Marcello salvaggio



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Encontro03.05.2017
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Só eu...


Atravessando as névoas da floresta em volta de Irul, Odin encontrou sua nova morada, enquanto o surto de histeria coletiva aos poucos começava a passar. Os que haviam atacado aos poucos se arrependeram das lutas insensatas e buscaram argumentos para justificar a autodefesa e a compreensão ou incompreensão mútua; quem proferira insultos não movia mais os lábios nem a língua; a imobilidade passou a tomar conta da maioria, que dos impulsos desenfreados passara ao mais profundo desânimo. As almas estavam vazias, os espíritos feridos, as mentes dispersas e os corpos machucados.

O príncipe, inteiro dolorido, esquecera-se de seus pais, amigos e Eluen se transformara em uma rede traumática; um buraco de rocha fria e seca impedia suas lágrimas, que não tinham mais matéria para lhes dar forma. Agachou-se no fundo da gruta, colocou a cabeça entre os braços apoiados sobre os joelhos e assim permaneceu.

O corvo, pouco maior que sua mão direita, pairava pelo ar sem parar de fazer barulho, que o elfo não compreendia; contudo, não parava quieto e não o deixava dormir, ainda que ele nem soubesse se queria de fato dormir...E ser enredado pelos pesadelos mais violentos. Não via o lobo; apenas escutava o uivo e percebia a sombra deste ao seu lado. Os olhos vazios circulavam sozinhos, espionando-o o tempo todo. Não restava a mínima vontade observar, reagir e responder.

Outro que atravessava uma crise interna, embora muito diferente, era o barão gahinim, que batera em retirada e agora tentava se recuperar, buscando conter sua fúria para que seu corpo e seu espírito se regenerassem, recolhido sem fazer um único movimento em uma região desértica, assim como o soldado ao seu lado. Campos de força transparentes, circulares, protegiam os dois dos ventos fortes e carregados de areia; aquela área fora escolhida por ser desabitada e perigosa, fundamentalmente inacessível. Nas lembranças do barão, que se sentia humilhado e pensava em elaborar planos de vingança para acabar com os elfos e libertar seu povo, surgiam as imagens de sua morada na ilha de Gahina: as escadas de pedras pretas, semelhantes ao basalto; pontes de um vidro negro que conectavam entre si os palácios dos barões, espaços estreitos e insignificantes se comparados ao que um dia haviam sido os domínios de cada um; brilhavam, nas colunas de coloração acinzentada do seu castelo repleto de torres pontiagudas, inscrições esmaltadas num vermelho que piscava; acima, um teto central cupular e carnoso percorrido por “veias”.

Suas mãos se contorciam de ódio e esmagariam sem piedade qualquer um que insistisse em se colocar em seu caminho. Além disso, existiam os “traidores”; “...é só por isso que conseguem nos derrotar...”, e nem sempre, no passado, os gahinim haviam sido mortos durante as guerras contra os elfos; alguns, como o próprio do qual falamos, acabaram selados por complexas operações mágicas e enclausurados novamente na ilha, especialmente os barões, que poucos conseguiam derrotar...

Derrota que doía nos órgãos internos de Gilgash, lento e incomodado ao voltar para casa; Samen, com os olhos insones, correu para abraçá-lo. Poderia estar ansiosa para rever seu “amor”, mas estava bem mais para saber o que ocorrera durante e após a batalha:

— A Eluen está morta...– Mesmo assim, a notícia foi um choque; num primeiro momento, negativo. “Eu queria ter estado lá, queria ter visto...”, pensou a ex-disira. Num segundo momento, teve de se conter para não irradiar seu contentamento nem explicitar sua admiração pelos gahinim.– E Odin de certa maneira se foi junto com ela.– Esta outra notícia a deixou intrigada; mas a satisfação só aumentou, o agradecimento aos gahinim foi mais intenso e a felicidade ainda maior quando o lomai contou a ela o que o príncipe fizera, revelando-se um criminoso, um indivíduo descontrolado e insensível, e o quanto sofreria em vida de agora em diante, pagando por todos os seus delitos. Não morreria para se aliviar; gritaria de dor e estava confirmado: Eljai existia e a protegia! Quase sem mover um dedo, seus planos iam de vento em popa.– Talvez estejamos condenados...

— Não fale assim.– De início ela fingiu abalo e tristeza; depois se mostrou firme, forte e disposta a se fortalecer e a dar forças ao seu companheiro:– Você fala como se ele e ela fossem os salvadores da nossa civilização. Mas eles eram só seus amigos, por isso está desesperado.

— “Só”? Você acha isso insignificante, não é mesmo? Afinal você ainda os odiava.

— Que história é essa, Gilgash? Estou tentando te dar um apoio e é assim que você me agradece, revivendo o passado? Achei que esses assuntos estivessem mortos para nós dois; eu só andava triste e chateada por não poder aparecer por causa deles.

— Agora que pode deve estar feliz, não é?– “Será que ele ouviu algum pensamento meu ou sentiu a minha aura? Tenho que ser ainda mais cuidadosa...”, ela refletiu, enquanto o lomai se afastava e repelia seus carinhos.– De certa maneira, você pode até ser grata aos gahinim...

— Desse jeito você me magoa. O que quis te dizer, desde o começo, é que você também é um herói. Não só eles eram! Você derrotou um gahinim sozinho, pelo que me contou agora! Com gente como você, ainda podemos vencer. Não é ser um elfo ou não que faz a diferença; nossa civilização é única e se fortalece com a união de todas as espécies! Só assim iremos vencer, não cultivando as lendas de heróis que se foram. Eles cumpriram o ciclo deles. Odin era tudo; você não é nada?

— Uma amizade de tantos anos, acabar desse jeito...

