Maria na iconografia bizantina: nomes, significados e teologia oriental



Baixar 444,95 Kb.
Encontro30.07.2018
Tamanho444,95 Kb.

MARIA NA ICONOGRAFIA BIZANTINA:

NOMES, SIGNIFICADOS E TEOLOGIA ORIENTAL



MARY IN THE ICONOGRAPHY BYZANTINE:

NAMES, MEANINGS AND EASTERN THEOLOGY

Paulo Augusto Tamanini1


João Manoel Sperandio2

Resumo: O presente artigo tem como objetivo pôr em relevo, o “lugar” de Maria, a Theotokos, na tradição iconográfica da Igreja oriental bizantina. Para tanto, busca-se aporte teórico em autores teólogos das duas tradições eclesiais, bizantina e latina e, como fontes, utilizam-se os tipos iconográficos marianos da tradição oriental do cristianismo.
Palavras-chaves: iconografia bizantina, Uspenski, Florensky.
Abstract: This research aims to highlight the “place” of Mary, the Theotokos the Byzantine iconographic tradition of the Eastern Church. For both be sought theoretical support in authors theologians of both ecclesial traditions, Byzantine and Latin and, as sources are used the iconographic types of Marian Eastern Christian tradition.
Keywords: Byzantine iconography, Uspenski, Florensky.
Introdução
Passados mais de 50 anos do Concílio Vaticano II, poucos ainda são os cristãos de tradição latina que conhecem as Igrejas bizantinas (ou Igrejas Orientais católicas e Ortodoxas), suas origens, estrutura hierárquica, liturgias etc.. Tal desconhecimento chega, em alguns casos, a produzir situações de estranhamentos, especialmente naqueles lugares onde as duas tradições precisam conviver mais proximamente e compartilhar territórios pastorais.

Constata-se, em geral, que uma das dúvidas mais frequentes diz respeito à veneração a Maria, Mãe de Deus. É comum que se surpreendam os cristãos latinos ao descobrir que os orientais nutrem por aquela a quem designam de Nossa Senhora, uma profunda proximidade e amor filial. Ademais, que “o amor à Mãe de Deus é a alma da piedade dos cristãos orientais, seu coração que dá calor e vivifica todo o corpo”, como diz o teólogo russo Sérgio Bulgakov (TONIOLO, 2003, p. 162). É bem verdade que a compreensão mariológica nestas tradições, particularmente a bizantina, foi se desenvolvendo de modo distinto do ambiente teológico da Igreja latina, e não provém tanto da reflexão teológica científica, propriamente dita, como da experiência vivida, sobretudo na liturgia e na devoção aos ícones.

Segundo Felmy, a fundamentação do ícone é cristológica (2002, p. 116). Com efeito, a afirmação dogmática sobre verdade do ícone é a encarnação do Verbo de Deus na pessoa divino-humana de Jesus de Nazaré. Nele, o Deus invisível se fez visível e habitou entre nós. Assumindo um corpo humano, restaurou a beleza divina na criação que, doravante, “alimenta a esperança de ser, ela também, liberta da escravidão da corrupção, para participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus” (Rm 8,20-22).

Numa época profundamente marcada pelo visual, é mister, adverte Uspenski, prestar mais atenção à vista, dirigir-se à contemplação da imagem (2013, p. 480). É imperioso aos cristãos tomar consciência do que representa para a fé cristã contemporânea o dogma da veneração dos ícones. A recuperação do sentido de seu conteúdo teológico será certamente um significativo passo em vista de uma maior aproximação entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Com efeito, frisa o iconógrafo que “esta via resulta tanto mais conveniente na medida em que, a apresentação através da imagem do mundo dos santos – o ícone – ocupa lá (nas Igrejas orientais) um lugar central (2013, p. 480).

Vale recordar, a propósito, parafraseando Florensky, que o “estilo” do ícone foi herança comum, compartilhada por toda a cristandade durante um milênio de sua história; tanto no Oriente como no Ocidente; não havia “outros estilos” (2010, p. 485). O reencontro, pois, com o ícone é regresso às origens do cristianismo, é reencontro com a plenitude da revelação cristã expressada através da palavra e da imagem.

