Marcello salvaggio



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Encontro03.05.2017
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Justiça

Rusgal traçara a serpente vermelha de boca escancarada, enrolada em si mesma, na entrada daquele porão sombrio, de pura madeira velha, pouco abaixo das escadas rangentes; o desenho, constituído de éter, brilhava em berne-escuro como que feito de um tecido precioso. Com Hadapa sentada sobre um caixote, ele vestido com uma túnica inteiriça púrpura e a elfa quase que indistinguível das trevas em um manto azul quase negro, dotado de um capuz, ergueu o cajado em sua mão esquerda, rubro culminando em uma espiral de caracol, e deu início à conjuração, que precisava ser verbalizada em alto e bom som:

— Eu te conjuro, ó pobre espírito atormentado que morreste injustamente, acusado de inimigo letal e sedutor enquanto buscavas apenas o amor...– Hadapa enxugou as lágrimas que começavam a cair. – Controla-te, mulher! – Ele interrompeu por um instante o trabalho. – Tua comoção distorce os fluidos astrais. Tentes manter tua mente como uma lousa em branco.

— Está bem.– Ela respondeu, com a voz que tanto encantava o magista levemente sufocada. Mesmo assim, inspirou nele desejos horríveis e profundos. Imaginou gemidos de prazer naquele mesmo tom. “Em breve será minha, completamente minha...”, refletia.

— Conjuro-te para que revejas aquela que tanto te amou, para que acalmes o coração dela e o teu próprio, para que tenhas paz entre os mortos e tua amada tenha paz entre os vivos.– Movimentou a mão direita e com os dedos desta principiou a manipular uma substância branca que se materializava: ectoplasma. Ela fez o maior esforço mental e emocional de sua existência para conter seus impulsos à medida que seu falecido amor, ainda que sem coloração, se manifestava. Jamais deixaria de reconhecer o corpo esbelto nos quase dois metros de altura, a barba elegante e os longos cabelos.– Faça poucos movimentos...– Rusgal a advertiu.– O ectoplasma é uma substância delicada. Mas pode se aproximar...– E ela silenciosamente seguiu o conselho. “Esse homem pode ser o que for, um pervertido, um juiz que acha que pelo seu cargo pode mandar e desmandar nas vidas das pessoas, mas sou extremamente grata a ele. Primeiro me salvou da prisão, e agora me permite ver meu amado outra vez, coisa que achei que nunca mais aconteceria”, esforçava-se para que seus pensamentos não fossem ouvidos, mesmo cogitando que, concentrado da maneira que estava, Rusgal não conseguiria escutar nada. Ele estava sério como jamais o vira, extremamente compenetrado. Contudo, não imaginava que por dentro o crápula sorria: “Ela está caindo como planejei. Não tardará a ser totalmente minha! Já sente até gratidão...”

— Homar, você não imagina as saudades que estou de você, meu amor.– Ela falou em uma língua que o Anunnaki não compreendia, mas este podia ler seus pensamentos, dissimuladamente.

— Você é odiosa para sempre, Hadapa.– A declaração do espírito plasmado soou e doeu como um golpe forte de um chicote.– Por sua causa que estou morto. E, pior do que isso, por sua causa que padeço dos tormentos dos domínios infernais. Não sabe por quais sofrimentos estou passando...

— Mas por quê? Por que desceu ao Inferno?– Ela mal teve forças para perguntar, segurando o choro. “Não acredito. Agora ele me odeia! Posso sentir o ódio vazando das têmporas...”

— Pelo ódio que tenho de seu povo, que me assassinou por tê-la amado. Como se o amor fosse um crime! E não pense que se tratou de uma morte simples. Passei por horas de torturas e privações variadas antes de ser executado.

— Mas que culpa eu tive disso, meu amor?

— Você me seduziu quando sabia que nossas comunidades eram inimigas.

