Marcello salvaggio



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Encontro03.05.2017
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Convocação

Adiante e em volta do trono real de Warman, o ambiente se mostrava muito mais luminoso com Vanadis do que fora com Ymun; talvez porque estivesse lotado de armaduras reluzentes. Postadas de maneira ordenada na primeira fila, estavam as disiras, encabeçadas pelas comandantes: Drifa parecia tensa, o olhar duro; Goll a mais serena, buscando contagiar suas companheiras com uma irradiação emocional firme e tranqüila; Rota não resistia e olhava ao seu lado, para Gondul, a qual, por mais ressentida que estivesse com a antiga Disiran, tentava se desapegar de suas concepções naquele momento delicado. Surpresa maior, à frente da divisão dos deuses menores, era afinal a presença de Kara, a “guardiã adormecida”: uma elfa pálida e robusta, de olhos azuis e longos cabelos negros e lisos penteados de lado, com parte de sua testa encoberta, a mais alta das líderes da Ordem, com uma armadura ocre que, diferentemente de suas subordinadas, que utilizavam escudos leves e pequenos, apresentava um que cobriria todo o seu tronco, acoplado ao antebraço direito. O que se passava em seu interior era um mistério. Ainda não dissera sequer uma palavra desde seu despertar, motivado pela aproximação dos gahinim. Junto com Eluen, Gilgash e os três suras, Odin estava presente no salão e fora o primeiro a ter uma experiência relacionada à grande ameaça.

Tivera um sonho no qual imensas nuvens escuras, não propriamente negras, a maioria cinzentas ou desbotadas, encobriam o país. E, realisticamente, tinham início chuvas torrenciais, que duraram dias. Dentro do mundo onírico, o príncipe sentiu como se semanas inteiras se passassem de verdade, com direito a conversas e situações com Eluen, com seus amigos e fora um aviso telepático de sua mãe que o acordara: “Alguns gahinim estão chegando em Warman. Avise Vanadis para que ela se prepare, filho...”, e não hesitara em divulgar a informação que recebera.

De fato, a rainha não demonstrara tranqüilidade nos últimos dias, mesmo antes da advertência, pressentindo um peso que não era seu, que ainda não se precipitara em suas costas e por isso não havia como carregá-lo, conquanto pairasse no ambiente feito um gigante de chumbo pendurado no teto por cordas prestes a rebentar. Após o anúncio vindo de Tudnan, uma nova confirmação com Kara saindo de seu sono; ainda não trocara palavras com ela, mas não via a hora. Também precisava lhe explicar tudo o que ocorrera, por que não era mais Disiran e sim rainha de Warman.

No entanto, a comandante dos deuses menores não demonstrava surpresa nem abalo; seu olhar era tão profundo que encontrar respostas rasas nele levaria à perdição. Além de Vanadis, era a única presente que já vira um barão gahinim e lutara contra ele. Por isso mesmo decidira hibernar e preservar suas forças até quando fosse necessário enfrentar outro. Não conhecia ninguém ali além da ex-Disiran; ficara os últimos anos em um largo e fundo caixão de pedra, sem tampa, que apresentava relevos com imagens de diversos adanas, conservado e mantido limpo por suas comandadas, esticada sobre e entre flores de pano, recebendo quando necessário um pouco de ich em seus lábios e com as funções vitais extremamente reduzidas, no máximo um batimento cardíaco por minuto. Ao se levantar, não havia ninguém por perto. Olhou dos lados e, ao abrir os olhos, sentiu-se um tanto ofuscada pela luz, ainda que a sala fosse escura e cheia de musgos, iluminada por poucas tochas; passara todo o tempo num sono sem sonhos e sem experiências astrais, pois retivera seus corpos espirituais para preservar sua energia vital. Ao se encontrar com a primeira disira, que deu um salto de espanto, não precisou falar nada: sua presença bastava. Estando apenas com uma túnica inteiriça escura e grossa, foi tomar banho e colocar sua armadura após ser noticiada da convocação geral no castelo de Irul. Sorriu para agradecer a subordinada que a avisara, mas que, como as outras, a conhecia somente como um corpo inerte; sentiam um certo medo ao vê-la de pé como uma morta-vida. Pálida demais. Um dia era certo que teria se levantado; mas certas expectativas gostam de ser adiadas.

Entre os gárgulas estavam presentes, além de Grul, mais um semi-anjo e alguns sentinelas e guardiões; o líder refletia sobre a bela vivência astral que tivera com um gahinim redimido que lhe fora apresentado por Seraph Ishtar:

“Isto é para mostrar a você que não há espécies boas ou más, povos abençoados ou amaldiçoados por Deus; tudo depende das oportunidades que cada um se permite...”, encontravam-se em um ambiente metálico, o piso liso dividido em paralelepípedos brancos e azuis, com estranhos seres cúbicos ao fundo, de material desconhecido, claros, que exibiam símbolos ou imagens. O kumara se achava defronte a uma porta prateada, ao passo que o gárgula e o gahinim haviam sido colocados no meio, um de frente para o outro.

“É fútil pensar que algum dia reconstruiremos o nosso império. É fútil pensar que construir um império valha a pena. Pois um dia todo castelo rui e só o que resta é um saudosismo vão, que não leva a lugar algum...”, dissera mentalmente a enorme criatura, um barão gahinim, de pele beirando o púrpura, face quadrada e pesada e chifres pontiagudos e grossos quase retos, negros como se fossem feitos de carvão. “Você está vivo ou morto?”, fora a primeira questão de Grul. “O senhor Seraph me deu a oportunidade. Fui retirado de Gahina, ainda vivo, para auxiliar os kumaras em seus trabalhos neste sistema solar e pelo resto do universo. É uma oportunidade de ouro. Mesmo que eu permaneça por um bom tempo sem ver um semelhante...”, havia dor no interior daquele enorme espécime, porém uma dor esperançosa, que apresentava para si mesmo alternativas para o futuro. Por mais que o passado fosse sofrido, havia a esperança de um amanhã renovado e a confiança em novas amizades.

“Isso faz com que me sinta privilegiado; tendo o privilégio de conviver com meus entes queridos em meu planeta natal. Fico triste que alguém como você, de tão boa índole, tenha que passar por isso”; “Tudo seria diferente se não fosse a Ambição. No auge de nosso império, desenvolvemos, para dizimar os planetas que se opunham a nós, que ousavam não aceitar o nosso domínio, a pior arma biotecnológica imaginável. A princípio, parecia-se com uma pequena espaçonave ovóide, inofensiva, que pousava em áreas desabitadas; contudo, esta continha em seu núcleo uma espécie de parasita planetário que criamos em nossos laboratórios. Ele se multiplicava, transformando em clones seus a matéria à sua volta, como os átomos das rochas ou do ar, independentemente de qual gás constituísse majoritariamente a atmosfera do mundo em questão. Não se desgastava, mesmo armas atômicas não causavam danos sérios, e em questão de dias suas bilhões de réplicas devoravam toda a vida de um orbe do tamanho da Terra e diminuíam sua superfície, reduzindo-o à condição de um asteróide desabitado e consumindo em alguns meses tudo o que o formava, só extinguindo suas vidas na solidão no espaço porque sua programação não lhes permitia viver fora de um planeta, para que não se espalhassem pelo universo de forma incontrolável até mesmo para nós. Forças de defesa podiam até acabar com um, dois, dez, cem ou um milhão daqueles seres, porém era preciso encontrar o núcleo e destruí-lo se quisessem deter o processo. Que eu me lembre, nenhum povo conseguiu isso. Somente os anjos foram capazes de destruir essas terríveis armas antes de nos exilarem. Lembro-me muito bem de quando tentei proteger um dos nossos laboratórios, repleto de experimentos bélicos desse gênero, ao tentar enfrentar Mikael junto com alguns companheiros...”, descascou as lembranças chamuscadas, de uma região de terra ocre e rachada em um mundo cujo céu vermelho se caracterizava pela presença constante de seus dois sóis; lá no alto, entretanto, espalhara-se uma repentina claridade tendente ao dourado que não pertencia a nenhum deles, que podiam ser fitados com tranqüilidade pelos olhos dos gahinim. Bem diferentes do novo clarão, que os obrigara a cerrar as pálpebras lisas e escuras; o arcanjo descera num facho de fogo e relâmpagos e, quando o que recordava voltara a si, deparara-se com todos os outros tombados e feridos, sem condições de mais nenhuma ação, e o laboratório reduzido a cinzas.

