Marcello salvaggio



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Marcello Salvaggio
A CHAVE DA HARMONIA

        1. Livro Dois : Karma



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Revisado por Saint-Clair Stockler

Resumo do livro 1:

Em Rachaduras na Ordem, o primeiro livro de A Chave da Harmonia, na época dos reinos élficos, uma era esquecida da humanidade, Odin, príncipe de Tudnan, deixa a terra de sua família para conhecer o mundo, chegando ao reino de Warman, onde se encontra com aquele que será durante um longo tempo seu maior amigo e companheiro de aventuras, Gilgash, um lomai, membro de uma espécie que dará origem ao homo sapiens.

Depois disso conhece Eluen, filha de Malin, o curandeiro que lhe salva a vida após uma luta violenta contra enviados do rei Ymun de Asir, que pretende seqüestrar ou matar o príncipe para incitar Tudnan à guerra.

Ymun, de uma família de guerreiros, foi eleito por meio das promessas de frear a decadência do país e colocando a culpa nas outras espécies, como gnomos e lomais, e nas famílias de plantadores; tem em seu poder o irmão de Eluen, Baden, que tentou se rebelar contra a situação e acabou preso e torturado.

Odin se compromete a ajudar sua amada a salvar seu irmão, cuja consciência, assim como seu corpo, foi tão mutilada que até a exteriorização consciente de seu corpo astral se tornou impossível.

Noivam, com a aprovação dos pais do príncipe, Valin e Soren, reis de Tudnan, uma enorme cidade suspensa, repleta de lagos cristalinos e imensos parques circulares, no solo ou suspensos no ar, acessíveis por escadarias de pedras douradas.

Ardan, um arqueiro-espião de Ymun, tenta matar Odin e acaba acertando Malin. Ao perder o controle sobre si e matar o inimigo, o príncipe manifesta pela primeira vez o lado obscuro de sua alma, explicitado pelas visões de um corvo e de um lobo branco de olhos azuis.

Eluen traça com um galho, na terra, as runas do deus Eljai para evocá-lo e salvar seu pai; obtém êxito e este lhe diz que de qualquer maneira a ajudará, porém lhe pede para que abra os olhos de Ymun, resolvendo os conflitos do reino com a menor quantidade possível de sangue derramado, e afirma que a orientará dali em diante mesmo sem que ela perceba.

A filha de Malin então entra para Ordem de Disirah, onde pode acompanhar tudo mais de perto e agir.

Lá suas principais amizades se tornam a comandante Svava e a própria Disiran, a líder da Ordem, Vanadis de Vanadis, que desconfia de Ymun e discorda de seus meios. Por outro lado, enfrenta a inveja de Samen, que por várias vezes a segue, até descobrir que continua a se encontrar com Odin; contudo, a rival se mantém em silêncio após ser ameaçada por Gilgash e por não possuir provas concretas.

O príncipe e o lomai conseguem roubar o tesouro do rei, obtido por meios ilícitos como assaltos encomendados, além dos impostos abusivos, libertando o dragão que o guardava do jugo do gnomo Andvari, que o dominava por meio de um anel.

Svava, uma telepata avançada, que lê mentes como ninguém, revela a Vanadis a verdade sobre a filha de Malin, mas tanto a comandante quanto a Disiran a aprovam e se tornam suas aliadas ativas na luta contra Ymun, contribuindo na intenção de desmascará-lo em praça pública.

(...) após atear fogo à própria casa, é preciso ter recursos para apagá-lo; cada ação tem sua devida conseqüência.- de A Profecia Universal; capítulo III: Poder.



  1. Honra e revolta

A praça central de Warman, de piso formado por pedras circulares brancas e escarlates que produziam, se vistas de cima, um panorama de círculos concêntricos, exibia naquela hora do dia, com suas torres de rocha acinzentada repletas de guardas, que usavam capacetes arredondados e vestes semelhantes a togas metálicas, dezenas de barracas, carruagens e tendas de comércio ambulante, vendendo os artigos mais disparatados, com a presença de milhares de elfos e alguns anões e lomais, que vendiam, compravam, barganhavam, pechinchavam ou simplesmente encontravam lá um ponto de encontro para conversar, brincar e namorar. Chegou desapercebido um carro puxado por quatro elfos encapuzados, que trajavam túnicas velhas amareladas, quase idênticas entre si, grossas, compridas e de mangas longas, quase encobrindo os sapatos marrons nos pés; só em um deles sobressaíam os cabelos prateados lisos que fugiam do capuz, mas como estava cabisbaixo era impossível ver seu rosto. Havia uma tenda de pano bege sendo levada, por isso não se via o que continha, mas ninguém se importava; muitos anônimos faziam o mesmo e a fiscalização inexistia. Pararam no centro da praça, justamente no olho dos círculos. Ninguém ainda parecia dar importância, até um dos encapuzados subir, desmontar a estrutura superior e revelar ali um baú de dimensões respeitáveis, sobre o qual estavam sentadas duas elfas e um lomai, e ao lado alguns elfos deitados, amarrados e amordaçados. As pessoas começaram a parar para olhar e a comentar:

— Mas o que será isso? Veja só aqueles lá caídos...

— Será algum tipo de protesto?– Alguns guardas principiaram a ficar mais atentos.– Mas aquela ali... Estou reconhecendo aquela elfa! Não é a Disiran?

De fato eram Eluen e Vanadis, acompanhadas por Gilgash, que ficou de pé. O outro tirou o capuz e se revelou: Odin de Tudnan. E os outros três os suras Balin, Eosen e Durin.

— São os suras desertores!– Comentou um dos guardas; contudo, nenhum teve coragem de avançar.

— Povo de Warman...– Vanadis lançou ao ar sua poderosa voz, silenciando aos poucos todo o lugar à medida que percebiam sua presença. – Como bem sabem, sempre foi o meu dever defender esta nação. Para quem ainda não se deu conta, sou Vanadis de Vanis e estou aqui para que mesmo os que apóiam Ymun me ouçam. Pois o destino de nosso país, independentemente do governo que estiver no controle e dos interesses políticos e econômicos, está tomando caminhos tortuosos; de uns tempos para cá, resolvi investigar as atividades do rei e de seus colaboradores, passando a limpo tudo o que se encontrava em fase de rascunho. Com isso, descobri muitas coisas. E, entre estas, que estamos sendo roubados não só pelos meios “lícitos”, se é correto dizer isso, como por meios ilícitos. Gilgash, tire a mordaça deles...– E foi o que o lomai fez; aqueles elfos derrubados eram alguns dos ladrões do rei Ymun, levados por disiras pertencentes à divisão de Eljai que ainda colaboravam com a ex-Disiran, guiadas telepaticamente por esta à caverna onde estava o grupo de Odin, tal como fora combinado com Eluen. Os delinqüentes começaram a se expor; falaram, para o assombro até dos guardas da praça, sobre as percentuais que recebiam do rei em troca de assaltos e outros crimes patrocinados.– E não é apenas isso – Depois de alguns minutos, Vanadis retomou seu discurso.– Além de tudo, ele pediu para nós, disiras, guardarmos seu tesouro particular, que ficou sob a custódia de Andvari.– E Eluen interveio para expor os verdadeiros motivos de ter deixado o tesouro escapar:– E tudo isso foi feito para que pudéssemos devolver a vocês o que é de direito.– Assim finalizou seu discurso, abrindo o baú.