— Como é? Não acredito que esteja dizendo isso. Nós dois nos apaixonamos! Nós dois...Você também me seduziu e se tivéssemos sido pegos pela sua tribo, eu é que estaria morta agora.

— Engana-se. Estaríamos os dois mortos. Eu não seria resgatado por esse homem perverso.– Apontou com desprezo na direção de Rusgal, que sorriu de forma arrogante.

— Não tenho nada com ele!

— Se tem ou não tem, isso não me importa mais. O pior já foi feito.

— Você é um ingrato, Homar. Você é o único traidor aqui! Em nenhum momento traí meu povo, e me conservei sempre fiel a você, para que venha me jogar na cara que sou uma sedutora e que tenho culpa por você estar em uma realidade inferior? Me renega em vez de me pedir ajuda?

— Nunca pediria ajuda a uma mulher vulgar e ainda por cima na frente de um escroque.

— Rusgal é mais digno do que você!– O amor se transformou em ódio. As lágrimas escorreram com violência e a voz saiu carregada de ressentimentos.– Pelo menos ele me acolheu e permitiu que eu visse uma criatura desprezível como você.

— Eu sou o que você me tornou.– E, quando ela ia estapeá-lo, o fantasma desapareceu.

“Qualquer ação brusca pode dissolver o ectoplasma. Sinto muito que não tenha podido massacrar esse canalha, e eu a ajudaria com prazer. Mas leis astrais são leis como quaisquer outras...”, Rusgal falou com seriedade. O ódio se dispersou em projéteis negros e ela o encarou com o rosto úmido de tristeza. “Ele me humilhou. Isso não é justo. Eu sentia tanta saudade...”, ao que o juiz rebateu: “Mas pelo visto ele não. O seu Homar é um fraco. Daqueles espíritos que vivem no ressentimento e do ressentimento. Ele não estava nem um pouco saudoso”; “Ah, fique quieto, você não sabe de nada...”; “Eu sei o que vi”; “Desde o começo senti que, apesar de não entender o nosso dialeto, compreenderia do mesmo jeito o que estávamos falando”; “Não apenas pelos pensamentos que consegui captar, que não foram muitos porque estava concentrado para manter o ectoplasma coeso, como por seus gestos e expressões”, mentiu. Tinha facilidade em se concentrar em muitas coisas ao mesmo tempo. E continuou: “Francamente, você merece coisa melhor”; “Lomais não fazem o meu tipo”; “Elfas cinzas fazem o meu...É o que importa”, abriu o sorriso. “Talvez seja mesmo melhor ter um homem que impõe tudo o que quer do que um que finge que é bom e carinhoso e se revela um espectro não por estar morto mas pelo caráter”; “Eu, me impondo? Seduzo docemente...”, ela afundou o rosto entre as mãos. “Pouco a pouco...Não tenho pressa. Gosto que seja gradual. É muito mais saboroso e requintado...”, pensou consigo mesmo.


Os pequenos elfos cinzas brincavam em meio à grama alta e às folhagens cheias de orvalho em uma manhã tranqüila; ao fundo, dois velhos cinzentos jogavam sobre uma rocha plana riscada por eles mesmos uma partida de natsch, uma espécie de jogo de damas feito com pequenas pedras e folhas secas, sendo que estas últimas possuíam valor duplo e “engoliam” as primeiras.

— Você que já esteve em Babel, Golash. O que achou de lá?

— Foi há muitos anos, mas não acredito que tenham mudado. Mantenho a mesma opinião: trata-se de uma sociedade degenerada. Que acha que solucionou o problema da violência, mas não resolveu absolutamente nada. A autoridade daqueles juízes é quase absoluta e eles exercem a pior forma possível de violência: o patrulhamento mental. Não há a menor liberdade de pensamento.

— Mas dizem que os criminosos são presos de imediato, que não há impunidade e a culpa é conhecida no instante, que as sentenças são precisas porque os julgamentos são exatos.

