Marcello salvaggio



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Encontro03.05.2017
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Reações

Maior cidade de seu tempo, com oito milhões de habitantes distribuídos em uma área superior a mil quilômetros quadrados, Babel impressionava por sua organização e exuberância. Suas ruas e avenidas, pavimentadas com grandes placas rochosas vidradas em cores próprias, possuíam desenhos em cada pedra, feitos no vidro, de acordo com o nome de cada via, sendo a principal, a do Leão, toda em dourado, não só com fileiras e “exércitos” de felinos como estes representados em momentos de descanso ou ternura, entre palmeiras, tamareiras, figueiras e filhotes.

Contava com um eficiente sistema de iluminação pública, encanamento, esgoto e bombas, por meio das quais traziam para as habitações as águas do Tigre e do Eufrates. Sendo as construções mais comuns casas de três a cinco andares com preferências por formas cúbicas e pórticos altos, primava pelo comércio, feiras e mercados espalhados por todo o perímetro urbano, com destaque para a exportação dos famosos cobertores e tapetes bordados com ouro e prata e para os centros específicos de vinhos, especiarias e incensos, azeites, pedras preciosas e marfim, carnes e laticínios; as classes sociais se distinguiam com facilidade pelas roupas: negociantes e artesãos e artesãs ricos com vestimentas de lã e seda repletas de fios de ouro e bordados coloridos; os sacerdotes e sacerdotisas de túnicas inteiriças de valioso púrpura, eventualmente estolas, anéis e colares de pedras preciosas; serviçais e pessoas de baixa renda passavam pelas ruas em camisas, coletes, saias, vestidos e calças marrons ou esverdeadas, sem adornos; prisioneiros e escravos eram vestidos de cinza; e os funcionários do aparato jurídico-militar, que constituía um setor unificado, costumavam usar armaduras variadas, de acordo com seu status, sobre túnicas leves de colorações idênticas às da armadura utilizada, sendo as mais bem-trabalhadas as dos Juízes de Babel, os Anunnaki (“braços de Anu”, literalmente, sendo Anu o deus supremo de seu panteão), que constituíam o topo da hierarquia social ao lado do sacerdote-mestre.

Notável a arborização, com árvores e plantas de várias espécies nas laterais das vias, que além dos pedestres apresentavam poucas carruagens e carros de bois. Os veículos aéreos, muito difundidos, eram os principais responsáveis pelo transporte dentro e fora da cidade, exclusivamente públicos, a não ser os dos juízes, reservados a estes, e com percursos pré-definidos; decolavam verticalmente, controlados a partir das torres centrais de cada aeroporto, com um piloto e um co-piloto manuais em seus interiores para qualquer emergência; os computadores de bordo e controle obedeciam também aos comandos mentais dos lomais e havia três tipos de aeronaves: circulares, com domo e portinholas, com capacidades de cinqüenta a cem passageiros sentados, para o uso corriqueiro; cilíndricas, de carga, comércio e guerra; e as em forma de pires para o turismo. Proliferavam inúmeros tratados e manuais de vôo (os “livros” em Babel podendo ser tanto as tradicionais tábuas de argila como pergaminhos ou papiros), com temas como decolagem, construção, aterrissagens normais ou forçadas, possíveis colisões, precauções com vôos longos e tempestades e uso da energia solar, que constituía a principal fonte dos veículos, feitos com materiais que facilitavam a absorção de luz e calor e contendo equipamentos próprios para impedir incêndios e regular e armazenar a energia. Podiam possuir de dois a mais motores, alguns dos quais culminavam em pequenas esferas de vidro que terminavam em cones contendo pingos de compostos de mercúrio, que funcionavam como combustíveis auxiliares.

Babel estava repleta de torres de topos largos, nas quais os usuários utilizavam elevadores para descer e subir; estas serviam como pontos de pouso para as naves do transporte público.

O palácio da corte dos juízes, por sua vez, tinha uma aparência sombria por fora, uma fortaleza agressiva, de imensas muralhas fortificadas, tão larga quanto alta, uma urbe palaciana cobrindo vários quarteirões, por dentro com seus edifícios cercados por um cinturão verde de ciprestes e outras árvores, e cada prédio em seu interior cheio de altos-relevos nas paredes, algumas revestidas por lâminas de ouro, cuja principal temática era a natureza, variando de florestas e montanhas ao mar e a praias.

O que mais impressionava os turistas, no entanto, eram sem sombra de dúvida os jardins elevados, em sucessivos terraços ascendentes, sustentados por abóbadas de tijolos e embaixo dos quais ficavam aposentos refrigerados pela irrigação artificial, reservados aos sacerdotes para cerimônias específicas. O jardim mais alto chegava perto do topo da insigne Torre de Babel, por seus habitantes chamada simplesmente de “A Torre”, que ultrapassava os trezentos metros de largura na base e chegava aos oitocentos de altura, tendo no alto uma pirâmide de cinqüenta metros e topo quadrado, banhada a toneladas de metal precioso, a morada do sacerdote-mestre.

Toda esta descrição para chegarmos ao próprio em sua época, Zurvan, o sábio, que acabava de entrar em seu salão, paradoxalmente, como se fosse um intruso. Caso se dissesse que não tinha medo estaria mentindo, e contando a si mesmo uma mentira das grandes. “Me enganar a troco do quê? Só sei que tenho que enfrentar, ou será o fim de toda a nossa autonomia mental”. Quatro pentagramas, desenhados no chão dourado respectivamente em amarelo escuro, verde, azul e vermelho, ocupavam os quatro cantos do ambiente; ao centro ficavam três círculos concêntricos em branco, repletos de inscrições, que ao se observar com mais atenção se reconheciam como uma serpente enrolada cuja cabeça apontava para o canto extremo, ao leste, o local do trono, cujo ouro esculpido imitava a pele de uma cobra, de estofo vermelho, antecedido por um triângulo dentro do qual havia um círculo, figuras de extrema sutileza e indefinível harmonia geométrica. Zurvan sentiu a protuberância entre suas sobrancelhas arder e emanar uma vontade extrema de afundar para dentro de sua cabeça, num pânico e numa asfixia que tentou solucionar com a intensificação de seu apuro psíquico consigo mesmo, afastando as intenções que vinham para feri-lo; sua pele, morena clara, aos poucos ficava esquálida. Passou as mãos pelos longos e espessos cabelos prateados e os olhos verdes também davam a impressão de clarear; como supremo sacerdote de Babel, sua longa veste escura apresentava a representação de uma serpente em ascensão nas costas, vermelha, e usava braceletes de ouro puro que aludiam ao mesmo animal; os diamantes contidos nos anéis dos dedos indicadores de suas mãos, contudo, racharam quando seu olhar se chocou com o do usurpador em seu trono, um indivíduo por demais estranho, pouco mais alto, passando dos dois metros de altura, a pele branca como a neve e os lábios e olhos totalmente negros, sem pupilas, assim como os cabelos curtos, trajando uma armadura de diamante negro, inclusive as asas de águia em suas costas, e com uma expressão de triunfo e certeza; o calombo entre suas sobrancelhas desaparecera, o que o outro notou com decepção. “O destino nos pertence...Mesmo assim insiste em se opor ao inevitável, meu amigo?”, inquiriu telepaticamente aquele lomai macilento, com uma voz gutural.

“Se o destino nos pertence, como disse, tenho o direito de me opor e não me conformar com nada que seja inexorável. Eu tomo minhas decisões. Faço da minha vontade o artista que esculpe o universo”, replicou Zurvan, com sua voz grossa e rouca que se fazia ouvir pela mente.

“A pressão do ar será tamanha que todas as suas estátuas serão feitas em pedaços.”



“Basta-me uma única estátua...A minha própria. Não possuo o desejo de criar um exército de pedra. De qualquer maneira não irão se mover, a menos que os empurre, e não tenho ambições militares nem vaidade de comandante guerreiro, que louco se põe a gritar para as estátuas e a exigir que andem e obedeçam ao seu comando como se fossem soldados reais...Busco apenas minha obra-prima: eu-mesmo.”; “Pretende admirar a sua própria imagem por toda a eternidade?”; “Reconhecer em Mim a face do Eterno é a única possibilidade para escapar da cabeça da serpente. Caso contrário, ela me devorará, pois sou lento demais para escapar por terra e ela é veloz demais quando rasteja; a única estátua viva possível desenvolve asas naturais. Um paradoxo...E ao voar ela deixa de ser estátua para se tornar anjo”; “Você tem medo de se perder... Por isso quer fugir para os céus. Mas saiba que aqui não é diferente de lá; da mesma maneira que no Paraíso, tudo o que está à nossa volta neste universo é projeção de nosso Ser. Só existem os que se dão conta de que é o Eu que cria o mundo; e não somos nós...Somos Eus. Os objetos não passam de partículas arranjadas de uma determinada forma, não têm nenhuma realidade além das representações que enxergamos; o que dá consistência a eles é a observação à qual a nossa Consciência os submete. Nós despertamos para isso: que a mente é a única forma de existência. Por que desistir agora e voltar para trás? Temos a oportunidade de experimentar isso na prática. Se os outros não se deram conta disso, que arquem com a própria ignorância! Servirão para que realizemos nossas experiências. Fechamos os olhos e tudo deixa de existir; dentro de nós, na escuridão total, só o fenômeno perceptivo tem continuidade, persiste. Se somos privados da consciência, se ficamos em coma absoluto, que valor resta para o cosmo? Qual a graça, qual o perfume? Ilusão...Acreditar que somos dispensáveis e preferir reputar uma consistência objetiva ao mundo é a pior das auto-ilusões. Do que temos comprovação? Do que vemos? Pois são átomos agregados de determinadas formas, não há objetos concretos, e tudo o que enxergamos, entre cores e contornos, ou tocamos pelo tato, encontra-se limitado ao que os nossos cérebros conseguem decodificar; a totalidade nos escapa, e qualquer outro animal enxerga a realidade a seu próprio modo. Quem é mais preciso? Devemos recorrer aos odores e gostos que sentimos? Podemos estar sob efeito de hipnose da parte de algum ente manipulador. Afora que outros seres vivos sentem certos cheiros com uma intensidade muito maior, e outros não conseguem apreciar determinados sabores. Os próprios seres humanos entre si não possuem um paladar objetivo, há os que precisam de muito sal para saborear uma comida, outros não fazem a mínima questão, sentindo o gosto supostamente “inerente” ao alimento. O cheiro insuportável para uns é afrodisíaco para outros; tudo é auto-ilusão imposta, por nossos cérebros, pela genética, pelas imposições psicológicas e por nossa sociedade. Os dados obtidos do mundo podem não ser resultado dos cálculos intuitivos de um único Eu, porém são dados que devem sua existência ao conjunto dos Eus; populações em terras geladas discernem diversos tipos de neve e tons de branco diferentes no gelo, que teoricamente jamais perceberíamos. Eu quero perceber tudo. Quero explorar o verdadeiro potencial da minha mente, do meu Eu, compreender a verdadeira capacidade de observação da minha Consciência; quem me garante que o mundo continue a existir se eu me extinguir? Talvez nossas existências estejam ligadas de maneira intrínseca; você me mata e continua a existir...Isso seria uma prova? Claro que não! Porque você continuará existindo, e nunca saberá se ao morrer o mundo deixará ou não de existir. O mundo espiritual por inteiro também pode ser um sonho...E a história, o que temos de registro do passado, memórias falsas criadas como justificativas. O Eu pode ter sido criado há milésimos de segundo atrás, com as memórias já prontas, e seu futuro também está pronto, a menos que tenha a coragem de Observar...”; “Observar é a finalidade da minha obra-prima...Você não me entendeu?”; “Você quer se libertar do mundo. Mas para isso é preciso partir da crença que ele existe; e a sua crença o mantém preso. Como irá saber quando se libertou? A armadilha do universo é fazer você acreditar que precisa transcendê-lo, e ele lhe dá uma impressão de vastidão, de infinito, quando o que há dentro de Mim da mesma maneira se mostra insondável e sem fronteiras. Estabelece-se uma fé que os fenômenos possuem ‘leis’, mas jamais conseguimos abarcar essas ‘leis’ em sua completude...É possível que elas só funcionem porque acreditamos nelas. E não adianta dizer ‘eu não acredito’, ou ‘vou tentar contestar’, porque a crença se tornou tão intrínseca, tão visceral, que o seu subconsciente já a impôs; passa a ser um condicionamento arraigado que cria uma armadura biopsicológica em seu corpo, um peso excessivo que lhe tolhe a liberdade de saltar à vontade. E você pode muito bem não se dar conta do peso que carrega, não ver a armadura, mas ela está lá, e foi você mesmo que a vestiu.”; “O que mais questiono nos seus argumentos é a incompatibilidade com a sua conduta; alguém que não respeita os outros Eus não pode dizer que é o Eu a única certeza válida e evidente. Os objetos podem servi-lo; mas não têm o direito de tornar outras consciências escravas.”; “Ao não se darem conta de que são elas que moldam à realidade, estão sujeitas a serem consideradas objetos. E não adianta me dizer que elas sentem, que pensam. Porque o pensamento por si só é abstrato, estéril, improdutivo; e as sensações e os sentimentos passam pelos filtros dos sentidos, que são limitados e estão obstruídos; minha meta é verificar se um objeto pode se tornar Consciência. O contrário já foi provado que é possível.”; “Onde está Inana?”; “Ah! Apesar de dialogar comigo, de tanto tentar em vão buscar contra-argumentos à minha Observação, no fundo o queria era fazer apenas uma pergunta...Essa pergunta! Agora entendo por que seu raciocínio estava tão debilitado, sua mente tão fragilizada...E o desculpo. Deveríamos dialogar novamente em outra ocasião, para que possa lhe dar uma chance melhor de me rebater. Nas condições em que estávamos, realmente era uma covardia”; “Já chega, Nemrot! É melhor que saia do meu caminho. Vou destruir o Karma antes que nós dois sejamos engolidos pelo Inferno. Mas antes disso preciso libertar Inana. Quero que a devolva”; “E se uma coisa depender da outra?”; Zurvan ficou paralisado por alguns segundos, até tornar a questionar: “O que você fez com ela? Pretende usá-la como moeda de troca para preservar o Karma? Que esteja claro que não vou poupar esse maldito artefato simplesmente por você libertar Inana”; “Não me subestime, Zurvan. Não acredito que o sacerdote-mestre de Babel tenha um raciocínio tão pobre! Acha que sou o quê? Um bandidozinho pateta, um delinqüente barato? Veja que não uso um bloqueador mental, pode ler a minha mente se quiser. Não seqüestrei Inana com fins tão pequenos, mesquinhos diria, nem estou apaixonado por ela. Apenas quis garantir a mim mesmo que não terá como destruir o Karma. Nem que deseje do poço mais profundo e ardente de seu Ser! Não poderá, não irá conseguir...Ele continuará a existir, quer o seu Eu queira ou não. Observe que no nível inconsciente de sua mente você se convenceu que precisa aniquilar o Karma para preservar o mundo; mas qual o valor de preservar um sonho? Por acaso não quer acordar? Inana pode estar vivendo o sonho mais belo ao perceber a irrealidade do que há fora dela”. Nemrot se levantou do trono e prosseguiu: “Deixe-a viver. Observar que entre um instante e outro nada existe, que não passamos de blocos regulares de momentos, ao menos enquanto não aprendemos a fitar a Realidade, provando a Existência, que é só o que se pode provar na vida; todo o resto são suposições. Seu amor? E se for possível retirar um dos blocos de instante e apagar o momento em que você a conheceu? O seu amor simplesmente não existiria. E acho que está apegado demais a alguém para se considerar um candidato à Libertação. Ela é transitória, Zurvan. Você é transitório, os sacerdotes-mestres são transitórios...Eu não sou. Apesar de Nemrot, um dos Anunnaki de Babel, ser”; “Eu vejo você, e isso não depende da minha vontade. Por mim, a sua existência poderia ser apagada agora. Mas se você não é um objeto, e sim um Eu, e por isso não desaparece da minha frente, por que o trono não desaparece? Por que o templo não se desmancha? As fontes das impressões estão fora de nós. Embora as nossas interpretações e condicionamentos as distorçam, isso não significa que não existem. O que fazemos é selecionar. Libertar-se do mundo é parar de selecionar. É optar pela Consciência. E para isso não chegamos à conclusão da inexistência dos objetos e sim na constatação que não precisamos nos prender a representações e que podemos esculpir a realidade, que somos os artistas. Não criamos a substância; ela está à nossa disposição quando contemplamos nosso dom”; “Mas quando sonhamos, se não estamos conscientes no plano astral, podemos destruir um templo ou derrubar um trono? Jamais! Temos os mesmos condicionamentos que nos limitam quando acordados. O que nos garante portanto que os sonhos sejam mais irreais do que a vigília? Quando estamos lá, o mundo aqui deixa de existir. Afora que há casos nos quais, por não desejar ver algo, nosso conceito simplesmente corta um elemento da realidade, nos tornamos cegos para esse aspecto. Certos “loucos” se olham no espelho e vêem outra imagem que não seu reflexo. Mas quem são os loucos verdadeiros? Por que recriminar essas pobres pessoas? O conceito que criamos de nós e dos outros também deforma a nossa vida e as vidas de quem está em volta. Como você bem sabe, algumas poções e beberagens podem tanto nos abrir a visão espiritual quanto nos fazer cair em delírios insanos, e veríamos um elefante nesta sala que nos pareceria plenamente real. Caminhamos...E podemos estar imóveis! No princípio, vejo o cosmo como uma escuridão vazia, progressivamente montado pelas Consciências de forma não voluntária; caso exista um local inexplorado, um lugar onde ninguém nunca tenha pisado, este não passa de uma substância potencial, de uma energia caótica, que se molda e toma a forma de uma caverna ou de uma floresta com a aproximação de uma Consciência, esta gerando algo coerente no mundo por mera questão de condicionamento; como não iria jamais imaginar neve em um deserto escaldante, a coerência se mantém pelo pré-concebido. Deus, acredito, seja esse Caos que brinca conosco, que nos faz acreditar que o universo tem uma ordem, mas somos nós que impomos essa ordem. Ele, por si, é puro deleite caótico, uma liberdade perene”, Nemrot disparou do meio de sua testa um relâmpago branco que atingiu a de Zurvan. Antes que este demonstrasse alguma reação, sentiu ao seu redor o espaço completamente escuro e vazio; não havia nada, sequer o mínimo sinal de outra presença, objeto ou movimento; imobilidade. Só depois de algum tempo surgiu um espelho, no qual passaram a se delinear cenas de sua vida, seus amores, seus medos, cada vez mais vagos, até restarem apenas sombras. Contornos de seus pensamentos, ações, experiências e conceitos; quando despertou para si, existia como um foco de luz, antes invisível, a projetar sombras de arquétipos. Sua mãe não existia, apenas a Idéia de mãe; no lugar de Inana, sua Idéia de amor ideal; e, na profundidade de cada arquétipo, uma espuma amorfa que paria e dava formas às ondas e oscilações mentais de milhões de outros focos de luz, por fim visíveis. “Não irá me trapacear como se trapaceou...”, um dos focos era Nemrot, o que permitiu a Zurvan regressar ao mundo fenomênico, diante de seu rival, e falar: “A cada observação que faço, vejo você mais preso. Tanto se encontra apegado ao mundo que quer brincar com ele, pretende torná-lo o seu tabuleiro. De que maneira, se do seu ponto de vista não existem peças, somente o jogador? O poder da Consciência não lhe pertence; pertence ao seu Eu”; “Eu já Sou, tolo que cede às imagens dos espelhos!”, após replicar, Nemrot desenhou no espaço, com o dedo indicador, o que se materializou em luz, um círculo azul, e na seqüência outro, vermelho, no interior do primeiro, com duas chaves entrelaçadas, uma voltada para o leste, outra para o oeste; relâmpagos caíram sobre seu corpo, ao passo que o supremo sacerdote usou o mindinho para traçar um pentagrama alado, que ao ser envolvido por um círculo brilhou numa forte incandescência esverdeada que materializou uma espada de cristal azul no ar. O que a segurava surgiu depois, um homem alto e musculoso de pele azulada, terceiro olho na testa, imensas asas brancas nas costas, roupa de pele de leão, com a juba amarrada em sua cintura. “Acha que pode deter Baal com Furcalor? Só pode estar brincando”, e Nemrot liberou uma risada bem audível, que estraçalhava qualquer telepatia. “Baal? Uma coisa é impor nossa vontade aos espíritos inferiores, outra é utilizar a força de um dos senhores do Inferno, que certamente exigiria amplos favores em troca. Você que zomba de mim”, Zurvan não podia acreditar. “Esqueceu-se que o Karma se encontra em meu poder? Ainda estou aprendendo a utilizá-lo, mas já lhe adianto que em breve, quando obtiver o domínio, nenhuma Consciência, ao menos neste universo, e talvez em outros, estará fora do alcance do meu Eu. A mente de Baal agora é minha. Um bom começo, não acha?”, Furcalor, a entidade evocada pelo sacerdote-mestre, recuou diante do ser que surgia dos relâmpagos: a metade inferior do corpo de Baal, pêlo escarlate e pernas musculosas com grandes pés de três dedos e garras afiadas e negras, emanava fogo e brasas; ao cravar as unhas no solo ocorreu um terremoto que não se limitou à Torre como se alastrou por toda a cidade, apavorando a população: correria nos mercados; algumas casas ruíram. O olho no abdômen se abriu, vermelho e de veias rasgadas, evidenciando o desespero de estar possuído por um humano. Em seu imenso tórax, pelo qual se espalhava uma pelugem alaranjada, surgiam desenhos e símbolos de figuras geométricas distorcidas traçadas em sangue; e em lugar de um pescoço, ladeado pelos chifres laterais recurvos nos ombros, o imponente demônio tinha um segundo corpo, menor e mais delgado que o inferior, uma espécie de duende de tez rosada e repleta de rugas, que falava de maneira atropelada por meio de grunhidos e sussurros grosseiros em uma língua na qual prevaleciam sons retroflexos.

Furcalor se negou a combater Baal e desapareceu em um vapor d’água, para a perplexidade de Zurvan, que a princípio duvidara da presença do grande demônio e cogitara um embuste de Nemrot. No entanto, estava provado que seu adversário começava a controlar o poder do Karma e que de fato dominava um dos senhores do mundo inferior; espíritos baixos não resolveriam o problema.

Fez no chão, com o anular da mão direita, o desenho de um quadrado de luz marrom, o que ergueu quatro muros de rocha à sua volta e absorveu os raios lançados pelo cajado com cabeça de dragão barbudo e chifres curvos para trás, que Baal segurava na mão esquerda de seu corpo inferior, término de um braço de músculos que de tão exagerados saltavam para fora da pele; conjurou elementais da terra, controlando assim o tremor emanado pelo inimigo, que aos poucos foi diminuindo, até parar. Pequenos seres troncudos de pedra se materializaram e partiram na direção do monstro infernal, que reagiu com um hálito esverdeado que desmanchou alguns e fez outros fugirem, mas três ou quatro persistiram e passaram a esmurrar seu oponente; Nemrot não parecia minimamente assustado e ergueu o braço direito, irradiando uma luz fosca e acinzentada que abriu o teto como se estivesse descascando uma fruta. Nada ruiu e, enquanto as criaturas espirituais lutavam, o terrível mago, que um dia fora um dos Juízes de Babel, exibiu ao seu rival o que lhe parecia seu inevitável triunfo: a lua encobriu o sol. E, no eclipse, para o pânico de toda a população da enorme cidade, abriram-se turbilhões obscuros no céu, que gradativamente foi adquirindo uma coloração amarelenta. Espalharam-se odores de podridão, bílis e enxofre. Os portais ainda não sugavam nada, mas destes principiaram a sair sombras aladas armadas de foices, barras de aço, lanças, espadas e adagas serrilhadas, chicotes metálicos e maças espinhosas.

O sacerdote usou os cinco dedos da mão direita para desenhar um pentagrama: elementais do ar se espiralaram em azul e branco, voando em rodamoinhos para deter a avançada dos voadores sombrios; salamandras e cobras de fogo se juntaram ao enfrentamento contra Baal e Zurvan absorveu algumas em si para reativar suas próprias esperanças. Precisava de uma veloz e eficiente transformação interna, e o calor não podia se limitar a fervilhar seu sangue; todo o seu ser tinha que se tornar um caldeirão alquímico. Acumulou parte do elemento no centro de seu corpo, em seu peito, dentro de seu corpo espiritual, na fração mais íntima e profunda deste, e formou uma esfera incandescente e brilhante, que de rubra quase negra se tornou vermelho-claro e por fim branca, pura luz e calor. Colocou-a para fora de seu coração lentamente, protegido ao redor por um cordão de serpentes de chamas e muros de pedrarias; quando permitiu que esta partisse ao encontro de Nemrot, carregada principalmente com todo o amor que ele sentia por Inana, o brilho se tornou dourado. Baal tentou detê-la, mas escorregou devido ao chão que acabava de ser congelado por elementais da água, que se manifestavam feito ondas esverdeadas de micro-cristais de neve. Uma segunda esfera luminosa, desta vez de gelo reluzente, com algumas arestas, foi a seguinte que Zurvan ia formando em seu peito, como compensação pela transmutação das emoções, para o seu próprio controle, ao passo que a que atingiu Nemrot derreteu sua armadura na área do peitoral e se expandiu pelo abdômen e pelo pescoço, queimando sua pele e levando-o a urrar de dor. O sacerdote-mestre ficava gelado; o rival ardia em chamas.

Baal precisava voltar a si. Por isso, Zurvan intensificou o frio para que a substância em seu interior passasse por uma transformação, chamando em seu auxílio ventos e labaredas, e se transformasse em um poliedro violeta, que em seu interior refletia o espaço tanto em sua escuridão quanto na claridade das estrelas. Era o poder do éter, que fechou os portais sinistros no céu de Babel, que tornou a clarear, e irradiou uma luminosidade arroxeada que sacudiu o demônio e causou desespero em Nemrot, àquela altura com as veias abarrotadas de salamandras e o corpo inteiro numa ardência insuportável.

“Humanos...Como ousaram me manipular!?!”, entrementes, um tanto enfraquecido e confuso, e Zurvan deu graças aos céus por isso, Baal não teve forças para reagir à desmaterialização e um novo portal, este aberto pela força etérica convocada pelo sacerdote-mestre, o puxou de volta para os mundos inferiores.

“Se acha que me venceu, está enganado! Controlo tantos elementais quanto você”, Nemrot conseguiu transcender a dor e ainda sorrir e rir, invocando ondinas, cuja água parecia envenenada, para livrá-lo do ardor; o veneno, no entanto, era doce ao seu paladar.

Inundada por todos os lados por águas poluídas, a Torre de Babel voltou a tremer e uma tempestade se precipitou por toda a área próxima. Os ventos do ex-juiz se chocaram com os que haviam sido convocados por seu oponente. Zurvan deduziu que só havia uma alternativa para vencer: conjurar forças celestiais, algo que jamais lograra. Nem ele, muito menos Nemrot. “Tenho que me concentrar. Elas estão ao meu lado, em verdade. Preciso alcançar apenas o plano de consciência compatível. Por Inana e por Babel! Não é o momento de pensar em poder nem em ciúmes ou rivalidade. Todas as larvas em minha mente precisam desaparecer. Um instante basta...”



Esvaziou a mente para ser preenchido. Como nas outras ocasiões em que tentara se aproximar das potências superiores, nada ocorreu; pelo contrário: teve a impressão que primeiro seu coração, e depois os rins e o fígado, apodreciam lentamente, com seu sangue adquirindo uma consistência pegajosa e sua pele se descascando enquanto emitia uma infinidade de odores fétidos; ouvia a presença de Nemrot, cada vez mais opressiva, ofegando em seu pescoço, e suas costas queimavam. “Com o Karma, as mentes de todos os seres vivos serão minhas. E poderei estender tudo o que existe ao controle do meu Eu. Não haverá nada além de Mim; toda consciência existente será extensão da minha. Saberei como cada um age, o que cada um pensa, conhecerei os segredos mais íntimos, as evidências ficarão mais claras, ninguém mais criará, pois todos estarão submetidos ao que Eu desejar criar. Nada sairá do controle. O universo deixará de ser arisco e fugidio para me obedecer, fazer a vontade do meu Eu. Não haverá nenhuma outra mente no caminho, serei plenamente livre e tudo será perfeito; serei o único a organizar o caos e assim haverá harmonia, pois não existirão mais conflitos, desacordos e divergências; uma única direção impedirá as guerras, o sofrimento e a ansiedade; impossível ter pressa, afinal é a Consciência que reconhece e dirige o tempo, que irei abolir. A eternidade é a única dimensão possível para o Eu, na qual ele tem como se conhecer; qualquer fração é curta demais e mesquinha”, com as palavras do inimigo a aborrecê-lo, foi se debatendo e se irritando, até chegar à conclusão que não havia mais jeito. Pediu perdão a Inana e ao mundo; Deus permitira e assim seria: Nemrot iria substituí-lo. Sua voz interior desaparecia. Ficou surdo e mudo para dentro, e as luzes se apagavam e não havia mais o que ver. Sua consciência logo seria um mero prolongamento, e o discurso e as provocações foram ficando distantes, culminando com um total silêncio interno e externo, e sem razão de existir; fazia falta para si mesmo...E para os outros? Contudo, continuava a existir; sem causa, sem motivo, sem pensamento, sem cálculos ou cogitações. Pura existência. Não deveria perder tudo, se apagar? Vislumbrou uma chama minúscula, branca, tremulando no fundo negro; e nela viu seu rosto. “Acho que sei onde estou. Não há Babel, não há Torre. Nem Inana...Muito menos Nemrot; apenas Eu. Penetrei no mais profundo da minha existência, no abismo mais escuro, no oceano desenganado, no mar mais perigoso e desconhecido. E sou Eu, a quem deveria conhecer melhor do que a qualquer outro! Ainda assim, desconheço. Compreendo por fim meu fracasso ao tentar convocar as forças celestiais; elas estão em meu interior e poucas vezes olhei para o que julgo desimportante: o Céu em minha cabeça, o Paraíso em meu coração. Só o que pode me salvar de mim sou Eu; por que tamanha insistência na fuga? Na camada mais baixa do Inferno há apenas vazio. Um nada que não nos deixa esquecer, onde continuamos existir, sem poder fazer absolutamente nada. Sem que possamos sair; sozinhos. Em tédio e solidão, somente eu com eu mesmo; no entanto, ao mesmo tempo que se trata do plano mais inferior, é o mais próximo dos mundos perfeitos, porque a escuridão insondável e sem espaço para mais nada é o único “lugar” onde a luz não sai nem por um instante da mente, atormenta feito um fantasma obsessivo, não nos deixa esquecer que um dia enxergamos! E não nos resta mais nada, a não ser luz, muita luz, e tudo se manifesta outra vez...”, a claridade de intenção sem contrastes emanou para fora e Nemrot não pôde contê-la, arrebatado para longe e queimado por raios que não continham hostilidade. Gritou de dor, raiva, tristeza e humilhação, arrebentando-se com o corpo seminu, revestido por frangalhos de metal, contra a parede rachada; Zurvan mal acreditou no que via. Em volta tudo era ofuscante para todos, menos para ele.

“Não pode ser...”, e o inimigo, derrotado em um segundo, perdeu os sentidos ao desabar no chão; os elementos se retiraram e tudo em Babel pareceu voltar ao normal. “Ele precisava me dizer onde está Inana. Mas não posso esperar ele voltar a si. Não! Eu não preciso dele...”, cheio de si, com a veste rasgada, Zurvan colocou a mão direita no chão, desenhou um pentagrama dourado no astral e o trono se deslocou para o lado direito, abrindo uma passagem secreta. “Se não estiver lá, paciência. Preciso começar por algum ponto. Se ele não saía de perto do trono, talvez seja esta a razão...”, bastante cansado, entrou pela abertura, conduzido a um corredor de paredes pintadas com séculos de história da cidade, em figuras bidimensionais de rica textura. Seguiu até a porta ao fundo, de aparência pesada, com uma aldraba na forma de uma criatura monstruosa, que lembrava uma górgona. Para abri-la recitou uma seqüência de fórmulas mágicas, pronunciadas como uma longa ladainha, que nunca lhe parecera tão demorada.



Entrou apreensivo, a passos trêmulos, um pouco eufórico. “Consegui realmente ter acesso às potências de Anu? Foi tão rápido e intenso que agora duvido de mim mesmo. Todo um desespero e um esforço terríveis para vencer em um instante! Será isso mesmo?”, parou em frente a um altar de cristal azul, sobre o qual havia uma mulher suspensa, em um salão de chão e paredes de um negro rutilante, ambiente no qual estavam esculpidas centenas de espirais que tendiam para o alto e ao se entrecruzarem, pelo uso da visão espiritual, era possível ver entre os vãos e espaços novos vórtices, e assim sucessivamente; a lomai, de pele escura, calombo delicado e longos cabelos pretos enrolados, estava com os olhos fechados, levitando alguns centímetros acima de seu teórico sustento, vestida com uma túnica que parecia feita de pergaminho velho, rasgada na área dos seios.

Era Inana, da qual Zurvan se aproximou com inquietude. “Minha querida Inana...”, colocou uma das mãos acima do peito dela, sem tocá-lo, e com a outra pegou no braço direito dela, duro, frio e rígido; tentou lhe transmitir o calor que irradiava de seu coração. O que se seguiu, no entanto, foi uma horrorosa gargalhada ecoando em sua mente, que ele de início atribuiu ao desfalecido Nemrot, mas com sua clarividência confirmou que este seguia inconsciente, e que se tratava de uma ilusão auditiva; com um misto de alívio e terror, o centro do seu corpo pulsando com virulência, transferiu sua atenção para dentro de sua amada; algo o chamava ali: a chave da libertação. Os órgãos estavam perfeitos, o sangue escorria bem vermelho e sadio; só se indispôs com um repentino frio glacial que emanou da testa da mulher e quase paralisou todos os seus dedos de uma só vez, tanto os das mãos como os dos pés; voltou a movimentá-los com algum esforço e concentração, estalando faíscas de fogo entre eles. Só que prendendo a hipófise de Inana, como uma caixa que cerra um valioso segredo, prensando-a com suas camadas sutis e grosseiras, estava o Karma: o artefato, um amálgama de cristais brancos, que ao ser fitado com raiva e ódio pelo mago foi escurecendo, até se tornar completamente negro. “Não acredito! O desgraçado prendeu o Karma dentro de Inana...Maldito seja, amaldiçoado por treze eternidades!”, utilizou uma expressão típica dos habitantes de Babel; a voz de Nemrot se manifestou outra vez: “Não adianta, Zurvan! Você não pode desfazer o que já foi feito! Você não será perdoado”, e liberou um riso sardônico; o sacerdote olhou com sua clarividência para onde o inimigo estava e o avistou ainda desabado no chão, sem conseguir mover seu corpo, porém consciente; suas emoções mais grosseiras se intensificaram num borbulho doentio. “Não sei o que fez comigo que não consigo me mexer; mas quando eu recuperar os movimentos você estará perdido. Não poderá mais voltar atrás; um dia pensei que poderíamos ser Eus em criação contínua por um novo universo. Mas você não é digno sequer de escutar a minha palavra...”; “Cale-se! Um monstro como você não se tornará jamais um criador”; “Ainda terá uma bela surpresa”; “Por que aprisionou o Karma em Inana?”; “Vamos, Zurvan! O seu intelecto não é assim tao limitado...”; “Achou que nela estaria seguro contra mim.”; “Seguro por treze eternidades!”; “Vou libertá-la.”; “Seu tolo, não faça isso ou irá se lamentar pelo resto da sua existência...”; “Não quero mais saber das suas opiniões!”, fechou a mente para qualquer comunicação com o mundo exterior e se concentrou com exclusividade na tarefa de retirar o artefato do cérebro de seu amor. “Não tenho idéia se está sofrendo agora, se nos percebe, se sabe que estou aqui para salvá-la; mas o certo é que não desistirei”, calou-se para que não mergulhasse Inana no lago sem ondas, e sim a fim de que mergulhasse o lago em Inana. A água era tépida e acolhedora; os cristais do Karma clarearam e o objetivo era sutilizá-los mais e mais a cada instante, com o intento final de fazê-los desaparecer nos planos mentais mais sutis; entrementes, ao passar pelo astral já ficaram evidentes alguns obstáculos: dezenas de desejos repentinos atacaram a mente do sacerdote, e com estes as águas se agitaram ou se mostraram sujas; os cristais enrubesceram, e demorou alguns minutos para reassumir o controle. Não desistiria.

Foi no auge de sua concentração e limpeza de intento que porém avançou uma onda gelada, que embranqueceu o céu de chofre e foi congelando o lago; uma coisa era estar sereno, outra a total paralisia e imobilidade. Frio na barriga...Rosto gelado; um vento glacial penetrando por seus poros e tornando sua respiração dolorida. O sangue perturbado por cristais de neve brilhantes: um branco invasivo cresceu dos cristais e deglutiu o cérebro de Inana. “Você fracassou!”, já tomara consciência de que falhara, mas só despencou na realidade ao escutar a voz triunfal de Nemrot; um urro interior de pânico atingiu os alicerces da torre. “Onde está o seu Eu? Despedaçou-se por tão pouco, Zurvan?”, o Karma flutuou para cima, enquanto o corpo de Inana desabava sem vida sobre o altar, mole e frio; o sacerdote, trêmulo e desesperado, examinou seu pulso. Não havia mais rigidez, mas faltavam os batimentos. Ficou ainda mais gelado em contato com ela.

Nemrot prosseguiu com insultos e provocações; Zurvan não respondeu mais nada, com a mente em silêncio total. Pegou o artefato para si, prensando-o em suas mãos. Dera-se conta de que não podia destruí-lo. “Largue o que não lhe pertence...”, vieram ameaças da parte do inimigo. Com uma expressão de destaque, séria e convergida, voltou para o lugar onde este se achava caído, recostado à parede rachada; o tempo transcorrera e ainda não conseguia se mover.

Quando ficaram um diante do outro, Nemrot até tentou falar, mas ao raiar do cristal, que liberou relâmpagos brancos e espinhosos, seus olhos simplesmente se arregalaram e, como que diante de uma visão que não pode ser descrita, pararam junto com seu coração. Zurvan apertou o Karma com as palmas de suas mãos e saiu uma fumaça vermelha, envolvendo-o em cortinas e aspirais ao passo que tudo em volta tremia. O terror voltou a tomar conta de Babel; e a imensa torre desabou, como se feita de areia, deixada para trás por uma nuvem berne que se elevou e desapareceu nos céus.





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