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LUIS FERNANDO

VERÍSSIMO
ED MORT E OUTRAS HISTÓRIAS

Luis Fernando Veríssimo, 1979.

A armadilha

Meu nome é Mort. Ed Mort. Sou detetive particular. Pelo menos isso é o que está escrito numa plaqueta na minha porta. Estava sem trabalho há meses. Meu último caso tinha sido um flagrante de adultério. Fotografias e tudo. Quando não me pagaram, vendi as fotografias. Eu sou assim. Duro. Em todos os sentidos. O aluguel da minha sala ― o apelido que eu dou para este cubículo que ocupo, entre uma escola de cabeleireiros e uma pastelaria em alguma galeria de Copacabana ― estava atrasado. Meu 38 estava empenhado. Minha gata me deixara por um delegado. A sala estava cheia de baratas. E o pior é que elas se reuniam num canto para rir de mim. Mort. Ed Mort. Está na plaqueta.

Eu tinha saído para ver se a plaqueta ainda estava no lugar. Nesta galeria roubam tudo. Abriram uma firma de vigilância particular do lado da boutique de bolsas e nós pensamos que a coisa ia melhorar. A firma foi assaltada sete vezes e se mudou. Voltei para dentro da sala e me preparei para ler o jornal de novo. Era uma quinta e o jornal era de terça. De 73.

Havia uma chance de o telefone tocar. Muito remota, porque ele estava desligado há dois meses. Falta de pagamento. As baratas, pelo menos, se divertiam. Foi quando ela entrou na sala.

Entrou em etapas. Primeiro a frente. Cinco minutos depois chegou o resto. Ela já tinha começado a falar há meia hora, quando consegui levantar os olhos para o seu rosto. Linda. Tentei acompanhar a sua história. Algo sobre um marido desaparecido. Pensei em perguntar se ela tinha procurado bem dentro da blusa, mas ela podia não entender. Era uma cliente. Ofereci a minha cadeira para ela sentar e sentei na mesa. Primeiro, para poder olhar o decote de cima. Segundo, porque não tinha outra cadeira. Ela continuava a falar.

O marido tinha desaparecido. Ela não queria avisar a polícia para não causar um escândalo. De olho na sua blusa, perguntei:

― O que vocês querem que eu faça?

― Vocês?


― Você. A senhora.

Ela queria que eu investigasse o desaparecimento. Me deu uma fotografia do marido. Nomes. Endereços. Amigos dele. O lugar onde ele trabalhava. Alguma pergunta?

― Preciso ser indiscreto. Pense em mim como um padre.

Ela fez um esforço, mas acho que não conseguiu. Mas me mandou continuar.

― Vocês se davam bem? Não tinham brigado?

Ela baixou os olhos. Por alguns minutos, ficamos os dois olhando para a mesma coisa. Aí ela confessou que o marido não a queria mais. Tinha hábitos estranhos. Gostava de coisas exóticas.

― Sexualmente falando, entende? ― disse ela, falando sexualmente.

Pensei em dizer que, se ela aceitasse um similar, não precisava procurar mais. Eu estava ali, e a queria. Mas precisava do dinheiro. Não daria essa alegria às baratas. Comecei a investigação. Mort. Ed Mort. Está na plaqueta.

Não foi difícil descobrir que o marido a enganava regularmente. Todos os amigos dele tinham histórias para contar. E todos terminavam a história sacudindo a cabeça e dizendo a mesma coisa: “E isso com o mulherão que ele tem em casa...” Me contaram que ele tinha começado a freqüentar massagistas.

― Massagistas?

― Você sabe. Essas que anunciam nos jornais...

Era uma pista. Empenhei minha coleção de Bic e comprei um jornal do dia. Comecei com “Tânia, faço de tudo” e terminei com “Jussimar, banhos de óleo e fricção musical”. Duas semanas de investigação diária. Me fingia de cliente. Pagava tudo. Como Linda ― minha cliente se chamava Linda ― não me deu nenhum adiantamento, tive que vender tudo. A mesa. A cadeira. Tudo. Finalmente assaltei a pastelaria. Eu sou assim. Quando pego um caso vou até o fim.

Só faltava um nome na minha lista de massagistas. “Satisfação garantida. Técnicas turcas e orientais. Sandrinha Dengue-Dengue.” Era uma casa. Na frente, um vestíbulo e uma recepcionista. Entrei arrastando os pés. As duas semanas de investigação tinham exigido muito de mim. (Mort. Ed Mort. Está na plaqueta.) A recepcionista perguntou se eu estava ali para a massagem. Pensei em responder que não; que estava ali para rearmamento moral. Mas respondi que sim. Que espécie de massagem?

― Tudo o que eu tenho direito. Técnicas turcas e orientais. Um completo. A Sandrinha saberá o que fazer.

A recepcionista sorriu, apertou um botão na sua mesa, e um alçapão se abriu sob os meus pés. Cai num porão infecto. Em cima de alguém, que desmaiou. O porão estava cheio. Depois de me acostumar com a escuridão, olhei em volta. Só havia homens. O que era aquilo? Em resposta, só ouvi gemidos. Finalmente, alguém se animou a falar. Todos tinham vindo àquele endereço atrás da Sandrinha Dengue-Dengue. E todos tinham caído pelo alçapão.

