Medicine man: o curandeiro da selva



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Encontro08.05.2017
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MEDICINE MAN: O CURANDEIRO DA SELVA

Carmen Gonçalves1

MEDICINE man: o curandeiro da selva. Direção de John McTiernam. Produção de Donna Dubrow e Andrew G. Vajna. Roteiro de Tom Shculman e Sally Robinson. Intérpretes Sean Connery; Lorraine Bracco; José Wilker; Rodolfo de Alexandre; Francisco Tsiren Tsere Rereme; Elias Monteiro da Silva; Edinei Maria Serrio dos Santos; Bec-Kana-Re dos Santos; Angelo Barra Moreira; José Lavat. Música de Jerry Goldsmith. Fotografia de Donald McAlpine.EUA: Buena Vista Pictures, 1992.1 vídeocassete (106min.).
Nesta obra cinematográfica temos uma clássica exemplificação do método científico, além da abordagem de dificuldades da pesquisa de campo, assim como outros temas secundários como preconceito e a destruição de mata nativa em prol do progresso das cidades, com a migração dos povos indígenas. O filme começa com a chegada da bioquímica Rae Crane, interpretada por Lorraine Bracco, que vai encontrar Sean Connery no papel do pesquisador Robert Campbell do Instituto Aston, que está há anos embrenhado na floresta amazônica sem noticiar seu financiador, quando resolve solicitar um cromatógrafo e um auxiliar para o desenvolvimento da sua pesquisa. O que ele não imaginava era que seu pedido seria atendido com ressalvas, pois a responsável pelo Instituto, em pessoa, vem trazer o aparelho e ser sua auxiliar, sendo que o principal objetivo é avaliar se a pesquisa de Campbell deve ser retirada do financiamento, cancelado seu trabalho e solicitado seu retorno, o que ele só descobre após afrontá-la de todas as formas sobre sua suposta incapacidade em auxiliá-lo, já que se trata de uma mulher e com quase nenhuma experiência em pesquisa de campo.

A chegada de Crane à aldeia onde está trabalhando Campbell se dá no Festival do Pêssego, de cunho religioso, onde a bioquímica se surpreende com a adaptação do pesquisador aos hábitos locais (o que remete à antropologia, vemos então, como as ciências em suas diversas modalidades podem estar cruzadas numa pesquisa), pois Campbell está usando a máscara do Dapsua (Pajé) durante o evento. Depois ela vem saber que o pajé abandonou a tribo e passou seu posto para o pesquisador após este curar a gripe de um menino da aldeia, usando um medicamento (Alka-Seltzer) e assim desmoralizando a figura do curandeiro indígena, o que também influenciou no seu trabalho, como veremos a posteriori.

Dia seguinte, temos o confronto entre chefe e subordinado, nas duas vias, já que Campbell quer despachar a “auxiliar”, após banho e comida, já que na explanação dele fica transparente o preconceito que uma mulher não duraria naquele lugar, naquelas condições como um homem, nem teria know-how para acompanhá-lo na pesquisa; em contrapartida, Crane, como diretora do Instituto Aston, portanto sua superiora, condena-lhe o hábito alcoólico e as condições que mantêm seu laboratório, não antes que Campbell submeta-a a um exame clínico de saúde para certificar-se que a presença da bioquímica ali, não implicava risco à saúde da tribo e sua sobrevivência natural.

