Marcello salvaggio



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Encontro03.05.2017
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Madeira e Mármore

O Karma tem se comportado de maneira estranha...”, em um salão absolutamente branco de grossas colunas caneladas, iluminado por tochas e lâmpadas de chamas alvas, sentado de pernas cruzadas sobre um estofo, os dedos indicadores ainda tocando os polegares e as pontas dos outros unidas entre si, Zurvan encerrara sua meditação e convocara sua discípula Ishtar. Ao fundo, o artefato reluzia, preso em uma cúpula transparente sobre um altar liso; o antigo sacerdote-mestre de Babel envelhecera, seus cabelos rareavam, sua pele perdera cor, mas continuava com uma postura ereta e um semblante firme mesmo sendo o mais velho lomai na Terra.



“Tenho me dado conta, mestre...”, vestindo uma longa túnica branca inteiriça de mangas compridas como a de seu mentor, porém sem a serpente quase imperceptível que despontava nas costas dele, um relevo discretíssimo, era um mistério para ele e dizia ser um mistério para si mesma: loira de longos cabelos lisos, a pele leitosa, os olhos azuis e o corpo esbelto chegando a um e oitenta de estatura, especulava-se que fosse uma mutação ocorrida em alguma tribo de elfos cinzentos que proporcionara o surgimento de uma criatura semelhante às antigas elfas brancas. Encontrara-a inconsciente no bosque que rodeava seu pequeno templo e, ao sentir que dela irradiavam uma pureza e um brilho coronário sem fim, decidira socorrê-la e, por nunca ter visto uma mulher parecida, estudá-la. Fora difícil abrir seus olhos e fazer com que recuperasse seus movimentos: a moça parecia não se lembrar nem de como falar; perdera todas as suas lembranças, era como um recém-nascido, e ao mesmo tempo irradiava uma presença muito mais limpa do que qualquer bebê, como que sem reminiscências áuricas e mentais de outras vidas, como se fosse sua primeira encarnação na Terra ou a descida de um espírito celestial ainda não consciente de sua missão; Zurvan estudara todas as hipóteses e, após instruí-la e fazer com que aos poucos recobrasse ao menos sua capacidade motora e recordasse seu nome, decidira torná-la sua discípula.

Nisso vinte anos se passaram, mas ela se tornava mais jovem a cada dia transcorrido...“Parece que o artefato está materializando cada vez mais formas de pensamento e seres dos planos inferiores. Temos que ser ainda mais disciplinados em nossas mentes e evitar qualquer efusão emocional...”; “O pior é que Bliss, o djin, foi capturado e está sendo forçado por três imprudentes a guiá-los até aqui. Eles não têm a mínima noção do que os espera...”; “Pude senti-los. São indivíduos que trabalham com magia negativa; serão inevitavelmente agredidos por suas criações e por seres monstruosos quando ficarem mais próximos do artefato.”; “O Karma não segue nenhuma forma de moral...Ele simplesmente reage. Não vou salvar esses imbecis. Eles escolheram seu próprio destino. Porém não posso permitir que a situação saia do controle; eu criei o monstro, junto com Nemrot é claro, mas desde que ele se foi a responsabilidade é minha. Cheguei a uma conclusão a respeito do que fazer...”, de fato, vinham se materializando diariamente seres malignos e benignos na morada de Zurvan e nas proximidades; uma fada com asas de cristal passou em frente aos olhos do mago, desaparecendo na seqüência. “Qual a decisão?”; “Eu estou velho. De qualquer maneira não iria durar muito. Vou tentar destruir o Karma absorvendo-o dentro de mim. Nós dois seremos aniquilados”; “Mestre!”; “Você já sabe se conduzir sozinha, Ishtar...”; “Mas e se ocorrer ao senhor algo semelhante ao que se deu com Nemrot? O senhor me contou que vocês eram mais do que amigos, que eram como irmãos. E se for corrompido?”; “Então você estará preparada para me deter”; “Não estou”; “É preciso tentar algo...”, Zurvan estava decidido, ao passo que Raomash, Rusgal e Hadapa, com o djin preso, andavam pela floresta, que ficava cada vez mais escura à medida que o elemental dizia que estavam se aproximando da morada do criador do Karma. “Quando vamos chegar?”, o sacerdote-mestre pressionou; nenhuma resposta. “Quando vamos chegar?”, a pergunta partiu num tom autoritário, mas Bliss, apesar de guiá-lo pela mente, parecia estar adoecendo, e o próprio mago começou a sentir uma forte dor de cabeça. “Há algo de errado aqui...”, sério, Rusgal comentou. Um pouco atrás, como guarda-costas, vinham dois dentes-de-dragão e três golens. De repente, um dos gigantes de pedra parou e emitiu um tremendo urro, que sacudiu as árvores e espantou os pássaros. “O que foi isso?”, Hadapa inquiriu assustada, e quando os três se voltaram para trás viram seus protetores lutando entre si. “Parem com isso! Vocês não podem ter vontade própria!”, Raomash projetou sua mente e sua aura; mas nada surtiu efeito, para sua perplexidade. Em pouco tempo, os dentes-de-dragão destruíram os golens e se dirigiram em fúria contra os magos. “Bestas sem discernimento!”, tanto Rusgal como Raomash manifestaram esferas e colunas de fogo em seus braços, incendiando seus ex-subordinados; os monstros gritaram e se contorceram de dor, sem conformação, e brandiram seus machados toscos, derretidos próximos do golpe fatal. Com o ar, apesar de apagar o fogo, a cinzenta evocou um tufão que foi arrancando a pele e separando os ossos das criaturas. “Vocês não sabem, esse lugar é muito perigoso...”, o djin enviou uma mensagem ofegante, antes de perder a consciência.

