Mídia e educaçÃO



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Encontro19.08.2017
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MÍDIA E EDUCAÇÃO

Marcos Fabrício Lopes da Silva*


No livro As sutilezas do mau caratismo ou as engrenagens da miséria existencial, Ezio Flavio Bazzo, sinteticamente, resume a caótico panorama ideológico que desestrutura secularmente o saber brasileiro: “neste país, submergido na falsidade e na depressão, a filosofia e o Modus-vivendi passou a ser definido e imposto sobre a população, (depois do império português) por oito ou dez artistas analfabetos; por cinco ou seis âncoras de TV; por três ou quatro juristas e por um ou dois bispos esclerosados. Sem falar, evidentemente, da troupe de cacetófilos que vem monopolizando a moda, a academia, a burocracia, as artes, e outros antros formadores de ‘opinião pública’”.

Em Apocalípticos e Integrados (1979), Umberto Eco situa o kitsch como o que surge já consumido, convencendo o o consumidor/(tel)espectador “de ter realizado o encontro com a cultura, de modo que não venha ele sentir outras inquiestações”. O semiólogo italiano, nesse sentido, questiona as superficialidades dos meios de comunicação de massa e a acomodação intelectual e sensível do público em geral: “de saída, viciam a nossa atitude, e, por isso, mesmo uma sinfonia, ouvida através de um disco ou do rádio, será fruída do modo mais epidérmico, como indicação de um motivo assobiável, e não como um organismo estético a ser penetrado em profundidade, mediante uma atenção exclusiva”.

Muitos fatores vão reduzir, ou ao menos tentar reduzir, a comunicação à homogeneidade, colocada dentro do circuito comercial que segue as leis de uma economia baseada no consumo e sustentada pela ação persuasiva da publicidade. A classe hegemônica tornou a cultura um espaço estratégico para a reconciliação das classes e reabsorção das diferenças sociais. Ao conformar nossos horizontes contraditórios, os meios de comunicação evitam experimentar as bifurcações cognitivas para produzir consensos ao gosto da ideologia dominante, envolvida na lógica mercantil. É pelo pathos e pelo ethos, contudo, que os formadores da opinião deveriam salientar o clima emocional e o clima moral dos fatos. A ação comunicativa, no presente contexto, se revela como aquela capaz de informar sem perder a força do acontecimento (suas cores, suas sensações, seus ruídos e seu clímax). Uma boa representação do real é aquela capaz de transportar o sujeito para o fato, revivê-lo para ter dele a maior aproximação possível.

Há um sentido profundo em tudo o que é humano, e a cultura abarca esse “tudo”. Trata-se de um conjunto paradoxal de coisas que transitam entre o absurdo e a beleza; entre a beleza e a fragilidade em meio à transitoriedade da vida. Para tanto, Felipe Pena, em Teoria do Jornalismo (2005), destaca a natureza principal do campo jornalístico: “para mim, a natureza do jornalismo está no medo. O medo do desconhecido, que leva o homem a querer exatamente o contrário, ou seja, conhecer. E assim, ele acredita que pode administrar sua vida de forma mais estável e coerente, sentindo-se um pouco mais seguro para enfrentar o cotidiano aterrorizante de seu meio ambiente. Mas, para isso, é preciso transpor limites, superar barreiras, ousar. Entretanto, não basta produzir cientistas e filósofos, ou incentivar navegadores, astronautas e outros viajantes a desbravar o desconhecido. Também é preciso que eles façam relatos e reportem suas informações a outros membros da comunidade que buscam a segurança e a estabilidade do ‘conhecimento’. A isso, sob certas circunstâncias éticas e estéticas, posso chamar jornalismo”.



Jornalismo: Transmissão de Conhecimentos ou Degradação do Saber? Ao se deixar de considerar o jornalismo apenas como um meio de comunicação para considerá-lo como um meio de conhecimento, estará se dando um passo no sentido de aumentar a exigência sobre os seus conteúdos. Conhecimento implica em aperfeiçoamento pela crítica e requer rigor. Não existe comunicação sem poder educativo e educação sem poder comunicativo. A educação tem que formar para, com e sobre as mídias. A escola precisa acompanhar o mundo que está inserida, mas esse acompanhamento deve ser crítico e não um render-se ao fascínio das tecnologias. Entre o senso comum e a ciência, o jornalismo tem um caráter educativo, faz circular visões de mundo, ajuda na formação, informa, coloca diferentes pontos de vista, mas não forma como uma pedagogia ativa. O que é pedagogia ativa? Com a palavra, novamente Bazzo e sua proposta nada convencional:

“Se fosse Ministro da Educação, baixaria hoje mesmo o seguinte Decreto: [A partir desta data será rigorosamente obrigatório que os créditos do último semestre de todos os cursos superiores, sejam cumpridos em forma de experiências de viagem. O aluno deverá passar o tempo referido (seis meses) viajando pelo mundo, de preferência por aqueles países que ele próprio escolher. No lugar das provas fajutas ou das monografias estéreis, um pequeno ensaio desse período de vagabundagem é que lhe garantirá o título conclusivo]”.

A concepção de conhecimento no processo de travessia nos faz lembrar de Machado de Assis e da sua utopia comunicacional expressa na crônica O jornal e o livro (1859): “o jornal é a verdadeira forma da república do pensamento. É a locomotiva intelectual, em viagem para mundos desconhecidos, é a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das idéias e fogo das convicções”. De fato, entre o educador e o jornalista existe um denominador comum: o amor à verdade e a paixão pela liberdade. O professor, com sua conduta profissional e pessoal, educa ou deforma. O jornalista, com seu profissionalismo ético ou sua leviandade de ocasião, informa ou desinforma. “Os jornalistas”, afirma Paul Johnson, colunista da revista britânica Spectator, “devem possuir o impulso do educador”. Mas os educadores devem desenvolver a coragem moral dos grandes repórteres.
 



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