser

sacrificada ao bem de indivíduos?


Aprende, ó principiante, que este é o caminho aberto, o caminho

para a felicidade egoísta, evitado pelos Bodhisattvas do Coração Secreto,

os Budas da Compaixão.
Viver para servir a humanidade é o primeiro passo. Praticar as

seis virtudes gloriosas (75) é o segundo.


Vestir a veste humilde do Nirmanakaya é rejeitar para si a

felicidade eterna, para poder auxiliar a salvação humana. Chegar à

felicidade do Nirvana, mas renunciar a ela, é o passo supremo, final - o

mais alto no caminho da renúncia.


Aprende, ó discípulo, que é este o caminho secreto, escolhido

pelos Budas da perfeição, que sacrificaram a sua Personalidade a

personalidades mais fracas.
Mas, se a doutrina do coração é alta de­mais para ti, se

precisas te auxiliar a ti próprio e receias oferecer auxílio aos outros -

então, tu de coração tímido, acautela-te a tempo; contenta-te com a

doutrina ocular da Lei. Continua esperando. Porque se o Caminho Secreto não

é atingível hoje, amanhã (76) estará ao teu alcance, Aprende que não há

es­forço, por pequeno que seja quer no bom sentido, quer no mau - que possa

perder-se e desaparecer no mundo das causas. Mesmo o fumo dado ao vento não

é sem rastro. "Uma palavra brusca dita em vidas passadas não se perde, mas

renasce sempre" (77). A pimenteira não produz rosas, nem a estrela de prata

do jasmim se torna espinho ou cardo.


Podes criar hoje tuas oportunidades de amanhã. Na Grande

Jornada (78) , as causas semeadas cada hora produzem cada qual a sua

colheita de efeitos, porque uma justiça inalterável rege o mundo. Com o

vasto alcance de ação infalível ela traz aos mortais vida de alegria ou de

angústia, a prole cármica dos nos­sos pensamentos e ações anteriores.
Aceita, pois, tanto quanto o mérito te re­serva, ó de coração

paciente. Anima-te e contenta-te com a sorte. Tal é o teu Carma, o Carma do

ciclo dos teus nascimentos, o destino daqueles que, na sua dor e tristeza,

nas­cem a ti ligados, riem e choram de vida a vi­da, presos às tuas ações

anteriores.
....................................................................................

Age tu por eles hoje, e eles agirão por ti amanhã.


É do botão da renúncia da sua própria personalidade que nasce o

fruto doce da libertação final.


Condenado a perecer é aquele que por me­do de Mara deixa de

auxiliar os homens, receando agir em proveito próprio. O peregrino que quer

refrescar os seus membros lassos em águas correntes, mas não mergulha por

medo à corrente, arrisca-se a morrer de calor. A inação baseada no medo

egoísta não pode dar senão mau fruto.
O devoto egoísta vive inutilmente. Vive em vão o homem que não

realiza na vida a obra para que nasceu.


Segue a roda da vida; segue a roda do dever para com a tua raça

e os do teu sangue, para com o amigo e o inimigo, e fecha a tua mente tanto

aos prazeres como à dor. Esgota a lei da retribuição cármica. Adquire

siddhis (79) para o teu nascimento futuro.


Se não podes ser o sol, sê então o humilde planeta. Sim, se te

é impossível brilhar como o sol do meio-dia sobre o monte nevado da pureza

eterna, então escolhe, ó neófito, uma carreira mais humilde.
Aponta o caminho - por vagamente que o faças, e perdido entre a

multidão - como a estrela da tarde àqueles que caminham pela escuridão.


Olha Migmar (80), quando nos seus véus carmesins o seu olhar se

derrama sobre a Terra que dorme. Olha a aura de fogo da mão de Lhagpa (81)

estendida com amorosa proteção por sobre as cabeças dos seus ascetas. Ambos

são agora servos de Nyima (82), ficando, na sua ausência, como sentinelas

silenciosas na noite. Foram, contudo, em kalpas passados, Nyimas

brilhantes, e talvez em dias futuros se tornem outra vez dois sóis. Tais

são as descidas e subidas da lei cármica na natureza.
Sê, ó Lanu, como eles. Dá luz e conforto ao peregrino cansado,

e procura aquele que sabe ainda menos do que tu; que na sua desolação

miserável está faminto do pão da sabedoria e do pão que alimenta a sombra,

sem Mestre, esperança ou consolação, e fá-lo ou­vir a Lei.


