Marcello salvaggio



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Encontro03.05.2017
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“Você não destruiu o artefato. O Karma está descontrolado, dentro de você, emitindo faíscas agressivas...”, Seraph se expressou. “Ele está sendo destruído, desintegrado. Mas nem por isso deixará de existir. Está havendo uma transformação para que eu possa me compreender”, a voz mental de Zurvan estava mais clara, e ao mesmo tempo mais grave. “O que aconteceu, Zurvan?”

“Aquele que você conhecia como Zurvan agora não passa de uma parte de mim...Assim como a entidade que conhece como Kroni. Ele está em mim, e ainda não consigo controlá-lo. Entretanto, nem ele me controla. Eu sou Kronos...Um ser que tenta se fazer com mármore em meio à madeira do tempo”, sem replicar, Seraph observou bem a “nova” criatura e sentiu ali a energia de Kroni. “É perigoso demais. Saiam daqui!”, ordenou aos gárgulas, que não haviam escutado o diálogo, e enviou a cada um as informações que precisavam saber a respeito de Kronos.

Não tinha outra escolha a não ser sacrificar a vida de Zurvan, que fora tomado pelo Karma, esfarinhado em seu interior; como não existia mais um artefato coeso e identificável, muito menos uma identidade pessoal íntegra, tornara-se impossível removê-lo, ao menos pelos meios que conhecia; só em uma última invocação, talvez, Zurvan conseguisse reintegrá-lo e destruí-lo definitivamente, desintegrando cada migalha.

Assim que seus aliados começaram a fugir, o kumara irradiou uma bomba de luz que ao atingir o inimigo o deixou preso em globo luminoso transparente. “Você acha que isso pode me deter?”, Kronos retrocedeu no tempo até momentos antes de ser atingido, se esquivou e dispersou o ataque. Seraph, com sua ampla consciência, percebeu o deslocamento espaço-temporal. “A minha sorte é que sinto que ele não tem controle sobre todo o poder que possui. E talvez nunca venha a ter, pois está fragmentado”, refletiu Ishtar. O que mais perturbava aquele ser parido do conflito entre a luz e as trevas era o trovejar contínuo das cachoeiras do tempo, um estrondo ininterrupto que às vezes bloqueava a sua memória, que ora abrangia apenas o presente, ora o passado recente ou o futuro próximo, e ora abarcava éons inteiros e as lembranças de trilhões de seres. Mesmo assim, o senhor do tempo, ainda aprendendo sobre si mesmo, constituía a mais séria ameaça já enfrentada pelo anjo da estrela da manhã, que um dia já fora, em outro mundo, o maior dos demônios de seu inferno.



“Zurvan, por favor, me ouça! Sei que está aí; você não pode se permitir ser dominado. Retire a influência externa que há em você. E destrua as partículas do Karma, que estão espalhadas como o sal na água do mar, mas estão aí. Só você pode fazer isso...”, fez uma tentativa telepática; dentro de Kronos, havia dois espelhos, um voltado para o outro, um de vidro escuro, outro de vidro claro, e no meio um encoberto. “Não há influência externa. Você só testemunhou o nascimento de um novo deus. Ao invés de tentar bloquear o inevitável, aceite esta situação em que nos encontramos neste instante e agradeça ao Criador pela oportunidade de estar diante de mim. Desista de encontrar desculpas para o seu orgulho, Lúcifer...”, uma estrela vermelha saltou para a testa de Seraph. A imagem de um arlequim desabrochou em berne e roupagens multicoloridas, aos saltos e risos, lançando uma mensagem ao kumara momentaneamente catatônico: “O tempo passou. A humanidade daquele mundo o venceu. E quanto à nossa aposta? Lembra-se de mim?”, desejos antigos afloraram à memória de...Lúcifer. “Kama, o desejo? Eu o destruí. Você não pode existir mais dentro de mim”; e veio a resposta do estranho arlequim: “Kronos pode voltar no tempo e me trazer de volta à vida! Mas o que me entristece é retornar e vê-lo nessas condições; onde foi parar o poderoso arcanjo que conheci e que me aniquilou? Eu teria vergonha de ter sido eliminado por aquilo que você é hoje. Um derrotado...Um conformado que não almeja mais nada.”; “Cale-se! Você é uma miragem das minhas memórias. É isso o que você está reativando, Zurvan. Você não trouxe o verdadeiro Kama, não tem poder para isso, não ainda”; “Não fale com ele! Fale comigo! Eu e Mara iremos nos vingar de você...”, uma sombra furiosa surgia nas costas do arlequim. “Você odeia a humanidade, Lúcifer; desperte para o seu sentimento real: lembre-se de quem foi, antes de sua 'redenção', e no íntimo ainda é.”, Kronos tornou a se manifestar. “Não seja hipócrita de agir contra mim como se fosse um salvador. Você odeia todas as humanidades possíveis, em todos os planetas e universos em que surgiram seres humanos. Tudo porque se julga um ser perfeito e não se conforma com as imperfeições, com os defeitos. Mas o seu defeito é muito maior, é desejar demais, desejar que tudo seja perfeito...”, e Seraph ficou atormentado pela risada insistente de Kama, seu antigo companheiro, servo, rival e utilitário; mesmo quando os demônios do passado desapareceram, o kumara continuou com as mãos sobre a cabeça, tampando os ouvidos.

