Martin buber



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MARTIN BUBER

Eu e Tu


TRADUÇÃO DO ALEMÃO, INTRODUÇÃO E

NOTAS POR

NEWTON AQUILES VON ZUBEN

Professor na Faculdade de Educação

da Unicamp
2ª EDIÇÃO

REVISTA


EDITORA MORAES

Traduzido do original alemão

Ich und Du, 8a ed. Lambert Schneider, Heidelberg, 1974

Nenhuma parte desta obra pode ser duplicada ou reproduzida sem autorização expressa dos editores.

© EDITORA MORAES

Rua Ministro Godoy, 1036 -05015 - São Paulo - SP

Teis: (011) 62-8987 e 864-1298
Printed in Brazil

Impresso no Brasil

CONTEÚDO

INTRODUÇÃO ......................................................................................................................... v

1. Dados Biográficos ..................................................................................................... XI

2, Características do Pensamento................................................................................. XV

3. Influências ................................................................................................................ XXII

4. EU e TU, De uma Ontologia da Relação a uma Antropologia do Inter-humano ...... XL

PRIMEIRA PARTE .................................................................................................................. 1

SEGUNDA PARTE ................................................................................................................ 41


TERCEIRA PARTE ............................................................................................................... 85
POST-SCRIPTUM ................................................................................................................ 139
NOTAS DO TRADUTOR ....................................................................................................... 157
GLOSSÁRIO ........................................................................................................................ 169

INTRODUÇÃO


O paradoxo é a paixão do pensamento; o pensador sem paradoxo é como um amante sem paixão, um sujeito medíocre. Martin Buber, por ter assumido o paradoxo tanto em sua vida como em suas obras, se apresenta como um dos grandes pensadores de nossa época. Sua mensagem antropológica constitui, sem dúvida, um marco essencial dentro das ciências humanas e da filosofia. A dimensão hermenêutica de sua obra sobre a Bíblia e sobre o Judaísmo faz de Buber um dos pilares que ainda sustentam toda a evolução contemporânea da reflexão teológica. Notável, e de relevante importância, foi o seu trabalho de tradução da Bíblia para o alemão, empreendimento este iniciado em colaboração com seu amigo Franz Rosenzweig e finalizado após a morte deste em 1929. Mais particularmente, a sua filosofia do diálogo, obra-prima de um verdadeiro profeta da relação (do encontro), situa-se como uma relevante contribuição no âmbito das ciências humanas em geral e da antropologia filosófica. Seus extensos e profundos estudos sobre o Hassidismo projetaram

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Buber ao mundo intelectual do Ocidente como exímio escritor e como o revelador desta corrente da mística judaica.



Entretanto, devemos reconhecer que a vasta produção de Buber ainda permanece desconhecida em nosso meio. A nosso ver, a atualidade de Martin Buber se fundamenta num duplo aspecto: primeiramente no vigor com que suas reflexões tornam possíveis novas reflexões. Embora pertencentes ao passado, elas “provocam” a ponto de exercer fascínio sobre aqueles que com elas se deparam; em segundo lugar, no comprometimento deste pensamento com a realidade concreta, com a experiência vivida. Pensamento e reflexão assinaram um pacto indestrutível com a práxis, com a situação concreta da existência. Martin Buber representa um dos exemplos do verdadeiro vínculo de responsabilidade entre reflexão e ação, entre práxis e logos. Para ele a experiência existencial de presença ao mundo ilumina as reflexões. A fonte de seu pensamento é sua vida; sua existência é a manifestação concreta de suas convicções.