― Mas por quê?

― Não sei ― respondeu um dos homens, que pela barba e o desânimo já estava ali há dias. ― Mas de hora em hora, toca uma marcha e uma mulher começa a nos xingar pelo alto-falante. Nos chama de machistas, de porcos chovinistas, de exploradores de mulheres, de sexistas.

― Já sei. É uma armadilha feminista!

Os outros concordaram com gemidos. Era uma armadilha perfeita. Quem vinha ver a Sandrinha Dengue-Dengue não dizia nada para ninguém. Desaparecia e ninguém saberia onde procurar. Perguntei pelo marido da Linda. Chamei seu nome. Nada. Alguém lembrou que podia ser o cara que estava embaixo de mim, desmaiado. Eu o acordei. Era ele mesmo. Dei-lhe um soco que o fez dormir de novo. O safado me fizera cair na armadilha. E com o mulherão que tinha em casa!

Passei uma semana no porão, sentado na cabeça do safado. Eu sou assim. Sem comer nada, mas já estava acostumado. E sendo catequizado de hora em hora. No fim de uma semana nos soltaram, com ordens de nunca mais procurar massagistas e não dizer nada para ninguém, senão nossos nomes seriam publicados, mulheres e filhos ficariam sabendo. Que nos servisse de lição.

Devolvi o marido para Linda. Na despedida ainda lhe dei um tapa na orelha. Linda me olhou feio. As baratas apontam para mim e rolam de tanto rir. Linda não me pagou. Na minha sala agora só tem o telefone e o jornal de 73, no chão. Mort. Ed Mort. Está na plaqueta. E roubaram a plaqueta.
Por pouco

Eu estava a ponto de escrever alguma coisa sobre as pessoas que estão a ponto de tomar uma atitude definitiva e recuam ― e recuei. Ia escrever sobre os que um dia, por pouco, quase, ali-ali, estiveram prestes a mudar sua vida mas não deram o passo crucial, mas não vou. Pena e comiseração para os que não deram o passo crucial.

Pena e comiseração para os que preferiram o pássaro na mão. Para os que não foram ser os legionários dos seus primeiros sonhos. Para os que hesitaram na hora de pular. Para os que pensaram duas vezes. Pena e comiseração para os que envelheceram tentando decidir o que iam ser quando crescessem. E para os que decidiram, mas na hora não foram.

Alguns passam a vida acompanhados pelo que podiam ter sido. Por fantasmas do irrealizado. Um cortejo de ressentimentos. Este aqui sou eu se tivesse decidido fazer aquele curso em Paris. Este outro sou eu se tivesse chegado um minuto antes no vestibular...

Olha que bom aspecto eu teria se tivesse aceito aquela nomeação. Veja o bigode. O corte decidido do cabelo. O olhar de quem é firme, mas justo com subalternos. A cintura ajustada. As mãos que não tremem. Elas me seguem por toda a parte, as minhas alternativas.

Você conhece muitos assim. Gente que cultiva suas oportunidades perdidas como outros guardam o próprio apêndice num vidrinho. E não perdem oportunidade de contar como foi a oportunidade perdida.

― Foi num jogo de pôquer. Tinha dois pares e não joguei. Quem ganhou tinha só um. A melhor mesa da noite. Milhões. Eu, hoje, seria outro.

― Fiz uma ponta naquele filme do Tarzã, mas cortaram a minha parte. Se tivessem me visto em Hollywood...

― Se eu tivesse dito sim...

― Se eu tivesse dito não...

― Se mamãe não tivesse interferido...

― Uma vez fui fazer um teste no Fluminense. Abafei. Mas a família foi contra. Insistiu com a contabilidade. Eu, hoje, seria outro.

― Já tive a minha época de escritor, tá sabendo? Uns contos até razoáveis. Mas nunca me mexi. Hoje eles estão numa gaveta, sei lá.

― Você sabe que só não me elegi deputado, porque não quis?

― Eu, hoje, podia ser até primeiro-violino.

― Tudo porque eu não saí daqui quando devia. Pena e comiseração para os que não saíram daqui quando deviam. Há quem diga que o passo crucial só pode ser dado uma vez e nunca mais. Tem a sua hora certa, e ela não volta. Bobagem, claro. Mas não para os que tiveram a sua hora e não aproveitaram. Os mártires do por pouco.

― Sei exatamente quando foi que eu tomei a decisão errada. Foi numa noite de Ano-Bom.

Você já ouviu a história várias vezes. Mas não pode impedi-lo de falar. O único divertimento que lhe resta é o que ele poderia ter sido. Os que não deram o passo crucial quando deviam estão condenados ao condicional. E têm a volúpia da própria frustração.

― Se eu tivesse aproveitado... Ela estava gamada. Gamadona. Filha da segunda fortuna do Brasil.

