Mal-estar: marca da escola na contemporaneidade?



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MAL-ESTAR: MARCA DA ESCOLA NA CONTEMPORANEIDADE?


Edileide M. Antonino da Silva 1

RESUMO:
São muitas as pesquisas que investigam a questão do mal-estar docente e da própria escola, afeto que se percebe com frequência no ambiente educacional. Fala-se do mal-estar, da queda da autoridade do professor, das questões sociais, da subjetividade do docente e de outros tantas mazelas que afetam a escola. O tema também tem sido alvo de discussões nas quais são elencados inúmeros fatores responsáveis pela presentificação deste mal-estar, especialmente no que concerne diretamente ao professor: poucos prazeres e muitos desprazeres neste ofício. Estamos em tempos pós-modernos e é possível se constatar o fenômeno da desautorização presente na escola, desestruturando não só o processo educacional, mas a todos os atores que vivenciam este ambiente. Resta-nos investigar o potencial deste fenômeno para o surgimento do clima de mal-estar que circula e circunda a escola. Antes de enveredar pelos teóricos da psicanálise que debatem essa temática, apresentamos o que se discute sobre o assunto num contexto mais amplo através das pesquisas de Saul Neves de Jesus e José Manoel Esteve. Trazemos, então, como relevantes para a compreensão do mal-estar que ocupa a escola contemporânea os estudos do mestre Sigmund Freud sobre o mal-estar na civilização, Marcelo Ricardo Pereira e sua discussão sobre o lugar do mestre na contemporaneidade, Maria de Lourdes Ornellas e o debate sobre os afetos na escola, Bauman e o mal-estar na pós-modernidade. Não concluímos esta fala, pois fica em aberto o questionamento: o bem-estar na escola está no campo das possibilidades ou é mais um desejo utópico? Será o mal-estar docente uma marca da escola contemporânea? O artigo nos propõe uma reflexão sobre isso.

A arte – sempre um pouco impostora por tentar dar contorno ao incontornável – leva não raro o artista a andar sobre a corda roída: espera tenso pelo seu rompimento, ao mesmo tempo em que se esmera em manter-se de pé”.

Marcelo Ricardo Pereira.
Penso aqui o educador como este artista que se esmera por se manter de pé, que busca manter seu equilíbrio sobre uma corda frágil, que tende a se romper a qualquer instante da apresentação. Um equilibrista que vive o risco dia-a-dia, mas que persiste testando seus limites e possibilidades. É sobre o mal-estar nesta corda frágil em que se encontra o docente e a própria escola que pautaremos esta discussão.

Existem diversos trabalhos que investigam a questão do mal-estar na escola, afeto que se percebe com freqüência no ambiente educacional, resvalando inclusive em seu entorno; fala-se do mal-estar, da queda da autoridade do professor, das questões sociais, da subjetividade do docente e de outros tantas mazelas que afetam a escola. O tema também tem sido alvo de discussões nas quais são elencados inúmeros fatores responsáveis pela presentificação deste mal-estar, especialmente no que concerne diretamente ao professor: poucos prazeres e muitos desprazeres neste ofício, e é disso que muito se fala. Na minha condição de professora, questiono os motivos que levam o docente a dar relevância aos aspectos desprazerosos da sala de aula em detrimento dos afetos prazerosos que por ali também circulam.

Estamos em tempos pós-modernos e é possível se constatar o fenômeno da desautorização do professor como algo presente na escola desde outros tempos. Resta-nos investigar o potencial deste fator para o surgimento do clima de mal-estar que circula e circunda a escola. Antes de enveredar pelos teóricos da psicanálise que debatem essa temática, é preciso trazer o que se discute sobre o tema num contexto mais amplo. E o que é que se fala deste mal-estar? Trata-se de um afeto que realmente atravessa a escola e a invade, sem deixar espaço para o bem-estar?

