Manual para elaboraçÃo e apresentaçÃo de monografias no curso de direito



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Encontro14.09.2018
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Surgimento do Islã e fatores que ajudaram a interromper a expansão muçulmana por toda Europa

Charles Pires Neves*


Resumo: Este artigo objetiva opinar sobre a maneira como o Islã se ergueu, propagou e conquistou a península arábica, chegando às “portas da Europa”. Dentre os fatores que evitou a conquista da Europa pelos mesmos, podemos fazer alguns destaques, como os povos Francos, sob o comando de Carlos Martel que evitou a queda da Europa Ocidental e dos Povos Khazares que evitou a penetração na Europa através da Europa Oriental, bem como os Montes Pirineus e a cadeia montanhosa do Cáucaso, que também contribuíram para impedir essa avalanche árabe surgida a partir do século VII, de conquistar o velho continente.
Palavras Chave: Islã, expansão, barreiras, Europa.
Inicialmente podemos afirmar que no início do século VI e início do século VII, os Impérios Bizantinos e Sassanidas travaram longas guerras, que aos poucos foram minando as condições e causando desinteresse para as terras que hoje chamamos de “Crescente Fértil” e para que os mesmos ampliassem seus domínios sua capacidade de manter-se à frente dos Impérios. Nessa faixa de terra existiam comunidades nômades que tinham sua liderança em função dos oásis.

Por volta do ano de 570, nasceu em numa tribo de coraixitas, tribo essa composta por mercadores, o organizador da base do islamismo, Maomé. Duramente perseguido pelos acasos do destino, tendo perdido seu pai antes de nascer, ainda criança perdeu sua mãe e seu avô, passando a ser criado por um tio.

Assim, na primeira fase de sua vida ele foi um mercador que manteve contato e comercializou com as tribos da região, passando a se tornar conhecido e ter projeção a partir do seu casamento com uma viúva chamada Cadija.

Segundo a história, quando tinha cerca de 40 anos Maomé ao perambular por entre as montanhas de Meca, normalmente fazendo jejuns e meditando, recebeu a visita do anjo Gabriel que o convidou para ser o disseminador das palavras de Deus, sendo o seu Profeta na terra. Tendo a sua esposa e a família como seus os primeiros seguidores, e posteriormente o grupo coraixitas, ao concordar e apoiar as suas palavras. Tendo esse pequeno número de seguidores, Maomé passou a divulgar palavras e pregações que acreditava ter vindo do anjo e passou a ter cada vez mais e mais seguidores.


Passando a contrariar interesses, por causa das suas pregações Maomé foi obrigado a se mudar para Yathrib, conhecida como Medina, em 622, fato esse conhecido como Hégira. A partir daí Maomé passou a acumular poder que começou a espalhar-se cada vez mais pela região.

A partir da morte do profeta Maomé, por volta do ano 632 é que podemos afirmar que tem início à expansão árabe, já que seus sucessores, inicialmente, para manter a unidade tiveram que conquistar e esmagar alguns descontentes.

Sobre a expansão árabe, Jacques Herman em Guia da História Universal escreve:
“Os califas, soberanos políticos e religiosas, da dinastia dos Omíadas governam o império árabe de 658 a 750; sucede-lhes, de 750 a 1258, a dinastia dos Abassidas. Este período é assinalado por numerosas conquistas. O império árabe estende-se desde a Espanha até a África do Norte, do mar Vermelho ao mar Cáspio e do Turquestão ao mar de Omã.” (1981, p.83)
A partir de 642, saindo do Egito tropas militares árabes passaram a se deslocar em direção ao norte da África, tendo em 670 fundado a cidade de Al-Cairouan que passou a servir como base de apóio para incursões militares mais distantes.

As primeiras incursões militares árabes à região, entre 642 e 669, partiram do Egito e ocorreram mais por iniciativas locais do que propriamente por uma estratégia do califado central. No entanto, quando a sede do califado transferiu-se de Medina para Damasco, os omíadas reconheceram a importância de dominar o Mediterrâneo, o que exigia um esforço militar conjunto sobre o norte da África. Em 670, um exército árabe, chefiado por Uqba ibn Nafi, fundou a cidade de Al-Cairouan, cerca de 160 km ao sul do que hoje é a cidade de Túnis, que passou a servir de base para operações militares mais distantes.

No ano de 711, Tarik ibn Ziyad, um general liberto e governador da faixa ocidental do Magrebe, venceu o visigodo Rodrigo, rei de Espanha. Desembarcando na Espanha, junto a um enorme rochedo, que tomou o nome de Jabal-i-Tariq, mais tarde ocidentalizado para Gibraltar, indo sempre em direção ao norte. Em 712, uma nova leva de árabes chegou à região, quando grande parte da Espanha central, Portugal e partes da Itália já tinham sido ocupadas. Seguiram-se as conquistas de Medina, Sidônia, Sevilha e Mérida. Os árabes estabeleceram uma nova capital em Córdoba, às margens do rio Guadalquivir.

Na Espanha conseguiram se firmar sem contudo conseguir ampliar mais os seus domínios, fato esse se deu, também em virtude da existência dos Pireneus que são uma cordilheira montanhosa no sudoeste da Europa cujos montes formam uma fronteira natural entre a França e a Espanha, separando a Península Ibérica da França, e estendem-se por aproximadamente 430 km, desde o Golfo da Biscaía, no oceano Atlântico, até o cabo de Creus (extremo oriental da Espanha continental), no mar Mediterrâneo. Essa barreira natural impossibilitou o avanço por essa região, já que ela forma a fronteira franco-espanhola.

Assim, após conseguirem se firmar em terras espanholas, os árabes continuaram no sentido norte em direção a atual França, inicialmente em 721, quando foram rechaçados pelo Odo, o Grande. Quando em 732 teve um embate que praticamente colocou um ponto final a expansão árabe nessa direção. O chefe dos Godos, que dominavam essa região, ao perceber que iria agüentar dessa vez os invasores árabes, principalmente após perder na batalha do rio Garone, recorreu ao auxílio de Carlos Martel, que por sua vez condicionou a ajuda aos Godos, desde que ele fosse reconhecido como seu soberano.

A Batalha entre o exército de Carlos e os árabes aconteceu entre Tours e Poitiers, em 732. Nessa batalha, os muçulmanos chegaram a penetrar nas defesas de Carlos Martel, porém o bloqueio foi refeito e os mesmos não conseguiram adentrar-se. Já no terceiro dia da batalha, o líder muçulmano Abdul Rahman foi ferido mortalmente. Assim os muçulmanos sem seu líder e distante de sua capital, optaram por retirar-se do campo de batalha pela noite. Nessa batalha, Carlos Martel utilizou a cavalaria pesada, servindo como tropa de choque com longas lanças para deter a infantaria árabe. Já que nessa época a técnica dos árabes consistia em utilizar os seus cavaleiros rompendo a linha defensiva inimiga, causando o caos, para os seus guerreiros a pé penetrarem nas linhas inimigas.

Nessa mesma época existia na Europa Oriental, na região entre o Cáucaso e o Volga, que fica entre as terras à época ocupada pelos Árabes e a Europa, um povo judeu denominado Khazar. Povo esse que muito pouco se tem e se conhece sobre a sua história. Até pelo motivos de os mesmos terem vivido seu esplendor em territórios que posteriormente teve como novos dominantes países com economias dito “comunistas” cujos regimes tem em comum em não divulgar para o mundo fatos relacionados com sua região. Porém, falar sobre os Kazares é tão importante quanto às ações que os mesmos realizaram ao reterem o avanço árabe em direção à Europa, pois, conforme KOESTLER (2005, p. 16 ), “é o fato de que tropas khazares contiveram de maneira eficaz a avalanche árabe, mesmo durante seu período mais devastador, impedindo, assim a conquista do Lesta Europeu pelo muçulmanos.”

Assim como na Espanha, essa região entre a Asia e a Europa é como se fosse uma fronteira natural, já que a cordilheira do Cáucaso é uma cadeia de montanhas longa de 1200 km entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, freqüentemente considerada o limite do extremo sudeste da Europa, formando uma das divisas com a Ásia. Forma duas cadeias distintas: o Grande e o Pequeno Cáucaso. Segundo KOESTLER (2005, p. 29) “o Cáucaso representava um obstáculo natural impressionante, porém não mais instransponível que os Pirineus: podia ser atravessado pelo passo de Dariel ou contornado pelo desfiladeiro Darband, ao longo da costa do Mar Cáspio”.

Os árabes bem que tentaram penetrar nessa parte da Europa por diversas vezes pelo desfiladeiro Darband, chegando diversas vezes em território khazar, sendo sempre impelidos a recuarem por causa da defesa khazar. A última vez, ainda segundo KOESTLER (2005, p. 29) “em 652, numa grande batalha em que a artilharia fora utilizada por ambas as partes (catapultas e balistas). Tombaram mais de quatro mil árabes, junto com seu comandante, Abd ar Rahman ibn Rabiah”.

A importância dos Khazares para o mundo ocidental foi vital para o ocidente, segundo DUNLOP, da Universidade de Columbia, uma sumidade em história dos khazares, in Artur Koestler:

O país dos Kazhares (...) estava naturalmente no meio do caminho do avanço árabe. As tropas do califado, que marchavam para o norte por entre as ruínas dos dois impérios , varrendo tudo o que estava à sua frente, chegaram, alguns anos depois da morte de Maomé (632), à grande barreira rochosa do Cáucaso. Uma vez atravessada essa barreira, o caminho para a Europa Oriental lhes estaria franqueado. O acaso fez com que, no Cáucaso , os árabes encontrassem a resistência de um poderio militar organizado, que efetivamente os impediu de estender suas conquistas naquela direção. As guerras entre Árabes e Khazares, que duraram mais de cem anos , revestem-se de uma importância história toda especial , embora sejam muito pouco conhecidas. . Enquanto os Francos de Carlos Martel invertiam o destino da invasão árabe na planície de Tours, mais ou menos na mesma época a ameaça que pairava sobre o Leste Europeu era igualmente aguda (...) E, do outro lado da Europa,os gloriosos muçulmanos foram barrados pelas forças do reino Kazar (...) Não fossem os Kazhares ao norte do Cáucaso, é pouco provável que Bizâncio – bastão oriental da civilização européia – pudesse ter resistido à invasão árabe. E a história do Cristianismo e a do Islamismo poderiam ter sido completamente diferentes daquelas que hoje conhecemos.” (2005, p.16 ),

Outro fator que impediu o avanço árabe foi que a sua expansão para o ocidente gerou uma divisão de poder entre os grandes espaços de dominação muçulmana, em que mantiveram a unidade religiosa, porém a política foi fracionada em três grandes eixos de poder; a Península Arábica da dinastia Honrada, com capital em Damasco; o norte da África, onde a dinastia dos Fatimidas (até 909), sendo substituída pelos Almorávidas; e a Península Ibérica que iniciou sob domínio Omíada, posteriormente Almorávidas e Almôadas, entre os séculos XII e XIII . Sobre as dinastias árabes, MAGNOLI, Demétrio assinala:

A própria expansão muçulmana tem momentos de crise (geradas por fracionamentos internos como a substituição de uma dinastia no poder por outra) alternados como momentos de renovada unidade (quando califas hábeis conseguem reunificar as facções e conduzi-las contra os cristãos), alternâncias cujos reflexos seriam sentidos nas vitórias ou derrotas cristãs frente ao Islã.” (2006, p.105)
Possivelmente se não houvessem barreiras que impedissem a propagação árabe, sejam elas decorrentes da geografia, da persistência e da força de outros povos ou até mesmo da divisão política entre eles, poderíamos na atualidade ter um mundo diferente do que vivemos, pois ao invés da existência de parlamentos em ditos países democráticos na Europa, teríamos que conviver, inclusive em alguns casos, com clãs familiares atuando como verdadeiros donos das terras e seguindo tradições islamitas, em detrimento do catolicismo e até mesmo do pluralismo religioso existente.

BIBLIOGRAFIA
KOESTLER, Artur. Os Khazares a 13ª tribo e as origens do judaismo moderno. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2005.

HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

MAGNOLI, Demétrio. História das guerras. 3ª. Ed. São Paulo: Contexto, 2006.

HERMAN, Jacques. Guia de história universal. São Paulo: Fontes.







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