— Talvez porque você fosse mais amigo dele do que ele seu.

— Não, isso é mentira. A amizade da parte dele era a mais sincera.

— Mas ele tinha tudo e você nada. Vou te confessar uma coisa! Espero que não fique furioso comigo... Não é algo agradável.

— Se quer dizer que está feliz com o que aconteceu, diga de uma vez.

— Não é nada disso! Até outro dia você achava injusto eu ficar escondida e agora age assim comigo?

— O que seria então? Fale, Samen. Não estou de bom-humor hoje.

— Um dia, enquanto tinha nojo de você, desejei ter Odin.– A revelação fez o sangue do lomai subir e seu estômago embrulhar.– Achava que ele era perfeito pra mim. Por isso talvez odiasse tanto a Eluen, mais do que pelos adanas e pelas tradições. Eu tinha inveja dela. Está bem que já a detestava desde antes, só que quando vi Odin pela primeira vez o ódio cresceu demais. Ele era realmente um príncipe: belo, forte, ágil, inteligente. Tudo.

— Você não o odiava?

— Podia odiá-lo pelo fato dele amar a Eluen. Mas mais do que odiá-lo sentia uma atração tremenda, incontrolável, irracional; os meus pensamentos com ele me atormentaram enquanto era uma sacerdotisa casta. Me desculpe por não ter contado isso antes...– Desviou o rosto.

— Sempre foi assim, eu até imaginava. As elfas me repugnando e Odin atraindo a atenção de todas.

— Espero que não fique magoado.– Ouvira a voz; não olhava mais para o rosto dele.– Se quiser, pode me botar pra fora. Não vai querer ficar com alguém vulgar como eu em sua casa.


  • Você não foi vulgar; foi sincera. E está sendo tão sincera comigo até hoje que eu me espanto, fica difícil acreditar, e me arrependo por tratar você mal por causa de rancores antigos. Eu que tenho que me desculpar por te magoar.– E ela tornou a encará-lo; a expressão dele era de uma ternura entristecida. Aproximou-se dela e tocou-lhe o queixo antes de beijá-la com uma suavidade avassaladora.– Às vezes posso ser mais cruel do que você era...Ao não saber reconhecer o seu arrependimento.– “Eu poderia me sentir culpado por tudo. Afinal, estou amando alguém que fez de tudo para prejudicar os meus amigos e, mesmo que nada tenha feito diretamente, indiretamente ela poderia ter provocado esta catástrofe se acreditarmos que o ódio deixa marcas no espírito, que o pensamento pode influenciar a realidade, que o mal desejado se torna mal efetivo, que do astral passa para o físico. Só que não consigo pensar assim! Se ela se arrependeu, o mal de qualquer maneira foi cancelado, se apagou. E a culpa dela, tanto quanto a minha, não existem portanto. Aconteceu o que tinha de acontecer; é isso...”, e se entregaram mais uma vez à paixão.

De volta à caverna, após alguns dias de burburinho incompreensível, Odin tornou a ouvir a voz rouca do corvo, que, materializado, não se limitava mais a falar apenas em sua mente:

— Agora você não quer mais nada...Não sente mais nada...E nem vê! O seu continente inteiro ruiu e vai continuar desse jeito? Não resolve nada. Que desperdício!

— Por que você veio me perturbar de novo?– Inquiriu com a voz fraca.– Pela milionésima vez: me deixe em paz! Não sei o que você é...Mas sou tão valioso assim para compensar essa insistência?

— Você não tem noção da sua importância, príncipe. Se quisesse, poderia destruir todo este reino; e deveria, por tudo o que fizeram a você desde que chegou aqui.

— Vá embora. Apesar de eu começar a achar que não pode porque é parte de mim.

— Só é parte de você o que aceitar como tal. O desagradável, portanto, não precisa ser uma parte sua.– Ouviu a inesperada voz de Vanadis, que acabava de entrar na caverna, introduzindo sua luz onde só havia oportunidade para as trevas. Seu rosto estava sério e compenetrado, parcialmente encoberto pelas sombras, com os cabelos bem soltos, e vestia uma longa túnica branca e violeta, com um jarro que derramava desenhado em seu centro. Ela viu o corvo, que a fitou com olhos vermelhos, enquanto Odin falou sem encará-la:

— Você veio me dar conselhos? Justo você que foi a causa mais imediata da morte da Eluen?

— Entendo que ainda esteja magoado comigo. Mas apesar de ter muitas coisas a fazer, muitos deveres a cumprir, ainda assim vim até aqui.

— Se quer me convencer a lutar por vocês, desista. Não me importo mais com Warman nem com nenhuma outra nação. Nem com Tudnan. Meus pais não estavam quando ela morreu, não foram presentes, não fizeram nada para ajudar quando poderiam; não preciso de ninguém. Portanto, não colocarei a minha força a serviço de ninguém. Quem quiser que lute. Eu já cansei. Se os gahinim querem tornar a Terra o planeta deles, qual o problema? Os kumaras...Quer dizer, os adanas...Que os impeçam se isso for ruim. Não vou me esforçar mais.

— Já sei quem são os kumaras. Baden me contou.

— Procure-os então e faça bom proveito.– Levantara a cabeça por alguns instantes, os olhos foscos, para depois afundá-la novamente.

— Eu não vim atrás da sua força, Odin. Vim por amizade. Não quero ver nessa situação aquele que uma grande amiga minha amou tanto. O companheiro que me ajudou a livrar Warman do caos.

— Ele não quer saber de argumentos, você não percebe?– O corvo grasnou.– Vá embora!

— Não pedi a sua intervenção. Se alguém tem que colocar ela pra fora, sou eu! Não interfira.– O príncipe repreendeu a criatura.