Esteve (1984,1994,1999) apresenta o mal-estar docente como um conceito que traduz os efeitos negativos que afetam a personalidade do professor como resultado das condições em que ele realiza o seu trabalho, manifestando-se em diversos graus, passando pela insatisfação profissional e chegando até a estados depressivos. O autor explica ainda que costuma usar a expressão mal-estar para descrever os efeitos contínuos de caráter negativo que afetam a personalidade do professor, resultado das condições psicológicas e sociais em que se exerce a docência na contemporaneidade. Os sintomas do mal-estar são, na verdade, sensações de que algo não está bem, mas quase sempre sem uma causa explícita para isso. Esteve ainda diz que mal-estar docente se caracteriza pela insatisfação profissional, pelo alto nível de stress, absenteísmo, falta de empenho em relação à profissão e desejo de abandonar a carreira.

Jesus (1998) apresenta o conceito de mal-estar docente como um fenômeno que sofre influência de fatores sociopolíticos, pessoais e da formação profissional, compreensíveis pelas transformações sociais que ocorreram especificamente na segunda metade do século XX e que tiveram forte influência sobre a educação, de forma que fortaleceu a desvalorização do professor. O autor elenca algumas dessas mudanças, apresentando a era da informação como um desses fatores, justificando que a transmissão do conhecimento, no passado, era função do professor, o que hoje é delegado não só a este, mas também à mídia, à internet de forma especial, dentre outros; o segundo ponto apresentado por Jesus é a democratização do ensino, fator que tornou a escola obrigatória, gerando aumento de alunos e de docentes, mas sem a necessária qualificação deste professorado. O autor cita as novas exigências como o terceiro ponto; são exigências de um novo contexto que se presentifica, delegando ao professor função não só docente, mas de família; some-se a isso a necessidade de constante capacitação em novos métodos e técnicas; a falta de materiais para a realização dos trabalhos planejados para o dia a dia; salas de aula lotadas; recursos escassos ou até ausentes, além da falta de investimento na formação docente. E, por fim, a questão salarial; outros profissionais com menor ou igual nível de formação normalmente tem maiores salários que o professor, o que indubitavelmente reflete no próprio status da profissão.

Também é Jesus que afirma que embora seja um problema da atualidade, a ênfase colocada sobre o fenômeno do mal-estar docente pode levar a acentuar os aspectos mais negativos da profissão. Estudar e discutir esses fatores tem o objetivo de buscar soluções para esta problemática, tentando desfazer a condição que se instala e define que o natural é que o ambiente escolar seja permeado pelo mal-estar que se generaliza e abraça todas as instâncias da escola (2006).

Bem-estar e mal-estar são conceitos complexos que integram qualidade de vida e os afetos, segundo Picado (2009, p. 23). Bem-estar, de acordo com o mesmo autor, é uma dimensão positiva da saúde com uma importância crescente em comunidades educativas, nas quais se espera que as pessoas vivam as suas vidas de modo que se sintam plenas, segundo critérios estabelecidos por elas próprias.

De certa forma está posto que na contemporaneidade o professor encontra dificuldades de diversos tipos para o seu exercício, às vezes até impossibilidades, e isso ocorre por não ser possível a este profissional dar conta de tudo que lhe é demandado, o que torna difícil conviver com os problemas que chegam até a sala de aula. Estas questões circulam nas muitas relações estabelecidas no âmbito escolar, ou seja, não apenas com professor-alunos, mas com a comunidade escolar de um modo geral. Assim, podemos entender que este mal-estar é um sentimento largo que afeta as relações dentro da escola e fora dela, se expandindo para a comunidade local e permanecendo com o docente mesmo quando este se ausenta da escola; é um afeto desprazeroso que tem poder e fragilidades, mas que pode ser transformado com ações inversas, embora seja contagiante e se espalhe facilmente, prejudicando o processo de ensinar e aprender.

Buscar e ressaltar os matizes de bem-estar presentes na escola está no campo das possibilidades ou será mais um desejo utópico? Será o mal-estar docente uma marca da escola na contemporaneidade? Será que esse fenômeno obrigatoriamente atravessa e constitui as relações ali estabelecidas? Façamos uma breve reflexão sobre isso.
BEM-ESTAR, MAL-ESTAR E DESAUTORIZAÇÃO DOCENTE
... é preciso levar em conta a questão do sujeito para compreender o que acontece hoje na escola .”

Bernard Charlot.