Da última vez que você ouviu a história, era a terceira fortuna do Brasil, mas tudo bem.

― Bobeei e babaus. Hoje, quando eu penso...

Você tenta ajudar.

― Podia não ter dado certo. O pai dela não ia deixar. Um morto-de-fome como você...

― Morto-de-fome, porque eu não dei o passo crucial na hora que me ofereceram aquele negócio no Mato Grosso. Ia dar um dinheirão.

― Mas se você fosse para o Mato Grosso, não teria conhecido a menina na noite de Ano-Bom.

― Pois é. Agora é tarde. Sei lá.

Agora é tarde. As decisões erradas são irrecorríveis. Você o imagina cercado das suas alternativas. De um lado, casado com a, vá lá, primeira fortuna do Brasil. O último homem do Rio a usar echarpe de seda. Grisalho, mas ainda em forma com aquele tom de pele que só se consegue passando o dia na piscina do Copa, mas na sombra. Do outro lado, o próspero fazendeiro do Mato Grosso que pilota o seu próprio avião e tem rugas em torno dos olhos de tanto procurar o fim das suas terras no horizonte, ou de tanto rir dos pobres. E no meio, ele, a ponto de lhe pedir dinheiro emprestado outra vez. Triste, triste. Eu ia escrever uma boa crônica sobre tudo isso. Mas o assunto me fugiu, perdi a hora certa. Agora é tarde.

A aposta do barão

Quem dentre vós nunca sonhou em criar o seu próprio agente secreto inglês que atire o primeiro James Bond. Certa vez, pensei em inventar um superagente brasileiro, Jaime Alguma Coisa, e escrever suas aventuras no mundo da intriga internacional, mas não deu certo. Por alguma razão, sempre que eu começava a descrevê-lo, saía um tipo magro, baixo, orelhudo, de bigodinho, o único no departamento a torcer pelo América, e que enjoava em avião. Sua classificação de 00664853 barra 7 lhe permitia andar armado, virar a gola do seu impermeável para cima e fazer um lanche por dia à custa do departamento, com comprovante. Na primeira página da primeira aventura que imaginei para ele, o chefe da espionagem, seu superior, examina o dossiê de um caso dificílimo que tem à sua frente, morde a haste do cachimbo e decide: “Este é um caso para o Jaimito”. Parei aí mesmo. Nada de muito sério ― e certamente não aquele caso de espionagem atômica, envolvendo a própria sobrevivência do país, além de 17 anões iugoslavos e uma falsa condessa ― podia ser confiado ao Jaimito. Além disso, a sua arma secreta, um isqueiro com 64 utilidades diferentes, todas mortíferas, falhava até para acender cigarro. Desisti do Jaimito. Agente secreto inglês tem que ser inglês. Como este que acabei de criar.

Peter Vest-Pocket encurtou a Segunda Guerra Mundial em oito meses (“e três dias”, acrescenta ele, com característica atenção ao detalhe), quando decifrou para os Aliados os códigos do Alto-Comando alemão ― embora tivesse só cinco anos incompletos na ocasião. Seu sorriso enigmático foi responsável por 10 tentativas de suicídio em todo o mundo, nove mulheres e um bailarino russo que engoliu a própria sapatilha. É a maior autoridade mundial em peixes tropicais, manuscritos medievais da Europa Central e a vida de Mae West. Suplementa o seu salário do governo jogando pôquer, no qual desenvolveu um método infalível para ganhar sempre: trapaceia.

Foi no famoso salão cor-de-vômito, o Puke Room do Harbinger’s em Londres, onde você só entra apresentando ao porteiro uma nota assinada pelo Secretário do Tesouro da Inglaterra, de preferência de mil libras, que Vest-Pocket viu-se, certa noite, frente a frente com o único homem no mundo que temia: o Barão Guy de la Recherche. Na mesa, estavam ainda um gordo ex-ministro venezuelano que suava muito, um Emir árabe com óculos tão escuros que precisava de um secretário para lhe dizer que cartas tinha na mão e o rei das batatas chips dos Estados Unidos. Mas Vest-Pocket os ignorou. Seu adversário era de la Recherche.

Recostado na cadeira com a mão direita erguida ao lado do rosto, segurando um dos charutos que Fidel lhe mandava semanalmente com aborrecidos bilhetes cheios de admiração juvenil, Vest-Pocket jogava displicentemente com a mão esquerda. Só variava a posição quando dava as cartas e aí prendia o charuto entre os dentes e usava as duas mãos para embaralhar, servir a mesa e tirar cartas da manga quando a situação o exigisse. Periodicamente, levava à boca um copo de aguardente feito especialmente para ele, na Bolívia, com a saliva de jovens índias que mascavam a raiz sagrada do Peote ― e duas gotas de Beneditino.