— Não preciso obedecer a um fraco como você.

— Não caia em provocações baratas, Odin. Você pode reagir, é muito maior do que tudo isso!– Ela insistiu e, quando não esperava, foi atacada pelo pássaro, que deu um vôo rasante e arrancou alguns fios de cabelo seus. Num segundo ataque, ainda mais rápido, passou perto da pele do rosto da elfa.

— Este é o nosso território... E ele é nosso.– Baskir, na forma de um lobo imenso, maior do que um leão das cavernas, o pêlo branco e os olhos azuis sem pupilas, afastou a escuridão e colocou as patas sobre os ombros de Odin, que não reagiu.– Se quer viver, retire-se. É o nosso último aviso.

— Duas bizarras criaturas astrais como vocês, que conseguiram se materializar não sei como, jamais irão me assustar. Sejam o que forem, façam o que façam, a minha vontade não permitirá que avancem mais! Foram longe...Está na hora de parar.– Irradiou sua energia violeta, que obrigou Fligya e o lobo a retrocederem e o segundo a emanar um pretume ácido e viscoso pelo solo, que começou a queimar os pés de Vanadis. Logo suas sandálias foram desintegradas e se viu forçada a protegê-los com sua aura, que a manteve levitando a alguns centímetros do solo.

— Foi Odin que nos materializou. E é dele que tiramos nossas forças. Se quer odiar alguém pelo fato de nós existirmos, odeie o seu amigo.– Relâmpagos púrpuras estalaram em volta da rainha de Warman e a caverna começou a tremer.

— Acabe com a nossa existência, não hesite! Porém fique ciente que, depois disso, nossas essências espirituais se dirigirão não para fora e sim com toda a força que possuímos para dentro do coração de Odin. Que não irá resistir...– Partiu a provocação do corvo.

— Isso é mentira. Não acredito em vocês.– Vanadis se negou.

— Então arrisque! Quando o coração do seu amigo explodir, você se dará por satisfeita?

A energia da ex-Disiran foi aos poucos se apagando. Nunca colocaria a vida de um amigo em risco. Não tendo certeza de seu êxito, mesmo que a dúvida fosse mínima, inferior a um por cento, preferia garantir a vida do próximo. “Não tenho outra escolha, a não ser recorrer a uma magia de exorcismo, apesar do caso dele ser diferente dos que encontrei até hoje; eles não estão mais dentro dele: materializaram-se. E ao mesmo tempo estão em simbiose: se um morrer todos morrem. Eles não disseram, mas estou desconfiada que se matar um, o outro irá se vingar de forma suicida. Além disso, para o exorcismo é necessário que a pessoa queira se livrar do mal. Não é o caso de Odin.”

— Mas não ache que agora a deixaremos fugir. Você nos ameaçou, nos provocou. Merece o devido castigo.– O corvo não parava de crocitar.

— E estou com muita fome. Adoraria uma carne macia...– O lobo lambeu os beiços.

“Não é nem que ele queira a possessão...Ele simplesmente se entregou, não opõe resistência; está indiferente. Com tanta passividade é impossível extirpar a influência nefasta...”, Vanadis chegara à conclusão que não havia mais nada a fazer.

Fligya e Baskir atacaram e a rainha se viu envolta em um turbilhão negro que imprimia uma pressão atroz; suas juntas, tendões e ossos doíam até um ponto que parecia que iriam se partir e sua pele queimava. Poderia lutar e colocar a vida de Odin em sério risco; não havia para onde nem como fugir; cederia à terceira alternativa, de entregar sua própria vida para poupar o amigo? Um raciocínio “egoísta” cercou sua mente: daquele jeito que ele estava, jamais iria se recuperar. O que valeria mais para Warman e para a civilização? Ela com seu potencial, sua coragem e sua inteligência, ou um príncipe rebelde que se tornara uma ameaça para todos? Matando-o, faria inclusive um favor ao planeta, enquanto seu “suicídio” para poupá-lo deixaria a Terra sem uma eficiente e dedicada defensora. Talvez fosse a hora de fazer um sacrifício. E não seria o dela. “Isso não é egoísmo. É necessidade de sobrevivência; sobrevivência coletiva. É agir pela lógica, não pelo emocionalismo. Para que um exército avance, sempre ocorrem as mortes de alguns pelo caminho, entre os quais os que contraem doenças horríveis, que não têm culpa de contraí-las, ou têm, mas não se pode responsabilizá-los totalmente em meio ao desespero da guerra. Nem sempre há cura para esses soldados...”, contudo, por mais que raciocinasse, não tinha coragem de agir. Sentia-se amarrada por suas emoções e por seu senso moral; daquela maneira, não iria fazer nada e morrer.

“Permitirá que mais uma pessoa próxima pereça quase ao seu lado? Da outra vez você estava inconsciente, é mais compreensível, por mais que se tratasse de sua amada. Desta vez se trata de uma situação muito distinta: você está consciente e permanece de braços cruzados. E quem vai matar Vanadis são seus próprios monstros, que ela poderia muito bem eliminar, porém não o faz em consideração à sua pessoa. Quer mesmo que isso aconteça? Quer tanto assim se vingar?”, uma voz ecoou na cabeça de Odin; era a sua própria, porém mais firme, bela e serena do que de costume. Por que o tratava como se fosse uma presença externa? “Talvez porque o meu verdadeiro Eu tenha ido mesmo parar fora de mim”, conseguiu se responder; e devagar, com um enorme peso no pescoço, foi levantando a cabeça. Os olhos já estavam abertos, porém do vazio passaram a fitar o que havia: desembaraçou-se do nublado e do incerto, desfez o efeito de embriagamento de seu ser, e viu a rainha com a roupa rasgada, esquivando-se dos ataques de Fligya e Baskir, evidente pelo seu semblante que sem força emocional e psíquica sobrando, o que se refletia em seu físico; ofegava...E não tinha ânimo, com uma náusea espiritual e física que raspou no príncipe e quase redobrou seu mal-estar absoluto. “Terra... Deusa... Peço que me dê um pouco das suas forças e me liberte...Eu estou cansado...Sozinho não me agüento...”, e quando ficou de pé, com a cabeça voltada para o alto, atraiu a atenção brusca dos seus terríveis inimigos; um ar hostil gelou a caverna. “Seria lamentável ficar agachado enquanto todos morrem...Só esperando chegar a minha vez...Eluen não aceitaria um reencontro nessas condições.”

