Marilena Chauí



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Marilena Chauí – Convite à Filosofia
A preocupação com o conhecimento
O conhecimento e os primeiros filósofos
Quando estudamos o nascimento da Filosofia na Grécia, vimos que os primeiros filósofos – os pré-socráticos – dedicavam-se a um conjunto de indagações

principais: Por que e como as coisas existem? O que é o mundo? Qual a origem

da Natureza e quais as causas de sua transformação? Essas indagações

colocavam no centro a pergunta: o que é o Ser?

A palavra ser em português, traduz a palavra latina esse e a expressão grega taonta. A palavra latina esse é o infinitivo de um verbo, o verbo ser. A expressão

grega ta onta quer dizer: as coisas existentes, os entes, os seres. No singular, ta



onta se diz to on, que é traduzida por: o ser. Os primeiros filósofos ocupavam-se

com a origem e a ordem do mundo, o kosmos, e a filosofia nascente era uma

cosmologia. Pouco a pouco, passou-se a indagar o que era o próprio kosmos, qual

era o fundo eterno e imutável que permanecia sob a multiplicidade e

transformação das coisas. Qual era e o que era o ser subjacente a todos os seres.

Com isto, a filosofia nascente tornou-se ontologia, isto é, conhecimento ou saber sobre o ser.

Por esse mesmo motivo, considera-se que os primeiros filósofos não tinham uma preocupação principal com o conhecimento enquanto conhecimento, isto é, não

indagavam se podemos ou não conhecer o Ser, mas partiam da pressuposição de

que o podemos conhecer, pois a verdade, sendo aletheia, isto é, presença e

manifestação das coisas para os nossos sentidos e para o nosso pensamento,

significa que o Ser está manifesto e presente para nós e, portanto, nós o podemos

conhecer.

Todavia, a opinião de que os primeiros filósofos não se preocupavam com nossa capacidade e possibilidade de conhecimento não é exata. Para tanto, basta

levarmos em conta o fato de afirmarem que a realidade (o Ser, a Natureza) é

racional e que a podemos conhecer porque também somos racionais; nossa razão

é parte da racionalidade do mundo, dela participando.


Heráclito, Parmênides e Demócrito
Alguns exemplos indicam a existência da preocupação dos primeiros filósofos com o conhecimento e, aqui, tomaremos três: Heráclito de Éfeso, Parmênides de Eléia e Demócrito de Abdera.

Heráclito de Éfeso considerava a Natureza (o mundo, a realidade) como um

“fluxo perpétuo ”, o escoamento contínuo dos seres em mudança perpétua. Dizia:

“Não podemos banhar-nos duas vezes no mesmo rio, porque as águas nunca são

as mesmas e nós nunca somos os mesmos”. Comparava o mundo à chama de

uma vela que queima sem cessar, transformando a cera em fogo, o fogo em

fumaça e a fumaça em ar. O dia se torna noite, o verão se torna outono, o novo

fica velho, o quente esfria, o úmido seca, tudo se transforma no seu contrário.

A realidade, para Heráclito, é a harmonia dos contrários, que não cessam de se transformar uns nos outros. Se tudo não cessa de se transformar perenemente,

como explicar que nossa percepção nos ofereça as coisas como se fossem

estáveis, duradouras e permanentes? Com essa pergunta o filósofo indicava a

diferença entre o conhecimento que nossos sentidos nos oferecem e o

conhecimento que nosso pensamento alcança, pois nossos sentidos nos oferecem

a imagem da estabilidade e nosso pensamento alcança a verdade como mudança

contínua.

Parmênides de Eléia colocava-se na posição oposta à de Heráclito. Dizia que só podemos pensar sobre aquilo que permanece sempre idêntico a si mesmo, isto é,

que o pensamento não pode pensar sobre as coisas que são e não são, que ora são

de um modo e ora são de outro, que são contrárias a si mesmas e contraditórias.

Conhecer é alcançar o idêntico, imutável. Nossos sentidos nos oferecem a

imagem de um mundo em incessante mudança, num fluxo perpétuo, onde nada

permanece idêntico a si mesmo: o dia vira noite, o inverno vira primavera, o doce

se torna amargo, o pequeno vira grande, o grande diminui, o doce amarga, o

quente esfria, o frio se aquece, o líquido vira vapor ou vira sólido.