Às quatro horas da madrugada, tendo mantido o jogo razoavelmente equilibrado até ali para não espantar ninguém, Vest-Pocket viu a sua chance. O Barão, que sempre passava um dedo pelo seu afilado nariz quando tinha um bom jogo nas mãos, esfregava o nariz como nunca. E o secretário que lia as cartas para o Emir acabara de segredar alguma coisa no ouvido do seu mestre que o fizera sorrir, quase imperceptivelmente. O venezuelano e o americano estavam de fora. Chegara a hora. Tudo dependia daquela jogada. Vest-Pocket dava as cartas.

O Barão não quis cartas. O Emir pediu uma, que obviamente o agradou. Peter descartou duas e tirou da manga as duas que faltavam para o seu Royal Street Flush.

O Emir não tinha fichas suficientes para apostar e colocou na mesa um cheque de 100 mil libras.

“Suas 100”, disse o Barão, tirando um livro de cheques do bolso, “e mais 100.”

“As suas 200”, disse Peter, “e mais 400,”

“As suas 600”, disse o Emir, “e mais o número da minha conta na Suíça e uma autorização para sacar tudo ...

― “Não aceitamos hipóteses, queremos cifras”, disse Peter, com tamanha autoridade que o Emir não disse outra palavra. “Barão?”

“As suas 600...” começou o Barão, “e o que você quiser, meu amigo. Minha propriedade no Loire? A minha ilha nas Caraíbas? Meus cavalos na Argentina? Diga você.”

“Quero a sua receita de mousse de salmão.”

“O quê? Impossível. É um segredo de família. Ninguém mais a conhece. O meu prato supremo.”

Exatamente, pensou Peter Vest-Pocket. Enquanto o Barão de la Recherche detivesse o segredo daquela mousse de salmão, ele, Peter, não podia se considerar o melhor cozinheiro amador do mundo. Com a receita da mousse de salmão, ele seria imbatível. Não precisaria mais temer a reputação de ninguém. Sem tirar os olhos dos olhos do Barão, Peter falou:

“Aumente a parada, pague para ver ou silencie para sempre. Se eu ganhar, quero a receita da mousse dentro de 48 horas, pois pretendo receber algumas pessoas para jantar.”

(Ao leitor decepcionado com a falta de ação, violência e intriga internacional explico que esta é só a primeira cena. Os 17 anões iugoslavos e seus exóticos métodos de matar o inimigo a cócegas entram depois.)
Caso de divórcio (I)

O divórcio é necessário. Todos conhecem dezenas de casos que convenceriam até um arcebispo. Eu mesmo conheço meia dúzia. Vou contar uns três ou quatro.

O nome dele é Morgadinho. Baixo, retaco, careca precoce. Você conhece o tipo. No carnaval se fantasia de legionário romano e no futebol de praia dá pau que não é fácil. Freqüenta o clube e foi lá que conheceu sua mulher, mais alta do que ele, morena, linda, as unhas do pé pintadas de roxo. Na noite de núpcias, ele lhe declarou.

― Se você algum dia me enganar, eu te esgoelo.

― Ora, Morgadinho...

Ela se chama Fátima Araci. Ou é Mara Sirlei? Não, Fátima Araci. Não é que ela não goste do Morgadinho, é que nunca prestou muita atenção no marido. Na cerimônia do casamento já dava para notar. O olhar dela passava dois centímetros acima da careca do Morgadinho. Ela estava maravilhada com o próprio casamento e o Morgadinho era um simples acessório daquele dia inesquecível. Como um castiçal ou um coroinha. No álbum de fotografias do casamento que ela guardou junto com a grinalda, há esta constatação terrível: o Morgadinho não aparece. Aparece o coroinha mas não aparece o Morgadinho.

Um ou dois meses depois do casamento, o Morgadinho sugeriu que ela lhe desse um apelido. Um nome secreto, carinhoso, para ser usado na intimidade, algo que os unisse ainda mais, sei lá. Ela prometeu que ia pensar no assunto. O Morgadinho insistiu.

― Eu te chamo de Fafá e você me chama de qualquer coisa.

― Vamos ver.

Uma semana depois, Morgadinho voltou ao assunto.

― Já pensaste num apelido para mim, Fafá?

― Ainda não.

Três semanas depois, ele mesmo deu um palpite.

― Quem sabe Momo?

― Não.

― Gagá? Fofura? ― Tomou coragem e, rindo meio sem jeito, arriscou:



― Tigre?

Ela nem riu. Pediu que ele tivesse paciência. Estava lendo o Sétimo Céu. Tinha tempo.

O Morgadinho não desistiu. Às vezes, chegava em casa com uma novidade.

― Que tal este: "Barrilzinho"?

― Não gosto.

Outra vez, os dois estavam passando por um quintal e ouviram uma criança chamando um cachorro.

― Pitoco. Vem, Pitoco.

Morgadinho virou-se para a mulher, cheio de esperança, mas ela fez que não com a cabeça.

Finalmente (passava um ano do casamento e nada de apelido), Morgadinho perdeu a paciência. Estavam os dois na cama. Ela pintava as unhas do pé.

― Você não me ama.

― Ora, Morgadinho...

― Até hoje não pensou num apelido para mim.

― Está bem, sabe o que tu és? Um xaropão. Taí teu apelido. Xaropão.

