Maria Lúcia de Arruda Aranha Maria Helena Pires Martins



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Maria Lúcia de Arruda Aranha

Maria Helena Pires Martins


TEMAS DE FILOSOFIA - Edit. Moderna

Cap. 1

A condição humana



Quando eu era pequena e meu pai queria incentivar algum comportamento de coragem e enfrentamento de situações difíceis, costumava dizer em tom de brincadeira: "Seja homem, minha filha!". Na verdade, ele sabia que, embora na sociedade machista o papel da coragem estivesse reservado ao sexo masculino, as mulheres também deviam aprender a ser fortes. Dessa forma, meu pai se referia a um atributo louvável do ser humano, o de ser capaz de enfrentar as dificuldades apesar do medo, e ao mesmo tempo criticava as concepções tradicionais de feminilidade que desculpam e reforçam a "fraqueza" da mulher.

1. Os pressupostos teóricos.
É comum as pessoas pensarem que uma provável "natureza" da mulher ou do homem seria determinante do comportamento. A epígrafe do capítulo descreve uma situação em que são questionados os papéis tradicionalmente atribuídos ao homem e à mulher. A propósito disso, se observarmos a história da humanidade, constataremos que as noções de feminilidade e de virilidade têm fortes componentes culturais e portanto mudam de acordo com o tempo e o lugar.

O mesmo ocorre se indagarmos a respeito do que é o ser humano em geral. Esse conceito se encontra permeado de concepções subjacentes, nem sempre claramente explicitadas e que, recebidas pela herança cultural, representam de início um saber não-crítico, que não passou pelo crivo da reflexão. Por isso mesmo se tomam, às vezes, noções inquestionáveis, como se fossem verdades imutáveis.

Se prestarmos atenção, para cada concepção não-refletida existem pressupostos teóricos que precisariam ser examinados. Quando fazemos a pergunta fundamental o que é o ser humano?, as pessoas respondem de diferentes maneiras. Vejamos alguns exemplos:

- Aquele lá? Não é gente, mais parece um bicho! (Pressupõe que se saiba fazer a distinção entre o ser humano e o animal.)

- Desde que o ser humano existe, há pobres e ricos. Por que haveria de mudar? (Pressupõe que a natureza humana é imutável, prevalece também uma concepção estática da história humana.)

- O que seria de mim sem a graça de Deus? (Nessa frase, de cunho religioso, a humanidade é explicada pelo divino: o ser humano nada é sem a fé.)

- Eu uso a cabeça e não me deixo arrastar pelas paixões. (Pressupõe que o ser humano é por excelência racional e que as paixões são fraquezas que o desviam de um caminho tido como correto.)

- De que adianta a vida se não houver futebol e carnaval? (O ser humano é não apenas racional, mas sobretudo um ser de desejo: o prazer é fundamental.)

- Não adianta lutar contra o destino. O que tem de ser, será. (O ser humano não é livre, mas predestinado.)

- A ocasião faz o ladrão. (A natureza humana é má, sempre tende para o mal.)

Com esses exemplos, percebemos várias concepções subjacentes à condição humana.

A nossa intenção, neste capítulo, é justamente refletir sobre os pressupostos teóricos dessas noções. Comecemos por distinguir o ser humano dos animais.


2. O mundo natural
Os animais vivem em harmonia com sua própria natureza porque os instintos animais são regidos por leis biológicas, o que torna possível prever as reações típicas de cada espécie. A ciência que se ocupa do estudo comparado do comportamento dos animais, indicando a sua regularidade, chama-se etologia.

Embora todo animal aja de acordo com as características da sua espécie quando se acasala, protege a cria, caça e se defende, é verdade que existem grandes diferenças entre os animais conforme o lugar ocupado na escala zoológica: enquanto a abelha constrói a colméia e prepara o mel segundo os padrões rígidos das ações instintivas, um animal superior, como o mamífero, além de agir por instinto, desenvolve outros comportamentos mais flexíveis, e portanto menos previsíveis.

