Marísia (Une Misère Dorée)



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MARÍSIA

(Une Misère Dorée)


Os Lendau, família de nobres arrogantes e orgulhosos, procuravam manter o prestígio a qualquer custo, mesmo que tivessem de morrer em sua miséria dourada. Porém, a ruína obrigou o altivo e ocioso conde de Lendau a agir contra as tradições, e foi apoiado por Marísia, uma simples professorinha que um dia pretendia desposar. Essa união desigual despertou intriga, inveja e ódio, e apesar de amá-lo, a bela jovem era um obstáculo aos planos que já haviam traçado para ele.

No entanto, quando Marísia descobriu os terríveis segredos que as muralhas de Runsdorf escondiam, percebeu que possuía armas poderosas para destruir o orgulho dos Lendau, Sabia também o quanto o conde sofreria com tal revelação e seu coração lhe pedia para poupá-lo, mesmo que depois ele a considerasse uma mulher ambiciosa.


Disponibilização: Marisa Helena

Digitalização: Marina

Revisão: Talissa


Capítulo 1
Marísia, entregue à vertigem dos pensamentos que lhe enchiam o cérebro, andava apressadamente, ansiosa por se ver junto do pai e de Alexy, provavelmente bastante inquietos pela sua prolongada ausência. Entretanto, pensava na palestra que há pouco tivera com o conde de Lendau e durante a qual ele lhe havia revelado um profundo sofrimento e uma luta pungente. “Como conseguiria libertar-se desse orgulho de casta, dessas falsas idéias e cumprir o seu verdadeiro dever, apoiado numa incontestável vocação? Ah! iria rezar por ele, afim de que Deus o iluminasse e lhe desse a suficiente energia para quebrar de vez essas cadeias!” pensava ela, apressando cada vez mais o passo.

“E esse Holberg, como era adulador! Que criatura falsa e desprezível!, continuava Marísia a pensar, sentindo um grande desprezo por aquele homem irritante com as suas sabugisses melífluas. Talvez Laura tenha razão em supor que ele aspira para a filha a dignidade do título de condessa de Lendau, afim de enxertar a sua muito tenra nobreza nesse velho tronco secular. Naturalmente, eles não devem ignorar a precária situação financeira dos Lendau e, decerto, por isso mesmo, vêm mais probabilidade de levarem a bom êxito tal objetivo. Mas como estão enganados nesse caso... Sim, creio que jamais o conde Walther...

Interrompendo os seus pensamentos, Marísia evocou o lindo semblante de WiIhelmine e disse de si para si, com um pequeno frêmito de mal estar: ”entretanto, nunca se pode afirmar nada com certeza... se ela lhe agradar e se ele se sentir ameaçado de completa ruína...

A jovem acabava de entrar no atalho que ia dar bem no portão dos fundos do parque de Runsdorf. Ouviu-se um galopar de cavalos na estrada. No momento em que Marísia ia abrir o portãozinho, um cavaleiro e uma amazona entraram pelo atalho. Reconheceu imediatamente o barão de Holberg e sua filha.

— Em Nuniáthel estão a indagar qual foi o seu fim, jovem heroína — disse o barão num tom sarcástico. — Porque fugir como se tivesse sido a autora do crime e se negar a receber as felicitações?

— Não havia nenhuma razão para me demorar lá, e o senhor mesmo poderá reconhecer isso — replicou Marísia friamente.

— Oh! Isso porque a senhora é modesta... muito modesta... uma humilde violeta que gosta de se esconder sob a sombra do velho Runsdorf...

Estas palavras, pronunciadas pelo barão com uma estudada ironia, foram acompanhadas de um risozinho zombador de Wilhelmine, cujos olhos negros se fixavam na senhorita Lienkwicz com a mais maldosa das expressões.

Marísia replicou secamente:

— Sou o que devo ser em minha situação e não me apraz absolutamente ser felicitada por um ato muito natural, que outra qualquer pessoa faria estando em meu lugar.

— E que a senhora faria por qualquer pessoa, não é? Hum! Permita-me que eu ponha isso em dúvida, senhorita Lienkwicz! O movimento não teria, certamente, sido tão instintivo, tão pronto, se se tratasse de uma outra pessoa que não fosse o conde de Lendau...

O sangue subiu ao rosto de Marísia.

— O que significam essas palavras, barão? — disse ela, a cabeça altivamente erguida.

