Maori. Leurs trésors ont une âme



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Encontro03.05.2017
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O presente trabalho pretende discutir a exposição “Maori. Leurs trésors ont une âme” em cartaz no Museu do quai Branly de outubro de 2011 a janeiro de 2012. Esta exposição marca a história do museu por ser a primeira experiência de “auto-representação” realizada pela instituição, tendo sido inteiramente concebida pelo museu neozelandês TePapa Tongarewa, pretendendo levar para a França uma visão propriamente Maori sobre sua arte, seus objetos e sua cultura.

A exposição proposta pelos Maori, primeiros habitantes da Nova Zelândia, mistura objetos etnográficos e de arte contemporânea, performances e vídeos, articulando questões estéticas, cosmológicas e políticas que se interpenetram produzindo uma estética específica que precisa ser analisada levando-se em conta os discursos dos diversos atores envolvidos em sua produção. A exposição traz à tona a discussão da representatividade política por meio da arte e da participação ou controle nativos das representações feitas sobre eles.

O museu Te Papa Tongarewa, um museu nacional localizado em Wellington, é um dos grandes defensores da luta identitária Maori e do projeto bi-cultural da Nova Zelândia. Quase todos os objetos que compõem a exposição pertencem a este museu e toda a idealização cenográfica, os textos presentes no percurso e o catálogo foram produzidos por sua equipe. A exposição foi apresentada em Paris exatamente da mesma forma que foi montada na Nova Zelândia, com acompanhamento integral da equipe neozelandesa1.

Dividido em partes temáticas relacionadas a conceitos ou valores importantes para a cultura maori, o percurso da exposição pretende levar o visitante a uma compreensão das principais características desta cultura e dos momentos históricos e lutas políticas atravessados por este povo. O nome da exposição – em português “Maori. Seus tesouros têm alma” - aponta para um interessante aspecto da relação que os maori estabelecem com seus objetos. Não apenas objetos materiais, mas também bens imateriais como a língua, a genealogia, o direito à autodeterminação, os fundos marinhos e o ar são considerados taonga, ou “tesouros”, o que é determinante na forma como se produz, coleta, conserva, expõe, narra e aprecia objetos maori. Este aspecto foi fundamental para a reconstrução cultural maori e sua imposição perante a coroa britânica e o governo neozelandês e suscita interessantes reflexões para o campo do patrimônio e da preservação, bem como questões ligadas ao direito de propriedade e à exibição de objetos.

Desde os anos de 1970, os maori vêm travando intensas lutas políticas e vivenciam um forte renascimento cultural. As reivindicações que marcam a retomada de força política, sua língua e expressões artísticas vão se tornando bandeiras fortes da identidade não só maori, mas também neozelandesa de forma geral. Assim, as conquistas e expressões estéticas maori, especialmente a tatuagem e o haka – dança tradicional realizada hoje por sua seleção de rúgbi antes das partidas -, ganham visibilidade internacional. Não é surpreendente então, que sejam os primeiros a vencer os muitos obstáculos para a realização de uma exposição com curadoria própria no Museu do quai Branly.

Inaugurado 2006 em uma prestigiosa área da cidade de Paris, o Museu do quai Branly é dedicado exclusivamente às artes não europeias. É uma obra grandiosa que coroa a amizade do então presidente da França Jacques Chirac com o colecionador de arte africana Jaques Kerchache. A instituição recebe cerca de 115 mil visitantes por mês, incluindo parisienses e turistas de todas as idades. O museu possui uma impressionante coleção de mais de 300 mil objetos, dos quais 3 500 estão expostos no plateau das coleções, compondo sua exposição permanente, organizados em uma construção de arquitetura moderna e conceitual.

Desde sua criação, foi alvo de muitas críticas e alimentou polêmicas entre antropólogos, arqueólogos, museólogos e representantes políticos de diversas partes do mundo. Grandes coleções etnográficas de museus franceses foram remanejadas para o novo museu, levando ao fechamento de instituições tradicionais como o Museu do Homem, também em Paris. Apesar de nascer com a intenção política de reparar injustiças históricas apresentando as arts premiers em um verdadeiro museu de Arte, moderno e aberto ao diálogo, o Museu do quai Branly não abandona antigos pilares coloniais que definiram o gosto dos franceses pelo Outro, expresso das mais diversas formas em diferentes contextos, definindo o Outro pela negação, pelo contraste com o Nós2.

Seu convite à uma “viagem de descoberta do mundo” ou do “outro” é uma proposta que vem sendo feita há muito tempo neste país, mas a maneira como é feita, a estrutura implicada e estética construída para esta exibição nos diferentes momentos históricos revela as mudanças ocorridas no mundo, na maneira como se concebe a diferença e o lugar que ocupa. Em um mundo pós-colonial, o surgimento de um novo universalismo, aquele das diferenças culturais que devem ser preservadas da supostamente homogeneizante mundialização, parece guiar a criação de um museu francês de Arte dos Outros3.

Por meio de diferentes propostas curatoriais desenvolvidas nas exposições temporárias, o museu vêm tentando incorporar novos discursos que possam repensar críticas feitas à maneira de exibição dos objetos de sua coleção, considerada por muitos como excessivamente estetizante, e dialogar com reflexões contemporâneas da Antropologia sobre arte e objetos. Apesar de terem sido os maiores críticos da criação do museu, os antropólogos estão presentes em sua estrutura e têm participação ativa especialmente na produção de exposições temporárias e organização de eventos científicos, abrindo-o assim uma polifonia de significados.

A exposição Maori traz a tona diversas questões envolvidas em sua realização. Há uma forte questão diplomática na base deste acontecimento ligada a demanda de restituição de crânios tatuados mumificados maori pertencentes à coleção do museu, que terminou por entregá-los aos representantes do Museu TePapa Tongarewa em cerimônia realizada após o término da exposição. Além disso, há um grande esforço por parte do museu em valorizar a experiência como forma de rebater as críticas que recebe, embora a constante insistência na autenticidade e independência da curadoria nativa contribua também como forma de isentar a instituição do discurso fortemente político apresentado pelos maori.

Este caráter engajado bastante marcante no percurso da exposição talvez seja de fato a característica que mais a diferencia das demais exposições temporárias propostas pelo Museu do quai Branly. A análise desta exposição permite compará-la com o projeto geral do museu e de muitos outros museus que vêm sendo constituídos mundo a fora. Os processos de musealização, assim como de patrimonialização têm mostrado como as preocupações mundiais com a salvaguarda das culturas “primitivas” e a “patrimonialização das diferenças” vêm afetando a vida dos objetos e das comunidades4. Certos deslocamentos vêm ocorrendo neste ideal que provocou, em parte, o surgimento das coleções etnográficas, e na noção de que era preciso coletar os objetos produzidos por culturas que fatalmente desapareceriam.

A estratégia maori não deixa de evocar um mecanismo de construção de uma identidade nacional por meio da distinção daquilo que deve ser caracterizado como patrimônio cultural a ser preservado e protegido do esquecimento5. Contudo, com o crescimento de iniciativas de patrimonialização e musealização conduzidas a partir do interior de “comunidades tradicionais”, o foco se desloca para o futuro. O esforço constante na exposição Maori é o de apresentar “a cultura viva e dinâmica dos Maori, de um ponto de vista maori contemporâneo”6, uma cultura em plena expansão.



1 A exposição foi exibida no TePapa de abril a junho de 2011 sob o nome “E TU AKE: Standing Strong”.

2 L'ESTOILE, Benoît de. Le goût des autres: de l'Exposition Coloniale aux arts premiers. Paris: Flammarion,2007.

3 Ibid.

4 ABREU, Regina. “A Patrimonialização das diferenças: usos da categoria ‘conhecimento tradicional’ no contexto de uma nova ordem discursiva” In:Barrio, Angel Espina et all (org.)Inovação Cultural, Patrimônio e Educação, Recife, Fundação Joaquim Nabuco. Ed. Massangana, 2010.Pp.65-79.

5 GONÇALVES, J.R.S. “Patrimônio Cultural e Narrativas Nacionais”, in:A Retórica da Perda. Os discursos do Patrimônio cultural no Brasil. RJ, Ed. UFRJ, MINC/IPHAN, 1996.Pp. 11-35.

6 SMITH, Huahana, “Introduction”, in:Maori.Leurs trésors ont une âme”. Paris, Co-ed. Musée du quai Branly e Somogny, 2011. Pp. 8-19.




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