— Bobagem! Quem tem uma boa renda pode subornar os promotores. Que são como se fossem mini-juízes, já que os tais Anunnaki são muito ocupados, não têm como cuidar e supervisionar tudo. Os promotores fazem o trabalho sujo, na maioria das vezes. E são justamente esses pequenos funcionários os mais corruptíveis. Só um jovem tolo acreditaria que existe justiça infalível neste mundo.

— Porém ela existe, de certa forma. A natureza não pune no sentido estrito, os deuses estão preocupados apenas com o fluxo da existência, mas a lei de ação e reação é implacável. Um assassino nesta vida está fadado a nascer mutilado na próxima. Um estuprador renascerá com problemas com a sua sexualidade. Um delinqüente frio e calculista irá reencarnar com um câncer no cérebro ou uma deficiência mental. Não se trata de um castigo e sim de uma lei natural, da mesma maneira que morremos se cortamos nossa garganta com uma espada; se a justiça é como eu vejo, uma conseqüência, então há justiça no universo. Os homens é que tentam escapar das conseqüências; só podem, no entanto, fugir entre si, jamais escapar das leis naturais.

— Não vejo as coisas de uma maneira tão mecanicista. Se fosse assim, teríamos tanta liberdade quanto em Babel, onde a mente vazia é fruto da pressão do terror. Não nego nem o destino, que seria a seqüência de ações, que vai se delineando como uma corrente e seus elos, não pré-programado, mas algo que vai se formando pelo encadeamento dos atos, nem a nossa liberdade.


  • E no que consistiria a liberdade? Podemos não morrer se a nossa cabeça for cortada?

  • O espiritual é ligeiramente diferente do físico, embora ambos façam parte da natureza. No espiritual é dada a possibilidade de, pela transformação interior, transcender o crime. O arrependimento sincero pode frear a conseqüência e impedir um renascimento infeliz, ou mesmo bloquear de uma vez os renascimentos, no caso da Iluminação interna, que vai bem além do arrependimento, é o abranger da consciência; por isso que digo que não há justiça neste mundo. A justiça é uma convenção humana; a minha visão dela é de delito e punição. E a natureza não age assim. Ela é inexata; pode ser dobrada com amor. Ao passo que a justiça humana é falível; pode ser corrompida e ignorada pelo dinheiro, pelo sexo ou por outras formas de favores.

— Mas é um fato: a humanidade andaria muito mais na linha e as pessoas seriam muito mais corretas se compreendessem que existem conseqüências espirituais profundas para quem prejudica outros seres. É como na nossa partida de natsch: não existe jogada perdida. Ou você come, ou é devorado. Não pode simplesmente desaparecer com uma peça e fingir que nada aconteceu.

— Não gosto de jogar com o “se”. Prefiro as ações objetivas. Acho que por ser assim que eu ganhei e você perdeu. Sobraram quatro minhas e nenhuma sua!

— Que vergonha! Se eu fosse como esses lomais hiper-treinados, teria adivinhado todas as suas jogadas! Só não seria nem um pouco justo.

— Será que não? Teria se esforçado tanto para aprender uma técnica e depois nada de usá-la? Você estaria no seu direito. Eu que teria de correr atrás se quisesse fazer uma partida “justa”.

— Falando assim, acho que vou seguir o seu conselho e aprender o modo deles de ler pensamentos...

— Como se você pudesse...Não passa de um cinzento velho!

— “As cinzas vieram do fogo. Eu vou reconvocar o fogo que me produziu.”– Pronunciou cantarolando um trecho de uma canção tradicional de seu vilarejo.

