Marcello salvaggio



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Giro de referências

— Você viu? Talvez agora entenda um pouco por que eu e Eluen não podíamos ser amigas e como existem lobos em pele de cordeiro. Nunca gostei de pessoas que têm privilégios e são aclamadas como se fossem superiores. Como poderia ter tolerado a maneira frouxa que Svava e a Disiran a tratavam? Como teria aceitado o envolvimento de uma sacerdotisa da minha amada Ordem com um príncipe estrangeiro? Só ela tinha esse direito? Não nego a minha inveja. Mas abra os olhos de uma vez: os seus amigos nunca foram deuses imaculados.

— Chega, Samen! Chega! Disso eu já sabia. Nunca os coloquei num pedestal. Só é fato que eu não podia simplesmente confiar em você.– Na casa do lomai, ele já se enervara o bastante para quebrar alguns objetos com sua psicocinese, fora de controle por poucos segundos, como diversos pratos e um dispendioso vaso branco de porcelana recém-comprado por sua companheira, repleto de desenhos de pássaros em anil. Ela sentira vontade de sentar e rir ao ver os frangalhos de pratos no chão, esquecendo-se que o precioso recipiente estava por perto e o despedaçamento deste desencadeara sua indignação e uma briga só parcialmente encenada, afinal ela precisava irritá-lo; apenas não esperara se irritar em conjunto.– Você tinha nojo de mim, você mesma admitiu.

— É verdade, porque não quero que existam segredos entre nós!

— Por incrível que pareça, você busca a sinceridade, enquanto Odin foi falso o tempo todo hoje! Não pude suportar. Estava mais do que evidente que ele não nos aceita. Talvez eu tenha que entender, que ele vai desconfiar de você assim como eu desconfiei. Não adianta querer que aceite de primeira! Estou sendo burro e intransigente.

— Não é assim...Por mais que você não tenha confiado em mim desde o início, me acolheu em sua casa, me deu de comer e um lugar para dormir.

— Exigindo o seu serviço doméstico em troca! Não fui nem um pouco altruísta, Samen! Não adianta me defender. Conheço bem os meus defeitos.– Andava de um lado para o outro, recolhendo os restos das coisas quebradas. A elfa estava com os braços cruzados, encostada na parede.

— Ele deve ter ficado magoado porque você não fez nada para tirá-lo do fundo da caverna.

— O que ele queria que eu fizesse? A Vanadis foi e bastou! Não precisava ir mais gente.

— Ele sentiu falta da sua presença, como amigo. Apesar disso não justificar o fato de ter nos destratado hoje. Ele está certo...Eu te enveneno.

— Como se eu fosse um reles idiota manipulável! Ele subestima a minha inteligência. – Samen soltou uma gargalhada por dentro.

— Pois é isso o que ele pensa. Você sempre foi o segundo da “equipe”. Nunca foram iguais. Isso é amizade? Como bom príncipe, Odin é mimado e quer ser o primeiro, o líder, o herói...

— Ele não é mais esperto nem mais forte do que eu.

— Não? Por que não o desafia qualquer dia?

— Está caçoando de mim, Samen?

— Não, estou falando sério desta vez. Por que vocês não acertam as contas? Depois de uma batalha, por exemplo. Se você conseguir vencer, pode matá-lo. E será o verdadeiro herói, Gilgash. Você já matou um gahinim e já entrou na mente de um dragão. Não deve nada a ele! Não é porque é um príncipe e um elfo que ele é superior! Podia até ser na época em que vocês se conheceram, mas você progrediu muito e os seus poderes mentais são invejáveis, maiores que os dele.

— Claro...Fui eu quem o ensinou a usar melhor os dele.

— Pois então! Aceite esse desafio! Não sou eu quem propõe, é a vida.

— E se eu perder?

— Será o fim para nós dois, mas eu confio em você. – “Duvido muito que Odin lute para matar. Em caso de derrota do Gilgash, ele vai querer é a minha pele; mas o mais provável é que esse confronto destrua tanto a alma de um quanto a do outro; o vencedor não sairá inteiro fisicamente e muito menos na mente e no espírito. Caso seja Odin, posso vencê-lo depois, com uma boa estratégia...”