“Quando fará isso?”, indagava Ishtar, em paralelo; o sábio ficara de pé.



“Hoje mesmo. Pensei muito durante todos estes anos. Basta de adiamentos! A chegada desses invasores me abriu os olhos. Se gente como eles chegar a se apoderar do Karma, afinal algum dia não estarei mais aqui e, apesar de confiar em você, você também não estará, será a vez de um segundo Nemrot e talvez não haja ninguém para detê-lo como houve com o meu velho amigo. Ishtar, minha cara, até hoje eu só não fiz o que tinha que fazer por um motivo muito simples; você imagina qual seja?”; “Não, mestre...”; “Medo da morte. Eu não queria morrer. Mas agora estou velho e não tenho mais nada a perder...”; “É certo que a sua própria morte será a conseqüência principal da destruição do Karma?”; “Pretendo fazer tudo propositadamente. Vou tentar me destruir com o Karma dentro de mim. Como eu o criei, acredito que seja a única maneira. Preciso me sacrificar. Morreremos os dois...”; “Mas e se não for preciso?”; “Acredito que seja inevitável. Prefiro não arriscar.”; “E se apenas o senhor for destruído?”; “Isso já não está mais ao meu alcance. Mas tentarei; e ao menos assim vou aliviar um pouco a minha culpa. Tenho fraquezas; pela monstruosidade que produzi, preciso fazer algo para consertar isso. Ou estou certo que as potências infernais terão a minha alma por milênios.”; “Não diga isso, mestre... O senhor não merece.”; “Não sou melhor do que Nemrot. Posso ser luminoso, enquanto ele era obscuro, mas não somos diferentes moralmente; ele só se deixou corromper, como pode acontecer comigo. A luz também pode ser distorcida. Ou ser absorvida pelo abismo.”; “O Inferno não é um lugar para o senhor. Os barões e príncipes daquele buraco o temem, pois sabem que um simples toque seu iria transmutar todas as trevas.”; “E eu temo ser transmutado em trevas...”, enquanto isso, uma criatura de pele e ossos vermelhos à mostra, pingando sangue de todos os poros, o rosto deformado pelo excesso de dentes, semelhantes a facas e dispostos em três fileiras, a língua serpenteante e pegajosa, o nariz afundado, os olhos amarelos gelatinosos, os chifres curvos para cima, com mais de cinco metros de altura e imensas garras, postava-se à frente de Rusgal, Raomash e Hadapa, combatida de todas as maneiras possíveis, porém só as árvores e a terra chamuscada acabavam afetadas. “Nada fere essa coisa!”, a elfa cinza não ocultava seu desespero. “Parece que Zurvan é mais perigoso do que esperávamos; será que é ele que está criando isso?”, inquiriu, enquanto os dois lomais se mantinham em completo silêncio mental durante o confronto: o fogo era apagado, os ventos absorvidos, a terra imobilizada, a água desviada. Nenhum elemento danificava o monstro. “Suas ações condenaram vocês. Serão meus para sempre...”, o demônio liberou uma gargalhada abominável, enquanto moscas ígneas se formavam à sua volta e partiram para dentro de cada um dos três, explodindo-os num instante de dentro para fora enquanto suas almas entravam ululantes no dedo central da monstruosa mão de seis dedos. “É Beelzebub! Ele está materializado!”, Zurvan reconheceu a energia. “E acabou de pegar para si os espíritos dos três imprudentes. Logo estará vindo para cá para levar o meu...”, prosseguiu, os velhos ossos trêmulos por debaixo da pele. “Como desfazer a materialização desse monstro?”, foi a pergunta de Ishtar. “Vou destruir o Karma. Agora...”, e depois pensou consigo: “Eu ainda hesito... Tremo de medo da morte. Mas se não fizer nada, morrerei em vão, nas mãos de Beelzebub, e talvez ele próprio consiga se apoderar do artefato, o que seria um completo desastre. Até hoje, contive as materializações do Karma nesta região. Mas minha barreira não pode conter por muito tempo um dos senhores do inferno. Chegou a hora...”, Zurvan fechou os olhos e, trêmulo, lentamente, foi erguendo o braço direito. A mão fechada, aos poucos se abrindo; Ishtar observava...