A crescente presença das idéias de Martin Buber se faz sentir de um modo bastante marcante nos mais diversos domínios da cultura moderna. Seus estudos sobre a Bíblia e o judaísmo tiveram uma influência decisiva na teologia contemporânea, sobretudo na teologia protestante, Suas obras filosóficas têm influenciado várias das chamadas ciências humanas:

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psiquiatria, psicologia, educação, sociologia e toda uma corrente da filosofia contemporânea que se preocupa com o sentido da existência humana em todas as suas manifestações. A mensagem buberiana evoca no pensamento contemporâneo uma notável nostalgia do humano. Sua voz ecoa exatamente numa época que paulatina e inexoravelmente se deixa tomar por um esquecimento sistemático daquilo que é mais característico no homem: a sua humanidade. Sendo assim, a obra de Buber é fundamental para a abordagem da questão antropológica.



Esta mensagem humana, fornecida ao homem contemporâneo caracteriza-se por uma exigência de revisão de nossas perspectivas, sobre o sentido da existência humana. A nostalgia que envolve uma conversão propõe um projeto de existência a ser realizado e não uma simples volta a um passado distante numa postura de mero saudosismo romântico. A afirmação do humano não é um objeto de análises objetivas, exatas, infalíveis, mas sim um projeto que envolve o risco supremo da própria situação humana da reflexão.

Não raras vezes o pensamento de Buber sofreu interpretações ambíguas, e até mesmo errôneas, que poderiam facilmente ser evitadas se se tivesse observado uma certa postura de abordagem exigida pela profundidade da obra. Martin Buber não é um pensador qualquer, não é um autor no meio de outros perfazendo um sistema de pensamento filosófico ou teológico.

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Há muita verdade na auto-caracterização de Buber como “atypsicher Mensch” (homem atípico). Como não se trata de uma construção sistematicamente elaborada, sua obra exige uma abordagem cuidadosa e criteriosa; os aventureiros à busca de soluções rápidas e receitas para crises existenciais poderão decepcionar-se logo nas primeiras páginas, desencorajados pelas ruelas austeras de um pensamento que várias vezes se manifesta por conceitos, frases e passagens obscuros.



Nossa intenção aqui é introduzir as principais idéias de Buber ao leitor que o desconhece ou o conhece através de breves citações. Não se trata de um trabalho exaustivo sobre o pensamento de Buber ou sobre a sua filosofia. Trata-se de uma introdução à leitura de EU E TU que ora apresentamos em tradução portuguesa. No entanto, como a nosso ver acreditamos que o leitor, após o conhecimento deste livro, poderá mais facilmente abordar qualquer estudo deste grande pensador.

A essência do pensamento buberiano revela-se, talvez mais do que a maioria dos outros pensadores, estruturada como um círculo. Isto decorre do sentido que Buber deu ao comprometimento da reflexão com a existência concreta, ao vinculo da práxis e do logos. Tal comprometimento é uma das características principais do pensamento de Buber. No próprio nível da reflexão, pelo fato de a filosofia ser um desvelamento progressivo, seus esfor-

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ços ontológicos aparecem necessariamente entrelaçados com reflexões práticas. Este aprofundamento filosófico anseia sem cessar um ambiente de busca de um efetivo engajamento. Sua filosofia do diálogo - da relação - ponto central de toda a sua reflexão tanto no campo da filosofia ou dos ensaios sobre religião, política, sociologia e educação, atingiu sua expressão madura em EU E TU graças à fonte representada pelo Hassidismo e sua mensagem. Na mística hassídica Buber encontrou não só o principio, mas a luz e o molde para a sua reflexão. Podemos mesmo afirmar que a compreensão de EU E TU será completa quando for levada em consideração toda a influência da mística em geral (Budismo, Taoísmo, a mística alemã, a mística judaica) e mais especificamente do Hassidismo.



No entanto, Buber não pode ser considerado um representante de um misticismo irracional. Senão, como articular tal qualificação com sua obra EU E TU que traz reflexões religiosas profundamente ligadas a uma ontologia? Além do mais, a dimensão ontológica de sua reflexão não nos permite afirmar que estamos diante de um sistema filosófico “Pronto” do mesmo modo como podemos dizer que a filosofia de Hegel se apresenta 'como um sistema. Entretanto, podemos, em nossa preocupação de refletir criticamente sobre o pensamento de Buber, destacar temas ou conceitos mais importantes e centrais contidos na obra e que servem de estrutura conceitual para a abordagem de

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outros pontos da doutrina ou das idéias que seriam, neste caso, consequências do tema essencial.



