Mary stewart



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MARY STEWART

Sob o Olhar de Apolo
Tradução de

PINHEIRO DE LEMOS


RECORD
Quem não ama os gregos não pode amar coisa alguma.

Rex Warner
1
Que é que está esperando, Mulher?

Sófocles: Electra
"Nada jamais me acontece."

Escrevi pausadamente essas palavras, olhei para elas um momento com um leve suspiro, descansei a caneta esferográfica na mesa do café e procurei um cigarro na bolsa.

Depois de aspirar o fumo, olhei em torno de mim. Ocorreu-me então, ao pensar naquela última frase desanimada de minha carta a Elizabeth, que bastantes coisas estavam acontecendo naquele momento para satisfazer até as pessoas mais famintas de aventuras. Pelo menos, era essa a impressão que Atenas me dava. Todo o mundo andava, falava, gesticulava — falava principalmente. Quando se pensa em Atenas, o que se lembra não é o clamor do tráfego perpetuamente congestionado, nem o constante crepitar das brocas pneumáticas e nem mesmo o velho barulho dos cinzéis que desbastam o mármore pentélico, afinal de contas ainda o material de construção mais barato... O que se lembra de Atenas é o rumor das conversas. Sobe até as altas janelas do hotel, acima do cheiro do pó e do burburinho do trânsito — murmurante como o mar abaixo do templo em Súnio — o som das vozes atenienses que discutem, riem e fa­lam como outrora falaram para dar forma às coisas do mundo entre as colunas da Agora, não muito longe do lugar onde estou.

Era um café popular e afreguesado. Eu tinha achado uma mesa nos fundos da sala perto do bar. Ao longo da parede externa, grandes portas envidraçadas se abriam na calçada, ao pó e à algazarra da Praça Omonia, que é, com efeito, o centro comercial de Atenas. É certamente o centro de todo o barulho e agitação da cidade. O trânsito se arrastava ou corria numa incessante confusão. A multidão, tão engarrafada quanto o trân­sito, se espraiava nas amplas calçadas. Grupos de homens, im­pecavelmente vestidos em trajes urbanos escuros, discutiam o que quer que seja que os homens discutem no meio da ma­nhã em Atenas, com os rostos animados e atentos e com as mãos a brincar incessantemente com as pequenas voltas de "contas nervosas" de âmbar que os homens do Mediterrâneo Oriental costumam levar. As mulheres, algumas elegantemen­te vestidas e outras com as largas saias pretas e a cobertura de cabeça preta das camponesas, transitavam a fazer compras. Um burro, tão carregado de flores que parecia um jardim am­bulante, passava devagar enquanto o seu dono apregoava em vão as suas mercadorias contra o tumulto daquelas quentes ruas matinais.

Empurrei minha xícara de café para o lado, tirei mais uma fumaça do cigarro e peguei minha carta. Comecei a ler o que havia escrito.

"Você já deve ter recebido as cartas que lhe escrevi a respeito de Micenas e Delos, bem como a que lhe escrevi há dois dias sobre Creta. É difícil para mim saber exatamente o que devo escrever — quero tanto dizer-lhe que este é um país admirável mas sem carregar muito a mão para que você não julgue a fratura da perna que a impediu de vir uma tragédia ainda maior do que é. Sim, eu sei, não devo também falar sobre isso... Bem, estou sentada num café na Praça Omonia — que é cal­culadamente o lugar mais agitado desta cidade eternamente agitada — e pensando no que vou fazer em seguida. Acabo de desembarcar de um vapor de minha visita a Creta e não acredito que haja na terra nada que se compare em beleza às ilhas gregas. Creta é uma categoria à parte, magnífica, em­polgante e um pouco sinistra também — mas já lhe falei sobre isso em minha última carta. Agora, tenho de ir a Delfos e todos, em solo e em coro, já me asseguraram que será o ponto alto de minha excursão. Espero que estejam certos; alguns lugares, como Elêusis, continuam povoados de fantasmas, mas o mito e a magia desapareceram. Dizem-me, porém, que Delfos vale realmente a pena. Foi por isso que a deixei para o fim. O único problema é que eu estou começando a ficar preocupada com a parte do dinheiro. Talvez eu não tenha mesmo um pingo de juízo quando se trata de dinheiro. Philip estava certo..."

Nesse momento, um homem que passava entre as mesas em direção ao balcão do bar esbarrou em minha cadeira e eu levantei a vista, sacudida momentaneamente de meus pensamentos.

Uma turma de fregueses — todos homens — estava reuni­da diante do balcão para o que parecia um lanche muito substancial no meio da manhã. O homem de negócios ateniense se sente na obrigação de preencher o intervalo entre a primeira refeição e o almoço com alguma coisa mais substancial do que café. Vi um prato cheio até às bordas de salada russa, outro com apetitosos bolinhos de carne e feijão-verde nadando em azeite, além de inúmeros pratinhos com batatas fritas, ceboli­nhas, pedaços de peixe, pimentões e muitas outras coisas que eu não pude identificar. Atrás do balcão, havia uma fila de jarros de barro e na sombra de seus estreitos gargalos vi azei­tonas, recém-trazidas dos frescos depósitos de Egina e Salamina. As garrafas de vinho na prateleira de cima tinham nomes como Samos, Neméia, Quios e Mavrodafne.

Sorri e voltei à minha carta:

"... mas de certo modo estou achando maravilhoso estar aqui sozinha. Não me interprete mal que não é de você que estou falando! Nada eu desejaria mais do que você estar aqui também, tanto por sua causa, quanto pela minha. Você sabe o que eu quero dizer, não sabe? Esta é a primeira vez em muitos anos em que me vejo inteiramente por minha conta — ia quase dizer "livre da coleira" — e estou realmente gozando a vida de uma maneira que nunca julguei possível. Na minha opinião, nunca acreditei que ele viesse mesmo até aqui. Pode imaginar Philip andando por lugares como Cnossos ou Delos? Ou dei­xando que eu andasse? Procuraria logo partir para Istambul, Beirute ou até Chipre, qualquer lugar, em suma, onde estivessem acontecendo coisas não no passado, mas agora, e se não esti­vessem acontecendo, ele daria um jeito.

"Divertido... sempre foi divertido, mas... também não vou escrever sobre isso, Elizabeth, mas eu estava certa, absolutamente certa. Não tenho mais dúvidas sobre isso. Não teria dado certo, nem num milhão de anos. Esta viagem me mostrou isso com mais clareza do que nunca. Não há arrependimento, mas apenas alívio, pois, agora, terei tempo de ser eu mesma.

Agora, depois de ter confessado isso, vou mudar de assunto. Ainda que eu seja tremendamente incompetente quando se trata de ser eu mesma, é divertido e vou-me arranjando. Mas re­conheço ..."

Virei a página, estendendo distraidamente a mão esquerda para fora a fim de bater a cinza do cigarro. Havia uma marca branca na base do dedo anular, onde eu usara a aliança de Philip. Em dez dias de sol do Egeu, estava começando a desaparecer... Eram seis anos que desapareciam sem mágoa, deixando apenas um montão de recordações alegres que desapareciam também...

"Mas reconheço que a Grande Emancipação tem o seu reverso. As coisas parecem de vez em quando desinteressantes para quem viveu arrastada tantos anos na esteira de Philip, esteira essa magnífica, vamos dizer a verdade... Sinto-me um pouco seca e alheada. Seria de esperar que alguma coisa, alguma migalha de aventura, coubesse a uma mulher jovem (ainda se é jovem aos vinte e cinco anos?) abandonada por conta própria nas vastidões da Hélade... Mas não! Vou de templo em templo, com o guia na mão, e passo as noites sempre estranha­mente compridas escrevendo notas para o admirável livro que vou escrever um dia e convencendo-me de que estou gozando a paz e o sossego que desejava... Creio que é esse o reverso da medalha e que com o tempo acabarei por me habituar. E se alguma coisa realmente interessante acontecesse, não sei exa­tamente o papel que eu poderia fazer... Creio de certo modo que tenho algum talento para viver, ainda que parecesse mui­to fraca diante do excesso de vida e de disposição que "ele" tinha. Mas a vida nunca parece oferecer-se às fracas mãos das mulheres, não é mesmo? Vou acabar no quarto do hotel como de costume, fazendo notas para o livro que nunca che­garei a escrever. Nada jamais me acontece".

Deixei o cigarro e tornei a pegar na caneta. Tinha de aca­bar aquela carta e num estado de espírito diferente, pois do contrário Elizabeth poderia pensar que eu estava de certo modo lamentando a minha emancipação daquele compromisso des­feito.

Escrevi animadamente: "De um modo geral, vou indo muito bem. A língua não constituiu afinal de contas um obstáculo para mim. Quase todo o mundo aqui parece falar um pouco de francês ou de inglês e eu já consegui adquirir seis palavras gregas, ainda que isso tenha apresentado algumas dificuldades.

Não vou muito bem é na parte do dinheiro. Não posso dizer que esteja exatamente dura, mas creio que terei de desistir da ida a Creta. Mas, se tiver de desistir também de Delfos, não me conformarei com isso. É inadmissível que isso aconteça. Tenho de ir até lá, seja como for, mas receio que tenha de reduzir minha visita a uma apressada excursão de um dia, que é só o que minhas posses permitem. Há uma excursão turística de ônibus que partirá na quinta-feira e creio que terei de contentar-me com isso. Se, quando nada, eu pudesse conseguir um carro! Acho que se eu invocasse a proteção de todos os deuses...

Alguém tossiu ao meu lado e uma sombra passou pelo papel em que eu escrevia. Levantei os olhos.

Não era o garçom tentando fazer-me abandonar a mesa do canto. Era um homem moreno e baixo, com roupas sujas e remendadas, uma camisa azul enxovalhada e um sorriso hesitante por trás do inevitável bigode. As calças estavam amarradas com barbante, mas ele não confiava muito nisso, pois ainda as segurava com a mão.

Devo tê-lo olhado com uma fria surpresa, pois a confusão do homem aumentou, mas em vez de afastar-se, falou num francês de quarta classe.

— É a respeito do carro para Delfos, — disse ele.

Repeti meio atordoada, olhando para a carta sob minhas mãos.


  • O carro para Delfos?

  • Queria um carro para ir a Delfos, n'est-ce pas?

O sol havia chegado até àquele canto do café. Olhei o ho­mem à sua luz e disse:

— Bem, de fato quero. Mas não estou compreendendo...

— Trouxe o carro — disse ele, estendendo a mão que não estava segurando as calças — para a porta.

Olhei para a porta e vi realmente um carro, grande preto e um tanto maltratado, encostado ao meio-fio.



  • Escute aqui, meu caro senhor, não estou compreendendo...

  • Voilá! — disse ele, tirando do bolso o que era evidentemente uma chave de carro e depositando-a em cima da mesa.

— Pronto! Compreendo que é uma questão de vida e morte, compreendo perfeitamente. Foi por isso que vim o mais depres­sa que pude...

— Não tenho a menor idéia de que é que o senhor está falando — disse eu, com uma ponta de irritação.

O sorriso desapareceu, deixando em seu lugar um olhar de perplexa ansiedade.


  • Sei que estou atrasado e peço desculpas. Mademoiselle pode-me perdoar? Tenho certeza de que chegará a tempo. O carro não parece, mas é muito bom. Se Mademoiselle...

  • Escute aqui, não quero seu carro. Sinto muito que lhe tenha dado uma impressão errada, mas não estou em condições de alugar seu carro. Acontece...

  • Mas Mademoiselle disse que queria um carro!

  • Sei disso. Mas peço que me desculpe porque...

  • E Mademoiselle disse que era uma questão de vida e morte.

  • Não disse nada disso. Não quero seu carro, Monsieur. Sinto muito, mas não quero.

  • Mas, Mademoiselle...

  • Não tenho dinheiro para isso.

O rosto se iluminou imediatamente com um sorriso de dentes alvos e que não deixava de ser simpático.

— Dinheiro? — exclamou ele com desprezo. — Quem é que está falando em dinheiro? Além disso, o depósito já está pago.

— Depósito? Pago?

—Sim, Mademoiselle já o pagou.

Dei um suspiro que era quase todo de alívio. Não se tra­tava, afinal de contas, de alguma feitiçaria ou da intervenção pronta demais dos deuses gregos. Era simplesmente um caso de confusão de identidade.

Disse então com firmeza:

— Sinto muito. Está havendo um engano. Aquele carro não é meu e eu não o aluguei absolutamente.

O homem hesitou por um momento, mas voltou ao ataque com redobrado vigor.



  • Sei perfeitamente que não foi esse o carro que Mademoiselle viu, mas aquele outro não era bom, sabe? Não prestava. Tinha... como se diz.. um buraco por onde a água saía...

  • Um vazamento...

  • Sim, um vazamento! Foi por isso que me atrasei, mas nós escolhemos esse carro, que é muito bom, desde que Mademoiselle diz que é da maior importância que Monsieur Simon tenha o carro imediatamente em Delfos. Poderá partir e ime­diatamente estará em Delfos... dentro de três, quatro horas...

— ele olhava para mim, como se estivesse fazendo uma avaliação das minhas qualidades ao volante de um carro, — cinco horas talvez. E então é possível que tudo esteja resolvido com Monsieur Simon e esse caso de vida.. .

— ... e morte, — disse eu. — Está muito bem. Mas acontece ainda que eu não sei de que é que está falando. Há algum engano nisso e eu sinto muito. Não fui eu quem pediu o carro. Compreendo que a conhecida desse Monsieur... Simon disse que estaria neste café à espera do carro, não foi mesmo assim? Bem, não vejo mais ninguém aqui no momento que corresponda a quem o amigo procura e, portanto. . .

Ele falou prontamente, com tanta rapidez que compreendi depois que devia estar acompanhando o meu francês muito pelo alto e tinha aproveitado uma frase que fazia sentido, o sentido que ele queria ouvir.

— Isso mesmo! — exclamou ele. — Este café. Uma moça sentada sozinha. Dez e meia. Mas me atrasei. A senhora é a conhecida de Monsieur Simon, não é?

O homem parecia, com aquele olhar confuso, um pobre macaco cheio de confusão. Isso me deu tanta pena que minha irritação desapareceu e eu sorri para ele abanando a cabeça, ao mesmo tempo que mobilizava uma das seis palavras de grego tão penosamente aprendidas.



Ne, — disse eu com tanto vigor quanto me foi possível.

Ne, ne, ne. — Ri e abri minha cigarreira. — Sinto muito que tenha havido um engano. Aceita um cigarro?

O cigarro pareceu uma cura maravilhosa para todas as preocupações do homem. A cara se desfranziu como por um golpe de mágica e o seu sorriso resplandeceu de novo.

— Obrigado, Mademoiselle. Vai ficar muito contente com o carro. Boa viagem, Mademoiselle.

Estava procurando os fósforos em minha bolsa e só depois que levantei a cabeça foi que compreendi o que ele havia dito. E já então era tarde. O homem tinha saído. Ainda o vi sair pela porta do café e desaparecer no meio da multidão que en­chia a rua. Três dos meus cigarros haviam desaparecido tam­bém. Mas a chave do carro estava na mesa diante de mim e o carro preto ainda estava lá fora, encostado ao meio-fio, sob o sol violento.

Foi só então, olhando para a chave, para o carro e para a luz do sol na toalha da mesa onde até pouco antes o homem fizera sombra, que compreendi que o meu inocente ato de ostentação lingüística ia custar-me bem caro. Lembrei-me, com um aperto no estômago, de que ne em grego significa "sim".

É claro que corri atrás dele. Mas a multidão se encapelava em torno de mim com a indiferença de um oceano e não havia sinal em qualquer direção do mal-apanhado mensageiro dos deuses. O garçom que me servira saiu ansiosamente comigo até à calçada, pronto sem dúvida a me agarrar se eu saísse sem pagar o café que tomara. Não lhe dei atenção e olhei ansiosamente para todos os lados. Mas quando ele deu sinais de retirar-se para ir buscar reforços que me levassem de volta à mesa e à conta, julguei que estava na hora de dar por finda a minha busca. Fui até ao meu canto, apanhei a chave, lancei um sorriso breve e preocupado ao garçom ainda desconfiado, que não falava inglês, como eu já havia apurado, e dirigi-me até ao balcão para conversar com o proprietário, que falava, como descobri, tranqüilizada.

Passei por entre os homens agrupados em torno do balcão com um "Parákalo" nervosamente repetido e que, na minha opinião, devia ser a palavra certa para dizer "Desculpe". De qualquer maneira, os homens me deram passagem e eu me apoiei ansiosamente no balcão.

Parákalo, kyrie...

O proprietário lançou-me um olhar aflito do alto de uma pilha de batatas fritas e me identificou sem erro:

— Senhorita?

— Estou em dificuldades, kyrie. Aconteceu-me há pouco uma coisa muito estranha. Um homem trouxe aquele carro que está vendo ali na porta — sim, atrás das mesas azuis — para entregá-lo a alguém aqui no café. Por engano, julgou que eu fosse a pessoa que alugou o carro. Pensa que eu vou levá-lo para Delfos para alguma pessoa. Mas eu não sei de nada disso, kyrie. É tudo um engano e agora não sei o que vou fazer!

Ele jogou uma colher de molho sobre alguns tomates, empurrou o prato para um homem sentado num tamborete ao centro do balcão e passou a mão pela testa.


  • Quer então que eu dê uma explicação ao homem? Onde é que ele está?

  • Esse é que é o problema, kyrie. O homem já foi-se em­bora. Deixou a chave comigo — aqui está ela — e sumiu. Ten­tei ver se o alcançava, mas não consegui. Será que o senhor sabe quem devia estar aqui para receber o carro?

  • Não, não sei de nada. — Apanhou uma grande concha, mexeu alguma coisa embaixo do balcão e olhou de novo para o carro lá fora. — De nada. Para quem era o carro?

  • Já lhe disse, Monsieur, que não sei quem...

  • Disse que o carro era para ser levado para algum lu­gar ... para Delfos, não foi? O homem não disse para quem era?

— Ah, sim... Disse que era para um tal Sr. Simon. Serviu um pouco do que estava mexendo — parecia uma espécie de bouillabaisse — num prato, entregou-o a um gar­çom que esperava e disse:

— Em Delfos? Nunca ouvi falar dessa pessoa. É possível que alguém aqui tenha visto o homem ou conheça o carro. Vou perguntar.

Disse então alguma coisa em grego para os homens que estavam ao balcão e tornou-se no mesmo instante o centro de uma discussão animada, apaixonada mesmo, que durou cerca de cinco minutos, envolveu todos os fregueses masculinos do café e acabou produzindo, com toda a boa vontade deste mundo, a informação de que ninguém havia notado o homem da chave, ninguém conhecia o carro, ninguém conhecia qualquer Monsieur Simon em Delfos (embora um dos homens presentes fosse natural de Crissa, que dista apenas alguns quilômetros de Delfos), ninguém pensava sequer provável que alguém de Delfos fosse alugar um carro em Atenas e (finalmente) que nin­guém eu seu juízo perfeito iria levar um carro até lá.

— Entretanto, — disse o homem de Crissa, que estava falando com a boca cheia, — é possível que esse Simon seja um turista inglês que está em Delfos. Neste caso, isso explicaria tudo.

Não disse por quê, limitando-se a sorrir com grande bon­dade e encanto por trás de um prato de camarões graúdos, mas eu percebi o que ele queria dizer.

Disse-lhe então:

— Desculpe kyrie, mas acho que se devia tomar alguma providência sobre o caso. O homem que me trouxe a chave disse... — hesitei um pouco — que era uma questão de vida e morte.

O grego arqueou as sobrancelhas; em seguida, encolheu os ombros. Tive a impressão de que questões de vida e morte eram assuntos quotidianos em Atenas. Disse-me então com ou­tro sorriso encantador antes de voltar-se para os seus camarões:

— É uma verdadeira aventura, Mademoiselle.

Olhei-o pensativamente durante alguns instantes, murmu­rei alguma coisa e voltei-me para o proprietário, que estava tentando tirar azeitonas de um de seus vasos. Era evidente que o movimento e o calor estavam começando a perturbar até as boas maneiras atenienses. Em vista disso, sorri apenas para ele e disse:



  • Obrigada por sua gentileza, kyrie. Desculpe tê-lo incomodado. Parece-me que, se o caso for realmente urgente, a pessoa que quer o carro virá certamente buscá-lo de acordo com o combinado.

  • Quer deixar a chave comigo? Ficarei com ela e suas preocupações terminarão. Posso assegurar-lhe que será um pra­zer.

  • Não, por enquanto ainda não lhe quero dar esse tra­balho. Confesso que estou também um tanto curiosa. Vou es­perar ainda um pouco e, se a moça chegar, eu lhe entregarei pessoalmente a chave.

E, para alívio do pobre homem, esgueirei-me do grupo formado em frente ao balcão e voltei à minha mesa. Sentei-me e pedi outro café, acendendo depois outro cigarro, tratei de fingir que estava acabando minha carta, quando, na realidade, estava com um olho atento à porta e o outro, ao carro preto, que naquele momento mesmo já devia estar rolando pela es­trada de Delfos naquela questão de vida e morte...

Esperei uma hora. O garçom tinha voltado a olhar de banda para mim e, em vista disso, deixei de lado minha carta e fiz um pedido, depois do que comecei a divertir-me com um prato de feijões e peixes cor-de-rosa, ao mesmo tempo que observava, com uma expectativa que se transformou em inquietação, as idas e vindas constantes na porta do café.

Os meus motivos para esperar não tinham sido tão sim­ples quanto eu sugerira ao homem do café. Tinha-me ocorrido que, desde que eu fora envolvida no caso contra a minha vontade, eu poderia tranqüilamente tirar vantagem do mesmo. Quando a "conhecida de Simon" chegasse para pegar o carro, eu poderia perfeitamente sugerir — ou até pedir diretamente — que ela me levasse no carro até Delfos. E devo confessar que a possibilidade de conseguir uma carona até Delfos não era a única que me havia ocorrido...

Assim, os minutos foram passando sem ninguém chegar e, quanto mais eu esperava, menos possível me parecia sair simplesmente do café e deixar que tudo se resolvesse por si mesmo sem a minha presença, enquanto, por sua vez, aquela outra possibilidade começava a apresentar-se insidiosamente. Procura­va combatê-la, mas ela me aparecia como um desafio, uma dúvida, uma afronta dos deuses...

Ao meio-dia, quando ninguém apareceu à procura do carro, empurrei o prato para o lado e tratei de examinar essa outra possibilidade com a maior frieza possível.

Consistia simplesmente em levar eu mesma o carro para Delfos.

Era evidente que, fosse qual fosse o motivo, a tal moça não ia aparecer. Alguma coisa devia tê-la impedido, pois do contrário ela poderia simplesmente ter telefonado para a gara­gem, cancelando o pedido. Mas o carro — o carro tão urgente­mente necessário — ainda estava ali, com uma hora e meia de atraso na sua partida. Eu, por outro lado, queria muito ir a Delfos e podia tratar disso imediatamente. Eu tinha chegado diretamente do Pireu no vapor de Creta e tinha comigo tudo o que era preciso para uma breve estada em Delfos. Poderia ir naquele dia, entregar o carro, passar dois dias ali com o dinhei­ro economizado na passagem do ônibus e voltar com o ônibus de turismo na quinta-feira. A coisa era simples, óbvia e re­presentava uma intervenção direta da Providência.

Apanhei a chave com os dedos como se estes não me pertencessem e estendi a mão lentamente para a minha única peça de bagagem — a bolsa de tecelagem brilhantemente colo­rida de Mykonos — pendurada nas costas de uma cadeira.

Hesitei com a mão na bolsa. Depois, retirei a mão e co­mecei a girar a chave entre os dedos, vendo-a vagamente brilhar quando a luz do sol tocava nela.

Não era coisa que se fizesse. Era uma dessas coisas que simplesmente não podiam ser feitas. Eu devia estar louca para pensar sequer numa coisa dessas. O que tinha acontecido apenas fora que a conhecida de Simon tinha-se esquecido de can­celar o pedido do carro e de reaver o depósito feito. Eu nada tinha com o caso. Ninguém iria agradecer a minha intervenção num caso que, apesar do ridículo engano, não tinha absoluta­mente qualquer relação comigo. Aquela frase, uma "questão de vida e morte", um pretexto tão convincente para interferir, era apenas uma frase, uma simples frase sobre a qual eu cons­truíra o sentimento de urgência que, na minha opinião, me dava um pretexto para agir. De qualquer maneira, eu não tinha nada com isso. O procedimento lógico — e único — era deixar o carro onde estava, entregar a chave e ir-me embora.

A decisão me deu uma tal sensação material de alívio, que cheguei a ter um sobressalto. No mesmo impulso, levantei-me, peguei a chave do carro e passei pelo ombro a alça da bolsa grande. A carta inacabada para Elizabeth estava em cima da mesa. Peguei-a e dobrei-a, mas antes de guardá-la, uma frase me caiu diante dos olhos: "Nada jamais me acontece"...

O papel da carta estalou de repente entre os meus dedos crispados. Creio que os momentos de fulgurante intuição se apresentam nas ocasiões mais imprevistas e nem sempre são agradáveis. Aquele foi um deles.

Não durou muito. Não consenti nisso. Foi com uma espé­cie de resignada surpresa que me vi mais uma vez diante do balcão e entreguei um pedaço de papel ao proprietário.

— Meu nome e endereço, — disse eu, com a respiração um pouco entrecortada, — se, por acaso, ainda aparecer al­guém à procura do carro. Srta. Camila Haven, Hotel Olympias, Rua Marnis. .. Diga que terei cuidado com o carro. Agi na melhor das intenções.

Saí para a rua e, quando entrava no carro, tive a impres­são de que minhas últimas palavras tinham tido um jeito não muito comum de epitáfio.



2
É longo o caminho para Delfos.

Eurípides: Ion
Ainda que não fosse Hermes em pessoa quem me levara a chave, a mão de todos os deuses de Hélade devia estar sobre mim naquele dia, porque eu consegui sair de Atenas viva e, mais do que isso, intacta.

Houve alguns momentos difíceis. Primeiro, foi o engraxate, que estava tão interessado em limpar-me os sapatos que foi comigo até o carro, agarrou-se à porta e teria certamente ficado machucado quando dei partida, se eu me tivesse lembrado de engrenar o carro. Houve depois o momento em que fiz a curva, cautelosamente a vinte quilômetros por hora, mantendo a mi­nha mão do lado esquerdo — saindo da Praça Omonia para a Rua St. Constantine — e fui dar bem de cara com um táxi que eu pensava que estava na contramão até que a constância e o volume dos desaforos do motorista me fizeram voltar para a minha mão. Depois, houve o caso dos dois pedestres que desceram para o meio da estreita rua sem sequer olhar para o meu lado. Como era que eu podia saber que aquela era uma rua de mão única? Tive sorte com os meus freios dessa vez. Não tive tanta sorte assim com o burro das flores, mas feliz­mente só toquei nas flores e o homem foi encantador. Recusou a nota que eu prontamente lhe ofereci e até me deu as flores que eu fiz cair do cesto do burro.

Pesando bem as coisas, as pessoas tinham sido muito inclinadas a perdoar. A única pessoa realmente desagradável ti­nha sido o homem que cuspira no capo quando saí hesitante­mente de trás de um ônibus parado. Não havia necessidade dessa explosão de temperamento. Quase não toquei nele.

Quando consegui chegar à estrada principal que sai de Ate­nas ao longo da Via Sagrada, eu havia descoberto duas coisas. A primeira era que algumas semanas passadas em rolar pelas estradas rurais inglesas no velho Hillman de Elizabeth (Philip nunca me deixara compreensivelmente tocar no carro dele) não eram de fato uma preparação adequada para dirigir através de Atenas num carro desconhecido com a direção do lado esquer­do. A outra era que o velho carro preto dispunha de um motor inesperadamente possante. Se estivesse menos mal cuidado e com aspecto menos arcaico — se tivesse sido, por exemplo, um dos alados monstros transatlânticos comumente usados em Atenas como táxis — eu jamais teria tido a coragem de dirigi-lo, mas a sua fachada humilde me iludira. Podia ser quase o velho Hillman em que eu aprendera a guiar. Quase. Eu não estava nele nem três minutos quando descobri que o carro tinha uma aceleração como a arrancada de um jato e ao tempo em que tomei conhecimento de suas possibilidades como uma arma mortífera — as quais eram ilimitadas — era tarde demais. Eu já estava metida no meio do tráfego e parecia muito mais pru­dente continuar lá. Assim, agarrei-me desesperadamente ao vo­lante, mudando de mâo de vez em quando, sempre que me lembrava de que a alavanca de mudança ficava do lado direito e rezava a toda a hierarquia olímpica enquanto seguíamos o nosso caminho sobressaltado através dos subúrbios da cidade até che­garmos à grande estrada de pista dupla que segue ao longo da costa, rumo a Elêusis e a Corinto.

Depois das ruas repletas e difíceis, a estrada parecia aber­ta e relativamente vazia. Era aquela a Via Sagrada. Por aquela larga estrada à beira do mar, os peregrinos antigos tinham mar­chado com cânticos e archotes para celebrar os mistérios de Elêusis. O lago que agora fica à direita era o lago secreto de Demetér. Do outro lado daquela baía à esquerda, a ilha de Salamina se estende como um dragão afogado e ali — ali Temístocles havia destroçado a esquadra persa. . .

Mas eu não olhava nem para a direita, nem para a esquerda quando dirigia. Eu já havia passado por ali e sobrevivera à primeira aguda decepção. Não havia necessidade de abrir o cora­ção aos fantasmas. Eles tinham desaparecido havia muito. A Via Sagrada se abre agora, reta e larga (a pavimentação borbulha um pouco sob o sol forte), entre fábricas de cimento e fundições de ferro. O lago sagrado está quase entupido de mato e escórias. Na baía de Salamina ancoram os vultos feios dos pe­troleiros, e a água cor de vinho reflete as torres de alumínio da refinaria. Do outro lado da baía, vomitavam fumo as chami­nés de Megara e, acima delas, três jatos Vampire circulavam ruidosamente sobre o fundo do inefável céu da Grécia. E essa aldeia suja, quase oculta na ocre fumaça sufocante das fábri­cas de cimento, é a própria Elêusis.

Eu conservava os olhos na estrada e minha atenção no carro, e ia tão depressa quanto a coragem me permitia. Em breve, a região industrial ficava para trás e a estrada, mais estreita e esbranquiçada de poeira sob o implacável céu de setembro, afastava-se da praia e se contorcia entre campos de terra vermelha plantados de oliveiras e onde pequenas casas que pareciam caixas se espalhavam, aparentemente ao acaso, entre as árvores. Crianças esfarrapadas, morenas e magras apareciam dentro da poeira para olhar a minha passagem. Uma mulher, vestida de preto e velada como uma muçulmana, curvava-se para tirar o pão do pequeno forno em feitio de colméia à som­bra de uma oliveira. Galinhas magras ciscavam e um cão cor­reu latindo atrás do carro. Burrinhos trotavam na poeira da beira da estrada, meio escondidos sob enormes cargas de lenha. Uma grande carreta se dirigia para a estrada por um caminho lateral. Estava carregada de uvas que pareciam de cera no seu verde embaciado. Os flancos da mula estavam lustrosos e nédios como uvas pretas. O ar cheirava a calor, esterco, pó e restos da colheita das uvas.

O sol era violento. Sempre que as árvores ficavam perto da estrada, a sombra era como uma bênção. Passava pouco do meio-dia e o calor era tremendo. O único refrigério era o ar fresco produzido pelo movimento do carro e as frondes foscas das grandes oliveiras que navegavam entre a estrada e a grande pira ardente do céu.

Havia pouco movimento na estrada com aquele calor e eu estava disposta a aproveitar-me plenamente dessa folga. Por isso, dirigia ao pino do sol, sentido-me confiante e até segura. Já me estava adaptando às particularidades do carro e ainda não queria pensar no que estava fazendo. Aceitara um desafio dos deuses e os resultados ficariam para quando eu chegasse a Delfos... se conseguisse chegar. Se conseguisse chegar. . .

Estava cada vez mais confiante enquanto seguia com o carro por uma paisagem deserta, através de uma região que se torna mais selvagem e mais bela à medida que a estrada deixa para trás os olivais e sobe para as montanhas do norte da Ática. A minha confiança resistiu até às terríveis curvas fecha­das nas estradas que descem dessas montanhas para os campos sem acidentes da planície da Beócia. Mas não resistiu ao ônibus.

Era o ônibus que faz a ligação regular com Atenas e eu o alcancei no meio da estrada em linha reta que corta a planície. Era pequeno, repulsivo e malcheiroso. Parecia estar atu­lhado até às portas de gente, engradados e vários animais, in­clusive galinhas e uma cabrinha. Estava avançando ruidosamen­te à frente de uma esteira de cinqüenta metros de poeira. Tomei cuidadosamente a esquerda e acelerei um pouco para passar.

O ônibus, que já ocupava o meio da estrada, virou prontamente para a esquerda e acelerou um pouco. Recuei, depois de respirar um bocado de poeira. O ônibus voltou ao centro da estrada e continuou a fazer os seus trôpegos cinqüenta quilô­metros por hora.

Esperei meio minuto e tornei a tentar. Conservei-me bem atrás de suas rodas traseiras, na esperança de que o chofer me visse.

E viu mesmo. Acelerando alucinadamente, tomou-me mais uma vez a frente, botou uma boa distância à frente de meu carro e voltou complacentemente ao centro da estrada. Voltei então à sufocante nuvem de poeira. Procurava não dar a menor atenção ao caso e me esforçava por convencer-me de que, quando o homem se tivesse divertido à vontade, me deixaria passar. Apesar disso, já estava sentindo as mãos crisparem-se na direção e uma veia ou lá o que fosse latejar-me no pescoço. Se fosse Philip quem estivesse dirigindo... Mas logo que me ocorreu esse pensamento, refleti que, se fosse Philip quem es­tivesse dirigindo, nada daquilo estaria acontecendo. As mulheres que dirigem são uma raça livre nas estradas da Grécia.

Passamos por uma tabuleta que dizia em letras gregas e latinas: TEBAS — 5 km; DELFOS — 77 km. Se eu tivesse de ficar atrás daquele ônibus até chegar a Delfos...

Tentei de novo. Dessa vez, quando me aproximei para a ultrapassagem, toquei vigorosamente a buzina. Para minha sur­presa e gratidão, o motorista guinou prontamente para a direi­ta e diminuiu a marcha. Avancei para a abertura. Havia ape­nas espaço suficiente para a passagem entre o ônibus e a borda da estrada alta e de solo friável. Cheia de concentração nervosa, fui em frente e acelerei.

Não estava conseguindo passar. O ônibus se sacudia e roncava, andando mais depressa, mantendo velocidade igual à minha. Meu carro era mais veloz, mas o espaço estava estreitando-se e eu não tinha bastante confiança no meu golpe de vista para saber se dava para passar. O motorista do ônibus ficou mais perto. Não sei se ele queria mesmo jogar-me para fora da estrada, mas quando a balouçante carroçaria verde se aproximou mais, perdi toda a coragem, como sabia que ia acon­tecer. Pisei nos freios. O ônibus se afastou, trovejante, e eu fiquei mais uma vez mergulhada na poeira.

A nossa frente, viam-se as primeiras casas esparsas de Tebas, a cidade lendária que, como eu sabia, se tornara mais irrecuperável do que Elêusis. No mesmo lugar onde Antígona outrora levou Édipo cego para o exílio, os velhos de Tebas sen­tam-se ao sol nos passeios de cimento, ao lado das bombas de gasolina. O tric-trac que jogam durante horas esquecidas é talvez a coisa mais velha de Tebas. Há perdida por ali uma fonte que as ninfas amavam. É só.

Mas não me sobrava tempo para deplorar o passamento das lendas. Não estava pensando então em Édipo ou Antígona, nem mesmo em Philip ou Simon ou no meu deplorável prelúdio de aventura. Continuava a dirigir na estrada de Tebas com os olhos cheios de ódio fixos na frente. Nada havia em minha vida naquele momento senão o desejo de passar aquele imundo ônibus.

Por fim, a oportunidade se apresentou. Um grupo de mulheres que esperavam ao lado da estrada fez sinal para o mo­torista e ele diminuiu a marcha. Fechei logo atrás, com os olhos na faixa de estrada à esquerda, as mãos suarentas na direção e a tal veia começando a pulsar de novo.

O homem parou bem no meio da estrada. Não havia espa­ço para passar. Parei atrás dele e esperei até ele afastar-se novamente de mim. Liguei então a embreagem e afoguei o motor. A minha mão.-tremia na ignição. O motor não queria ligar. Nas bordas de meu campo visual, divisei um rosto nos vidros de trás do ônibus que se afastava, um rosto moreno e jovem todo aberto em riso. Quando dei partida no carro e segui, vi o jovem voltar-se como para chamar a atenção de alguém que estava sentado no banco de trás ao seu lado. Outro rosto se voltou para olhar para mim e rir. E mais outro.

Então, bem perto atrás de mim — tão perto que quase me fez correr de medo para a vala — ouvi uma buzina. Enquanto eu virava automaticamente para a direita, um jipe, que vinha em grande velocidade na contramão, aproximou-se trovejantemente, ultrapassou-me com as rodas levantando poeira e seguiu em frente, na mesma marcha firme, rumo à retaguar­da do ônibus, tocando a buzina como se fosse uma sirena. Tive uma visão de relance da moça que dirigia, jovem e morena, com os cílios caídos sobre os olhos e a boca franzida e zangada. Estava recostada no banco e dirigia com uma perícia displicen­te, quase arrogante. E, fosse mulher ou não, o ônibus lhe deu passagem, caindo rapidamente para a direita e ali ficando res­peitosamente enquanto ela passava. Não decidi consciente­mente segui-la. A bem dizer, não sei se pisei no acele­rador deliberadamente ou se estava procurando o freio. O certo é que senti um empurrão atrás e o grande carro preto partiu como uma flecha para a frente, tirou um fino do ônibus e seguiu na esteira do jipe com duas rodas no leito da estrada e as outras levantando uma coluna de poeira suficiente para guiar até Tebas todos os filhos de Israel. Qual era a posição das ro­das do ônibus eu não sabia, nem me interessava saber. Nem olhei pelo espelho.

Passei por Tebas e entrei lindamente na contramão pela
estrada de carruagens de pista dupla que segue para Levadia
e para Delfos.

A mão de Hermes, deus dos viajantes, ainda me guiava. Havia uma feira de cavalos em Levadia e isso, com os seus acessórios de festival, atravancava as ruas. Mas, depois disso, não encontrei mais nada, a não ser lentas e pequenas cara­vanas de gente do campo que ia para a feira em lombo de burro e de jumento, além de um grupo de ciganos com os seus burros e Cavalos cobertos de mantas vistosas.

Logo depois que passei Levadia, o aspecto da região co­meçou a mudar. As severas banalidades da Ática e a pesada prosperidade em tecnicolor das planícies ficaram para trás, en­quanto as montanhas assomaram. A estrada se torcia entre grandes costelas de escarpas pardacentas que amontoavam a paisagem em patamares de serras. No fundo dos vales, rios mortos se estendiam nos leitos como peles de serpentes em muda. Os lados dos vales eram secos e recobertos dos restolhos amarelados da relva queimada, de pedras soltas e de solo esfarelado.

Quanto maiores eram as montanhas circundantes, mais nua era a terra, tocada de grandes pinceladas de cor que iam do ocre ao terra de sombra e ao fulvo, tudo rematado e superado pela luminosidade ilimitada e admirável. Afinal, destacou-se entre todos um cinzento maciço montanhoso. Não era roxo, nem azul à distância como as montanhas de países mais brandos, mas espectralmente branco, esplêndido como um leão pra­teado. Era o Parnaso, onde viviam os fantasmas das musas mortas.

Só parei uma vez para descansar, um pouco adiante de Levadia. A estrada, que contornava a encosta, estava em sombra e o ar era fresco àquela altura. Sentei-me durante cerca de quinze minutos no parapeito ao lado da estrada. Lá embaixo, num vale bifurcado, havia um lugar onde três caminhos se en­contravam. Era o fantasma de uma antiga encruzilhada onde outrora um moço, que vinha de Delfos para Tebas, fez descer um velho de sua carreta e matou-o...

Mas não havia fantasmas em ação naquele dia. Nem som, nem vento, nem mesmo a sombra de um falcão que pairasse no alto. Só as montanhas nuas e fulvas e a luz incontrolável e implacável.

Voltei ao carro. Quando liguei o motor, refleti que o deus dos viajantes, que tão bons serviços me prestara até àquele momento, iria ter ainda de trabalhar por mais uns trinta quilômetros, depois do que poderia abandonar-me ao meu destino.

Na realidade, ele me abandonou a dez quilômetros exatos de Delfos, em plena aldeia de Arachova.





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