— Não se ofenda com as minhas palavras, senhorinha. A senhora não é a primeira jovem que se enamora pelo conde Walther e eu mesmo me reprovaria, já que se apresentou esta ocasião, se não a prevenisse contra o perigo que a ameaça. Os dons físicos e intelectuais do conde, o prestígio da sua classe, influíram sobre a senhora. Talvez ele goste de lhe fazer a corte por uns momentos... para se distrair. Mas pense na decepção, na dor que vai sentir quando perceber que apesar de toda a sua inteligência, de todo o seu valor moral, a senhora foi apenas um simples brinquedo nas mãos desse grande fidalgo, que, nem por sombras, teve a ideia de uma aliança desigual!

Os olhos de Marísia se enublaram, fixando-se com rancor nos olhos falsos daquele homem desprezível que a interpelava com irônica maledicência.

Era agora ela que zombava dele.

— Como o senhor soube arranjar depressa um romance do qual me fez a mais infeliz das heroínas! Quanto ao conde de Lendau, sendo o senhor amigo dele, deu-lhe um papel muito ridículo de vilão! Mas, tranquilize-se! Nada disso entrará na realidade! Entretanto, agradeço-lhe uma tal solicitude, tão desinteressada, pois que, segundo o senhor diz, o conde nunca fará uma aliança desigual... mesmo que seja amplamente dourada...

Mal terminou estas palavras, inclinou ligeiramente a cabeça e entrou no parque.

— Insolente! — disse raivosamente WiIhelmina, cujo rosto se tornou cor de púrpura ao se ver atingida pela frase da jovem.

O barão deu de ombros.

— Ela foi cutucada e isso é o essencial. Como a julgo bastante altiva, de agora em diante desconfiará de si própria e do conde. Este, muito provavelmente está em vias de se apaixonar por ela, coisa, aliás, bem compreensível, porque essa moça é realmente belíssima, dotada de um raro encanto e de uma elegância tão notável quanto à da cônega1. Alem disso, possui uma inteligência muito acima da comum... Confesso-lhe, Mina, que eu gostaria de vê-la longe daqui, porque, apesar do orgulho dos Lendau, ela ainda pode ser um sério obstáculo aos nossos projetos.

— Em todo o caso, ela é de uma força espantosa! O senhor nem conseguiu intimidá-la — disse Wilhelmina, colérica, chicoteando a sua montaria.

Se a jovem baronesa de Holberg pudesse ver nesse momento aquela que considerava como sua rival, teria ficado satisfeita. Marísia andava lentamente por uma das alamedas do parque, como se, repentinamente, a fadiga a acabrunhasse por completo. Seu coração batia tumultuosamente, suas faces escaldavam. Esse Holberg, hipócrita e maldoso, acabava de insultá-la, fingindo canalhamente que lhe prestava um obséquio, ele julgava, sem dúvida, que ela atrapalhava os desejos de sua filha, que procurava atrair de todos os modos a atenção do conde Walther? Que engano o seu! O conde estimava a filha do professor Lienkwicz e isso em alto grau, pois que ao contrário não lhe confiaria as suas dúvidas, o seu secreto sofrimento, mas quanto a se apaixonar por ela...

E porque esse homem imaginava que ela, Marísia, obedecera a um outro sentimento, e não ao instintivo impulso de coragem, lançando-se na frente do assassino que ameaçava o jovem senhor de Runsdorf? E ela sabia bem que, se por exemplo a cônega estivesse no lugar do sobrinho, teria agido do mesmo modo. Oh! Como a humanidade é má!

Em uma das voltas da alameda, Marísia sentou-se sobre um dos velhos bancos que se achavam ali. Precisava dar tempo a que se refizesse da emoção que a dominava porque senão o professor e Alexy pressentiriam tudo ao fixar o seu rosto. Ora, era inútil irritá-los, com a narrativa do incidente havido com os Holberg.

Quando se sentiu mais senhora dos seus nervos, enveredou por um atalho que levava diretamente ao seu apartamento. Ao dobrar o ângulo do edifício, viu na sua frente, o conde de Lendau que chegava no sentido inverso.

— Assustei-a, senhorinha? — perguntou ele, vendo que ela se sobressaltou ao parar. As suas faces estavam rubras. — Os passos — prosseguiu — se ouvem mal neste chão molhado...

— Não, eu estava meio distraída... e estou ainda com os nervos um pouco abalados... mas não me assustou...