Como pensar o que é e o que não é ao mesmo tempo? Como pensar o instável? Como pensar o que se torna oposto e contrário a si mesmo? Não é possível, dizia Parmênides. Pensar é dizer o que um ser é em sua identidade profunda e

permanente. Com isso, afirmava o mesmo que Heráclito – perceber e pensar são

diferentes -, mas o dizia no sentido oposto ao de Heráclito, isto é, percebemos

mudanças impensáveis e devemos pensar identidades imutáveis.

Demócrito de Abdera desenvolveu uma teoria sobre o Ser ou sobre a Naturezaconhecida com o nome de atomismo: a realidade é constituída por átomos. A palavra átomo tem origem grega e significa: o que não pode ser cortado ou

dividido, isto é, a menor partícula indivisível de todas as coisas. Os seres surgem

por composição dos átomos, transformam-se por novos arranjos dos átomos e

morrem por separação dos átomos.

Os átomos, para Demócrito, possuem formas e consistências diferentes

(redondos, triangulares, lisos, duros, moles, rugosos, pontiagudos, etc.) e essas

diferenças e os diferentes modos de combinação entre eles produzem a variedade

de seres, suas mudanças e desaparições. Através de nossos órgãos dos sentidos,

percebemos o quente e o frio, o doce e o amargo, o seco e o úmido, o grande e o

pequeno, o duro e o mole, sabores, odores, texturas, o agradável e o

desagradável, sentimos prazer e dor, porque percebemos os efeitos das

combinações dos átomos que, em si mesmos, não possuem tais qualidades.

Somente o pensamento pode conhecer os átomos, que são invisíveis para nossa percepção sensorial. Dessa maneira, Demócrito concordava com Heráclito e

Parmênides em que há uma diferença entre o que conhecemos através de nossa

percepção e o que conhecemos apenas pelo pensamento; porém, diversamente

dos outros dois filósofos, não considerava a percepção ilusória, mas apenas um

efeito da realidade sobre nós. O conhecimento sensorial ou sensível é tão

verdadeiro quanto aquilo que o pensamento puro alcança, embora de uma

verdade diferente e menos profunda ou menos relevante do que aquela alcançada

pelo puro pensamento.

Esses três exemplos nos mostram que, desde os seus começos, a Filosofia

preocupou-se com o problema do conhecimento, pois sempre esteve voltada para

a questão do verdadeiro. Desde o início, os filósofos se deram conta de que nosso

pensamento parece seguir certas leis ou regras para conhecer as coisas e que há

uma diferença entre perceber e pensar. Pensamos a partir do que percebemos ou

pensamos negando o que percebemos? O pensamento continua, nega ou corrige a

percepção? O modo como os seres nos aparecem é o modo como os seres

realmente são?
Sócrates e os sofistas
Preocupações como essas levaram, na Grécia clássica, a duas atitudes filosóficas: a dos sofistas e a de Sócrates – com eles, os problemas do conhecimento

tornaram-se centrais.

Os sofistas, diante da pluralidade e do antagonismo das filosofias anteriores, ou dos conflitos entre as várias ontologias, concluíram que não podemos conhecer o

Ser, mas só podemos ter opiniões subjetivas sobre a realidade.

Por isso, para se relacionarem com o mundo e com os outros humanos, os

homens devem valer-se de um outro instrumento – a linguagem – para persuadir

os outros de suas próprias idéias e opiniões. A verdade é uma questão de opinião

e de persuasão, e a linguagem é mais importante do que a percepção e o

pensamento.

Em contrapartida, Sócrates, distanciando-se dos primeiros filósofos e opondo-se

aos sofistas, afirmava que a verdade pode ser conhecida, mas primeiro devemos

afastar as ilusões dos sentidos e as das palavras ou das opiniões e alcançar a

verdade apenas pelo pensamento. Os sentidos nos dão as aparências das coisas e

as palavras, meras opiniões sobre elas. Conhecer é passar da aparência à

essência, da opinião ao conceito, do ponto de vista individual à idéia universal de

cada um dos seres e de cada um dos valores da vida moral e política.


Platão e Aristóteles
Sócrates fez a Filosofia preocupar-se com nossa possibilidade de conhecer e

indagar quais as causas das ilusões, dos erros e da mentira. No esforço para

definir as formas de conhecer e as diferenças entre o conhecimento verdadeiro e

a ilusão, Platão e Aristóteles introduziram na Filosofia a idéia de que existem

diferentes maneiras de conhecer ou graus de conhecimento e que esses graus se

distinguem pela ausência ou presença do verdadeiro, pela ausência ou presença

do falso.