“Há uma coisa que me intriga, e é estranha à minha espécie, que prefere viver pacificamente em pequenas comunidades. Qual a finalidade de conquistar e dominar planetas? Que sentido se encontra oculto nessa vontade de estar entre os senhores do universo? Até entenderia se fosse para conhecer, explorar o cosmo, que é tão vasto e tão rico. Porém qual a vantagem de, se não se pode possuir um mundo, simplesmente destruí-lo, como se lá não existissem milhões ou bilhões de vidas? Governar não é um jogo, guerrear não é uma brincadeira”; “Como a maioria dos seres inteligentes, nunca tivemos objetivos unânimes; sempre existiram entre nós os que eram contrários às pretensões desenfreadas e à ânsia pelo poder; alguns desejavam a expansão pelo que você aludiu, por sede de conhecimento, enquanto outros queriam poder, riquezas e conforto, ser reconhecidos e temidos. Os mais religiosos, se é que podemos dizer assim, porque nunca tivemos cultos organizados em nossa história, queriam compreender os desígnios da mente universal. Tomando conta de bilhões planetas, talvez nos aproximássemos Dela. Eu já pertenci a esse grupo”; “Fico intrigado com a história dos que são, de certa forma, meus antepassados. Se pudesse optar, jamais lutaria contra o seu povo. Há muito do sangue de vocês em todos os gárgulas, embora uma minoria saiba disso. Alguns simplesmente veneram a Terra, e acham que nasceram dela, como a maior parte dos sentinelas. Eu só sei a verdade graças a Seraph, e até hoje não entendo por que ele me escolheu”, pois logo veio a resposta do kumara: “Porque você não tem crenças. Antes de dar o veredicto de uma interação, o observei por um longo tempo: do seu ponto de vista, valor havia na terra, em suas raízes, e na família, nas comunidades; não via nenhum objetivo ou realidade transcendente e se acostumou a pensar em seu mundo como se fosse único, em sua vida como se fosse exclusiva; dessa maneira, angariou carisma sem gerar preconceitos. Nem próprios, nem alheios; eu só vim preenchê-lo”; “Pena que muitos de nós odeiam os gahinim; caso eu divulgue a verdade, corro o risco de passar da liderança à margem.”; “A sua vontade de permanecer na liderança não seria um tipo de ânsia pelo poder?”, questionou o barão. “Acredito que não. Por mim seria mais fácil sair dizendo as verdades e me acomodar, largando tudo. Só que não é assim que se faz. Vejo diferente; tenho responsabilidades. Busco o bem de minha família e de minha espécie.”

De volta à cena em andamento, após serem convocadas, cada uma das forças de defesa de Warman foi encaminhada por ordem da rainha para um local preciso de atuação; Kara seria a última a sair, pois antes Vanadis pretendia conversar com ela a sós.

— Como tudo isso foi acontecer? De que maneira deixou a Ordem e se tornou rainha?– Saíram as primeiras palavras dos lábios da experiente comandante desde que esta se levantara.

— Aconteceram muitas coisas em muito pouco tempo. Se você tivesse acordado só alguns meses antes, teria encontrado a situação bem mais parecida com a que você conhecia.– Continuava em pé, de costas para o trono.– Tentarei resumir o que se passou.

— Acho preferível que se sente, Disiran. Ou melhor, Majestade...

— Não é necessário. Estou descansada, embora preocupada.– E expôs tudo o que Kara precisava saber. Esta não manifestou nem embaraço, nem indignação, muito menos surpresa; seu rosto transparecia naturalidade mesmo em momentos tão peculiares.

— Se tudo isso mudou, foi porque era necessário.– Possuía uma voz macia, calma sem ser lenta.– O que alguns consideram uma virada de pernas para o ar tende a ser o princípio de uma mudança não meramente política ou social, mas consciencial, que nos afasta da inércia em direção a novos pontos de vista. Talvez as tradições da Ordem estejam obsoletas.

— O que sinto, Kara, é que este ataque será diferente do que nós presenciamos. Trará consigo não apenas uma destruição física. Todo o contexto se alterou. Quando a minha antecessora morreu, eu já estava pronta. Não é o nosso caso. Não há nenhuma disira que tenha maturidade suficiente para assumir as rédeas da Ordem. Gondul é um tanto inflexível; Drifa muito sensível; Rota não tem segurança; Goll seria a mais indicada, por sua serenidade, mas faltam treinamento e força espiritual. Talvez você deva assumir esse posto.

— A questão maior neste momento não é quem será a Disiran. É a preservação de Warman e a sobrevivência da nossa própria espécie e das outras que nos circundam.

— Sei disso. Mas a Disiran é sempre um ponto de referência, um catalisador.

— Seja isso como rainha. O cargo e o título são o que menos importam. Vossa Majestade tem o poder e a experiência. É o necessário.

— Por favor, não me chame de Majestade...Me chame pelo meu nome.

— Isso é estranho para mim, não estou acostumada.

— O respeito independe das palavras, Kara. E cargo e título são o que menos importam.

— Tem razão. E confio em você para nos conduzir, Vanadis. Não há mais ninguém que possa fazer isso.– Abaixou discretamente a cabeça; seu olhar novamente ia de encontro à luz.

— Da outra vez, tínhamos mais suras e o grupo das comandantes estava completo. Mesmo assim, só nós duas e Svava sobrevivemos. Como será agora, em menor número?

— Lamento muito por Svava...Estava ansiosa para revê-la. Espero algum dia reencontrá-la.

— Ela está nos apoiando, onde quer que se encontre. A esperança dela segue viva.

Quando a comandante dos deuses menores saiu, Vanadis ficou a sós com seu passado. Sentou-se vagarosamente em seu trono, uma posição que não a agradava nem um pouco; dali, sentia uma solidão sem fim. Estar acima podia ser melancólico; o cinturão de fogo queimava mais do que em outros dias, impondo distância. “Queria poder apagar. Mas não tenho o direito de escolher; está registrado e não há nada que se possa fazer...”, o destino do passado, ao menos, parecia possuir uma autoridade imutável.

Em certo momento, deixou de ser a rainha de Warman para voltar a ser a jovem elfa de alguns séculos antes, imatura e indecisa, cujo espelho de caráter e atitudes era o seu amado irmão, que a amparava nos momentos de fragilidade, a consolava sem permitir que despencasse nas horas de tristeza, a acolhia em seu braços sempre que seu peso não era excessivo e exibia para ela um sorriso exclusivo, que ninguém mais além dos dois conhecia. Um sigilo do coração, uma chave mágica no centro do peito. Os mais maliciosos podiam dizer que sua relação beirava o incesto, que se comportavam como namorados, afinal Vanadis não escondia seus ciúmes quando ele apresentava uma companheira; temia ser deixada de lado ou esquecida, tranqüilizada no dia em que lhe fora dito, da boca de seu próprio irmão, que muitas passariam, porém os dois, nascidos juntos, seriam a permanente Presença.

