Marcello salvaggio



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Encontro03.05.2017
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Negociantes

Recém-chegada a Babel, Hadapa sentia sua língua arder de sede junto com sua pele, incomodada por completo pelo calor urticante que castigava a multidão na qual estava embrenhada; encerrada a chuva intensa que castigara a cidade na madrugada e durante a manhã, o sol do começo de tarde se mostrava impiedoso e, unido à umidade, produzia uma alergia irritante na elfa cinzenta, o nariz coçando ainda mais pela poeira acumulada nos tecidos expostos pelo mercado agitado. Perturbavam-na os berros mentais dos comerciantes, as vozes telepáticas estridentes ou gritadas, altas demais, lançadas para o ambiente, e como era característico de sua espécie escutava com uma intensidade muito maior; se para um homo sapiens comum, sem nenhum tipo de treinamento e capacidade telepática, a imensa feira pareceria entregue a um bizarro silêncio, para Hadapa estar lá era uma tortura. E procurava por comida, não por toalhas, tapetes, panos ou roupas: já vestia uma túnica negra curta, bem abotoada, e botas altas; elegante, tinha por volta de um e setenta de altura, pele cinza-escura, quase negra, orelhas pontiagudas, olhos mais claros e atraía os olhares de muitos lomais por sua aparência exótica. “Ainda não vi nenhum elfo cinza por aqui. Será que sou a única? Não, é impossível...”, cochilara em um beco das cinco às nove da manhã; por sorte encontrara um toldo para se abrigar da chuva e só não se incomodara com os ventos. Adorava receber o ar no rosto; e graças às poças e excesso de água em volta não fora abordada por ninguém. No entanto, não tivera assim tanto sossego, com um olho aberto e o outro piscando, e se sentia suja. Não via a hora de experimentar as termas públicas, que pelas indicações estavam no caminho; antes disso só precisava comer alguma coisa. Como não tinha dinheiro (naquela sociedade medido por moedas de pedra, bronze, prata e ouro), teria que recorrer a outros meios...Sua característica agilidade das montanhas se provaria vital na cidade.



“Cinzenta...Você está presa.”, sua mente se achava alegre e dispersa quando de súbito alguém a deteve no meio do mar de gente; a voz mental metálica e a palma da mão estendida à sua frente a empurram para trás e teve a impressão de engolir o próprio coração com o susto; encarou com perplexidade o mascarado de armadura negra de detalhes avermelhados postado à sua frente, o elmo redondo e a falsa face que lembrava uma caveira de aço, as ombreiras alertas, equipadas com estranhos canos, e uma capa escura nas costas. “Eu não fiz nada. Acabei de chegar a esta cidade. Quem é você e o que quer de mim? Assim que recebem os forasteiros?”, as pessoas em volta se afastaram, criando um vão exclusivo para a elfa cinza e o indivíduo. “Eu sou um promotor. Forasteiros trabalhadores e bem-intencionados serão sempre bem-vindos, mas não queremos ladrões em Babel”; “Do que você está falando?”; “Pelo visto não conhece o nosso sistema de justiça...”; “Pelo visto é melhor nem me contar...”; alguém berrou: “Prendam essa elfa! Está atrapalhando o meu comércio!”; o promotor ignorou o apelo e prosseguiu: “Vou contar...No fundo, é muito simples: nós, os promotores, somos telepatas e clarividentes muito bem treinados para realizar a nossa função. Lemos as mentes de todos os que passam pelas ruas da cidade, todos os dias, o tempo todo enquanto estamos em serviço, e identificamos assim as intenções dos futuros criminosos, descobrindo-os e prendendo-os antes que cometam qualquer infração. Você estava procurando frutas para roubar”; Hadapa ficou embasbacada. “E a nossa autoridade é absoluta. Não pode fugir da prisão. Apenas um Anunnaki tem autoridade para alterar as nossas sentenças”, um delinqüente em Babel só escapava portanto da punição se também tivesse poderes paranormais extremamente desenvolvidos, impedindo a invasão psíquica, ou usasse um bloqueador mental, um amuleto que impedia a sondagem e leitura de mentes por clarividentes e telepatas, ou contasse com a ajuda de pessoas que disponham de tais poderes, ou se tinha poder político e econômico suficiente para intimidar ou subornar as autoridades. Pequenos delitos eram punidos com detenção de poucos dias, chibatadas, multas ou prestação de serviços; a reincidência crônica em infrações menores e crimes mais sérios com a escravidão, e os crimes mais graves com a redução à condição de “não-pessoa”. Cidadãos, em caso de endividamento, não podiam ser escravizados, o que ocorria aos estrangeiros endividados, mas a redução à servidão era inevitável. “Nenhuma autoridade é absoluta; toda a autoridade é criada e sujeita a contestações. Se você acha que irei me submeter, está muito enganado!”, Hadapa arrancou em uma velocidade inatingível para um lomai. Suas pernas lembravam as de uma gazela. Contudo, o promotor disparou alguns dardos dos tubos em suas ombreiras, que ao atingirem as panturrilhas da cinzenta, furando suas botas, impediram seu salto e a fizeram rolar na poeira e parar no chão sob os olhares curiosos e impressionados dos passantes, que se mantinham ligeiramente afastados enquanto a autoridade se aproximava.

“As minhas pernas ficaram dormentes de uma hora pra outra! Filho da puta...Lá vem ele, com toda essa falsa imponência!”, pensou. “Por desacato à autoridade e palavrório chulo a meu respeito, a sua pena será agravada”. Ele foi claro. “Mas como pode? Você ouve qualquer coisa que eu pense?? Como me entende, se não penso em lomai?”; “Esqueceu-se do que eu disse? Somos telepatas muito bem-treinados. Lemos os conteúdos dos pensamentos e suas intenções, independentemente da língua com a qual se manifestam em sua mente.”, ela não podia mexer a parte inferior do corpo. “Maldita a hora em que fui expulsa da comunidade. Aqueles desgraçados! Em todo lugar que vou, sou julgada e condenada! Será que não encontrarei paz?”, questionou-se, projetando no promotor a raiva que sentia por seus desafetos antigos.

“Pare, Eridu! É uma ordem!”, ecoou uma voz possante feito um ribombo metálico; as pessoas se afastaram mais. Hadapa sentiu o cheiro do aço e ouviu o som dos passos pesados; só não conseguia ver do chão a figura diante da qual o promotor se curvava de joelhos: passava de um e oitenta de altura, todo revestido por uma armadura branco-prateada cujo elmo fechado lembrava a cabeça de um carneiro, enquanto que nas costas usava uma capa da mesma cor com a discreta insígnia dos Anunnaki, a cabeça do Leão, em branco. “Vou levá-la comigo. Serei o fautor e condutor deste julgamento”; “Perdão pela minha impulsividade, meu senhor...Só gostaria de lhe fazer um pedido”, Eridu aguardou a autorização de seu superior antes de dizer o que queria. “Diga, o que você quer?”; “Ela me insultou. Poderei participar do processo e contribuir na execução da sentença?”; “Não”, a resposta do juiz foi dura e seca, gelando o seu subordinado, que engoliu uma saliva áspera que chegou a machucar sua garganta. “Retire-se”, o Anunnaki deu as costas ao promotor e foi para mais perto da cinzenta, que não escutara o que haviam dito entre eles; ouviu os passos do que a capturara, pesarosos, com uma vergonha embutida, bem perceptível para alguém de sua espécie, ficando cada vez mais distantes.

“A sua voz é muito musical. Faço questão de ouvi-la mais vezes...”, disse o desconhecido, que causou em Hadapa, que tentava mas não conseguia entender a situação, um pavor opressivo. “Não tenha medo. Posso ouvir os seus pensamentos tensos, seus pedidos mentais de socorro; e vim aqui justamente para isso: para acudi-la...”, moveu a mão direita, da palma da qual se materializaram alguns grãos brilhantes de uma poeira branca. Espalhou-os sobre as pernas da elfa, que, quando se deu conta, mexeu os dedos dos pés e percebeu que podia voltar a se movimentar. “Levante-se. Vamos andar um pouco...Para que eu possa admirar as suas belas pernas!”, ergueu-a pela mão direita. Estava assustada, um pouco menos agora, e ao mesmo tempo admirada. “Quanto a vocês, circulem! Não metam os narizes onde não são chamados”, advertiu as rodas de curiosos, que sabiam bem quem ele era: o juiz Rusgal Halat, célebre por ser impiedoso com os homens, especialmente rígido com seqüestradores e estupradores, e tépido com as mulheres jovens e atraentes, para as quais conseguia aliviamentos, penas brandas ou mesmo a absolvição, dependendo do crime, em troca de certos favores...



“De onde você vem, jovem cinzenta? Claro que não cometeria a indelicadeza de perguntar o seu nome antes de me apresentar: sou Rusgal Halat, um dos Anunnaki”, à menção desse detalhe ela o encarou com espanto. “Não se assuste; sou um ser humano tão transitório e vulnerável quanto você...”

“Meu nome é Hadapa. Venho das montanhas ao norte deste vale”; “É um imenso prazer conhecê-la. Diga-me, Hadapa: o que a trouxe à nossa cidade?”; “Caminhada com interrogatório?”; “Você não fez nada. Não se preocupe, não sofrerá nenhuma acusação”; “E para onde está me conduzindo?”; “Não tentaria fugir... Ou tentaria?”; “Por que me pergunta isso?”; “Se tentar escapar, o que fatalmente irá resultar num fracasso, não poderia mais considerá-la inocente”; “Você leu as minhas intenções. A justiça aqui, ao mesmo tempo em que é invasiva, é também bastante arbitrária”; “Temos leis bastante rígidas e precisas. Mas nós, juízes, temos o poder para interpretá-las de acordo com cada circunstância. Se quer mesmo saber, estamos indo não para a corte; estou levando você para o meu palácio”; “Já sei o que quer de mim...”; “O quê?”; “Não se faça de sonso. O que os homens sempre querem das mulheres...Mas não será assim tão fácil!”; “Salvei a sua pele e é dessa maneira que reage?”, era muito irônico, cínico e indiferente ao atrevimento dela. “Esqueci mesmo de agradecer. Obrigada...Mas aquele subordinado seu era mesmo um paspalho”; “Um paspalho, sim; mas que a fez passar por maus bocados”; “Essa conversa está me deixando nervosa”; “Pelo visto é impaciente, se irrita com facilidade; amaciarei essa dureza...”; “Não vai fazer nada que eu não queira. Prefiro que me prenda”; “Então ficará presa no meu palácio!”; “Onde foi que eu me meti?”; “Ouvi esse pensamento...”; “Filhos da puta! Não posso pensar em nada sem ser vigiada”; “Este meu capacete é um bloqueador mental, que sigila pensamentos menos para quem eu desejar que me ouça. Ao menos bloqueei nossa conversa para que ninguém mais possa ouvi-la; as repercussões seriam terríveis se alguém a ouvisse proferir um palavrão contra um Anunnaki”; “Eu digo e repito: filho da puta desgraçado”; “Você é bem rebelde e desbocada, do tipo que mais me diverte! Diga-me agora: o que a trouxe a Babel? Veio em busca de fama e riqueza?”; “Por que não entra na minha mente e descobre?”; “Achei que isso não seria educado. Mas já que pede, está bem...Agora já sei que foi expulsa da sua comunidade...”; “E sabe o motivo também?”; “Acusada injustamente de traição. De ceder informações à tribo rival, quando na verdade só estava apaixonada por um jovem elfo que pertencia a ela, e se encontravam às escondidas. No fim, foram pegos em flagrante, ele foi executado e você exilada; considerada morta segundo os costumes. Ao tentar falar com as pessoas, fingiam que não a viam nem ouviam, até choravam pela sua partida, ou lamentavam o fato de ter tido uma morte tão inglória...”; “Não é possível que você tenha descoberto tudo isso em poucos segundos!”, chegaram a uma torre dourada, repleta de esculturas de leões, e foram para o topo por meio de um elevador transparente, lá onde uma nave particular os aguardava. “Não vamos discutir agora. O passado está morto”, naquele “morto” dito com ênfase, Hadapa percebeu que ele caçoava mais do que explicitamente de seu falecido amado. “Como se atreve?”, mas a atrevida ali, naquela situação, era ela. “Não me importo com o que você foi. E a sua voz me dá prazer demais para me deixar nervoso. Quero ouvi-la cantar. Em Babel os apreciadores da música são muito raros; eu sou um deles”; “Não sou cantora. Não tenho formação musical.”; “Os elfos são musicistas natos. Estou disposto a negociar com você: me dê prazer e eu lhe darei conforto e sabedoria”; “Sabedoria?”, não esperava essa proposta. “Sempre senti um imenso fascínio e um carinho inexplicável pela cultura élfica, desde as lendas dos antepassados de sua espécie, os antigos elfos brancos, que se diz que falavam através da música. Mas mesmo entre vocês, seus esmaecidos descendentes, é difícil encontrar alguém que chegue aqui e valha a pena. Fato que sempre sonhei em ter uma elfa como amiga, aprendiz...e amante! Quantas vezes sonhei que me achava nos braços escuros de uma bela cinzenta! Com o rosto entre as pernas dela...”; “Você é nojento!”; “Acredito que você é a enviada do meu destino. Era com você que eu sonhava”; “Não vou fazer nenhuma dessas coisas em que está pensando”; “Nem se eu lhe ensinar a manipular os elementos e a respeito dos espíritos e dos segredos que eles guardam?”; “Então você também sabe que me interesso por magia...”; “Vi uma imagem em sua mente...Pergaminhos. E não eram livros quaisquer. Continham selos e signos mágicos. Embora não saiba ler, tem muita vontade de aprender e curiosidade em conhecer seus significados. E não para metas ordinárias...”; “Pelo visto, estou negociando a minha própria prisão. Apesar de não ter roubado a comida, estou presa de qualquer maneira; só posso escolher que tipo de pena me cabe”; “Nada disso! Deveria estar imensamente feliz. As artes mágicas lhe darão a liberdade e você sabe disso! Quem sabe trazer a vida de seu amado de volta, ou ao menos propiciar uma comunicação clara e constante”, uma imensa lista de impropérios e palavrões dos piores tipos foram proferidos contra Rusgal; que não se abalava com nada.

Sentaram-se confortavelmente nos assentos estofados; quando a nave levantou vôo, ele por fim tirou o elmo que lhe cobria o rosto, revelando os longos cabelos castanhos ondulados, divididos ao meio, e o rosto de feições aquilinas, tez morena-clara, barba bem-feita e olhos verdes que de tão glaciais chegaram a gelar a camada mais externa da pele de Hadapa. “Que tal jogar um pouco? Vamos demorar alguns minutos para chegar ao palácio”, ela tentou dissimular a todo custo que o considerara atraente, mesmo sendo um lomai; mas ele percebeu e seu cinismo só crescia. Colocou na mesa de madeira entre os assentos o baralho de sessenta cartas divididas em seis naipes, numeradas de um a dez, entre machados, martelos, flechas, rodas, lanças e espadas; o jogo que ele tinha em mente servia para treinar a clarividência, tendo um jogador que adivinhar as cartas do outro havendo falsificações por imagens mentais. “Não estou com a mínima vontade de jogar nada...”, preferiu ficar em silêncio, ou ao menos se esforçando para isso, apavorando-se a cada pensamento que tinha e, ao olhar para Rusgal na seqüência, sem conseguir se controlar, ficava irritada principalmente consigo mesma ao vê-lo sorrindo em sua direção. Queria ver só o que havia além do vidro da janela, e chegou a sobrevoar as ruínas da famosa Torre de Babel.

“Chegamos, minha cara...”; “Não me chame assim”, desceram em um dos terraços de um estonteante conjunto de torres e casas de luxo, onde prevaleciam o púrpura, o dourado e o vermelho vivo, circundado primeiramente por uma muralha e depois por jardins concêntricos. “Agora começou a mudar de idéia?”, nunca antes ela tivera tanta suntuosidade aparentemente à sua disposição. “Não espere pela vida! Não negocie sua tolice. Avance e prove do melhor...”

— Está bem.– Ela respondeu oralmente, sem sorrir, mas com uma expressão satisfeita. Ele que não conteve o alargar de seus lábios diante de tamanho deleite aos seus ouvidos, pela musicalidade, não pelo significado das palavras, de um idioma para ele desconhecido. Nem fez questão de ler o conteúdo mentalmente; o sentido não importava...









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