Dize-lhe, ó candidato, que aquele que faz do orgulho e do

egotismo servos da devoção; que aquele que, tenaz da sua existência, em

todo o caso depõe a sua paciência e submissão à Lei como uma flor aos pés

de Shakya-Thub-pa (83), se torna um Srotapatti (84) neste nascimento. Os

Siddhis da perfeição podem ainda estar longe, muito longe; mas está dado o

primeiro passo, ele entrou para o rio, e pode adquirir a visão da águia das

montanhas, o ouvido da tímida corça.
Dize-lhe, ó aspirante, que a verdadeira devoção pode tornar a

dar-lhe o conhecimento, aquele conhecimento que era seu nas suas vidas

anteriores. A visão dévica e o ouvido dévico não se podem obter em uma

breve vida.


Sê humilde, se queres adquirir a sabedoria: sê mais humilde

ainda, quando a tiveres adquirido.


Sê como o oceano, que recebe todos os rios e riachos. A calma

imensa do oceano não se perturba; recebe-os e não os sente.


Domina o teu ser interior com o teu ser divino. Domina o divino

com o eterno.


Sim, grande é aquele que mata o desejo: maior ainda é aquele em

quem a divina Personalidade matou o próprio conhecimento do desejo.


Põe-te de guarda ao inferior, para que não macule o superior.
O caminho para a libertação final está dentro da tua

personalidade. Esse caminho começa e acaba fora da personalidade (85).


Sem elogios de todos os homens e humilde é a mãe de todos os

rios na vista orgulhosa de Tirthika (86); vazia a forma humana, ainda que

cheia das águas suaves de Amrita ao olhar dos insensatos. E, contudo, a

origem dos rios sagrados é a terra sagrada (87), e aquele que possui a.

sabedoria é respeitado por todos os homens.
Arhans e Sábios da visão ilimitada (88) são raros como a flor

da árvore Udumbara. Os Arhans nascem à meia-noite, com a planta sagrada de

nove e sete caules (89), a flor sagrada que desabrocha e floresce na

escuridão, saída do orvalho puro e do leito gelado das alturas nevadas,

alturas que nenhum pé pecador pisou.
Nenhum Arhan, ó Lanu, se torna um naquela vida em que pela

primeira vez a Alma começa a ansiar pela libertação final. E, contudo, ó

ansioso, a nenhum guerreiro oferecendo-se voluntariamente para a terrível

luta entre o vivo e o morto (90), a nenhum recruta pode ser recusado o

direito de entrar no caminho que conduz ao campo de batalha.
Porque ou vence ou cai.
Sim, se vence, o Nirvana será seu. Antes de abandonar a sua

sombra, de enjeitar a sua veste mortal, essa causa abundante de angústia e

de dor ilimitável, os homens honrarão nele um Buda grande e sagrado.
E se cai, mesmo assim não cai em vão; os inimigos que abateu na

última batalha não tornarão a viver na sua próxima encarnação.


Mas, se queres chegar ao Nirvana, ou rejeitar esse prêmio (91),

não deixes o fruto da ação e da inação ser o teu motivo, ó de coração

indômito.
Aprende que ao Bodhisattva que troca a libertação pela renúncia

para vestir as angústias da vida secreta (92) , chama-se três vezes

venerado, ó candidato à dor através dos ciclos.
O Caminho é um, discípulo, mas, no fim, duplo. Marcados estão

os seus estágios por quatro e sete portas. A uma extremidade a felicidade

imediata, à outra, felicidade renunciada. Ambos são a recompensa do mérito:

a escolha a ti pertence.


O um toma-se os dois, o Aberto e o Secreto (93) . O primeiro

leva à meta, o segundo à imolação de si próprio.


Quando ao permanente o mutável se sacrifica, o prêmio é teu;

volta a gota ao lugar de onde veio, O Caminho Aberto conduz à mudança

imutável - Nirvana, o estado glorioso de absoluto, a felicidade para além

da concepção humana.


Assim, o primeiro caminho é a Libertação.
Porém, o segundo caminho é a Renúncia; por isso é chamado o

Caminho da Dor.


O Caminho Secreto conduz o Arhan a uma angústia mental

inexprimível; dor pelos mortos que estão vivos (94), e compaixão inútil

pelos homens da tristeza cármica; o fruto do Car­ma não ousam os Sábios

fazer parar.


Porque está escrito: "Ensina a evitar todas as causas; à maré

do efeito, como à grande onda, deixarás seguir o seu curso".


O Caminho Aberto, mal chegaste ao seu fim, levar-te-á a

rejeitar o corpo bodhisattvico, e far-te-á entrar para o estado três vezes

glorioso de Dharmakaya (95), que é o eterno esquecimento dos homens e do

mundo.
A estrada secreta também conduz à felicidade paranirvânica -

mas ao termo de kalpas inúmeros; Nirvanas ganhos e perdidos por uma piedade

e compaixão ilimitadas pelo mundo de mortais iludidos.