Isto posto, torna-se objetivo deste artigo discorrer sobre o lugar de Maria nas Igrejas cristãs orientais de rito bizantino, sob o aspecto estreitamente relacionado à Iconografia mariana. Tal intento é justificado pelo entendimento de a iconografia estar intimamente associada à liturgia e à prática de fé dos cristãos orientais. O olhar volta-se então, para os principais ícones da Theotokos procurando, quanto possível, uma aproximação com o ambiente em que surgiram e a tradição mariana a que pertencem. O principal aporte teórico vem da teologia oriental de Leonid A. Uspenski, além de Pavel Florenski.



1 Maria na iconografia bizantina

Falar do culto de Maria entre os cristãos orientais, faz lembrar os incontáveis ícones marianos, presentes nas suas igrejas e nos seus lares. Desde que a iconografia começou a florescer, nos primeiros séculos da Igreja cristã, Maria ocupa um lugar só comparável ao de Cristo na fé eclesial do Oriente (Florenski, 2010, p. 328).

Isto porque na tradição e teologia cristã oriental, o ícone de Maria não é somente o ícone da Virgem, mas nele está inscrito e figurado o mistério da encarnação, a realidade da Igreja, a comunhão entre o humano e o divino. Ademais, é consenso afirmar entre os iconólogos que o cerne teológico, a razão de ser do ícone da Theotokos é deixar transparecer e enaltecer a maternidade divina, a encarnação; a Mãe de Deus, unida profundamente a seu Filho, mais que um instrumento passivo ou circunstancial na obra da redenção do homem, manifesta a dimensão humana da encarnação. Desse modo, Maria como a Mãe de Deus (Theotokos) – segundo a proclamação solene do II Concílio Ecumênico de Éfeso -, preside com Cristo o destino do mundo (USPENSKI, 2013, p. 59) e, como tal, sua imagem ocupa o primeiro lugar, depois da imagem de Cristo, na vida das Igrejas orientais, na fé eclesial que é expressada na piedade litúrgica, na arte sagrada, na literatura e no canto religioso.

No que diz respeito ao ícone como veículo para transmissão dos conteúdos da fé, observa ainda o teólogo espanhol Terriza:

Nos ícones da Mãe de Deus encontra-se exposta uma doutrina cristológica completa através da tipologia da Virgem e, sobretudo, do Menino Jesus. O caráter de atemporalidade do ícone permite expressar profundos conteúdos teológicos, fazendo-o depositário das verdades da fé. Expondo-o em termos acessíveis aos fiéis, suscita-lhes o assentimento intelectual, emocional e o afeto sensível, e move para o ideal ético que implica (1982, p. 573).
Na opinião do mesmo teólogo, “a iconografia, como expressão plástica da teologia, tem sempre em Maria sua essencial referência cristológica” (1982, p. 576). Todos os ícones marianos, direta ou indiretamente, expressam aspectos do mesmo e único mistério de Cristo, Verbo Encarnado, e da salvação operada por Ele. Deste modo, cristologia e soteriologia encontram-se, implícita ou explicitamente, na iconografia da Mãe do Redentor.

2 A devoção a Mãe de Deus: alguns começos, alguns nomes

Segundo uma antiga tradição, muito difundida entre os cristãos orientais, São Lucas, o Evangelista, teria sido o primeiro a iconografar a Mãe de Deus, ainda em vida, logo depois de Pentecostes. Uspenski sugere que o evangelista teria pintado três imagens: uma primeira do tipo denominado Eleousa, que em português é conhecida como a Virgem da Ternura; uma segunda, que corresponde ao tipo denominado Odighitria, ou seja, Aquela que indica o Caminho, a Condutora ou Guia; e uma terceira, a Virgem Orante, que representa a Virgem sem o seu Filho (2013, p. 59). Sobre a historicidade desta informação, o mesmo Uspenski pondera que os tipos iconográficos atribuídos à autoria “de São Lucas”, poderiam ser situados numa tradição a qual o apóstolo tivesse proporcionado estes protótipos, assumindo assim um caráter de autoridade apostólica, e não que o Evangelista, de próprio punho, as tivesse pintado. Esta tradição teria sido transmitida por meio de textos litúrgicos, em especial, os das festas dedicadas aos ícones da Virgem, além de outras vias (2013, p. 59)