— A senhora precisa tomar um calmante e repousar um pouco esta tarde. Parece que está muito fatigada. O doutor Berdech virá amanhã ver essa pobre mão. Está sentindo alguma dor?

— Pouca... bem suportável.

— Tanto melhor! Fico, pois, mais tranquilo... Eu vinha, ao mesmo tempo, contar-lhe que o senhor Duntz julga reconhecer naquele homem o filho da velha Muller.

— Aquele que a abandonou?

— Sim, um indivíduo muito mau, de quem ela não ouvira falar há muitos anos. Talvez saibamos a verdade quando ele recuperar a razão... Ah! Eis o professor!...

No limiar da porta envidraçada aparecia Adriano Lienkwicz. Teve uma exclamação de susto ao ver toda enfaixada a mão da filha. Marísia logo o tranquilizou. Depois, o conde de Lendau, tendo sido convidado para entrar, narrou o que acontecera. Marísia teve que ouvir todos os seus elogios e agradecimentos. Em seguida, retirou-se para repousar, conforme lhe fora recomendado, mas em vez de se dirigir ao seu quarto, tomou, por intermináveis corredores, o caminho da capela, situada na outra extremidade do castelo.

Só a lâmpada do tabernaculo é que punha um ponto luminoso na escuridão do pequeno santuário, severo e sombrio como todo o velho Runsdorf. Na meia obscuridade, Marísia adivinhou a cônega, ainda envolvida no seu manto preto, ajoelhada junto a balaustrada.

A jovem ajoelhou-se também, apoiando a fronte nas mãos unidas. Ficou assim um longo tempo, procurando ver claro em sua alma transtornada por uma estranha emoção. Depois estremeceu, ergueu para o tabernáculo um olhar angustioso, pensando:

”Que loucura!... Não, isso não pode ser, sei-o bem, meu Deus! Oh! Senhor tende piedade de mim! Iluminai-me! Dai-me forças para que eu possa cumprir todo o meu dever... e para que eu esqueça o que compreendi hoje! Oh! meu Deus, Todo Poderoso, não me desampareis! Dai-me forças para ocultar este amor que só agora adivinhei em meu coração!”

Capítulo 2
Natal se aproximava. O inverno, prematuro e rigoroso, tinha coberto de neve a floresta e o vale. Depois viera uma geada forte, endurecendo o espesso tapete branco e agora era em trenós que os jovens Duntz se comunicavam com Runsdorf.

Acabavam de chegar nessa tarde e sentaram-se ao redor de um belo fogo feito por Marísia com grossas achas de lenha. Gisela, toda rosada pela corrida em pleno ar, já abria o seu livro para pedir explicações ao seu amigo Alexy, pois que o belo impulso do começo não tinha esmorecido e a antiga menina preguiçosa se tornara uma estudante modelar.

— Seu pai não os quis acompanhar hoje, Heinrich? — perguntou o professor.

Há um mês que o administrador viera duas vezes à casa do seu velho amigo.

— Não, papai estava ocupadíssimo quando saímos. Mas, esta noite, quando for à Dufelden, virá apertar-lhe a mão e trazer-lhe o livro prometido.

— É verdade, há uma grande festa esta noite em casa do arquiduque. Laura ainda não se decidiu a ir assisti-la?

— Oh! Embora contra gosto terei que ir. Papai o deseja tanto! — disse Laura com uma caretinha de aborrecimento. — Se você pudesse me substituir, Marísia!

— Ora, muito obrigada! E pensa que eu aceitaria? Só se fosse para dar uma olhadela... sim, eu gostaria de ficar por que deve ser uma festa soberba! Mas um momento escondida num cantinho, pois parece-me que essas festas oficiais devem ser insípidas até o mais alto grau.

— Pois não se engana — disse Heinrich — É como si a gente estivesse cumprindo uma obrigação, uma tarefa pesada, eis tudo.

— Provavelmente lá encontraremos os Lendau?

— O conde e sua irmã, somente. A condessa lolanthe está bem doente.

— Ainda! E o que tem essa pobre senhora?

— Julgo-a fatigadíssima... acabrunhada por essa incessante luta para sustentar a sua condição aos olhos do mundo e resolver o difícil problema de fazer com que a sua família viva com pouco mais de nada...

— Mas o que resultará disso? Um dia, os recursos lhe faltarão de todo... De uns tempos para cá acho o conde mais sombrio. Dir-se-ia que anda preocupado, atormentado mesmo...

— Sim, talvez... quem o poderá saber? — murmurou Marísia.