Uma cúpula azul transparente, visível apenas para clarividentes excepcionais, envolvia a floresta na qual estava encravado aquele templo arredondado para o qual Beelzebub se dirigia, mais satisfeito do que nunca, a imaginar como logo todos os seus rivais se curvariam aos seus pés, e os humanos passariam a ser o que sempre deveriam ter sido, escravos, se não quisessem ser completamente eliminados. Bahamut, Baal, Mammon...Todos passariam a ser seus subordinados, e se lançaria ao espaço para dominar outros planetas, venerado como uma manifestação encarnada da Fonte de todo o Cosmo. “Minhas ações me condenam, meus pensamentos distorcem o universo...”, refletiu Zurvan. O artefato levitava em frente ao seu peito; Ishtar parecia impassível e, após emitir uma luminescência vermelha, com raios que se espalharam circularmente pelo ambiente e deram a impressão de fazer as paredes arderem, a pedra desapareceu, ao menos da vista material, embora pudesse ser vista por clarividência dentro do corpo do antigo sacerdote-mestre, rebrilhando em seu centro, e encarnada por este, que começou a sentir a diluição de sua matéria e de sua percepção, com a discípula e o cenário ficando cada vez mais evanescentes. “Adeus, minha cara...”, conseguiu passar a mão, que abaixou, pela pele sempre macia do rosto sempre jovem de sua estranha pupila, sem conseguir identificar nenhuma expressão. Aparecia-lhe sem olhos, nariz ou boca, somente os cabelos atrás. “Não há mais sentido em me ocultar...”, ela abriu bem os olhos quando seu “mestre” despencou no piso. Uma luz branca ofuscante partiu de si e tomou conta do templo, pela mesma cor deste praticamente fundindo aquela construção a tudo, e Beelzebub, que estava entrando, se sentiu repelido de forma brusca e teve que retroceder. “Essa não é uma energia humana!”, colocou as mãos terríveis a cobrir o rosto disforme, suas moscas de fogo desapareceram e com a gradual extinção da claridade quem surgiu ali, no lugar da bela mulher loira, foi um indivíduo longilíneo de rosto delicado, longos cabelos rutilantes que pipocavam faíscas de luz, seguro em sua serenidade, olhos de mar profundo, pouco mais de um e oitenta de estatura, nem macho nem fêmea, em uma armadura prateada e dourada com a insígnia de uma estrela alva e em sua capa o desenho de uma fênix branca; duas asas metálicas de ouro e prata se abriram naquele instante. “Maldição! Um arcanjo...”, lamentou-se o demônio. “Seraph Ishtar a seu dispor, criatura vil...”, disse a Presença. “O comandante Seraph Ishtar dos kumaras! O que está fazendo aqui?”; “Vim ajudar Zurvan a se libertar de seu peso. E, conseqüentemente, impedir que um desastre maior atinja o mundo”; “Se você é mesmo Seraph Ishtar, deveria ter poder suficiente para destruir o Karma”; “Teoricamente tenho, mas não posso...”; “E por que não?”; “Este é um artefato estranho. Tentei de todas as maneiras destruí-lo, desde que cheguei. Tentei todos os modos, dos mais sutis aos mais grosseiros, estes últimos quando Zurvan se ausentava; nunca consegui fazer o menor risco.”; “Então você não tem poder suficiente...”, o demônio caçoou. “Não é uma questão de poder; vocês sempre pensam apenas nisso. O problema é que a ação inicial foi de Zurvan; ele precisa concluir o que começou. Não posso interferir nisso, a Fonte não me permitiu”; “Você não é o comandante Seraph. Eu vou pegar o Karma desse humano, seu charlatão. Ou charlatã...”; “Incentivei Zurvan durante muito tempo a tomar a atitude que tomou hoje. Agindo em seu subconsciente. Pois sei que ele não morrerá...A alma é uma centelha divina, sempre superior a qualquer artefato mágico.”; “Saia da minha frente.”, Beelzebub avançou, circundado novamente por seus insetos voadores em brasa. “Vou ajudar Zurvan a exercer seu livre arbítrio e a se libertar de suas próprias cascas. Você não pode me impedir”, Seraph apontou a palma da mão direita na direção daquele senhor do inferno, que ia rir, mas foi empurrado e sentiu uma dor atroz ao ser percorrido por uma ventania repleta de partículas luminosas. “Você não pode sequer se aproximar de mim, Beelzebub”, o kumara deixou bem claro; e, de fato, o inimigo sentia como se fosse derreter só ao chegar um pouco mais perto. “Não estou contra você, nem nunca estive. Você que faz questão disso”, a presença radiante continuou a se expressar, enquanto seu adversário não podia mais sequer pensar e caiu de joelhos, grunhindo e gemendo de dor, com seu imenso corpanzil. “Não posso tirar de você as almas daqueles três, que escolheram esse destino. Mas a Fonte não permite mais a sua presença neste plano. Parta agora...”, depois de um último longo ganido, Beelzebub fundiu em uma poça de carne líquida e sangue, sobrevoada por suas moscas, logo absorvidas pela Luz.