— Quer dizer que também está se arriscando? Por mim?

— E você ainda duvida do que eu sinto por você...– Ele largou o que estava fazendo e se lançou selvagemente na direção da elfa, prensando-a contra a parede antes de beijá-la. “Você é meu animal de sacrifício; e não deixa de ter um gosto saboroso, mesmo sendo um animal. Eu adoro animais, mas você precisar ir, cumprir o seu dever com os adanas...”, não deixava de sentir muito prazer com aquela situação, tremendamente excitada, imaginando Odin no lugar de seu amante e Eluen observando tudo poucos metros atrás. “Viu só? Você perdeu...”, provocou, não se importando se era uma imagem mental ou o espírito da falecida, carregado de um olhar severo. Não sentiu o mínimo temor ou receio, muito menos vergonha; excitava-se ainda mais ao pensar que era a própria que estava lá, sabendo de suas fantasias com Odin, ciente de seus planos, e mesmo assim sem poder fazer nada. “Fiz muito bem em continuar com Gilgash, mesmo diante da suposta loucura do príncipe. Estava certa em não ser precipitada; a melhor parte da vingança de Eljai está por vir; os que usaram equivocadamente Seu nome serão punidos. Eluen talvez nem esteja consciente, perdida no Abismo; ou você é realmente ela, num momento de lucidez?”, fez a pergunta à figura, que abaixou a cabeça como para não testemunhar o enrosco sexual da elfa e do lomai. “Continua covarde, e falsa...”, desistiu de falar com a “presença” e deixou seus gemidos de prazer preencherem o silêncio.


Distantes dali, à beira de um precipício, debaixo de um sol fraco de final de tarde, entregues de pé à mudança brusca e necessária, Valin só via Odin e Odin só via Valin. Pai e filho eram mais do que os rótulos: eram o Sol e a Lua, postados sobre a Terra em colunas de mármore, a que regia o primeiro astro limpa, sem ranhuras, a que sustentava o segundo trincada e um tanto torta. Mais imenso do que nunca, o rei de Tudnan vestia uma resplandecente armadura dourada, de ombreiras que se estendiam nas asas da águia solar, um capacete arredondado que deixava à mostra o rosto, porém cobria a testa, da qual emanavam raios de luz metálicos, e uma flor rutilante de exatamente cem pequenas pétalas no centro do peito, de onde irradiava um calor aconchegante e comedido que climatizava todo o ambiente à volta.

— Os grandes seres não se abalam quando conhecem seu futuro, pois sabem que as pedras e buracos no caminho para o mar apenas retardarão sua Chegada, jamais poderão impedi-la; seus passos são sérios, não no sentido de encarar o caminho de maneira sisuda, sem alegria, e sim com ciência de que a caminhada é temporária e que por isso o melhor é não ter pressa, sentir em cada pisada o contato com a terra, inspirar com atenção cada átomo de ar e expirá-lo com leveza, usufruindo de uma felicidade suave que nada tem de eufórica; a estrada que leva ao objetivo já é o futuro, que espera e se estende, se encontra além e estica para cá.

— Mas é justamente por não ter pressa, meu pai, que acredito que seja muito cedo. Afora que não me conformo com a sua partida tão próxima, tenho certeza de que ainda tem muito a cumprir e espalhar, que o mundo ainda precisa de sua luz e de sua competência.

— O meu ciclo na Terra está chegando ao fim, e eu já me movi com muita calma. Você, ao contrário, tem pressa, ou não teria saído de Tudnan para conhecer o resto do mundo, acelerando assim, intencionalmente, mesmo que sem plena consciência, a extensão de seu reinado vindouro; chegou a hora de assumir o seu lugar, de prosseguir com o que inaugurei, dirigindo a sua velocidade e evitando os solavancos que fazem a corrida, que deveria ser caminhada, estancar por completo; se não é necessário correr, o ideal seria manter a estabilidade, sem parar como se não fosse capaz, afinal o caminho se move junto com você, à medida que o planeta gira em torno do sol e o sistema solar se move dentro da galáxia. Mesmo que você pare, o universo não deixará de ser dinâmico.