— Enquanto você faz isso, eu reconvoco a minha comida.– Tendo terminado de jogar, espichou os músculos ressequidos, deixando bem à mostra as pregas do pescoço, e se levantou para pegar algo para comer. No entanto, parou inclusive de sorrir ao ouvir nitidamente gritos e ricocheteios metálicos provenientes do bosque. Durante a partida, tivera a impressão de escutar alguns sons estranhos e suspeitos, violentos, mas acreditara tratar-se de uma impressão sua, resultado dos pesadelos da noite anterior, nos quais se vira rodeado de monstros por repetidas vezes, acordando e voltando a dormir e a sonhar com as criaturas. Estivera mais preocupado em vencer o jogo e conversar com o velho amigo, puro entretenimento, e observar as crianças, pura nostalgia.

— O que foi? Você ficou esquisito de repente.

— Não está ouvindo nada?

— Sinto cheiros. De sangue e queimado.

— Vamos ficar com as crianças por enquanto.– O venerando elfo cinza prendeu a respiração sem perceber, ao passo que na floresta nas montanhas se dava um massacre: um indivíduo encapuzado e de rosto encoberto pelas trevas, de branco, comandava dois golens, um dente-de-dragão e horríveis homúnculos, que esmagavam a comunidade cinzenta, pisoteando algumas tendas e colocando fogo em outras, não pondo entretanto um fim à vida de todos: um dos golens se limitava a fazer suas vítimas desmaiarem ao sufocá-las com seus poderosos braços, invulnerável a flechas e espadas longas, que se quebravam ao se chocarem com sua “pele” de pedra, amarrando-as na seqüência com as cordas grossas que trouxera consigo. Já um homúnculo troncudo, sem pescoço, de nariz exagerado e boca imensa e repleta de dentes aguçados, vestido em trajes de couro em rasgos, parecia se divertir com a matança que produzia, rindo baixo mas continuamente ao manusear suas duas facas com habilidade e rapidez sobre-humanas.



— A justiça enfim se cumpriu.– Hadapa retirou o capuz, revelando seu rosto. Vocês um dia brincaram com a minha vida...Agora brinco com a de vocês. Quiseram decidir o que eu seria; eu decido o que será de vocês. Disseram que eu estava morta; muitos de vocês irão morrer por isso.– Sua voz foi ouvida por toda a comunidade. Não era mais a mesma: seu tom continha feitiços poderosos, uma arte que ia muito além tanto da oratória quanto da potência vocal, atingindo diretamente a musculatura e os nervos de seus interlocutores, com a intenção de produzir as mais terríveis reações: pavor, medo, ansiedade, desespero, angústia e as mais tristes recordações de seus parentes, cujos pensamentos começou a perceber: “O que aconteceu com essa menina? Realmente está morta e fez um pacto no inferno, voltando de lá com poderes além da nossa imaginação?”; “Ela perdeu a razão depois de aprender o pior da magia com algum crápula...”; “Maldita Hadapa! Eu sempre tive inveja dela...E agora ela se julga no direito de nos matar! Uma traidora brincando com as nossas vidas! Costumes idiotas; devíamos tê-la matado de verdade!”; “Como ela pode ainda estar viva? Não deveria voltar. Não é correto. As tradições estão sendo quebradas...”; “Como teve coragem de buscar vingança se o castigo imposto foi merecido? Que falta de respeito consigo mesma! Ela não tem moral...”; “Eu tenho que matá-la com as minhas próprias mãos!”; “E se fosse até ela de joelhos e pedisse perdão?”; “Não pode ser ela. Tem que ser um demônio disfarçado ou um lomai traiçoeiro, perito nas artes da feitiçaria”; “Não há como ser ela. Ela não tinha potencial para adquirir tanto poder...”, enfadada, a cinzenta desertora sentenciou:– Ouçam o que digo: quem é da minha família morrerá primeiro.– Pânico: a floresta se fechava em duras garras retráteis; foi essa a imagem que passou pela mente de alguns. Não havia maneira de fugir. Sufocados ou feitos em pedaços pelos monstros ou vítimas da psicocinese violenta de Hadapa, que com Rusgal aprendera um modo de romper vasos cerebrais alheios à distância, fazendo uso do poder de sua mente. A morte acariciava com seus dedos ossudos, destituídos de pele, o rosto da elfa, agradecendo-a pelo banquete. “Simplesmente brilhante, minha querida! Só não se deixe turvar pela vingança. Não se esqueça dos meus bonecos!”, Rusgal, não muito longe dali, porém sem interferir, mandou sua mensagem telepática. Os “bonecos” seriam alguns cinzentos vivos para as suas experiências, na tentativa de realizar sua ambição de criar um humano superior. “Não se preocupe...”, ela respondeu com intensa frieza, em contraste com o calor e a paixão que emanavam dos pensamentos dele. “Só não quero deixar vivos, de jeito nenhum, a minha mãe e os meus irmãos, tios e primos. Sorte do meu pai não estar mais entre nós”; “Quer dizer que o velho maldito não teve a paciência de esperar a sua volta. Que pai desnaturado! A filha passa anos fora e ele tem coragem de morrer antes que ela volte!”; “Não é hora para brincadeiras”; “Eu nunca falei tão sério, meu amor...”, não sobraria ninguém ali, nem as crianças e os velhos que se achavam fora do bosque, capturados posteriormente pelo golem; que tristeza para o visitante que desceria:

“O que terá ocorrido neste lugar?”, perguntou-se, na noite que sucedeu a chacina, um amigo da tribo; um gárgula semi-anjo de quase três metros de altura, pele vermelha acobreada, olhos de águia, orelhas pontiagudas, nariz comprido e enormes asas fortes, que bateu para afastar as cinzas. Resolveu investigar os corpos: encarou o cadáver de uma criança cinzenta, sem mostrar comoção em seu semblante, embora por dentro sofresse, e neste cravou suas garras. “Nular, já sinto saudades de vocês, meu pequeno amigo. Quem terá causado esta destruição? Não posso me deixar levar pela vingança, mas preciso ao menos saber o que está acontecendo...”, as informações gravadas nas células foram sendo transmitidas aos poucos para a mente da criatura; que viu Hadapa e sua horda de golens, homúnculos e o terrível dente-de-dragão. “Assustador...Mas ainda são poucos detalhes. Preciso coletar mais dados e avisar meus semelhantes. Recordo-me do sacerdote-mestre de Babel, que utiliza alguns desses monstros. Terá ele algo a ver com este massacre?”, e repetiu o procedimento com os outros corpos disponíveis, com os quais estabelecera em vida diversas amizades; começara a freqüentar aquela comunidade pouco depois da saída de Hadapa, que ainda não conhecia, até perfurar o corpo do primeiro de seus parentes, e assim na seqüência, e tomar ciência de quem se tratava. “Ela tinha uma mágoa profunda. Nesse caso, não sei quem está com a razão, efetivamente. Na verdade estão todos errados. Mas ela se equivocou mais ao considerar que pelo poder bruto causaria alguma mudança positiva. Tirou vidas de inocentes. Terá alguma relação com o sacerdote Raomash? Esses monstros e esse poder adquirido subitamente...”, dera início às visitas à tribo para pacificá-la com os vizinhos, com os quais se dava de longa data; não compreendia os motivos de existir tanta desunião e rivalidade entre as espécies humanas. “Ela levou alguns vivos. Qual será a finalidade?”, rumou de volta ao lar. Voou placidamente pelos céus, a mente limpa, chegando aos cumes brancos e enevoados onde se encontravam as grutas de residência de seu grupo, do qual era o experiente líder de mais de oito séculos, descendente de Grul, o sábio, semi-anjo de fama quase lendária que contribuíra no passado para a vitória dos elfos brancos sobre os demônios gahinim. Na verdade, não se tratava de um mero descendente...

Para ser líder naquela comunidade, o indivíduo passava por uma delicada e ao mesmo tempo estrondosa cerimônia de passagem, que o colocava com o peso de gerações nas asas e tendo que se manter assim equilibrado entre os extremos do penhasco, no limiar do mundo dos mortos, o Abismo abaixo e um fino fio de prata imediatamente sob os pés. A Uron, assim se chamava, fora dada por seu mestre e antecessor uma bebida negra avermelhada, em parte composta de uma secreção extraída da ponta de cada asa do velho semi-anjo, em parte de um dente moído deste, e por fim de algumas gramas de um fungo que crescia naquelas montanhas. Ficaram de pé, um encarando o outro, sem mais ninguém em volta nas trevas da caverna, enxergando mesmo assim com muito mais claridade do que a maioria dos humanos, até seu mentor lhe dar a ordem de fechar os olhos; e Uron não se vira mais a sós com este, mas com dezenas de outros ao seu lado, mais ou menos próximos, mais sérios e mais leves, alguns mais como sombras, outros nítidos como se estivesse à luz do dia. Abria os olhos e desapareciam; fechava-os e estavam de volta, podendo ouvi-los de qualquer maneira:

— Somos seus ancestrais e antecessores. Veremos se está preparado para ser tornar um de nós, e para que nós nos tornemos um com você.– Ninguém mais, além dos que eram iniciados naquele ritual, sabia como se dava a passagem. A cada dez, cinco não sobreviviam e três enlouqueciam.

— Não adianta ter medo, pois não há mais como voltar atrás. O que acontece aos que perdem a sanidade ocorre porque se deixam vencer pelo medo e se tornam existências voltadas para o medo, buscando, portanto, refúgio de tudo; e passam a negar o mundo externo. Quanto aos que morrem, é por não aceitarem a mudança de perspectiva; o novo modo, mais completo, de encarar a realidade. Sem contar os que se apegam ao próprio ego. Você não precisa de máscaras; porém muita calma ao retirá-las, para que seu rosto verdadeiro tenha tempo de se formar, sem que revele uma face violenta e disforme.– Dissera o mestre, naquele dialeto gárgula constituído principalmente de estalos rápidos com a língua e batidas velozes de dentes. Uron começou a deixar as sombras entrarem, e entre estas se achava a do famoso Grul, que lhe trouxe lembranças claras sobre a amizade com os elfos. Precisava tomar cuidado: as memórias mescladas despertaram uma saudade inefável de milhares de experiências; de animais, humanos e gárgulas, fêmeas e machos; e as recordações das almas se juntaram às suas lembranças celulares e ao inconsciente coletivo de sua espécie, tudo isso em poucos segundos. Começara a caminhar em um corredor no espaço sideral formado por molduras quadradas; ao avançar, estas passaram a alterar suas cores e formas, e ao fundo estava seu mestre, porém lhe parecera impossível alcançá-lo, distante por mais que andasse, corresse ou voasse. Milhões de vozes em sua mente: tinha os pensamentos de todos os comandantes e das líderes anteriores; era centenas em um. Só faltava o velho mentor...– Você teme que eu irei me tornar como eles quando me absorver, que morrerei. Uron, isso é mais do que óbvio: para que a planta nasça, é preciso que a semente morra. Não se apegue. Você não me alcança porque não quer; pois fique consciente de que estarei com você para sempre de hoje em diante, não apenas um dia ou outro, só não em carne.

— Isto é uma alucinação...

— Se não acredita no que sente e vê, subestima a própria existência para valorizar suas concepções mentais limitadas. Se acha que é imaginação, por que não tenta ir em frente? Não teria nada a perder, filho.– Mas Uron sabia que era verdade. Por isso hesitava; mais do que hesitar, sentira suas asas se petrificarem, racharem e desmontarem em milhares de fragmentos e poeira, sendo espalhados pelo universo...Perdidos para sempre. Sua identidade e sua razão se desagregavam; teria perdido tudo se não tivesse por um instante percebido uma intensa luz em seu interior, que não era a de nenhuma estrela. Uma claridade ofuscante que irradiara do centro de seu corpo, e que ele soube controlar e preservar, não permitindo que derretesse sua existência e o fizesse desaparecer entre as insondáveis partículas espalhadas aos bilhões de trilhões. Conseguiu conter porque Aquilo, apesar de pertencer a todos, também era Seu. E o calor, a caldeira de fogo líquido na qual se sentiu mergulhado, reconstituiu suas asas, agora feitas de chamas puras, quase brancas, e com elas voou corajosamente em alta velocidade ao encontro de seu mestre, que se fosse humano teria sorrido de júbilo. As sombras se fundiram e o discípulo, quando retornou ao corpo físico, notou que suas asas estavam com a forma modificada, lembrando bastante as do velho mentor, que jazia com as suas queimadas e sem vida no chão. Sem vida física: “Não se iluda com as formas; eu estou aqui...”, ouviu a voz dele em sua mente. Estariam juntos pela eternidade.

— Precisamos fazer algo para deter Raomash.– De volta ao presente, os gárgulas mais experientes se reuniram em um conselho, sentados em círculos sobre algumas pedras após o aviso de Uron; eram quatro machos e cinco fêmeas, de peles reluzentes e corpos robustos.

— Atacar de frente é incogitável. Sua torre é perigosa demais.– Falou uma guardiã que acabava de ter dois filhotes, ainda sem asas e que passavam a maior parte do dia brincando com suas pequenas caudas. Preocupava-se especialmente pelo futuro de suas crianças.

— Por que não pedimos a ajuda de Seraph? Antes que as coisas saiam do controle.

— Ele está muito ocupado. Seria absurdo envolvê-lo agora nesses problemas. O perigo representado pelo Karma é maior do que o que Raomash pode oferecer.

— Mas e se Raomash algum dia chegar a ter acesso ao Karma?

— Isso já é demais! Nunca irá ocorrer. É impossível.

— Os elfos brancos também não previram o ataque em massa dos gahinim e muito menos Kroni.– Uron se pronunciou.– É preciso fazer o melhor caso se queira evitar o pior.



Da sua parte, Rusgal via na captura de tantos cinzentos um motivo de comemoração; acendeu dez velas de cada lado, cercando a cama quadrada, e desenhou um círculo mágico em giz branco no chão de seu quarto de piso negro espelhado, ao mesmo tempo em que convocava dezenas de entidades. Entre espectros de desconhecidos, parentes seus que haviam passado para o outro lado e continuavam atormentados, pequenos demônios, súcubos, íncubos e elementais; Hadapa estava um pouco temerosa, com as mãos envolvendo os joelhos, sentada sobre as cobertas brancas, mas nada poderia ultrapassar o círculo. O perverso mago e juiz conjurara aquelas presenças para que testemunhassem sua alegria; em muito o excitava ser observado durante a cópula, que a seu gosto poderia durar horas, antecipada e prolongada por intermináveis carícias, vinho e mel, ou mesmo dias, o que só dependia de sua disponibilidade. A cinzenta, que a princípio continuara a rejeitá-lo internamente, com dificuldades e travas durante a relação, aos poucos passou a admirar a maneira como ele conduzia o ato: em cada toque e gesto um sussurro de prazer tátil ou visual, levando-a a atingir cumes de intenso prazer e só nos excessos de tempo deixando-a cansada, mesmo esbaforida, e envergonhada quando fazia esse tipo de brincadeira de chamar criaturas curiosas. “Você não pode dispensá-los?”; “Depois que acabei de chamá-los? Pobrezinhos...Não seria nem um pouco justo, minha cara! Estão ansiosos para ver. Não se preocupe; não podem sugar as nossas energias. Eu os tenho na palma da mão, tais pobres espíritos viciados”; “De todos, você é o mais viciado...”; “Há mal em ser viciado em ti? Desde que a tive, não passei pelas mãos de nenhuma outra mulher”; “Parece que só eu tenho fôlego suficiente. Sou bem melhor que as lomais então”; “Infinitamente melhor! Não há comparação, minha obscura preciosidade acinzentada...”; aqueles lábios o faziam tremer, excitado, quando se inclinava para beijá-la. E uma tremulação ardente se estendia no astral, atingindo o que estava em volta como um terremoto ondular; na pele haviam aprendido a ser cúmplices como na magia. Tal aliança, contudo, não significaria o sucesso nas experiências pretendidas por Rusgal, que se revelaram um completo fracasso; se como indivíduos uma elfa e um lomai podiam levar adiante um relacionamento intenso e apaixonado, parecia existir uma barreira biológica entre as duas espécies. Sequer um homúnculo vivo produzido pela mescla; as pilhas de cadáveres foram se acumulando até não sobrar mais nenhum corpo útil. “A justiça divina foi cruel comigo desta vez...”, o Anunnaki expôs ao pai no laboratório deste; o fedor da carne podre, recolhida pelos golens, empestara o local. “Poderíamos dizer que você quis ir longe demais. Mas não é nem esse o problema; ninguém o impede de avançar. Mas a própria natureza possui certas impossibilidades...”; “Eu sempre acreditei apenas em improbabilidades. Que a realidade seria reversível...”; “Equivocou-se em um ponto: no método. Mas talvez não esteja de todo errado.”; “Ao que se refere? Não gosto quando fala nesse tom misterioso.”; “A realidade pode ser alterada, porém não com experiências tão brutas, rústicas; já ouviu falar do Karma?”; “Claro que já... O artefato lendário criado pelo antigo sacerdote-mestre e por seu colaborador; me esqueci dos nomes deles...”; “Você acredita que essa pedra possa ter existido?”; “Eu não sei. Quem sou eu para duvidar? Repito: sempre acreditei em probabilidades. Pois é fato que, quando os boatos sobre esse objeto se intensificaram, a torre de Babel veio abaixo e os dois desapareceram do dia para a noite...”; “Muito bem. Andei consultando alguns demônios e elementais, e eles me revelaram que o criador do Karma, Zurvan, ainda vive. E está oculto com o artefato...”; “Segundo o que dizem, seria um objeto mágico capaz de alterar a realidade mental dos indivíduos, de permitir que uma mente domine todas as outras.”; “Exatamente. E um djin, um elemental do fogo, está disposto a nos guiar até Zurvan.”; “A troco do quê? Qual o interesse dessa criatura?”; “Nenhum. EU tratei de convencê-la.”, e pouco depois mostrou uma gaiola mágica, aparentemente idêntica a uma gaiola comum, porém com uma visão astral era possível vê-la cercada por barras-relâmpagos, e a cada mentira ou recusa o djin, uma criatura pouco maior que um colibri, toda vermelha, sem pernas, que se erguia sobre um diminuto rodamoinho de fogo, de asas com penas espessas, braços grossos e cabeleira ruiva desgrenhada que quase não permitia que seus olhos abrasados fossem vistos, recebia um violento choque. “Vocês não sabem para onde estão indo nem o que fazem...”, e mais uma descarga. “Silêncio, pequeno insolente! Você já fez parte do séqüito de Zurvan, mas agora só obedece a mim; sou seu único senhor”, Rusgal conseguiu sorrir diante da autoridade imposta pelo pai, deixando um pouco de lado suas experiências fracassadas. “Papai, só uma pergunta...”; “Pode fazê-la”; “Se encontrarmos o Karma, quem irá ficar com ele?”; “Isso será decidido depois.”; “Como quiser”, só a cogitação do confronto já o excitava. “Não vejo a hora de dar início a essa empreitada!”, esfregou as mãos mentalmente; não apenas Hadapa seria sua.





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