Ela também o tinha notado. Recearia ele alguma catástrofe iminente? Esta suposição era bem plausível e também explicava a grande melancolia que o semblante de Bianca demonstrava assim como os sintomas de desânimo que Marísia surpreendera na sua discípula de inglês.

— E dizer que o conde poderia talvez salvar tudo! — disse Alexy com um tom de pesar.

Uma leve pancada dada na porta interrompeu-o. Era o conde Walther que tinha um papel na mão.

— Venho trazer um convite — disse ele, depois de um cumprimento cordial. — Ao mesmo tempo, senhor professor, desejaria comunicar-lhe uma descoberta que fiz há pouco na biblioteca.

Adriano Lienkwicz mostrou-se logo interessado e indagou, curioso:

— De que se trata?

Walther sentou-se junto de Alexy e estendeu ao professor uma folha bem amarelada.

— Veja isso... Eu estava remexendo em antigos papéis quando encontrei a ata do enlace do meu tio-avô Eberhard. Tinha esquecido completamente se algum dia eu o soube, o que não tenho certeza, o nome de sua esposa morta antes da sua volta para a Áustria. Ora, acabo de ver que essa minha tia-avó chamava-se ela Lienkwicz.

— Lienkwicz! Com efeito, meu pai dizia que o ramo mais velho de nossa família tinha imigrado para as índias, isso mais ou menos em meados do século dezoito. Era esse ramo que guardava os papéis concernentes à origem dos Lienewicz. Havendo uma certa discórdia entre esse ramo e o mais moço, nunca mais um deu ao outro sinal de vida.

— Pois bem! Tudo agora concorda. O casamento foi celebrado em Bombaim, como prova o documento que o senhor tem nas mãos. Quanto ao jovem Boleslas, tão misteriosamente desaparecido, não há dúvida que era o último descendente desse ramo mais velho... Que coisa singular, descobrir assim uma aliança entre as nossas famílias!

Marísia julgou teria sido uma ilusão descobrir uma vibração alegre em sua voz.

— Sim, verdadeiramente devia ter sido uma ilusão... Porque o conde de Lendau ficaria satisfeito com essa aliança desigual? Seus preconceitos, sua educação deviam naturalmente levá-lo a censurar o seu tio-avô.

— Ainda descobri isto, num dos cantos da mesma biblioteca — acrescentou Walther, apresentando ao professor dois veneráveis volumes, cuja antiquíssima encadernação estava muito estragada pela umidade. Um era um livro de horas, o outro um psaltério2 manuscrito, sendo os dois guarnecidos de iluminuras interessantes. — Deixo-os em seu poder, caro professor, pode examiná-los à vontade... Agora o convite... Minha tia pede-lhe que vá tomar chá com ela, senhorita Lienkwicz!

A cônega, que voltara para o seu capítulo pouco depois da agressão da floresta, se encontrava agora em Runsdorf, afim de passar ali as festas do Natal.

— E leve também o senhor e a senhorinha Duntz — acrescentou o conde. — Minha tia e Bianca ficarão satisfeitíssimas.

Quanto à primeira, os jovens Duntz não estavam bem certos do seu contentamento. Em todas as ocasiões que a tinham encontrado, o que aliás era muito raro, sentiram sempre, sob a polidez da grande senhora, uma forte dose de frieza. Entretanto, diante das amáveis insistências de Walther, viram-se obrigados a aceitar o convite e a seguirem o jovem conde, deixando Gisela retomar a sua discussão histórica com Alexy, enquanto o professor ia se abismar no exame desses preciosos volumes que os seus olhos fitavam com verdadeira ternura.
Quando o conde, tendo atravessado com os seus convidados os longos corredores sombrios, ia abrir a porta do salão vermelho, o rumor de uma risada chegou até ele. Franziu as sobrancelhas e murmurou.

— Dir-se-ia a baronesa de Holberg...

Marísia teve um estremecimento de mal estar. Como o barão e a filha estivessem ausentes de Dufelden até agora, ela não mais os vira desde o encontro do parque de Runsdorf. A perspectiva de se achar em companhia deles só lhe inspirava um horrível desagrado.

Estavam lá, com efeito, chegados há minutos, porque ainda se conservavam em pé, diante da cônega e de Bianca. Ao ver a senhorita Lienkwicz, Wilhelmina mordeu os lábios enquanto lhe lançava um olhar hostil.

