Margarite Duras



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Encontro15.07.2018
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Ele arrancou o vestido, arrancou as calcinhas de algodão branco e leva-a assim nua para a cama. E depois volta-se para o outro lado da cama e chora. E ela, lenta, paciente, vira-o para o lado e começa a despi-lo. De olhos fechados, despe-o. Lentamente. Ele quer fazer gestos para a ajudar. Ela pede-lhe que não se mexa. Deixe-me. Ela diz que quer ser ela a fazê-lo. Despe-o. Quando ela lhe pede, ele desloca o corpo na cama, mas muito levemente, para não a acordar....”

Margarite Duras, “O Amante”, pág. 36, Difel, 1984.

Anos depois da guerra, depois dos casamentos, dos filhos, dos divórcios, dos livros, ele veio a Paris com a mulher. Telefonara-lhe. Sou eu. Ela reconhecera-o logo pela voz. Ele dissera: só quero ouvir a tua voz. Ela dissera: sou eu, bom dia. Ele parecia intimidado, tinha medo como dantes. A sua voz tremia de repente. E com o tremor, de repente, ela voltara a encontrar a pronúncia da China. Ele sabia que ela tinha começado a escrever livros, soubera-o pela mãe dela que voltara a ver em Saigão. E depois dissera-lho. Dissera-lhe que era como dantes, que ainda a amava, que nunca poderia deixar de a amar, que a amaria até à morte.”



Margarite Duras, “O Amante”, pág. 98, Difel, 1984.

Querida Ronnie,


Eu não sei como hei-de começar uma carta como esta, a não ser como um pedido de desculpas.

(…) Não posso negar que daqui para a frente a nossa vida vai ser diferente, mas quero que saibas que, se estivesse no teu lugar, o mais provável seria sentir-me como te estas a sentir neste momento. Tens todo o direito de estar zangada comigo. (…)

Por motivos, que nem sempre são claros, os casamentos não resultam. Mas lembra-te sempre de uma coisa: nunca deixarei de te amar, tal como nunca deixarei de amar o Jonah. (…)

Sob muitos aspectos, apesar da tristeza que sinto por saber que eu e a tua mãe nunca mais estaremos a estar juntos, continuo a acreditar que estar casado com ela tantos anos foi para mim uma bênção.

(…) Ainda acredito na dádiva do amor (…)

Com amor,

Pai.”

Nicholas Sparks, “A Melodia do Adeus”, Editorial Presença, 2010.

Finalmente, depois de morto, Franz pertence à sua esposa legítima como nunca lhe pertenceu em vida. De tudo, Marie-Claude se encarrega: organiza as obsequias, põe participantes no correio, encomenda coroas de flores e manda fazer um vestido preto que, na realidade, não é senão um vestido de casamento. Sim, para a esposa, o enterro do marido é finalmente o seu verdadeiro casamento com ele! O apogeu da sua vida! A recompensa de todos os seus sofrimentos! …”



Milan Kundera, “A Insustentável Leveza do Ser”, Publicações Dom Quixote, 1983.

Se isto é um Homem


Vós que viveis tranquil@s,

Nas vossas casas aquecidas,

Vós que encontrais regressando à noite

Comida quente e rostos amigos:

Considerai se isto é um homem

Quem trabalha na lama

Quem não conhece paz

Quem luta por meio pão

Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,

Sem cabelos e se sem nome,

Sem mais força para recordar

Vazios os olhos e frio o regaço

Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:

Recomendo-vos estas palavras.

Esculpias-as no vosso coração

Estando em casa, andando pela rua,

Ao deitar-vos e aos levantar-vos;

Repeti-as aos vossos filhos:
Ou então que se desmorone a vossa casa,

Que a doença vos entrave,

Que os vossos filhos vos virem a cara.”

Primo Levi, “Se Isto é um Homem”, Colecção Mil Folhas, 1958.

Amor à primeira vista

Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.

Julgam que por não se terem encontrado antes,


nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?

Gostaria de lhes perguntar


se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.

Muito os admiraria


saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.

Ainda não completamente preparado


para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.

Houve marcas, sinais,


que importa se ilegíveis.

Haverá talvez três anos


ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?

Punhos de poeta e campainhas


onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo o acordar desvaneceu.

Porque cada início


é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.


      1. Wislawa Szymborska



“Querida Kitty:

Apesar de tudo, as coisas continuam a ser difícies. Sabes o que quero dizer? É que queria ser beijada, queria esse beijo que tanto se faz esperar. Verá o Peter em mim mais do que uma boa camarada? Não significo outra coisa para ele? Tu bem sabes que sou forte, que sei suportar sozinha o meu fardo e que não me habituei a procurar auxílio. Nunca me agarrei à mãe. Mas agora sinto desejo de encostar a cabeça nos ombros do Peter e de ficar muito quietinha.