Mas diz-se: "O último será o maior". Samyak Sambuda, o Mestre

da perfeição, abandonou a sua Personalidade para salvação do mundo, parando

no limiar do Nirvana, o estado de pureza.
....................................................................................
Tens agora o conhecimento a respeito dos dois Caminhos. Chegará

o momento em que terás de escolher, ó de Alma ansiosa, quando tiveres

chegado ao fim e passado as sete portas. A tua mente está lúcida. Já não

estás preso a pensamentos ilusórios, porque aprendeste tudo. Sem véu está

ante ti a Verdade, e fita-te gravemente. Diz ela:
"Doces são os frutos do descanso e da libertação por causa da

Personalidade; porém, mais doces ainda os frutos do dever longo e amargo;

sim, da renúncia por amor aos outros, aos homens que sofrem".
Aquele que se converte em Pratyeka-Buda só presta obediência à

sua Personalidade.


O Bodhisattva que ganhou a batalha, que tem o prêmio na mão,

mas exclama, na sua divina compaixão:


"Por amor aos outros abandono esta grande recompensa" - realiza

a renúncia maior.


Ele é um Salvador do Mundo.
.....................................................................................
Repara! A meta da felicidade e o longo Caminho da dor estão no

extremo fim. Podes escolher um ou outro, ó aspirante à tristeza, através

dos ciclos que hão de vir!
Om vairapani hum

TERCEIRO FRAGMENTO


AS SETE PORTAS


UPADHYA (96) , a escola está feita. Anseio pela sabedoria.

Rasgaste já o véu que escondia o caminho secreto e ensinaste o Yana (97)

superior. O teu servo aqui está, pronto para que o guies.
Está bem, Shravaka (98). Prepara-te, porque terás de seguir

sozinho, O mestre só pode apontar a direção. O caminho é um para to­dos, o

meio de chegar à meta deve variar de peregrino para peregrino.
Qual é que vais escolher, ó de coração indômito? O Samtan (99)

da doutrina dos olhos, o quádruplo Dhyana, ou abrirás caminho através das

Paramitas (100) , seis em número, nobres portas da virtude conduzindo a

Bodhi e a Prajna, sétimo passo da sabedoria?


O caminho árduo do quádruplo Dhyana ondula montanha acima. Três

vezes grande é aquele que chega ao píncaro altíssimo.


As alturas de Paramita são atravessadas por um caminho ainda

mais íngreme. Tens de forçar o teu caminho através de sete portas, sete

fortalezas guardadas por poderes cruéis e ardilosos - paixões encarnadas.
Anima-te, discípulo; tem sempre presente o preceito áureo. Uma

vez passada a porta Srotapatti (101) "aquele que entrou para o rio" cujo

pé foi posto sobre o leito do rio nirvânico nesta vida ou em qualquer vida

futura, tem apenas diante dele mais sete nascimentos, ó homem de vontade de

ferro.
Repara. Que vês tu diante dos teus olhos, ó aspirante à

sabedoria divina?


"O manto da escuridão cobre a profundeza da matéria; nas suas

dobras me debato. Aprofunda-se, Senhor, à medida que para ele olho; um

gesto da tua mão o desfaz. Mexe-se uma sombra, arrastando-se como as dobras

coleantes da serpente... Cresce, alastra-se, e desaparece na escuridão".


É a sombra de ti próprio fora do Caminho, caindo sobre a

escuridão dos teus pecados.


"Sim, Senhor, vejo o Caminho; o seu princípio fincado no lodo,

o seu cimo perdido na nirvânica luz gloriosa: e agora vejo os portais cada

vez mais estreitos na estrada árdua e espinhosa para Jnana" (102) .
Vês bem, Lanu. Esses portais levam o aspirante a atravessar o

rio para a outra margem (103). Cada portal tem uma chave de ouro que abre a

sua porta; e essas chaves são:
1. Dana, a chave da caridade e do amor imortal.
2. Shila, a chave da harmonia nas palavras e nos atos, a chave

que contrabalança a causa e o efeito, não deixando mais espaço à ação

cármica.
3. Kshanti, a paciência suave, que nada pode alterar.
4. Vairagya, a indiferença ao prazer e à dor, a ilusão vencida,

só a verdade vista.


5. Virya, a energia indômita que abre o seu caminho para a

verdade suprema, erguendo-se acima das mentiras terrenas.


6. Dhyana, cuja porta de ouro, uma vez aberta, leva o Naljor

(104) para o reino de Sat, o eterno, e para a sua contemplação sem fim.


7. Prajna, cuja chave faz de um homem um Deus, criando-o um

Bodhisattva, filho dos Dhyanis.


Tais são as chaves de ouro para esses portais.
Antes que te possas acercar do último, ó tecedor da tua

liberdade, tens de possuir estas Paramitas da perfeição - as virtudes

transcendentais em número de seis e dez - por esse longo caminho.
Porque, ó discípulo, antes que estivesses apto a encontrar o



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