O olhar de Bianca ao contrário, iluminou-se de alegria ao perceber os Duntz. Quanto à cônega, seria impossível adivinhar, sob a sua polidez suficientemente afável, se estava ou não descontente pela iniciativa tomada pelo sobrinho.

Marísia, tendo trocado com os Holberg um cumprimento breve, foi sentar-se bem longe deles, junto de Bianca e dos Duntz, em quanto o conde tomava lugar entre Wilhelmina e seu pai.

— A recepção de Suas Altezas esta noite promete ser soberba — disse o barão. — Não se decidirá a aparecer, minha senhora?

— Eu teria dito não, com muita alegria... mas esta manhã recebi um recado da arquiduquesa pedindo-me para fazer uma exceção, ao menos por esta vez, em meus hábitos de recolhimento. Assim, pareceu-me difícil uma nova recusa.

— Oh! Era mesmo uma coisa impossível, minha senhora! — exclamou Wilhelmina. — Alem disso, com a sua beleza, vai ser a rainha dessa soirée3!

A cônega franziu as sobrancelhas.

— Deixemos de lado essa consideração — disse ela bem secamente. — Para uma mulher da minha idade, isso é muito secundário!

Wilhelmina meneou a cabeça com alguma vivacidade. Não podia, certamente, compreender, que alguém abdicasse totalmente do desejo de ser admirada, tivesse esta ou aquela idade.

— Naturalmente vê-la-emos também, não é condessa? — perguntou o barão dirigindo-se a Bianca.

— Sim, já que é preciso!...

— Vejamos, então nunca se tornará mais sociável, mais mundana? — perguntou Wilhelmina com um ar de reprovação.

— Creio que não, pelo menos no que se relaciona a essas aborrecidas festas oficiais Se se tratasse de pequenas reuniões íntimas, soirées amigáveis, então o caso seria diferente.

— Bianca, toque uma sonata de Mozart ou de Beethoven com o senhor Duntz, que é excelente violinista, segundo ouvi dizer — disse o conde Walther saindo do silêncio que guardara até então.

— Mas falta-me o violino — disse Heinrich, rindo.

— Oh! Meu caro, devemos ter pelo menos um... vou procurá-lo.

Enquanto Walther se afastava, Bianca dirigiu-se para uma estante de velho carvalho onde estavam guardados os álbuns de música. Folheou-os, pedindo a opinião de Heinrich que se tinha aproximado dela. Wilhelmina palestrava sem perceber a palidez da cônega.

— Olhe, Marísia, a bela tia do conde parece estar sentindo alguma dor — disse Laura em voz bem baixinha à amiga.

— Ah! Eis o que necessitávamos! — disse Bianca inclinada sobre um álbum. — Esta magnífica sonata de Beethoven, a minha preferida... A senhora tem a parte do violino, titia? É a sonata em lá, op. 12...

— Não, essa não, Bianca... Não posso ouvi-la... com agrado...

A cônega tinha se voltado para a sobrinha e falava com uma voz dura, um pouco ofegante. Seus olhos pareciam ter perdido a vista e as mãos que pousavam sobre os braços da poltrona tremiam visivelmente.

— Que coisa singular! — disse Heinrich. — Essa sonata é tão bela! Entretanto, não é só a senhora, condessa. Papai também não pode suportá-la! Por isso eu e Laura sempre deixamos de tocá-la em sua presença.

A cônega apoiou a cabeça sobre o espaldar da sua poltrona e cruzou as mãos sobre os joelhos, afim de dissimular a sua agitação. Agora um rubor escaldante tingia as suas faces. Decididamente, a simples evocação dessa sonata produzia nela uma emoção bem singular.

O conde reapareceu trazendo o violino. Pouco depois os dois musicistas começavam um noturno de Chopin. Marísia, ouvindo-os, pensava:

”Como tocam com alma! Como se combinam bem!”

E fitando Bianca, notou com surpresa, sobre a sua fisionomia, uma expressão de felicidade pouco habitual na jovem. Parecia que um raio de sol a iluminara subitamente.

Passando, maquinalmente o olhar para Heinrich, Marísia o viu iluminado por essa mesma claridade interior, absorvido em uma alegria íntima, enquanto tocava, fitando Bianca, como se ela o estivesse inspirando.

Lembrou-se então da mútua simpatia que visivelmente atraia um para o outro, desde o princípio das relações entre os Lendau e os Duntz, esses dois seres igualmente bons e dotados dos mesmos elevados sentimentos: o alegre e leal Henrich, a altiva e melancólica Bianca...