Levar em conta a questão das subjetividades de cada um é fundamental para se fazer um desenho da escola de hoje, como bem afirma Charlot. Minha vivência neste ambiente fez emergir o desejo por compreender os afetos que perpassam pelo professor e constroem a imagem da escola; tal desejo me levou a conciliar o trabalho docente com o trabalho com o docente. Busquei investigar o que mobiliza o sujeito para este mal-estar, oferecendo-lhe espaço de fala por meio de dinâmicas e vivências que favorecem a escuta e análise da fala do outro que ocupa lugar semelhante, e os resultados dissertarei ao longo desse artigo, não sem antes tentar apresentar definições encontradas e que facilitam a compreensão do que vem a ser o bem-estar docente. Nesta busca encontrei na psicologia positiva2 os conceitos de bem-estar objetivo e bem-estar subjetivo e, no trabalho de Saul Neves de Jesus, o conceito de bem-estar docente.

A psicologia positiva diferencia bem-estar objetivo do bem-estar subjetivo: o primeiro refere-se aos recursos que proporcionam satisfação das necessidades básicas de vida e de segurança e, o segundo, refere-se a quatro pontos: à satisfação com a vida, ao afeto positivo, afeto negativo e à felicidade (JESUS, 2007, p.26). Assim, bem-estar é a soma do bem-estar objetivo com o bem-estar subjetivo. Logo, penso que pleitear viver o bem-estar em todos os momentos da vida beire a utopia, o que não descarta um equilíbrio que promova sensações prazerosas de bem-estar em grande parte do tempo. Na escola a situação não é muito diferente: mal-estar e bem-estar se enlaçam nas relações e no fazer pedagógico continuamente e o professor vive afetos ambivalentes e a sensação de mal-estar instaura-se neste lugar.

Falar de mal-estar docente remete aos afetos de desvalorização, desrespeito e desautorização que permeiam a escola e o professor de nosso tempo. Segundo Pereira (2009, p. 35), no interior da escola o discurso docente é permeado de produções imaginárias de como o professor se sente e os termos usados são exatamente estes: desrespeitado, desautorizado, desvalorizado. O autor pontua que este mesmo discurso ressoa junto aos teóricos do tema que entendem que a função de professor, nessa modernidade tardia, sofre profundo desgaste intelectual, social, cultural e econômico. O sentimento de desvalorização que assola a classe docente reverbera na escola com o formato de mal-estar generalizado, e a escola não traz respostas às angústias dos professores, tantas vezes artistas da docência a jogar os malabaris sem nem mesmo saber como pegá-los em seu retorno. Dentre estes tantos “malabaris” estão as novas metodologias, as reestruturadas formas de avaliar que não mudam seu formato e não justificam o título de novas, as tentativas de sucesso nas relações tecidas dentro do espaço escolar e com as famílias, dentre outras tantas. Com a queda da autoridade da escola esvaiu-se também a autoridade do docente. O esvaziamento dessas leis instala, de certa forma, o evento que chamamos de mal-estar neste espaço; e quando falamos da crise da autoridade docente e da escola, nos remetemos também à crise de outras tantas autoridades fundamentais para a civilização.

Pereira traz um debate sobre o mal-estar em “A impostura do mestre” e em outros artigos em que discute esta temática, lembrando que a questão é bem maior que a ambiência da escola; a falha - ou declínio - da função paterna se reflete em toda a civilização e está para além das questões políticas e sociais, como afirma no trecho a seguir, extraído do seu artigo “Mal-estar docente e novos sintomas na cultura” (2009, p. 36).

A falência de instituições sociais, o aumento da violência urbana e da criminalidade, a perplexidade de projetos educacionais ante a diversidade cultural, em regra, vêm associadas a uma crise de autoridade, a um declínio de um deus-pai ou a uma deposição da sociedade eminentemente patriarcal.


Ou seja, os teóricos associam as crises diversas pelas quais passam a humanidade à ausência de uma lei paterna. É a ausência dessa lei que favorece, inclusive, a crise de autoridade no espaço escolar.