Depois disso até ela teve breves relacionamentos, um chegando a ofuscar por algum tempo a presença de seu gêmeo como ente mais querido do momento; porém nada que durasse o suficiente para igualar o que sentiam sem a necessidade de beijos e carícias, numa profundidade que penetrava muito além de carne, dos ossos e do sangue, passando dos glóbulos para as trevas nas quais um floco de luz abria seus olhos, portais de um novo universo inteiro. “Por que você foi morrer?”, tantos anos depois, ela ainda chorava como uma criança ao se lembrar de quando o vira com o peito perfurado, vítima do barão gahinim que ele derrotara junto com a Disiran anterior, sendo que nenhum dos três sobrevivera ao confronto, a então líder da Ordem morrendo poucos minutos depois em conseqüência de seus ferimentos. Vanadis fora buscar ajuda, voltando tarde demais; na época, auxiliava seu irmão, que fora um grande guerreiro e um mago excelso, como se fosse sua escudeira, só decidida a se tornar uma disira a partir daqueles acontecimentos. Não à toa compreendera desde o início o caso de Baden e Eluen, que considerava como se fosse sua filha; àquela altura, apesar do voto de castidade ser desnecessário e de poder retirar a magia que o forçava, não se imaginava tendo filhos biológicos.

Ymun, da sua parte, seguia com a vida buscando não pensar mais nos crimes que cometera, nem para se justificar e achar que fora correto naquele contexto nem para se condenar como o pior monstro da face da terra; buscaria fazer o melhor de si, absorvendo o que o destino lhe reservasse. Tratava-se de uma fase em sua vida na qual ao menos podia se orgulhar por amar e ser amado.

— Nunca pensei que diria isso. Estou me esquecendo que um dia fui rei.– Desabafou com sua esposa depois de um dia cansativo; fitavam o pôr do sol, um recostado no outro.

— Isso não é uma mentira pra me agradar? Não precisa forçar, Ymun.

— Não é forçação. É como se apagassem parte da minha vida. Não sei quem...Os adanas, talvez. O que sei é que nem estou me lembrando mais do que fazia, das medidas que tomava, das ações e precipitações; uma parte minha quis esquecer, outra queria lembrar.

— E o que acontece ou aconteceu com seu lado que queria conservar suas lembranças “reais”?

— Está sendo esmagado; no bom sentido. Eu permaneço e meu passado desaparece. Chega a dar a impressão que o tempo não existe. Ele se derrete: o que foi se fundindo ao todo e desaparecendo das aparências; e o que será assumindo uma forma mais fluida e maleável para seguir seu rumo. Acabamos devorados pelo que somos, não pelo que seremos ou fomos.

— Mas antes de sermos devorados somos bem-mastigados. E depois digeridos.

— Só espero não regurgitar. Quero dar passos em avante, não me perder entre más sensações.

— Você acreditou que era cruel; não é. Exagerava no que achava melhor para si e para o reino.

— Aprendi que não existem o certo e o errado. As dicotomias são, numa imensa floresta, milhares de caminhos bifurcados em seqüência; há pessoas que deveriam permanecer nela, apreciando as árvores em vez de tentar sair, pois o mais fácil é se perder.– Quando a noite desceu, voltaram para casa. No meio do jantar, no entanto, ouviram um estrondo; Loren tomou um susto, apertando-se junto ao companheiro.

— O que será que foi isso?

— Deve ser algum animal. Lá fora, a essa hora, só pode ter sido isso.

— Será mesmo? Estou sentindo um cheiro estranho, que não se parece com nada que eu conheça.

— Eu preferiria que você não tivesse dito nada. Que fosse coisa da minha cabeça...

— Vou pegar a minha maça e ver o que é.– Fora permitido que conservasse sua arma para sua auto-defesa; conquanto tivesse se salvado da pena capital, tinha inimigos demais espalhados por Warman, dívidas financeiras e éticas; de alguma forma precisava se proteger dos credores.

— Se puder, evite lutar. Por favor!

— Se for necessário, lutarei.– E depois de apanhar a maça saiu de casa. Sua consorte o seguiu corajosamente, ainda que ele tenha tentado retê-la:– Fique aí. Pode ser perigoso.

De súbito, literalmente um salto no escuro; e se deparou com algo que saiu abruptamente das matas encravadas nas brumas sombrias para atacá-lo: parecia um misto de lesma e cão feroz, de dimensões descomunais, olhos cegos na aparência, o corpo negro e molenga, pegajoso, rastejando, entretanto em alta velocidade, o focinho curto e as mandíbulas pesadas, repletas de dentes brancos e curvos, única claridade disponível naquelas horas, que não ladrava ou grunhia, emitindo somente um som de farejar contínuo e insistente, que provocava angústia; Loren soltou um grito agudo, enquanto Ymun não teve tempo suficiente para evitar que seu braço esquerdo fosse mordido com violência pela criatura; passou a maça para o direito, dirigindo-a à cabeça do inimigo, que se desviou e arrancou para dentro da vegetação. Pena que o antebraço do rei deposto estivesse prestes a se separar do resto. Apavorada, sua esposa lhe pediu com ansiedade:

— Vamos voltar pra casa agora e tratar disso, pelo amor de Eljai!

— Mesmo que isso fosse possível, logo colocariam a nossa casa abaixo.

— Por que diz que é impossível?

— Olhe em volta.– Dezenas de olhos ameaçadores e sombras de faces despontavam na escuridão.– Acho que vamos ter que aceitar o nosso fim. Guerras sempre fazem vítimas e achamos que nunca seremos parte delas. A verdade é que a qualquer momento pode ser a nossa vez. Cumpre aceitar a convocação que recebemos e honrá-la, lutando com bravura até o final.– Ela gemia e choramingava, trêmula.– Sei que você não nasceu pra isso, portanto só espero que a matem sem que precise sofrer. Enquanto eu estiver vivo, me colocarei à sua frente.

— Não, Ymun, não...Lute por si! Não se preocupe comigo. Vou fazer o possível.

— Se você acha que pode fazer alguma coisa, corra para bem longe que eu procurarei segurá-los.

— É impossível...Você mesmo disse e agora estou vendo melhor. Eles fecharam o cerco e estão por toda parte. Achei que estivéssemos a salvo dos gahinim. Como nos acharam?

— Se somos os primeiros, é apenas o início. Se não somos, já dizimaram todos os nossos vizinhos.

— Não vou fugir. Vou morrer ao seu lado. Tenho medo, mas o meu amor supera isso.

— Eu te amo, Loren. Precisava dizer isso.

— Obrigada!– Ela enxugou algumas lágrimas que saíram e conseguiu sorrir mesmo em meio ao pavor materializado; seus membros estavam gelados. Fazia frio tanto do lado de fora como dentro.– Eu também amo você.– Sua face se acendeu, em contraste com o resto do corpo.