Os animais superiores são capazes de encontrar soluções criativas porque fazem uso da inteligência. Um macaco mobilizado pelo instinto da fome, ao encontrar a fruta fora do alcance da mão, enfrenta uma situação problemática, resolvida apenas com a capacidade de se adaptar às novidades mediante recursos de improvisação. Também o cachorro faz uso da inteligência quando aprende a obedecer ordens do seu dono e enfrenta desafios para realizar certas tarefas, como buscar a presa em uma caçada.

A inteligência animal, porém, é concreta, porque se acha presa à experiência vivida naquele momento. Por exemplo, quando o macaco utiliza um bambu para alcançar a fruta, esse esforço não é aperfeiçoado posteriormente, como acontece no processo cultural humano.



Recentemente, pesquisas realizadas no campo da etologia têm mostrado que alguns tipos de chimpanzés conseguem fazer utensílios e são capazes também de criar organizações sociais baseadas em formas mais elaboradas de comunicação.As conclusões dessas pesquisas tendem a atenuar a excessiva rigidez das concepções distinção entre instinto e inteligência e entre inteligência animal e humana. Apesar disso, essas habilidades servem apenas para melhor adaptar o animal ao mundo natural, sem no entanto ultrapassá-lo, experiência essa exclusiva da aventura humana.
3. Tornar-se humano
Diferentemente dos animais, cujos atos são sempre os mesmos para cada indivíduo da espécie a que pertencem, não mudando ao longo do tempo, nós desenvolvemos comportamentos diversificados e precisamos da educação para nos tornamos propriamente humanos. Muitos são os exemplos dados por antropólogos e psicólogos sobre crianças que, ao crescerem longe do contato com seus semelhantes, permanecem como se fossem animais.

Na Alemanha, no século passado, foi encontrado um rapaz que crescera totalmente isolado. Kaspar Hauser, como ficou conhecido, permaneceu escondido por razões nunca esclarecidas. Como ninguém o ensinara a falar, só se humaniza ao se iniciar o processo de sua educação, quando ficou constatada uma excepcional inteligência, até então obscurecida pelo abandono a que fora relegado.

O caso da americana Helen Keller é similar, embora as circunstâncias tenham sido diferentes. Nascida cega, surda e muda, mesmo vivendo entre seus familiares, a menina permaneceu até os sete anos de idade como um pequeno bicho. Foi por meio do esforço da professora Anne Sullivan, ao lhe tornar possível a compreensão dos símbolos, que Helen Keller pôde ser introduzida no mundo propriamente humano.

Esses casos extremos servem para ilustrar o processo comum pelo qual cada criança recebe a herança cultural, sempre mediada pelos outros, com os quais aprende os símbolos que a tornam capaz de agir e compreender a própria experiência.

Portanto, o processo que possibilita o desenvolvimento da individualidade se encontra em íntima relação com a socialização, pela qual o ser humano se apropria dos resultados da experiência histórica da sociedade em que nasceu.


4. A cultura
D
“A cultura é o processo pelo qual o homem acumula as experiências que vai sendo capaz de realizar, discerne entre elas, fixa as de efeito favorável e, como resultado da ação exercida, converte em idéias as imagens e lembranças, a princípio coladas às realidades sensíveis, e depois generalizadas, desse contato inventivo com o mundo natural.” (VIEIRA PINTO, Álvaro Ciência e existência, p. 123)

izíamos que o comportamento animal é regido pelo instinto e que nos níveis superiores da escala zoológica as ações são mais elaboradas graças à inteligência concreta. No caso do ser humano, é sua inteligência abstrata que lhe permite ir além na intervenção sobre o mundo: só o ser humano é transformador da natureza, e o resultado dessa transformação se chama cultura.
A produção de cultura requer a linguagem simbólica, que faz uso de signos como as palavras, os números, as notas musicais. Os símbolos são invenções por meio das quais o ser humano lida abstratamente com o mundo circundante. Depois de criados e aceitos por todo o grupo, como convenção, possibilitam o diálogo e o entendimento do discurso do outro.