— Não pode ser...Ele está querendo se libertar!– O corvo grasnou, apavorado.

— Não! É só um ímpeto...– O lobo não estava disposto a aceitar a verdade.– Vai passar.

— Não, não é um mero impulso súbito e passageiro! A energia dele está diferente, e me machuca.

Mais prudente mas menos sensível do que Fligya, Baskir parou por um instante para sentir a irradiação espiritual e seus olhos arderam, ao ponto de forçá-lo a ganir e levantar as patas dianteiras num gesto precipitado.

— O que está acontecendo? Não vejo mais nada!– Ficara cego.

Os corpos das duas criaturas queimaram sem haver fogo no ambiente; no entanto, a sensação foi a mesma para o príncipe. “Será que exagerei? Será possível que agora não haja mais volta e eu esteja condenado junto com essas coisas? Eluen, espero ser digno de me reencontrar com você ao partir. Embora não acredito que seja! O meu cansaço não me permite mais resistir. Os meus órgãos estão prestes a virar cinzas. À minha alma só resta a incineração, para que possa algum dia renascer”, mas quem se ergueu, dessa vez para agir, foi Vanadis, que com sua aguçada percepção não deixava nada escapar quando se dispunha a ficar atenta: os golpes do lobo e do corvo não haviam sido o verdadeiro problema; ela mesma se paralisara. Entrementes, já podia se mover, pois sentira não só em sua alma como em sua carne a reação de Odin: uma alegria renovada invadiu seu corpo e permitiu a libertação de seu Ser. “Agora sim! Ele recuperou a vontade de viver e está disposto a lutar! Agora posso fazer o exorcismo...” e dispôs mentalmente quatro figuras geométricas, uma para cada canto da caverna: com uma boa concentração, o triângulo esverdeado ao leste foi se diluindo em três direções, até se desfazer no plano mental e surgir fisicamente na forma de gases que se espalharam por toda a caverna e tontearam o príncipe, o corvo e o lobo; o círculo azul no oeste girava sem parar e em velocidade crescente, chegando por fim a se espalhar e a se manifestar como uma umidificação do ambiente, goteiras surgindo das estalactites; o quadrado ao norte, ocre, clareava junto com a espiral vermelha ao sul, os dois aumentando a cada segundo o nível de luminosidade e culminando num dourado abrasador que tomou conta do cenário enquanto a gruta tremia. O vento varreu as partículas mais ásperas e a alta temperatura consumiu as trevas; quando a claridade se foi, Vanadis pôde reabrir os olhos, um tanto atordoada, e discerniu somente a imagem do príncipe, apoiado em uma parede, parecendo fraco mas ainda assim com uma nova energia.

— Eu não acredito que me deixei ficar sozinho. Totalmente sozinho...– Ela escutou o lamento.– Como posso ter me cansado tanto e mesmo assim permanecer com forças para odiar o mundo?

— O mundo não é indiferente ao seu ódio... Felizmente. Ele reage na mesma proporção.– A rainha de Warman, cambaleante, se aproximou com calma, sem necessidade de cautela, pois o medo se fora; antes que ela pensasse, ele se deixou abraçar.

— Em poucas horas...Em menos dias...Reneguei tudo o que fazia parte de mim, joguei fora os amigos, me dei conta do quanto nossas crenças são frágeis se não estiverem ancoradas numa concepção clara e em uma estabilidade interna efetiva.

—Talvez essa experiência tenha servido para que você adquirisse o que ainda não tinha.

— Não sei se consegui. Ainda me sinto imaturo. Só que algo dentro de mim mudou...Ou melhor, descobri algo dentro de mim. Antes não havia nada; quando perdi a Eluen, nada tinha sobrado.

— O bem mais precioso que possuímos, nosso ente amado mais querido, sempre tem que ser o si mesmo. Não o nós, porque não somos as máscaras que vestimos, os personagens que interpretamos, as faces que os outros vêem, os reflexos nos espelhos da vida. O si próprio, que é o que permanece na pobreza, na fome, quando não temos o que comer, mas temos quem nos ouve e pensa em nós, que suporta nossas vozes, que persiste mesmo após as despedidas das pessoas que amamos, que estará conosco por toda a eternidade, que nunca irá se despedir. Quando você perdeu a Eluen, assim como eu perdi num curto espaço de tempo as minhas duas melhores amigas, você se perdeu do si mesmo, que continuava ali, desapercebido em meio aos tufões que a sua inconsciência criou. A minha maior felicidade é que por fim você o percebeu, Odin, o que me manteve viva e de pé, na luta, depois de ter perdido um dia, além das minhas maiores amizades, o irmão que tanto amei...