Esquematicamente, a obra de Buber pode apresentar-se sob três facetas: Judaísmo, ontologia e antropologia. Cada uma delas se liga às outras de um modo circular. A renovação, projeto que Buber propõe ao Judaísmo, implica uma ontologia da relação que, por sua vez, tem suas consequências em vários campos, tais como educação e política. Podemos abordar essas facetas de um modo cronológico ou lógico. Dentro desta última perspectiva, a ontologia da relação (da palavra como diálogo) está presente como fundamento de todos os outros temas, seja de um modo retrospectivo nas suas concepções sobre o Judaísmo e na hermenêutica do Hassidismo, seja de um modo prospectivo na sua tradução da Bíblia, na sua antropologia filosófica, em seus estudos sobre educação ou política, orientados para uma ética do interhumano. O fato primordial do pensamento de Buber é a relação, o diálogo na atitude existencial do face-a-face.

Nesta introdução propomos ao leitor algumas considerações sobre os dados biográficos de Buber, algumas características de seu pensamento e de sua vida, as principais idéias que o influenciaram (aqui destacaremos a mística hassídica) e finalmente fazemos algumas reflexões sobre o sentido de EU E TU no conjunto da obra.

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1) DADOS BIOGRÁFICOS

Martin Buber nasceu em Viena aos 8 de fevereiro de 1878. Após o divórcio de seus pais, partiu para Lemberg, na Galícia, cidade onde moravam seus avós paternos. Buber passou assim sua primeira infância com seu avô Salomão Buber, grande autoridade da Haskalah. Junto desta família o jovem Buber teve a chance de experimentar a união harmoniosa entre a tradição judaica autêntica e o espírito liberal da Haskalah. A atmosfera era propícia para uma piedade sadia e para um profundo respeito pelo estudo. Teve aí a oportunidade de aprender o hebreu, de ler os textos bíblicos e de tomar contato com a tradição judaica. Aos 14 anos voltou a morar com o pai. Matriculou-se no ginásio polonês de Lemberg. A filosofia, sob a forma de dois livros, marcou sua primeira e influente presença na vida de Buber entre seus 15 e 17 anos. Nesta época, como ele mesmo nos relata, o seu espírito estava tomado por idéias de tempo e de espaço. Em sua obra “O problema do homem” ele faz alusão a uma experiência que exerceu profunda influência sobre sua vida “Um constrangimento, que não podia explicar, tinha se apoderado de mim: EU tentava, sem cessar, imaginar os limites do espaço, ou senão a inexistência de um limite, um tempo que começa e que termina sem começo nem fim. Um era tão impossível quanto o outro; um deixava tão pouca esperança quanto o outro; contudo, falavam-nos que não havia

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opção senão escolhendo um ou outro de tais absurdos. Sob forte tensão, eu vacilava entre um e outro, e acreditava que iria enlouquecer, e este perigo tanto me ameaçava que eu pensava seriamente em escapar da confusão por meio do suicídio”. Foi então que lhe caiu às mãos o livro “Prolegômenos”, de Kant, onde encontrou uma resposta para sua indagação. Nesse livro ele verificou que o espaço e o tempo não são nada mais que formas através das quais efetuamos a percepção, das coisas e que elas em nada afetam o ser das coisas existentes. Descobriu também que tais formas entram, de algumas maneira, na constituição de nossos sentidos. É tão impossível dizer que o mundo é infinito no espaço e no tempo, quanto dizer que é finito, pois “nem um nem outro pode ser contido na experiência” e nenhum pode ser encontrado no mundo. “Eu podia”, diz Buber, “dizer a mim mesmo que o Ser mesmo está subtraído tanto ao infinito quanto ao finito espacial e temporal, pois que não faz senão aparecer no espaço e no tempo, e não se esgota a si mesmo nesta sua aparência. “Eu começava então a perceber que há o eterno, muito diferente do infinito, e que, não obstante, pode haver uma comunicação entre eu, homem, e o eterno”. (O problema do homem). Outro livro lido por Buber foi “Assim falava Zaratustra”, de Nietzsche; Buber se empolgou tanto com a mensagem de Zaratustra que resolveu traduzí-lo para o polonês. A visão nietzscheana do tempo como eterno retorno impediu Buber de



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ter um concepção diferente do tempo e da eternidade.