“Seraph, estou aqui. Só não me aproximei antes por causa daquela criatura”, mais alguém espreitava e se manifestou. “Fez bem, Uron. Ainda não é o momento de você enfrentar semelhante tipo de monstro. Precisa de mais alguns anos de treinamento”, e o gárgula entrou. “Vim para deter Raomash, mas as coisas aconteceram mais rapidamente do que o esperado”, comentou; logo atrás vinha seu grupo: mais dois semi-anjos, um macho e uma fêmea, seis guardiões e dez sentinelas. “Aconteceram quando tinham que acontecer. Zurvan agora está com o Karma dentro dele.”; “Como podemos ajudar?”; “Se quiserem ficar, coloquem toda a atenção em conjurar a energia da Mãe-Terra e do Pai Celestial. Teremos bastante trabalho e só quem estiver realmente disposto conseguirá ajudar...”


“Escuridão completa. Parece não haver nada, mas ainda me resta a minha própria consciência. O que poderia desejar além disso? Por sinal, meus desejos fraquejam. Não há sentido em alcançar a partir do momento que já se está, mesmo que não se saiba ao certo onde se está; não é um lugar, trata-se mais de uma margem, um limiar com um abismo, e mais além reina o insondável. Talvez eu não tenha coragem de atravessar; terror de ser vítima da cólera divina; de quem é no entanto realmente essa ira? E quem é a verdadeira vítima? Na verdade o Criador é quem mais se martiriza e sofre com a imperfeição de sua criatura, até chegar o instante em que não há mais nada a ser feito, em que o ideal é recomeçar do zero. A maior manifestação da face terrível de Deus é a Sua ausência, é a nossa ausência, quando faltamos e não há o que ser; o rosto se torna incógnito, a pelugem da barba cai, a pele desaparece, o vento toma o lugar da secura e abre espaço para o vazio, onde afundamos.

Sou um Ser no tempo, que busca no mármore cósmico a estrutura para compreender a madeira frágil que persiste em seu interior. Que templos de madeira podem resistir por muito tempo? O vento e os terremotos os derrubam, a água os arrasta, o fogo os queima e os reduz a cinzas; quando persistimos nos erros, chega o momento de sermos apagados. A natureza perde a paciência, e primeiro as máscaras, depois as cascas e por fim os ossos são incinerados para que só reste a partícula elementar, e voltamos a ser apenas uma faísca, que aos poucos torna a se revestir em sua missão de recobrar sua consciência: grão de poeira, uma pedra, uma ameba, uma grama, uma pequena árvore, outra enorme, uma formiga, um peixe no oceano, uma rã na lagoa, uma serpente deslizando entre as folhagens, um pequeno roedor, um símio passando entre os galhos, um ser humano: e ainda estamos distantes do ápice. Temos somente uma pequena noção do caminho a ser percorrido, e mesmo assim nos perdemos; como se ficássemos presos nos corredores concêntricos de um labirinto circular, sem nunca chegar ao núcleo, que vemos isolado por paredes impenetráveis. Lamento pelos que amei e que depositaram sua confiança em mim, em cada vida que tive, às vezes em reencontros, outras em encontros inéditos, de qualquer modo inesquecíveis e únicos, pois a vida não se repete, embora a história sim, pois a primeira pertence aos indivíduos e a segunda às massas, por mais que estas sejam constituídas de indivíduos pensantes; a diferença maior está entre pensar e ser consciente de pensar, algo fundamental, a única coisa que diferencia os seres despertos dos adormecidos. Estive próximo do Despertar; minha maior tristeza é ter consciência disso. Lamento por mim mesmo, pela decepção que deixei em meu ser, tanto que não vou me rebelar ao apagamento completo, ao desaparecimento na ofuscância que não posso enxergar e me aparece como escuridão, mas não tenho como deixar de sentir a diminuição e o pavor, ou melhor, o pânico: o pânico de voltar a ser tudo, de deixar de ser quem sou, de me tornar nada. Entre o tudo e o nada existe uma diferença sutil que não compreendo. Nunca fui um homem de sutilezas. Tanto que o Karma se tornou esse artefato grosseiro, um espelho de minha frustração com a madeira, de minha vontade de trabalhar com o mármore. Mas não sou um bom escultor e como entalhador só consegui produzir monstros toscos e casas frágeis, nenhum templo, no máximo estátuas aterrorizantes, que me encantam, confesso, e me assustam. O preço da destruição do Karma é a minha própria, meu aniquilamento para o não-aniquilamento do mundo; por mais que eu possa me amar, o que atualmente é uma mentira, o mundo é mais importante, ainda efêmero, porém não tanto quanto eu. Dizer que estou acabado seria sutil demais. Serei destruído, e não poderei nem mesmo reencontrar meu irmão Nemrot...Irmão de alma e essência, que já deve estar reduzido a um ponto, aguardando uma inócua manifestação; pobre tolo. Não foi a Torre que caiu: foi você; fomos nós. Desde aquele dia eu já estava condenado; me limitei a adiar, sem vontade, envenenado lentamente; e o administrador do veneno fui eu mesmo. Ishtar ao menos deu consolo a este pobre velho decrépito, uma decrepitude que não se limita à carne, uma decadência arquetípica, que desfaz qualquer rastro; ela me mostrou os últimos caminhos, enquanto lhe ensinei fundamentalmente o que não ser e o que não fazer. Quantos de nós acham que ser um bom professor é passar o que fazer? Em algumas ocasiões se faz necessário ensinar a ciência do não. E nego até o ponto de ser negado; se a Fonte me diz não, não há nada que eu possa fazer. Rendo-me; estou entregue...E não caio no suicídio, que seria banal, um mero capricho de uma alma mimada; derreto-me na morte mais atroz que possa existir: sou eu; não sou. O que desejo está morto; pelo sepultamento não aguardo. Por um instante vejo as estrelas: mosquinhas brilhantes em uma teia de aranha. Tão insignificante e ao mesmo tempo tão perigoso: desce à espreita, marcado pelo desespero; verticaliza para descer, no ângulo no qual a aurora se acumula e se esconde; tenta se esconder; foge, tenta se dispersar, sem sucesso; apaga-se no olho da morte, no qual a visão mais clara é a de uma cachoeira ferida, que se machuca ao despencar; fere-se pelo fogo, geme em brasa e agonia. Vejo em uma cerimônia religiosa, cheia de suntuosidade, a devoção dos sacerdotes, se aparente ou verdadeira neste instante não posso distinguir. A falsidade, contudo, consigo perceber emanando dos seguidores; há quem queira simplesmente descarregar, e há os que se escondem: esses são os mais fáceis de serem encontrados. Por fim os que fazem uma prece para evitar a perdição: querem se esquivar do que os persegue com insistência e clareza; evoca-se, conjura-se e medita-se para que o nada não venha, para que ao encarar o Criador seu rosto não se torne cada vez esmaecido e não sobre um buraco vazio, para o qual não há o que entregar, só precipitar. E abruptamente alguém entra no templo, na verdade alguns, e armados de espadas o depredam, procurando por um “Assassino!”, as acusações se sucedem e não é poupado nem quem estava lá para meramente comungar, os que meditavam sobre os tapetes bem-trabalhados, os que laboravam em uma base; uma criança que ia ser iniciada é arrancada do colo de sua mãe, puxada pelo pezinho, rodopiada no ar e lançada contra uma parede; não é preciso nem dizer o que mais ocorre, e o sangue que é vida se torna um espetáculo cruento: a cabeça se abre e aparece o cérebro exposto. No templo profanado os sacerdotes são degolados, a Mãe-Natureza aparece ao fundo para chorar, os galhos da árvore do lado de fora se perdem ao longe, dedos que se esticam rumo aos céus e, ressequidos, se quebram; a madeira não é um material seguro. Os números são encravados sem que haja lógica, as seqüências se perdem na desarmonia mais acelerada. No topo da pirâmide, a Sombra desce para colher quem se encontra sozinho no interior, à luz de uma tocha enfraquecida, uma luz que agora para mim se igualaria a uma estrela viva. Me apago e desço, em decadência, no que é menos do que um sono profundo; não há paz nem prazer: vem uma inquietude sem nenhuma justificativa, uma ansiedade sem razão...É tudo. A extinção de um indivíduo que fugiu de sua espécie, marcado pela rebeldia estéril, correndo para controlar as pernas, numa aceleração que termina tão forte que parte os joelhos; não há apoios nem esperança, a maior certeza é que Anu me encara com tanta severidade que Sua cabeça inteira se torna uma testa franzida, e depois enormes sobrancelhas unidas, cobrindo o céu. Caminho sem patas, e não me arrasto, animal que irei me tornar, porém para tanto terei que aguardar milhões de anos; ou talvez esteja sendo otimista demais; milhões de eras sem ter o direito de me afirmar. Dói pensar...Se eu ainda tivesse uma cabeça, ela teria se partido; mas ela partiu...Parte que foi; sou engolido, tenho que ser devorado, ainda que não veja feras, nem dentes; a pior besta feroz sairá da minha própria caixa, salivante, uivando de fome, asas de borboleta, chifres de búfalo, olhos de mosca, dentes de sabre na frente e de crocodilo em dez fileiras, voz de lobo, rugido de leão, dupla cauda de réptil, sibilar de serpente, a pele peluda porém envenenada por baixo, cheiro de terra e hálito de enxofre, segundas asas de morcego, quatro patas porém podendo transformá-las em mãos, má e cruel, mais do que instintiva, agarrando-me pelo pescoço e, sem terminar de me sufocar, com minha saliva que me escapa, cravando seus dentes nas veias mais delicadas, deixando escapar a vida enquanto perco o ar e me entrego às vertigens. Mole, perco todo o ferro; a depressão prepara minha inexistência, meu mergulho final, minha descida que encerrará todas as revelações. Sou terra fria e sou morte, tenho que desaparecer. Água quente me borbulha, sou a bolha que estoura; estou no ar e o vento me leva. O fogo apaga as minhas cinzas. O vazio desforja; não me machuco, pois em breve não irei mais existir. Quantas vezes terei que dizer não? Digo para fugir, mas não posso, minhas ações determinaram o que deve ser feito, me tornei meu próprio Anunnaki, eu que nunca acreditei na justiça humana faço da minha própria justiça a divina, temendo pela pior retaliação, e nego; “pobre Zurvan...”, não tenham pena de mim; meu ciclo está encerrado, as estrelas um dia se tornam poeira, e esse será o meu destino. A aranha irá me devorar; minha teia se desfez, minhas patas caíram pelo espaço; cosmo, perfume e amor; palavra. Não me resta mais nada a dizer e continuo dizendo por compulsão, talvez porque enquanto falo não posso desaparecer, e por isso não cesso, mas vou desaparecer. Choro e lágrimas não são do meu feitio; derreto e me apago, decerto não terei pena. Lamento por você, que sempre me apoiou. Não que eu saiba quem você é, mas ainda assim agradeço, incógnito...”, Zurvan esmorecia, suas pernas iam virando poeira, quando uma luz arroxeada incandescente, quase branca, a princípio um pontinho, em poucos segundos raiando pelas trevas, surgiu para fazer com que sua percepção de si mesmo fosse ofuscada. Ao reabrir os olhos, se viu em um cenário branco, que no entanto não tinha nenhuma relação com seu templo na Terra. Uma esfera azul entre duas grandes mãos de mármore, pouco menores que seu corpo, refletiam-no rejuvenescido: o ex-sacerdote se viu aos vinte anos, e, por mais que num primeiro momento reputasse aquela visão a desejos inconscientes e não acreditasse que se tratava da realidade, percebeu que estava de pé, voltando a sentir seus membros, e uma força surpreendente tornava a percorrer seu Ser; sangue, ossos e músculos exibiam uma energia renovada. Sem saber o que se perguntar, por onde começar seu raciocínio, notou algo caindo atrás de seus calcanhares; naquele lugar sem chão e sem gravidade, olhou para trás e viu, abaixo, um dado totalmente preto; na seqüência, este, que parecia um ímã, puxou para si, com sua aura magnética, outros dois: um só branco, pouco maior, mais maciço, e outro branco com um quadradinho preto, que chegou primeiro. “Há alguém brincando aqui?”, e veio uma resposta em uma voz desconhecida: “Desde que cheguei aqui, e me parece que isso ocorreu há muito tempo, se bem que neste “lugar” o tempo não existe, venho tentando compreender a lógica desses dados. Eles se movem e brincam sem que ninguém, aparentemente, os toque; no entanto me nego a acreditar que se mexam por acaso...Prefiro pensar que ainda não pude compreender suas leis”, materializou-se, sentado de pernas cruzadas diante dos dados, um velhinho de blusa amarela e calça marrom, descalço, a aparência simpática, bigode branco espesso, cabeleira alta e bagunçada da mesma cor e um olhar que, se não era de um louco, só podia pertencer a um gênio, Zurvan de imediato se deu conta. “Quem é você?”, inquiriu o lomai. “Pode me chamar de Albert”; “Que lugar é esse?”; “Disseram-me uma vez que estamos em uma dimensão chamada Hronos, o fim e o início dos tempos; eu prefiro denominá-la como “dimensão zero”, já que antecede o tempo e o espaço, está além deles e os compreende.”; “Como veio parar aqui?”; “Talvez você deva pensar antes em como VOCÊ veio parar aqui. Mas como é costume estender aos outros as dúvidas pessoais, posso lhe dizer que fui um homem que acreditava que uma só existência já seria demais, que não haveria a necessidade de outras, afinal a consciência já sofre e vivencia o suficiente, ou ao menos eu assim acreditava, em uma única vida. Na minha visão, nossa continuidade estaria na natureza, nossos átomos voltariam a se integrar ao universo com a morte corporal. E isso não está errado; é simplesmente incompleto. Mas de qualquer maneira recebi um prêmio pelos meus sonhos e estudos: Deus, a Natureza, me deu a oportunidade de contemplar o ponto, se é que podemos assim chamá-lo, a linguagem é sempre redundante, onde surge o tempo, a nascente do rio do Cosmo”; “E o que se faz aqui? Passa-se a eternidade em observação dela mesma?”; “Tenho andado muito por aqui. E infelizmente tudo o que encontro para construir uma casa é madeira; nada de mármore para um templo mais belo e resistente”, ficou de pé e fez surgir à frente de ambos uma habitação de madeira, dando as costas para Zurvan e entrando. “Será então que o Karma, ao invés de me aniquilar, me enviou para um mundo onde nada existe a não ser em potencial? E se eu fiz o pior, e se o universo foi destruído e só restou isso? Como se a Criação inteira fosse desfeita em minhas experiências estúpidas...E não posso recriar nada porque não possuo o dom de criar, sou uma alma reles! Talvez seja um castigo divino me manter aqui para sempre enquanto a Fonte trata de recuperar o mundo, reconstruindo o que destruí. O que mais me intriga é a presença aqui desse homem, diferente de todos que já vi”, deixou os dados para trás e entrou na casinha; surpresa ao passar para o lado de “dentro”, que era exatamente igual a “fora”: branco e mais branco, e escutou: “Imaginação, amigo. Você precisa de imaginação se quiser dar o próximo passo...”, Albert lhe mostrou a língua e disparou, apesar da aparência idosa, em uma velocidade sobre-humana; o mago não teve outra escolha, a não ser segui-lo, e chegaram a um limite onde teve a impressão de estar entrando na água, conquanto fosse um líquido invisível. “Abra os olhos! Deixe de complicações. Estamos no oceano para o qual todos os rios fluem...”, puxado, passou a temer o afogamento, perdeu todo o ar, e com os olhos fechados se debatia em um mar que só podia ser invisível. Um mar calmo no entanto, e ao ouvir outra vez “abra os olhos...” se lembrou que escutara o conselho anteriormente. “Não posso me afogar! Esta existência não é corpórea...”, e escancarou-os de súbito, com toda a coragem de seu ser, para se ver suspenso em um oceano onde se derramavam milhares, ou melhor mais que milhões, trilhões de bilhões, de rios, cachoeiras e córregos, corredeiras de universos, com rodamoinhos, turbilhões e ciclones sobre a superfície, que não perturbavam a profundidade e representavam os buracos negros e os brancos, a sugar, transformar e gerar matéria. “Então eu não aniquilei o universo! Ele continua a existir, em todos os seus desdobramentos...”, inundou a si mesmo de felicidade ao se dar conta; o êxtase o deixou sem preocupações por alguns minutos, até que se questionasse: “Mas o que estou fazendo? Este é o meu destino final? Estarei condenado a passar a Eternidade mergulhado Nela?”, o oceano tomou a forma de uma imensa serpente...E Zurvan se viu do lado de fora, ao seco, contemplando aquela extraordinária criatura azul diante da qual não passava de um grão de areia, e esta lhe falou: “Eu sou Sesha, a que oferece a Deus o repouso; em mim Ele descansa e sonha, sendo que cada indivíduo em cada sonho Seu é um universo à parte; você está tendo o privilégio de estar à parte do sonho, de se encontrar ao lado do leito universal”; “Mas se Deus repousa sobre você, onde Ele está?”; “Este não é um segredo...O problema é que, mal chegou aqui, já está com saudade”, os olhos da serpente, maiores que um mundo, em uma extensão interna de milhares de palácios de ouro, mostraram ao fundo do último corredor uma mulher de deslumbrante beleza, que de início foi percebida em espiral e deixou o observador com vertigens. Sua aparência sequer se retinha em uma única forma, ora com os cabelos pretos, ora ruivos, ora loiros; a pele escurecia e clareava de acordo com a incidência da luz; os olhos podiam apresentar uma ou todas as cores, uma por uma ou simultaneamente. Esta lhe inspirou em seguida o mais puro amor, com a visão de sua preciosa Inana. “Ela não está perdida para sempre...”, doce ternura e carinho profundo, “...há a esperança que não haja tédio; que ela possa permanecer a eternidade ao meu lado”, tomara a forma de sua amada; no entanto, ao tocá-la, as sensações se sobrepuseram, a sensualidade predominou, e no abraço e no beijo, no mais quente, Inana deu lugar a Ishtar. Que ele secretamente desejara e nunca pudera tocar. “Isso não é certo...Eu não a amo! Inana, me perdoe...”, repugnado consigo mesmo, afastou-se dos desejos reprimidos. A mulher assumiu um semblante e uma aparência de velha, magra e ressequida, com um olhar decaído e uma aura melancólica, sentada em uma cadeira de balanço. “Zurvan...”, ela falou com uma voz que era de jovem e o paralisou; aquela era a deusa da saudade, a entidade que o prendia ao mundo. “Tome cuidado. Você tem que escolher o que quer...”, e nem mais sinal de Sesha, da deusa ou de Albert, que desapareceram por completo: estava agora diante do Oceano, no branco seco, em frente às águas escuras e profundas. “O Karma ainda existe. Porém não mais de forma independente...Ele faz parte de mim. Será possível voltar assim ao mundo? Eu vou entrar...”, decidiu caminhar para dentro da água. Quando já estava mergulhado até a cintura, uma voz o tocou, produzindo a sensação de um corte em seu abdômen: “Você não precisa mesmo deixar de existir. Você pode se multiplicar e ser a equação da variedade! Não caia na armadilha deles”, contudo, não havia sangue. “Quem está aí?”, parou. “Depois de um tempo incalculável preso por aqui, por fim encontro alguém à minha altura, disposto a multiplicar, espalhar, viver, por mais que tenha pensado em se extinguir. Quando eu conseguir fazer com que se dê conta da riqueza que possui, não existirão obstáculos para nós. Mas antes temos que desmembrar toda esta dimensão, e a nossa vontade será feita”; “Do que você está falando? Quem quer que seja, apareça agora!”, uma sombra emergiu então do oceano, sem nenhuma espécie de forma definida, e entrou pelo peito de Zurvan. Após alguns segundos em choque, imóvel, cerrou as mãos, que estavam abertas ao lado de seu tronco. “Se esta é a dimensão da Eternidade, o fim e o início dos tempos, ainda assim é controlada por algo que a transcende: a Mente, que não se move e pode contudo viajar em liberdade entre o passado e o futuro; não há paradoxo: caso aprenda a controlar a sua mente perfeitamente, aprenderá a controlar o tempo, que só existe como concepção. Foi isso o que aprendi aqui; sem que percebessem, Eorin e Gabriel me fizeram um grande favor...”; “Me diga...O seu nome...”, Zurvan balbuciou, arfante; sua consciência estava sendo esmagada, prensada e todo o seu ar era retirado por aquela presença sombria que o invadira e parecia querer tudo para si, mesmo que dissesse o contrário. “Não lute contra mim. Isso só produzira uma dor desnecessária. Você não deve ser Um, não tem que ser a Mente. Terá que se desfazer em fragmentos para aceitar tudo isto aqui, o que aprendi por meio da observação; a totalidade, a absorção, o deixariam louco, inconsciente. O meu sentido de existir é a incoerência, sou a antifórmula da vida, a celebração das mentes individuais, que se separam e se distanciam da Mente Suprema. Conheça-me como Kroni”, Zurvan urrou e se rebelou com força contra a presença de Kroni; sua dor espiritual cresceu e as dores físicas só aumentaram. “Não adianta lutar contra mim. O artefato que você criou era a porta que eu precisava. Antes que você chegasse, eu só podia ver daqui o que ocorria lá fora. Graças ao Karma, poderei agir lá fora; e interferir quando quiser em qualquer era, em qualquer lugar! Através das mentes, dominarei o tempo. Hronos se dispersará em trilhões de trilhões de gotas...”; Zurvan, invadido por uma tristeza imemorial e um desespero sem limites, pensou consigo enquanto tinha a impressão de ser rasgado em pedaços: “Teria preferido desaparecer! Não criei essa coisa, sinto que não! Mas criei o que a torna livre. Ela não me quer; quer o que está dentro de mim. Quer ter o Poder! Mas não posso e não irei permitir, mesmo que o meu espírito seja transformado em pó”, Zurvan voltou a ser velho, porém com as barbas e os olhos de ouro, e mais branco do que o normal, enquanto à sua frente uma sombra disforme o agredia; a ação se dava em seu interior. Debates, tumultos e choques em seu coração; reviu o artefato, protegido por ele e atacado por Kroni; à sua volta, viu Albert com as mãos sobre os cabelos e a cabeça baixa, escondendo o rosto, Sesha girando em altíssima velocidade e Hronos desmoronava, tudo sendo partido pelo Karma e os fragmentos passando a girar feito elétrons em volta de um núcleo caótico. “Você não pode me negar...”, a força da vontade de Kroni era descomunal, porém mesmo assim algo inspirou Zurvan, não soube dizer se foi sua invocação dos espíritos celestiais, seu chamado pela Fonte, porém fato que não só ele foi se apagando como também o inimigo. Os dois mergulharam aos poucos no silêncio. E quando ambos desapareceram, entre os rastros do tempo, veio à tona uma máscara, metade dourada e metade prateada, a primeira de um velho de semblante afável, a segunda de um jovem de expressão cruel, que ao ser virada outra vez deu lugar a um ancião prateado entristecido, saudoso, e a um rapaz dourado imbuído de coragem, embora inexperiente; todos eles eram Zurvan...Eram? Não...Apenas tinham as aparências. “Eu sou Kronos, o senhor do tempo”, e, ao reabrir os olhos no templo branco, haviam se passado poucos segundos no mundo material: “Veja, senhor Seraph! Não foi preciso sequer muito esforço da nossa parte; ele voltou à vida...”, mas para o kumara, para o qual o tempo era algo muito mais fluido e maleável, a comemoração de um dos gárgulas pareceu pura infantilidade. E Uron também se dera conta: aquela energia não era mais puramente de Zurvan, conquanto ainda existissem nela traços dele. Além de ser muito maior e mais aterradora, desprendida em milhares de cacos de espelho...

Kronos olhou para Seraph Ishtar e em uma mirada desvendou suas identidades: de Lúcifer, a estrela da manhã, ao comandante kumara que auxiliava o planeta Terra, passando pela ajudante e pupila de Zurvan; e descobriu que já o odiava por ser uma criatura que iria tentar lhe impor limites. De repente, sua aparência começou a rejuvenescer; os gárgulas ficaram apavorados, inclusive Uron.



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