Marcello salvaggio



Baixar 0,6 Mb.
Página2/11
Encontro03.05.2017
Tamanho0,6 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11

Casamento

— Cometi ações que, embora não sejam erros do ponto de vista ético, pois sempre tive em mente o bem de Warman, são incompatíveis com a minha posição e minhas responsabilidades e deveres como Disiran; acobertei, fui conivente e por fim me envolvi de maneira direta nos planos de Eluen, que por mais que fossem nobres não tinham nada que ver com as disiras e inclusive podem vir a manchar a moral e as tradições da Ordem. Portanto, evidencio minha renúncia, e que a próxima Disiran seja mais feliz na condução da Ordem.– Dessa maneira Vanadis encerrou seu discurso de abandono de seu posto, em meio ao choro de algumas, ao choque de outras e à indiferença ou felicidade de uma minoria. Samen não estava presente; Gondul, de volta de sua missão junto com as outras comandantes, deu as costas e saiu visivelmente insatisfeita no meio do pronunciamento; Goll permanecera até o final e não via a hora de conversar em particular com a ex-Disiran e com os responsáveis pelos últimos acontecimentos: Eluen, Odin e os suras desertores. Drifa ficara a princípio em estado de choque, depois chegou a chorar, ao passo que Rota especulava se havia algo mais por trás, se existia a possibilidade de Vanadis ter se apaixonado por alguém. Mas de que maneira, se ela permanecera durante décadas dentro do templo ou nas proximidades e não tinha contato com nenhum elfo? Ao contrário de sua colega da divisão de Samar, ainda não pensava na sucessão. Por um lado seria bom; uma chance para ela, Gondul. O salão dos juramentos nunca estivera tão dividido.

— A felicitamos pela coragem, filha...– Quando ficou mais esvaziado para as devidas despedidas, Vanadis recebeu a visita de seus pais: ele, que falou primeiro, bastante robusto, o rosto mais quadrado, loiro, de cabelos compridos e lisos partidos ao meio e grandes olhos azuis; ela com um semblante delicado, os cabelos loiros ondulados curtos e um pouco altos, repicados, os olhos prateados mais puxados do que o normal, o nariz aquilino, bem esbelta.

— Achei que fossem sentir vergonha de mim. Há séculos que não ocorre a renúncia de uma Disiran. Confesso que me sinto mais leve neste instante, porque na hora de falar tinha toneladas nos ombros e as minhas pernas pareciam feitas de chumbo.

— Nós estaremos sempre do seu lado, pois sabemos que nunca tomará qualquer decisão para o mal de Warman. Pode até se sacrificar, mas não prejudicará os outros. Conhecemos você muito bem, e não conseguimos impedir isso. Portanto, quando se sacrificar, terá a nós sempre como apoio.– A mãe falava num timbre claro e limpo.

— Muito obrigada, mamãe.– Abraçaram-se e encostaram as testas.

Eluen também estava lá; renunciara momentos antes. No fim das contas, não fora a única a pronunciar “juramentos falsos”. Disiras que abandonavam seus postos costumavam se tornar quase párias em Warman, porém aquela situação era excepcional; e, enquanto Ymun estava sendo julgado pelos seus crimes por um tribunal qualificado, a população destituíra os Asir.

As eleições que se seguiram reelegeram a casa de Vanis, por consenso e sem mais ameaças, afinal Menah e Shara haviam sido encontradas mortas e o aviso de Durin se revelara apenas uma precaução sensata. Vanadis foi escolhida para ser a rainha de Warman e conduzir o país na defesa contra os gahinim. Haviam chegado notícias de que estes já tinham arrasado, apenas nos últimos dias, nações inteiras. Como líder de seu país, decidiu que o tesouro ilícito de Ymun permaneceria durante um mês no castelo, à disposição, para que quem tivesse sido furtado pegasse suas coisas de volta, e o que não fosse resgatado seria distribuído entre os mais carentes. Ymun permaneceu livre, mas forçado a desenvolver e participar de trabalhos assistenciais.

Como rainha, Vanadis mandou fazer uma nova armadura, semelhante à anterior de Disiran, conservando o cinto (não desfizera a magia que impedia qualquer assédio sexual), além do diadema, porém mais adornada, com o brasão dos Vanis no peito e uma ametista no revestimento no centro do pescoço. Nada de coroa ou pompas similares. Afinal, seria uma rainha guerreira, não uma parasita entronizada. Quanto ao brasão, uma homenagem aos seus pais.

— No fim das contas, de outra maneira, você vai continuar comandando as disiras. O casamento acabou, a amizade não.– Foi o que disse Goll, num jantar no qual se reuniram, além das duas, Rota, Drifa, Odin, Eluen e Gilgash. A mesa era de madeira velha, a jarra de bronze com suco de pêssego também um pouco desgastada, a iluminação das tochas fraca, mas o que importava era estarem juntos.

— Mas ser rainha exige outro manejo das situações e responsabilidades distintas, um maior cuidado com a diplomacia e um ouvido mais disponível; amanhã mesmo receberei uma embaixada de gárgulas, entre os quais aquele semi-anjo que ajudou vocês.– E se estendeu na voz, se perdendo no que iria dizer.

— Grul.– Rota ajudou Vanadis a se lembrar.– A propósito, sinais de gahinim perto de Warman?

— Por enquanto não. Só mesmo os que vocês abateram. Mas eu só tinha detectado um, por isso temos que ficar muito atentas.

— Ouvi dizer que um deles já dizimou metade da população do reino mais próximo. Não está na hora de pensarmos um pouco menos em nós e mais na vida em nosso planeta como um todo? Poderíamos mandar um grupo de ajuda.– Interveio o príncipe de Tudnan.

— Todos os reinos possuem guerreiros e guerreiras tão qualificados quanto nós...Teoricamente. Por isso, cada um deveria ser responsável por sua própria defesa; se nos dispersarmos, é possível que quando nos ataquem não tenhamos forças para resistir. Infelizmente, ou felizmente, é mais sensato que nos foquemos em nós mesmos. Unidos entre nós.

— Entenda, meu amor. Precisamos proteger antes de tudo quem está perto de nós. É impossível enxergar com os olhos todos os males do mundo. Se pudéssemos evitar todo o sofrimento, seria o ideal. Mas não há meio. A todo instante, seres vivos sofrem, e isso prossegue enquanto bebemos, comemos, sorrimos ou brincamos, e nem por isso deveríamos sofrer junto com eles, pois só daria continuidade a um ciclo de tristeza e agonia que não se encerra; é um esforço vão tentar salvar a todos. Porém que nossa intenção seja limpa, para que alguma pessoa que esteja melhor ajude seu próximo que se encontra em más condições, isso em qualquer lugar. E nós fazemos nossa parte com o nosso próximo.– Eluen expôs, fazendo com que Drifa sorrisse em concordância.

— Temos que ser nosso próprio sol antes de iluminar os outros.– Gilgash complementou.– A estrela, antes de formar planetas ao redor, somos nós. – “Com cuidado para não nos consumirmos, ainda que possivelmente isso seja inexorável. Aquecemos porque nos queimamos; as chamas que nos devoram são as mesmas que fornecem a luz e esquentam para os outros. Até que ponto isso é válido? Participei desta guerra tanto quanto os outros, só não sou elfo. E por isso sou menos citado”, porém omitiu esta reflexão.

— Pense em Tudnan, Odin. Tem visitado o seu país?– Indagou Vanadis.

— Por enquanto, lá está tudo sob controle e não há ocorrências de ataques.– Respondeu o príncipe.