O Morgadinho já tinha enfrentado várias levas de policiais a tapa. Uma vez desmontara um bar depois de um malentendido e saíra para a rua dando cadeiradas em meio mundo. Homens, mulheres e crianças. Mas naquela noite virou-se para o lado e chorou no travesseiro.

Aí a mulher, com cuidado para não estragar o esmalte, chegou perto do seu ouvido e disse, rindo:

― Xaropãozinho... ― Rindo. Rindo!


O mundo restaurado

O pai ganha os presentes que um pai costuma ganhar. Camisas, lenços, uma gravata muito parecida com a que deu para alguém no ano passado, meias. Alguns livros, alguns vinhos. Mas fica de olho nos presentes das crianças. Com o ar condescendente de quem tem um saudável interesse nas atividades dos filhos. Mas louco de inveja.

― Meu filho. Um Autorama!

― É, pai.

― Vamos armar agora mesmo!

― Agora não, pai. Amanhã, a gente arma.

― Amanhã, nada. Agora! Arreda essa papelada pra lá. Aqui na sala mesmo tem lugar.

A mãe intervém.

― Você está louco? Armar esse negócio no meio da sala, no meio da festa?! E as crianças precisam ir dormir. Foi excitação demais para um dia só.

O pai fica olhando com ressentimento o Autorama que desaparece da sala embaixo do braço do guri. Pensa, vagamente, em seguir o filho e propor uma barganha. Escuta, a mãe não está nos ouvindo. Eu te dou todos os meus lenços e tu deixa eu armar o Autorama aqui no teu quarto, com a porta fechada. Mas não. Os convidados, o que pensariam dele? Na certa que estaria bêbado, como no ano passado.

Ele examina o livro que ganhou do cunhado. O Mundo Restaurado, de Henry Kissinger. O cunhado, inexplicavelmente, lhe atribui um grave interesse nos problemas contemporâneos. Vive lhe mandando recortes de jornal com trechos sublinhados e pontos de exclamação na margem. Às vezes, telefona, com recados cifrados.

― Lembra aquela nossa conversa?

― Qual?

― Veja na terceira página do Correio de hoje. Um pequeno tópico no canto inferior direito. É a prova de tudo aquilo que nós discutíamos no outro dia, lembra?



― Não.

― A crise é irreversível, meu filho. Um abração.

Ele só ganha presente de homem sério. De homem preocupado com os problemas contemporâneos. Lenços brancos, camisas sóbrias, meias pretas e marrons. No ano passado, deu para um primo taciturno uma gravata cinza-escura com manchas pretas e estrias roxas, como hematomas. Com um cartão gozando a seriedade do primo. Este ano recebeu de volta a mesma gravata. Sem cartão. As pessoas, pensa, me confundem com um adulto. Vê a filha mais velha que passa equilibrando várias caixas de presentes.

― Te desafio para uma partida de damas.

Não é uma proposta carinhosa. É um desafio mesmo. Posso derrotar qualquer criança nesta sala! Dama, moinho, bola de gude, palavra-cruzada... A filha o ignora e também vai para o quarto.

Decidiram, ele e a mulher, não dar nenhuma arma de brinquedo no Natal. Nem arco e flecha. Os psicólogos não aconselham. Mas ele agora tem uma lembrança que lhe sobe até a garganta e fica atravessada: aos doze anos ganhou uma metralhadora de latão que cuspia fogo. Tinha uma manivela do lado que a gente girava e a metralhadora cuspia fogo! O cunhado senta ao seu lado, com um copo de uísque na mão. Aponta para o livro.

― Isso aí explica muita coisa. Lembras daquela minha tese?...

Mas ele não ouve mais nada. Ergue o Henry Kissinger até os olhos, como se mirasse uma metralhadora, e começa a girar uma manivela invisível do lado do livro. Ao mesmo tempo, com a boca imita o ruído de tiros, e descobre entusiasmado que ainda não perdeu o jeito. O cunhado fica olhando, entre surpreso e divertido, enquanto ele varre a sala com rajadas imaginárias.


O encontro

Ela o encontrou pensativo em frente aos vinhos importados. Quis virar, mas era tarde, o carrinho dela parou junto ao pé dele. Ele a encarou, primeiro sem expressão, depois com surpresa, depois com embaraço, e no fim os dois sorriram. Tinham estado casados seis anos e separados, um, e aquela era a primeira vez que se encontravam depois da separação. Sorriram, e ele falou antes dela; quase falaram ao mesmo tempo.

― Você está morando por aqui?

― Na casa do papai.

Na casa do papai! Ele sacudiu a cabeça, fingiu que arrumava alguma coisa dentro do seu carrinho ― enlatados, bolachas, muitas garrafas ― tudo para ela não ver que ele estava muito emocionado.

Soubera da morte do ex-sogro, mas não se animara a ir ao enterro. Fora logo depois da separação, ele não tivera coragem de ir dar condolências formais à mulher que, uma semana antes, ele chamara de vaca. Como era mesmo que ele tinha dito? “Tu és uma vaca sem coração!” Ela não tinha nada de vaca, era uma mulher esbelta, mas não lhe ocorrera outro insulto. Fora a última palavra que ele lhe dissera. E ela lhe chamara de farsante. Achou melhor não perguntar pela mãe dela.