Em 1896 Buber entrou para a Universidade de Viena, matriculando-se no curso de Filosofia e História da Arte. Mais do que em qualquer lugar, encontrava-se em Viena o exemplo típico de uma cultura aberta a toda sorte de influências, oriundas de todos os quadrantes do mundo intelectual. Encontravam-se aí elementos eslavos, judeus e românicos. A recém-formada escola vienense era neo-romântica e o lirismo ou o diálogo lírico estava aí presente em sua forma de criação e expressão. Toda a atmosfera da intensa vida social e cultural de Viena contribuiu para tornar Buber um devoto da literatura, da filosofia, da arte e do teatro. ISSO contribuiu de algum modo para que ele esquecesse suas raízes judaicas. Não foi senão mais tarde, no final de seus cursos universitários, que a consciência da força e profundidade da tradição judaica ressurgiu. Em 1901 entrou na Universidade de Berlim onde foi aluno de Dilthey e G. Simmel. Em Leipzig e Zurich dedicou-se ao estudo da filosofia e da sociologia. Em 1904 recebeu, em Berlim, o título de doutor em Filosofia.

Em Berlim entrou em contato com uma comunidade fundada pelos irmãos H. e J. Hart, a “Neue Gemeinschaft”, que representava um oásis para a jovem geração: aí os jovens podiam se expressar livremente. A comunidade apresentava um desejo ardente de novos tempos: o lema era viver mais profundamente a

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humanidade do homem. Foi ai que Buber travou amizade com Gustav Landauer, personagem este que o influenciou profundamente.



Buber era um membro ativo no seio da comunidade universitária. Os jovens se reuniam amiúde, para discutir em conjunto os problemas que mais lhes interessavam. As reuniões se realizavam à maneira de seminários nos quais cada um dos participantes tinha a chance de expor um trabalho que seria discutido por todos. Buber fez aí duas exposições: uma sobre Jakob Boehme e outra intitulada “Antiga e nova comunidade” onde afirmou “nós não queremos a revolução, nós somos a revolução”.

Participante ativo dos primeiros Congressos do movimento sionista, Buber foi escolhido 1º secretário. Alguns anos mais tarde chefia uma revolta de cisão no selo do movimento, por discordar da orientação do presidente e fundador Theodor Herzl.

De 1916 a 1924 Buber foi editor do jornal “DER JUDE”. Em 1923 foi nomeado professor de História das Religiões e Ética Judaica, na Universidade de Frankfurt. A cadeira, única na Alemanha, foi posteriormente substituída por História das Religiões. De 1933, quando foi destituído do cargo pelos nazistas, até 1938 Buber permaneceu em Heppenheim. Em 1938 aceitou o convite da Universidade Hebraica de Jerusalém, para lá ensinar Sociologia. Buber tinha então 60 anos. Esse período foi de intensa atividade intelectual. Suas pesquisas se aprofundaram em diversas áreas: estudos sobre a

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Bíblia, judaísmo e Hassidismo; estudos políticos, sociológicos e filosóficos.

Buber morreu em Jerusalém a 13 de junho de 1965 (com 87 anos).



2)CARACTERISTICAS DO PENSAMENTO.

