Álvares de Azevedo



Baixar 473,86 Kb.
Página1/3
Encontro24.07.2018
Tamanho473,86 Kb.
  1   2   3

Macário


Álvares de Azevedo

http://groups-beta.google.com/group/digitalsource

... e o gênio traz sempre um sinal que se reconhece em toda a parte (e em qualquer tempo) — uma auréola na fronte que brilha sob todos os firmamentos, uma senha e um ataque Iramita que se traduz em todas as línguas.
Álvares de Azevedo

No ceticismo do Candide voltaireano, depois do ultimo soluço há o abafamento bochorral do nada, a treva do não‑ser.


Álvares de Azevedo

MACÁRIO

Puff
Criei para mim algumas idéias teóricas sobre o drama. Algum dia, se houver tempo e vagar, talvez as escreva e de a lume.
O meu protótipo seria alguma coisa entre o teatro inglês, o teatro espanhol e o teatro grego — a forca das paixões ardentes de Shakespeare, de Marlowe e Otway, a imaginação de Calderon de la Barca e Lope de Vega, e a simplicidade de Esquilo e Eurípedes — alguma coisa como Goethe sonhou, e cujos elementos eu iria estudar numa parte dos dramas dele — em Goetz de Berlichingen, Clavijo, Egmont, no episódio da Margarida de Faust — e a outra na simplicidade ática de sua Ifigênia. Estudá‑lo‑ia talvez em Schiller, nos dois dramas do Wallenstein, nos Salteadores, no D. Carlos: estudá‑lo‑ia ainda na Noiva de Messina com seus coros, com sua tendência à regularidade.
É um tipo talvez novo, que não se parece com o misticismo do teatro de Werner, ou as tragédias teogônicas de OEhlenschläger e ainda menos com o de Kotzebue ou o de Victor Hugo e Dumas.
Não se pareceria com o de Ducis, nem com aquela tradução bastarda, verdadeira castração do Otelo de Shakespeare, feita pelo poeta sublime do Chatterton, o conde Vigny. — Quando não se tem alma adejante para emparelhar com o gênio vagabundo do autor de Hamlet, haja ao menos modéstia bastante para não querer emendá‑la. Por isso o Otelo de Vigny é morto. É uma obra de talento, mas devia ser um rasgo de gênio.
Emendá‑lo? Pobres pigmeus que querem limar as monstruosidades do Colosso! Raça de Liliput que queria aperfeiçoar os membros do gigante — disforme para eles — de Gulliver!
E digam‑me: que é o disforme? há ai um anão ou um gigante? Não é assim que eu o entendo. Haveria enredo, mas não a complicação exagerada da comédia espanhola. Haveria paixões, porque o peito da tragédia deve bater, deve sentir‑se ardente—mas não requintaria o horrível, e não faria um drama daqueles que parecem feitos para reanimar corações‑cadáveres, como a pilha galvânica as fibras nervosas do morto!
Não: o que eu penso é diverso. É uma grande idéia que talvez nunca realize. É difícil encerrar a torrente de fogo dos anjos decaídos de Milton ou o pântano de sangue e lágrimas do Alighieri dentro do pentâmetro de mármore da tragédia antiga. Contam que a primeira idéia de Milton foi fazer do Paraíso Perdido uma tragédia — um mistério — não sei o quê: não o pôde; o assunto transbordava, crescia; a torrente se tornava num oceano. É difícil marcar o lugar onde pára o homem e começa o animal, onde cessa a alma e começa o instinto — onde a paixão se torna ferocidade. É difícil marcar onde deve parar o galope do sangue nas artérias, e a violência da dor no crânio. — Contudo, deve haver e o há — um limite às expansões do ator, para que não haja exageração, nem degenere num papel de fera o papel de homem. O Pobre Idiota tem esse defeito entre mil outros. A cena do subterrâneo é interessante, mas é de um interesse semelhante àquele que excitava o Jocko ou o homem das matas—aquele macaco representado por Morietti que fazia chorar a platéia.
O Pobre Idiota representa o idiotismo do homem caído na animalidade. O ator fez o papel que devia — não exagerou —, representou a fera na sua fúria, — uma fera, onde por um enxerto caprichoso do imitador de Hauser havia um amor poético por uma flor — e uma estampa!
A vida e só a vida! mas a vida tumultuosa, férvida, anelante, às vezes sanguenta — eis o drama. Se eu escrevesse, se minha pena se desvairasse na paixão, eu a deixaria correr assim. Iago enganaria o Mouro, trairia Cássio, perderia Desdêmona e desfrutaria a bolsa de Rodrigo. Cássio seria apunhalado na cena. Otelo sufocaria sua Veneziana com o travesseiro, escondê‑la‑ia com o cortinado quando entrasse Emília: chamaria sua esposa — a whore — e gabar ‑se ‑ia de seu feito. O honest, most honest Iago viria ver a sua vítima, Emília soluçando a mostraria ao demônio; o Africano delirante, doido de amor, doido de a ter morto, morreria beijando os lábios pálidos da Veneziana. Hamlet no cemitério conversaria com os coveiros, ergueria do chão a caveira de Yorick, o truão; Ofélia coroada de flores cantaria insana as balatas obscenas do povo: Laertes apertaria nos braços o cadáver da pobre louca. Orlando no What you will penduraria suas rimas de Rosalinda nos arvoredos dos Cevennes. Isto seria tudo assim.
Se eu imaginasse o Otelo, seria com todo o seu esgar, seu desvario selvagem, com aquela forma irregular que revela a paixão do sangue. É que as nódoas de sangue quando caem no chão não têm forma geométrica. As agonias da paixão, do desespero e do ciúme ardente quando coam num sangue tropical não se derretem em alexandrinos, não se modulam nas falas banais dessa poesia de convenção que se chama — conveniências dramáticas.
Mas se eu imaginasse primeiro a minha idéia, se a não escrevesse como um sonâmbulo, ou como falava a Pitonisa convulsa agitando‑se na trípode, se pudesse, antes de fazer meu quadro, traçar as linhas no painel, fálo‑ia regular como um templo grego ou como a Atália, arquétipa de Racine.
São duas palavras estas, mas estas duas palavras têm um fim: é declarar que o meu tipo, a minha teoria, a minha utopia dramática, não é esse drama que aí vai. Esse é apenas como tudo que até hoje tenho esboçado, como um romance que escrevi numa noite de insônia — como um poema que cismei numa semana de febre — uma aberração dos princípios da ciência, uma exceção às minhas regras mais íntimas e sistemáticas. Esse drama é apenas uma inspiração confusa — rápida — que realizei à pressa como um pintor febril e trêmulo.
Vago como uma aspiração espontânea, incerto como um sonho; como isso o dou, tenham‑no por isso.
Quanto ao nome, chamem‑no drama, comédia, dialogismo: — não importa. Não o fiz para o teatro: é um filho pálido dessas fantasias que se apoderam do crânio e inspiram a Tempestade a Shakespeare, Beppo e o IX Canto de D. Juan a Byron; que fazem escrever Anunciata e O Conto de Antônia a quem é Hoffmann ou Fantasio ao poeta de Namouna.


PRIMEIRO EPISÓDIO
Numa estalagem da estrada
MACÁRIO (falando para fora)
Olá, mulher da venda! Ponham‑me na sala uma garrafa de vinho, façam‑me a cama e mandem‑me ceia: palavra de honra que estou com fome! Dêem alguma ponta de charuto ao burro que está suado como um frade bêbado! Sobretudo não esqueçam o vinho!
UMA VOZ
Há aguardente unicamente, mas boa.
MACÁRIO
Aguardente! Pensas que sou algum jornaleiro?... Andar seis léguas e sentir‑se com a goela seca. Ó mulher maldita! aposto que também não tens água?
A MULHER
E pura, senhor! Corre ali embaixo uma fonte que e limpa como o vidro e fria como uma noite de geada. (Saí).

MACÁRIO
Eis ai o resultado das viagens. Um burro frouxo. uma garrafa vazia. (Tira uma garrafa do bolso). Conhaque! És um belo companheiro de viagem. És silencioso como um vigário em caminho, mas no silêncio que inspiras, como nas noites de luar, ergue‑se às vezes um canto misterioso que enleva! Conhaque! Não te ama quem não te entende! não te amam essas bocas feminis acostumadas ao mel enjoado da vida, que não anseiam prazeres desconhecidos, sensações mais fortes! E eis‑te aí vazia, minha garrafa! vazia como mulher bela que morreu! Hei de fazer‑te uma nênia.
E não ter nem um gole de vinho! Quando não há o amor, há o vinho; quando não há o vinho, há o fumo; e quando não há amor, nem vinho, nem fumo, há o spleen. O spleen encarnado na sua forma mais lúgubre naquela velha taverneira repassada de aguardente que tresanda!
(Entra a mulher com uma bandeja).
A MULHER
Eis aqui a ceia.
MACÁRIO
Ceia! que diabo de comida verde é essa? Será algum feixe de capim? Leva para o burro.
A MULHER
São couves.
MACÁRIO
Leva para o burro.
A MULHER
É fritado em toicinho
MACÁRIO
Leva para o burro com todos os diabos!
(Atira‑lhe o prato na cabeça. A mulher sai. Macário come).
UM DESCONHECIDO (entrando)
Boa‑noite, companheiro.
MACÁRIO (comendo)
Boa‑noite

O DESCONHECIDO
Tendes um apetite!
MACÁRIO
Entendo‑vos. Quereis comer? sentai‑vos. Quereis conversar? esperai um pouco.
O DESCONHECIDO
Esperarei. (Senta‑se).
MACÁRIO (comendo)
Parece‑me que não é a primeira vez que vos encontro. Quando a noite caía, ao subir da garganta da serra
O DESCONHECIDO
Um vulto com um ponche vermelho e preto roçou a bota por vossa perna...
MACÁRIO
Tal e qual—por sinal que era fria como o focinho de um cão.

O DESCONHECIDO
Era eu.
MACÁRIO
Há um lugar em que estende‑se um vale cheio de grama. À direita corre uma torrente que corta a estrada pela frente. Há uma ladeira mal calçada que se perde pelo mato...
O DESCONHECIDO
Aí encontrei‑vos outra vez... A propósito, não bebeis ?
MACÁRIO
Pois não sabeis? Essa maldita mulher só tem aguardente; e eu que sou capaz de amar a mulher do povo como a filha da aristocracia, não posso beber o vinho do sertanejo...
O DESCONHECIDO (Tira uma garrafa do bolso e derrama vinho no copo de Macário).
Ah!

MACÁRIO
Vinho! (Bebe). À fé que é vinho de Madeira! À vossa saúde, cavalheiro!
O DESCONHECIDO
À vossa. (Tocam os copos).
MACÁRIO
Tendes as mãos tão frias!
O DESCONHECIDO
É da chuva. (Sacode o ponche). Vede: estou molhado até os ossos!
MACÁRIO
Agora acabei: conversemos...
O DESCONHECIDO
Vistes‑me duas vezes. Eu vos vi ainda outra vez. Era na serra, no alto da serra. A tarde caía, os vapores azulados do horizonte se escureciam. Um vento frio sacudia as folhas da montanha e vós contempláveis a tarde que caía. Além, nesse horizonte, o mar como uma linha azul orlada de espuma e de areia — e no vale, como bando de gaivotas brancas sentadas num paul, a cidade que algumas horas antes tínheis deixado. Daí vossos olhares se recolhiam aos arvoredos que vos rodeavam, ao precipício cheio das flores azuladas e vermelhas das trepadeiras, às torrentes que mugiam no fundo do abismo, e defronte víeis aquela cachoeira imensa que espedaça suas águas amareladas, numa chuva de escuma, nos rochedos negros do seu leito. E olháveis tudo isso com um ar perfeitamente romântico. Sois poeta?
MACÁRIO
Enganai‑vos. Minha mula estava cansada. Sentei‑me ali para descansá‑la. Esperei que o fresco da neblina a reforçasse. Nesse tempo divertia‑me em atirar pedras no despenhadeiro e contar os saltos que davam.
O DESCONHECIDO
É um divertimento agradável.
MACÁRIO
Nem mais nem menos que cuspir num poço, matar moscas, ou olhar para a fumaça de um cachimbo A minha mala (Chega à janela). Ó mulher da casa! olá! o de casa!

UMA VOZ (de fora)
Senhor!

MACÁRIO
Desate a mala de meu burro e traga‑ma aqui.
A VOZ
O burro?
MACÁRIO
A mala, burro!
A VOZ
A mala com o burro?
MACÁRIO
Amarra a mala nas tuas costas e amarra o burro na cerca.
A VOZ
O senhor é o moço que chegou primeiro?
MACÁRIO
Sim. Mas vai ver o burro.
A VOZ
Um moço que parece estudante?
MACÁRIO
Sim. Mas anda com a mala.
A VOZ
Mas como hei‑de ir buscar a mala? Quer que vá a pé?
MACÁRIO
Esse diabo é doido! Vai a pé, ou monta numa vassoura como tua mãe!
A VOZ
Descanse, moço. O burro há‑de aparecer. Quando madrugar iremos procurar.


OUTRA VOZ
Havia de ir pelo caminho do Nhô Quito. Eu conheço o burro…
MACÁRIO
E minha mala?
A VOZ
Não vê? Está chovendo a potes!...
MACÁRIO (fecha a janela).
Malditos! (Atira com ama cadeira no chão).
O DESCONHECIDO
Que tendes, companheiro?
MACÁRIO
Não vedes? O burro fugiu...
O DESCONHECIDO
Não será quebrando cadeiras que o chamareis.
MACÁRIO
Porém a raiva...
O DESCONHECIDO
Bebei mais um copo de Madeira. (Bebem). Levais de certo alguma preciosidade na mala? (Sorri‑se).
MACÁRIO
Sim...
O DESCONHECIDO
Dinheiro?
MACÁRIO
Não, mas...
O DESCONHECIDO
A coleção completa de vossas cartas de namoro, algum poema em borrão, alguma carta de recomendação?


MACÁRIO
Nem isso, nem aquilo... Levo...
O DESCONHECIDO
A mala não pareceu‑me muito cheia. Senti alguma coisa sacolejar dentro. Alguma garrafa de vinho?
MACÁRIO
Não! não! mil vezes não! Não concebeis, uma perda imensa, irreparável... era o meu cachimbo...
O DESCONHECIDO
Fumais?
MACÁRIO
Perguntai de que serve o tinteiro sem tinta, a viola sem cordas, o copo sem vinho, a noite sem mulher — não me pergunteis se fumo!
O DESCONHECTDO ( Dá‑lhe um cachimbo.)
Eis aí um cachimbo primoroso. É de pura escuma do mar. O tubo é de pau de cereja. O bocal é de âmbar.
MACÁRIO
Bofé! Uma Sultana o fumaria! E fumo?
O DESCONHECIDO
É uma invenção nova. Dispensa‑o. Acendei‑o na vela. (Macário acende).
MACÁRIO
E vós?
O DESCONHECIDO
Não vos importeis comigo. (Tira outro cachimbo e fuma)
MACÁRIO
Sois um perfeito companheiro de viagem. Vosso nome?
O DESCONHECIDO
Perguntei‑vos o vosso?

MACÁRIO
O caso é que é preciso que eu pergunte primeiro. Pois eu sou um estudante. Vadio ou estudioso, talentoso ou estúpido, pouco importa. Duas palavras só: amo o fumo e odeio o Direito Romano. Amo as mulheres e odeio o romantismo.
O DESCONHECIDO
Tocai! Sois um digno rapaz. (Apertam a mão).
MACÁRIO
Gosto mais de uma garrafa de vinho que de um poema, mais de um beijo que do soneto mais harmonioso. Quanto ao canto dos passarinhas, ao luar sonolento, às noites límpidas, acho isso sumamente insípido. Os passarinhos sabem só uma cantiga. O luar é sempre o mesmo. Esse mundo é monótono a fazer morrer de sono.
O DESCONHECIDO
E a poesia?
MACÁRIO
Enquanto era a moeda de oiro que corria só pela mão do rico, ia muito bem. Hoje trocou‑se em moeda de cobre; não há mendigo, nem caixeiro de taverna que não tenha esse vintem azinhavrado. Entendeis‑me?
O DESCONHECIDO
Entendo. A poesia, de popular tornou‑se vulgar e comum. Antigamente faziam‑na para o povo; hoje o povo a faz para ninguém.
MACÁRIO (bebe)
Eu vos dizia pois Onde tínhamos ficado?
O DESCONHECIDO
Não sei. Parece‑me que falávamos sobre o Papa.
MACÁRIO
Não sei: creio que o vosso vinho subiu‑me à cabeça. Puah! vosso cachimbo tem sarro que tresanda!
O DESCONHECIDO
Sois triste, moço... Palavra que eu desejaria ver essa poesia vossa.


MACÁRIO
Por quê?
O DESCONHECIDO
Porque havia ser alegre como Arlequim assistindo a seu enterro...
MACÁRIO
Poesias a quê?
O DESCONHECIDO
À luz, ao céu, ao mar...
MACÁRIO
Primeiramente — mar é uma coisa soberanamente insípida... O enjôo é tudo quanto há mais prosaico. Sou daqueles de quem fala o corsário de Byron “whose soul would sicken o'er the heaving wave”.
O DESCONHECIDO
E enjoais a bordo?

MACÁRIO

É a única semelhança que tenho com D. Juan.


O DESCONHECIDO
Modéstia!
MACÁRIO
Pergunta à taverneira se apertei‑lhe o cotovelo, pisquei‑lhe o olho, ou pus‑lhe a mão nas tetas
O DESCONHECIDO
Um dragão!
MACÁRIO
Uma mulher! Todas elas são assim. As que não são assim por fora o são por dentro. Algumas em falta de cabelos na cabeça os têm no coração. As mulheres são como as espadas, às vezes a bainha é de oiro e de esmalte e a folha é ferrugenta.
O DESCONHECIDO
Falas como um descrido, como um saciado! E contudo ainda tens os beiços de criança! Quantos seios de mulher beijaste além do seio de tua ama de leite? Quantos lábios além dos de tua irmã?
MACÁRIO
A vagabunda que dorme nas ruas, a mulher que se vende corpo e alma, porque sua alma é tão desbotada como seu corpo, te digam minhas noites. Talvez muita virgem tenha suspirado por mim! Talvez agora mesmo alguma donzela se ajoelhe na cama e reze por mim!
O DESCONHECIDO
Na verdade és belo. Que idade tens?
MACÁRIO
Vinte anos. Mas meu peito tem batido nesses vinte anos tantas vezes como o de um outro homem em quarenta.
O DESCONHECIDO
E amaste muito?
MACÁRIO
Sim e não. Sempre e nunca.
O DESCONHECIDO
Fala claro.
MACÁRIO
Mais claro que o dia. Se chamas o amor a troca de duas temperaturas, o aperto de dois sexos, a convulsão de dois peitos que arquejam, o beijo de duas bocas que tremem, de duas vidas que se fundem tenho amado muito e sempre! Se chamas o amor o sentimento casto e poro que faz cismar o pensativo, que faz chorar o amante na relva onde passou a beleza, que adivinha o perfume dela na brisa, que pergunta às aves, à manhã, à noite, às harmonias da música, que melodia é mais doce que sua voz, e ao seu coração, que formosura há mais divina que a dela — eu nunca amei. Ainda não achei uma mulher assim. Entre um charuto e uma chávena de café lembro‑me às vezes de alguma forma divina, morena, branca, loira, de cabelos castanhos ou negros. Tenho‑as visto que fazem empalidecer — e meu peito parece sufocar meus lábios se gelam, minha mão se esfria.
Parece‑me então que se aquela mulher que me faz estremecer assim soltasse sua roupa de veludo e me deixasse por os lábios sobre seu seio um momento, eu morreria num desmaio de prazer! Mas depois desta vem outra — mais outra — e o amor se desfaz numa saudade que se desfaz no esquecimento. Como eu te disse, nunca amei.

O DESCONHECIDO
Ter vinte anos e nunca ter amado! E para quando esperas o amor?
MACÁRIO
Não sei. Talvez eu ame quando estiver impotente!
O DESCONHECIDO
E o que exigirias para a mulher de teus amores?
MACÁRIO
Pouca coisa. Beleza, virgindade, inocência, amor
O DESCONHECIDO (irônico)
Mais nada?
MACÁRIO
Notai que por beleza indico um corpo bem feito, arredondado, setinoso, uma pele macia e rosada, um cabelo de seda‑froixa e uns pés mimosos

O DESCONHECIDO
Quanto à virgindade?
MACÁRIO
Eu a quereria virgem na alma como no corpo. Quereria que ela nunca tivesse sentido a menor emoção por ninguém. Nem por um primo, nem por um irmão Que Deus a tivesse criado adormecida na alma até ver‑me como aquelas princesas encantadas dos contos — que uma fada adormecera por cem anos. Quereria que um anjo a cobrisse sempre com seu véu, e a banhasse todas as noites do seu óleo divino para guardá‑la santa! Quereria que ela viesse criança transformar‑se em mulher nos meus beijos.
O DESCONHECIDO
Muito bem, mancebo! E esperas essa mulher?
MACÁRIO
Quem sabe!
O DESCONHECIDO
E é no lodo da prostituição que hás‑de encontrá‑la?

MACÁRIO
Talvez! É no lodo do oceano que se encontram as pérolas
O DESCONHECIDO
Em mau lugar procuras a virgindade! É mais fácil achar uma pérola na casa de um joalheiro que no meio das areias do fundo do mar.
MACÁRIO
Quem sabe!..
O DESCONHECIDO
Duvidas pois?
MACÁRIO
Duvido sempre. Descreio às vezes. Parece‑me que este mundo é um logro. O amor, a glória, a virgindade, tudo é uma ilusão.
O DESCONHECIDO
Tens razão: a virgindade é uma ilusão! Qual é mais virgem, aquela que é deflorada dormindo, ou a freira que ardente de lágrimas e desejos se revolve no seu catre, rompendo com as mãos sua roupa de morte, lendo algum romance impuro?
MACÁRIO
Tens razão: a virgindade da alma pode existir numa prostituta, e não existir numa virgem de corpo. — Há flores sem perfume, e perfume sem flores. Mas eu não sou como os outros. Acho que uma taça vazia pouco vale, mas não beberia o melhor vinho numa xícara de barro.
O DESCONHECIDO
E contudo bebes o amor nos lábios de argila da mulher corrupta!
MACÁRIO
O amor? Que te disse que era o amor? É uma fome impura que se sacia. O corpo faminto é como o conde Ugolino na sua torre — morderia até num cadáver.
O DESCONHECIDO
Tua comparação é exata. A meretriz é um cadáver.


MACÁRIO
Vale‑nos ao menos que sobre seu peito não se morre de frio!
O DESCONHECIDO
Admira‑me uma coisa. Tens vinte anos: deverias ser puro como um anjo e és devasso como um cônego!
MACÁRIO
Não é que eu não voltasse meus sonhos para o céu. A cisterna também abre seus lábios para Deus, e pede‑lhe uma água pura — e o mais das vezes só tem lodo. Palavra de honra — que às vezes quero fazer‑me frade.
O DESCONHECIDO
Frade! Para quê?
MACÁRIO
É uma loucura. Enche esse copo. (Bebe) Pela Virgem Maria! Tenho sono. Vou dormir.
O DESCONHECIDO
E eu também Boa‑noite.
MACÁRIO
Ainda uma vez, antes de dormir, o teu nome?
O DESCONHECIDO
Insistes nisso?
MACÁRIO
De todo o meu coração. Sou filho de mulher.
O DESCONHECIDO
Aperta minha mão. Quero ver se tremes nesse aperto ouvindo meu nome.


  1   2   3


©livred.info 2019
enviar mensagem

    Página principal