— Um dia todos nós perdemos quem amamos ou eles nos perdem. Partindo voluntariamente ou não, com ou sem o ich, as despedidas são inevitáveis, ainda mais porque temos as guerras. Só não podemos nos perder de nós mesmos. Ou, me corrigindo outra vez, eu não posso me perder de mim. Se eu me encontrar, algum dia poderei rever os que se foram. Sem peso, dor ou saudade. O meu equilíbrio irá me permitir que fiquem ao meu redor sem que eu me entorte ou perca o prumo. Começo a entender a finalidade da morte; ela é como uma balança. Precisamos dela para continuar em equilíbrio. Mas sabe o que mais me deixou triste?

— Pode me dizer, Odin.

— Não o passado...Por mais que se pense no que passou, com carinho ou com dor, que se vejam as cenas na memória e se lamente com saudade, nunca sentiria assim tanta falta da alegria temporária que um dia tem de morrer; fiquei é revoltado por Eluen levar embora com ela o nosso futuro, pela nossa felicidade impedida, por aquilo que teria sido e seria, mas partiu, escapou dos meus dedos e da minha vista. Eu me senti sem ter o que tocar e onde pisar; e todos eram culpados por deixar ela ir e levar tudo!

— Ela não levou tudo. Você ficou e isso é fundamental.

— Isso foi o pior, eu ficar. Estava cego, só comigo e mais ninguém. O resto eram inimigos.

— Eram, não são. Você se permitiu enxergar a amizade.

— Eu acordei. Chega de cansaço quando ainda posso ficar de pé...

— Só uma dúvida que sobrou pra mim...Sobre essa força, esse poder imenso que você manifestou no seu estado de fúria. Será que pode colocar ele pra fora outra vez?

— O que menos quero saber e falar agora é sobre poder. Quero saber e falar sobre os outros, como eles estão. E poder reencontrá-los para pedir desculpas e distribuir bons abraços.

— Entendo como se sente.– Ela sorriu.– Mas só abrace... Nada de desculpas.

— Compreendo que queira saber sobre o meu poder. Afinal, precisamos lutar para existir; sei que não falou por ganância ou oportunismo, que não me usa. Me desculpe por antes.

— Não se desculpe, já disse. Eu que peço desculpas por expor uma dúvida inoportuna.

— Você me salvou e sou muito grato a você, que fique claro. Devo-lhe a vida, Vanadis.

— Não me deve nada, Odin...Só você poderia salvar a si mesmo; e foi o que aconteceu.

Alguns dias antes, logo após a tragédia, Vanadis já se mostrara disposta a intervir ativamente para recuperar o amigo; discutira a respeito com Kara:

— Não é só uma questão dele ser valioso como guerreiro e importante para conseguirmos a vitória. Trata-se de consideração pessoal, de amizade. Tenho certeza que a Eluen não ficaria indiferente.

— Pouco conheci a sua amiga. Na maioria das vezes só a vi de relance, assim como o príncipe de Tudnan, e me acostumei, depois de ficar tanto tempo hibernada, a ignorar quem está por perto; só o meu silêncio passou a ser relevante. Por outro lado, à medida que o tempo passa, vem a saudade de quem já não está mais aqui e chego à constatação racional que não vale a pena se apegar, que tudo se esvai, que as vidas não passam de folhas secas tragadas pelo vento. Por isso me limito a pensar na preservação da coletividade; uma ou outra vida não importam. É como no sono: impessoal.

— Já eu ainda não me conformei de perder o meu pessoal. Sem entrar em desespero e colocar o coletivo em risco, buscando o equilíbrio.

— Será que é possível atingir um equilíbrio?– A comandante se mostrara cética.

— Quem não tentar não poderá responder.

Nesse meio tempo, Gilgash apresentara Samen ao grupo, introduzindo-a nos treinamentos; Malin, que ouvira falar dela por meio do genro e do filho, ficara muito surpreso, ainda que sem se opor frontalmente. Baden, que soubera algo por meio dos três, se decidira a observá-la com atenção redobrada; qualquer movimento suspeito apresentaria um sério risco para a elfa.

— Você confia mesmo nela? Acha que ela realmente mudou?– Indagara o curandeiro, conversando com o amigo lomai, enquanto seu filho permanecia em silêncio, encostado de pé em uma árvore.

— Todas as pessoas têm direito a uma segunda chance. Não fosse por mim, ela ficaria na miséria e passaria fome, talvez já tivesse morrido. Não custa nada pra mim.– Replicara o apaixonado, que mesmo com a morte de Eluen e a partida de seu melhor amigo se sentia permanentemente em levitação, aliviado, e chegara a pensar se o que ocorrera não fora um bem de um certo ponto de vista. “Pode parecer abominável, egoísta, desprezível, mas eu não estaria me sentindo assim livre e feliz com Odin por aqui...”, a seguir se arrependia, sentia culpa e buscava não pensar mais a respeito, enquanto Baden e Malin notavam que sua aura aparecia torta, colorida demais, em completo desequilíbrio. “Ela não me parece nem um pouco confiável, apesar dos efeitos psíquicos que sinto nele serem exclusivamente culpa dele, que se perdeu na paixão...”, pensou o irmão de Eluen, ao passo que Eosen surgiria de modo abrupto para comentar:

— Ela é bem bonitinha...Vamos esperar que por dentro também seja.– E Baden, que a princípio não simpatizara muito com o sura, aos poucos percebia que por trás da aparente futilidade havia uma alma profunda, que usava essa máscara de palhaço para se disfarçar no mundo, fazendo com que achassem que fosse bobo ou superficial e pegando os que o subestimavam de surpresa. Enquanto permitia que Samen estivesse com eles, a brincar e deixar acontecer, fingindo confiar, estudava seu comportamento com diligência; já conversara com Durin se seria conveniente, justo e necessário usar um homúnculo para espioná-la, porém o segundo negara a possibilidade por uma questão ética:

— Estaríamos nos metendo na privacidade de Gilgash. E que mal efetivo ela pode nos fazer?

