Mensagem e o fenômeno sebastianista



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MENSAGEM E O FENÔMENO SEBASTIANISTA
Emilene Aparecida Fernandes – mila_emi@hotmail.com

Gian Lucan Sution – g_lucan@hotmail.com

Paulo Sergio Fernandes – paulo_sergiof@hotmail.com

RESUMO
Este trabalho tem por objetivo mostrar como o mito do Sebastianismo evoluiu através dos séculos em Portugal. Também busca apresentar as diferenças entre fantasia e realidade no que foi expresso pelo poeta português Fernando Pessoa, em sua obra poética Mensagem, bem como exaltar a língua portuguesa, pois a pedido do poeta esta obra não foi traduzida para outras línguas.

1 SEBASTIANISMO
D. Sebastião, o Desejado, teve um importante papel na história portuguesa. Filho do Príncipe d. João e neto do rei d. João III, foi coroado com apenas três anos de idade. Aos 14 anos, foi declarado maior, e assim, assumiu o trono português. Um de seus principais objetivos era instalar o império português no norte da África e combater os muçulmanos disseminando o cristianismo.

Ao assumir o trono, começou o seu projeto de guerra contra os mouros. Mas no dia 4 de agosto de 1578, seu exército de 15000 homens foi arrasado pelas forças superiores do sultão Abd al-Malik, no que foi conhecida como batalha de Alcácer-Quibir, em que o rei d. Sebastião desapareceu misteriosamente e seu corpo jamais foi encontrado.

Logo após o desparecimento do rei e a tomada do poder pelos espanhóis, começaram a surgir quadras populares de sentido obscuro e messiânico atribuídas ao humilde sapateiro Gonçalo Eanes Bandarra. Estas profetizavam graves eventos políticos e a volta de d. Sebastião. Também faziam uma analogia às profecias bíblicas de Daniel sobre o Quinto Império, que seria o império definitivo de Cristo na Terra, e que Portugal seria sua sede. Estas trovas, de meados do século XVI, constituem a origem do mito sebastianista.

Neste momento enfrenta-se o dilema clássico do filósofo alemão Schelling (1775 – 1854): nasce o Mito da História ou a História do Mito? Schelling argumenta que a mitologia de um povo determina sua história, assim como o caráter de um homem determina o seu destino. O Mito é a revelação primeira e ultima da História. Prefigura os protagonistas, a ação e o destino da História.

“O mito é o nada que é tudo./ O mesmo sol que abre os céus/ É o mito brilhante e mudo –/ O corpo morto de Deus, Vivo e desnudo.” (PESSOA, 2010, p. 41)

O Sebastianismo parecia ser apenas uma crendice popular, mas acabou ganhando repercussão até tornar-se um mito de dimensões nacionais, atingindo todas as classes sociais: do mais simples trabalhador até as pessoas mais cultas como o religioso, escritor e orador português Padre Antônio Vieira (1608 – 1697), que se intitulava sebastianista fervoroso.

Após a saída dos espanhóis da realeza portuguesa e a reforma proposta pelo Marques de Pombal, o Sebastianismo começou a entrar em declínio, mas nunca veio a desaparecer.

Ele voltou com força total no final do século XIX, principalmente após o Ultimatum, de 11 de janeiro de 1890, onde os britânicos exigiram que as tropas portuguesas se retirassem da região do Xire, no continente africano, ou a Grã-Bretanha declararia guerra a Portugal. O governo não teve outra alternativa que não fosse obedecer. Isso fez renascer uma luta política em Portugal e estremeceu as estruturas da Monarquia, que veio a ruir em 1910, ao ser proclamada a República, no dia 5 de outubro. Com um país dividido e mergulhado na crise, Antônio de Oliveira Salazar estabeleceu o regime ditatorial salazarista, que teve início em 1933. Apesar da ditadura, Portugal viveu um período de estabilidade financeira. Salazar foi afastado do governo somente em 1968, devido a uma queda que ele sofreu de uma cadeira e que lhe gerou sequelas. Morreu em 1970, mas o regime salazarista só teve fim em 1974, com a Revolução dos cravos.



2 FERNANDO PESSOA
Em meio a esse contexto histórico conturbado, o poeta português Fernando Pessoa (1888 – 1935) começava sua vida literária. Entre suas publicações na revista Águia destaca-se a série de artigos intitulada A nova poesia portuguesa, onde justifica o aparecimento de um poeta supremo, que ousaria deixar Camões em segundo plano. Ao que tudo indica, esse tal poeta citado no artigo era o próprio Pessoa, que publicou posteriormente o livro de poesias Mensagem, que estaria à altura dessa ambição.