”Pobre Heinrich!... Pobre Bianca!, pensou ela com compaixão, eles marcham para a dor, porque nunca... nunca!”

Involuntariamente, Marísia procurou os olhos do conde de Lendau... e viu que ele também fitava Bianca e Heinrich... viu sua fisionomia se ensombrar progressivamente.

O conde não apoiou o barão, grande melômano4, que reclamava uma segunda partitura, assim a dois instrumentos. Também a cônega nada pediu... O violino devia agir muito desagradavelmente sobre os seus nervos, porque, por vezes, principalmente quando Heinrich tocava com a sua delicadeza, uma outra frase mais patética ela parecia conter à custo uma crispação de todo o seu ser.

— Você devia tocar agora A Tarde de Schumann. Sabe interpretá-la de um modo todo particular, Bianca — disse o conde à irmã.

— O álbum de Schumann não está aqui. Onde poderei encontrá-lo, titia?

— Sem dúvida guardei-o em um outro lugar; vou ver.

A cônega, deixando a sua cadeira, dirigiu-se para o aposento vizinho. Pela porta aberta de par em par, Marísia viu-a curvar-se sobre uma estante, procurar um pouco...

— Senhorinha Lienkwicz! — chamou ela.

Marísia levantou-se e foi ter com ela.

A cônega designou-lhe a estante, dizendo:

— Minha querida filha, quererá me prestar o obséquio de procurar aí esse álbum que Bianca pediu? Minha vista está muito fraca de uns tempos para cá. Às vezes, só com muito esforço é que consigo distinguir as letras...

— E não consultou ainda um especialista, minha senhora? — perguntou Marísia curvando-se para a estante.

— Não... Que importa!...

O tom demonstrava uma suprema indiferença.

Marísia encontrara o volume procurado. Ao tirá-lo da estante, fez tombar o seu vizinho, um volume admiravelmente encadernado, encimado por uma coroa de conde sob a qual estavam inscritas estas palavras: A minha querida irmã Walburge lembrança de Mathilde.

— Walburge?... Era a jovem que morreu neste apartamento, não é? — perguntou Marísia.

— Sim... neste mesmo aposento...

— Que destino triste!... Seu pai então não a amava?

— Sim, provavelmente, mas agiu nessa circunstância como o teria feito qualquer um outro conde de Lendau... e Walburge não é a única a conhecer tal prova... mas é coisa que se pode suportar, apesar de tudo...

Estas últimas palavras foram pronunciadas com uma espécie de acrimônia dolorosa.

— E no entanto a condessa Walburge morreu... não pôde suportar! — disse Marísia. — Compreendo-a perfeitamente... Essa obrigação de esposar um personagem antipático era horrível.

— Sim, também sou de sua opinião. Pode-se, se se é sustentada por um orgulho de casta, renunciar com relativa facilidade a uma união, que entretanto seria toda a felicidade... mas deve ser um insuportável martírio ser-se obrigada a contrair um enlace de conveniência, pelo qual se sente até uma invencível repulsa... Assim, pois, compreendo Walburge que escolheu a prisão até a morte.

Ela estava apoiada a uma mesa e tinha o rosto sobre a mão pálida. Seus lábios se enrugaram amargamente e as pálpebras abaixadas escondiam os seus olhos soberbos.

Diante dela, Marísia fitava a coroa de conde estampada sobre o rico volume. Pensava nas jovens frontes sobre as quais esse círculo de ouro tinha pesado tanto, naquelas que ele havia assassinado com os seus espinhos ocultos. E entretanto, quantas ainda a tinham desejado, a começar pela elegante convencida cuja voz zombadora chegava até ali!

Não, Marísia dizia a si própria, que detestava essa coroa e com ela todo o passado pesado de orgulho dos Lendau. Sem eles, Walburge não teria tido uma morte tão triste... sem eles Bianca não teria que pôr um fim doloroso em seu sonho inconsciente... sem eles, todos estes Lendau, tão bem dotados, não estariam sucumbidos sob preconceitos aniquilantes...

— Essa coroa parece hipnotizá-la, senhorinha — disse uma voz sarcástica.

Marísia voltando-se viu, a poucos passos dela, no limiar da porta aberta, o conde de Lendau e o barão de Holberg. Fora este que lhe dirigira a palavra.

— Pois o senhor não é bom observador — replicou a jovem no mesmo tom. — Eu a fitava quase que com indignação, porque, encimando este nome, ela recorda a triste sorte de uma infeliz condessinha...