Platão distingue quatro formas ou graus de conhecimento, que vão do grau

inferior ao superior: crença, opinião, raciocínio e intuição intelectual. Para ele, os

dois primeiros graus devem ser afastados da Filosofia – são conhecimentos

ilusórios ou das aparências, como os dos prisioneiros da caverna – e somente os

dois últimos devem ser considerados válidos. O raciocínio treina e exercita nosso

pensamento, preparando-o para uma purificação intelectual que lhe permitirá

alcançar uma intuição das idéias ou das essências que formam a realidade ou que

constituem o Ser.

Para Platão, o primeiro exemplo do conhecimento puramente intelectual e

perfeito encontra-se na matemática, cujas idéias nada devem aos órgãos dos

sentidos e não se reduzem a meras opiniões subjetivas. O conhecimento

matemático seria a melhor preparação do pensamento para chegar à intuição

intelectual das idéias verdadeiras, que constituem a verdadeira realidade.

Platão diferencia e separa radicalmente duas formas de conhecimento: o

conhecimento sensível (crença e opinião) e o conhecimento intelectual

(raciocínio e intuição) afirmando que somente o segundo alcança o Ser e a

verdade. O conhecimento sensível alcança a mera aparência das coisas, o

conhecimento intelectual alcança a essência das coisas, as idéias.

Aristóteles distingue sete formas ou graus de conhecimento: sensação, percepção,imaginação, memória, raciocínio e intuição. Para ele, ao contrário de Platão,nosso conhecimento vai sendo formado e enriquecido por acumulação das

informações trazidas por todos os graus, de modo que, em lugar de uma ruptura

entre o conhecimento sensível e o intelectual, Aristóteles estabelece uma

continuidade entre eles.

A separação se dá entre os seis primeiros graus e o último, ou a intuição, que é puramente intelectual ou um ato do pensamento puro. Essa separação, porém,

não significa que os outros graus ofereçam conhecimentos ilusórios ou falsos e

sim que oferecem tipos de conhecimentos diferentes, que vão de um grau menor

a um grau maior de verdade.

Em cada um deles temos acesso a um aspecto do Ser ou da realidade e, na

intuição intelectual, temos o conhecimento pleno e total da realidade ou dos

princípios da realidade plena e total, aquilo que Aristóteles chamava de “o Ser

enquanto Ser”.

A diferença entre os seis primeiros graus e o último decorre da diferença do

objeto do conhecimento, isto é, os seis primeiros graus conhecem objetos que se

oferecem a nós na sensação, na imaginação, no raciocínio, enquanto o sétimo lida

com um objeto que só pode ser alcançado pelo pensamento puro.

Princípios gerais
Com os filósofos gregos, estabeleceram-se alguns princípios gerais do

conhecimento verdadeiro:



  • as fontes e as formas do conhecimento: sensação, percepção, imaginação,

memória, linguage m, raciocínio e intuição intelectual;

  • a distinção entre o conhecimento sensível e o conhecimento intelectual;

  • o papel da linguagem no conhecimento;

  • a diferença entre opinião e saber;

  • a diferença entre aparência e essência;

  • a definição dos princípios do pensamento verdadeiro (identidade, nãocontradição, terceiro excluído, causalidade), da forma do conhecimento

verdadeiro (idéias, conceitos e juízos) e dos procedimentos para alcançar o

conhecimento verdadeiro (indução, dedução, intuição);



  • a distinção dos campos do conhecimento verdadeiro, sistematizados por

Aristóteles em três ramos: teorético (referente aos seres que apenas podemos

contemplar ou observar, sem agir sobre eles ou neles interferir), prático

(referente às ações humanas: ética, política e economia) e técnico (referente à

fabricação e ao trabalho humano, que pode interferir no curso da Natureza, criar

instrumentos ou artefatos: medicina, artesanato, arquitetura, poesia, retórica,

etc.).


Para os gregos, a realidade é a Natureza e dela fazem parte os humanos e as

instituições humanas. Por sua participação na Natureza, os humanos podem

conhecê-la, pois são feitos dos mesmos elementos que ela e participam da mesma

inteligência que a habita e dirige.

O poeta alemão Goethe criou estes versos, que exprimem como os antigos

concebiam o conhecimento:


Se os olhos não fossem solares

Jamais o Sol nós veríamos;

Se em nós não estivesse a própria força divina,

Como o divino sentiríamos?

O intelecto humano conhece a inteligibilidade do mundo, alcança a racionalidade

do real e pode pensar a realidade porque nós e ela somos feitos da mesma



maneira, com os mesmos elementos e com a mesma inteligência.



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