3 MENSAGEM
Escrito de 1913 a 1934, o livro Mensagem não foi um livro pré-concebido. Os poemas foram escritos anos a fio e, em determinado momento, Pessoa percebeu que se tratavam do mesmo assunto – a alma portuguesa através de sua história. Esta obra foi escrita por Fernando Pessoa ortônimo (termo criado pelo próprio poeta), ao contrário de outras que foram atribuídas a seus heterônimos, sendo que os mais conhecidos são: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro, este último sendo considerado pelo próprio poeta como seu mestre. Fernando Pessoa é o único caso de heteronímia no mundo.

Inicialmente intitulada Portugal, a obra teve seu nome alterado para Mensagem. O poeta não acreditava que esta estivesse à altura do nome da pátria, pois o seu amigo Cunha Dias o fez notar que o nome de Portugal estava manchado pelos acontecimentos e que Mensagem estaria mais dentro da índole da obra, e por ter o mesmo número de letras que o título anterior.

No ano do lançamento do livro, o Secretariado Nacional de Propaganda, do governo salazarista instituiu o prêmio Antero de Quental, a ser atribuído ao melhor livro de poesias nacionalistas que se apresentasse neste concurso. Na divulgação do resultado, constatou-se que o júri havia atribuído o prêmio ao livro Romaria, uma obra cristã e popular do padre franciscano Vasco Reis. Mas este mesmo júri decidiu criar, para Mensagem, um prêmio de segunda categoria, por se tratar de um alto poema de evocação e interpretação histórica e como justificativa para esta atribuição, alegou-se haver quantidade insuficiente de páginas.

A distinção de Mensagem da maioria dos poemas épicos conhecidos e que faz dela uma epopéia rara é o fato de interessar-se pelo futuro, e não pelo passado. “Fita, com o olhar esfíngico e fatal,/ O Ocidente, futuro do passado./ O rosto com que fita é Portugal.” (PESSOA, 2010, p. 37). Embora haja uma simulação em falar, o tempo todo do passado, Pessoa concentra-se com obsessão no que está por vir, dando à maior parte de seus poemas um tom enigmático, como se estes acontecimentos fossem sinais misteriosos que deveriam ser decifrados para prever o que estaria para acontecer. Neste momento, podemos considerar o poeta como um visionário, um poeta com alma de profeta. Ao longo do livro, pode-se observar um clima de magia em torno de presságios e adivinhações, sugerindo que algo grandioso está por vir.



A divisão da obra constitui-se em três fases históricas de Portugal: ascensão, apogeu e declínio. Sua terceira parte, intitulada O Encoberto, foi totalmente dedicada a d. Sebastião e ao mito sebastianista. Mesmo havendo as profecias bíblicas de Daniel em relação ao Quinto Império, profecias estas associadas pelo Padre Antonio Vieira ao Sebastianismo, Pessoa considerava-se um sebastianista racional, portanto, neste momento, sua visão não era mística nem visionária. Sendo assim, Carlos Felipe Moisés (2000, p. 81) afirma que o próprio Sebastianismo entraria em Mensagem como meros símbolos poéticos, não devendo ser tomados ao pé da letra, pois a história de Portugal e de toda a humanidade, representadas metaforicamente está mais para antropologia cultural do que para a profecia messiânica.

CONCLUSÃO
Conclui-se que é preciso ter prévio conhecimento sobre a história de Portugal para poder decifrar as metáforas que compõem os poemas de Mensagem, poemas estes que se identificam plenamente com os portugueses, mas pode atingir qualquer leitor, para além de nacionalismos estreitos, pois se trata da condição humana em geral, tornando-a uma obra universal. O Sebastianismo é prova de que os mitos atravessam o tempo, deixam sua marca, porque são arquétipos, tendo suas ações utilizadas como exemplos. Independente de fantasia ou realidade, atualmente ainda há portugueses que aguardam pela volta do Desejado, assim como a maior parte da humanidade alimenta suas crenças e esperanças na volta de um Messias.

REFERÊNCIAS
MOISÉS, Carlos Felipe. Roteiro de Leitura: Mensagem de Fernando Pessoa. São Paulo: Ática, 1996.
NICOLA, José de; INFANTE, Ulisses. Como ler Fernando Pessoa. São Paulo, Scipione, 1988.
PESSOA, Fernando. Mensagem: Obra poética I; organização, introdução e notas Jane Tutikian. – Porto Alegre: L&PM, 2010.



Universitári@ - Revista Científica do Unisalesiano – Lins – SP, ano 2, n.5, Edição Especial, outubro 2011




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