Os símbolos permitem o distanciamento do mundo concreto e a elaboração de idéias abstratas: com o signo "casa", por exemplo, designamos não só determinada casa, mas qualquer casa. A linguagem simbólica permite representar o mundo, tornar presente aquilo que está ausente. Além disso, nos introduz no tempo, porque permite relembrar o passado e antecipar o futuro pelo pensa- mento. Desta forma a linguagem simbólica nos faz presentes no mundo.

A
Chamamos trabalho humano a ação dirigida por finalidades conscientes e pela qual nos tornamos capazes de transformar a nós mesmos e a realidade em que vivemos.

linguagem simbólica possibilita o desenvolvimento da técnica e, portanto, do trabalho, como forma sempre renovada de intervenção na natureza. Ao reproduzir as técnicas já utilizadas pelos ancestrais e ao inventar outras novas, o ser humano trabalha, transformando não só a natureza como seu próprio ser.
A linguagem simbólica e o trabalho constituem, assim, os parâmetros mais importantes para distinguir o ser humano dos animais.
5. Tradição e ruptura
Vamos, agora, reforçar algumas características desse "estar no mundo" tão típico do ser humano.

Segundo o relato bíblico, após o pecado original, o ser humano foi "expulso do paraíso" e obrigado a sobreviver pelo suor do seu rosto, pelo trabalho. Essa metáfora ilustra o momento em que ele deixa de se relacionar com a natureza da mesma forma que os animais. A consciência de si próprio o orienta, por exemplo, para o controle autônomo de sua sexualidade e de sua agressividade.

É bem verdade que nas sociedades tribais essas regras estão submetidas, de início, às normas externas da coletividade e só muito posteriormente são assumidas pelo próprio indivíduo. O comportamento humano, cada vez mais distanciado do mundo natural, passa a ser regulado pelo mito, pela religião, pela ética, pela estética. Isso significa que os atos dos seres humanos são sempre avaliados e podem ser considerados como sagrados ou profanos, pecaminosos ou abençoados pela divindade, bons ou maus, belos ou não, e as- sim por diante.

Essa análise é válida para qualquer ação humana: andar, dormir, alimentar-se não são atividades puramente naturais, pois estão marcadas pelas soluções culturais e, posteriormente, pela crítica que o homem faz à cultura. Por exemplo, certos povos se abstêm de comer carne de porco, outros consideram a vaca sagrada. Alguns grupos condenam a exposição da maior parte do seu corpo, enquanto outros defendem a expansão dos campos de nudismo. Nem mesmo a sexualidade pode ser considerada "natural": o erotismo assume formas diversas de acordo com as normas estabelecidas pelo grupo social, ou ainda conforme o rompimento de regras consideradas antiquadas ou inadequadas.

Ao definir o trabalho humano, assinalamos um binômio inseparável: o pensar e o agir. Toda ação humana procede do pensamento, e todo pensamento é construído a partir da ação. A capacidade de alterar a natureza por meio da ação consciente torna a condição humana muito específica, por estar marcada pelo ambíguo e pelo instável.

O mundo humano é de ambigüidade porque, enquanto os animais são acomodados ao mundo natural e, portanto, sempre idênticos a si mesmos, o ser humano, ao contrário, sendo em parte o que sua cultura quer que ele seja, é capaz ainda de romper com a tradição.

Em outras palavras, sociedade surge pela capacidade humana de criar interdições, isto é, proibições, normas que definem o que pode e o que não deve ser feito. No entanto, existe sempre a possibilidade da transgressão. Transgredir é desobedecer. Não nos referimos apenas à desobediência comum - pela qual descumprimos normas consideradas válidas - mas àquela transgressão que rejeita as fórmulas antigas e ultrapassadas para instaurar outras, mais adequadas a atender os novos problemas colocados pelo existir.