“Sua cabeça...Irá perdê-la agora.”, Kronos materializou uma foice circular. “Esta é a arma que nasceu comigo, Kala, a que ceifa existências. Você não merece continuar a viver...”, a lâmina em volta do seu corpo emitia um reluzir equivalente ao da lua; contudo, quando esteve prestes a decapitar o oponente, indefeso naquele instante, parou. “Você não pode brincar com a vida, você não é um deus!”, a voz era a mesma, mas a personalidade não pertencia a Kronos nem a Kroni, e sim a Zurvan. “Eu não aceito ordens...”, mesmo assim, não conseguiu mais se mover; a execução estava bloqueada. “Não me atrapalhe, humano...”; “Eu ainda sou você. Que é humano, pois eu sou humano; e se um homem ainda tem um cisco de controle sobre si mesmo, é porque não se trata de um deus o que tomou seu corpo”; “Não era o que você queria? Que eu viesse à tona, que eu existisse?”; “Talvez. Mas você não pode fazer o que quiser...”, enquanto Seraph começava a rejuntar os pedaços de sua consciência: destampou os ouvidos e começou a ouvir algo da discussão interna de Zurvan-Kronos, diante dele com o círculo cortante; seria a chance para reagir? Exultou: “Zurvan! Livre-se desse monstro. Você ainda pode destruir o Karma e com isso se livrar dele”; e assim atraiu outra vez a atenção das presenças naquele corpo de lomai: “Eu admito que talvez não queira; o poder dele me fascina. Mas também não posso permitir que faça o que bem entende...”, o verdadeiro mago replicou, para a desilusão do kumara. “Você não pode controlá-lo. Tem que destruí-lo...”; “Eu quero tentar controlar. Preciso de uma oportunidade. Isso pode me ajudar a mudar o universo, para o Bem...”; “Não caia nessa armadilha. Um dia também pensei assim, o que resultou em meu fracasso no que me propunha, pois o que podemos mudar é a nossa própria postura interna, não a dos outros nem o que está fora de nós. Mudando por dentro, há como incendiar o alheio a partir de uma centelha, e foi o que fizeram comigo os que um dia me “convenceram”. Mas não acredite que é capaz de corrigir o que Deus fez e deixou. Se impor uma tarefa do tipo é um peso que ninguém pode suportar; Kronos me dobrou ao me lembrar disso”; “Pretendo tentar. Mesmo que me bloqueie por algum tempo para que ele não tenha acesso a tudo. Talvez os planos de Deus tenham mudado, ao permitir a existência de alguém como eu.”, Zurvan, tentado pelo poder, insistiu; e Kroni tornou a manifestar sua voz em seguida: “O cosmo se move, se expande. Você não pode frear o movimento, por mais que queira; por mais que tema o surgimento de milhares. Milhares não...Trilhões de milhões de almas angustiadas e dispersas; e os pesadelos de cada uma delas gerarão mais espíritos atormentados. É o que Deus deseja: a expansão sem cessar. A menos que o seu seja o deus da nulidade...”, ao que Zurvan girou a foice para rasgar o ar; “Nós ainda iremos nos rever...”, disse ao kumara, enquanto um portal vertiginoso, um vórtice de água, fogo e espaço sideral, se abria à frente de ambos (ou dos quatro...Kronos naquele momento parecia adormecido).