— Está se referindo ao que aconteceu comigo após a morte da Eluen?

— Não é sequer preciso que aludamos a acontecimentos concretos. Sabe do que estou falando.

— Se fosse em outro momento, antes dela morrer, eu me sentiria melhor preparado. Hoje estou machucado demais, mesmo com a ajuda de Vanadis; a minha alma foi despedaçada e o que a juntou foi uma cola. As rachaduras estão visíveis. Ainda não foi renovada.

— De nada adiantaria esperar para trocar de alma. Observe a cola e perceba como é preciosa! O novo, mesmo que pareça mais limpo, forte e confortável, um dia ficará sujo ou se quebrará de qualquer maneira se continuar com essa mentalidade. Admire o que tem: veja a cola; ela emite um brilho entre as ranhuras...São córregos de harmonia.– E Odin conseguiu ter a visão dos rios de luz que faziam a junção entre as partes em seu interior e, quando se cruzavam em sua imaginação, davam vida a uma rede de percepções inimagináveis, com uma água tão pura à qual bastava refletir o ouro que trazia, delineando sorrisos em suas curvas.– Note que eles não esperam, porque o momento “adequado” passa desapercebido só ao olhar para o outro lado.

— Vejo que terei de aceitar...

Sendo objetivo desta vez, sei que possui um grande poder latente. No entanto, instável como se encontra, ainda é muito inferior aos sifans e a Vanadis. Ao contrário deles, você ainda não deve enfrentar um barão; um soldado gahinim já seria perigoso demais.

— Você e a mamãe nunca me treinaram como treinaram eles.– Odin se referia à elite guerreira de Tudnan. Havia tristeza, não ressentimento, em suas palavras.– Por isso que também preferi ir embora.

— Não devemos esperar pelo momento exato, pois não há exatidão nos momentos. Contudo, seu potencial na época estava absolutamente adormecido. Não existia a mínima possibilidade de responder ao meu treinamento. Só que as coisas mudaram: o poder que irá obter por meio da Iniciação Real superará em muito os frutos dos treinamentos dos sifans. Você irá canalizar a energia do sol, assim como eu e sua mãe.

— É certeza que irei conseguir?

— Não. O seu corpo físico pode não suportar e o calor consumir sua pele e incinerar os seus órgãos, além do seu corpo astral correr o risco de passar anos queimando. Os ambiciosos se habituam a pensar nas dádivas e privilégios do Poder; não têm a menor noção da força gravitacional que mantém o sol coeso e impede sua explosão e a consumição dos planetas. Algo capaz disso não pode simplesmente esmagar o tolo que se considera superior às estrelas?– Ao canalizar a energia do astro-rei, Valin tinha acesso às mais claras imagens no silêncio da definitiva obscuridade aparente: uma erupção que se elevava por milhares de quilômetros no espaço, antes de mergulhar mais uma vez na substância incandescente da superfície; o menor dos vórtices de gás, que por si só englobaria a Terra; grânulos abrasadores pelos quais subiam turbilhões escaldantes; gigantescas manchas eventuais, que das adjacências escuras coordenavam o refulgir das tempestades internas; os buracos dos quais escapavam os ventos repletos de pólen atômico que iam alimentar os mundos ou passear pelo espaço, aguardando uma oportunidade de pousar; arcos escarlates a seguir as linhas invisíveis dos ímãs estelares; a imensa esfera vermelha diante da qual a pequena sombra humana se torna mínima, e mesmo assim não desaparece.

— Confesso que tenho medo.– Odin admitiu, pois, antes que se desse conta, vira estas e muitas outras cenas em sua mente e adquirira, em um instante, conhecimentos milenares quando os olhos de seu pai, transformados em um par de rubis radioativos, o atraíram para dentro; a aparência daqueles olhos chegava a dar aflição. Ao voltarem ao normal, os de Odin pararam de arder.

— A escolha é sua: morrer na tentativa de obter o Poder ou a morte certa no campo de batalha.

— O senhor é cruel; não me dá muitas alternativas.

— Se ainda tem dúvidas a respeito do que fazer, vou lhe mostrar mais de perto como os sifans progrediram desde que você partiu. Quero que veja o nível em que eles estão e se sinta estimulado sem sentir inveja. A inveja poda o crescimento, ela o limita a ser uma imitação tosca do que o outro é; o que quero de você, em contraposição, é a vontade de crescer para além dos limites alheios, do que você se impõe e do que acham que é o seu máximo. Quero a faísca da explosão, o cume que esburaca os céus e acaricia as estrelas, a semente que fertiliza a terra inteira.

— Eles estão lutando agora?

— A luta já terminou, pouco antes de chegarmos aqui. Um dos adversários foi justamente o barão que matou Eluen.

— Se fala com tanta convicção e o peito assim cheio, é porque eles venceram. Isso quer dizer que aquele desgraçado está morto?– Odin foi pego de surpresa, deixando a boca entreaberta.

— Sim, ele foi vencido...

— Ah, não...Eu queria ter acabado pessoalmente com ele! Aquele monstro quase arruinou a minha vida! Por que não me avisou, papai?

— Simples: porque você sofreria outra derrota e ainda teria a humilhação de ver como alguns de seus súditos o superam. Não se sentiria digno de ser o príncipe de Tudnan. Muito menos de se tornar rei algum dia. E mais: você que estava arruinando a sua própria vida, não ele, que cumpriu a parte que lhe cabia na guerra, lutando pela causa que achava justa, e para isso teve que matar alguém que se opôs; afora que emoções negativas apenas desviariam você ainda mais do caminho. Se acaso vencesse, o veneno da vingança continuaria a inflá-lo, produzindo o orgulho.

— Queria vencer para dar paz à alma de Eluen.

— Não busque subterfúgios para o seu ego; em nenhum momento estaria buscando a felicidade de sua amada. Sua luta seria para satisfazer sua sede de violência, pois tem a boca seca de ódio.

— É impossível esconder qualquer coisa do senhor. Estou à sua mercê.– Bufou e abaixou a cabeça.

— A vingança é um poço dentro do qual os ressentidos são cobras que abocanham as caudas umas das outras. Quanto tempo perdemos na vida mordendo uns aos outros ao invés de serpear para o alto, para fora do poço, que é escuro e não recebe a luz do sol. Nos tornamos bestas de sangue frio!

— Na verdade, não quero nem ser a serpente que se debate para sair; quero ser a estrela que ilumina lá fora.– Tornou a ficar com a cabeça erguida, fixando seus olhos nos do pai.

— Fora? Por que não a que reside em seu coração? O poço se encontra logo abaixo.

— A localização não importa mais. Afinal tudo o que É está.

— E você gostaria de ter tudo isso?

— Eu já tenho. Só que estou cego e não vejo; só consigo apalpar as arestas.

— E elas o machucam?

— Um pouco. E são frias; mas sei que o núcleo é quente e macio.

— Vou lhe mostrar o confronto. Será o primeiro passo da sua Iniciação.– Valin colocou as palmas estendidas à frente de sua testa, uniu as pontas dos polegares e indicadores e o triângulo aproximado que se formou no vão adquiriu materialidade, formando uma pequena tela de cristal transparente que passou a exibir diversas cenas e, muito mais rica do que aparentava, transmitir emoções, sentimentos, exalar odores e emitir sons. A princípio tão pequena, revelou o que precisava ser mostrado ao se sincronizar com os cristais nas pupilas de Odin: os dois pontos em abertura. Olhos a fitar os ocorridos...

Reconheceu o barão e o mesmo soldado que sobrevivera à batalha anterior, em confronto com uma tropa de guerreiros de Warman e Tudnan, entre os quais Balin e Baden. E não só os dois, como um exército gahinim, reforçado por sub-soldados como buchas de canhão, de tamanha magnitude que o fez pensar que mesmo o seu pai estivesse delirando ao cogitar uma vitória.

