Martin heidegger



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MARTIN HEIDEGGER

 ABRAHAM A SANCTA CLARA



(Ga Nº 13)

Condiscípulos e Compatriotas.

Não tem necessidade cabeça de palha aquele que nasceu sob um teto de palha”.

O Escritor que escreveu estas palavras também freqüentou a escola em Messkirch, mas é preciso dizer que não foi aluno nem de um colégio, nem uma escola profissional, nem tão pouco da escola comunal. Ele freqüentou, já a trezentos e dez anos, a escola de latim que havia em Messkirch. Este aluno vinha de Kreenheistetten. Nascerá ai em 1644, quatro anos antes de terminar a guerra dos trinta anos. Era filho do taberneiro da esquina. Chamava-se Johann Ulrich Megerle. Talvez fosse bom para nós tirar proveito desse nosso encontro com este aluno que vinha aprender latim na escola de Messkirch.

...”não tem necessidade cabeça de palha aquele que nasceu sob um teto de palha”.Estas palavras se aplicam muito bem ao estudante Ulrich Megerle.Pois ele não levou muito tempo para passar de Messkirch ao colégio dos jesuítas de Ingolstadt, para daí seguir para Salzburg, aos dezesseis anos, a fim de terminar seus estudos secundaristas em Salzburg, Megerle encontrou, na pessoa do jovem sacerdote beneditino Otto Aicher, professor de poética e de retórica , notável pela amplidão de suas idéias e grande cultura, o educador que marcou para sempre sua vida e sua obra. O que confirma uma experiência que não data de ontem, ainda que muitas vezes se dê bastante importância a esse fato em nossos dias; quero dizer: o que importa acima de tudo na escola é o exemplo vivo dado pelo mestre que ensina e não um programa de estudos que sempre será apenas um mero esqueleto.

De Salzburg o estudante Ulrich Megerle foi para Viena. Ali entrou, com a idade de dezoito anos, na ordem dos Agostinianos Descalços, e escolheu como nome de religião: Abraão de Santa Clara, Abraham a Sancta Clara.

Há tempos, nossa cidade deu seu nome a uma rua que passa atrás do parque do castelo. Depois de ordenado sacerdote em 1666, Abraham iniciou sua vida de pregador. Leopoldo I, que era imperador nessa época, logo se interessou pelo jovem monge que entrementes se tornara titular do doutorado de teologia. Nomeou-o pregador da corte, quando ele tinha então trinta e três anos. Nos seguintes decênios, Abraham a Sancta Clara revelou-se como o maior pregador e escritor mais lido de seu tempo. Além de exercer importante papel no mundo, teve em sua Ordem uma atividade fecunda. Em 1680, o padre Abraham tornou-se prior de seu convento e dez anos mais tarde provincial da Ordem Agostiniana. Obteve de suas duas viagens a Roma uma rica e instrutiva experiência. Abraham a Sancta Clara morreu em 1709 com a idade de sessenta e cinco anos.

Esta serie de datas sem vida esconde um destino cuja singularidade só podemos aprender a conhecer e considerar a importância, se nos colocarmos dentro da época em que ele se realizou. Restrinjamo-nos aos dois aspectos característicos principais dessa época. Por um lado, depois da Paz de Vestfália, em 1648, a segunda metade do século dezessete não foi absolutamente uma época de paz. À desolação e a miséria conseqüentes da grande guerra vieram somar-se novas guerras com todas as ameaças de fome e de penúria que tudo isso implica. Exércitos estrangeiros devastavam o pais. A peste assolou Viena. Guerra e Paz, terror de ante da morte em vontade de viver estavam todos sob a mesma bandeira. Por isso Abraham a Sancta Clara escreveu nesse tempo:

“Entre nós encontramos vida fácil, ao lado da miséria e da corda, misericórdia, um só dia, e nossa paz de outrora está ainda tão perto da guerra quanto Sachsenhausen de Frankfurt”.

( Vamos coragem...)

Por outro lado a segunda metade do século dezessete assiste ao surgimento de um espírito novo que diz sim ao mundo e valoriza-lhe a imagem – o espírito barroco. Os últimos decênios da vida de Abraham a Sancta Clara é o tempo em que se situam a adolescência e a juventude dos grandes compositores, Bach e Haendel. Na mesma época os grandes arquitetos iniciam sua carreira. As igrejas barrocas de Ottobeuren, Weingarten, Weissnau, Steinhausen, Birnau serão obras sua.

Pela mesma época se elaboram os conhecimentos sobre os quais se baseia a física moderna, a que hoje chamamos clássica, para distingui-la da contemporânea, que é uma física do átomo, a física nuclear.

Contemporâneo precisamente de Abraham a Sancta Clara foi Leibniz; é um dos grandes nomes da filosofia européia. Teve igualmente o apoio e os favores do Imperador Leopoldo I que nomeou o padre Abraham pregador da corte. Todavia, não sabemos se estes dois homens já célebres em seu tempo, o pregador e o filósofo, algum dia se encontraram em Viena.

“Um homem destituído de ciência, diz Abraham a Sancta Clara, é como um céu sem estrelas, como uma casa de noz vazia. O próprio Deus que ama os burros não gosta de burrice”.

Martin Heidegger (1910)

( Paginas 01 e 02. Abraham A Sancta Clara)

Tradução do alemão para o Francês : François Vezin

Tradução do francês para o português : Orlando dos reis



Citado em “Heidegger: Anatomia de um Escândalo. François Fédier. Ed. Vozes. Petrópolis. RJ. 1989.




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