O monstro rastejante veio deslizando outra vez e pulou sobre a elfa, derrubando-a e, antes que seu marido pudesse fazer qualquer coisa, perfurando seu pescoço e abortando o grito no meio; a maça novamente falhou e outro sub-soldado atravessou seu coração a partir das costas, com tentáculos grossos que tinham uma capacidade de perfuração superior às de lanças ou espadas de qualquer metal. O resto de seu ser era um tronco fino e esverdeado, com um único olho no meio, movendo-se como um polvo terrestre. Antes de cair, Ymun ouviu algumas gargalhadas. A princípio, ficou receoso e em dúvida. Eram suas próprias; ria de si mesmo...Ao mesmo tempo que sentia orgulho por ter aceito a convocação e morrer por seu reino, pagando pelos erros que cometera. Erros coletivos e individuais, pagos com amor. “Acho que neste instante a minha existência pode se apagar. Nada mais me resta; não vejo a mínima necessidade de prolongar meus sofrimentos na morada de Eljai. A tortura das lembranças! Que me façam esquecer, se não existirem alternativas; prefiro não reencontrar Loren. Ou estou me dizendo isso pensando no que seria certo e não no que desejo efetivamente? Ah, se o espírito pudesse ser aniquilado! Há a esperança que tudo não passe de um sonho, uma ilusão? Melhor ir apagando aos poucos, se o brusco pode ser doloroso, ainda que quando deixar de existir não possa me lembrar mais da dor. Caso me esqueça da minha vida, é como se a existência cessasse, de uma outra forma; estarei cogitando o olvido para me dar a esperança que até na não-existência, ao menos do meu ego, haja algum tipo de continuidade? E se o universo não passar de puro caos, de uma sucessão de casualidades? Caso se trate disso, nossa liberdade é ainda menor: qualquer ato, qualquer decisão ou pensamento não passaria de jogos aleatórios dentro da mente. Nunca fui de especular demais. Pensadores me pareciam perdedores; perdiam o mais valioso da vida, os prazeres que ela oferece, em seus jogos mentais. Mas quem sou eu para julgar isso, perdido em meus jogos políticos? As elucubrações dos estudiosos e sábios talvez dêem prazer a eles; e eles não necessitam do que eu desejava e valorizava. Passou; não há nada que seja ganho de tempo. Somente perda. O tempo é ladino, foge, nunca se preserva nem se acumula. Perder tempo é um pleonasmo, pois é só isso que acontece. Como estou sábio hoje! Pena que só hoje. De resto, é a minha vontade de poder que se esmigalha; querendo inexistir, só posso me curvar”, a fogueira de pensamentos foi se dissipando em faíscas insistentes, até que as últimas penetraram na terra, parando de brilhar; inaugurara-se a guerra em Warman justamente com a morte do rei deposto.


A periferia de Irul foi socorrida pela intervenção dos suras e das disiras, acompanhados de pouco menos de cem soldados, que ficaram apavorados com o que viram. À frente das forças inimigas, ateando chamas negras à floresta, havia um ser ameaçador, semelhante a um esqueleto humano ambulante, de mais de três metros de altura, com um elmo em delta na cabeça, carregando uma foice e cujos ossos pareciam feitos de carvão, a emanar uma aura pesada e sinistra; emitia sons roucos incompreensíveis, saídos de uma língua grossa e azulada, e olhou com suas órbitas vazias na direção de Durin, se bem que Gondul estivesse se adiantando para enfrentá-lo.

— Pode deixar comigo.– O sura assumiu a responsabilidade.

A “lesma” que ajudara a liquidar Ymun estava lá e investiu contra um grupo de soldados, absorvendo um com seu corpo pegajoso enquanto este gritava e sua pele derretia, ao passo que os outros tentaram espetar a criatura com lanças e espadas, que não causavam nenhum dano; não resistiram e correram, a armadura da vítima ficou vazia e sobrou para Drifa concentrar em sua lâmina uma luz azul gelada e ao erguê-la ao alto espalhar toda a claridade, fazendo com que neve começasse a cair na floresta e sobre as casas em volta, nas quais os habitantes, aterrorizados, haviam se trancado; os movimentos do sub-soldado gahinim ficaram mais lentos com o frio e possibilitaram a ação da comandante, que mesmo um pouco tensa e entristecida espalhou a energia do gelo através dos seus pés e deixou o chão escorregadio, para por fim endurecer o molengo inimigo, congelando-o de fora para dentro e rachando seus dentes.

Kara enfrentou o monstro tentacular que dera o golpe de misericórdia ao antigo rei e, conquanto os braços deste tornassem a crescer depois que a disira os cortava com sua espada, movendo-se com uma rapidez extraordinária e protegendo-se com seu escudo, não resistiram ao fogo que ela criou para incinerá-lo por inteiro e assim impedir a regeneração.

Eosen se encarregou de cuidar de algumas pessoas e animais desprotegidos, criando uma teia de energia transparente com uma extensão de muitos quilômetros, que, somada à neve de Drifa, passou a restringir a ação dos sub-soldados, enquanto Balin expandia sua força feito um sol que não pede passagem, perfurando seus oponentes com lâminas douradas, contrapontos precisos dos lobos escuros de Gondul, que rasgavam peles, ossos e o que mais encontrassem pela frente, aprovados pelo riso pouco comedido de sua criadora; Eosen achava o comportamento em batalha da comandante de Samar até engraçado, porém seu companheiro sentia um certo medo, retrocedia mentalmente se poderia confiar nela de verdade e evitava se aproximar muito.

Durin cercou o esqueleto monstruoso com seus homúnculos, que principiaram a subir pelo corpo do adversário enquanto este se debatia e brandia sua foice, que não parava de empurrar à sua volta letais labaredas trevosas, as quais em questão de um segundo reduziam a cinzas a maior das árvores, ainda que a neve diminuísse sua força. Contudo, as criaturinhas de luz passaram a penetrar em seus ossos, a se fundir à sua substância mais interna, e seu corpo inteiro foi pouco a pouco clareando e sua energia se enfraquecendo; quando se dissipou por completo, desmontou-se; e os ossos caídos piscavam, imantados de luz.

Rota fez cópias de Goll, de si, de Sanan e de outras disiras para desbaratar as defesas do oponente, que recebeu uma chuva de talvez milhares de flechas e um ataque de centenas de inimigas; a ilusão se estendia ao plano astral, não só ao físico, por isso mesmo os sub-soldados dotados de uma visão espiritual mais acurada não foram capazes de frear o avanço de suas adversárias.

“É para isso que acordei. É para isso que vivo, que sou uma consciência alerta. Não pretendo usufruir da glória; basta-me tomar parte da batalha e vencer...”, refletia Kara, envolvida pelo fogo, com uma aura tão poderosa que fez Gondul sentir um pouco de inveja: “Ela pertence a adanas de baixa categoria. Como pode ter tamanho poder?”; surpreendeu Rota: “Ela realmente nasceu só pra isso...”; gerou admiração em Drifa: “Tinha que existir um complemento pro meu gelo. Os adanas proporcionam os encaixes entre todas as coisas...”; e satisfação em Goll: “Perdemos Svava, mas não ficamos enfraquecidas...”

Mesmo a uma certa distância, Kara incendiou as flechas de Ellah e materializou magma nas ofatas de Dannah, que tinha que ser atirado de imediato para não derretê-las; a situação se inverteu e os sub-soldados deram início a uma retirada brusca, sendo no entanto perseguidos e encurralados.

— É aqui que senti que eles iriam chegar.– Em um lugar bem distante dali, um tanto afastado de Irul, encontravam-se Odin, Eluen, Gilgash, Baden, Malin e Vanadis; o coração da rainha estava mais acelerado do que nunca e por um momento o príncipe de Tudnan a fitou com um certo espanto.– Não vão demorar.– E liberou uma tosse desregrada. O pai de Eluen e Baden se aproximou e liberou um pouco de sua energia para sua mão direita, tocando-lhe as costas com carinho.– Obrigada, Malin, mas não é um problema de saúde.– Mesmo assim parou de tossir.

O lomai, intranqüilo, só pensava em lutar contra os gahinim para impedi-los de alcançar a cidade e colocar a vida de Samen em perigo; Odin observava seus companheiros. Preocupado com Gilgash, mas leve consigo, com a impressão de que nada poderia dar errado; estava seguro, confiante...