Quem quase sofrera um ataque, do coração, alguns dias antes, fora o bom Malin, àquela altura à beira da seara, fora dos conflitos. Quando abrira a porta de casa e dera de cara com Baden, intacto, retrocedera alguns passos e quase caíra; só ao ver Eluen e Odin, de mãos dadas logo atrás, que conseguiria se lembrar do que ocorrera a ele próprio alguns anos antes.

— Outra vez o milagre de Eljai, filha?– Ao passo que no príncipe de Tudnan a alegria do abraço, dos sorrisos e dos beijos nos rostos se manifestara na forma de um uivo prolongado. Um ulular prazeroso, que fora acariciando as entranhas de seu ser. Pouca importância dava aos murmúrios escuros, aos sussurros escusos; e as recordações do milagre, em Eluen, pareciam estouros silenciosos no espaço, cometas mudos que refulgiam no já, cujo maior presente seria receber o carinho mesmo no instante em fuga, ouvindo com os poros de todo o corpo, sem necessidade das orelhas, porém com a mesma precisão; sentira uma satisfação redonda de si mesma, não um orgulho. E manifestara sua felicidade por meio de um elevado canto sem palavras, não movendo os lábios; mesmo assim, a palavra muda da música se fazia manifesta: a letra, implícita, fora o reencontro.

— De que forma eu poderia agradecê-lo?– Ocorreu posteriormente a conversa entre Odin e o irmão de Eluen, dentro da casa do curandeiro; pai e filha também estavam presentes, todos sentados em banquinhos de madeira depois de comer uma torta de ameixas que Malin preparara, ansioso para que fosse apreciada pelos seus ilustres hóspedes.

— Não seria correto requisitar nenhum favor. Meu pai e minha mãe sempre me disseram para fazer o que é certo, sem esperar reconhecimento ou recompensas. Mas vou pedir a você algo específico.

— Pode fazer qualquer pedido. Não pouparei esforços para atendê-lo.

— Não é nada de mais.– O tom sério ocultara o sorriso, enfim exteriorizado.– Apenas dê a mim e à Eluen o aval para nos casarmos. O do seu pai já temos.

— Era isso que esperava? Pois não se faça de rogado! Você é o melhor que eu jamais pude querer para a minha irmã!– E a alta temperatura do abraço desfez o clima tépido.

— Eu autorizo. Mas vou comunicar uma mudança.– Malin se manifestou, de surpresa.

— Que mudança, papai?– Indagou Eluen.

— Vou me mudar para a capital, viver mais perto de vocês, fazer pão de abóbora pra minha filha sempre que ela quiser!– E a felicidade se esparramou ainda mais...

Dias depois, os treinamentos entre os guerreiros fluíam muito melhor: tudo porque Odin estava radiante e se dispusera a ensinar muito do que sabia aos outros, e vice-versa, numa troca de conhecimentos valiosa; seu passado parecia uma carne mole, opaca e frígida em comparação com seu presente, no qual a realidade tremia em suas mãos e tinha claramente a percepção da energia espiritual como ondas elétricas a percorrerem seu corpo inteiro, a vibração espraiada e depois penetrante. Participavam Balin, Eosen, Durin, Goll, Drifa, Rota, Baden e Gilgash, com Malin que entrava eventualmente para trocar conhecimentos de cura com Balin, aprendendo a usar melhor a irradiação das mãos, enquanto o outro recebia conhecimentos teóricos de medicina e botânica.

— Para onde mandou seus homúnculos, Durin?– Foi a questão de Odin quando pararam um pouco para descansar, sentados na grama, em troncos caídos ou pedras; treinavam na floresta em volta de Irul, cuidadosos para não danificar a natureza quando geravam chamas, ventos poderosos, gelo ou praticavam psicocinese.

— Enviei para os países mais próximos, menos Tudnan, por motivos óbvios. Precisamos saber se há gahinim por perto e que tipo de estrago causaram os que já agiram.

— Não consigo deixar de pensar na última vez que os encontramos. Vocês não viram nem puderam enfrentá-los; foi a primeira vez que senti que a minha vida corria realmente perigo.– Rota se pronunciou, tremendo por dentro a cada lembrança.

— A aura deles estava cheia de coisas horríveis. Hoje tenho compaixão, mas naquele momento era só sofrimento; ardia em mim, doía demais... Me machuquei de verdade por dentro.– Disse Drifa.

— Não preciso dizer nada, sendo que quase morri!– Goll conseguiu brincar, gerando risos discretos.– A que no fim das contas se saiu melhor com eles foi a Gondul.

— Por que a gracinha não treina com a gente?– Indagou Eosen, que às vezes vinha só fazer número, observando por exemplo Drifa esfriar o ambiente, e ele se refrescava por um tempo, depois saía de perto quando começava a nevar e a ficar gelado demais, ou a comandante competir com Gilgash para verificar o que era “melhor”, se o frio mais intenso ou o calor mais extremado, entre gelo que derretia e fogueiras que se apagavam. Costumavam ficar no empate, cada um em sua especialidade.

— Gondul é muito reservada e prefere treinar apenas com outras disiras, sem se misturar a quem é do sexo masculino.

— Uma pena. Gostaria de aprender com ela também.– Disse Odin.– Nunca antes me senti tão bem e sempre é bom compartilhar de um estado de ânimo como o meu atual.– Ao meditar em silêncio, ocorria um contato elétrico no consigo fresco, cada vez mais límpido, nada trêmulo, aos poucos eliminando as ondulações em seu riacho pessoal na perpendicular e impessoal nos afluentes.

Baden, um observador nato, tentava absorver um pouco de tudo, ainda sem descobrir sua especialidade; também era estranho voltar ao mundo depois de tanto tempo do lado de fora, e na maior parte dos instantes recentes como se tivesse sido apagado para ser religado de súbito, meses depois, embora em sua mente sequer um segundo houvesse transcorrido; era diferente de dormir, pois não se sentira relaxado, limitando-se a uma agonia obscura, a um apagar brusco das luzes e a um acender ainda mais repentino, ofuscando seus olhos. A luz do mundo ainda era agressiva. Suas pupilas ardiam a cada vez que se perguntava o que fazia ali, se não devia ter se desligado definitivamente, se não estava fazendo parte de algo como um pleonasmo ambulante, se não devia ter se extinguido. Quando pensara em morrer, afastara essa possibilidade com pavor, pois naquelas condições para onde iria? Seu destino teria sido o desaparecimento, afinal seu espírito estava destroçado, tanto quanto seu corpo, desposado não com as trevas da crueldade, mas com as da anulação; nessas horas abaixava a cabeça e assim permanecia. No entanto, como novo melhor amigo, Odin apoiava a mão em seu ombro e lhe oferecia as palavras corretas. Vanadis ressaltava sua importância no conflito que viria: todos seriam necessários, a união imprescindível; não se podia abrir mão da força e da inteligência de ninguém. Eluen era sua irmã amada e dispensava conceitos; seu pai o via como o mesmo milagre que o dele próprio, um milagre gêmeo reluzente; Eosen e Drifa o faziam rir, o primeiro simplesmente com a sua presença, a segunda com histórias e palavras engraçadas; Rota era um pouco distante, fitava-o como se tivesse dúvidas de algo a seu respeito, mas, como ele era amigo de Drifa, deduzia que fosse uma pessoa de boa índole; Durin tentara lhe ensinar como produzir homúnculos áuricos, porém o que fora obtido, certa tarde, tratara-se da mostra de uma especificidade em Baden, que ao invés de produzir uma pequena criatura luminosa gerara uma esfera incandescente de coloração azul. Não se tratava de fogo: ao ser tocada, não queimava e desaparecia.