— Odin que ficaria apreensivo e seria o único que ela poderia afetar. Mas como ele não está mais entre nós...

— É uma pena. Não só a Eluen morreu.

— Você tinha uma quedinha por ela, isso sei muito bem. Como se sentiu quando soube?

— Mesmo sabendo que ela nunca seria minha, e Odin tendo se tornado meu amigo, foram duas perdas que deixaram os meus homúnculos bem menos brilhantes.

Samen se desculpara com Goll, Drifa e Rota; não queria nem pensar em encarar Gondul.

— Sinto muito, não sou mais digna de ser uma disira. Infringi as regras da Ordem, me envolvi com um lomai. Aguardo apenas a expulsão formal, se isso precisar ser realizado.

— Você não precisa pedir perdão a mim; peça a Dannah, e leve a sua vida adiante; não faço questão de uma cerimônia de expulsão e acredito que nenhuma de vocês faça.– Goll se voltara para as outras duas.– Gondul sim exigiria essa formalidade cruel, mas ela nem precisa saber que você está aqui. Você não pertence mais à minha divisão, está livre.

— Obrigada, comandante. Serei grata pela sua compreensão durante o resto de minha existência.

— Mas ela fatalmente irá se reencontrar com Gondul e talvez seja reconhecida se lutar ao nosso lado.– Drifa observara.

— Mude o visual, Samen. Corte os cabelos...E quem sabe assim passe desapercebida. O forte dela não é memorizar rostos. - Rota aconselhou.

— Obrigada, comandante. Aceito a sugestão.– Desde que recebera a notícia da morte de Eluen e da ruína interior de Odin, começara a pensar em como seguiria sua vida; não pretendia ficar ao lado de Gilgash, que seduzira apenas para ter uma oportunidade próxima de destruir o casal. Como parecia que eles haviam sido aniquilados antes mesmo de sua intervenção, não fazia mais sentido permanecer ao lado do lomai. Contudo, algo em seu interior lhe dizia para não se precipitar: pois Vanadis ainda tentaria recuperar Odin, segundo todos comentavam, e, caso a rainha obtivesse êxito, seus planos teriam que ser renovados; afora que Gilgash lhe daria alguma segurança enquanto os gahinim estivessem rondando Warman. Seria perigoso se demorasse a encontrar um elfo que a protegesse.

— Acho que isso é apenas um jogo. Não acredito que ela tenha mudado.– Rota comentara com suas duas amigas quando ficaram a sós.– A aura dela não irradia sinceridade.

— Senti uma parte de verdade e outra de mentira; um pouco de sentimento e um tanto de fingimento, mesmo ela tentando esconder os dois.– Observara Drifa.

— Ela odiava a Eluen. É diferente de ter raiva. Todas nós temos raiva de alguém em algum momento, é comum; e também é normal ter momentos de inveja. Ódio que não é normal. Duvido que alguém que um dia odiou deixe de odiar.

— Ou seja, raivosos podem mudar! Já odiosos não.– Com um riso discreto, a comandante de Osir tentara descontrair.

Eluen fora cremada, suas cinzas colocadas em uma urna de pedra negra e enterradas em Tuyna, perto da antiga casa de Malin. As disiras conduziram a cerimônia de despedida, com Gondul ao norte, Drifa a oeste, Goll ao leste, Rota ao sul, Kara ao centro e o corpo da elfa sobre o altar de madeira, sendo a rainha a atear o fogo após as cinco pronunciarem cada qual uma oração individual e por fim uma em conjunto antes de permitir a subida das chamas. “Melhor assim; Odin sofreria ainda mais se visse essas cenas...”, refletira Vanadis, por um instante discernindo o contorno de Svava entre as labaredas, ao passo que as outras disiras rezavam em silêncio, de joelhos, com as mãos fechadas, Durin se retirara no meio do ritual, Baden não parava de chorar, Gilgash imaginava que Samen estivesse pedindo perdão mentalmente, os dois de braços dados e pensando que Odin nunca teria permitido a presença dela se estivesse lá, ele pesado e ela triunfante, e Malin segurava o recipiente, que apresentava relevos de Eljai, sem demonstrar sofrimento ou tristeza, mais com uma expressão orgulhosa pela filha que tivera.

— Como eu queria ter estado presente...Mas, como você disse, pode ter sido melhor assim. – De volta ao presente, Odin conversava com Vanadis ainda na caverna, os dois sentados sobre “bancos” naturais de rochas, descansando um pouco antes de sair.– Só uma coisa me deixa inconformado...

— Gilgash estar com Samen?

— Isso mesmo. Nada me tira da cabeça que ela o está usando. É um imbecil mesmo se não caiu na real! Não acredito que pessoas como ela mudem e passem a valorizar a “beleza interior”.

— Até Ymun mudou um pouco, no final da vida. Por que ela não poderia?

— A minha intuição não está tranqüila no caso dela. E não é só por preconceito: já tive visões dela com o Gilgash e não passavam uma energia boa. Eram presságios sinistros.

— Não seriam ilusões provocadas pelo corvo?

— Não. O corvo bem que tentou se apoderar das minhas visões, mas sempre as tive muito claras, independentes dele; é um dom que herdei da minha mãe, apesar do meu ser bem diferente. Samen será a perdição de Gilgash, se ele não tomar cuidado. Como amigo, vou tentar ajudar, só que não posso fazer por ele, que tem que perceber por conta própria, como eu percebi as coisas quando você me ajudou. Não se preocupe, porque não vou destratar a Samen nem demonstrar qualquer espécie de ressentimento. Não me cabe corrigir a vida alheia. Só farei o possível para que ele abra os olhos.