O mesmo Uspenski faz referência a um texto atribuído a São João Damasceno, dirigido ao imperador Constantino Coprônimo, no qual menciona uma imagem da Virgem pintada por São Lucas. Contudo, a ciência historiográfica atual, segundo o autor, indica que esse texto é de autoria desconhecida e está composto de homilias diversas de São João Damasceno, São Jorge de Chipre e São João de Jerusalém (2013, pp. 60-61).

Outras fontes apontam que o mais antigo testemunho sobre a autoria lucana dos ícones da Mãe de Deus remonta ao século VI (em torno de 530). Tal testemunho é atribuído a Teodoro, o Leitor, um historiador bizantino, leitor na Catedral de Hagia Sofia de Constantinopla, citado séculos depois por Nicéforo Calixto em sua História Eclesiástica. Teodoro menciona o envio de Jerusalém a Constantinopla, no ano 450, de um ícone da Virgem do tipo Odighitria, atribuído a São Lucas. Esse ícone teria sido enviado pela imperatriz Eudóxia, esposa do imperador Teodósio II, a sua irmã Pulquéria (450).

A propósito, Clodovis Boff, em sua ‘Mariologia Social’, sublinha o importante papel que essa imperatriz teria exercido na promoção do culto a Maria na cidade de Constantinopla. Diz o autor que:

[...] Pulquéria parece ter sido uma promotora particularmente zelosa do culto mariano, [...] foi em 449 que ela deu início à construção de três santuários marianos mais célebres e mais queridos da piedade bizantina, os quais abrigarão os três símbolos (ícones) mais valiosos da cidade [...] Constantinopla foi a sede onde a Theotokos tomou os traços típicos de Senhora (Kyriótissa), de Imperatriz (Basílissa), de Vitoriosa (Nicopoia), de Socorro (Espískepsis) e de Dominadora do mundo (Pantanassa) (2006, pp. 135-136).


Desses três protótipos, uma variedade enorme de outros ícones da Mãe de Deus ganhou formas e apelativos em todo o Oriente cristão no culto de veneração à Theotokos. Esta quantidade imensa de ícones, no entanto, segundo Madre Maria DONADEO, reduz-se a alguns poucos “tipos iconográficos” desde que certo controle canônico passou a ser exercido pela Igreja por temor dos desvios heréticos (1997, p. 23).

3 Ícones Marianos: muitos nomes que apontam para o Cristo.

Para o propósito deste artigo considera-se suficiente apresentar as principais características dos três tipos iconográficos da Theotokos citados acima e que foram os que inspiraram, no decorrer dos séculos, uma infinidade de outras variantes, cuja classificação seria uma árdua, senão impossível tarefa. Essas, no ambiente cristão do Oriente como do Ocidente, foram ganhando traços e cores peculiares em determinadas culturas, regiões, costumes. A título de exemplo, no que diz respeito à variedade, só o calendário da Igreja Russa, onde a iconografia da Virgem está muito desenvolvida, menciona-se, segundo Uspenski, 260 tipos de ícones marianos sob 700 denominações diferentes (USPENSKI, 2013, p. 58, n. 17).

Dentre as características básicas comuns dos ícones marianos destacam-se: a) a virgindade da Mãe de Deus - antes, durante e depois do parto, que é representada por três pequenas estrelas: duas sobre os ombros e uma sobre a testa (frontal); e, b) as letras gregas que, desde Éfeso, Concílio que definiu o dogma da divina maternidade da Theotokos, passou a ser usado nos ícones da Virgem (MP ƟY), – abreviação de Η ΜΗΤΕΡΑ ΤΟΥ ΘΕΟΥ - “A Mãe de Deus”- recordam seu importante lugar na economia da salvação.