“Desta vez não devemos subestimá-los. Temos que lutar para matar todos. E este planeta será nosso; reconstruiremos a civilização...”, o barão ainda apresentava algumas cicatrizes do último combate, a maior no abdômen. Comunicando-se telepaticamente com um subordinado em um cenário árido e frio, de arbustos rarefeitos, árvores baixas e quase sem folhas, solo áspero e tão apagado quanto o céu, muita neblina e ventos carregados de terra seca; queixava-se consigo mesmo de que era para os gahinim uma oportunidade única e mágica, que o universo estava lhes dando uma nova chance, de restabelecer a civilização, que ele reconhecia como sendo um produto exclusivo de sua espécie, não passando as tentativas alheias de arranhões nas pedras, de traquinagens tecnológicas. Depois de ter aprendido com os excessos do passado, não precisavam de um novo Império; mas ao menos de um lar amplo o suficiente para a vida civilizada e de uma tecnologia efetiva para que mudassem de orbe quando este fosse ameaçado pelo fim do sol. Só podiam ter sido perdoados pelos anjos; e dessa maneira estariam ao menos no direito, se não de se expandirem, de pegar o que lhes era oferecido. “Que saudades de veja! Mas seria precipitado e ilusório pensar em voltar algum dia; temos que nos contentar com o que nos foi concedido: já é uma dádiva. Um planeta tão belo que farei questão de proteger, impedindo que o destruamos como fizemos por pura ambição, às vezes disfarçada de ideais e misticismos, com outros mundos. Todavia era ambição, avidez, queríamos ser os donos do universo, que no entanto não tem proprietários; e seus reguladores trataram de nos punir e não os odeio por isso. Se algum de nós quiser recomeçar com a roda da cobiça, terá que antes passar por cima de mim. Não podemos nos colocar contra o que é grande demais para nós; e não precisamos nos deslocar no espaço para encontrar a essência cósmica, que pode ser sentida num saboroso mergulho nas águas doces deste planeta. Já estive em diversos planetas de oceanos sulfurosos e mares corrosivos para a nossa pele, enquanto este aqui lembra um pouco nossa terra natal, pela qual porém só escorria água salgada, nada que se compare aos rios e lagos daqui. Não podemos estragar uma jóia tão preciosa e cara à mente suprema, que parece que a escolheu a dedo como sua filha dileta...”, pensara consigo mesmo o gahinim, pouco antes da chegada de seus adversários.

Na luta, nem parecia ter um temperamento tão reflexivo, até certo ponto beirando o melancólico; tendia a parecer só mais um demônio. Odin captou algumas emanações e pensamentos seus e se deu conta na carne, não racionalmente, que as coisas eram mais complicadas do que o assassinato de sua amada. “Se abriram a oportunidade para nós é porque eles também erraram. Chegou a hora de decidir quem merece morar neste paraíso. Por que não uma convivência pacífica? Qualquer tolo tem consciência que os recursos de um planeta como este são limitados; não há como sustentar tantas espécies, que quanto mais inteligentes mais consomem e mais espaços ocupam. É diferente das outras vezes porque não estamos nos estendendo por um domínio praticamente ilimitado; lutamos por um território estreito...”, a corrente em seu braço e sua ponta refulgiam num vermelho ostensivo; arranjava todo o tipo de justificativas racionais para acreditar que não estavam repetindo o passado, que não cometeriam os mesmos erros, que não cederiam a velhas ambições, que elfos, lomais, anões e duendes não passavam de animais sofisticados com os quais não havia a mínima possibilidade de comunicação e entendimento: não pareciam capazes de viajar no espaço; nunca chegariam a um entendimento cósmico. Muito embora bem desejasse que os gahinim fizessem o caminho inverso, fixando-se num único planeta e olvidando aos poucos a carnificina desencadeada como meio para que isso ocorresse. Seria utópico em demasia imaginar que pudessem dividir um mundo com outra espécie inteligente; porém ao menos poderia apagar da memória o excesso violento. Ele tentaria apagar da sua, com tudo relacionado ao passado mais distante, buscando a paz; no entanto, seria possível restabelecer o avanço tecnológico sem rememorar a destruição? Fora a guerra a impulsionar o “progresso”, que seria a única possibilidade de uma forma de eternização de sua espécie, tornando-a independente, como sempre fora, das mortes e fornos crematórios siderais. Talvez continuassem sendo ambiciosos e egocêntricos em demasia...Por que não aceitar a extinção com serenidade?