— Não se pode dizer que é uma descoberta porque não tenho a mínima idéia para o que isso sirva, mas certamente tem alguma utilidade. Treine e tente descobrir por si mesmo.– Aconselhara o sura, que voltara a ocupar seu posto no castelo, assim como os outros dois, quando Vanadis assumira o trono. Intrigado, Baden recorreu a seu pai, a Odin e até à rainha, mas ninguém soube lhe explicar o que eram e qual a finalidade daquelas bolas de matéria luminosa desconhecida, que tinham pouco mais de dez centímetros de diâmetro. Resolveu se focar no domínio da terra, já que tinha facilidade para sentir as forças tectônicas a partir de seus pés, mover rochas e gerar tremores. Gradativamente, começava a se encontrar e foi se esquecendo das estranhas emissões de sua aura.

Gondul que não engolia o rumo que a Ordem de Disirah vinha tomando, com algumas comandantes treinando com indivíduos do sexo masculino; lamentava admitir que Vanadis fazia falta. Como Disiran, não como pessoa. Passou a se dedicar assiduamente a treinamentos individuais para que ela mesma pudesse se postular ao cargo de Disiran. Numa noite, na caverna de Samar, onde costumava meditar, de pé, feito uma estátua de pedra, recebeu a visita de Grul.

— O que você quer?– Sentiu de imediato o semi-anjo; a recepção não foi das mais calorosas.– Não sabe que este é um recinto sagrado e que me interrompe?

— Voltei agora de uma reunião com a sua rainha. Senti sua energia por aqui e resolvi fazer uma visita. Desculpe-me se estou sendo inconveniente.

— Deixa pra lá; agora já me atrapalhou mesmo.- Reabriu os olhos e se voltou para o gárgula.

— Na verdade vim lhe dar alguns conselhos. Andei observando os comportamentos de vários de seu povo...E não me entenda mal, não sou um bisbilhoteiro! Só zelo pela sobrevivência de todos. Notei que você se isola, e isola sua Ordem de todo o resto; gostaria que entendesse que este é um momento de união e mesmo as tradições devem ficar em segundo plano. Sozinha, por mais forte que seja, nem sua Ordem poderá fazer frente aos gahinim.

— Sei que estamos num período em crise e que nessas épocas ficamos fracos, os valores se relaxam, o mundo apresenta rachaduras; no entanto, não acho que devamos nos render a esse estado de coisas. Fico à beira do Abismo não para ser tragada por ele, mas como uma guardiã, impedindo que ele sugue a todos nós. Esta é a minha verdadeira função.

— O que acha de Odin de Tudnan? E de Vanadis como rainha?

— Não tenho uma opinião formada sobre ele. Abstenho-me de comentar sobre quem é do sexo masculino. Em relação à Disiran, ainda não me acostumei a desconsiderá-la como tal porque não temos outra para o seu lugar; acho que ela cometeu um erro. Zelar pelos adanas é estar atenta ao cosmo, não apenas a um reino que um dia irá passar. Ela abriu mão da totalidade pela parte.

— Você falando isso...E de certa forma isolando a sua Ordem.

— Pare de falar besteiras; você parece bastante inteligente para me compreender: protejo as disiras porque, caso tudo ao redor comece a ruir, tenho fé que seremos a base a partir da qual o templo cósmico será reconstruído. Somos a única esperança; os adanas não se esquecerão de nós. Por isso precisamos nos fortalecer internamente, não buscando fora o que já temos.

— As suas finalidades não são más nem egoístas; porém seus meios e pensamentos não deixam de apresentar distorções. Pessoalmente, deixei de acreditar em salvadores há um bom tempo.

— Isso porque você não é um. Conforme-se.– E deu as costas ao semi-anjo, que depois de algum tempo de silêncio se viu forçado a ir embora sem se despedir. Gondul permaneceu em silêncio no escuro.


Trevas passavam próximas de Ymun por fim sem tocá-lo; vivia com Loren sua fase de maior harmonia, em uma pequena casa. Até aturava cuidar de crianças abandonadas, entre elfas, anãs e lomais, de dia, em um orfanato na periferia da capital patrocinado pela Ordem de Disirah, para durante a noite se deleitar nos braços de sua esposa. Falava muito pouco, tinha momentos de se sentir absolutamente estéril, de pensar que sua vida perdera o sentido. Mas relaxava quando ela aparecia, sem se mostrar, para massagear suas costas; não era apenas seu corpo cansado que recebia o carinho, e sim principalmente sua alma.

— O que aprendi com tudo isso? Nunca queira ser rei!– Esparramado em uma poltrona bege, caçoou de si mesmo.

— Menos mal que eu nunca quis ser rainha.– Loren riu; vestiam roupas simples de camponeses, nada de luxo. Em frente à casa cultivavam uma pequena plantação, que garantia seu sustento.

— Você tem sorte. Também não morreu, ao contrário do seu marido...

— A morte é o primeiro passo para uma nova vida; quem nunca morreu não pode se dizer vivo.

— Aquelas crianças! Hoje quase bati em uma. Não queria comer de jeito nenhum! E também não fazia nada. Que menininha lomai apática, o tempo todo com a cara fechada, nem chorava!

— Paciência, Ymun. São crianças carentes, que já sofreram muito. Precisam de amor e atenção, não de surras. Pense que nunca tiveram nada. Absolutamente nada do que querem ou quiseram.

— Talvez seja melhor assim. Cheguei a ter quase tudo e estou aqui.

— Quase! Esse foi o problema. Você quis demais. Vai se espancar por isso?

— Eu não, mas se você quiser pode me bater. Ainda não cresci e amor já tenho. Preciso de surras.

— Você cresceu agora, nesses dias. No trono você ficava mais baixo; agora parece ainda mais alto!

— Obrigado pelo elogio. E você fica melhor sem jóias; a sua beleza não é ofuscada por nada.

— Eu mereço amor ou surras? O que você diz?

— Um pouco de cada.– Ele caçoou.– Se ainda fosse pequena...

— Sou pequena...O que mereço então?

— Você cresceu demais, não fale que é pequena. Mereceria muito mais que amor e surras.

— E o que é mais do que isso? Deixo claro que tenho tudo o que quero.

— O justo seria você ter mais do que quer ou quis. Só isso faria a devida justiça.

— Exagerado como sempre...– Perdão? Culpas? Isso não passava por sua cabeça. Só não queria rever Baden tão cedo, de preferência nunca mais, para não pensar no passado; o irmão de Eluen não fora o único torturado: “Sem perceber, e sem Gomen e seus instrumentos, eu conseguia torturar a minha própria pessoa; o meu sadismo não tinha limites, muito menos comigo...”
Quanto ao casamento de Odin e Eluen, foi uma cerimônia simples, com as tábuas do antigo contrato de noivado sendo destruídas e, em seu lugar, os magistrados de Irul geraram as de casamento, celebrado numa área discreta e enevoada da floresta, na qual entretanto um sol tímido se aprazia em marcar presença naquela tarde, recatado, talvez sem tanta confiança, mas ainda assim fazendo questão de testemunhar e afagar seus amigos. Ela usava uma coroa de rosas vermelhas, um longo vestido azul-claro de tecido ondeante e sapatilhas da mesma cor, enquanto ele preferia uma túnica justa que chegava aos joelhos, de coloração azul-escura e finamente bordada nas barras, um manto branco preso no alto do ombro esquerdo com um broche prateado em formato de garuan, sapatos leves que combinavam com o restante e uma rosa branca na mão; a sacerdotisa escolhida por Eluen para a consagração fora Sanan, que em seu traje de disira pronunciou as bênçãos dos adanas para o casal, em especial de Eljai (que eles sabiam muito bem que tinham), e depois de beijar as testas de ambos permitiu a Odin que este colocasse sua rosa branca na coroa de rosas vermelhas de Eluen. Uma vez feito isso, puderam se beijar e seguiram-se os aplausos.