Freud, ao instituir o pai morto em Totem e Tabu, reinstaura esta mesma Lei. O poder do pai onipotente que tinha direitos irrestritos sobre as filhas da horda, incomodava os filhos que sentiam seu gozo interditado por este pai. Assassinado o pai, o animal totêmico passou a simbolizar o pai morto, a ausência desse pai. Comer este animal num ritual canibalístico fez os filhos se sentirem com os poderes que antes eram do pai, por eles morto, atualizando-o simbolicamente; no entanto, sem a Lei antes personalizada no pai, veio o caos: disputas e crimes entre irmãos até que nova lei se instalasse.

Freud irá dizer que após a morte do pai, reina entre os filhos uma grande culpa, além de uma situação de incompatibilidade; como todos os homens dos clãs poderiam ter acesso a todas as mulheres que desejassem, começaram a ocorrer crimes fratricidas, disputas, até que a situação havia chegado ao limiar da suportabilidade, quando os irmãos de pai pensam numa nova economia de gozo. Assim, instala-se a lei da proibição do incesto, promovendo a exogamia3 (ORNELLAS, 2011)4.
Ornellas explica que a partir deste marco instaurou-se a lei que proibia sexo com mulheres do mesmo clã; cada clã era representado por um animal totêmico e assim os sujeitos pertencentes ao mesmo clã eram considerados parentes. A autora mostra que o ritual antropofágico gerou culpa e poder, mas essa morte foi necessária para que se entendesse que não existe pai a não ser morto.

Na modernidade constatamos a idéia do declínio da função paterna diante de tantos episódios em que foi necessário se matar a Lei para a própria sobrevivência; vimos isso em diversas instituições, inclusive em grandes governos. Na escola é o professor quem encarna a Lei; cabe aqui repetir o questionamento que faz Pereira: Será mesmo que o pai ou o mestre foi mesmo morto pelos modernos? Ou será que, desde sempre morto, ele atualmente apenas vestiu-se de novas modalidades traduzidas e pós-modernas, e permanece sendo o grande estofo da vinculação social (s/d, p.4)5?

O declínio da função paterna se traduz na escola com a desautorização do professor, sujeito muitas vezes sem voz e sem vez e que nem mesmo reconhece qual a sua função dentro desse espaço. Mais uma vez trazemos um questionamento de Pereira:
Será que um professor só o é ao forjar-se um deus-pai-mestre? Em outras palavras, o ato de educar, como uma exigência desmedida de uma sociedade de irmãos, restabelece em si a ordem paterna? Se podemos constatar um declínio do mestre em nossa época, é possível vê-lo como resultante de uma desautorização política de sua autoridade. (s/d, p.5)
Penso que em seu bojo a escola contemporânea traz esta como uma de suas principais propostas: (re)estabelecer a ordem paterna, uma ordem perdida há muito e que se crê que só a escola, enquanto aparelho educador, possa recuperar. Institui-se a lei na figura do professor-pai, mas esta lei falha e está em visível declínio. O professor assume, como impostor, o lugar de mestre, mas um lugar provisório. Pereira diz que:
O mestre moderno, idealizado pelo discurso pedagógico, forjado no corpo de um professor urbano, de um governante burocrata, de um religioso mais crente do que fiel, pode descer dessa cátedra. Ele pode bem deixar de ser o que tudo sabe, o que tudo domina, o magnificente, para assentir com o lugar de “prótese”. Tomo Freud ao pé da letra: o termo não poderia ser mais pertinente. Uma prótese é provisória, ao mesmo tempo que é contingente e destacável (s/d, p.7)

A docência já não atende ao que espera a sociedade, os afetos desprazerosos que a invadem tiram-lhe também o governo sobre sua classe. Sua autoridade está no campo do imaginário.

A escola é o palco por onde se estendem os dramas pessoais de cada professor, sujeitos que não se veem reconhecidos também como profissionais, impelidos ao exercício de uma função sem o mínimo necessário para que obtenha sucesso ou prazer. Há uma clara desvalorização desses profissionais e os professores estão no lugar de operários da escola, o que ratifica a desautorização docente. E o professor, mesmo longe do lugar de mestre, carrega cada vez mais forte uma marca de impostura, tal como disse Pereira ao se referir ao mestre.
O REAL, O SIMBÓLICO E O IMAGINÁRIO DA DOCÊNCIA.
"... o real, o simbólico e o imaginário na docência expressam afeto, presentificado pelo ato de ensinar e aprender."

M. de Lourdes Ornellas.
O sujeito é estruturado por estes três construtos, desenhados por Lacan. No espaço da docência, o enlaçamento dos três elos, segundo Ornellas, expressa afeto no ato de ensinar e aprender, afetos prazerosos e desprazerosos que compõem a docência e estão presentes não só na profissão, mas em toda a cultura em que a escola está inserida. Aqui questionamos o mal-estar na cultura como um dos fatores do mal-estar na escola e indagamos: o bem-estar na escola está no campo das possibilidades ou é mais um desejo utópico? Será o mal-estar docente uma marca da escola contemporânea?

Em seu discurso, Ornellas afirma reiteradas vezes que é impossível pleitear um bem-estar que não venha matizado de mal-estar, ou mesmo situações desprazerosas que não tenham um foco de prazer em qualquer dos seus espaços, pois é na ambivalência desses afetos que se constitui o sujeito.

Em “O mal estar da civilização”, Freud diz que a felicidade não é mais que uma manifestação episódica e que:

O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades represadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível, apenas como uma manifestação episódica. Quando qualquer situação desejada pelo princípio do prazer se prolonga, ela produz tão somente um sentimento de contentamento muito tênue (p.84).


O contentamento tênue, sem dúvida, traz afetos prazerosos em seu bojo e, no espaço escolar, seria o oposto do mal-estar. Freud também discute, na mesma obra, a evitação de sofrimento; ele diz que evitar o sofrimento se sobrepõe a buscar a felicidade (id. p. 85). Evitar o sofrimento seria então o próprio bem-estar?

De acordo com Jesus (2006,2007)6 o bem-estar não é apenas a soma da quantidade de momentos de satisfação do sujeito, mas, sobretudo, o resultado da sua orientação geral positiva para os acontecimentos de vida. É do lugar de onde o professor se vê e se coloca que emana o seu bem-estar. O mesmo autor diz que o bem-estar docente caracteriza-se pela motivação e realização do professor em virtude de um conjunto de competências de resiliência e de estratégias desenvolvidas para conseguir lidar com as exigências e dificuldades profissionais, ultrapassando e melhorando seu desempenho (p.128-131).

Alguns estudos afirmam que o bem-estar do professor se reflete no aluno (Jesus, 2006, p. 129); quando o professor não gosta do que faz, isso é percebido pelo aluno e o influencia no seu desejo de aprender, e o oposto tem o mesmo poder: o professor que se empolga e que faz com prazer, contagia o aluno e passa para ele desejo e envolvimento com os temas discutidos, o que facilita a aprendizagem. O bem-estar está fortemente associado à adaptação do professor ao sistema, mas uma adaptação que permite contestação e possibilidade de promover reformulações, que não engessa o sujeito e o submete. Ou seja, as causas do bem-estar ou do mal-estar docente não passam apenas pelas questões profissionais e pessoais do sujeito, por suas inquietações, desejos e interesses, passam também e de forma contundente por causas sociais, econômicas e políticas. E, para além das afirmações de Jesus, o bem-estar ou mal-estar na escola tem raízes mais profundas, perpassa pela cultura e pelo declínio da função paterna.