― E você? ― perguntou ela, ainda sorrindo. Continuava bonita...

― Tenho um apartamento aqui perto.

Fizera bem em não ir ao enterro do velho. Melhor que o primeiro reencontro fosse assim, informal, num supermercado, à noite. O que é que ela estaria fazendo ali àquela hora?

― Você sempre faz compras de madrugada?

Meu Deus, pensou, será que ela vai tomar a pergunta como ironia?

Esse tinha sido um dos problemas do casamento, ele nunca sabia como ela ia interpretar o que ele dizia. Por isso, ele a chamara de vaca, no fim. Vaca não deixava dúvidas de que ele a desprezava.

― Não, não. É que estou com uns amigos lá em casa, resolvemos fazer alguma coisa para comer e não tinha nada em casa.

― Curioso, eu também tenho gente lá em casa e vim comprar bebidas, patê, essas coisas.

― Gozado.

Ela dissera uns amigos. Seria alguém do seu tempo? A velha turma? Ele nunca mais vira os antigos amigos do casal. Ela sempre fora mais social do que ele. Quem sabe era um amigo? Ela era uma mulher bonita, esbelta, claro que podia ter namorados, a vaca.

E ela estava pensando: ele odiava festas, odiava ter gente em casa. Programa, para ele, era ir para casa do papai jogar buraco. Agora tem amigos em casa. Ou será uma amiga? Afinal, ele ainda era moço... Deixara a amiga no apartamento e viera fazer compras. E comprava vinhos importados, o farsante.

Ele pensou: ela não sente minha falta. Tem a casa cheia de amigos. E na certa viu que eu fiquei engasgado ao vê-la, pensa que eu sinto falta dela. Mas não vai ter essa satisfação, não senhora.

― Meu estoque de bebidas não dura muito. Tem sempre gente lá em casa ― disse ele.

― Lá em casa também é uma festa atrás da outra.

― Você sempre gostou de festas.

― E você, não.

― A gente muda, né? Muda de hábitos...

― Tou vendo.

― Você não me reconheceria se viesse viver comigo outra vez.

Ela, ainda sorrindo:

― Que Deus me livre.

Os dois riram. Era um encontro informal.

Durante seis anos, tinham se amado muito. Não podiam viver um sem o outro. Os amigos diziam: Esses dois, se um morrer o outro se suicida. Os amigos não sabiam que havia sempre uma ameaça de mal-entendido entre eles. Eles se amavam mas não se entendiam. Era como se o amor fosse mais forte, porque substituía o entendimento, tinha função acumulada. Ela interpretava o que ele dizia, ele não queria dizer nada.

Passaram juntos pela caixa, ele não ofereceu para pagar, afinal era com a pensão que ele lhe pagava que ela dava festas para uns amigos. Ele pensou em perguntar pela mãe dela, ela pensou em perguntar se ele estava bem, se aquele problema do ácido úrico não voltara, começaram os dois a falar ao mesmo tempo, riram, depois se despediram sem dizer mais nada.

Quando ela chegou em casa ainda ouviu a mãe resmungar, da cama, que ela precisava acabar com aquela história de fazer as compras de madrugada, que ela precisava ter amigos, fazer alguma coisa, em vez de ficar lamentando o marido perdido. Ela não disse nada. Guardou as compras antes de ir dormir.

Quando ele chegou no apartamento, abriu uma lata de patê, o pacote de bolachas, abriu o vinho português, ficou bebendo e comendo sozinho, até ter sono e aí foi dormir.

Aquele farsante, pensou ela, antes de dormir.

Aquela vaca, pensou ele, antes de dormir.


Os diamantes chegaram

Ubiratan S., funcionário público, 47 anos, casado com Hilda S., prendas domésticas, sem filhos, acordou no meio da noite de um sonho burocrático. O telefone estava tocando. Ubiratan S. olhou seu relógio de pulso, que nunca atrasava ou adiantava. Duas e 22. Àquela hora, só podia ser morte na família ou engano. O tio Potiguar, pensou Ubiratan S., levantando-se, tonto. Morreu. Quando ergueu o fone do gancho, Ubiratan S. já reorganizava, mentalmente, a sua rotina do dia seguinte, quinta-feira, para acomodar o velório e o enterro do tio Potiguar.

― Alô?

― Os diamantes chegarram ― disse uma voz feminina. Assim mesmo, chegarram, o erre carregado. E não disse mais nada.



De volta à cama, Ubiratan acalmou Hilda S., prendas domésticas, olhos arregalados.

― Era trote. Dorme

No dia seguinte, quinta-feira, Ubiratan S. maldisse várias vezes o telefonema da noite. Tinha lhe roubado cinco minutos de descanso reparador e ele, sem suas oito horas completas de sono, ficava imprestável. Na repartição, carimbou uma via errada pela primeira vez na sua vida funcional. Mas o mundo era assim, cheio de gente sem ter o que fazer.