Não consigo esquecer-me do sonho em que sentia a face do Peter contra a minha. Como isso era belo! E ele, não terá o mesmo desejo? É tímido de mais para me confessar o seu amor? Mas porque é que me quer sempre ao seu lado? Porque é que não fala? Quero ser calma. Quero ser forte. Com um pouco de paciência, tudo virá.”

Anne Frank, “Diário de Anne Frank”, pág. 261, Colecção Dois

Mundos – Edição Livros do Brasil, 1942-1944.


Desciam para a sala contígua ao quarto de Manuel Quintino; sala modestamente mobilada, mas em cada particulariedade da qual se revelava o bom gosto de Cecília. Se ali dentro se não encontrava nenhum móvel de alto preço, nenhum objecto de elegância luxuosa,não havia também as ridículas demonstrações de um gosto grosseiro, amontoadas sem ordem, adquiridas sem escolha.



Descobria-se em todo aquele recinto um asseio e aconchego, que fazia bem contemplar.

Manuel Quintino sentava-se junto da mesa do trabalho, em uma cadeira de braços, verdadeiramente patriarcal; Cacília trazia luz, fechava as janelas, pousava a cesta da costura e vinha sentar-se ao lado do pai.

Manuel Quintino contava alguma coisa do ocorrido no escritório; Cecília correspondia-lhe, referindo o que, na ausência de Manuel Quintino, sucedera em casa.”

Júlio Dinis, “Uma Família Inglesa”, págs.160-161, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1868.
"A magia do sexo é a sua aquisição sem o fardo da posse. Não interessa quantas mulheres é que levas para casa, nunca há problemas de armazenamento.”

Chuck Palahniuk, “Asfixia”, 2001.


Mãe Negra
A mãe negra embala o filho.


Canta a remota canção
Que seus avós já cantavam
Em noites sem madrugada.

Canta, canta para o céu


Tão estrelado e festivo.

É para o céu que ela canta,


Que o céu
Às vezes também é negro.

No céu
Tão estrelado e festivo


Não há branco, não há preto,
Não há vermelho e amarelo.
- Todos são anjos e santos
Guardados por mãos divinas.

A mãe negra não tem casa


Nem carinhos de ninguém...



A mãe negra é triste, triste,
E tem um filho nos braços...

Mas olha o céu estrelado


E de repente sorri.
Parece-lhe que cada estrela
É uma mão acenando
Com simpatia e saudade...


Aguinaldo Fonseca, poeta de Cabo Verde,Primeiro Livro de Poesia”


Clarice: Era ontem e tu não me amavas.

Jean-Pierre: Eu não ousava amar-te porque não ousava viver. Esta terra parecia-me impura e não me queria sujar nela. Que orgulho estúpido.

Clarice: Parece-te mais pura hoje?

Jean-Pierre: Nós pertencemos à terra. Agora compreendo: eu queria excluir-me do mundo, e era na terra que fugia aos meus deveres de homem, na terra que era um cobarde e condenava-te à morte com o meu silêncio. Amo-te na terra. Ama-me.

Clarice: E como se ama na terra?

Jean-Pierre: Caminhamos juntos.”
Simone de Beauvoir, “O sangue dos Outros”, 1945


In February 1985, after several months of intense negotiations between Jordanian and PLO [Palestine Liberation Organization] officials, Yasser Arafat and his collegues secretaly agreed to accept Resolution 242 and the withdrawal of Israel to its 1967 boundaries as the basis for peace negotiations, and with that acceptance came implicit recognition of Israel's right to exist. In return, Arafat wanted enforcement of UN Resolution 181, which called for the partition of British-ruled Palestine into a Jewish state and an Arab state. Among other demands, he also called for an international conference of all parties involved under the auspices of the UN Security Council. (…) What seemed so promising, however, quickly began to unravel. (…) In the midst of all this, I discovered that I was expecting our fourth child. My huband was delighted. He often spoke yearningly of our having another child, and the pregnancy acted as a tonic for him in this period of unrelieved stress. I had mixed feelings. I felt I could barely cope with our six at home already. Also, among our many goals in Jordan was to reduce the high birth rate and I was expecting again. What example did that set?”

Rainha Noor, “Leap of Faith – Memoirs of an Unexpected Life”, págs. 245-246, Miramax Books, 2003.


Sou duas mulheres: uma deseja ter toda a alegria, a paixão, as aventuras que a vida pode dar. A outra quer ser escrava de uma rotina, da vida familiar, das coisas que podem ser planeadas e cumpridas. Sou a dona de casa e a prostituta, ambas vivendo no mesmo corpo, e uma lutando contra a outra.”

Paulo Coelho, “Onze Minutos”, Pergaminho, 2003.


Fazer amor não existe, porra, o amor não se faz. O amor desaba sobre nós já feito, não o controlamos – por isso o sistema se cansa tanto a substitui-lo pelo sexo, coisa gráfica, aparentemente moldável. Também não era foder, fornicar, copular – essas palavras violentas com que tentamos rebentar o amor. Como se fosse possível. Como se o amor não fosse exactamente essa fornicação metafísica que não nos diz respeito – sofremos-lhe apenas os estilhaços que nos roubam a vida e vontade. Eu queria oferecer-te o meu corpo para que o absorvesses no teu. Para que me fizesses desaparecer nos teus ossos. Eu, educado no preceito alimentar de que os rapazes comem as raparigas, depois de uma vida inteira de domínio dos talheres queria agora ser comido por ti. Queria entregar-me nas tuas mãos. E entreguei-me – terás percebido isso? Deixei de saber quem era. Continuo a precisar de ti para existir. Para dormir”.

Inês Pedrosa, Fazes-me falta, Publicações Dom Quixote. 2002

The home needs more of man and the outside world needs more of woman.”


Pearl S. Buck
"Trata uma alavanca como uma alavanca, uma pá como uma pá, mas trata sempre uma pega como uma senhora. As suas vidas são suficientemente duras e não custa ser educado.”
Patrick Rothfuss, “O Nome do Vento”, 2007.

Sempre me considerei uma pessoa incompleta, e consequentemente sempre estive mais interessado em pessoas como eu, pessoas que têm problemas, pessoas que têm de batalhar pela sua sanidade mental, pessoas para quem o impacto do dia-a-dia, das noites, é difícil, pessoas à beira da ruptura. É esse o meu mundo, é essa a minha gente. E eu tenho de escrever sobre o que conheço.”



Tennessee Williams
"(...) por muito vadio que de sua natureza um homem seja, a casa, se a mulher que nela está é estimada e os filhos amados, tem o gosto que tem o pão, não é para todas as horas, mas sente-se-lhe a falta se não for todos os dias."

José Saramago, “O Memorial do Convento”, 1982.
"Amo tão ferozmente que me sinto morrer quando o objecto do meu amor revela com uma frase que me pode escapar. Ele desaparece e eu fico no mesmo sítio (...) Não compreendo as frases."

Virginia Wolf, “As Ondas”, 1931.
"Depois de tantas zangas e reconciliações, preciso de intimidade, de poder ficar a sós contigo para introduzir ordem nesta confusão. Sim, porque nos meus hábitos sou polido como um gato."

Virginia Wolf, “As Ondas”, 1931.

E todas as outras, com flores no cabelo, como que dançavam longamente num círculo e deixavam atrás de si fitas, cartas, flores, meio par de luvas. Essas mulheres traziam para as suas vidas o encanto dos primeiros amores e tudo aquilo que o amor significava: o desejo, os ciúmes e a solidão desconcertada. Mas atrás das mulheres, das representações do mundo oscilava um sentimento que era mais forte que todos os outros. Só os homens conhecem esse sentimento. Chama-se amizade.”



Sandor Marai, As Velas Ardem Até ao Fim, 1942

Estás sentado em casa, os malaios cantam. A mulher que acolheste em tua casa, está sentada, imóvel, no canto do quarto e olha para ti. A princípio não prestas atenção. Depois ficas nervoso e manda-la sair do quarto. Mas não ajuda nada: sabes que então está sentada noutro lugar, num outro quarto da casa e continua a olhar através das paredes. Têm grandes olhos castanhos, como cães tibetanos, essas bestas silenciosas, os mais traiçoeiros animais do mundo. Olham com aqueles olhos luminosos, tranquilos, e onde quer que vás, sentes esse olhar, como se alguém te perseguisse com um raio malfazejo. Se lhe gritas, ela sorri. Se lhe bates, ela olha e sorri. Se a mandas embora, ela senta-se no limiar da casa e olha para ti. Nesse caso, é preciso chamá-la. Dão à luz crianças uma após a outra, mas ninguém fala disso, e elas o menos possível. Como se tivesses em casa um animal, uma assassina, uma sacerdotisa, uma feiticeira e uma louca na mesma pessoa. Depois cansas-te, porque esse olhar é tão forte que esgota até o mais resistente. É forte como o contacto físico. Como se alguém te acariciasse constantemente. Uma pessoa fica doida com aquilo. Depois também aquilo se torna indiferente. Chove.”



Sandor Marai, As Velas Ardem Até ao Fim, 1942




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