— Sim, pobre Walburge! Ela foi uma vítima, com efeito — disse o conde com um tom de amargura. — Não há nada tão terrível como as casas soberanas onde a razão de Estado assassina os corações e destrói os futuros... Mas isso é verdadeiramente uma coisa odiosa... sim odiosa!

Punha nestas palavras uma tal violência contida que decerto ofendeu a cônega, porque ela logo ergueu altivamente a cabeça, lançando sobre o sobrinho um olhar de muita surpresa.

— Sim, é uma dura obrigação, concordo nisso consigo, mas é uma coisa inseparável da nossa classe. E será preciso aceitá-la, quando se apresente a ocasião, nem que tenhamos de sofrer o resto da existência.

Walther abria a boca para uma nova réplica. Mas calou-se e voltando-se para Marísia, perguntou:

— É o álbum de Schumann que a senhora tem na mão, senhorinha Lienkwicz? Levo também o da condessinha Walburge, há nele lindas peças de cravo que Bianca também nos fará ouvir.

Afastaram-se, indo para o salão vizinho e a cônega deu um passo para segui-los; mas o barão disse à meia-voz, num tom sardônico:

— Decididamente o conde de Lendau tem uma grande simpatia por essa família Lienkwicz, ela o merece! — replicou naturalmente a cônega.

— Oh! Nunca o pus em dúvida! Mas a jovem Marísia é... sim, verdadeiramente, ela é belíssima, muito fascinante, e...

A cônega o fitou pondo um clarão em seus belos olhos escuros.

— O que está imaginando, barão?

— Mas uma coisa muito natural, parece-me! E infelizmente não será a primeira vez que se veria um grande senhor se apaixonar por uma professora, linda e embusteira...

A cônega interrompeu-o com um gesto seco:

— A senhorinha Lienkwicz não é uma embusteira, nem intrigante e muito menos uma vaidosa. Quanto ao meu sobrinho, ele sabe muito bem o que deve ao seu nome e não o podendo oferecer à essa moça, saberá afastar de si qualquer sentimento impossível.

— O amor, às vezes, se impõe bem tiranicamente, minha senhora!

— Sempre, desde que se queira, pode-se ser senhor de si.

Depois desta réplica, pronunciada com uma orgulhosa segurança, a cônega entrou no salão vizinho.

Bianca estava sentada ao piano, mas retomara a sua fisionomia tristonha. Sua atitude era de cansaço, seu modo de tocar pouco alegre, sem o encanto de há pouco.

— Teremos o imenso prazer de ouvi-la tocar, minha senhora? — perguntou WiIhelmina à cônega.

— Não toco há muitos anos e neste espaço de tempo só o tenho feito, muito raramente, só para mim.

Fora num desses momentos, que Marísia a ouvira, uma noite, na sua segunda visita noturna ao lago negro.

— Entretanto a senhora tem um grande talento para a música, minha tia — disse o conde Walther.

— Sim, os meus amigos pretendiam convencer-me disso — replicou ela num tom frio.

E continuando a conversar, mudou o assunto da palestra.

— Heintz trouxe o chá.

Bianca levantou-se para servi-lo. Mas sentou-se quase que imediatamente, levando a mão à testa.

— Sinto uma horrível dor de cabeça... Senhorinha Marísia, quereria fazer-me o obséquio de me substituir?

O olhar invejoso de Wilhelmina seguiu Marísia enquanto esta se dirigia para a mesa de chá. Ninguém poderia contestar que a jovem professora tinha em seu andar a mais perfeita elegância e em seus gestos uma graça muito natural. Essa simples burguezinha parecia estar perfeitamente em seu lugar nesse quadro aristocrático. Uma tal constatação pôs uma surda tempestade na alma da baronesa de Holberg a ponto de fazê-la esquecer todas as conveniências e a mais simples prudência.

— Não, hoje não quero tomar chá. Dê-me um copo de água com açúcar — disse ela repelindo com um gesto a xícara que Marísia lhe oferecia.

Esta tornou-se rubra, um clarão passou em seu olhar. Mas o conde já se levantava e agitava violentamente o cordão da campainha.

— Não se incomode, senhorinha Lienkwicz. Heintz trará esse copo de água para a baronesa.