“É necessário ter conhecido Martin Buber pessoalmente para se compreender num instante a filosofia do encontro, esta síntese do evento e da eternidade”. Nestas palavras de Bachelard vemos a convicção profunda de alguém que acredita na necessidade de se encarar com seriedade tal obra e tal vida, ligadas por um vínculo inquebrantável. A impressão que a presença de Buber causava no seu interlocutor nos é relatada por G. Marcel: “Fiquei profundamente impressionado, desde o inicio, com a grandeza autêntica de tal homem que me parecia realmente comparável aos grandes patriarcas do Antigo Testamento”. Marcel emprega o termo “plenitude” para caracterizar a personalidade e a existência de Buber, cuja magnanimidade surpreendia desde o primeiro encontro. Olhar profundo que parecia tocar a intimidade de seu interlocutor, e que, contudo, sabia acolher na simplicidade e na fugacidade de um diálogo. Uma presença autêntica emanava de sua pessoa, e a profundeza de seu semblante residia na presença a si mesmo. Exatamente por esta presença a si mesmo é que ele podia

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tornar-se presente aos outros, acolhendo-os incondicionalmente em sua alteridade. A abertura e a disponibilidade com relação ao outro encontravam em Buber um suporte: a zona de silêncio, na qual se inscreve a confiança no outro. O olhar encontra rapidamente o calor e a gratuidade da resposta. Quem ouve se não é para responder? Tal disponibilidade lhe fora inspirada, desde a juventude, pela vida das comunidades hassídicas que havia visitado durante a estadia na casa de seu avô, Salomon Buber. Nesta época a semente do TU já havia sido lançada: o lugar dos outros é indispensável para a nossa realização existencial.



A plenitude citada por Marcel não seria verídica se acaso não soubéssemos descobrir, ao lado da amabilidade do acolhimento e da abertura aos outros, a firmeza de sua personalidade, quando se tratava de defender um ponto de vista considerado como certo. Tal firmeza era logo orientada para uma constante procura do verdadeiro, em meio às múltiplas verdades. Esta plenitude no diálogo caracterizava a própria postura intelectual de Buber, pois ele nunca se desligava do mundo, e suas idéias nunca eram excogitadas numa reclusão acadêmica. Ele viveu plenamente as tarefas do mundo tais como elas se lhe apresentavam. Desde os primeiros anos de sua formação intelectual vemos Buber à frente de grupos estudantis. Dentro do movimento sionista com o qual se unira, ele entrou em conflito com os seus dirigentes, pois estes só se mostravam interessados em assun-

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tos políticos ou diplomáticos. O jovem Buber, liderando um pequeno grupo, defendeu uma concepção mais ampla do sionismo: uma concepção que fosse, em sua essência, um esforço de libertação e purificação interior e um meio de elevar o nível social e cultural das massas judaicas. Esta firmeza de atitude demonstrava uma vida interior muito madura e consciente, baseada numa compreensão bastante aguda do sentido de liberdade pessoal. Somente tal vida interior poderia lhe dar forças para enfrentar as dificuldades inerentes à sua própria existência, dificuldades estas provindas da marca que a circunstância histórica impingia não só a ele, mas a muitos outros, a ponto de torná-los pessoas diferentes, pois eram judeus. Isto, ao invés de lhe ser desfavorável ou um motivo de desdém, enriqueceu sua experiência ao revelar-lhe a verdadeira origem de seu poder criador.

Outra característica marcante desta personalidade e deste espírito filosófico, foi uma grande fé no humano. Ele vivia ardentemente o “Menschensein” e pôde superar todas as suas dificuldades, buscando uma solução para o problema existencial do homem atual. Ele havia entendido a voz que o interpelava, e ao mesmo tempo desejava que todos os homens tentassem responder a ela. Buber nunca quis figurar como o porta-voz de um sistema filosófico. Via sua missão como uma resposta à vocação que havia recebido: a de levar os homens a descobrirem a realidade vital de suas existências e a abri-

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rem os olhos para a situação concreta que estavam vivendo. Como Sócrates, ele ajudava, com sua presença, o “parto dos espíritos” nos homens. Seu esforço foi sempre sustentado pela esperança de atingir o fim, pois sem a esperança não se encontrará o inesperado, inacessível e não-encontrável, como já afirmava Heráclito.