Malin, ali para curar quando fosse necessário, sentia muito medo, por mais que soubesse disfarçar; Baden sabia disso e postara-se como um anjo da guarda para o seu pai, disposto a qualquer esforço para defendê-lo. Seraph, de alguma forma, iria protegê-los. O que era também a expectativa de Eluen, que porém não conseguia afastar uma melancolia funda e inexplicável, sem nenhuma causa lógica. Poucos dias antes, havia conversado com Odin a respeito de filhos e não soube por que, e não disse ao marido, achava que não daria nenhum herdeiro a ele. Não que fosse estéril; a decepção consigo mesma e a tristeza iam mais além. E ainda não eram a fonte do marasmo. O príncipe, entretanto, tinha fé; sua amada já saíra de situações muito piores e agora tinha seu apoio próximo e explícito. Não refletia, porém, que como situação interior possivelmente fosse bem mais grave do que aparentava. Independendo de sua presença ou ausência como companheiro, pois dizia respeito somente a ela, um apoucamento interno que a deixava prostrada em seu coração abatido numa espécie de vale de cadáveres. “Será que o meu bebê vai morrer assim que nascer? Não queria te decepcionar, Odin...”, buscava causas; imaginava desilusões e insucessos. Nada disso era verdade.

— Você parece mais magra e pálida, Eluen.– Malin comentou e a fez tomar um leve susto porque se achava absorvida no burburinho interno mais soturno.– O Odin tem te dado comida? – Brincou para tentar descontraí-la ao notar seu estado melancólico.

— Claro, papai. E não emagreci. É impressão sua. – Replicou com seriedade.

— Quando as pessoas estão tristes, emagrecem. Você estava mais robusta no dia do casamento.

— Não é nada...Acho que essa coisa estranha logo vai passar. – E Odin, que escutava, se aproximou e cingiu sua esposa pela cintura, beijando-lhe os cabelos em seguida. O curandeiro sentiu o carinho que irradiava e sabia muito bem o quanto se amavam e se travam com ternura. Não conseguia compreender porque sua filha estava daquele jeito.

— Estão chegando! É a hora! – Vanadis fez todos ficarem de prontidão no ato; caía uma garoa fina e o pântano em volta se juntava ao rio por vários cursos d’água. Nas margens cresciam juncos e flores e por suas hastes passeavam besouros gordos. Das colinas vizinhas vinham freqüentemente para tomar água animais como elefantes, ursos, auroques, bisões e leões, mas naquele dia deviam estar todos escondidos. Não aparecera um sequer até a chegada de um cervo vermelho, que encarou o grupo com uma certa desconfiança antes de inclinar a cabeça, beber rapidamente e logo sair.

Os hipopótamos, que passavam o dia na água e àquela hora saíam para a terra seca à procura de comida, continuavam nadando ou muito próximos das margens. Quando um vento forte bateu de repente, afundaram para se esconder e uma imensa pedra cheia de arestas teria esmagado qualquer ser vivo que se encontrasse ali, abrindo uma cratera no lugar para longe do qual Odin e os outros correram ou saltaram.

Vanadis o viu: a cabeça semelhante à de um dragão, com um pequeno chifre único no centro, a pele negra de um brilho ofuscante e que parecia não se molhar, um par de velas dorsais, mais de cinco metros de altura, musculoso e de membros compridos, olhos dourados arregalados e uma corrente metálica amarrada ao braço esquerdo com uma ponta ígnea; “442 anos depois...”

— Ataquem! Não podemos dar tempo sequer deles respirarem! – Bradou a rainha; aquele era o barão, que levitava a alguns metros do solo, ladeado por dois soldados, ambos vermelhos, um pouco mais alto e mais magro, com chifres pretos espiralados que se enroscavam no alto da cabeça, o outro mais atarracado e cujo chacoalhar da cauda fina produzia um som repetitivo que provocava calafrios em Gilgash, angústia em Eluen, apavorava Malin, distraía Baden e irritava Odin.

Vanadis atacou diretamente o barão, protegendo-se no interior de uma vasta chama violeta que a envolveu, amplificando sua velocidade e seus poderes psíquicos; o príncipe partiu para o confronto contra o soldado que o provocava, armado com a Gungnir e acompanhado por Eluen, mesmo ela estando bastante reticente consigo mesma, enquanto Gilgash e Baden iriam se encarregar do outro e Malin passou a emanar sua energia de cura, que podia ferir quem tivesse uma intenção oposta, contra o inimigo principal.

O delgado rabo espiralado do gahinim, repleto de anéis de carne, liberou uma seqüência de argolas de luz esverdeada, que o príncipe de Tudnan desviou tanto de si quanto de sua amada ao mover sua lança para os lados e gerar à sua volta uma aura de ar pesado que esmagaria qualquer objeto; os dois ficaram dentro dessa proteção, flutuando no ar, com a certeza de estarem protegidos, e foi de lá que a filha de Malin buscou a todo custo se concentrar, afastando as turbulências obscuras que se avultavam em seu interior, e atacar com psicocinese, colocando em prática o que aprendera com Svava, buscando atingir os órgãos internos de seu oponente. Contudo, este parecia impenetrável e repeliu as ondas psíquicas: o ataque de Eluen voltou para ela mesma e ficou tonta de um golpe, recebendo o apoio de Odin, que segurou sua mão e impediu a queda na área de perigo. Se saísse da região protegida, iria sofrer as piores conseqüências como qualquer outra coisa ou ser. “Força, meu amor!”, ele mandou a mensagem mental, fazendo-a voltar a si e não só mantendo o foco como estendendo sua energia de maneira ameaçadora na direção do perigoso adversário, que não se intimidou e chocou a aura com diversas espirais de coloração azul brilhante em altíssima velocidade, que saíam de seu abdômen enquanto a cauda se remexia; tanto um quanto o outro acabaram catapultados para longe, o demônio pego de jeito por um turbilhão e o príncipe, segurando sua esposa, eletrocutado.

Gilgash, cuja capacidade de levitação era bastante limitada, não podia sair do solo como Baden, que passava a maior parte do tempo no ar para evitar os tremores, as rochas atiradas e as massas de terra que seu oponente manipulava. O lomai várias vezes transformou o solo em magma, porém o inimigo invertia seu ataque e o secava; devolvia os pedregulhos atirados com seu poder mental, esmigalhados a seguir pela força psíquica do gahinim; brandia sua espada, envolvendo-a com labaredas e forçando até seu companheiro a se afastar, porém paredes se erguiam e engoliam o fogo; impossível penetrar na mente de quem a mantinha absolutamente vazia.

Percebendo o impasse, o irmão de Eluen se tornou mais ativo na batalha, ao invés de apenas se esquivar e tentar elaborar uma estratégia; como nenhum poder convencional funcionava, formou com cada uma de suas mãos uma esfera azul incandescente, que de imediato atraiu a atenção do demônio, que empurrou o lomai enquanto este tentava concentrar o poder ígneo em seu próprio corpo, como fizera na luta contra Urin, apagando todo o fogo à sua volta para o espanto de Gilgash, e atacou Baden com o corpanzil, puxando a energia da terra e deixando seu corpo incrivelmente pesado e ainda assim veloz, feito um asteróide em disparada. O filho de Malin não tinha a menor idéia do que iria ocorrer, mas mesmo assim liberou sua energia antes que fosse tarde demais: o que se deu foi uma explosão de intensa claridade índiga que chamou a atenção do barão, de Vanadis e principalmente de Malin, ao passo que Gilgash perdia os sentidos.