Em síntese, como observa Uspenski (2013, p. 58), os ícones da Virgem se distinguem daqueles dos demais santos e anjos, tanto pela variedade da sua tipologia iconográfica quanto pela densidade teológica.



3.1 A Mãe de Deus Odighitria, (ou Condutora)




Figura 1: A Virgem Hodighitria e o Menino Séc. XIV
(têmpera sobre madeira; 42,2 x 44,5 cm)
Igreja São Nicolau, Prizren, Kosovo, Sérvia (reprodução
).
Literalmente, Odighitria significa “aquela que indica o caminho” ou a “Condutora”. Provém do verbo grego “hodegeo”, daí o substantivo “Odighitria”. Designa aquele ou aquela que guia pessoalmente alguém pelo caminho, ou que vai acompanhando alguém por um itinerário.

Nesse ícone, a Virgem e o Menino são representados frontalmente, voltados para quem o contemplam. Trata-se de uma imagem, hierática e majestosa que põe em evidência a divindade do Menino. Evdokimov, referindo-se aos tipos iconográficos em que a Mãe de Deus é representada com o Menino, indica que o que se contempla na imagem, mais que as figuras da Mãe de Deus e do Divino Infante, é o evento da encarnação, ou seja, enquanto expressam no humano a face misteriosa do Pai. (1986, p. 18).

Conforme a tradição bizantina, a origem desse ícone teria sido uma cópia da famosa Achiropita, atribuída a São Lucas. É a imagem mais presente na iconografia bizantina e representa o dogma cristológico. Era venerada, segundo Clodovis Boff, no terceiro santuário mariano de Constantinopla construído pela imperatriz Pulquéria, a Igreja da Santa Theotokos. Clodovis Boff faz notar ainda que, originariamente, o nome Odighitria estava associado ao santuário constantinopolitano dito “dos guias” (hodigoi), ou seja, os monges do santuário que conduziam os peregrinos cegos (2006, p. p. 137), daí o epíteto de Odighitria, ou Condutora.

De pé, Maria tem o olhar expressivo, voltado para frente; sustenta o Menino em seu braço esquerdo e, com a direita, indica aos fiéis o divino Infante como o Caminho a seguir, o Caminho da salvação e da vida. Por sua vez, o Menino porta em suas mãos um pergaminho no qual se lê o versículo do Evangelho de João (14, 6-14), onde Jesus afirma: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. O Menino tem caráter deífico, como na Virgem Majestática, e abençoa com a mão direita.

Sobre as cores mais presentes nesse ícone, o significado é profundamente teológico: o manto de cor púrpura que envolve a Virgem simboliza a realeza; o branco e o laranja das vestes do Menino são símbolo da pureza, da luz tabórica (da Transfiguração); a cor laranja representa ainda a verdade, o fogo do Espírito Santo.

Esse tipo iconográfico inspirou um incontável número de ícones, dentre os quais: Virgem do Akathistos de Zografu, em Monte Athos; Árvore de Jessé; Consolo nos Pesares e Tristezas, em Constantinopla; Czestochowska, a Madona Negra da Polônia; Damascena (a Virgem das três mãos), em Damasco; Firmamento Bendito, Moscou; Flor Imarcescível; Virgem da Paixão (ou do Perpétuo Socorro, na Igreja latina), Roma; Intercessora dos Pecadores, Rússia; Iviron / Portaítisa, Monte Athos, Grécia; Virgem de Getsemani, Jerusalém; Virgem de Kazan, Rússia; Virgem de Nicopédia, Constantinopla; Odighitria de Smolensk; Sarsa Ardente, entre outros.