Buber não se deixa etiquetar por qualquer sistema doutrinário conhecido. Qualificações como místico, existencialista ou personalista nada mais fazem do que desvirtuar o sentido de sua vida e de sua obra. Aliás, ele mesmo se qualificou como “atypischer Mensch”. O maior compromisso de sua reflexão é com a experiência concreta, com a vida. Ele aliou com rara felicidade, a postura e as virtudes de um homem atual (de seu tempo, do século XX) com as raízes profundas do Judaísmo primitivo. Em realidade, ele encarnava o sábio e o profeta tentando simplesmente advertir os homens a respeito de sua situação. Não se tratava de receitas tradicionalmente conhecidas ou imperativos inadiáveis, mas um apelo aos homens para que vivessem sua humanidade mais profundamente, movidos pela nostalgia do humano.
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“Durante a primeira guerra mundial, depois que meus próprios pensamentos sobre as coisas mais elevadas haviam tomado uma ori-

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entação decisiva, EU falava às vezes sobre minha posição a meus amigos; ela era semelhante a uma 'estreita aresta'. Desejava exprimir com isso que não me coloco numa larga e alta planície de um sistema feito de proposições seguras quanto ao Absoluto, mas sobre uma senda estreita de um rochedo, entre dois abismos, onde não existe segurança alguma de ciência enunciável, mas onde existe a certeza do encontro com aquilo que está encoberto”. (O problema do homem, pág. 92 da tradução francesa). Esta afirmação revela, talvez melhor que qualquer outra, o significado e o valor da vida e do pensamento de Buber. Nela podemos encontrar não somente a “santa insegurança” mencionada em sua obra “Daniel” (1913), mas também todo vigor e profundeza poética e filosófica de EU E TU esta “estreita aresta” não é uma solução de tranqüilidade que se torna um refúgio para os espíritos pusilânimes; não é, de forma alguma, uma posição de facilidade que tende a transcender a existência real eivada de paradoxos e contradições, ignorando-os simplesmente a fim de escapar das situações delicadas e embaraçosas provocadas por eles. Tal “aresta” onde Buber se coloca, é antes de mais nada o vislumbre da união paradoxal da plenitude, superando as soluções de compromisso daquilo que geralmente é entendido como dilemas ou alternativas: orientação-atualização, EU-TU EU-ISSO, dependência-liberdade, bem-mal, unidade-dualidade. A união dos

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contrários permanece um mistério na profunda intimidade do diálogo. Diálogo é plenitude.

De fato, “diálogo” é uma categoria que pode servir de via de acesso à compreensão da obra de Buber. “Diálogo” foi o tipo de compromisso de relação que a vida e a obra deste autor selaram entre si.

Apesar da vida de Buber ostentar profundas marcas de divisões, de contrastes, de oposições, não é sob esta categoria de ruptura que devemos abordá-la. Pode parecer uma divisão, a distinção existente entre dois períodos de sua vida, o primeiro até 1938 (período alemão) e o segundo, de 1938 até a sua morte (período israelense). Eles, em verdade, estão estreitamente unidos. Sem dúvida, Buber conheceu experiências drásticas de profunda ruptura, mas sua vida permanece única, plenamente voltada para uma aspiração: o humano. Em cada aspecto de sua vida e de sua obra, seja o aspecto filosófico seja o aspecto religioso, o político ou o existencial, um fator único os centraliza numa mensagem vivida: o diálogo. EU E TU, publicado em 1923, no período alemão, fundamenta suas obras posteriores, mesmo as datadas do período israelense, e que versavam sobre educação, sociologia, política e principalmente sua antropologia filosófica. Estas últimas nada mais são que explicitações ou manifestações enriquecidas por outras experiências existenciais da filosofia do diálogo de EU E TU. Por outro lado, os seus estudos sobre Judaísmo e sobre o Hassidismo, no segundo período, re-



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