— Sejam agraciados por todos os adanas...– Foram as últimas palavras de Sanan; a fé de Eluen e Odin nos deuses específicos podia ter se apagado após as revelações de Seraph, mas foram fortalecidas a crença que tinham em si mesmos, não irracional, nem forçada, e sim um estado de confiança sereno, e a certeza que os poderes da natureza podiam mudar de nomes e formas, porém jamais em essência; não importava chamá-lo Eljai ou Seraph, se eram adanas ou kumaras: importava sentir a presença e a energia deles, o choque vital a distinguir, pela sua corrente, o corpo animado do cadáver frio; era o momento mais feliz da vida do príncipe de Tudnan. Seus pais não estavam; só o abraço de Malin, que valeu como se fosse o de um pai. Com Gilgash, sua mão deslizou por uma lâmina lisa e mais uma vez tranqüilizou o amigo: “Seremos mais, nunca menos; não estamos nem estaremos sozinhos”, que com seu sorriso lhe afiou a alma. Vieram as batidas firmes de Balin nas costas, o peito acolhedor de Eosen, e Durin de brincadeira fizera aparecer um de seus homúnculos no ombro direito do recém-casado:

— Ele vai verificar se você está tratando a Eluen como ela merece. Por isso, cuidado...– À “ameaça” se seguiram risos amenos e com um abraço a criaturinha luminosa se desfez.

Presentes também os duendes Maina e Talhapalavras, a primeira saltitante e o segundo mostrando seu lado sensível ao chorar ao término da celebração, recebendo a seguir um abraço da amiga, e Drifa, Goll e Rota, além de outras disiras, e todas trouxeram a alegria de presente para a recém-casada. Os olhares de Drifa para Odin eram de admiração sincera, por ele correspondidos; os de Rota, que foi cumprimentá-lo, tinham um mistério que ele não conseguia desvendar, porém veladamente compreendia, na profundidade do Ser; Goll notou os brincos, os olhos de esmeralda, um para ele e um para ela, nas orelhas opostas. Pareciam-lhe familiares.

— No templo eu não podia usar adornos. Mas mesmo assim às vezes colocava, escondida. – A filha de Malin confessou.

— Eu bem que imaginei. É que ainda que você o tirasse, ele emana uma energia muito intensa; não é um simples adereço.– Explicou a comandante da divisão de Dannah.

— Neles está a complementaridade, os dois lados do nosso amor.– Afirmou Odin.

— O que é muito bonito. Eles me olhariam mesmo se eu não olhasse...

Por volta do fim da celebração, Vanadis apareceu, para o júbilo de Eluen, que foi correndo abraçá-la; na seqüência, a rainha se dirigiu a Odin, cumprimentando-o e irradiando sua afeição pelo casal; vendo tantas disiras por lá, só sentia a falta de Gondul, que jamais compareceria a um casamento de uma ex-sacerdotisa.

Se o comportamento da comandante da divisão de Samar era rígido e austero, ao menos não titubeava na sinceridade e na correção; bem diferente de outra ali presente que se mantinha oculta, espionando pelas frestas das folhas, com a energia tão baixa que ninguém a notara em meio a tantas efusões e aos pensamentos e sentimentos elevados; haviam se passado muitos dias desde que Samen não era vista, ouvida ou sentida. Contudo, arfante, quase comendo o ar, fitava o casamento de Odin e Eluen com seus olhos ocultos, vermelho-escuros, beirando o negro. Pouco depois reuniu as migalhas de força que lhe restavam e disparou numa carreira bamba, a mente desorientada; suava, chorava e corria, os rasgos de roupa ficavam pelos matos, os passos trôpegos; os joelhos endureciam, excessivamente pesados; passou a mexer os dedos das mãos de um modo maníaco, cada vez mais áspero; levou as mãos ao rosto e as bochechas estavam geladas, enquanto a testa queimava. A carne mole mas tensa, os ossos duros que pareciam quebrados; onde estavam os adanas?

Passaram-se alguns dias e Gilgash estava em sua casa, em um bairro abastado de Irul, não muito distante da casa que Odin e Eluen haviam comprado para si nem da nova residência de Malin; no final da noite, preparava-se para dormir. Não se ouvia ninguém nas ruas, iluminadas discretamente por lâmpadas a óleo em postes negros metálicos, a névoa a dominar as pedras, fazia frio, e dentro uma lareira aquecia suas mãos; refletia sobre o momento de paz e o que viria quando os gahinim resolvessem atacar Warman. Tomou um susto quando alguém bateu à sua porta, agitando a aldraba.

“A essa hora quem pode ser? Será alguma emergência?”, cansado depois de treinar muito durante o dia e com um tanto de preguiça, não se deu ao trabalho de investigar psiquicamente quem se encontrava ali. Caso se tratasse de algum ladrão, iria enxotá-lo com um bom susto ao invadir sua mente e fazê-la queimar um pouco.

— Olá...Espero que me desculpe pelo horário inconveniente.– O lomai arregalou os olhos, não reconhecendo num primeiro instante a figura à sua frente; porém, ao se deter com maior atenção, reconheceu Samen. Esbagaçada, rasgada, os cabelos desaprumados e embaraçados, cheios de terra seca, o rosto sujo de limo, os olhos embaciados, as unhas roxas; a voz gravada em suas recordações e a energia que continuavam as mesmas; assim como o corpo bonito, que não resistiu em fitar de baixo para cima, ainda mais que estava quase nua, e tremia.

— Você! O que aconteceu?– Pensou que deveria deixá-la do lado de fora depois de aplicar uma boa bronca, ou não falar nada e simplesmente bater a porta, mas não teve coragem nem de uma coisa nem de outra. Só conseguiu fazer a pergunta mais fácil.

— Eu não sou mais digna da Ordem. Não sou mais digna de olhar nos rostos de minhas irmãs, nem de andar por Warman. Não mereço mais a vida.

— Que ladainha é essa? Como você achou a minha casa?

— Espero que me desculpe. Andei observando vocês esses dias; estou morando na floresta, sozinha. Acompanho os seus treinos às vezes. Hoje não agüentei e resolvi seguir você. Mas fiquei algum tempo fora, deitada na rua, tomando coragem pra vir falar.

— Por que eu? Por que não foi atrás de outra pessoa? Podia pedir a ajuda de Vanadis.

— Eu sentiria muita vergonha. Afinal ela foi a minha Disiran. Não quero que me veja nesse estado deplorável. E depois de tudo o que já fiz aos seus amigos, o que poderia pedir a eles?

— Não vá me dizer que está arrependida pelo que fez a Odin e à Eluen! Posso ler os seus pensamentos se quiser; não adianta mentir ou dissimular.

— Vá em frente e leia, se quiser. Sei que é difícil acreditar, mas me cansei da vida que levei durante tanto tempo. Percebi que os adanas não estavam felizes com o meu comportamento.

— Está bem. Deixar você entrar não me custa! Além do mais, esse vento gelado já está me irritando.

— Muito obrigada.– Ela não sorria, e entrou devagar, passando a língua seca pelos lábios gretados; ele sentiu uma vontade repentina de puxá-la para perto e enchê-la de sopapos, e não era para castigá-la por tudo o que fizera a Eluen e Odin: tratava-se de um desejo inexplicável, que o excitava; mas se conteve.