Numa sociedade que chamamos de pós-moderna, em que a crise da autoridade é um fato e não mais uma suspeita, torna-se necessário olhar a escola com vistas a perceber como esta vem se (re)constituindo. São muitas as demandas da escola e o papel do professor, no seu âmago, precisa também ser (re)definido. É necessário que a escola (re)pense seu fazer e que o professor que ali atua seja escutado de uma nova forma. Qual é de fato sua função na escola e quais são as subjetividades envolvidas neste fazer? Sabe-se que a sociedade espera da escola bem mais do que esta pode, de fato, oferecer; e isso, sem dúvida, mobiliza afetos de ansiedade no professor que, via de regra, não consegue dar conta. Sujeitos da falta que somos, estamos propensos a viver a angústia dessa falta, o que me remete à figura do Nó Borromeu que Lacan utilizou para explicar a estrutura do sujeito no nível do inconsciente. Nesta figura estão enlaçados os três registros: o real, o simbólico e o imaginário. São elos inseparáveis; o real equivale a um tempo anterior às palavras; é o que ainda não foi simbolizado, que resiste a ser simbolizado. Ele escapa, ex-siste, ou seja, existe fora da realidade. Está no campo da incompletude, não pode ser falado, apenas vivido; já que a existência é um produto da linguagem, o que não foi falado não existe, está no campo do Real. Já o simbólico é o registro da fala, é o que pode ser nomeado, o que se pode dizer, mesmo que não se possa dizer tudo. O imaginário é especular, tem a ver com imagem, é o que dá sentido ao corpo. Está no campo da idealização, da fantasia. Assim o Nó Borromeu é constituído pelos símbolos da falta, da fala e da fantasia.

Ornellas (2008, p. 82) diz que o real, o simbólico e o imaginário na docência expressam afeto, presentificado pelo ato de ensinar e aprender. Se o ensinar e aprender são construtos da função de professor, vejo aí algo constituído pela falta. Se educar, segundo Freud, está na ordem do impossível, justifica-se aqui a frustração que invade o professor e assola a escola, vez que é impossível dar conta das demandas desse Real. A mesma autora diz ainda que "a docência na contemporaneidade precisa se estruturar de modo que o ato educativo se organize nos planos real, simbólico e imaginário", pois é assim que se estrutura o sujeito-professor, enredado entre o que não pode simbolizar, o que está no campo dos significantes e o que se registra no imaginário. O que não pode dizer, o que diz e o que se espera dele.
MAL-ESTAR DOCENTE: UMA DANÇA SEM COR

Fotograma criado a partir da obra de Henri Matisse – 1909 -

http://www.basileumenezes.com.br/fotograma%20introspeccao.htm
A questão do mal-estar na escola não é algo novo, mas um sentimento que aflige o professor historicamente; está ligado ao desenvolvimento histórico da profissão, cuja valorização social vem perdendo lugar. Embora esteja clara a insatisfação do docente que, diga-se a verdade, sofre injustiças sociais, pouco se tem feito para erradicar o afeto do mal-estar que persiste em algumas unidades escolares. O mal-estar que abraça alguns professores é um reflexo das dificuldades vivenciadas na escola e da sociedade atual. A “doença” social afeta a saúde psicológica do professor. Jesus (2000; 2002) afirma, inclusive, que o ofício docente chega a ser considerado como uma profissão de risco físico e mental.

Bauman diz que os mal-estares da pós-modernidade provém de uma espécie de liberdade de procura do prazer que tolera uma segurança individual pequena demais (1998, p. 10); a busca incessante do não alcançado provoca esse mal-estar no professor e, de certo modo, não é grosseiro afirmar que o mal-estar que se percebe em alguns docentes é fruto da falta de reconhecimento do seu trabalho pela sociedade e, pontualmente, pela própria escola; ou seja, neste aspecto não é algo que atinge a todos os professores, visto que não é padrão que todas as escolas desvalorizem o trabalho do profissional.

Muitos educadores vivem o mal-estar, isso é um fato e tem sido ponto de debate incessante na sociedade. Porém, muitos também vivenciam afetos prazerosos na escola que se sobrepõem aos desprazerosos, o que confirma a instalação do bem-estar em inúmeros docentes e espaços educativos. O que determina o bem-estar do sujeito é sua forma de ver o que lhe acontece, é o saber lidar com as situações, tornando-as favoráveis e sabendo manipular as desfavoráveis.