A rainha e o pior inimigo travavam um duelo tenso no ar, que passara a ter poucos movimentos, com a aura deste, escura de raios vermelhos, a oprimir a da elfa, que tentava a todo custo reagir; a uma certa altura, a armadura da ex-Disiran começara a se despedaçar; e depois pior: desenvolvera espigões metálicos contra sua própria usuária, interiormente, passando a perfurar sua carne; aquele adversário de poderes ligados ao magnetismo podia manipular os metais: seu diadema se partira e sua mente começara a ser invadida, para que não resistisse mais ao tentar impedir a perfuração total de seu corpo, quando a luz de Baden se espalhara.

Ao voltar a si, o irmão de Eluen, com o corpo repleto de ferimentos e caído no chão, tentou se levantar mas não conseguia, com a coluna travada; sentia apenas uma das pernas. Foi quando seu pai surgiu em seu socorro:

— Parabéns, filho. Você o derrubou! – De fato, o soldado gahinim também estava estendido no solo, do outro lado, tendo quase caído no rio. Porém ainda respirava, apesar de parecer inconsciente, assim como Gilgash. O curandeiro tirou de sua bolsa alguns remédios, além de dar início a seu processo de irradiação pelas mãos mesmo ciente dos perigos que ainda os cercavam.

“Como ele conseguiu isso? Não é qualquer um que desenvolve esse tipo de poder! Eu mesmo demorei alguns séculos para dominá-lo!”, o barão ficou espantado e se distraiu, permitindo que Vanadis conseguisse retirar sua armadura por meio de psicocinese. Ficou apenas com a túnica e a calça violetas que vestia por baixo. O lomai, que acordou de repente, captou um pensamento: “Como esse elfo insignificante fez isso? Não estou mais conseguindo voltar!”, e a rainha pôde ver o corpo astral do demônio que fora atingido por Baden, levitando pouco acima do corpo físico, esforçando-se de modo infrutífero para se empossar novamente deste.

“A questão da atração entre um corpo material e um astral é uma forma de magnetismo sutil; caso se tornem pólos opostos, provocam a repulsão natural um do outro, que é o que ocorre gradativamente no processo de envelhecimento e morte física da maioria dos seres. Como ele alcançou um domínio tão perfeito sobre esta técnica antes de dominar as formas básicas do magnetismo?”, questionou-se o barão gahinim, atacado de surpresa por Vanadis, que formou uma espada de relâmpagos violetas muito comprida, com quase dois metros de altura, que rasgou seu ombro direito e provocou uma tremenda dor no adversário, externada pelo balançar de sua aura; os pêlos em seu nariz se agitaram e despertaram a atenção do soldado golpeado por Odin, que recobrou a consciência; Eluen, com fortes dores de cabeça, mesmo no seu estado mais crítico sacudia seu marido e gritava em sua orelha e em sua mente para que acordasse. Sentiu-se ainda pior quando percebeu que o inimigo se levantara. No entanto, viu que este não se dirigiu a eles, voando na direção de onde estava Vanadis. Ficou num dilema se deveria deixá-lo por algum tempo, pegar a Gungnir, caída ao lado, e, mesmo com poucas forças físicas e psíquicas, ir ajudar a amiga, a fim de evitar o mesmo que acontecera no fatídico dia do fim de Svava. Isso enquanto Gilgash fez um esforço brutal para intensificar sua energia e parar no ar o soldado gahinim, muito veloz e com o corpo percorrido pela eletricidade, uma nuvem de relâmpagos viva, pulsante e agressiva. Sentindo-se perturbado, o inimigo reagiu e soltou uma forte descarga elétrica no lomai, que reagiu com seus poderes mentais, cuja ação foi facilitada pelo estado tenso e pelos pensamentos turbulentos do oponente.

Silencioso exteriormente, o barão gritava por dentro e, furioso, fez a corrente em seu braço brilhar – e teria matado Vanadis ao provocar uma alteração brusca no potencial isoelétrico de sua área cardíaca, resultando numa fibrilação ventricular que impediria o funcionamento normal da musculatura do coração, além de ir aos poucos fazendo o resto do sistema nervoso entrar em curto, afetando todas as cargas eletromagnéticas do organismo, se Eluen não tivesse voado ao seu encontro e cravado-lhe a Gungnir no centro do abdômen. O poder extremo do demônio, no entanto, fez a lança se torcer e se partir em pedaços e a carga que iria para a rainha foi diretamente para a filha de Malin; Baden, mesmo sob os cuidados de seu pai, sentiu suas dores físicas aumentarem, seu peito arder, perdeu a sensibilidade dos braços; o curandeiro percebeu um peso nas costas que parecia que lhe entortava a coluna, ao mesmo tempo que seu estômago embrulhava e a ânsia de vômito o obrigou a suspender o tratamento do filho, ficando prostrado na terra. Uma veia saltou à testa de Gilgash, que queimava, e sua boca se escancarou tanto que parecia que seu maxilar ia se partir, o corpo inteiro levando choques elétricos; o cérebro do soldado gahinim oprimido pelo lomai estourou e este despencou morto no solo.

Gastando muito de sua energia psíquica, o barão conseguiu equilibrar os pólos psico-magnéticos do outro soldado e permitiu que este regressasse ao seu corpo físico, porém sem consciência, adormecido. Como a situação começava a ficar desfavorável, ferido e desgastado fisicamente e emocionalmente, sentindo-se humilhado, contudo sem mais energia para usar seu poder de forma ofensiva, se viu forçado a recorrer ao teletransporte e os dois desapareceram.

“Eluen...”, ouvia-se apenas um nome no pesadelo de Odin, sem cenário, somente um negrume profundo, que ele percorria em velocidade tentando alcançar sua amada, que porém fugia, e era impossível se aproximar, limitando-se a vislumbrá-la à distância; ela não corria dele, mas era inevitável que escapasse e não fosse lógico alcançá-la; não havia corredores, pistas, limites ou caminhos; no espaço vazio, ele a seguia e não se perdiam.

Ao olhar para trás, o príncipe a viu paradoxalmente em seu encalço, indo ao seu encontro com um sorriso no rosto, o que o espantou. No entanto, ele não podia parar de correr e mantinham a mesma distância, ela dele à frente e ele dela atrás; tanto fazia a direção de seu ponto de vista. Corriam da mesma maneira, sendo que a um certo ponto ela parou de sorrir e fechou o rosto; seus cabelos cobriram sua face e qualquer expressão se viu apagada; não demorou para perder olhos, nariz e boca. O que estava acontecendo? À frente, cada vez mais inacessível. “Desista, Odin...Vá embora...”, ouviu os pensamentos dela, nem um pouco chorosos, mas cheios de uma tristeza capaz de derreter o mundo. “Por que está me traindo, Eluen? Por que vai trair o nosso amor e me deixar?”, ele que não conteve as lágrimas, chorando enquanto corria; “Não há mais esperança para nós...Siga o seu caminho.”; “Por que está sendo tão áspera comigo?”; “O que quer que eu faça? Se me envolver mais, vou me desmanchar. Não serei mais nada. Você quer a minha dissolução?”, “Eu não quero me perder de você.”; “Só que eu já me perdi. Me desculpa, por favor”, quando Eluen cedeu às lágrimas, ele parou; entrementes, ela desapareceu da sua frente. Ao olhar para trás, também não havia mais sua presença. No instante em que a escuridão revelou as asas de um corvo imenso, o príncipe foi catapultado de volta à vigília, ao físico, que lhe pareceu estranho, distorcido, sem cor; enjoativo. Um prolongado canto de dor quase estourou seus tímpanos; obrigado a tampar seus ouvidos com as mãos, sacudiu a cabeça e tremeu com um frio abrasador; apenas logrou se levantar depois de alguns segundos, ainda trêmulo, só um pouco mais em paz mentalmente. Respirava com dificuldade.