3.2 Mãe de Deus Eleousa (ou da Ternura)



Figura 2: Virgem de Eleousa. Museu Etnográfico dos povos da URSS, Leningrado,


Rússia, 1941 (reprodução) – Fonte: acervo do autor
Eleusa ou Eleousa (do grego: Ἐλεούσα – “terna” ou “misericordiosa”) é uma representação iconográfica da Theotokos na qual o Menino Jesus é representado confortavelmente aninhado sob seu rosto. Expressa uma carícia mútua entre Mãe e Filho, revelando um sentimento humano natural de ternura e amor maternais. Maria, que sustenta o Menino em seus braços, por sua vez, abraça-o afetuosamente numa expressão de doce intimidade. Os gestos do Menino são diferentes dos da Virgem Mãe Odighitria: com sua mão direita acaricia a face materna, e com a esquerda, aperta a borda de seu manto. Os aspectos da humanidade do Menino-Deus recebem, nesse ícone, especial acento, como lembra o teólogo Terriza:

[...] A cena mostra a estreita relação entre ambos, o forte vínculo que os une como mãe e filho. Esta imagem nos lembra cenas da vida real: com expressões intimista e descontraída, Jesus interage com sua Mãe, pondo a mão em seus cabelos ou em seu decote. As vezes expressam estar em íntimo colóquio, aproximam seus rostos ou cruzam seus olhares. Em Bizâncio, recebe um nome muito expressivo: o de Glycophilousa, a doce amante (1982, p. p. 580).


De pé ou sentada, aflora o sentimento amoroso materno-filial, não apenas entre Maria e Jesus, como entre Maria e os que a contemplam nessa imagem, convidando com o olhar a participar daquela comunicação afável. O amor materno que ela infunde no mistério da redenção torna próximo e acessível ao homem o amor do Pai.

Madre Donadeo (1996, p. 93) faz observar que entre os ícones gregos deste grupo, alguns trazem escrito Glykofilússa que, às vezes, traduz-se como Beijo Doce, uma vez que a expressão de ternura entre a Mãe e o Filho é ainda mais acentuada.

Referindo-se ao ícone da Virgem de Vladimir, uma de suas principais variantes, Evdokimov aponta que os aspectos de sua beleza o levam a ver nele certas semelhanças com o da Trindade de Andrey Rublev, obra-prima da iconografia russa. Diz o teólogo que:
A ternura materna emanada do culto da Theotokos imprime no humanismo cristão um traço muito particular de doçura e explica a origem da sensibilidade feminina dos grandes místicos. Basta olhar o ícone de Nossa Senhora de Wladimir (séc. XII) para compreender a contribuição da feminilidade arquetípica ao sentido religioso. Nenhuma conotação sensual ou adocicada, nenhum sentimentalismo, mas talvez o rosto humano religioso mais perfeito, cujo olhar se assemelha ao olhar do Pai no ícone da Trindade de Rublev. O ícone e a liturgia, em sua própria linguagem, ensinam que a paternidade divina corresponde à maternidade humana (1986, p. 181)

Na Igreja latina, este ícone da Mãe de Deus Eleoussa é mais conhecido como a “Virgem da Ternura”. Alguns de seus traços particulares podem dar lugar a uma infinidade de variantes iconográficas, sempre relacionadas aos milagres, santuários, regiões etc., dentre as quais destacam-se: a Galaktotrophousa, mais conhecida no Ocidente como Virgo Lactans, Virgem de Belém; Virgem de Vladimir, na Rússia; do Akathistos, Áxion Estín e Consolação de Vatopedí, dentre as muitas que são veneradas no Monte Athos, na Grécia; Acalma Minha Tristeza, Moscou; Degtiariovka, em Nóvgorod, Rússia; Kásperova, Ucrânia; Kórsuñ, Éfeso; Lévish, Sérvia; Pocháyev, Ucrânia; Ventre Bem-aventurado, em Bári, Itália, entre outras inúmeras denominações espalhadas por todo o mundo cristão, tanto no Oriente como no Ocidente.



3.3 A Virgem Orante

A Orante representa a Virgem de pé, ao lado de Cristo (Deéisis), ou com as mãos erguidas e com o Menino em seu seio, enquadrado por um círculo (Platytera).

Uspenski (2013, p. 59) referindo-se àquela primeira forma de representação, observa que “a informação sobre este ícone é confusa e apresenta certos traços do ícone da Déesis, isto é, a Virgem em oração, dirigindo-se a Cristo”. Trata-se da Mãe de Deus, porém, a ausência do Menino, as mãos elevadas em gesto de oração e toda a postura do corpo, aproximam, até certo ponto, da denominação “Muro Indestrutível”, figura da Orante dos antigos iconógrafos cristãos, ou seja, a Igreja.

Com o título Muro Indestrutível, Maria é a representação monumental da Igreja” (FLORENSKY, 2010, p. 341). Símbolo e personificação da Igreja orante, este ícone está habitualmente situado na calota da abside dos templos orientais bizantinos. Nela Maria aparece erguendo suas mãos em oração, desde o recinto do altar até o alto da principal cúpula onde domina o Pantokrátor. Esta referência escatológica está frequentemente presente no fundo da poesia hinográfica das igrejas orientais.



Para o teólogo ortodoxo Evdokimov, “a virgem Panaghia Orante representa o templo, a porta do Reino e seu epitálamo (1986, p. 309). O mesmo autor diz valer-se desta figura em sua antropologia litúrgica ou doxológica, tema preferido na iconografia, relacionando-a com a alma humana. E revela-nos porque:
Nas catacumbas, a imagem mais frequente é a figura da mulher em oração, a “Orante”; representa a única atitude verdadeira da alma humana. Não basta ter a oração, é preciso tornar-se, ser oração, construir-se em forma de oração, transformar o mundo em templo de adoração, em liturgia cósmica (EVDOKIMOV, 1986, p. 89)
A Virgem Orante, completa o autor, “ouve o canto de seu próprio mistério, é toda natividade, mistério do destino, ‘não cessa de gerar o Verbo’” (1986, p. 294). Chama especial atenção a mais solene variação desta tipologia que tomou a tão conhecida denominação de Virgem do Sinal.




Figura 3: Virgem Orante ou Platytera - Monastério de Santa Catarina
de Alexandria, Monte Sinai, Egito, s.d. (reprodução)
Fonte: acervo do autor
.
Essa tipologia, com efeito, como descreve a iconógrafa Giovanna Parravicini,
[...] representa a Igreja, que acolhe em si o Verbo encarnado e o revela à humanidade. A tal solenidade alude a presença dos serafins, representados nas laterais, que representam as fileiras angélicas diante da divindade. Representada frontalmente, a Virgem eleva as mãos em gesto de oração, de súplica, e mostra no peito a efígie de Cristo-Emanuel, isto é, não o Jesus dos Evangelhos, mas o Logos preexistente no tempo e na história, anunciado pelos profetas: “O Senhor vos dará um sinal. Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um filho, que será chamado Emanuel, Deus-conosco”. Os braços e a orla do manto da Mãe de Deus delineiam, idealmente, os contornos de um cálice, no qual Cristo se oferece em sacrifício pela salvação da humanidade. Os traços do rosto do Emanuel não são os de um menino, mas os de um homem adulto e real: também os gestos das mãos (a bênção que dá com a direita e o rolo da lei que empunha com a esquerda) acentuam sua divino-humanidade (2008, p. 38)
Nesse ícone da Virgem Orante materializa-se um dos principais aspectos do conteúdo da fé celebrada nas Igrejas orientais: Maria é a grande mediadora e intercessora de todos os cristãos junto ao Criador de todo o universo.

Com efeito, em qualquer dos três protótipos iconográficos, como a Odighitria - “a que indica o Caminho” - a “Condutora”; como Eleoussa – a Mãe de “Ternura e Misericórdia”; ou como a Orante, que intercede e suplica incessantemente por seus filhos junto a Deus, Maria é a Theotokos, a única Mãe de Jesus Cristo, Deus verdadeiro e Homem verdadeiro, mesmo quando, em alguns, sua divindade aparece mais acentuada, e em outros, a sua humanidade.

Com efeito, Maria de Nazaré, a mesma representada iconograficamente como a Orante, foi a que inspirou, ao longo dos séculos, as almas de seus fiéis devotos em todo o mundo e de iconógrafos a se dirigirem a ela como: Virgem de Abalak; Auxiliadora, de Azov; Cálice Inesgotável; Em Ti se Regozija; Grande Panaghia; de Kursk; da Raiz; Muro Indestrutível, do Sinal; Platytera; de Todos os Enfermos, entre outros tantos.

Considerações finais

Levando-se em conta o que foi observado, é possível reconhecer o que alguns estudiosos denominam de “uma certa omnipresença de Maria” na tradição iconográfica das Igrejas orientais bizantinas, sempre e organicamente associada à celebração do mistério de Cristo - sua norma e critério.

A veneração à Maria através dos ícones bizantinos e seu culto expressam a experiência cristã oriental de uma fé.

Na Iconografia, Maria refulge como a Elleousa - Mãe de Ternura -, a Orante – intercessora, suplicante -, e a verdadeira Odighitria, aquela que indica Caminho e guia seus filhos enquanto peregrinam nesta existência rumo ao futuro escatológico. Neste tópico procurou-se mostrar que estes três tipos iconográficos inspiraram uma vasta e rica variedade de modelos iconográficos marianos, com títulos e apelativos que os vinculam a diferentes tradições, culturas, povoando os calendários de festas locais, santuários e as casas de seus devotos.

Conclui-se, pois, tendo a impressão de ter conseguido apenas uma aproximação superficial da inexaurível riqueza da qual se reveste a Iconografia bizantina das Igrejas orientais. Tudo o que foi dito não representa mais que um pálido reflexo do esplendor do culto prestado à Santíssima Virgem, cuja presença insubstituível na vida eclesial do Oriente bizantino, é parte integrante do patrimônio espiritual destes povos.
Referências:
BOFF, Clodovis M. Mariologia Social: o Significado da Virgem para a Sociedade. São Paulo: Paulus, 2006.

DONADEO, Ir. Maria. Ícones da Mãe de Deus. São Paulo: Paulinas, 1997.

DONADEO, Ir. Maria. Os Ícones: Imagens do Invisível. São Paulo: Paulinas, 1996.

EVDOKIMOV, Paul. A Mulher e a salvação do mundo. São Paulo: Ed. Paulinas, 1986.

EVDOKIMOV, Paul. O Silêncio Amoroso de Deus. Aparecida-SP: Santuário, 2010.

FELMY, Karl Christian. Teología Ortodoxa Actual. Salamanca: Sígueme, 2002.

FLORENSKY, Pável. La Columna y el Fundamento de la Verdad: Ensayo de teodicea ortodoxa en doce cartas. Salamanca (Espanha): Sígueme, 2010.

PARRAVICINI, Giovanna (Org.). A Vida de Maria em Ícones. São Paulo: Loyola, 2008.

TERRIZA, Manuel Jesus C. Aspectos cristológicos en la iconografía de la Theotokos. In: MATEO-SECO, Lucas F.. Cristo, Hijo de Dios y Redentor del hombre. Pamplona: Universidade de Navarra, 1982.

TONIOLO, Ermanno M., et al. La Fede della Vergine Theotokos secondo la Liturgia Bizantina. In: Contemplare Maria attraverso l'immagine. Oriente e Occidente, pp. 162-187. Roma: Centro di Cultura Mariana, 2003.



USPENSKI, Leonid A. Teología del Icono. Salamanca: Ed. Sigueme, 2013.

1 Pós-Doutorando em História. Professor Bolsista PNPD-CAPES no Programa de Pós-Graduação em História, na Universidade Federal do Paraná. Suas pesquisas versam sobre a História Medieval, Império Bizantino e Iconografia Bizantina. tamanini@terra.com.br

2 Graduado em Teologia pelo Centro Universitário Católica de Santa Catarina. joaomanoel@sperandio.co




©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal