Marcello salvaggio



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Encontro03.05.2017
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Experiências

A região de Kush, alguns poucos quilômetros afastada de Babel, oferecia a seu visitante os mais belos bosques do mundo em sua época, repletos de tamareiras, jasmins, rosas, malvas, tulipas, álamos e pinos vitalizados por um complexo sistema de irrigação desenvolvido a partir da capital; alguns jardins ficavam suspensos sobre ou no interior de construções que lembravam zigurates e em pirâmides de topos de formas diversas. Um ambiente idílico, onde teoricamente não se poderiam conceber caminhantes sorrateiros. Contudo, era o que se via na área de um lago de águas que pareciam diamante líquido: Eridu, o promotor, se esgueirava entre as folhas e flores acompanhado de uma sacerdotisa de longos cabelos negros quase azulados, penteados para trás da testa alta, que usava um diadema de ouro em sua testa com uma esmeralda ao centro, de um sacerdote pálido de cabelos prateados curtos e ondulados, com um anel precioso que imitava o formato de wyvern em cada indicador, e de um elfo cinza corpulento, quase um e noventa de altura, cabelos acinzentados e pele e olhos negros, trajando uma túnica justa, botas e colete escuros de couro.

“Onde está a torre? Você tem certeza que é aqui? Não há nada neste lugar”, disse a sacerdotisa, incomodada pelos insetos voadores. “Ele iria colocar algo secreto em um local tão exposto e evidente? Parece-me um contra-senso...”, foi a vez do sacerdote. “Refinem a percepção. Raomash é um mago refinado e poderoso. Temos que ser tão ou mais perspicazes do que ele para perceber”, afirmou Eridu, e o cinzento, de semblante carrancudo, formou em suas mãos uma esfera de névoa esverdeada, que ao ser lançada no ambiente desencadeou uma neblina espessa. “Temos que fazer justamente o contrário do que ele fez. Eliminar tudo o que é claro e óbvio”, naquele instante o lago desapareceu e surgia diante dos quatro uma superfície de cristal liso, um imenso espelho sobre o qual se levantava uma torre disforme, de topo não visível, paredes obscuras que lembravam um tecido orgânico e anexos pendurados ou saltados feito bulbos e bolhas.

“Viram como foi bom tê-lo trazido aqui?”, o promotor se referia ao elfo cinza. “É verdade. Silencioso, porém eficiente”, admitiu o sacerdote. “Estava desconfiada porque ele nada revela a respeito de si; e ainda por cima não é um lomai”, disse a sacerdotisa. “Não fala e nem revela nada a vocês. A mim já contou muito e isso me basta. Se querem saber um pouco e entender os motivos que o levam a nos ajudar, ele era um morador destes bosques; habitava-os com sua tribo, cujos membros ou foram capturados ou mortos para as experiências sinistras de Raomash. Como único sobrevivente, ficou na obrigação de vingar o seu clã”, Eridu explicou; de fato, os sacerdotes tinham conseguido perceber, além da quietude externa, um movimento de lágrimas incendiadas e berros de ódio fervente escapando de dentro do outro; ela em particular não apenas ficara apreensiva em tê-lo como aliado como sentira muito medo.

“Eu ainda sinto os meus filhos. Eles estão lá dentro. Vivos”, por fim o cinzento se expressou. A primeira reação dos sacerdotes foi o espanto; na seqüência, o promotor deixou claro: “Não podemos nos separar nem desconfiar um do outro por um único instante; ele irá usar de todas as artimanhas possíveis”; “O que pode levar alguém que já tem tudo, um sacerdote-mestre, que governa Babel, a afundar na magia mais sinistra?”, inquiriu o companheiro lomai. “Ele almeja, além de um poder supremo que vai muito além do poder político, o conhecimento total da natureza. Mas por que isso nos seria dado? Anu nos fez criaturas limitadas justamente para ressaltar a diferença entre os homens e os deuses; e mesmo os deuses, a não ser Ele, são limitados. Mas há homens que não se conformam, para os quais olhar para o alto é uma afronta”, a mulher opinou. “Pelo bem de Babel, temos que capturá-lo ou matá-lo, caso não haja outra escolha. Não devemos tolerar um novo Nemrot. Se um juiz derrubou a Torre, é melhor não imaginar o que um sacerdote-mestre pode fazer...”, Eridu conduzia o pequeno e corajoso grupo. Se lograsse o que se propunha, desmascarando o grande inimigo, receberia mil condecorações e poderia almejar o posto de Anunnaki. O cinzento que foi a entrada, pois aquele edifício não possuía nenhuma porta, envolvendo-os com suas brumas, que os transportaram para dentro.

“Bando de tolos...Não entendo como puderam crer que tinham cacife para me desafiar. Pois bem, será divertido! Não acabarei com vocês em um instante, como seria fácil; terão que primeiro encarar os piores pesadelos que já imaginaram. Irei lhes ensinar que não se brinca com o que não se conhece...Uma pena que essa lição será absorvida tarde demais”, Raomash olhava através de um espelho de moldura carnosa, feita de ossos e revestida de pele humana ressecada e tingida de um verniz brilhante; em volta um laboratório de iluminação escassa, com retortas, pelicanos, panelas, um caldeirão e estantes cheias de pergaminhos, papiros e tábuas; havia um pentagrama na entrada, riscado em branco no chão negro, envolvido por um círculo no qual estavam escritas fórmulas de invocação e evocação, e outro próximo à única janela, com palavras de exorcismo e banimento. O sacerdote-mestre possuía uma idade avançada, a pele escura bastante enrugada, pregas maiores na testa e próximas dos olhos, os cabelos brancos assim como a barba grossa e o calombo encorrugido; entretanto, de seus olhos verdes claros emanava uma crueldade ainda fresca, um maquinar que nada tinha de juvenil, e sim vigoroso, com pequenas dobras em sua orelha que lembravam espirais e pareciam querer hipnotizar quem o encarava, fazendo as pessoas se perderem em meio a rodopios e vertigens audíveis.

Alguns dias antes, um imenso dragão vermelho-fogo, de quase trinta metros de comprimento, parara naquela região para beber água e comer algumas rochas; em verdade uma fêmea, como logo denunciariam os desengonçados e ao mesmo tempo graciosos filhotes que a acompanhavam, pegando-os carinhosamente com a boca e colocando-os em seu dorso quando se cansavam. Ainda estavam aprendendo a voar. Na expressão da criatura adulta, por mais que não sorrisse nem mostrasse um semblante humano, era possível para uma alma sensível discernir ternura. Contudo, não era esse o interesse dos que espreitavam: duas grandes pedras ali postadas começaram a se mover, ou melhor, a desgrudar os braços e as pernas antes fundidos: gárgulas sentinelas, de asas muito pequenas, que não eram porém os que ali se encontravam pela tocaia, tanto que a dragoa não reagira negativamente à presença destes; sentira que estavam ali para defendê-la do que vinha: um gigante de pedra cinza, de queixo quadrado e braços e pernas enormes, grossos ao extremo, sem nariz e olhos de pedras de fogo; um golem. “A natureza merece respeito”, um dos gárgulas se comunicou, porém não com o monstro artificial, que não possuía vontade própria nem individualidade, mas com “o covarde que se oculta nas sombras das árvores”; o réptil tentara levantar vôo, sendo detido por uma magia gravitacional que o prendeu à terra. A partir daí não tivera outra escolha a não ser cuspir labaredas em fúria, que porém não afetaram em nada o gigante de rocha. Os sentinelas eram a proteção, porém havia outro golem, que se desembrenhou das matas, este marrom e mais alto e delgado. Passava dos cinco metros, rápido demais, quebrando o pescoço de um dos defensores da dragoa num salto acompanhado de um golpe seco; ouvira-se um riso para dentro e o golem cinza se atracara ao pescoço de seu alvo, visando sufocá-lo com sua tremenda força. Os dragõezinhos tentaram fugir, dando de cara com Raomash, que fizera com que perdessem a consciência assim que o viram; “Não se metam, gárgulas. Os dentes dos dragões são meus”, em pouco tempo, todos ali, menos o mago, haviam perecido pelas mãos dos golens.

Para criar os seus “estúpidos”, como ele os chamava, juntava lama, pedras (só da primeira vez precisara levitá-las por conta própria; agora seus golens prontos as carregavam), nas quais desenhava os símbolos e escrevia as fórmulas apropriadas, pó e um pouco de seu próprio esperma, levando tudo a um forno do qual, após quarenta minutos, começavam a sair os primeiros urros. Retirava a criatura ainda incandescente e sem movimentos e a deixava secar por algumas horas, após aliviar sua dor com poções analgésicas, para só quando esta se encontrasse pacificada traçar mentalmente, em um plano sutil, uma roda no peito do que deveria se movimentar. Para desativar o golem, bastava que ele mentalizasse a roda se apagando.

De volta à torre com os quatro aventureiros, a sacerdotisa parou por um instante. “Já estamos andando neste corredor há mais de meia hora. Ele não tem fim, e as portas dos quartos são sempre idênticas. Acredito que estejamos sendo ludibriados”; “Se isso for verdade, nosso amigo pode desfazer esta ilusão”, Eridu falou e o cinzento espalhou outra vez sua névoa; entrementes, nada ocorreu. “A capacidade de criar miragens de Raomash pode ser superior a tudo o que concebemos. Talvez estejamos nos comportando de modo infantil”, opinou o sacerdote. “Agora não há mais volta. Temos que encontrar um meio de vencer. Ou saímos daqui com ele em correntes, ou simplesmente não sairemos”, e ouviu-se uma voz: “Vivos ou mortos...”, um pesadelo golpeou a mente do promotor: o cruel sacerdote-mestre podia querer não matá-los rapidamente, e sim mantê-los presos por dias naquele ambiente terrível, sem água, sem comida e sem saídas, somente na agonia de entrar em um quarto e não encontrar nada, em outro e não haver ninguém, conduzindo a uma morte lenta por fome, sede e loucura. “Ele sabe que estamos aqui”; “Tínhamos que ter imaginado isso, ele não é nenhum idiota”, comentou a sacerdotisa. “Você acha que eu não sabia que ele nos descobriria? Só não esperava que fosse tão cedo...”, nos aposentos que visitavam, e que se repetiam, peças e troças: pergaminhos sem nada escrito; velas solitárias; baús vazios; caveiras e instrumentos de laboratório quebrados. “Ele quer nos deixar loucos”; “Vamos fazer algo de concreto. É melhor não tentar combater ilusões com ilusões”; os três lomais se deram as mãos e começaram a entoar uma série de orações e fórmulas mágicas. O elfo cinza ficou à parte, observando-os, enquanto tinha início no corredor azul-escuro um terremoto; uma tocha se agitou, caiu e as chamas se alastraram; era a oportunidade: sem medo do fogo, o trio utilizou as labaredas para gerar luz, sublimando sua substância; o cenário derreteu na ofuscância, o cinzento foi obrigado a fechar os olhos, e ao reabri-los estavam em um salão amplo, com uma longa mesa de jantar, sofás estofados, estantes com escritos e escadarias, embora continuasse a se apresentar como um ambiente escuro, povoado de fugazes lâmpadas de claridade azul-fosca. “Nós conseguimos!”, Eridu vibrou. “Você não vai escapar, Raomash...Seu traidor, artífice das artes vis, que um dia fui ingênua e considerei um mestre!”, a sacerdotisa esfregou seus dedos uns nos outros.

O pavor chegou nos passos de chumbo que esmagaram o silêncio; os quatro se assustaram ao mesmo tempo, e não pelo estrondo, mas por aquilo que o acompanhava. O medo perscrutado de cada um, contudo, se manifestou de um modo distinto: frio no peito de Eridu; apreensão e insegurança nela; tremor nas mãos do outro lomai, com a própria saliva parecendo mais um óleo pegajoso; o coração acelerado e muito dolorido no elfo, que de repente ficou sem ar e se curvou.

“Ei! O que foi?”, o promotor não precisou aguardar muito tempo pela resposta. Que vinha descendo os degraus numa aceleração progressiva; manifestou-se, segurando machados brutos, mais de impacto do que de fio, nas mãos grandes demais para os pulsos de veias saltadas, um monstro de pele escura e acinzentada, em partes desbotada e em outras reluzente, com alguns ossos expostos, como diversas costelas e os dos cotovelos saindo para fora da pele, cabelos bastos e desgranhentos, empoeirados, e uma cabeça de dragão, se bem que de órbitas vazias, mais um crânio com pele, cujos dentes apresentavam dimensões descomunais; media mais de quatro metros de altura e logo se lançou contra os invasores, que ao se desviarem permitiram que golpeasse uma parede, fazendo-a em pedaços. “O que é essa coisa?”, inquiriu a sacerdotisa; a resposta chegou num acento especial aos ouvidos do elfo cinza: “Sim, cinzento, seus filhos estão vivos”, o cheiro... Pôde sentir o cheiro de suas crianças. Com certeza estavam próximas, mas onde? Precisava acelerar as coisas.

Saltou e desembainhou sua espada de duas mãos, longa, forte e ao mesmo tempo ágil, que porém se partiu ao se chocar com um dos machados do inimigo; a criatura emitia grunhidos bestiais e tinha uma força e uma resistência incomuns, suportando a evocação de espíritos do fogo feita pelos sacerdotes, absorvendo o calor em si, minimizando os danos na pele chamuscada e represando as chamas em seus ossos. O feitiço se virou contra o feiticeiro: os ataques adquiriram incandescência e a lâmina quente de uma das achas, além de cortar o pescoço do sacerdote e fazer sua cabeça voar para longe, incendiou todo o seu corpo. Indizível o desespero de sua companheira, que teve vontade de rasgar sua própria pele e arrancar seus cabelos naquele instante, soltando um grito de horror que soou como uma faca gelada no estômago de Eridu.

“Vocês nunca serão páreo para um guerreiro dente-de-dragão. É melhor desistirem”, o promotor já ouvira falar desse tipo de servidor sobrenatural: um guardião feito a partir do dente de um dragão, mantido na terra por dezoito dias e depois mesclado a carne e ossos humanos, em um procedimento que não conhecia. Raomash que sabia bem o que fizera. Mantinha-se sério no olhar para o espelho, conquanto internamente desse gargalhadas.

“Como o senhor é sádico, papai...”, uma voz familiar interveio nas costas do sacerdote-mestre, que não se voltou para fitar seu repentino interlocutor. “Acho que você não é o indivíduo mais indicado para me dizer isso...”; “Aprendi bem de certas pessoas”; “Você não passa de um rebento mimado. Sente-se e observe como se faz”; Rusgal aparecera em uma forma astral, sem sua armadura de Anunnaki, trajando uma leve túnica de dormir. “Como fez aquele dente-de-dragão? Eu diria que é uma obra-prima...”, Raomash sorriu, soltou uma curta e abafada risada, e seu filho bem sabia que quando ele fazia isso era porque estava orgulhoso, cheio de si. “Ele fará o que você quer; dará um rápido fim no traidor...”, referia-se a Eridu, e continuou: “O que me interessa é o elfo”, Rusgal alargava seu sorriso à medida que o monstro arrebentava a armadura do promotor e o sangue jorrava para fora junto com os pedaços de metal. A face do subordinado só apareceria deformada, e seus gritos de dor eram uma tremenda fonte de prazer para o juiz, embora não apenas; o elfo cinza, caído no chão ao lado da sacerdotisa, trouxe-lhe a agradável recordação de Hadapa. Enquanto as flores se abriam e os pássaros cantavam, as camadas dos jardins sucessivos vibrando, escorrendo e deslizando feito corpos de cobras em anéis de carne e escamas, ela sorria em sua direção; imaginou-se com seus lábios estendidos na direção dos dela e logo entregues às carícias mútuas, as massagens trocadas entre os dois pares de serpentes moles e sem cabeças, de um lado duas cinzas e as outras duas rosa-escuras. Transbordaram florestas luxuriantes de prazer, ondas de relva luzidias de suor, a carne da terra cinzenta lúbrica e macia para o toque das mãos que nela desejavam trabalhar; mais uma cobra deslizou pela grama, se ergueu e, após exibir suas presas, deixou cair de uma destas uma semente, que ao despencar no solo propiciou o surgimento de árvores altas e finas, que porém não tardaram a exibir frutos gordos e suculentos, de saboroso sumo e polpa macia. Entre maçãs e carne de coco, o líquido doce sem ser enjoativo. O sabor e o cheiro imaginários hipnotizavam as narinas desobstruídas, amaciadas, e a língua encharcada de saliva de Rusgal, que em seu corpo espiritual mantinha as coisas prevalentemente densas pelo exercício de sua criação psíquica; o invasor continuava estendido no chão e a cabeça da invasora acabara de ser cortada.



“Esse cheiro...”, o elfo cinza percebeu a familiaridade. “Talvez porque eu esteja delirando devido à proximidade do fim. Eles não devem estar mais aqui...Não sinto mais a presença deles. O mais provável é que estejam mortos e eu, me aproximando do limiar da morte, sinta ou suas presenças espirituais, reconhecíveis pelo meu olfato, ou simplesmente acesse lembranças e recordações, alucinando.”; não demorou a receber uma surpreendente resposta: “Você está certo e ao mesmo tempo errado, meu amigo...Meu inimigo...As suas crianças estão mortas”, ao ouvir isso de Raomash, quase que obteve novas forças para se reerguer; raspou o chão com suas unhas, cheio de ódio, imaginando garras horríveis em seu lugar. Contudo, não era um monstro, ao contrário de seu agressor, o guerreiro dente-de-dragão que o ergueu pelo pescoço com um dos braços, abandonando um de seus machados, e preparando o outro para o golpe final, porém detido pela intenção do sacerdote-mestre. “Mas elas estão, sim, aqui. Tente ser um pouco mais esperto”, o dente-de-dragão aproximou o corpo do elfo ao seu: a respiração ofegante da vítima e uma respiração ausente no monstro. “Não pode ser...O cheiro vem dessa coisa! O cheiro dos meus filhos!”, ódio, medo, raiva e tristeza se mesclaram no caldeirão anti-alquímico; o vermelho do sangue enegreceu. “Fique feliz. Em breve a sua carne terá a mesma utilidade da dos seus filhos. E quanto à sua alma...”, o mago puxou para si a essência vital do intruso; a imagem do elfo cinza surgiu em seu espelho, presa a este, numa expressão de agonizante inconsciência, com os olhos fechados e a boca entreaberta. A carne seria retalhada pelo dente-de-dragão e posteriormente trazida à presença de seu mestre.

“Já lhe falei de Hadapa, papai?”, Rusgal insinuou o assunto que desde o início quisera introduzir. “Mais uma...”, o velho sacerdote pigarreou, de costas para o juiz; “Não se cansa, moleque? Chega uma, você a captura em um momento de carência, lhe faz juras de amor, até que surja outra e a abandone”; “Fala como se fizesse melhor. O que fez com a mamãe, já se esqueceu?”; “Nunca me apeguei a nenhuma mulher. Você é diferente: não se apega a uma mulher, mas se apega às mulheres. Não faz o que deveria; não se impõe a disciplina necessária. Sei que desde o início não veio para me falar sobre seus receios em relação ao traidor”; “Ela é uma elfa cinza, pai. Não é uma mulher comum”; “Uma elfa cinza? Interessante, mas não passa disso”; “Tem certeza? Andei estudando a constituição física e genética dessas criaturas e ela será uma fonte de novas pesquisas. Estou desconfiado que através dela podemos chegar a algo superior. Uniões de lomais e cinzentos são estéreis, mas e se fundirmos pela magia um ao outro? Há quem diga que produziríamos uma espécie de sentidos corporais mais aguçados do que os nossos, mantendo intacta ou talvez melhorando a nossa capacidade psíquica”; “E de que utilidade isso seria para nós? Ficaria para as gerações futuras. O progresso da humanidade não me interessa quando não posso usufruir dele. Se ao menos conseguisse a fórmula do ich, o lendário elixir dos elfos brancos...”; “A imortalidade pode ser possível de várias maneiras”; “Sugere que tentemos transferir nossas almas para esses corpos mistos de lomais e cinzentos?”; “Por que não? Muito melhor do que tentar isso com homúnculos”, recordava-se com asco dos experimentos de seu pai, os caixões metálicos de contornos humanos de diversos tamanhos e constituições, nos quais colocava sangue, carne humana, água e seu próprio sêmen; após fechar um destes, apoiava suas mãos na tampa, concentrava-se em criar um elementar, um ser astral artificial, fruto de seu pensamento, programado para realizar determinadas funções, e, quando a formação se concluía, insuflava-lhe vida pela convocação dos espíritos do ar, soprando em sua direção, e o lançava para dentro do recipiente, dentro do qual desacelerava sua vibração, adensava sua matéria e fazia com que assim se introduzisse nas substâncias orgânicas como uma essência vital; por fim abandonava o ser, até que ouvisse as batidas na tampa e pudesse retirar de dentro, depois de algumas horas, o pseudo-humano gelado e agonizante, saindo na maioria das vezes deformado: ali estava o homúnculo, e os tinha em sua torre às centenas, alguns anões, outros gigantes assustadores. Contudo, jamais conseguira transferir sequer um elemental da natureza ou a alma de algum animal para qualquer um destes; o espírito se dissipava e a experiência terminava em fracasso. “Acha que pode conseguir resultados melhores? Pois vá em frente...Eu duvido muito.”; “Deveria usar materiais melhores, papai...”, geralmente Raomash usava, na feitura de seus homúnculos, diferentemente dos dentes-de-dragão, nos quais uma inteligência avançada nunca seria possível, dominados pela raiva inflamada do dragão agredido que lhes dera origem, mais partes de homo erectus, que na visão de Rusgal não passavam de macacos de pouco valor. “O intelecto deles é pequeno, mas são humanos como nós. Não terá resultados melhores com mais ou apenas carne de lomais e elfos cinzas. Só arriscará vidas de cidadãos de Babel...”; “O que o senhor faz o tempo todo? Não fale como se fosse um alma bondosa! Se eu for bem-sucedido, como acredito que serei, tenho certeza que correrá até mim para ter um novo corpo, jovem e sadio...”; “Estou sadio”; “Pare com isso! Sabe que não passa de um decrépito; você não é eterno...”; “E como pretende evitar as deformidades? Vaidoso como é, duvido que aceite um corpo feio, por mais saudável que seja. Nunca consegui compreender por que noventa por cento dos meus homúnculos são de aparência monstruosa, por mais esforços que eu faça, por mais bela que seja a imagem que visualizo no astral. E não vá me dizer que é porque uso mais carne e sangue de erectus...”; “Talvez não esteja se concentrando direito, papaizinho”; “Não seja debochado! Estou falando sério e quero respostas sérias da sua parte e se quer que eu o apóie”, por fim se voltou para o sorridente corpo espiritual de Rusgal, os olhos cheios de ira. “Por que para as pessoas é tão difícil manter a calma? O descontrole só produz monstros”; Raomash viu faces horrendas no ambiente astral à sua volta e bufou. “Por mais que seja turrão, sabe que estou certo. A concentração do senhor ainda é imperfeita”; “Então por que nunca me ajudou ativamente?”; “Nunca tive interesse em homúnculos. Tenho interesse em seres humanos. Nas criações de Deus, não nas criações humanas. Eu quero ser Deus. Será que agora me entende? Os meus objetivos não são pequenos como os seus, meu amado pai”; “Duvido muito que alcance o que se propõe”, a resposta partiu com um ar cansado; “Mas sei que estará aqui me observando, pronto para usufruir caso eu tenha sucesso”; “As probabilidades são mínimas, mas sempre existem”; “O senhor...Você nunca foi um homem de subestimar sequer a menor probabilidade; só reluta em aceitar as minhas propostas porque fui eu quem as elaborou. O seu orgulho não lhe permite reconhecer que alguém possa se alçar acima do humano e, portanto, acima da sua existência mesquinha. Na verdade, seu medo é que seus escravos se rebelem, por isso usa a carne de erectus, com temor que a memória celular de um lomai ou de um cinzento desperte, o cérebro do homúnculo cresça e ele possa se revoltar contra o seu próprio criador, já que não existiria, como nos dentes-de-dragão, um impulso selvagem para bloquear sua inteligência, irrompendo com poderes improváveis, mas cogitáveis, já que mesclas e mutações poderiam gerar uma espécie com dons superiores, conquanto o mais provável seja o contrário. Só que você nunca exclui nada...O seu medo não permite isso; você teme até as mulheres, como temia a minha mãe. Era só a você mesmo que se referiu quando falou de arriscar vidas...Não quer arriscar a sua, a do único cidadão digno de Babel!”; “Rusgal, já chega...”; “Desta vez esmagou os dentes uns contra os outros para impedir a raiva de pular pela boca; muito bem! Está começando a aprender a se controlar...”; “Seja como for, aceito o seu desafio”; “Encara como um desafio? Que olhar pequeno...Eu encaro como o objetivo magno da vida. Mas você não poderia pensar diferente, seria esperar muito. Nos vemos em breve, papaizinho!”; “Não precisa voltar tão cedo...”, assim que Rusgal desapareceu, Raomash sentiu a sua solidão mais do que em qualquer ocasião anterior; estava só...Muito só; sempre só. Por um instante viu o filho quando criança; um menino odiado. Quando o desejara? Tolos os que consideravam seus filhos extensões de suas vidas, demonstrações de uma certa imortalidade. “Não passam de estultos escravos, submetidos aos condicionamentos da espécie!”, ouvia sua dor, um cone de vidro pontiagudo penetrando em seu orifício auditivo. Um massacre de palavras feias e rachar de vozerios; abaixou a cabeça, encarando a alma presa em seu espelho com os olhos baixos e uma expressão de desprezo, não para com o cinzento, mas para consigo mesmo. Via a si sem reflexo; via apenas uma alma roubada. Para onde iria? Para onde se levaria?






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