Na tentativa de impedir a fuga, Lúcifer-Seraph exteriorizou sua energia, os olhos se incandescendo na totalidade e cordas de luz partindo das pontas de seus dedos, de seus cabelos e amarrando-se à foice Kala; tornou-se uma extensão luminosa em expansão de teia mais do que conservava uma forma humanóide. “Pare, Ishtar...”, a consciência de Zurvan começou a se debilitar e ele viu o kumara mais uma vez como sua “discípula”; a voz mental saiu fraquejando e rouca, com um fio de brilho que se perdia dentro do espelho obscurecido e gerou uma rachadura. O portal começou a se fechar, enquanto um turbilhão de chamas douradas passou a queimar o templo, o calor a derrubar Kronos e a claridade a ofuscá-lo à medida que este tornava a recobrar o domínio sobre o corpo; Seraph se abriu para receber os relâmpagos do céu e os raios queimaram até os gárgulas que ainda insistiam em ficar por perto, destroçando com uma chuva trovejante tudo o que existia em um raio de alguns quilômetros; não havia outra maneira. Precisava tentar queimar a poeira do Karma e para isso teria que destruir o corpo de Zurvan.

Findo o ataque, em volta restava uma cratera desolada e o kumara permanecia em seu centro junto com Kronos abatido, ofegando no chão, e uma faísca de portal em suas costas. “Ele ainda está vivo! Como pode?”, e foi então que viu, em volta do inimigo, um poderoso campo de força emanado pela foice em sua cintura, soltando lampejos. “Eu já sei como você faz. Conheço os seus truques...”, e, apavorado, Seraph testemunhou o senhor do tempo levantar a mão direita para o alto e receber do céu enegrecido pelas nuvens uma carga de relâmpagos dourados, que fizeram com que recobrasse as forças e se reerguesse, além das cordas e fios de luz agora partirem dele para amarrar o anjo da estrela da manhã. “Ele pode copiar todo tipo de habilidade que observa ao longo do tempo de sua existência!”, notou a respeito do oponente. “Me sinto renovado. De fato o amanhecer é refrescante...”, e o portal tornou a se abrir.

Agredido em todas as direções, Seraph ainda assim esvaziou sua mente e concentrou todo seu poder, o que lhe permitiu voar e se livrar das amarras de Kronos; no ar formou um meteoro incandescente e disparou, sendo o objeto detido antes de cair e depois feito em pedaços pela psicocinese do senhor do tempo, que copiou a aura de Seraph e começou a expandi-la sem nenhum controle, o que apavorou o kumara, pois daquela maneira destruiria tudo o que havia de vivo na região, sem poupar sequer Babel e todos os seus habitantes.

De Ishtar se projetou a mais poderosa aura defensiva que poderia ser sustentada e no encontro de ambas se deu um impasse; a energia detida mas em atrito de Kronos começou a desintegrar o que existia até ao ponto que se expandira, menos o indivíduo que a emanava. O portal cresceu e Kronos, concentrado, pôde parar o tempo naquele instante. “Consegui”, olhou com admiração para as próprias mãos e em volta para o ambiente paralisado; ele e o vórtice temporal representavam as únicas opções de movimento. Caminhou pacato sobre o solo depredado e olhou com uma expressão de desdém para Seraph, preso no alto. “É melhor que me vá. O tempo pode voltar a se dinamizar de repente e ficarei em perigo. Ainda não tenho controle e não sei nem ao menos para onde irei. Mas a minha convicção é que com o tempo adquirirei pleno domínio sobre as minhas faculdades e todo o universo estará ao meu alcance. Sou o mais valioso instrumento de Deus...”, deu as costas aos fenômenos e enfim entrou no portal. Quando este se fechou e o presente voltou a fluir, Seraph não compreendeu por que Kronos desaparecera abruptamente e se desconcentrou, perdendo o controle sobre aquela imensa energia e sendo derretido ao escancarar de sua boca assim como tudo o que havia de vivo na região. O kumara demoraria alguns séculos para recobrar sua consciência, adormecido por esse longo período, outros tantos para formar um novo corpo físico, e a cidade de Babel, atropelada pela queda de um sol que seus habitantes vislumbraram por poucos segundos, se tornaria uma lenda perdida, cerrada pelas chaves do tempo.

Silêncio...



FIM DO INTERLÚDIO

Elfa Guerreira – Por Giulianna Seabra




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