— Além do mais, um estrangeiro pacífico e honrado, que agora contribui para que o povo de Warman tenha de volta o que lhe pertence, não foi tratado da maneira correta. Tudo devido às ambições bélicas de Ymun, que insiste em provocar Tudnan. Sua intenção de expandir o país é equivocada; em vez de aproveitar os recursos internos, gastá-los para buscar o externo! Justamente o contrário do que Tudnan, a terra do príncipe Odin, sempre fez.– E Vanadis passou a palavra para Odin, que se adiantou, deixando boquiabertos os presentes no local.

— Logo que cheguei aqui, fui agredido. Foram enviados suras para me prender ou matar sem o menor motivo. Aliás, motivos seu rei tinha: ambições, planos de chantagem; porém nenhuma causa nobre. Contudo, apesar de ter motivos para odiar Warman e para pedir ao meu pai que desse a este reino um justo castigo, minha noiva me fez amar estas terras. Nunca teria coragem de causar qualquer mal ao povo de Warman, afinal é a terra da pessoa que mais amo. Por isso, resolvi ajudá-los a se libertarem desta tirania.

— Não pode ser uma tirania! Os Asir foram legitimamente eleitos!– Bradou um defensor do regime.

— Mas eles estão fazendo jus à população que representam? Quem age de maneira equivocada e desonesta passa a tornar legítima é a sua destituição.

— Podemos falar por nós também.– Eosen se expôs.– Não teríamos motivos para abandonar o conforto e a riqueza, nós que sempre estivemos no poder de certa forma, independentes de qualquer casa eleita, e ir viver em uma caverna fedida para fazer planos revolucionários se o governo que aí está não fosse realmente prejudicial ao nosso próprio futuro.

— Vejam quantas riquezas!– Balin subiu no carro, tirou do baú e mostrou à multidão jóias feitas de ouro e pedras preciosas. – É possível que alguém aqui, se vier até nós, possa reconhecer coisas de sua propriedade.

— E além de tudo, isto aqui!– Odin pegou a lança Gungnir.– Que Ymun planejava usar numa eventual guerra contra o meu país.

Tiveram início os primeiros sinais de irritação coletiva: parte dos presentes começou a atirar objetos nas torres de vigilância, de pedras a frutos podres; outros principiaram a agredir os que apoiavam explicitamente os Asir.

— Por favor, violência agora é desnecessária. Precisamos nos unir!– No entanto, o apelo de Eluen passou surdo. A revolta fermentou e os guardas tiveram que agir.

— Isso era esperado.– Disse Vanadis, e soltou um assovio em alto volume; outras disiras ainda leais, ocultas na multidão, surgiram para apartar as brigas.– Agora o jeito é confiar nelas. Vamos para o Castelo Duplo.

— Espero que elas consigam mesmo dar conta.– A filha de Malin parecia aflita.– O povo respeita a Ordem de Disirah. Logo vão parar para nos seguir.– E dito e feito: pouco depois da carruagem rumar para outra direção, ondas humanas fluíram logo atrás.

— Cuidem de suas vidas; não se oponham ao inexorável.– Disse uma disira, com sua lança próxima do pescoço de um soldado.

Com o carro arrastado pelo príncipe Odin e pelos outros três à frente, foi seguindo o mar humano, agora sem tempestades, e que cada vez engrossava mais, até chegar às portas do castelo. Ao ficar ciente do que ocorria por meio de seus informantes, espalhados por toda a capital, Ymun ardera em indignação e medo.

— Não me surpreende a presença nisso daquele maldito Odin. O que me deixa mais revoltado, embora não seja uma surpresa, é a traição da Disiran. Não esperava que ela fosse tão longe, mesmo sendo uma Vanis.– Na sala do trono, falava com sua esposa e com Badar.

— Você devia ter se preparado melhor, Ymun.– Foram as palavras dela; ao lado, o sura a fitou de rabo de olho com seriedade.

— Não me importo mais com nada. Se serei tachado de louco, de assassino, se vou perder o meu posto; só quero vingança agora. Vão pagar pelo que me fizeram.

— De que maneira, Majestade?– Indagou Badar.

— Você e Gomen, que ainda permanecem fiéis a mim, lutem contra Odin e a corja de traidores.

— Para isso temos que permitir que entrem. Mas e quanto ao povo?

— Abram as portas do castelo. Deixem que todos entrem! Eu também terei de lutar.

— Não vale a pena se sacrificar, Majestade. Desculpe-me se não cabe uma opinião agora, mas o que se dará será um suicídio físico e político. Além de nós três, somados a alguns soldados, termos chances reduzidas contra Odin, a Disiran, Eosen, Durin e Balin todos juntos, sua legitimidade será afetada.

— Badar tem razão. É melhor renunciar a cometer uma loucura dessas. É um delírio.– Disse a esposa de Ymun, fitada com raiva por seu marido.

— Vocês não sabem o que é governar um país. A essa altura, já tendo perdido a popularidade, não me importo mais de morrer se for para eliminar ao menos alguns dos que me traíram ou o estrangeiro maldito que causou tudo. Isso é para que vocês vejam que não sou um obcecado pelo poder; queria fazer de Warman efetivamente um país forte. Já que não posso realizar isso, buscarei uma maneira de me vingar. Meu alvo principal é a queridinha de Odin. Mesmo que ele acabe com a minha vida, irá sofrer para sempre com a morte dela; Badar, você e Gomen, matem qualquer um que entrar no castelo.

— Perdão, Majestade, não sou um assassino.

— Seu idiota! É por sua legítima defesa. Você sempre me apoiou, acha que irão poupá-lo? Não seja ingênuo. Pense na sua esposa e em sua filha. Depois, se quiser, pode fugir; não precisa morrer aqui.

— Assim como não sou um assassino, não sou um covarde. Se ficar, será para vencer ou morrer.

— Faça como quiser, a vida é sua. Pode chamar Gomen.– E, enquanto Ymun se esparramava no trono, talvez a última esparramada que poderia dar no que ainda julgava seu, sua esposa bufou e Badar foi se retirando. Os cônjuges não se olhavam.

“Talvez hoje você tenha a sua revanche, Svava.”, refletiu o primogênito dos Alfis; em sua mente predominavam as imagens e vozes de sua irmã, de sua companheira e de sua filha, porém como balbucios vagos, sem palavras definidas, e gestos abstratos. As duas últimas também estavam no castelo...Que Menah adorava. “Só não admito que seja você a me matar.”, pensou na irmã. “Mas tenho consciência de que a minha sobrevivência é impossível, e não pelos meus oponentes, e sim por mim. Seria improvável se minha índole fosse passiva, se me rendesse e depois de derrotado aceitasse que meus inimigos poupassem a minha vida. Só que não conseguiria viver dessa maneira e passaria os dias e as noites pensando em como apagar a humilhação, treinando sem parar para alcançar uma meta talvez inatingível. Onde ficaria a minha família no meio disso? Não quero uma vida assim para Shara nem para mim; nem que meus pais pensem que sou uma vergonha por ter ficado ao lado de um governo corrupto. Ao menos, com a morte, sobreviverá a concepção que lutei por ideais, ainda que equivocados, e que estava confuso, como de fato estou. Seria mais fácil arrancar a cabeça de Ymun com as minhas próprias mãos; entretanto, é um pouco tarde para mudar de lado. Não sou daqueles que troca de parte como se o passado fosse insignificante; não gosto de trocar nada. Na minha vida, prezo a estabilidade; sou conservador. Me dói que a Disiran tenha se metido na política, em vez de se focar apenas no culto aos adanas e na proteção do reino, por mais que ela tenha um caráter nobre e esteja certo de que pouparia a minha vida se eu fosse um covarde; se mal venci Svava, também sei assim como Menah que não poderia vencer Vanadis. E admito isso para mim apenas, com ódio do meu ser impotente; e se eu não posso, muito menos Ymun ou Gomen. É doloroso ver suras que abandonaram seus postos para se juntarem a um estrangeiro! Gostaria que eles encerrassem suas vidas nas minhas mãos, que tivessem o justo castigo; mas três ao mesmo tempo é demais até para mim, embora não acredite que sejam tão vis a ponto de lutarem em conjunto contra um só oponente. A minha honra me faz arder de revolta e indignação; tenho que preservá-la, mesmo às custas de minha própria vida. A morte não me assusta; o abismo, se estou equivocado, a aniquilação do espírito, se houver algo pior, ou a glória ao lado dos adanas, se estou certo, são caminhos que não dependem da minha escolha mas de minhas ações; aceito o que vier com a natureza, pois sei que será justo. Talvez o que eu vá cometer agora defina de uma vez a minha perdição...Ou não. Deixo para os adanas a definição do que é justo. Vou fazer o que é necessário”.