Wilhelmina, por sua vez, tornou-se cor de púrpura. A palestra havia cessado, todos os olhares se fixavam nos três. Marísia dominando a sua penosa emoção, dirigiu-se para Laura Duntz, oferecendo-lhe a xícara de chá recusada pela baronesa. Imediatamente o barão retomou habilmente o fio da conversa, pois como bom diplomata, nada o embaraçava. Para ele, no seu modo de pensar a pouca polidez de sua filha não fora desagradável a ninguém, tanto que uma espécie de satisfação brilhava em seu olhar, enquanto fitava a cônega, visivelmente preocupada, a fronte riscada pelos vincos de uma grande contrariedade. O jovem conde continuava em pé, apoiado na chaminé, os braços cruzados sobre o peito. Um sorriso irônico entreabria os seus lábios e só modificou a expressão do rosto quando Marísia se aproximou, estendendo-lhe a xícara de chá.

— Obrigado, senhorinha... e perdão — acrescentou ele à meia-voz, designando WiIhelmina com o olhar.

Esta, num gesto de visível perturbação, acabava de tomar o copo de água trazido por Heintz.

— Walther, não posso me lembrar do nome desse general, muito amigo de seu pai, que você encontrou no outro dia... — disse a cônega num tom seco.

O conde aproximou-se dela e Marísia voltou para o seu lugar. Ficou ali até a saída dos Duntz. Depois despediu-se da cônega. Esta subitamente tornara-se muito fria para com ela.


Entrando na sala onde estavam o professor e Alexy, a jovem encontrou fazendo-lhes companhia o novo capelão. O bom pai Malhen morrera no mês anterior. Algum tempo antes, sentindo que estavam próximos os seus últimos dias, chamara para substituí-lo um antigo missionário, íntimo amigo dele, pai André, quinze anos mais moço do que o seu amigo, vira-se reduzido ao repouso devido a sua saúde arruinada. O conde de Lendau, à pedido do moribundo, dera-lhe a sucessão no castelo e bem depressa, todos, em Runsdorf e nos arredores, apreciavam a bondade, a ternura, a caridade, a nobre inteligência do novo capelão.

Desde os primeiros momentos, pai André havia demonstrado uma particular simpatia pelo professor e seus filhos, talvez porque também fosse de origem polaca.

Nisto, aliás, se limitava tudo o que, tanto os Lienkwicz como os senhores de Runsdorf sabiam à respeito desse santo homem, muito discreto sobre a sua vida. Só contara, pois, a sua origem.

— Você hoje se demorou pouco no apartamento da condessa, Marísia — observou o professor.

— O estritamente necessário, papai, porque os Holberg estavam lá e como sabe, tenho pouca simpatia por eles... O senhor foi muito bom em vir fazer companhia ao papai e a Alexy, meu pai — acrescentou Marísia, cumprimentando respeitosamente o padre.

— Mas se isso é um prazer para mim! Questionávamos sobre linguística... E isso à propósito desses curiosos livros que o conde me trouxe, ele esqueceu-se de levar a ata de casamento de seu tio-avô, Marísia. Lembre-me, pois, de lhe devolver na primeira ocasião em que o vermos.

O professor, falando, havia tomado de sobre a mesa a folha amarelada.

— Imagine, meu pai, que o conde Eberhard de Lendau havia esposado uma Lienkwicz. Seu sobrinho neto acaba de sabê-lo por este documento...

O dia baixava; pai André se achava sentado num canto meio escuro. Entretanto Marísia julgou vê-lo estremecer.

— De verdade? — perguntou ele num tom de polida indiferença. — Ei-los então encantados com uma tal aliança?

— Encantados?

Marísia teve um risinho de ironia.

— E porque? Primeiro, nem temos certeza se essa senhora era da nossa mesma família. Em segundo lugar, pouco nos importa, na verdade, que ela tenha tido a honra de se chamar a condessa de Lendau.

— Sim, essa honra é bem ilusória, bem precária — disse o padre com uma voz alterada. — Vejam, é bem melhor chamar-se Lienkwicz do que Lendau...

Interrompeu-se e ficou alguns instantes em silêncio, absorvido em algum pensamento melancólico. Marísia aproximou-se de uma janela e apoiou a sua fronte contra a vidraça. Seus lábios murmuraram maquinalmente:

— Sim... pai André tem razão... é melhor ter o nome de Lienkwicz do que o de Lendau... sim... muito melhor, não há a menor dúvida...

E com um ligeiro movimento de impaciência, voltou-se, dirigindo-se para o seu quarto, abismada em suas reflexões.



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