Stobaus, Mosquera e Santos afirmam que


o mal-estar docente é doença social que provoca a pessoal e é causado pela falta de apoio da sociedade aos professores, tanto no terreno dos objetivos de ensino, como nas compensações materiais e no reconhecimento do status que se lhes atribui. Na realidade, as condições econômicas e políticas não têm sido suficientemente favoráveis aos professores: os docentes parecem estar condenados a realizar mal o seu trabalho, já que os encargos têm crescido assustadoramente (2007, p. 5).
Não se pode negar que diversos fatores contribuem para o desenvolvimento de afetos desprazerosos no professor, como mostra a citação acima; tais fatores vão da falta de tempo para capacitações, para realização diária de um trabalho que lhe dê satisfação, até as próprias dificuldades encontradas em salas superlotadas e com alunos com diversas dificuldades, somado ao trabalho burocrático imposto pela profissão. Exercer a docência nos dias atuais exige do sujeito uma condição de superação sem igual e buscar o prazer neste exercício, para muitos, tem sido como sonhar mais um sonho impossível.
A DOCÊNCIA NA CONTEMPORANEIDADE
Sonhar mais um sonho impossível / Lutar quando é fácil ceder - Vencer o inimigo invencível / Negar quando a regra é vender...”

Chico Buarque

Penso na obra de Matisse, A Dança (1909) e em suas cores quando procuro resposta para o questionamento que ouvi de uma mestra no final de sua defesa de dissertação, em 2010: o que é que faz o professor ficar7? O que o faz permanecer no ofício docente? É sonhar mais um sonho impossível? Mirar esta imagem me faz pensar que o magistério pode ser exercido como uma dança cuja música traz acordes que se ajustam a cada situação. Dança-se a música do desejo e é preciso que se deseje a satisfação, o bem-estar, como criança a despetalar flores num bem-me-quer, mal-me-quer8. Aqui percebo a resposta para meu primeiro questionamento: é possível buscar e ressaltar as cores do bem-estar presentes na escola quando nos deparamos com professores animados, com desejo para exercer o magistério. Ora, estamos falando de possibilidade e não de utopia; foi possível escutar relatos de prazer no exercício docente, de projetos de longo prazo e propostas claras e possíveis para se realizar ações educativas objetivas e que proporcionam prazer aos principais atores do cenário escolar (professor e aluno). E por se tratar de relatos de pessoas que vivem o chão da escola, talvez não seja tão colorido quanto A dança de Matisse, mas certamente é um quadro real, com suas formas e cores simples e fortes, sempre (re)adaptadas ao contexto em que se insere. É preciso que se fale do desejo e do prazer de docentes que se percebem vivendo o bem-estar sem, contudo, deixarem de vivenciar momentos de mal-estar, como bem disse não ser possível a Professora Ornellas.

Portanto, não afirmamos aqui que o mal-estar docente seja uma símbolo da escola contemporânea, mas sim uma marca de vida de alguns professores que não conseguem se equilibrar na ambivalência dos seus afetos.
A ESCOLA: BEM-ESTAR E MAL-ESTAR

O programa de tornar-se feliz que o princípio de prazer nos impõe não pode ser realizado; contudo, não devemos – na verdade, não podemos – abandonar nossos esforços de aproximá-lo da consecução, de uma maneira ou de outra”.



S. Freud

A escola que buscamos representar se compõe de sujeitos, portanto seres marcados pela falta. É uma lugar por onde circulam corpos que dançam na ambivalência de seus desejos e que se colorem com muitas cores, onde os movimentos parecem ser cadenciados, conduzidos, aceitos, empenhados nos esforços do programa de tornar-se feliz.

Não se pode generalizar o afeto que se instala no professor em um momento social que sofre constantes reformulações. A educação no Brasil vem sofrendo mudanças e adaptações que exigem tempo para assimilação. O trabalho docente vem sendo revisto e reformulado e o próprio docente vem renovando seus desafios e os desafios impostos pela sociedade. Vivemos uma modernidade líquida, como conceitua Bauman, em que tudo se transforma rápido demais, desde o modo de vida social até os valores e atitudes; não há certo e errado, mas contextos que precisam ser analisados. As escolas mudaram e atendem hoje a uma clientela cada vez maior e diversificada, o que significa problemas maiores, desafios maiores, prazeres e desprazeres maiores. Dizer que o professor não é capaz de acompanhar a rapidez das mudanças sociais, políticas e econômicas que acontecem no Brasil e seus reflexos no espaço escolar é subestimar o profissional; é neste lugar que se desenrola parte de sua vida e o professor é o sujeito mais competente para lidar com essas transformações, entendê-las e explicá-las. A analogia de Esteve sobre o professor e sua contextualização foge um tanto da realidade quando ele diz que os professores, nos dias atuais, podem ser comparados a um grupo de atores que, no meio do espetáculo, se vê com a roupagem da cena anterior, sem possibilidade de trocar o figurino, dada a rapidez da cena (1999, p.97). As mudanças são sentidas em todas as profissões em grau maior ou menor, e o profissional da educação vem caminhando de olhos abertos neste novo milênio. Não se pode postular que toda a classe docente parou no tempo e não viu a cena mudar.

Não queremos aqui fugir da realidade social que nos abraça independente de nosso desejo, mas reconhecemos professores que superam as dificuldades encontradas na escola fazendo delas desafios a serem vencidos; muito depende do lugar em que o professor se coloca e da forma como vê o que se põe a sua frente: um desafio ou um obstáculo?

Em outro escrito utilizei a metáfora do bem-me-quer, mal-me-quer para explicar o desejo do professor em ver tudo “dar certo” em seu ofício e em sua vida. Tal como criança ou pré-adolescente em busca de um amor cor de rosa, encontra-se também o docente em busca de sentir prazer em seu exercício profissional; para tanto, ele investe em ações e desejos, num despetalar infindo de bem-me-quer, mal-me-quer, mesmo diante das muitas as mazelas que criam obstáculos para se chegar ao patamar do contentamento tênue; mas é grande o desejo do professor, consciente de sua função, de construir para si próprio uma história de afetos prazerosos. São muitos os docentes a dançar a mesma música, e muitos também os que conseguem transformar os sons, cantar junto, criar sua própria música com tons bonitos ou desafinados, e bailar numa dança de belezas e agruras, do que é verdadeiramente a docência na contemporaneidade.
REFERÊNCIAS
ANTONINO, E. Bem-me-quer, mal-me-quer: representação social da escola pública de Salvador. in Ornellas, Maria de Lourdes Soares (org.) Representações Sociais: letras imagéticas. Salvador: Quarteto, 2011.
BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

 

ESTEVE, J. M.; Profesores en conflicto. Madrid: Narcea, 1984.


______. El malestar docente. 3. ed. Barcelona: Paidós, 1994.
______. O mal-estar docente: a sala de aula e a saúde dos professores. Bauru: EDUSC, 1999.
ESTEVE, José M. Mudanças Sociais e função docente. In: NÓVOA, Antonio (org.)

Profissão Professor. 2 ed. Lisboa: Porto Editora,1999.
FREUD, S. O mal estar na civilização. In Obras completas. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro, Imago, 2006, vol. XXI.
________, Totem e Tabu. In Obras completas. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro, Imago, 2006, vol. XIII.
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1 Pedagoga, Psicopedagoga, Terapeuta Comunitária da Fundação Cidade Mãe (SECULT). Mestranda do Programa de Pós-graduação em Educação da UNEB. Pesquisadora do GEPE-rs (Grupo de Estudo em Psicanálise, Educação e Representação Social). Contato: leideantonino@yahoo.com.br


2 A Psicologia Positiva pretende estudar os fatores de bem-estar e felicidade, para além do estudo das perturbações, das patologias e das doenças. Desse modo seria possível ajudar as pessoas a superar obstáculos e a lidar com as adversidades inerentes à vida. http://www.apeipp.com/

3 Casamento de um sujeito com um membro de grupo estranho àquele a que pertence.

4 Artigo publicado no CIelo, apresentado no An 8 Col. LEPSI IP/FE-USP 2011


5 Texto apresentado na ANPED, s/d. http://www.anped.org.br/reunioes/29ra/trabalhos/trabalho/GT08-1761--Int.pdf, sem data na publicação online.

6 Conferencia ministrada na Faculdade de Psicologia e Fonoaudiologia da Universidade Metodista de São Paulo, Brasil.


7 O questionamento foi feito pela Ms Flaviane Sudário Pereira, em sua defesa de dissertação, na Universidade Federal da Bahia, em 2010.

8 Referência ao desejo, conforme artigo da autora.




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