— Chegou a sua vez de sacudir alguém que caiu no fundo do poço.

— Pior que ele deve achar que está no trecho mais bonito do mar. E, mesmo que estivesse, as águas são traiçoeiras; uma tempestade pode surgir a qualquer momento.

Na saída, Odin se surpreendeu ao dar de cara com um grupo de gárgulas; Vanadis se explicou:

— Eles garantiriam a nossa segurança caso alguém me seguisse.

A rainha fez uma convocação especial para a volta do príncipe de Tudnan, que só não culminou em uma festa porque ele quis que fosse uma comemoração comedida, em respeito a Eluen e por achar que sua revolta contra seus amigos fora um erro grave e que não merecia ser celebrado com tanto alarde. Contudo, ao revê-lo no salão do trono do castelo de Irul, Malin o recebeu de volta como se fosse seu filho: no primeiro e único abraço estavam englobados milhares de outros, todos os que já haviam trocado em recordação, e perfumes de carinho e agradecimento se espalhavam suavemente com uma efusão não contida, e sim moderada em sua plenitude.

— Não peça desculpas.– Baden se adiantou, batendo no peito do companheiro e, ao cruzarem os olhos, um reconheceu no outro, intrínseco, o olhar de Eluen, feliz com o desenrolar dos fatos.

— Isto aqui não me pertence mais. – Odin tirou o olho de esmeralda da orelha esquerda no exato instante em que Gilgash apareceu com Samen. Bem que tentou disfarçar, mas não conseguiu, fechando o brinco com força na mão e encarando-a com seriedade, quase sem olhar para o lomai; quando se deu conta de sua atitude equivocada, pois deveria dar toda a atenção ao seu amigo que vinha reencontrá-lo, não a uma antiga inimiga, se recriminou e saiu da estaticidade na direção do outro, que pensou: “Por preconceitos dele, está menos feliz ao me rever do que ao rever o resto; mas eu a trouxe comigo justamente para verificar que reação ele teria. Estou decepcionado; mesmo sem ler os pensamentos, posso sentir a raiva e a desilusão...” e se lembrou de quando a ex-disira confessara que se sentira atraída pelo príncipe, que era recebido de volta como um herói; se fosse ele, um lomai, que tivesse se extraviado, aconteceria o mesmo? Vanadis tentaria recuperá-lo? Odin possivelmente sim. Mas ele não queria saber da compaixão de Odin, sempre amado e desejado...

— Estava com saudades de você.– Falou, sem conseguir olhar nos olhos do elfo.

— Eu também. E soube dela.– Olhou de relance para Samen, pensando: “Se ele estava com tantas saudades, se é meu amigo, por que não veio me ajudar junto com a Vanadis? Com os poderes mentais que possui, teria facilitado as coisas! Mas não veio. Ela já deve estar liberando o veneno...”, e sentiu um cheiro forte de veneno, como se um pesticida pairasse no ar.

— Me desculpe por tudo o que já causei. Mas se vim aqui é porque estou com coragem suficiente para encarar os meus erros e pedir perdão a quem feri.– Odin teve vontade de estrangulá-la quando ela falou, pois sentia o deboche e o riso irônico por detrás da falsa humildade.

— Assim como eu errei, um dia todos erram. Deixe isso de lado. O que eu quero é que você viva feliz.– Olhou para Gilgash, que ficou indignado: “Você? Por que não vocês?” e a ira do lomai feriu o elfo, que percebeu “flechas” agressivas em sua aura, sem demonstrar a dor pelo desgosto.

— Quando quiser, pode passar em casa, Odin.– Samen fez o manso convite...

— Vou passar. – “O que não passa é o passado”, refletiu.

— Até que enfim, queridinho!– Eosen entrou com estardalhaço.– No fundo sabia que você ia voltar!

— Apesar de que anteontem você apostou cinco moedas de bronze que ele não ia voltar...– Balin denunciou. Drifa, que vinha com os dois, sorriu; Rota, ao lado, exibia uma expressão confiante e tranqüila como poucas vezes; Goll, Sanan e Kara estavam pouco atrás. Todo esse grupo fez Odin recuperar a alegria, em especial com a chegada de Durin, com um homúnculo em cada ombro, um lembrando o próprio príncipe e outro que lembrava Eluen. A homenagem o comoveu, estremecendo seu interior, conquanto sem derramamento de lágrimas.

— Espero que não nos pregue mais um susto desses.– Gondul foi a última a chegar, junto com o gárgula Grul, e a maior surpresa entre os presentes; até a comandante de Samar sorriu ao revê-lo, o príncipe se inclinou respeitosamente, e a alegria pairaria com perfeição não fosse pela presença de Gilgash, que junto com Samen tornava os doces mais enjoativos do que saborosos.

Contudo, Odin sentiu um golpe súbito em sua cabeça e viu uma coroa de luz pairar no alto do local no momento em que o ambiente parecia estar mais pacífico, pouco depois do lomai e sua consorte partirem e do viúvo de Eluen, para sua própria tristeza, ter ficado mais aliviado e feliz com isso. Ninguém mais sentiu ou vislumbrou algo parecido, quando um guarda pediu permissão à rainha para entrar e anunciou certos visitantes:

— Valin, Soren e Sadjamin de Tudnan. Devo permitir que subam?

Odin ficou em parte surpreso e em parte não. Seu pai acabara de lhe enviar um aviso e, com a situação crítica dos reinos élficos diante da invasão gahinim, estava mais do que na hora de Tudnan agir. Sentiu um radiante júbilo interno, mais do que surpresa.