A capacidade inventiva do ser humano tende a desalojá-lo do "já feito", em busca daquilo que “ainda não é”. Portanto, é um ser da ambigüidade em constante busca de si mesmo. Dessa forma, é também um ser histórico, capaz de compreender o passado e projetar o futuro. Saber aliar tradição e mudança, continuidade e ruptura, interdição e transgressão é um desafio constante enfrentado na construção de uma sociedade melhor.


6. Concepções antropológicas
Na sua longa caminhada, o ser humano construiu as mais diversas representações de sj próprio, de acordo com as situações e dificuldades enfrentadas na luta pela sobrevivência e na tentativa de explicar o mundo que o cerca. Mesmo sem estar claramente explicitado, um conceito de humanidade subjaz em cada forma de agir.

A questão antropológica - o que é o ser humano? - é a primeira que se coloca em qualquer situação vivida. Tal prioridade, porém, não diz respeito à antecedência desse questionamento no tempo, porque essa pergunta não é formulada antes de qualquer ação e pensamento, conforme já vimos no início do capítulo. A prioridade da questão antropológica se encontra no sentido filosófico de princípio, fundamento. Ou seja, ao examinar a fundo qualquer teoria ou atividade humana, podemos encontrar a idéia de humanidade a ela subjacente.




Antropologia (do grego anthropos:homem e logos: teoria, ciência).

Antropologia científica: ciência que estuda as diferentes culturas quanto aos mais diversos aspectos (relações familiares, estruturas de poder, costumes, tradições, linguagem etc.); engloba a etnografia e a etnologia.

Antropologia filosófica: questionamento filosófico a respeito do que é o ser humano; investigação a propósito do conceito que o ser humano faz de si próprio.

Certamente, esse conceito de humanidade varia conforme a cultura, caso consideremos, por exemplo, o cidadão da pólis grega, o nobre medieval, o índio ou o indivíduo das megalópoles modernas.

Por exemplo, nas sociedades tribais, ou ainda nas culturas tradicionalistas da Antiguidade, como o Egito e a China, essa indagação não chega a ser problemática, já que a tradição define os modelos de idéias e condutas a serem transmitidos pelos depositários do saber, sejam eles o xamã, o sacerdote, o escriba ou o mandarim.

Quando a cultura sofre crises, com a ruptura de antigas certezas, o questionamento obriga as pessoas a buscarem novas representações de si mesmas. Foi o que aconteceu, por exemplo, na Grécia, onde após uma série de transformações, tais como o aparecimento das cidades e o incremento do comércio, a reflexão filosófica entra em choque com a tradição mítica. A busca filosófica, resultante da incerteza, expressa-se bem nas máximas de Sócrates "Só sei que nada sei" e "Conhece-te a ti mesmo", que, em última análise, representam o projeto da razão nascente de estabelecer critérios não-religiosos para o conhecimento.

Outro exemplo: as transformações das ciências também contribuem para modificar essas representações. Basta refletir sobre o impacto causado pela teoria heliocêntrica de Copérnico, que, no século XVI, rompeu com o geocentrismo. Não foi fácil rever a crença de que a Terra - e nela o ser humano - ocupava o lugar privilegiado de centro do Universo.

Dentre as muitas inovações técnicas, vale lembrar o que significou o advento da escrita, ao separar a pré-história do início da história humana; da imprensa, que possibilitou a ampliação do acesso à cultura; ou, no nosso século, o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa, que difundem a informação com velocidade inigualável, encurtando distâncias entre os povos.

Assim como compreendemos as diversas concepções de ser humano conforme as mudanças ocorridas na história, também é importante entender como, por sua vez, essas concepções influenciam outras formas de pensamento. Ou seja, é preciso explicitar com cuidado a antropologia filosófica que se acha subjacente à política, à pedagogia, à moral. O êxito de uma prática pedagógica, por exemplo, depende em grande parte da definição do tipo de ser humano que se quer educar. E essa prática há de variar, assumindo características diferentes, conforme tenha por pressuposto uma ou outra concepção de humanidade.