— Pegue um banquinho e sente-se. Vou pegar um pouco de suco.– E pouco depois veio com a jarra com sumo de maçã, depositando-a na mesinha próxima à lareira, perto da qual também se sentou; em boa hora: os beiços da elfa rachavam de sede.

— Obrigada pela acolhida. Não me canso de agradecer.

— Até algum tempo atrás você era arrogante, gostava de pisar em todos; a Eluen me contou que da última vez que a viu você a provocou demais. E sempre me desprezou. Eu era até o “amante lomai” de Odin. Que mudança de atitude é essa?

— As pessoas não têm o direito de mudar, de acordar? Fiquei cansada de mim. Cansei do que eu era.– Bebeu o suco tão rapidamente que Gilgash se espantou.

— Devia estar com muita sede. Está com fome também?

— Não, não, por favor não! Não vim aqui para saciar o meu estômago.

— O que você quer afinal? Estranho ter vindo só pra “desabafar”. Deve haver algo mais por trás.

— Ninguém deixa de ter segundas intenções em qualquer ação. Só que podem ser segundas intenções boas ou más. Pode ficar tranqüilo que não estou mal-intencionada.

— Se você quer um teto, veio ao lugar errado. Já tem gente demais nessa casa: eu e eu.

— Você sabe mesmo ler mentes. Mas eu não ficaria aqui gratuitamente, pode ficar certo. O que custaria para você ter uma serva que não precisasse remunerar?

— Teria que dividir a comida...

— Posso fazer todo o serviço doméstico, todos os dias. Você só ficaria focado nos treinamentos.

— Não aprovo a posse de escravos. Seria uma contradição pra mim.

— Por favor, Gilgash.– Ao bater as mãos na mesa, era a primeira vez que pronunciava o nome dele; a palma da mão direita doeu, pois apresentava uma esfoladura.– Eu só não posso sair! Não quero aparecer lá fora: tenho vergonha de tudo e de todos. Pelo menos até me recompor internamente! Antes disso, só pediria que não comentasse com ninguém que me mantém em sua casa.

— Eu ainda não disse que aceito você. E se alguém quisesse me visitar, onde eu te enfiaria?

— Me escondo em qualquer lugar, não me importo; posso ficar até embaixo da cama. Trabalho! Preparo a sua comida! Só não quero mais rodar por aí, sem roupas, sem comida, sem ninguém pra conversar, e com o risco de dar de cara com quem me odeia.

— E com razão. Mas Odin e Eluen nunca farão nenhum mal a você.

— Mas e a Ordem que abandonei sem renunciar formalmente? Posso receber uma punição severa.

— Que é isso...Você está se rebaixando demais! E pensar que até pouco tempo era tão orgulhosa...

— O meu orgulho me conduziu a isso.– E ficou cabisbaixa; os dois em silêncio.

— Vou pegar algumas frutas pra você na minha despensa.– “O que estou fazendo? Eu não devia ficar com pena dela...Ela merece o frio da rua e os olhares de reprovação e desprezo dos outros, mesmo eu sabendo que nem o Odin nem a Eluen são assim. Como eles se comportariam nessa situação?”, ele quebrou a ausência sonora e ela tornou a levantar os olhos, feito uma cadela acuada.– Se quiser, pode vir comigo e escolher alguma coisa pra preparar. Eu não estou com fome e já jantei; comigo não precisa se preocupar hoje. Se é que você se preocupa com alguém além de você.

— Vai me deixar ficar então?

— Só até você tomar vergonha na cara. A vergonha ainda está fora, na aura.– Ela o seguiu, e pouco depois preparou na cozinha um ensopado, com diversas verduras, e como sobremesa um cacho de uvas. Saciada, depois de comer muito rápido, sorriu agradecida.

— É bom aprender que não se deve julgar ninguém pelas aparências...

— Eu sou tão feio assim pro padrão de beleza das elfas? Achei que você só se importasse com aspectos religiosos, sacerdotais...Pelo visto ainda estava bem ligada ao mundo.

— Eu escondia as minhas frustrações humanas por trás de uma fé que nunca cheguei a possuir. Tinha inveja da Eluen, que sempre teve fé apesar de nunca ter se tornado uma sacerdotisa formal.

— Mais vale ser um sacerdote de si, no altar do próprio coração, do que seguir pompas e tradições vazias. E a sua família?

— Não tenho família, sou órfã. Acho que entrei para a Ordem mais como uma fuga da miséria.

— E agora buscando outra solução fácil!

— Pois é... – Parou de sorrir diante da ironia.– Mas prometo que vou mudar. Começando por ajudar você. Cozinhar, limpar a casa, lavar roupas...Vai me ajudar a colocar os pés no chão. Depois prometo que nunca me esquecerei do que fez por mim.

— Poupe as suas palavras. Prefiro ver os seus atos. E não só ver, como sentir.

— Sei que não confia em mim, por isso não vou agradecer o voto de confiança; agradeço-o pelo seu coração, que é maior do que as suas desconfianças.

— Agora eu vou dormir.– Ele se levantou da mesinha.– Foi um dia puxado e amanhã tenho que acordar cedo pra me encontrar com os outros e treinar.

— Não se preocupe, eu limpo os pratos e os guardo.– A maioria dos habitantes de Warman lavava os utensílios domésticos com água, esponja e sabonete poucas vezes ao mês; geralmente se limitavam a limpá-los com panos; os de Gilgash eram todos de barro, exceto os talheres de ferro, mas ele preferia assim, gastar menos com objetos pequenos e ter tanto mesa como cama independentes.

— Pena eu não ter nenhuma roupa feminina, mas amanhã compro alguma coisa pra você.

— Vai comprar roupas pra mim?! Vão estranhar.

— Digo que vou dar pra alguma mendiga, isso não é da conta de ninguém. Esfarrapada assim você não pode ficar. Não é certo.

— Fico sem palavras, Gilgash...

— Eu só tenho uma cama mesmo, então por enquanto você não se incomoda de dormir no chão?

— Não, claro que não! Só de ter onde ficar já me basta.

— Você pode ficar do lado da lareira, te dou umas cobertas.

— Não precisa!

— Tenho algumas a mais, não me custa.– A casa de Gilgash tinha um banheiro e lá Samen pôde se lavar, escovar os dentes e por fim vestiu provisoriamente uma túnica masculina.

— Pra mim está perfeita.– Brincou, apesar de ter ficado bastante larga.– Nem precisa comprar nada!– E ele replicou com um sorriso esmorecido. Estava com sono e àquele ponto o cansaço amolecera ainda mais seu coração e deixara seus olhos mais descuidados. Ela percebeu que ele a admirava fisicamente: foi a brecha que precisava para abraçá-lo.

— Também não é pra tanto. Agora eu vou pra cama.– E dessa vez foi, depois de frear seus desejos e afastá-la de maneira suave.

Deitou-se sozinha perto da lareira, enrolada nas cobertas; apesar de não ter conseguido tudo, não podia ser tão ambiciosa logo no primeiro avanço...Já obtivera demais: estava feliz, radiante consigo! Mal poderia esperar pelo dia seguinte, falar novamente com ele, agradecê-lo, envaidecê-lo...Amor? Uma paixão súbita? Nada disso...O lomai continuava a repugná-la, como sempre ocorrera. Ao se imaginar tocada por aqueles dedos escuros, fitada por aquele calo entre as sobrancelhas que dava a impressão de parecer um olho tampado por carne, sentir a respiração dele em conjunto com a dela, os corpos colados...Tinha vontade de desistir. Porém seu ódio por Odin e Eluen era maior e precisava disfarçá-lo o máximo possível para poder usar Gilgash, tão sensível aos pensamentos. Precisava odiar nas vísceras, nas entranhas, deixar a raiva escorrer em seu sangue sem chegar à mente, que deveria permanecer limpa, imaculada, digna de uma alma seriamente arrependida, espalhando seus outros tormentos para não parecer serena demais.

Perdera a fé nos adanas. Se haviam protegido alguém como Eluen, tão desrespeitosa para com as tradições, não fazia mais sentido ser uma sacerdotisa e venerar deuses imorais; ou talvez eles não existissem, não passando de projeções das mentes do povo de Warman ou de espíritos poderosos meramente interessados em manipular seus fiéis para outros fins. Deveria procurar outros deuses, seus deuses, que a entendessem e a auxiliassem; ou quem sabe permanecer sem deus algum: sozinha faria muito melhor. “Por que eu necessitaria de muletas se posso dobrar a vontade até de quem me odiava? Que me odiava mas me quer! Senti a energia dele, vi a aura vermelha, cheia de fagulhas, de desejos! Não conseguirá resistir por muito tempo e, por mais asco que eu tenha, preciso cumprir a minha missão, que agora é fora do templo; e se o Eljai que ajudou Eluen, o povo anda falando disso o tempo todo, que o irmão dela foi curado milagrosamente e só pode ter sido uma intervenção divina, for um impostor? E o verdadeiro Eljai continua ao meu lado, indignado, pronto para me usar em silêncio na sua vingança por meio de sua ira? Só me vem a dúvida de por que ele não se manifesta e o falso deus dos milagres apareceu à Eluen! Talvez ela tenha mais visão espiritual. Porém de que adianta ter um dom desses se o usa para o mal ou não sabe distinguir o certo do errado? A princípio, não preciso mais de deuses. Se Eljai for quem espero que seja, aceitará minha força e saberá compreendê-la, cedendo sua fúria para que o meu corpo e a minha alma destrocem aqueles que profanaram seu nome. Inclusive Vanadis, Disiran de araque!”, fechou as pálpebras empapuçadas na tentativa de, ao imaginar os dias que viriam, visualizar a glória futura, não o nojo do presente-expectativa, que ainda não era futuro; futuro para ela se tratava de algo mais distante, além de luminoso, uma incandescência além do nevoeiro que incinerava as serpentes enrodilhadas e derretia as grades úmidas e pegajosas que a obrigavam a contrair o estômago quando as tocava.

Os dias que se seguiram foram de presente-expectativa. Nos primeiros, de uma novidade gostosa para Gilgash, que ao chegar em casa tinha a comida pronta e tudo em ordem; as conversas eram breves, mas foram aos poucos passando da secura a brincadeiras eventuais com pinceladas de leveza, embora nada ainda muito úmido. Faltava bastante para que os dedos escorregassem pela barra de ferro enegrecido, um tanto áspera. E nenhum dos companheiros do lomai, nem Odin, notou nada de diferente nele naquele período.

— Você não sente falta de treinar um pouco? Afinal já foi uma guerreira.

— Enquanto me reconstruo por dentro, prefiro uma vida tranqüila.

— Entendo o seu ponto de vista. Às vezes precisamos de um descanso.

— Por acaso com o corpo ferido e exausto você agüentaria se submeter a exercícios físicos pesados? Com a minha alma, atualmente, é a mesma coisa.– E num certo sentido Samen não mentia. Nunca gostara de lutar e treinar os sentidos, os músculos ou seus poderes psíquicos e mentais; sempre preferira conseguir as coisas com base na estratégia, na inteligência e na astúcia.

Gradativamente mais entrosados, ao menos era como ele sentia, tendo feito a escolha de não penetrar nos pensamentos dela, respeitando a intimidade da elfa, Odin começou aos poucos a sentir uma interferência familiar na aura do amigo. Só não conseguia identificar de onde vinha e da parte de quem; no entanto, ao término de um treinamento, sentados tomando água à beira de um rio, que escorria firme, fúlgido pelas pedras, passou-lhe pela mente perguntar, aproveitando-se da ausência de Eluen:

— E a Samen? Muito esquisito...– A pergunta e a observação fizeram a água descer amarga pela garganta e borbulhar no estômago do lomai, que ficou embrulhado na hora.– Nenhuma das comandantes disiras tem notícias dela e Vanadis acha que ela enlouqueceu de vez depois que eu e Eluen nos casamos. Perto dela nem gosto de comentar sobre o assunto. Ela nem tem se lembrado que a Samen existe e por enquanto acho melhor assim.– “E uma pessoa pode ser apagada dessa maneira, como se nunca tivesse existido? Por mais mal que tenha feito, somos todos dignos da vida; ninguém tem o direito de excluir alguém do mundo”, passou pela mente de Gilgash, que ocultou de imediato o pensamento e a indignação súbita para não ser percebido pelo príncipe de Tudnan.

— Desde quando ela sumiu?– Depois pensou que poderia estar se afeiçoando demais a ela. Não devia ficar contra um amigo por uma pessoa que na verdade pouco conhecia, limitando-se a uma convivência próxima curta e por “caridade”, antecedida por conflitos, tramóias e desconfianças.

— Praticamente desde que Ymun foi deposto; ela vaporou. Ouvi alguns boatos que foi vista pelas ruas, andando feito mendiga. Seria um fim justo pra alguém com tanta maldade no coração, que só não provocou maiores desgraças porque não teve como.– “Mas as pessoas não têm o direito de mudar? Se até Ymun de certa forma se regenerou...A Eluen não devia ter ajudado a Samen também?”, o lomai questionou, mas não disse.

— Você tem razão.– No entanto, Odin percebeu que aquelas palavras não tinham substância: vazias; insinceras. Cogitou se deveria investigar o amigo; mas depois refletiu que, como amigo de verdade, precisava confiar em Gilgash. Devia ser uma fase, talvez um desvio emocional que o deixava meio alheio às coisas. Estaria apaixonado? “Por enquanto é melhor nem brincar com isso...”, pensou, indo comentar com Eluen:

— O Gilgash anda distante. E na aura dele tem uma presença que não consigo identificar. Percebi nesses dias que é feminina. Será que ele conheceu alguém?

— É bem possível.– Ela preparava uma salada, enquanto Baden e Odin aguardavam à mesa.– Mas não acho que você deva se meter. Fique na sua, Odin. Pelo visto ele não quer que ninguém saiba, ainda. E está no direito dele. Convide-o qualquer dia para vir aqui em casa; quem sabe ele considere que a hora chegou e traga uma companhia.

— Eu já o convidei, alguns dias atrás. Ele só quer saber de treinar e depois some.

— Por acaso o tem seguido para verificar se ele vai para casa ou não? Isso é feio!

— Esses dias pensei se devia investigar o que está acontecendo. Mas não acho certo. É preocupação de amigo, mas se ele quer quebrar a cara, que quebre sozinho.

— Isso também é feio. Você tem que desejar o melhor pra ele, pensar sempre no melhor.

— Eluen, é claro que quero o melhor pro meu melhor amigo. Mas o conheço muito bem e ele está pra lá de estranho. Disse simplesmente o que me parece mais realista. Nós sempre fomos inseparáveis e algo está entre nós ultimamente. O que nunca foi o seu caso, mas essa nova presença feminina é bem diferente. Não tenho um bom pressentimento.

— Gostaria de poder ajudar, mas você o conhece melhor do que ninguém e não tenho o direito de dar conselhos.– Baden interveio.– Só me permita uma observação: nos últimos treinamentos, o poder mental dele parece ter diminuído. Ele vinha me ensinando muitas coisas, e de repente parece que não consegue mais se concentrar. Comparece mais por obrigação.

— Também tenho sentido isso. Vem, só que com a cabeça em outro lugar. Ou em alguém.

Samen o estava fisgando: ela se dava conta disso. Ao mesmo tempo, tinha que ser o mais discreta possível para não ser percebida. Pelo menos por enquanto. Contudo, algo em seu plano estava se desviando. “Não esperava que isso fosse acontecer...Preciso me policiar.”, pois começava a se afeiçoar genuinamente ao lomai; longe de ser amor ou paixão: entretanto, a companhia dele a agradava. “Quem sabe por dentro sejamos mais parecidos do que aparentávamos. Mas não...Não posso nem quero me envolver; não tenho que pensar nisso. Apesar da questão não ser de pensar, e sim de sentir; continuo tendo nojo, aversão por aquele calombinho maldito! Em outra situação, quem sabe, poderíamos ser amigos...Não é o caso. Estou aqui pra cumprir uma missão. Se os adanas existem, de exercer o castigo deles sobre aquele casal blasfemo”, e vinha tendo sonhos nos quais o chão se diluía e ficava sem ter onde pisar; afogava-se, esquecida de como nadar. Ou era o teto que derretia e o líquido quente precipitava e queimava sua pele, ou no caso de ser frio a fazia acordar tremendo, mesmo cheia de cobertas. Ou as paredes que pareciam feitas de algodão, inconsistentes, e ao atravessá-las dava de cara com Odin e Eluen sobre uma cama em um salão que se desmanchava, cheio de goteiras, numa enxurrada de terrores. Nus, ela com o pescoço molhado de suor. Um colo bem-feito, esculpido com perfeição; a aura verde que emanava dos dois ofuscava Samen e fazia arder seu corpo, que começava a respirar com tensão, por conta própria e por todos os poros, ora com dor, ora com prazer; suas coxas, seu ânus e sua vagina às vezes se confundiam com as de Eluen, recebendo com ampla felicidade a penetração de Odin, e às vezes desejava ter o membro viril do elfo para poder penetrá-la, com violência e deleite, imersa na paixão odiosa, entre queimar e ardor, raiva e fixação, mania e frieza, para ferir e despejar, machucar e acarinhar com força, gelando sem paralisar, não cedendo à frigidez, esquentando sem pestanejar, os olhos arregalados; não era fêmea nem macho, apenas queria. Uma faca quente e vermelha, saída da forja, entrando vagarosamente na carne...Ou um cipó grosso, borrachudo, que abria rasgando, sem derramar sangue. Ao ser colocada na água, a faca provocava a evaporação; enquanto o cipó podia entrar na boca de Eluen, e forçá-la até que estourasse, arrebentando o queixo, rasgando as bochechas e rompendo a fossa nasal. Alguns dos “sonhos” ocorriam na vigília, de olhos abertos, durante o dia.

Certa noite, estava enrolada junto à lareira, olhando para o fogo e acompanhando seu movimento, associando-o à sua respiração e vendo no brilho os dois inimigos se derretendo, as peles e os ossos cada vez mais moles. Um momento abstraído, os olhos escancarados; levou um susto quando sentiu alguém próximo: uma sombra. Tão escura que engoliu o fogo e a fez liberar um gemido.

— Me desculpe se a assustei, não era a minha intenção.– “Gilgash...”, Samen só pensou isso.

— Não foi nada...Está sem sono?

— Um pouco.– Ajoelhou-se ao lado dela; os dois estavam com os semblantes um tanto sérios. A elfa não estava a fim de conversar, mas se sentia obrigada a isso, afinal se achava na casa de Gilgash e ele era necessário para os seus planos; precisava agradá-lo. Bufou por dentro, porém por fora tinha que estar disponível.

— Cansado? Às vezes muito cansaço atrapalha no sono. Treinos exaustivos...

— Sabe que nem tenho me concentrado muito nos treinos? Não tenho conseguido.

— E por quê?– “Já não me bastam os meus problemas; agora tenho que cuidar de um cara desse tamanho! Eu que não vou dormir mais de cansaço...”

— Ando pensando demais...Pensando tanto que os pensamentos dos outros me fogem. Isso é bom num certo sentido, não interfiro na privacidade alheia como muitas vezes fiz no passado. Só que estou com um peso grande na consciência. E os meus amigos estão desconfiados.

— Desconfiados do quê?– Tentou dissimular a preocupação surgida.

— Que eu escondo alguma coisa. E por um lado é verdade: não me agrada essa nossa situação.

— Você quer que eu vá embora?

— Eles acham que estou envolvido com alguém...Apaixonado.– Ele não respondeu a pergunta e ela sentiu calor nas faces.– O Odin em especial...– O calor aumentou.– E eu não estou, certo?

— Se você diz assim...– Depois de um certo silêncio, no entanto, o lomai soltou:

— Não sei a quem quero enganar...

— A única pessoa que você não pode enganar é a si mesmo.– E ele não agüentou mais: lançou-se em seus lábios e os beijos tiveram início. Explodiu: estava sendo correspondido! O coração disparou e no início se sentiu um pouco afoito, com os dedos enroscados na euforia e a face em brasa; tão distante a última ocasião que beijara e recebera algum carinho!

— Calma, não vou fugir...– Ela se forçou a sorrir; no íntimo, não se sentia nada bem com aquele contato. Um certo carinho lhe escapava, mas a aparência dele continuava a não agradá-la; sentiu pena. Era a primeira vez que alguém a tocava daquela maneira, o primeiro beijo que recebia.

— Eu sei. É que é diferente...Estou tão nervoso, parece um sonho! Você mudou tanto... E ainda me aceitou. Não é mais justo que pague se isolando de todos, se escondendo...

— Depois falaremos disso.– Como sacerdotisa, nunca se dera ao direito de imaginar uma primeira vez; contudo, seus sonhos explicitavam que preferiria alguém como Odin.

— Pena a minha cama ser só pra uma pessoa. Eu não esperava conhecer ninguém tão cedo.

— Não me importo. Podemos fazer aqui mesmo.– Ela queria que ocorresse o mais rapidamente possível; e, apesar de todos os planos, sentiu um pouco de medo quando ele começou a se despir. Estava para quebrar seu voto, se igualar a Eluen. Tentou afastar esse pensamento de sua mente, afinal ela era diferente, não se entregava por luxúria e sim por uma finalidade maior. Salvar a reputação do verdadeiro Eljai. Porque, se Ele existia, não podia não estar ao lado dela, e saberia compreender. Além do medo, o nojo se acentuou ao ver o corpo do lomai despido: fez força para não fechar os olhos. Lembrou-se de quando pequena, das ocasiões nas quais seus pais deixavam aberta a porta do quarto e entrava sorrateiramente, sem se fazer notar, e observava-os. Gostava de vê-los se esfregando sem nada por cima ou em volta, até os lençóis jogados no chão, achava curioso; era selvagem, instintivo, e agradava-a o cheiro que se espalhava junto com a aura cor de fogo. Podia sentir impulsos elétricos agradáveis massageando as partes inferiores de seu pequeno corpo; só mais tarde, na Ordem, descobriria que a energia sexual não tocava exatamente seu corpo físico e sim produzia sensações neste através do centro espiritual relacionado a essa função.

Um dia, descobrira que seu pai, um elfo elegante e de olhos azuis altivos e longos cabelos loiros partidos ao meio e com tiras nas partes laterais, seu modelo de beleza perfeita na infância, e que carregaria consigo por toda a vida, por mais que ele espiritualmente a repugnasse, deixava a porta aberta de propósito. Tudo porque sabia que algum dia a pequena viria e sentia ampla satisfação em ser observado no ato, embora não por qualquer um: queria que sua filha aprendesse com ele. Excitava-se uma enormidade, seu corpo reluzia de suor no escuro e intensificava a velocidade dos movimentos quando percebia que o observavam. Sua esposa se tornava um mero detalhe, um acessório. Samen tinha cinco anos quando viu pela primeira vez, sem entender; continuou sem entender por muito tempo, porém passou a sentir uma atração profunda, e depois um prazer magnético. Aos oito anos, sua mãe desabada na cama, exausta, arfante de olhos fechados, viu seu pai se virar em sua direção já sorrindo, cheio de sarcasmo; e ele se levantou e foi andando nu em sua direção. A aura dele continuava vermelha; no entanto, havia um fundo negro que concentrava um sofrimento atroz; ficou apavorada e não conseguiu se mexer. A onda de prazer que percorria seu corpo se transformou numa dor tremenda, física e espiritual, como se sua carne fosse rasgada do meio das pernas ao centro do peito, passando pelo abdômen; o coração doía e vinha a angústia de estar presa, rendida e dominada. Contudo, sua mãe se moveu e retirou algo de baixo do travesseiro; ele pressentiu, mas não teve tempo de se esquivar, tendo a cabeça transpassada por um punhal.

— Você vai morrer, seu monstro! Fuja, filha! Fuja!– E Samen conseguiu sair da paralisia ao perceber que, apesar do sangue que escorria e da lâmina encravada, ele ainda se movia e agrediu sua mãe; seu pai não era um qualquer em se tratando de conhecimentos mágicos: tinha experiência em artes obscuras, ouvira-o várias vezes recitando orações que depois reconheceria como sendo dedicadas a Samar, deus do qual tinha pavor, e por isso buscara sempre ficar longe de Gondul.

Num primeiro impulso, pensou em ajudar. Seria inútil; em vez de uma, as duas perderiam a vida. Por isso desistiu e fugiu de casa no alto da noite, correndo para bem longe. Respirando um ar mais seco do que nunca, correu até não se agüentar, indo parar em uma área repleta de arbustos e ficando escondida por lá até amanhecer, encolhida. Tremendo de medo e de frio, pois só vestia uma espécie de camisola transparente para dormir, e passando por uma diarréia; que noite infernal. Nunca mais teve notícias dos pais. Ficara espiritualmente órfã; fisicamente também era bem provável, porque ele, apesar da resistência, não devia ter suportado o ferimento por um tempo muito maior devido ao descontrole emocional, impedido assim de canalizar suas energias psíquicas para minimizar a saída do sangue e reconstruir seu cérebro, só tendo tido segundos suficientes para matar sua mãe.

O presente era voltar ao passado. Ficara com medo e com frio, somados à revolta e ao ódio, que ainda não eram grandes quando criança, ensombrados pela ingenuidade e pelo pavor, novamente abandonada por todos, só tendo a si mesma, a quem nos momentos dessa espécie odiava e poderia se arrancar um olho, ao deixar o templo como deixara a casa dos pais, traída por seu belo pai como fora traída pelo belo deus Eljai; talvez devesse deixar de lado a beleza externa.

Foi no chão que se consumou, sem dor. E foi rápido, como ela queria. No final, sentiu um grande alívio, compartilhado por ele. Enrolaram-se juntos nas cobertas e, com uma ternura honesta, a cabeça de Samen derreou no peito do lomai. No fim, também fora aceita.

— Muito obrigada, Gilgash...– O agradecimento foi sincero; podia não gostar nem um pouco da aparência dele, porém no encontro de almas havia alguma harmonia.

— Não precisa agradecer.– Ele soltou um imenso bocejo.– Eu só gostaria que fosse diferente.

— O quê? – Ela imaginou do que se tratasse; só teve preguiça de estender a pergunta.

— Que eu pudesse apresentar você...Tê-la ao meu lado, de maneira efetiva.

— Mas se eles são bons como você diz, vão saber perdoar e me aceitar.

— Eu não sei, Samen. É difícil. Você mesma...Já perdoou os dois? Afinal, do seu ponto de vista, eles faziam coisas erradas.– O rosto da elfa se iluminou; estava atingindo todos os seus objetivos.

— Não me importo mais com o passado. Prefiro o presente, com você. Só não sei se eles são tão bons quanto você, que me acolheu de braços abertos e me deu um voto de confiança.

— Isso tudo é muito louco. Você era minha inimiga, me desprezava; e hoje fez amor comigo.

— Já disse que prefiro o presente. Não tenho saudades da vida casta de sacerdotisa. Se você quisesse, poderíamos ir pra bem longe.– “Preciso deixá-lo cada vez mais convencido...”, pensou.– Mas sei que não irá abandonar os seus amigos. Mesmo que não o compreendam.

— Infelizmente não posso simplesmente deixar de lado Odin, Eluen, Malin e os outros.

— Não disse que você teria que fazer isso. Mas que outra solução podemos encontrar?

— Eu te apresentar. Por mais difícil que seja no início, uma hora eles vão aceitar a realidade. Ainda mais vendo você mudada.

— Seria simples se você me deixasse aqui com você e continuasse a sua vida como está.

— Mas não acho isso justo! Não é justo você viver escondida. E também não posso ocultar a verdade pra sempre. Odin não é nenhum idiota. Ele pode descobrir e aí seria pior.

— Pior por quê? Ele não faria nada. E além disso, quem é ele pra se meter na sua vida? Se é seu amigo, saberá respeitar. Do que você tem medo, que ele me matasse?

— Ele não faria isso, não contra a minha vontade.

— Então deixe de ter receios, faça o que o seu coração mandar.

— Uma recomendação tão óbvia, banal, e ao mesmo tempo quase impossível de realizar.

— Não tenho mais medo de morrer. Meu único medo é que me afastem de você. Só temo a morte ao considerá-la como um meio para isso.

— E eu achava que você era covarde. Eu que sou um medroso!

— Se acusar não resolve nada, vamos pensar em como agir. Por enquanto, acho melhor ainda me manter escondida. Não precisa se incomodar; pode ser injusto, só que é necessário.

— Os gahinim podem chegar a qualquer momento. E se essa casa ficar ameaçada pela guerra? Vou tirar você daqui de qualquer jeito. Nunca te deixaria morrer.

— É bom saber.– Seu semblante exibiu um sarcasmo seguro.– Apesar que sei me defender.

— Claro. Já provei do seu poder na pele. Não é falta de confiança e sim zelo pelo que se gosta.– Abraçaram-se; o “casamento” dos dois estava consumado. “Me desculpa por ter que enganar você...Apesar de gostar do seu abraço. Como estou cansada hoje...Com vontade de me esvair. Mas não posso! Agora que a luz se acendeu é que preciso permanecer; é o princípio do apogeu. E o seu sofrimento, Gilgash, será proporcional ao apego que possui. Não tolero que algo fique sem uma conclusão...Tenho, sim, medo da morte; medo de morrer antes de concluir meus planos...”

— Melhor dormir agora; é tarde e você terá de treinar amanhã.– Ela precisava de repouso e ele, que não deixava de estar cansado, compreendeu e concordou. Depois de um último beijo se cobriram e não conversaram mais naquela noite; desabaram, cada um em seu aconchego interno distinto.











1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal