Luz entre os homens francisco de azeredo: a religião aliada à liberdade



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Luz entre os homens

FRANCISCO DE AZEREDO: A RELIGIÃO ALIADA À LIBERDADE

“A fé, que noutras eras podia ser cega, hoje precisa de ter os olhos abertos […]. Precisamos provar praticamente aos livres pensadores que não nos esquivamos à discussão […]. É indispensável que haja academia, conferências, congressos, jornais, livros, tudo quanto seja conducente a apoiar a causa do catolicismo”. Assim afirmava, em 1873, o Conde de Samodães, Francisco de Azeredo Teixeira de Aguilar (1828-1918), um católico do Porto que se empenhou por testemunhar na vida pública a sua fé aliada à defesa da liberdade.

Francisco de Azeredo Teixeira de Aguilar nasceu em Gaia no ano de 1828, filho de Francisco de Paula de Azeredo Teixeira de Carvalho, 1º Conde de Samodães, e de Maria do Carmo de Lemos Teixeira de Aguilar. Estudou matemática e filosofia na Universidade de Coimbra e engenharia na Escola do Exército, foi engenheiro civil e militar, deputado, par do reino, ministro da Fazenda, presidente da Câmara Municipal, Governador Civil e provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, escritor e jornalista. Em 1859, casou-se com Henriqueta Adelaide Vieira de Magalhães com quem teve cinco filhos. Herdou do pai o título de conde de Samodães.

Lutou pelas causas liberais contra os absolutistas, foi preso e teve de andar fugido. Era um espírito resoluto e independente. Em 1851, demitiu-se do Exército por discordar das medidas contra si tomadas que considerava injustas. Entretanto, foi eleito deputado às Cortes Constituintes. Em 1855, foi eleito senador da Câmara Municipal do Porto. Em 1858, sucedeu a seu pai como par do reino. Militou no Partido Progressista. Desempenhou importantes cargos e exerceu uma extraordinária atividade em múltiplas instituições e associações, entre as quais se destacam: a Academia de Belas Artes, a Sociedade Humanitária, a Associação Católica, a Ordem de S. Francisco, a Sociedade de Estudos e Conferências, a Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, o Palácio de Cristal e a Companhia Vinícola do Norte de Portugal. Depois de uma vida intensa e agitada, faleceu no Porto em 1918.

Francisco de Azeredo, Conde Samodães, era um espírito de vasta cultura. Falava várias línguas e andava a par da evolução do movimento científico e literário. Era considerado um verdadeiro sábio. Escreveu múltiplos artigos em revistas e jornais literários, científicos e agrícolas. Foi tradutor e publicou várias obras da sua autoria. Notabilizou-se também como orador e escritor católico. Entre outros, publicou “A liberdade da Igreja em Portugal” (1880), “Discurso em Honra da Cruz” (1873) e variados artigos no jornal “A Palavra”. Foi um combatente pela causa da “liberdade da Igreja”, ou seja, defendeu a sua autonomia de organização e apostolado, face às tentativas de a controlar por parte dos governos.

Este homem procurou demonstrar na sua vida e ação “que se podia ser devotamente católico e empenhadamente político”, defender a liberdade dentro do regime constitucional e das suas instituições e militar na Igreja Católica. De facto, na Igreja, ele assumia uma participação “já de acordo com a cidadania plena que os tempos apeteciam, tanto no pensamento como na ação” (M. Clemente). Daí a defesa da necessidade do estudo, do debate, da promoção competente da doutrina e da prática católicas, como atestam as suas palavras com que iniciámos este artigo.

Ao defender a compatibilidade entre a fé católica e o regime político liberal, argumentava: “Poucas condições são indispensáveis para que as instituições velhas ou modernas ou futuras sejam aceitáveis [por um católico], e consiste em que haja governo e não anarquia […]; que não haja despotismo, porque é oposto ao princípio católico da liberdade individual, e que o governo se conforme com os preceitos da moral, revelada e ensinada por Deus. […] Pode-se ser liberal e católico sem contradição nem confusão de ideias: deve ser liberal o que for sinceramente católico, porque os princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade não foi a escola revolucionária que os criou, mas o cristianismo”.

Abúndio da Silva, seu contemporâneo e participante do mesmo esforço por defender a causa da liberdade aliada e iluminada pela fé cristã, escrevia em 1908 sobre Francisco de Azeredo: “A religião, que conservou sempre a bom recato, a sua piedade […], nunca o impediram de segurar, com pulso rijo, a bandeira da liberdade […]. E que dizer do Conde de Samodães como o organizador do movimento católico em Portugal? O homem que se bateu pela liberdade política, consagrou também o melhor da sua vida a defender praticamente a liberdade religiosa, e a assegurar os católicos do seu direito de professarem e propagarem a sua fé. / O movimento inicial da restauração católica do Porto saiu da Associação Católica; o impulso gerador da imprensa católica saiu de A Palavra. É o esforço destas duas criações que tem condicionado tudo o que entre nós se tem feito a bem do catolicismo e da democracia cristã. Pois tanto a Associação Católica como A Palavra são fundações do Conde de Samodães. / Essa figura veneranda não é só, pois, o presidente de honra do movimento católico português; é o seu padroeiro”.


P. Jorge Guarda
Este artigo pode ser encontrado também no meu blog, no seguinte endereço: http://padrejorgeguarda.cancaonova.pt



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