Embora seu rosto permanecesse impassível, uma máscara sutil sobre a face de seu espírito deixava escapar lágrimas ensangüentadas pelas frestas sobre seus “olhos”; vultos sombrios se acumulavam em volta de sua aura e pesavam sobre seu corpo, fazendo com que se sentisse mais lento e incomodado, as asas de sua armadura negando qualquer espécie de vôo. “Shara não viverá com o fantasma de um pai que a abandonou para seguir um vago ideal. E não merece ser maltratada pela mãe que tem. Menah, você sempre achou que estava tudo sob o seu controle, que eu a amava e a ouvia, que acatava as suas vontades; no entanto, não sou tão idiota nem o mundo tão submisso, tanto que não encontrou a Disiran quando quis acabar com ela. E usando uma inocente para isso! A verdade é que a vida de Shara já foi maculada. Quem sou eu para purificá-la? Eu em especial ninguém; meu significado estará em ser um portador, um aliado; a vida me espera.”

Uma dor de cabeça latejava do lado esquerdo de sua caixa craniana; sem um capacete desde que o seu anterior fora destruído por Svava, preferia ficar assim. “Você vai comigo só pra me dar prazer do outro lado, Menah. Se isso não for possível, me conformarei. Só não me arrependerei de ter tentado.” E, ao entrar no quarto onde se encontravam sua esposa, bem acordada, lendo ou fingindo ler uma tábua para aliviar a agonia, e sua filha, cochilando em um pequeno leito em meio a cobertas celestes, entre paredes de pedras escuras iluminadas por tochas, esparramou seu olhar para deslizá-lo com ternura até a pequena, inicialmente ignorando a maior, apenas percebendo sua presença.

— Vamos embora, Badar. Não temos outra escolha, é loucura permanecer em Warman!– Como poucas vezes desde que a conhecera, viu Menah suspender uma atividade e ir até ele para se aconchegar em seu peito.– O povo está descontrolado e podem nos matar por estar do lado errado.

— É o lado no qual estou. Não sei se é certo ou errado, mas não pretendo fugir nem mudar de última hora.– Encarou-a com seriedade, enquanto os olhos dela transmitiam medo e uma falsa doçura.

— Badar, você por acaso é idiota?– O amargor, verdadeiro, prevaleceu após alguns segundos de silêncio transtornado.– Sempre achei que fosse um pouco, mas chegar a um nível desses?– A calma era retida, tingida, segurada, não segura.– Pense um pouco em mim e na Shara. O que será de nós?

— Você me falando para pensar em Shara?! Bem você que quis entregá-la para as disiras só para satisfazer as suas ambições!

— Minhas ambições? Como se não fossem as suas também! Você deu o seu aval! Não tire o corpo fora agora. Está fugindo das suas responsabilidades, Badar?– O nervosismo se explicitou, junto com a provocação.– No fundo você não passa de um covarde, não é mesmo?

— Se fosse covarde, não estaria pensando em fazer o que tem que ser feito.

— Se quer morrer, morra então! Mas nós duas vamos embora. Você é um covarde sim, porque quem se joga nos braços da morte é alguém que desistiu, que se conformou, que prefere deixar para resolver as coisas em uma outra existência ou achando que assim tudo se apaga e os problemas somem! Falta coragem para encarar os problemas que a vida esfrega na nossa cara!

— Vocês não vão a lugar algum.– Agora com medo dele, ela tentou recuar, mas foi puxada e beijada à força; ao término do beijo, encararam-se com ódio.– Em uma coisa você sempre esteve certa de pensar: sou seu, estou amarrado a você. Não controlo o que sinto, a sua energia é um veneno que tomou conta do meu corpo. Dói na minha cabeça, a minha coluna arde; somos um só, na paixão e na raiva. Mas o que já foi seu triunfo, seu domínio, será também a sua perdição, pois se não posso existir mais sozinho, imagine viver.

— Você é louco, seu desgraçado!– Cuspiu-lhe na cara em meio a respirações tensas, mas ele sequer limpou o rosto, não a soltou e ela começou a gritar.

— Não adianta berrar. Admita que um pouco você gosta. Afinal, me venceu!– Beijou-a enquanto puxava seus cabelos e ela se debatia; aos poucos, no entanto, Menah foi perdendo as forças, pois os vasos sanguíneos de seu cérebro estavam sendo arrebentados, um a um, pelos poderes mentais de seu marido.– Logo tornaremos a nos ver e você poderá jogar na minha cara a sua vitória, fazer troça, o que quiser. Irá me rasgar enquanto me beija. Só tenha um pouco de paciência e me espere.– Disse, antes de soltar o corpo no chão, este sem vida, porém com uma inegável expressão de prazer. Ele preferiu deixar daquele jeito, sem fechar os olhos dela.

Da sua parte, Shara acordara e presenciara tudo. Quando o pai se aproximou, limitou-se a fixar os olhos arregalados nele, cheios de medo e de certezas, não de dúvidas. Ele fechou os seus, pois se os mantivesse abertos não teria coragem; não a viu morrer. Concentrou-se e, quando os reabriu, ela já estava morta, esparramada sobre as cobertas, silenciosa, tão cândida quanto a leve camisola que vestia; a pequena também fechara seus olhos. “Torço para que receba uma nova existência, melhor do que a que teve comigo. Mereço pessoas como a sua mãe; o seu destino, tenho certeza, é muito melhor do que isso. Vá em paz, filha, rumo às estrelas, que estão cheias de vida, como você.”, antes de sair, Badar ficou algum tempo parado...


Enquanto o povo entrava por outros cantos, conduzido pelos ex-suras e por Vanadis e Gilgash, Eluen descia com Odin aos calabouços do castelo; Baden estava próximo. E não só os restos de seu irmão, mas ele em si, restaurado, vivo, curado; difícil minimizar a ansiedade.

Os outros prisioneiros fitavam-nos com esperança e Odin os libertava à medida que vencia os guardas e roubava-lhes as chaves; mesmo assim, a maioria não tinha forças para se mexer. Trataria de convocar médicos depois, talvez até Malin, que com toda a certeza viria, nem que fosse por gratidão. Não obstante, como o problema não era apenas de liberdade, o sura torturador os esperava.

— Hmmm, dois belos exemplares...– Agachado no chão, portava uma lança de ponta falciforme. – Parece que estou com sorte hoje!

— Você que é Gomen? – Indagou Eluen, parando para encará-lo. Odin ficou logo atrás.

— Não faça perguntas tolas. Estando aqui e não sendo um preso, é óbvio quem sou. Espero que não me decepcione e a sua beleza interior seja condizente com a externa.

— Não estou interessada em satisfazer você. Só vim resgatar o meu irmão, que se chama Baden.

— Sei quem é: aquele exemplar odioso. Então se você é a disira da qual Ymun várias vezes me falou, aquele ali deve ser Odin de Tudnan.– Olhou para o príncipe e ficou de pé.

— Deveria sentir apenas nojo, raiva e querer acabar com a sua vida, fazendo você sofrer muito. Mas tenho outra missão a cumprir. Saia do meu caminho e me deixe encontrar meu irmão.

— Perdão por ter duvidado no início. Estou me dando conta de como você é bela; amor fraterno, sentimentos nobres: isso tudo me deixa profundamente melancólico. Terei que matá-la lentamente.

— Antes disso, deveria tentar me matar.– Odin percebeu que ainda era observado e se adiantou, fixando seu olhar no torturador.– Se conseguir, até deixo você acabar com ela.

— Além de tudo, sabe brincar! Outra bela alma num belo corpo. Não tenho preferências quanto à ordem; pode vir primeiro se quiser, príncipe.

— Vou ser o primeiro e o último. Ela passa.

— Sem problemas! Depois, na volta, cruzará com o seu corpo sem membros; ainda não um cadáver porque não posso matá-lo rapidamente, seria frustrante!

— Você é insano. Não sei se sinto pena ou ódio pelo seu passado sangrento.

Tendo seu corpo atravessado por um calafrio contínuo, Eluen passou devagar, deixando Odin a sós com Gomen, que permaneceu imóvel e nem a olhou quando ela o ultrapassou e seguiu em frente; suas atenções estavam todas voltadas para o príncipe.

— Não trouxe a Gungnir que roubou de Andvari?

— Não será preciso usá-la para acabar com alguém como você.

— Espero que não se arrependa depois.– Rápido como uma flecha, por pouco não fincou sua foice no coração de Odin, que, muito confiante, conseguiu evitar o golpe por um fio; a seqüência foi de esquivas contínuas, até o príncipe perceber rasgos em sua roupa, com cortes embaixo destes que começaram a exibir algum sangue fresco. “Como pode? Ele nem me tocou!”, questionou-se. “Essa arma é só um disfarce; ele também sabe manipular o ar e pretende me distrair com brinquedos de metal”, e concentrou em suas mãos pequenos rodamoinhos de vento, que ao serem lançados fizeram a lança voar para longe das mãos do sura; contudo, a veste do príncipe se rasgou na região do peito e um corte maior ficou exposto.

— Já entendi como o seu poder funciona.

— Mesmo assim, será que é capaz de evitar os ataques?– Odin imaginou que seriam ventos cortantes numa velocidade muito alta, difíceis de sentir ou enxergar.– E saiba que não me limito só a isso.

— Use logo todos os seus recursos, ou poderá se arrepender depois.

— Seu desejo será atendido.– E o sura começou a correr para os lados, sem se dirigir diretamente para o príncipe, que formou uma barreira de ar à sua frente para bloquear qualquer ataque baseado nesse elemento; contudo, sentiu uma dor repentina no abdômen e ao olhar para a região viu mais um rasgo e um ferimento aberto. “Não pode ser...”, custou a acreditar; porém a dor de outros cortes foi se espalhando por seu corpo.– E então, o que acha dos meus “ventos”?– Gomen ironizou. “A minha análise estava errada; e ele percebeu isso, é um inimigo muito astuto! Preciso me concentrar mais para descobrir o que de fato me atinge”. Por mais que fosse difícil se focar devido à rapidez do adversário, Odin não teve alternativa além de intensificar sua aura e expandi-la em todas as direções, o que por fim derrubou o sura, lançado contra uma parede pela energia mista de luz e ar, cândida rutilante, que começou a provocar rachaduras no local e apavorou os presos que não tinham forças para escapar e acompanhavam o combate passivamente. O receio do príncipe de Tudnan era de machucá-los ou coisa pior, mas não podia mais se conter contra um adversário daquele nível. “Se tudo isso desabar, temo que muitos aqui não conseguirão resistir.”

— Vamos, Gomen. Só sabe rasgar roupas e judiar de quem está acorrentado?– Lançou a provocação ao inimigo, que se levantou pouco depois, com sua máscara danificada. Moveu os braços e Odin sentiu uma energia ligada ao elemento terra. Mas como podia ser, com tão pouca solidez? Esquivou-se por pouco do contra-ataque e por fim conseguiu ver do que se tratava: eram metais afiados, sutilizados primeiramente num nível que se tornavam quase objetos do plano astral, imperceptíveis aos olhos comuns e mesmo a uma clarividência distraída, e adensados milímetros antes que tocassem seu alvo. Punhais, adagas, lanças, espadas: o torturador era bastante habilidoso em extrair os átomos de ambientes físicos e astrais e transformá-los no instante exato em algo cortante.

Enquanto isso, Eluen chegara à cela de Baden, que não apresentava sinais de consciência, fisicamente no mesmo estado em que o vira da última vez, talvez um pouco pior; tentou uma comunicação telepática com ele, só que seu irmão não passava de algo inanimado, sem vontade própria; seria injusto dizer que chegasse próximo da condição de um vegetal. Seu coração registrava menos de dez batimentos por minuto, pouco respirava, não via, nem ouvia, muito menos sentia; menos mal que tinha uma irmã firme em seu intento, que não derramara lágrimas nem se desesperara, séria e serena, calma e compenetrada, que espalhou pelo ambiente, na disposição correta, os símbolos de Eljai previamente gravados em pedaços de argila: chegara a hora.

Entrementes, antes que pronunciasse qualquer fórmula mágica, o ambiente se tornou luminoso e dourado sem a necessidade da intervenção de alguma luz externa, como se tivesse sempre sido daquela maneira; não era...Tanto que a filha de Malin se espantou. Olhou para as runas e ficou chocada ao perceber que se desmanchavam; um calor forte tomou conta de seu corpo.

— Não pode ser! Isso não pode estar acontecendo!– Não se dera conta da qualidade do fenômeno; lágrimas quentes escorreram por seu rosto, começou a andar e a se mexer desesperadamente e levou um susto quando viu, na entrada da cela, um indivíduo familiar e ao mesmo tempo estranho:

— Você não precisa mais de artifícios para me chamar, Eluen.– Ele ora parecia de fogo, ora tinha uma forma claramente humana.– Abandone as orações e os ritualismos.

— Eljai...– Ela jamais teria esquecido aquela voz; ficou imóvel, com as mãos jogadas ao lado do corpo.– Que alívio...Achei que tudo estivesse perdido!

— Pelo contrário. Parabéns, Eluen! Você está prestes a concluir a sua missão. E o estado de consciência que tinha quando entrou aqui é o ideal. Pena ter se desequilibrado depois, mas compreendo que mudanças bruscas às vezes assustem e você quer muito o seu irmão de volta; pois bem, vamos dar início ao nosso trabalho.

— Pena que naquele dia com Svava não consegui chamar o Senhor...– Enxugou as lágrimas, mantendo a cabeça erguida.

— Talvez tenha sido o melhor para ela, quem pode garantir? Não vamos lamentar o passado. É hora de deixar o presente desabrochar! Sem mágoas, sem revolta...Pela sua própria honra.

— Assim seja.– Ela fechou os olhos, teve a impressão de sua testa se unir à dele e, numa explosão fúlgida, tudo em volta se derreteu.

Mesmo o sura torturador, que àquela altura ainda lutava com Odin, não pôde deixar de olhar para trás para vislumbrar o que parecia ser a invasão de um sol nos calabouços do castelo de Irul.

— Está terminando para você e os seus aliados, Gomen.– O príncipe já conseguia enxergar com clareza e desviar de todos os ataques. A máscara do inimigo, rachada, deixava entrever seus lábios grossos e vermelhos. Olhou para os lados e viu, impávido, suas vítimas, algumas antes sem pernas ou braços, sem beiços, rasgadas, feridas no corpo e na alma, acorrentadas, se levantarem livres, com as energias renovadas e seus corpos reconstituídos.

— É loucura! Devo estar tendo alucinações! Ou você é capaz de gerar delírios em minha mente?

— Seria bem lógico você ficar louco depois do mal que já fez aos outros. Porém seu coração é gelado, o seu espírito indiferente, por isso não seriam a dor e o sofrimento alheios que o enlouqueceriam. Você pode sim ficar louco agora, ao ver a Realidade e que seus esforços e objetivos de vida foram em vão.

— Seja como for, posso repetir tudo.– Podia-se ver o sorriso insano por baixo da máscara destruída.– É um imenso prazer ter toda a beleza do mundo novamente à disposição. Isso me deixa eufórico! Pois irei derrotar você e depois poderei chorar pelas tentativas inúteis do resto de conservar a força e a beleza; se queriam tanto se preservar, por que se rebelaram? Arquem com as conseqüências! Os que são feios tratarei de matar neste exato instante.– E ia lançar, para todos os lados, estilhaços cortantes dos mais diversos tipos, que Odin no entanto imobilizou no ar com a sua psicocinese, algo aprendera com Gilgash.– Pare de me atrapalhar...– Gomen sussurrou com ódio, sentindo-se bloqueado.

— Não há pior castigo para um envenenador do que ter sua bebida trocada pela de sua vítima e morrer pelo próprio veneno.– Forçou um pouco mais os poderes mentais e as lâminas agiram no sentido inverso, voltando-se contra aquele que as criara. Gomen urrou de dor enquanto era perfurado e feito em pedaços. Ao imaginar seu corpo esfacelado, recortado, disforme, ele que era triste por ser belo e pretendia morrer bem devagar, suicidando-se lentamente quando julgasse ser o momento, ficou com um terrível ódio de si mesmo que acelerou sua morte.

Na cela, Baden ressurgia. Os cabelos loiros esverdeados até a altura dos ombros, os olhos azuis marinhos, o rosto delicado, o corpo esbelto; ainda estava de cabeça baixa e com os olhos fechados, caído no chão, vendo o preto no preto, quando Eluen levantou seu queixo e o chamou:

— Acorde, Baden! Acorde, meu irmão...– E ele abriu lentamente as pálpebras, relembrando a sensação de estar vivo.

— Eluen...O que aconteceu?– A primeira visão não poderia ser melhor.

— Você não se lembra? Prometi que iria salvar você. Hoje vim cumprir a promessa!– Os dois se abraçaram e depois ficaram com as testas quentes encostadas uma na outra.

— Não se esqueça de que nunca está sozinha.– Eljai tornou a falar; envergonhada, ela se lembrou que Ele estava ali e do quanto fora decisivo em tudo. Baden franziu o cenho ao ver aquele indivíduo luminoso que, olhando bem, não parecia um elfo.

— Quem é ele?– Indagou o filho de Malin.



— Antes que você responda por mim, esclarecerei algo.– Interrompeu Eluen; ao irmão isso não agradou muito, pois queria vê-la falar e ouvir sua voz; estava com muita saudade. Mas logo se conformou, pois aquele não parecia um ser capaz de grosserias e interviera por precisão; poderia ouvir a voz dela em muitas outras ocasiões.– Sou de fato quem vocês chamam de Eljai. Mas já é hora de saberem que não sou um deus ancestral ou criador, que isso fique bem claro. Essa distorção ocorreu há muito tempo, quando fui divinizado por ter contribuído para a formação da espécie élfica. De certa forma sou um criador, como vocês e todos os que têm a Centelha da Divindade em si o são, mas não da maneira tradicionalmente imaginada.– Eluen ficou com a respiração presa durante as revelações, soltando-a quando de repente percebeu isso; Baden se sentia atordoado, pois acabara de despertar e já recebia tantas informações estranhas... – O meu verdadeiro nome é Seraph Ishtar e sou um kumara, um habitante espiritual do planeta Vênus.– Foi quando Odin apareceu. Não tão surpreso com aquela presença, deduziu que fosse Eljai e se inclinou respeitosamente.– Ah, que bom que chegou, príncipe de Tudnan.– Seraph voltou a falar depois de uma breve pausa, respeitada pelos filhos de Malin.– Sei que será muito difícil compreender o que tenho a lhes dizer. Mas é importante que todos fiquem cientes, principalmente você.– Adentrou nos olhos do filho de Valin quando este tornou a erguer sua cabeça. A princípio, Odin sentiu uma leve vertigem; depois conseguiu se firmar.– Há milhões de anos, este planeta passou por um cataclismo. Esses geralmente são eventos cíclicos, mas aquele foi um pouco mais do que isso; eu e alguns irmãos meus tivemos que vir à Terra e, para adaptar seus habitantes inteligentes à nova ordem que viria, introduzimos um pouco de nossa programação espiritual nos antigos lemurianos mu ai, hoje extintos, o que deu origem a vocês, elfos...Não aos australopitecos, que são frutos de experiências sem mescla genética que fizemos com chimpanzés; mas ao colocar uma certa dose dos DNAs lemurianos shal e mu ai em australopitecos, geramos os lomai; ao realizarmos algumas mudanças nos lomais, reduzindo a quantidade de DNA lemuriano, surgiram os gnomos; e, com um pouco mais do código de lemurianos mu ai nos gnomos, sem nada da espécie shal, somado a características vegetais e não animais, apareceram os duendes. Sei que não sabem ainda, a não ser intuitivamente, o que é o DNA...E você não se assuste:– Olhou bem para Odin, que parecia o mais perplexo. Aquele ali não era Eljai? Do que estava falando? Tantas mudanças rápidas que mal cumprimentara Baden e ainda não se dera conta de que em breve poderia se casar com Eluen!– Você especialmente não. Vou fornecer as informações de uma maneira mais clara, rápida e homogênea. Vocês estão preparados para isso.– E as mentes dos três ficaram inesperadamente vazias e límpidas, numa serenidade que gerou luz, sem desesperos pelo repentino nem angústias; não havia o nada: as intenções se definiam com precisão. Na claridade, o conhecimento foi transmitido em bloco; inicialmente viram imagens de eras antigas, posteriormente se sentiram como se estivessem lá, presenciando os acontecimentos. Vivenciaram, no espaço de um instante, uma parte da história da Terra. Quando os pensamentos e o diálogo mental retornaram, com alguns questionamentos menores, tornaram a ouvir a voz de Eljai, ou melhor, Seraph Ishtar. E haviam permanecido com os olhos abertos.– Agora compreenderam?

— Se esse foi o nosso passado, qual será o nosso futuro?– Inquiriu Odin, que dos três parecia o mais estável internamente porque nunca alimentara crenças fixas.

— O que vocês construírem ou destruírem. Só tenham em mente, se querem construir, que nunca estão sozinhos.– E o kumara irradiou seu tremendo sol interior, sua estrela da manhã, que se tornou exterior e obrigou os elfos a fecharem os olhos diante de tanta luminosidade.

— Espere, Seraph! Ainda temos algumas perguntas!– Mas era tarde...Ou não era a hora. E ao reabrir os olhos Baden só pôde tocar vagas partículas de luz. Após alguns segundos de silêncio, tornou a falar, porém não para inquirir:– Não sei se vai ouvir o que tenho que dizer, se já está muito longe, mas como não estamos sozinhos e a minha intenção é alcançá-lo, deixo no universo o meu obrigado por tudo.

— Faço minhas as palavras do meu irmão.– Eluen complementou, abraçando-o pelas costas.

— E eu as do meu novo amigo e as de minha esposa.– Disse Odin, fitando de frente tanto Baden, mais sério, porém tranqüilo, quanto Eluen, que abriu um sorriso desmedido; afinal ouvira a palavra tão aguardada: “esposa”.


“Menah deve ter me traído. Não havia meio de Shara ser filha de duas criaturas tão vis! Como conheci a mãe, ao menos o pai deve ter sido nobre, bondoso, sem crueldade; eu a amava, filha. Ao menos pelo fato de tê-la criado, posso considerá-la como minha filha; por você aceito morrer”, chamas não só de insanidade se juntavam em volta de Badar, que ateara fogo à parte do castelo que protegia, além de não ter piedade dos que se aproximavam; as tochas manipuladas por sua mente se viravam e rodavam para derramar o fogo, tapetes e móveis eram consumidos e quem se encontrasse por perto teria o mesmo destino. Seus olhos coruscaram com o despontar de Vanadis, Gilgash e seus ex-companheiros entre as labaredas.

— O que está fazendo, Badar? Perdeu a sanidade junto com sua honra?– Indagou Balin, recebendo de volta apenas o olhar incandescente, que se mantinha.

— Pelo visto endoidou de vez, o coitadinho. Já não era muito certo da cabeça...– Comentou Eosen.

— Então este que é Badar, o irmão de Svava?– Inquiriu Vanadis.

— É ele mesmo.– Durin confirmou; Gilgash ficou um pouco para trás. Tratava-se de um problema a ser resolvido entre eles; só interferiria em caso de necessidade extrema.

— Não foi por ela que deve ter perdido a sanidade...– A ex-Disiran liberou um suspiro.

— Onde está a minha irmã?– Por fim, Badar se pronunciou.

— É a verdade...Ele ainda não sabe.– Durin deteve uma reação intempestiva de Vanadis, que se preparara para dar uma resposta ríspida.

— Do que não sei?

— Svava está morta.– Balin foi direto ao ponto; no instante seguinte, os olhos dele passaram a brilhar com um fulgor improvável.– Morreu em decorrência dos seus ataques psíquicos, pouco depois da luta entre vocês ser interrompida.

Vieram os questionamentos na mente de Badar: “Devo ficar feliz ou entristecido? Tive a intenção de matá-la durante a luta, por que ficaria triste? No entanto, como seria a minha reação se a visse morta? Talvez sentisse um certo choque, por ver o mesmo sangue que o meu derramado no chão; mas de que vale o sangue se ela não passava de uma estranha, se não tinha nada em comum comigo, se não convivíamos? Mostrar que como sura sou superior a uma disira; deixar o nome da minha família limpo: podem ser motivos de felicidade. Só não entendo que felicidade é essa que se esvai quando ouço o nome dela, imagino meus pais cabisbaixos e penso que fui eu que lhe arrebentei os vasos do cérebro. Assim como eu não queria que ela me matasse, ela provavelmente não desejava ser morta por mim”.

— E o que pretendem fazer?– Não demonstrou abalo diante dos invasores.– Busca vingança, Disiran?

— Não sou baixa. Sei que a vida da minha amiga não será devolvida com a sua morte. Se nos deixar passar e for embora deste país, não voltar nunca mais, deixo você viver.– Replicou Vanadis.

— Quem lhe disse que quero continuar a viver?

— Vai me dizer agora que está sofrendo pela morte da sua irmã?

— Claro que não. Mas desejo morrer pela minha honra como guerreiro; não fugirei.

— Deixa disso, doidinho! Você nem derrotou direito uma comandante; quer vencer logo a Disiran?– Partiu a provocação de Eosen.

— Você não me ouviu, idiota?! Eu aceito morrer.

— Não subestimem Svava. Ela era uma grande guerreira. A hierarquia nunca é garantia de vitória em uma batalha.– Vanadis se opôs à discussão.– Nem sempre fui a Disiran. E desde que me tornei, aprendi a sempre respeitar meu oponente, seja quem seja. Pois bem, Badar: aceito seu desafio.

— Não é um desafio; mas vou atacar para matá-la, mesmo que depois seja morto pelos outros.

— Então você só está certo da sua derrota geral, não da individual.

— Vocês sei que não se importam com honra.– Voltou-se para os antigos companheiros.– Podem me atacar e me matar depois, caso eu a derrote.

— Realizaríamos a sua vontade com imenso prazer...– Eosen zombou.

— Mas isso não irá ocorrer.– Foi a aposta de Durin; Gilgash estava ansioso para observar os poderes mentais do sura. Bastante a respeito lhe fora falado.

O confronto teve início com o primogênito dos Alfis exercendo uma forte pressão mental em Vanadis, com a finalidade de arrebentar seu crânio; era diferente da luta contra Svava. Estava naquele momento presente empregando o máximo de suas forças, afinal pensava que seriam seus últimos instantes; devia encerrar sua vida sem remorsos de que não usara todo seu potencial. Mesmo que morresse, levaria algum ou alguns de seus inimigos consigo. E a ex-Disiran pareceu resistir por alguns segundos, porém logo seu rosto se contorceu de esforço e dor, fechou os olhos, começou a suar e, quando as testas dos dois brilharam mais intensamente, o diadema dela arrebentou para o espanto de Eosen e Gilgash, que foi o que ficou mais boquiaberto com os poderes de Badar, que passou a sorrir e, amplificando ainda mais a força de sua mente, conseguiu fazer com que uma veia aparecesse na testa de sua adversária e uma hora o sangue espirrasse para fora; não demorou para ela cair morta aos seus pés, com os olhos arregalados, a boca escancarada e a poça vermelha pegajosa embaixo da cabeça, se espalhando pelo chão, grudando nos belos cabelos.

— Não vou conseguir acabar com todos. Mas uma já levei comigo. Que venha o próximo!– Apesar de ofegante, provocou seus oponentes, que não avançaram; pareciam apavorados e ele sorria.

— Não acha que é um pouco cedo para cantar vitória?– Espanto; não sentiu mais as mãos, gelou por dentro e por fora e dessa vez foi sua testa que quase esguichou sangue quando Vanadis começou a se levantar:

— Impossível! Você não pode ser imortal!

— Quem disse que não?– Ela sorriu com ironia, o rosto sujo de sangue, e começou a empurrá-lo com a sua energia, que se parecia com um rebojo violeta que tomou conta do chão e foi absorvendo o fogo em volta, ao invés de apagá-lo. O diadema reapareceu na testa, intacto.

— Agora compreendo: foi uma ilusão. Achei que a tinha matado, mas na verdade nada aconteceu.

— O diadema que uso bloqueia agressões mentais. Mas não serviria de nada se eu não tivesse poder psíquico e treino suficientes para mantê-lo ativo; e o que você viu foi pura obra minha.

— Diziam que minha irmã era a mais desenvolvida mentalmente entre as disiras, mas não se compara a você. Não à toa que é a Disiran.

— Para me tornar o que me tornei, tive que estudar e praticar um pouco de tudo. Mas Svava era mais especializada em alguns aspectos, tinha uma clarividência fora do comum.

— Ha! Não há mesmo esperança para mim...Estou numa luta perdida!– Sua seriedade aparente englobava um tanto de sarcasmo e bastante melancolia.

— Espero que Svava me perdoe por enviá-lo para a dimensão na qual ela se encontra, embora isso possa ser relevado porque há muito espaço e as probabilidades de reencontro são baixas, a menos que ela queira, pois vocês não farão parte do mesmo plano: seus sentimentos, pensamentos e personalidades são antagônicos. Que seja como há de ser...– O remoinho daquela espécie de plasma roxo luzidio, cada vez mais incandescente, se expandiu para perto de Badar, que tentou uma última resistência criando réplicas de si mesmo, porém estas foram absorvidas, uma a uma, junto com o original, fosse qual fosse. As expressões de todos, ao serem sugados, foram de um certo desafogo.

— O duelo mental me deixou realmente impressionado.– Comentou Gilgash.

— Você conseguiu ver alguma das ilusões?– Durin lhe perguntou.

— Eu a vi cair ensangüentada no chão, sabendo que era uma miragem. Fiquei embasbacado com a impressão de realidade que causou na mente do antigo companheiro de vocês.

— Eu também vi, mas tomei um susto! Achei que não fosse de mentirinha.– Eosen comentou.

— Isso quer dizer que você também tem um certo poder mental, ainda não bem canalizado.

— Não consegui ver nada de incomum.– Balin fez seu comentário.

— Vamos parar de falar sobre isso. Badar já não vive mais entre nós. Precisamos avançar para cuidar do que há.– Pouco à frente, sem apresentar mais nenhuma energia espiritual, ela falou sem se voltar para os quatro; o cenário ao redor estava silencioso e obscuro, as tochas apagadas, jogadas pelos corredores, com rastros de destruição por toda parte.

“É uma líder nata e plena, tanto na postura quanto na força, na voz e na determinação”, refletiu o lomai. “Será que atrás disso não existe uma ponta de orgulho? Não pode ser perfeita.”

— Um homúnculo meu pode gerar a luz que precisamos para avançar.– Durin se adiantou.

— Então me guie até Ymun. Pois além disso você conhece o caminho.– Vanadis se voltou para ele e abriu espaço para que o ex-sura fosse à frente. Quanto a Badar, de fato, não existia mais nada de orgânico; somente sua armadura vazia. Estranhamente, quando o grupo partiu, um wyvern demonstrou que era possível se embrenhar no castelo sem ser percebido e permaneceu um pouco ali, prestando uma última homenagem. Não estava sozinho, pois ao seu lado, semi-transparente, despontava a figura da pequena Shara, com os cabelos a ensombrar-lhe o rosto...

A ex-Disiran e seus companheiros prosseguiram para chegar ao salão do rei; e Odin, Baden e Eluen, por outros caminhos, também iam. O restante das pessoas que circulava pelo castelo ou do lado de fora e protestava era mantido em ordem pelas disiras fiéis a Vanadis, que impediam os excessos. Ymun, com a esposa por perto, esperava sua hora. Dedilhando continuamente onde apoiava os braços em seu trono, a imaginar seus inimigos despencados, como cadáveres, estarrecidos, aos poucos ficando frios; via à sua frente uma coluna precipitada, com sua base, a única parte ainda atrelada ao solo, corroída por musgos miseráveis. Ouviu algumas risadas zombeteiras, à distância; seus pulsos começaram a ficar moles e decidiu se levantar sair dali. Sua companheira o fitava com tristeza, enquanto ele evitava olhá-la, preferindo se amaldiçoar. As portas estavam fechadas.

Quando Vanadis entrou, ao lado de Durin, Gilgash ouviu no ato os pensamentos e sentiu as intenções hostis. “Tenho que matá-la no primeiro golpe!”; achando que seus companheiros se distrairiam ao ver a esposa do rei, que engoliu seco, ainda sentada no trono, ele resolveu avisar:

— Cuidado, Vanadis! Ymun vai atirar algo em você!– Contudo, não teria sido rápido o bastante. E não foi, pois a maça de esporas envenenadas já fora atirada para atingir a cabeça da líder das disiras em cheio, mas ela também pressentira o ataque e paralisou a arma no ar, enquanto sua aura violeta tornava a aparecer, desta vez mais evanescente, espalhando-se por todo o salão feito um tipo de gás tóxico e tornando pesados a respiração e os movimentos de quem se encontrava no local, menos no caso dela. O rei de Warman, escondido atrás de uma cortina azul-escura opaca, começou a tossir e se denunciou, indo de joelhos ao chão.

— Por favor, poupem a vida do meu marido!– Naquele instante a companheira de Ymun ficou de pé e liberou seu pedido em voz alta, ainda um pouco desajeitada no lugar onde se achava. Foi se afastando do assento real e, tossindo um pouco, aproximou-se do grupo.

— É melhor parar com essa névoa. Ymun já foi vencido.– Disse Durin.

— E a minha garganta está queimando e o meu nariz irritado.– Reclamou Eosen.

— Têm razão, não há mais necessidade.– A ex-Disiran apagou sua aura e a maça, até aquele momento suspensa em uma área mais densa do ar, como se estivesse em uma gelatina, despencou no chão.– Por fim Warman está livre.

— Não me importo com disputas pelo poder. Eu mesma o aconselhei muitas vezes a desistir. Só não quero que ele pague pelo excesso de ambições com a vida.– A cônjuge do rei parecia firmemente disposta a protegê-lo e a enfrentar qualquer um que se opusesse aos seus propósitos.

— Loren, isso é ridículo. Não quero morrer, mas não preciso rastejar para implorar pela minha vida.– Derrotado, Ymun se ergueu devagar porém firmemente do chão, primeiro se apoiando no joelho direito, com a cabeça baixa, depois ficando ereto e encarando primeiramente seus ex-subordinados. Agora ele era o cadáver; do seu ponto de vista, seus dedos ficavam verdes enquanto suava frio, e o resto do corpo vermelho. Durin lhe inspirou terror, um terror silencioso, que vinha para rasgar sua alma de uma forma bem lenta e retirar tudo o que havia, não permitindo a intervenção súbita para que sofresse aos poucos, sentindo com detalhes a perda de cada picuinha que lhe era preciosa, chegando à loucura quando não houvesse mais onde se segurar; Balin apareceu como aquele que daria os piores castigos físicos, que o espancaria dia e noite e o deixaria sem alimentos e com sede, o estômago escavado; e Eosen destroçaria sua mente, riria e faria troças e zombarias, o faria sentir ridículo, o verme mais achincalhado de toda Warman, motivo de piadas para os adultos e mau exemplo para crianças e jovens, que um dia fora um rei incapaz e desonesto.

— Assassinatos não são do meu feitio. Não sou como certas pessoas.– Enfim recebeu o olhar de Vanadis, que inicialmente não tivera ânimo de encarar, apavorado por dentro, por mais que exteriormente parecesse inabalável.

— Muito obrigada, Disiran.– Sua esposa agradeceu. Ele teve vontade de dar um soco nela.

— No entanto, a impunidade é a raiz dos vícios.– Citou um provérbio muito conhecido em Warman.– Você será trancafiado nos calabouços do castelo pelo resto de sua vida, Ymun. Sem torturas, é claro. Mas não poderá sair.

— Eu vou com você...– Loren se voltou para o marido, que não respondera, formando uma carranca e depois ficando cabisbaixo, em silêncio por alguns segundos. Diante da resposta dela, um choque elétrico lhe percorreu o corpo e tornou a levantar a cabeça, o rosto ainda sério, porém não mais carrancudo e com os olhos mais abertos, e falou:

— Isso não é vida para você. Vá embora e me deixe sozinho.

— Assim como não queria que mendigassem pela sua vida, não quero que você, que sempre foi egoísta, dê uma de alma nobre a essa altura. Sei como você é e o aceito assim; não me importo com luxo, com requintes, nem tenho amizades fora do castelo. Você se lembra de como me conheceu? Não sou de nenhuma família tradicional. Não tenho mais os meus pais, nem irmãos. Mesmo que se julgue pouco, ainda é tudo o que tenho.

— Seja livre. Não vale a pena ficar numa prisão comigo. Justo comigo! Ou por acaso prefere ficar enclausurada a ser mendiga?

— Saiba que posso fazer muitas coisas lá fora. Tenho valor e posso aprender. Não me conformaria em ser uma mendiga! Mas ao mesmo tempo prefiro com você. Porque lá fora, mesmo que conquistasse muitas coisas, seriam conquistas solitárias. E não me importo em não ter nada!

“Ele a tirou da miséria, isso está bem evidente. Mesmo assim, como uma pessoa tão pura consegue gostar de alguém como Ymun? O amor é mesmo um mistério”, Gilgash refletiu, enquanto o rei deposto se aproximou de sua companheira com uma energia que lhe deu a impressão que era de raiva, mas ao invés de bater nela, como parecia que iria fazer, abraçou-a com ternura.

— Eu podia esmagar todos os seus ossos num abraço só. Você é tão pequenininha...– Murmurou-lhe.– Mas ao mesmo tempo é grande demais pra mim.

— Você é grande. Um grande idiota! Mas eu sou pior ainda.– Ela disse em voz alta; Vanadis bufou. Apesar daquele indivíduo ter sido seu pior inimigo durante tanto tempo, não podia deixar de sentir pena do casal; pior para ele, que ficaria tremendamente aborrecido e se sentiria humilhado com a piedade da Disiran. Naquele instante, entretanto, não a olhava nem pensava nela, limitando-se a Loren. Soltou os cabelos dela, que estavam presos, e enrolou seus dedos entre os fiozinhos. Aquele dedilhar tenro era totalmente diferente do de antes.

Ymun nunca se sentira antes tão bem como naquele momento. Poder, riquezas, sexo...Nada disso o deixara tão aliviado. O contato com sua própria esposa sempre fora muito mais distante, e abrupto; continuava tenso, duro, em busca...Não sabia o que era paz. Nada adiantara. Opusera resistência à vida inutilmente; lutara para cair, que vergonha! Se via pequeno, com a primeira namorada; não chegara à idade adulta, querendo, puxando, sem poder desabar no colchão e sonhar; agora podia dormir um sono tranqüilo. Seria monótono por estar amarrado, forçado a ficar na cama? Durante tanto tempo só fizera bagunça em volta desta, com Loren tentando arrumar! Inexplicável foi, em meio àquela conturbação que aos poucos aplanava, avistar o impossível:

— Sua tirania chegou ao fim. Quem nunca respeitou os direitos alheios pode ter os seus respeitados?

Aquela voz não lhe era estranha, mas ao mesmo tempo não conseguiria associá-la ao dono se não estivesse revendo Baden, tão bem e saudável como quando o prendera. Soltou-se de sua companheira e só lhe restou tremer.

— Calma, Baden. Por favor.– Eluen tentou segurar seu irmão, que entrementes partiu na direção de Ymun e desferiu-lhe um soco na face.

— Como pode estar recuperado? Se eu não estivesse vendo jamais acreditaria!– Disse o ex-rei, cambaleando com a boca ensangüentada.

— Baden, pare com isso!– Mesmo os apelos da irmã eram inúteis; e seus companheiros se preparavam para segurá-lo quando Loren se colocou à frente do marido e recebeu o segundo soco, caindo de imediato no chão depois de soltar um grito; o filho de Malin ficou paralisado após golpear uma inocente e Ymun se aproveitou para reagir.

— Basta! Não se dão conta do que a violência já causou e ainda pode causar entre nós?– O Asir deixara sua mão incandescente e teria incendiado o abdômen de Baden se Vanadis não se tivesse interposto, segurado-lhe o braço e conseqüentemente resfriado seu membro e seus ânimos.

O irmão de Eluen foi até a pequena elfa, ainda no chão, e a ajudou a se levantar.

— Perdão.– Disse em voz baixa.

— Eu entendo. Não sei quem você é, mas entendo que odeie o meu marido.– Ele ia apoiar Loren em seu corpo, mesmo diante do olhar raivoso de Ymun, mas ela se desvencilhou.– Pode deixar...Consigo ficar de pé sozinha.

— O meu nome é Baden. Por acaso isso lhe traz alguma lembrança?

— Sim.– Ela se recordou da vez que advogara em favor de Eluen para que a disira pudesse ver seu irmão. Era ele, o torturado; como podia estar tão inteiro? Sequer o ich teria conseguido tamanho milagre.– Peço perdão por ele também.– Só conseguiu falar depois de alguns segundos a fitá-lo admirada; gravara o nome dele em sua memória porque o sofrimento fora grande, o mal causado imenso. E isso deixava mais impressões lembradas.

— Por um milagre de Eljai o meu irmão está vivo.– Os filhos de Malin se aproximaram, assim como os cônjuges Asir. A ex-disira continuava se referindo a Eljai, pois não seria fácil explicar a qualquer um sobre os kumaras.– E por um milagre Dele você também permanecerá vivo.

— Nunca fui de acreditar em milagres, mesmo vindo dos adanas.– O rei deposto ainda resistia.

— Que outra explicação encontraria para a presença de Baden?

— Nenhuma. Só sei que vocês venceram; podem me acorrentar.– Ofereceu as mãos.

— E a mim também.– Loren foi clara.

— Não.– Veio a voz de Odin, que fez até Vanadis tomar um susto.

— Como não? Vai deixar que ele continue livre depois de tudo o que causou?– Pega de surpresa, a ex-Disiran questionou; embora não levantasse muito a voz, havia indignação em seu tom.– Não se lembra de como foi recebido em Warman? Poderia odiar o nosso país, com razão, por culpa de um facínora. Poupar-lhe a vida já é uma concessão enorme pelas cicatrizes que deixou no reino.– O próprio Ymun olhou para Odin cheio de dúvidas e com algumas desconfianças.

— Mas eu não odeio o seu país, sei muito bem separar as coisas. E o pior castigo para ele será a vergonha de caminhar no meio do povo ciente do que fez e foi. Não poderá nunca mais se candidatar a nada, isso é certo. Viverá uma vida sem aspirações, e tendo que buscar o próprio sustento, não recebendo a comida e a água de um carcereiro. O que poderia ser pior para ele?– E Vanadis ponderou; talvez fosse mesmo o melhor a se fazer.

— Está satisfeito com a minha ruína, príncipe de Tudnan?– O ex-rei se atreveu a perguntar.

— Estou satisfeito com o fato da justiça ser cumprida. Quanto à sua vida, agradeça à Eluen...

— Agradeça a Eljai.– A filha de Malin deu a réplica; Baden se retirou e Odin foi logo atrás.

— Maldito seja, Eljai...– Ymun sussurrou sem ser ouvido por ninguém, na hora de ser levado para fora; incrivelmente, havia gratidão em meio à raiva.






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