Se partirmos das teorias estóico-cristãs de ética, para as quais as paixões são distúrbios, perturbações da alma, o pedagogo haverá de exigir normas de comportamento que visem coibir as expressões passionais. Diferente é o ponto de vista das teorias que concebem as paixões como forças vitais a serviço da humanização, tais como a filosofia de Nietzsche. Nesse caso, a subjugação dos instintos significa fraqueza e impotência.


7. Existe uma natureza humana universal?
A questão sobre o que é o ser humano tem preocupado os filósofos desde tempos remotos. Vamos destacar aqui duas tendências opostas. Uma que admite existir uma natureza humana universal, idêntica na sua essência em todos os tempos e lugares, explicando as diferenças como acidentes ou desvios a serem corrigidos. Outra tendência, mais recente no tempo, faz a crítica daquela concepção tradicional.

A tradição ocidental

Grande parte das teorias filosóficas, surgidas já na Antiguidade grega e ainda presentes em nossos dias, defende a concepção metafísica da natureza humana.

Para Platão (427-347 a.C.), a verdadeira realidade se encontra no mundo das Idéias, lugar da essência imutável de todas as coisas. Todos os seres, inclusive os humanos, são apenas cópias imperfeitas de tais arquétipos, e se aperfeiçoam à medida que se aproximam do modelo ideal.

Para Aristóteles (385-322 a.C.), o ser é constituído de matéria e forma, e as transformações são explicadas pelo argumento de que todo ser tende a tornar atual a forma que tem em potência. Por exemplo, a semente quando enterrada tende a se transformar no carvalho que era em potência. Quando se transpõe essa idéia para os seres humanos, conclui-se que também eles têm formas em potência a serem atualizadas, ou seja, a sua natureza essencial se realiza aos poucos, em direção ao pleno desenvolvimento. Tanto para Platão como para Aristóteles, a plenitude humana coincide com o aperfeiçoamento da razão.

Se examinarmos as teorias da educação, ainda hoje vigentes, que explicam a aprendizagem como o desenvolvimento das "potencialidades do indivíduo", descobrimos o pressuposto de um modelo de ser humano a ser alcançado. Chamamos essencialista ao tipo de pedagogia que coloca como função da educação realizar o que o ser humano deve vir-a-ser.
Crítica às concepções essencialistas
A concepção essencialista da natureza humana percorre toda a tradição filosófica do mundo ocidental, com algumas tentativas esparsas de crítica à concepção abstrata de modelo.

No século XIX, o pensador alemão Karl Marx rejeita explicitamente a concepção de uma natureza humana universal. Para ele, somos seres práticos e nos definimos pela produção e pelo trabalho coletivo, o que significa não haver, de um lado, a essência e, de outro, a existência humana, nem seres dotados de uma essência comum em todos os tempos. Reunidas na esfera das relações sociais, as pessoas criam valores e definem objetivos de vida a partir dos desafios encontrados nas atividades pelas quais produzem sua própria existência. Portanto, são as condições econômicas que definem os modelos sociais em circunstâncias determinadas. Nesse sentido, Marx critica o caráter a-histórico e abstrato das concepções metafísicas, recusando-se a definir ser humano "em si" abstratamente, para compreendê-lo como ser humano real que existe em determinado contexto histórico-social.

Ainda no século XIX, outros pensadores se posicionam contra a concepção essencialista tradicional. Kierkegaard, Stirner, Nietzsche refletem a respeito da concretude da vida humana na realidade cotidiana. A fenomenologia, corrente filosófica fundada por Husserl, também se encaminha nessa direção, influenciando no século XX filósofos como Max Scheler, Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty, entre outros.

Para Sartre, principal representante do existencialismo francês, só as coisas e os animais são "em si", isto é, teriam uma essência. O ser humano, dotado de consciência, é um "ser-para-si", ou seja, é também consciência de si. Isso significa que é um ser aberto à possibilidade de construir ele próprio sua existência. Nesse sentido, é possível falar da essência de uma mesa (aquilo que faz com que uma mesa seja mesa) ou da essência do animal (afinal, todos os leões têm as características próprias de sua espécie), mas não se pode falar de uma natureza humana encontrada igualmente em todos, pois "o ser humano não é mais que o que ele faz".


8. Conclusão
Neste capítulo procuramos mostrar que o tema de toda antropologia filosófica está baseado na reflexão sobre o ser humano, a partir do"conhece-te a ti mesmo", no esforço que ele faz para chegar a compreender-se.

Se em um primeiro estágio essa reflexão se encontra ainda presa ao vivido, a intenção da antropologia filosófica é ultrapassar a experiência imediata da vida e teorizar de forma crítica sobre o ser humano em geral. Não no sentido de encontrar um modelo válido em todo tempo e lugar, mas na tentativa de compreender, em cada contexto histórico-social vivido, quais são os projetos possíveis de humanização.




LEITURA COMPLEMENTAR



[A existência precede a essência]*
Quando concebemos um Deus criador, esse Deus identificamo-lo quase sempre com um artífice superior; e qualquer que seja a doutrina que consideremos, trate-se duma doutrina como a de Descartes ou a de Leibniz, admitimos sempre que a vontade segue mais ou menos a inteligência ou pelo menos a acompanha, e que Deus, quando cria, sabe perfeitamente o que cria. Assim o conceito do homem, no espírito de Deus, é assimilável ao conceito de um corta-papel no espírito do industrial; e Deus produz o homem segundo técnicas e uma concepção, exatamente como o artífice fabrica um corta-papel segundo uma definição e uma técnica. Assim o homem individual realiza um certo conceito que está na inteligência divina. No século XVIII, para o ateísmo dos filósofos, suprime-se a noção de Deus, mas não a idéia de que a essência precede a existência. Tal idéia encontramo-la nós um pouco em todo o lado: encontramo-la em Diderot, em Voltaire e até mesmo num Kant. O homem possui uma natureza humana; esta natureza, que é o conceito humano, encontra-se em todos os homens, o que significa que cada homem é um exemplo particular de um conceito universal - o homem; para Kant resulta de tal universalidade que o homem da selva, o homem primitivo, como o burguês, estão adstritos à mesma definição e possuem as mesmas qualidades de base. Assim, pois, ainda aí, a essência do homem precede essa existência histórica que encontramos na natureza. [...]

O existencialismo ateu, que eu represento, é mais coerente. Declara ele que, se Deus não existe, há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem ou, como diz Heidegger, a realidade humana. Que significará aqui o dizer-se que a existência precede a essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. Assim, não há natureza humana, visto que não há Deus para a conceber. O homem é, não apenas como ele se concebe, mas como ele quer que seja, como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência; o homem não é mais que o que ele faz. Tal é o primeiro princípio do existencialismo. É também a isso que se chama a subjetividade, e o que nos censuram sob este mesmo nome. Mas que queremos dizer nós com isso, senão que o homem tem uma dignidade maior do que uma pedra

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* Os títulos entre colchetes foram criados pelas autoras desta obra; não constam, portanto, do texto original

ou uma mesa? Porque o que nós queremos dizer é que o homem primeiro existe, ou seja, que o homem, antes de mais nada, é o que se lança para um futuro, e o que é consciente de se projetar no futuro. [...] Mas se verdadeiramente a existência precede a essência, o homem é responsável por aquilo que é. Assim, o primeiro esforço do existencialismo é o de pôr todo homem no domínio do que ele é e de lhe atribuir a total responsabilidade da sua existência. E, quando dizemos que o homem é responsável por si próprio, não queremos dizer que o homem é responsável pela sua restrita individualidade, mas que é responsável por todos os homens.
SARTRE, Jean-Paul.

O existencialismo é um humanismo.



São Paulo, Abril Cultural,

1973. p. 11-12. (Col. Os Pensadores)



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