— Até que enfim nos conhecemos, Vanadis de Vanis.–Valin entrou sem olhar para o filho, direcionando diretamente sua atenção para a rainha.– Que bom que quem eu esperava aqui se encontra. Minha companheira acertou em cheio ao me dizer quando e quem viria na ocasião necessária.– E Soren sorriu com ternura; não tirava entretanto os olhos de Odin, ansiosa para abraçá-lo e consolá-lo pelo tanto que sofrera. Vira a morte de Eluen, depois que ocorrera, e correra e chorara por seu palácio por vários minutos em desespero, culpando-se por não ter agido antes da tragédia, até ser acalmada por seu marido e impedida de correr impulsivamente para Warman. Posteriormente, com a cabeça mais fria, decidira guiá-lo e acompanhá-lo no que viria. “Por mais que o nosso filho sofra, talvez isso seja necessário em prol de algo maior que está por vir...”, tinham sido estas algumas das palavras consoladoras de Valin, e Soren conseguiu, com sua Visão, discernir alguma luz entre as trevas que rodeavam o príncipe. Tanto as sombras quanto os sóis seriam professores valiosos para ele, por mais que ela, como mãe, ansiasse por salvaguardá-lo.

— Para Vossa Majestade vir até aqui é porque a situação é mais grave do que temos ciência, ou não?– Indagou Vanadis, encarando os soberanos de Tudnan com vívida admiração; algo parecido refletia em Malin, que não tirava os olhos de Sadjamin, por sua vez mais preocupado com seu irmão.

— O assunto do qual vamos tratar é realmente sério.– Odin se surpreendeu ao ver Talhapalavras “escondido” na roupa de sua mãe, aparecendo com traquinagens mesmo num momento tão grave.– Até alguns dias atrás, apesar das dificuldades, as coisas pareciam sob controle. Não é o caso, entretanto, do que Soren viu sair de Gahina e da devastação que varreu o que restava dos outros reinos que conhecemos.– Todos caíram num silêncio profundo.

— Infelizmente, os únicos países que se mantêm são Warman e Tudnan.– A afirmação da esposa de Valin gelou Vanadis.– A verdade, como Vissa Majestade sabe, que os gahinim se libertam a cada 442 anos, porém apenas numa quantidade reduzida, caiu por terra. De fato, foram necessários 442 anos para que eles saíssem, e a princípio não passavam de um barão e sete ou oito soldados, como de hábito. Contudo, há poucos dias, tive uma visão de uma imensa e terrível criatura cuja existência desconhecíamos, adormecida na ilha, que despertou e rompeu a barreira que prendia os gahinim; não sabemos qual a natureza desse monstro, mas está relacionado a algo que eles produziram em seu mundo de origem e que teve força o bastante para libertar todos os barões de uma vez.

— Foi impossível para os reinos lutar contra um ataque desse nível e em questão de horas a resistência acabou esmagada. Diante do pânico, decidi sair de Tudnan e trouxe comigo Sadjamin e alguns médicos para cuidar dos feridos, Soren para me guiar e os sifans, meus guerreiros de elite, com seus soldados e forças de apoio.

— Ao menos conseguimos levar os sobreviventes para Tudnan...- Sadjamin se pronunciou.

— E vencemos alguns soldados e sub-soldados gahinim pelo caminho. Porém não encontramos nenhum barão. Acreditamos que estão se preparando para lançar um ataque em massa contra os dois reinos que restaram, que provavelmente deixaram para o final por acreditarem que sejamos os mais fortes. O mais provável é que não se dividam, mas ataquem de maneira compacta, tentando literalmente esmagar Warman primeiro e Tudnan depois. Isso pelo fato de Warman ser mais vulnerável e estar enfraquecido.

— Mas que criatura é essa que rompeu o bloqueio energético da ilha de Gahina? Não posso acreditar que algo do gênero exista.– Vanadis, com a voz baixa, não ocultou mais seu medo.

— Por isso não temos alternativas. Elfos, anões, duendes, lomais e gárgulas: precisamos nos unir. Sozinho já estou ciente de que não posso fazer nada. Espero que Vossa Majestade tenha a mesma consciência.

— Vou avisar a todos da minha espécie que conseguir encontrar.– Grul não demorou para se retirar. “Espero que Seraph Ishtar intervenha de alguma maneira. Ele já deve estar a par de tudo”, o gárgula refletiu. “Se contribuiu na nossa criação, nos ajudará a sobreviver”.

— Esse é apressadinho... – Eosen comentou.

— Pai...– Odin atraiu a atenção geral e pela primeira vez recebeu os olhos de Valin. – Sei que não estou só.– E o rosto do kumara brilhou na mente de Baden.

— Iremos à luta juntos. Por Warman e por Tudnan!– Ainda que moderadamente ofegante, Vanadis foi elevando seu tom de voz e confirmou a aliança, de pé à frente de seu trono.

— As tradições estão acabadas.– Gondul observou e Kara ouviu; entrementes, apesar da seriedade aparente, a comandante da divisão dos deuses menores percebeu que a líder de Samar zombava de si mesma com uma ironia das mais finas.

Então Valin, Soren, Sadjamin e, de brinde, o duende, entraram efetivamente no salão para cumprimentar de perto os novos aliados. Pacientemente, Odin esperou que chegassem a ele.

— Não se abale com o caos; você precisa e vai receber a Iniciação Real, mesmo que seja durante a guerra.– Após o abraço suspirado e macio de sua mãe e do caloroso e apertado de seu irmão, recebeu o dedo indicador de seu pai no centro de seu peito.

— Iniciação Real?– Indagou com um certo espanto.

— Sim. Para se tornar o rei de Tudnan e, ao que tudo indica, de todos os elfos.– E o príncipe quase se desmontou em milhares de peças, desfeito e desagregado; espremeu com tanta força o brinco ainda em sua mão que o reduziu a migalhas.





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