Quase no fim do expediente, chegou o envelope.

Era um envelope branco, comum. Dentro, um guardanapo de papel com o nome de um bar impresso. E, escrito à mão: "Hoje. Dez horas. Se eu estiver bebendo um Martini é sinal de que tudo está bem. Um drinque longo é sinal de perigo. Helga".

Ubiratan S. amassou o envelope e o guardanapo e jogou na cesta, indignado. Aquilo era coisa do pessoal do Arquivo. Uns desocupados. Ainda iam ouvir poucas e boas. Mais três ou quatro anos e Ubiratan chegaria a um cargo de chefia e aí aquela folga ia acabar. Poucas e boas.

À meia-noite, o telefone do seu apartamento tocou. Hilda S., prendas domésticas, acordou assustada. Ubiratan S. jogou longe o seu Vida Cristã e pulou da cama. O tio Potiguar!

― É a Helga ― disse a mesma voz. ― Esperei você no bar até agora. O que houve?

Ela pronunciava esperrei. Ouviu poucas e boas. Estava pensando o quê? Ele era um homem de respeito, responsável, trabalhador... A mulher disse "compreendi" e desligou.

Ubiratan S. recuperou o controle antes de voltar para a cama. Não gostava de perder o controle. Era um homem metódico. Desde os dois ou três anos, quando aprendera a se limpar sozinho, era um homem metódico. Disse para Hilda S., prendas domésticas, que tinha sido um trote outra vez.

― Dorme, dorme.

No dia seguinte, outro envelope branco. Um bilhete: “Desculpe. Eu devia saber que seu telefone está controlado e você não pode falar livremente. Mas precisamos nos encontrar logo. Tenho os diamantes e o anão está no meu encalço. Sei que Dombrovski também chegou de Buenos Aires. O que vamos fazer? Helga”.

Sábado, Ubiratan S. e Hilda S., prendas domésticas, foram visitar o tio Potiguar, que estava ótimo. Aquele não morria tão cedo. Na volta, entraram numa sorveteria. Hilda S., prendas domésticas, adorava creme russo. Ubiratan notou o anão que entrou atrás deles e pediu ameixa e coco.

Às quatro horas da madrugada, o telefone tocou. Hilda S., prendas domésticas, acordou em pânico. Era Helga.

― Você está sendo vigiado.

― Eu sei ― disse Ubiratan.

Ubiratan S. não dormiu mais naquela noite. Passou o domingo espiando pela janela. Não poderia descrever o que sentia. Não era mais indignação. Nem medo. Era assim como um frio de antecipação na barriga. Também não dormiu na noite de domingo para segunda. Na repartição, carimbou a própria mão várias vezes, distraidamente. E então, na noite de segunda, o telefone tocou outra vez. Hilda S., prendas domésticas, deu um grito. Ubiratan correu para atender.

― Rápido! ― disse Helga. ― Eles estão rondando o meu quarto. Não sei o que fazer. Venha depressa!

Ela deu o nome de um hotel. E de repente, Ubiratan S. estava correndo dentro do seu apartamento. Vestiu-se como um raio. Eufórico. Hilda S., prendas domésticas, não entendia nada. O que era? Mas Ubiratan não respondeu. Não saberia o que dizer. Se abrisse a boca era para dar uma gargalhada descontrolada. Quando saiu pela porta pela última vez, ouviu Hilda S., prendas domésticas, gritando da cama:

― É o tio Potiguar? Ubiratan, me responde! É o tio Potiguar?

Hilda S., prendas domésticas, nunca mais viu Ubiratan S. Ninguém na cidade e na repartição viu Ubiratan S. Sua mulher recebe remessas de dinheiro irregularmente de lugares misteriosos. Adis-Abeba. Antuérpia. Macau. Uma vez julgou identificar o marido junto com uma loira numa foto de revista sobre a temporada de inverno em Saint-Moritz, mas o cabelo, oxigenado e penteado para a frente, era diferente. Outra vez, um telefonema que parecia vir de muito longe,

― Hilda?


― Ubiratan, onde é que...

― Não se preocupe. Está tudo bem.

― Mas Ubiratan...

― Não posso falar agora. Um beijo.

No fundo, o som de uma orquestra de marimbas. E um dia bateu um negrão com sotaque francês na porta do apartamento e entregou um pacote.

― É de Ubiratan? ― perguntou Hilda S., prendas domésticas.

― Pode ser ― respondeu o negrão ― Nós só conhecemos ele pelo codinome. Lê Faucon
Fantástico, os olhos de boxer

Discordavam sobre coisas pequenas. Ela, por exemplo, adorava o Nelson Ned; ele não gostava. Mas nunca tinham brigado de verdade. Até que um dia...

Um dia (era domingo) ele ligou a televisão para ver um programa de debate esportivo e ela disse que queria ver o Fantástico. Ele olhou para ela, meio confuso.

― Como, Fantástico?

― Fantástico, o show da vida.

― Sim, minha filha, mas...