Caminhou lentamente até se aproximar de seus companheiros e se lembrar de onde estava e do que vinha ocorrendo; deparou-se primeiro com Gilgash, desmaiado. Depois, para seu espanto, ignorando o corpo do gahinim, viu Malin que segurava Baden, o primeiro com o rosto encharcado em silêncio e o segundo soluçando e soltando urros ininteligíveis; pouco mais à frente, Vanadis: ajoelhada, a face imóvel, diante de um corpo; piscou os olhos, custando a reconhecer aquele cadáver.

— O que aconteceu?– Balbuciou. Ninguém parecia ter equilíbrio emocional para explicar qualquer coisa. Entretanto, em consideração ao amigo, a rainha de Warman se ergueu e, decidida a fazer esse sacrifício, antes o abraçou.– Por quê? O que está acontecendo, Vanadis? Nós vencemos os gahinim?

— De certa forma, sim. Eles bateram em retirada e um deles está morto. Mas o preço pago por isso foi alto demais...

— Quem é aquela pessoa no chão? Não a estou reconhecendo. Não me lembro quem é.

— Você não quer reconhecer e ver, Odin. Mas você sabe... Por dentro.

— Não pode ser ela...Não pode... – Começava a cair em si.

— É ela. É a Eluen.– Com a notícia, o príncipe desabou; seu rosto ficou feito pedra. Vanadis, que estava com as mãos sobre seus ombros, sentiu que devia se afastar. Por alguns segundos, teve muito medo. A energia obscura que se formou em volta de Odin era tão aterrorizante quanto a do barão gahinim. Inúmeros momentos, felizes e tristes, alegres e difíceis, doces e amargos, passaram pela mente do elfo, vivos como se ocorressem naquele presente instante; ele não queria mais sair do passado. Não queria voltar ao presente de maneira nenhuma. Voltara à sua casa, ao aconchego do lar, e o que ocorrera não passava de um pesadelo:

— Que bom que você acordou.– Ouviu a voz e viu o sorriso dela, recebendo os carinhos tenros entre as cobertas do ninho de amor dos dois.– Estava se sacudindo tanto enquanto dormia que fiquei com medo! Foi algum pesadelo?

— Foi.– Ele replicou. – O pior possível...

— Nossa, o que aconteceu nele de tão ruim assim?

— A pior coisa que poderia acontecer.– E a abraçou e depois a beijou, apaixonadamente.

— Meu amor, o que é isso?

— Eu te amo, Eluen. E o pior pesadelo seria eu te perder.

— Odin! Por favor, Odin! Não perca a sua sanidade!– No mundo real, Vanadis começou a tentar sacudi-lo. “Tentar” porque mesmo com toda a sua força não conseguia mover o corpo do príncipe, muito mais duro do que qualquer pedra; Malin e Baden não podiam ajudar. O irmão não olhava, mas o pai não conseguia tirar os olhos do corpo da filha, que estava com as pálpebras e a boca fechadas só porque a ex-Disiran as fechara.

A carga de energia exagerada provavelmente afetara até o corpo astral de Eluen, que devia estar fora de si, perdido em alguma realidade estranha. Sua consciência, que fluía como água, fundira-se a um mar sem distinções, de abismos bizarros, ao passo que a de Odin, igualmente líquida, escapava pelos poros das mãos do príncipe, que não a retinha mais; fugia dele junto com a amada, e ele tentava fugir de si...Estando preso. Era peso demais; equilíbrio não significava nada; por mais que tentasse pender para um lado ou para o outro, mantinha-se em um centro passivo. Perdendo tudo...

— Você é mesmo um fraco. Enquanto dormia, a sua amada se sacrificava para salvar a sua vida e a vida da melhor amiga. Você não suportou nada! Ela sim foi resistente! Seu fraco... – Ouviu a voz rouca. Fligya pousara em seu ombro esquerdo e começara a lhe falar. Não havia cenário; apenas o corvo se movia em meio à total estase.

— Você viu como ela o traiu? De nada adiantaram todos os seus esforços. Ela o deixou. Foi para junto de Seraph Ishtar. No fim das contas, ele só queria usá-la, não é? Mas quem sabe ela tenha se interessado por ele em algo mais...Você teria como competir com um semi-deus?– A cabeça do lobo Baskir removeu o pano de escuridão que a cobria, deixando que ficasse sobreposto apenas ao seu corpo, depositado suavemente em seu dorso.

— Você não possui forças para rivalizar com um ser que não está mais preso à matéria e para o qual sequer o espírito é uma barreira, que pode se locomover livremente entre os mundos e ter o corpo perfeito que quiser. Ela não poderia resistir a estar com ele, a se tornar como ele. Que pode ajudá-la e protegê-la, diferentemente de um fraco limitado.

— Me deixem sofrer em paz...– Odin conseguiu murmurar com muito esforço.– Vão embora.

— Você também confiava nos seus amigos. Mas sabe que foi por causa de uma “amiga” que ela morreu?– O príncipe levantou os olhos cansados e os deixou cair novamente, mas no azul sem pupilas dos de Baskir, que lhe permitiram mergulhar nas cenas do confronto com os gahinim logo após seu desmaio, testemunhando a garra de Gilgash, o esforço de Malin e Baden e o sacrifício involuntário de Eluen na tentativa desesperada de derrotar o barão. Sentiu-se o mais incapaz dos incapazes e odiou Vanadis por não ter morrido no lugar de sua amada.

— Traidores...– O cansaço começou a se esvair para dar lugar a um ódio rosnado que o lobo acompanhava, enquanto o corvo deixou escapar sua risada rouca. Pêlos brancos cresceram por todo o “corpo” de Odin e imensas asas pretas se abriram em suas costas, imagem também vista por Vanadis e que a assustou, fazendo-a retroceder, quando ele voltou ao mundo material e principiou a emanar uma aura escura e densa, uma ventania negra, que trazia consigo um cheiro de destruição que Gilgash, com a consciência recobrada, desesperado ao lado do amigo, reconheceu: “É como daquela vez que ele achou que Malin estava morto e até o sol parou de raiar...”

— Odin, para onde você foi?– Vanadis indagou, um tanto angustiada. Um furacão negro veio em sua direção e ela precisou se esforçar para segurá-lo com sua força violeta, já desgastada, tendo que receber o auxílio de Gilgash e as chamas emanadas do anel e da espada. Como nem a elfa nem o lomai estavam inteiros, foram lançados para longe e o dano só não foi mortal porque os dois, juntos, empregaram uma quantidade considerável de energia espiritual defensiva.

— Você ficou louco, Odin? Somos seus amigos!– Malin se adiantou corajosamente, ainda repleto de feridas emocionais que refletiam em sua aura machucada. Como reconheceu nele o sangue de Eluen e na energia que o envolvia o rosto de sua amada, o príncipe ensandecido hesitou.– E todos estamos sofrendo pela perda da Eluen, mas ninguém aqui saiu querendo matar os outros por isso!

— Vocês me traíram. Deixaram a Eluen morrer...Ela se sacrificou por vocês! E não é de hoje...– Olhou para o pobre Baden com uma raiva tremenda.– Se não fosse por você, eu poderia ter tido mais tempo com ela.

— Pelo visto você perdeu completamente a sanidade. Não é o Odin que conheci.– Ainda apoiado em Malin, sem conseguir ficar de pé, estava pasmo com a situação.– Que desastre...– Lembrou-se de Seraph Ishtar e se perguntou como o kumara permitira os últimos acontecimentos.

Vanadis conseguiu se levantar e puxou Gilgash consigo; nessa hora vislumbrou algumas criaturas aladas no céu: eram dezenas de gárgulas semi-anjos e guardiões; e aproximadamente cinqüenta sentinelas vinham pelo chão.

— Que pena que só chegaram agora.– Lamentou.

“Espero que nos desculpe, majestade. Havia centenas de sub-soldados ameaçando a população da região...”, Grul se desculpou telepaticamente. “Não precisam se justificar. A vida de qualquer pessoa vale tanto quanto as nossas. Nós ainda podemos, ou tentamos, nos defender...”, ao ver os gárgulas, Odin pareceu ainda mais furioso.

— Por que não vieram antes? – O príncipe elfo urrou, com uma voz rouca e grossa que não era a sua, apavorando todos que o conheciam. E, antes de ouvir qualquer argumento, explodiu à sua volta um ciclone de ébano com o qual ninguém conseguiu rivalizar; Grul despencou do alto junto com outros semi-anjos e parecia não haver escapatória nem para os sentinelas, arrastados para longe. Gilgash tentou entrar na mente do amigo, com o intuito de auxiliá-lo a recobrar um estado de espírito minimamente são, mas dava de cara com tanto ódio que se via obrigado a retroceder para não despencar na mesma condição.

O poder estável do filho de Valin era apenas uma faísca de seu imenso potencial latente, disso Vanadis ficou certa; como pará-lo agora que se tornara provavelmente um rival até pior do que o barão gahinim? Só Odin poderia deter Odin. Ou não? O desastre não se limitava àquele local.

A força do elfo se tornara tão ampla e esmagadora que os habitantes das cidades e povoados de Warman não puderam ficar indiferentes. Muitos se sentiram de repente como lobos, ferozes e selvagens, correndo em bandos desgovernados em busca de presas e lutando entre si por uma liderança impositiva, ou passaram a voar pelos céus à procura de carniças na terra, feito corvos famintos; pais se lançaram contra seus filhos e o mesmo ocorria no sentido oposto; irmãos se insultavam e se viam como inimigos mortais; os alimentos de uns eram seus outros...A pior loucura, a cega, dançava com os ventos. Os que se ajoelhavam para rezar acabavam pisoteados.

Vencidos os sub-soldados de sua região, as disiras e os suras notaram que algo de estranho ocorria: mesmo com os adversários abatidos, Drifa sentiu um medo que não era seu e nem necessitava de referências, percorrendo seu interior com frieza; Gondul passou por um desânimo incomum nela, uma vontade de esmorecer, abaixar a cabeça, que não tinha nada que ver com cansaço físico; Goll captou sinais de tristeza nas plantas e nas pedras, como se todas derramassem lágrimas cinzentas; Rota caiu numa paranóia na qual sua própria sombra lhe parecia opressiva, tendo que se ocultar desta ao se refugiar embaixo de uma árvore; Eosen perdeu sua vivacidade e sua alegria de viver habituais, encarando de repente as coisas com uma indevida seriedade; Durin viu seus homúnculos se apagarem antes de dar a ordem; Balin estava tenso e queria lutar, procurando por inimigos prováveis e cuja presença lhe era clara, evidente, que porém não se manifestavam.

No olho do furacão sombrio, nada podia atingir Odin; e quem tentasse se comunicar telepaticamente não conseguiria, pois o ar saturado bloqueava até as ondas mentais. Grul fez um esforço tremendo para tentar algo, incandescendo seu corpo; o príncipe cedo percebeu a intenção do gárgula e bateu suas asas negras: este ainda resistiu por alguns segundos, aos poucos se apagando.

Outro gárgula, um guardião, preencheu seu corpo com eletricidade, assim como alguns sentinelas tentaram investir ou golpearam o chão, causando tremores e rachando-o em parte; contudo, de maneira assustadora, Odin reconstituía o solo e invertia os terremotos, que voltavam concentrados para quem os provocara. Quanto ao oponente carregado de raios, arrebatou-o para o alto, mais perto das nuvens.

Vanadis começou a se dissuadir que não havia esperança de vitória; e não seriam os gahinim, e sim um elfo como ela, a causa da ruína de Warman e talvez de sua própria espécie. A destruição definitiva, tanto quanto as soluções, só podiam vir de dentro. Questionou-se a respeito do amor: “É tão poderoso assim? Se foi capaz de desencadear de um modo descontrolado um poder latente, se a perda do ente mais querido pode levar à loucura...É afinal uma força destrutiva ou construtiva? Eu tirei do meu amor forças para me tornar o que sou hoje; mas cada um tem uma reação distinta. Odin, por favor acorde...Eluen não aprovaria isso”, e o príncipe se lembrou de quando a vira na espuma do mar; de maneira semelhante, apareceu-lhe abruptamente entre os ventos negros, que delinearam seu rosto de forma nítida; contudo, dessa vez lhe aparecia triste, com um severo olhar reprobatório. “Eluen...Eles são culpados. O mundo nos traiu... Por que me olha assim?”, e a expressão não se alterava. “Eu te amava. Você não tem o direito de me julgar...”, ele insistiu, mas veio a resposta clara, na voz dela: “Você está certo, Odin. Você me amava. Se ainda me amasse, não estaria causando tudo isso, ameaçando o meu pai, o meu irmão, o seu melhor amigo e a minha melhor amiga; amei uma pessoa profundamente lúcida, visionária. Mas o que há em você agora é um louco, um cego, embriagado pelo ódio; dessa maneira que está, não posso amá-lo”, foi um golpe: por mais que a alma da filha de Malin ainda não tivesse recobrado a plena consciência, seu Eu superior respondera ao chamado de seus amigos e ao desespero de seu amor; saíra por alguns instantes do sono para tentar despertar quem estava pior do que ela, entregue aos pesadelos.

— Eu só queria você de volta...– Ele balbuciou, ofegante. Os ventos diminuíram.– Aqui, comigo!– A rainha de Warman sentiu a mudança; e os tufões se enfraqueciam cada vez mais. Odin não via mais o rosto nem ouvia a voz de Eluen, ficando fraco com a ausência e entristecido com o silêncio. A raiva foi se dissipando...Dentro do seu corpo, o fígado ardia.– Chega...Cansei.– E nesse momento tudo parou e o príncipe ficou de cabeça baixa.

— Alguma coisa o acalmou. Até que enfim. Deve ter sido Eljai.– Malin opinou.

— Não. Só pode ter sido uma única pessoa. Não um deus ou semi-deus. O ódio dele se dirigia até contra os adanas; não existia algo que passasse incólume.– Gilgash expôs.– Apenas Eluen: só pode ter sido ela. A única capaz de operar esse milagre.

O curandeiro não resistiu e desabou em lágrimas; Baden foi perdendo os sentidos e desmaiou.

— Odin...– O lomai foi o único que teve a coragem de se aproximar.– O que vamos fazer agora?

— Eu estou cansado. Estou indo embora.– O príncipe respondeu.

— Embora pra onde, meu amigo?– Com os olhos altos e opacos, Odin se aproximou e qualquer um ali teria retrocedido, menos o lomai, que permaneceu onde estava e recebeu um afago entre a nuca e os cabelos em vez do esperado abraço. Depois disso, o elfo deu as costas a todos, física e mentalmente, e levitou para além.

— Para onde ele está indo agora? – Indagou Grul.

— Eu não sei, mas é melhor deixá-lo em paz.– Replicou Vanadis; Gilgash fechou os olhos e tentou não pensar em nada; atendia à convocação para o silêncio...






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