Kahjrkayth, assim podemos transcrever o para nós impronunciável nome desse barão que manipulava o eletromagnetismo, não era um adversário acessível para qualquer um: vendo-se frente a frente com aquele que pusera um fim à passagem de sua irmã pela terra, Baden não pôde deixar de ser dominado pelo ódio, com Odin se colocando em seu lugar para especular que atitude tomaria na posição do amigo, se seria movido pelo mesmo impulso ou se na hora da batalha tentaria controlar as emoções e elaborar uma estratégia; uma vingança fria e vagarosa, um prato saboroso, requintado e fresco, doce-meio-amargo, ou um molho picante e delicioso, irresistível, impossível de não deglutir em poucos segundos mesmo com a língua ardida? Pensou que raciocinava porque via, observava. Se participasse, já teria se atirado sobre o inimigo, tateando em busca da Gungnir, que não existia mais. Notou por fim que sua preocupação por Baden era pequena, reduzida demais, e que não deveria ser assim, afinal o irmão de sua falecida esposa podia ter morrido naquele combate, mesmo com a posterior derrota do barão; um nó em seu cérebro. Por um momento esteve no local, tentando segurar o filho de Malin, que por um instante pareceu hesitar, se sentindo tocado pela mão que se esticava pela brecha no espaço-tempo, não o suficiente porém para impedi-lo de concentrar em suas mãos anéis azuis translúcidos, que não paravam de piscar, envolveram seus braços, formaram argolas e foram atiradas como espirais em altíssima velocidade na direção do inimigo; os sub-soldados no meio do caminho tiveram seus corpos astrais instantaneamente separados do físico, despencando duros no solo. Contudo, apenas ao estender a palma de sua enorme mão, Kahjrkayth parou as ondas em frente a ele e as reverteu na direção do mesmo Baden, que conseguiu desfazê-las, mas não evitar que mesmo a uma distância de quase cinqüenta metros seu terrível oponente fizesse uso de seu poder: Odin, num ponto de vista privilegiado, viu as células vermelhas do sangue do amigo diminuírem bruscamente de tamanho; Baden começou a sentir uma tremenda falta de ar, somada a um cansaço devastador, quase não se segurando mais de pé, e sua pele foi se tornando esquálida. O barão estava retirando todo o ferro de seu sangue e dispersando os átomos deste elemento pelo ar, quando foi atacado por Balin, absorvendo, no entanto, os raios de luz, que ao invés de lhe causarem dano o deixaram ainda mais vigoroso. O príncipe de Tudnan, diante daquelas cenas, engoliu seco, temendo por seus amigos. “E você teria tido o mesmo destino deles...”, a mensagem telepática do pai o deixou ainda mais apreensivo; só não teve coragem de perguntar o que iria ocorrer. Preferia acompanhar com suas próprias percepções.

Começou a notar a presença dos sifans. E, ao revê-los, lembrou-se com afeto de cada um; antes de sair de Tudnan, tivera uma certa convivência cordial com alguns deles e, embora nunca num nível muito próximo, pareciam-lhe pessoas com as quais se daria bem se tivesse a chance de conhecê-los a fundo. “Eis a oportunidade...”, mais uma vez o pensamento de Valin.

Na época da partida, só queria saber de conhecer o mundo e auxiliar os desamparados; seus vizinhos, como tudo o que havia por perto, que não necessitavam de sua ajuda, pois em Tudnan não parecia haver nada fora do lugar, e ele possuíra o seu como atavio principesco, haviam ficado em segundo plano.

Não tendo nenhuma maneira de interferir, só lhe restou acompanhar, sob uma nova referência, como espectador, o decorrer do confronto...

INTERLÚDIO – Kronos


(Alguns séculos após a trama corrente...)



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