Após o consenso de tolerância imposto pela necessidade do pesquisador de submeter-se à sua chefe e relatar-lhe todos os dados da pesquisa ou perderia seu financiamento e retornaria à cidade, e a necessidade dela de alguém que a ajudasse na adaptação com o local e os nativos, é apresentado o “Pico 37”, um composto químico orgânico que promete a cura do câncer. O problema é que após a mistura inicial, Campbell não consegue reproduzir o efeito e Crane informa que aquele composto não tem como ser sintetizado o que implica na revisão da pesquisa, pois ela quer saber qual a matéria-prima, onde se apresenta, condições de coleta, preparo da solução, dos reagentes, indicadores, análise da amostra, dos dados, revisão das anotações, porque está certa que se o método foi seguido corretamente, DEVE reaparecer o efeito “Pico 37” (leva este nome porque é o valor do composto atingido na análise cromatográfica, único entre as demais substâncias encontradas na solução). Revista esta parte, a bioquímica o acompanha na coleta da bromélia que cresce no alto das árvores, a mais de 30m do chão e apenas naquela região, utilizada pelos nativos na alimentação e que inibe o aparecimento de neoplasia maligna. Crane, cartesiana, descarta todas as possibilidades tidas como verdade por Campbell para poder achar onde estava a falha do processo, ou do método, sugerindo que seria uma condição genética daqueles índios a resistência à produção de células malignas, o que Campbell refuta já que a tribo contrai relações com outros índios, de outros lugares, porém ali, utilizando na rotina o preparo que o pajé fazia com a bromélia, cônjuges que migraram de outros grupos e a descendência provinda deste conluio, adquirem imunidade à doença. Diante desse fato a bioquímica indica que a falha está na produção da solução: que faltava algum produto que Campbell desconhecia e por isso mesmo não adicionava e para ela estava claro que esse ingrediente misterioso que apenas o pajé sabia, era a chave pro Pico 37. Porém, a outra implicação antropológica é o conflito ocorrido entre o pajé original e a substituição deste por Campbell na tribo, quando da cura da gripe do menino índio, e para ter acesso à informação, o pesquisador teria que duelar com o pajé e perder.

Nesse ínterim, o filho da mulher de outra tribo que havia casado com um local e apresentara o câncer na garganta e fora curada pelo pajé com a solução original, de onde Campbell partiu para a pesquisa, preparo e reprodução para testes do composto, também apresentou a doença e teria um curto espaço de tempo para que ou usassem a solução inicial, que continha o biofármaco ativo, pondo em xeque a continuação da pesquisa, já que não conseguiam reproduzir o composto, ou salvavam a vida do garoto. Então o pai do menino vai em busca do pajé e a implicação moral dos envolvidos entra em jogo com Campbell aceitando ser vencido em duelo pelo dapsua para que descubram a fonte da cura do câncer.

Paralelo a isso, o avanço da construção de uma rodovia está chegando com a destruição da floresta nativa. Pesquisadores tentam argumentar com o responsável da obra sobre as bromélias e a suposta cura, que eram próprias apenas naquela região, etc, ao que foi dado um prazo para que as máquinas desviassem o curso. Mas não era apenas a bromélia a questão, também a necessária migração da tribo para outro lugar assim como o risco de dizimação da mesma e Campbell não estava pronto pra assumir esse risco, nem para deixar Aston interferir, pois a culpa por ter descoberto um potente analgésico anos antes numa outra tribo que acabou dizimada porque ele também levara consigo o vírus da gripe a que não eram imunes, quando deixou Aston interferir no processo para agilizar a pesquisa, enviando mais pesquisadores e trabalhadores, isso o deixava na defensiva e de mãos atadas para sozinho, equacionar o problema.

Encontrado o pajé, perdido o duelo, pensaram ter sido em vão já que a única informação obtida era que o remédio não era a bromélia, mas o inseto. Desiludidos, voltaram para o laboratório, com o prazo urgindo pela rodovia e a devastação iminente da floresta, mas enquanto o pesquisador está descrente, Crane não recua e passa a noite refazendo os preparos e testes, quando pela manhã, Campbell nota que o Pico 37 tinha reaparecido. Checou com ela o preparo, os ingredientes, o método e os reagentes: a solução de glicose usada a partir do preparo com o açúcar que tinham, havia acabado e ela preparara uma nova. Correndo ao açucareiro, descobrem a resposta do pajé: estava cheio de formigas nativas, era um biofármaco produzido por elas, que ficava como resíduo no contato com o açúcar, que tinha a cura do câncer, o tal Pico 37 que sinalizava o composto ativo.

Correndo pra impedir as máquinas, funcionários da empreiteira agridem fisicamente o pesquisador que quase morto é resgatado pela bioquímica. Voltando era tarde: O laboratório havia sido destruído, a tribo foi expulsa e todo um trabalho de pesquisa teria que recomeçar, mas agora eles sabiam o que buscar: as formigas.

Não nos atendo a adaptações e roteiros como a falha sobre o Festival do Pêssego, em plena selva amazônica, de onde essa fruta não é nativa, é interessante observar que na pesquisa de campo, todas as variáveis devem ser anotadas, conferidas, questionadas. Que em toda pesquisa, deve-se afastar a nossa crença particular, ou o que aparenta ser o resultado, para que empiricamente, cheguemos à resposta exata do problema, mesmo que isso implique um longo tempo de pesquisas e dedicação. O grande negócio da ciência é que a análise coerente das variáveis e sua reprodução exata devem obter os mesmos resultados, se não há isto, algo ou no método ou no processo, estarão em não conformidade. No caso de Medicine Man: o curandeiro da selva, o pesquisador Robert Campbell, além de perder o foco por questões pessoais (a crise psicológica sobre a dizimação da tribo anterior com a qual trabalhara), também assumira papel etnográfico no processo, o que não cabia, já que ele interferira numa cultura própria introduzindo elementos diferentes do mundo deles (a medicação Alka-Seltzer) para resolver um problema no grupo, afastando o curandeiro local, que sabia os ingredientes que continham a cura da doença, além de que sua permanência no local e falta de contato com o Instituto que o financiava estava delongando algo que poderia ser mais eficiente e mais efetivo, se não tivesse se distanciado tanto do processo em si e do uso de método planejado e cartesiano, tendo-se obcecado pela bromélia como a resposta única e possível como matéria-prima do composto que buscava. Campbell não isolou as variáveis possíveis e interferentes para localizar todas as chaves que podiam abrir o problema. A chegada da bioquímica foi fundamental para ser revisto todo o método considerando as alternativas envolvidas. O gasto de tempo desnecessário que Campbell utilizou quando se afastou da posição apenas de cientista e deixou interferir suas crises pessoais, assim como interferiu no grupo de estudo, talvez colaboraram para o não salvamento da floresta, já que se ele tivesse atuado com mais coerência, talvez a descoberta já tivesse sido efetuada e protegido o grupo e a área onde estava a resposta ao câncer. Ou talvez não, se o receio do pesquisador se repetisse e o desrespeito pelo outro em nome do progresso científico, também tivesse acabado com a mata e com os índios. O fato é que o isolamento total do cientista com seus iguais, certamente comprometeu o processo, já que ele desfocou da busca em nome de suas crises existenciais, inclusive talvez utilizando reagentes fora de prazo, já que estava há anos na pesquisa e sempre com a mesma solução glicólica.

É uma obra muito interessante de assistir e que se não nos apetece no início, nos prende a partir da chegada de Crane à tribo durante a festa religiosa até o fim que sugere o possível início de um romance entre os protagonistas. O percepção do indígena sobre um estranho em seu grupo, a recepção disso, a imitação do diferente, também nos faz observar atentamente aos detalhes e costumes. Outra reflexão é quando nos inserimos em algum lugar para uma pesquisa, o que estamos levando, como estamos interferindo, que cuidados temos que ter a nós e ao grupo de estudo. Como técnica em química e docente em Licenciatura de Ciências Biológicas, altamente interessada em biofármacos, o filme foi delicioso, já que envolve todos os temas que consideramos apaixonantes.

Uma curiosidade que marcou foi o uso da saliva das índias no processo de fermentação da bebida alcoólica própria do grupo. Encerrando, citamos o depoimento de um dos figurantes que encontramos na busca por maiores informações do histórico da obra, que diz:

Participamos , do referido filme, como figurantes, eu, minhã mãe e meu primo, respectivamente, Newton, Zilah e João e, incrívelmente, não temos a cópia. Realmente foi muito interessante a experiência e o contato com todos, principalmente com o ator e a atriz, pois são pessoas extremamente humanas e carismáticas, além de se preocuparem com o futuro do meio ambiente.


Qq coisa, estaremos por aqui, até mesmo p/ algum evento que trata de assuntos indígenas, meio ambiente, entre outros, afinal, somos membros da tríbo Terena, do Estado de Mato Grosso do Sul. (Galache , Newton Marcos. 2009)2

1 Carmen Érica Lima de Campos Gonçalves, Acadêmica do 1. Período do Curso de Licenciatura em Ciências Biológica, ano 2012, cursando a disciplina de Metodologia do Trabalho Científico no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas - IFAM

2 Nos resguardamos de fazer a edição do comentário, reproduzindo conforme estava disposto, uma vez que possa ser reflexo da culturalização da língua portuguesa a um indígena.

Disponível em < http://www.bastaclicar.com.br/cinema/filme_mostra.asp?id=1176> em 26/05/2012 18:45h







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