E outra coisa, não me chame de sua filha.

Ele tinha 34 anos, ela tinha 29. Estavam casados há oito anos. Tinham dois filhos, Denise, de seis, e Júnior, de quatro. Uma irmã dela, asmática, morava junto. Havia um acordo tático: domingo, ele escolhia os programas na televisão. E sempre via o debate esportivo.

― Que é que há? ― perguntou desconfiado.

― Não há nada, eu quero ver Fantástico, o show da vida, só isso.

― Eu também ― disse, timidamente, a cunhada asmática, que sempre sentava numa das cadeiras da mesa de jantar para ver televisão. Ficava apoiada com um braço fino sobre a mesa. No centro da mesa havia um prato de louça com frutas artificiais.

Ele olhou para a cunhada, de boca aberta, depois para a mulher. Era preciso pensar antes de reagir. Era um homem razoável, nunca tinham brigado antes. Só por coisas pequenas.

― Mas domingo eu sempre vejo o meu programa.

― Hoje eu quero ver o Fantástico.

― Eu também ― repetiu a cunhada, com mais força.

Ele ficou de pé num salto. Como se tivesse tomado a decisão de acabar de uma vez por todas com aquela bobagem. Com aquele motim. Afinal, o que é que estavam pensando. Mas não tinha nada para dizer e sentou-se em seguida, com cara de assunto encerrado. Como se só o seu gesto de ficar de pé já tivesse restabelecido a hierarquia do domingo, e estava acabado. Mas a mulher caminhou ameaçadoramente para o aparelho de televisão. Era preciso pensar depressa.

― Minha filha...

― Não me chame de sua filha.

Ela nem virara a cabeça para dizer isto. Abaixava-se para girar o seletor de canal. Ele sentiu que aquele era o momento definitivo do seu casamento.

― Não toque nesse botão.

A mulher hesitou, depois tocou no botão. Mas não o girou. A mulher ficou imóvel. Ele reforçou a sua ordem com uma ameaça vaga mas firme.

― Se você virar esse botão, não sei não.

― Vira! ― disse a cunhada, com surpreendente autoridade.

Ele ergueu-se outra vez, desta vez devagar como se temendo que qualquer movimento mais brusco pudesse precipitar os acontecimentos. Ele podia até levar uma maçã artificial pelas costas, tudo era possível. Recuou até ficar de frente para as duas irmãs. Apontou para a mulher.

― Afaste-se dessa televisão.

“Afaste-se”. Nunca falara assim antes. A gravidade da situação impunha uma certa solenidade à linguagem. Falava como filme dublado na televisão.

A mulher endireitou-se. Olhou para a irmã. Sem se falarem, sem qualquer sinal, mas como se tudo estivesse previamente combinado “se ele resistir a gente pega e...”, as duas caminharam na direção da cozinha. Ele sentiu que sua vitória precisava ser consolidada. Era frágil ainda, o inimigo mantinha a iniciativa. E a vantagem do fator surpresa. Elas já tinham desaparecido pela porta da cozinha quando ele gritou:

― E quero meu jantar em seguida!

Durante dois, três minutos, ele ficou imóvel, encostado no guarda-louça, tentando decifrar os sons que vinham da cozinha. O seu coração batia. Era um homem razoável, não gostava de briga. Casara com ela por causa de seu gênio dócil, submisso. Aqueles olhos de cachorro boxer... A Denise estava no seu quarto. O Júnior dormia. Ele não fazia um movimento, encostado no guarda-louça, esperando a reação das duas irmãs.

E de repente, ele se lembrou. Meu Deus! É o aniversário dela! Eu me esqueci por completo! Precipitou-se na direção da cozinha, ensaiando o seu pedido de desculpas. “Minha filha...”

O almoço fora galinha. O que sobrara da galinha seria servido à noite, frio, com salada. Ele ainda não tinha chegado na porta quando viu passarem por ele, em formação como uma esquadrilha, vários pedaços de galinha, arremessados da cozinha. Parou onde estava, de olhos arregalados. Segundos depois uma porção de salada também atravessava a sala e ia espalhar-se no chão, em frente à televisão.

Quando, meia hora depois, as mulheres voltaram para a sala para investigar o silêncio, o encontraram ainda de pé, os olhos arregalados, olhando fixo para uma Santa-Ceia na parede. Chamaram um primo que era médico. Ela pediu desculpas ao marido, a cunhada chorava de remorso, mas quando ele voltou a si e viu as duas ao lado da cama, encolheu-se para junto da parede como quem acaba de ver um monstro no quarto.

Ele tirou licença da repartição, passou 40 dias em casa de pijama vendo televisão. Quem escolhia os programas era a mulher. Até aos domingos. Ela escolhia o Fantástico e ele ficava olhando para as duas irmãs durante todo o programa com cara de quem quer compreender.
Ed Mort e os nobres selvagens

Mort. Ed Mort. Detetive Particular. É o que está escrito na plaqueta nova que mandei botar na minha porta. Roubaram a outra. Ocupo uma espécie de armário numa galeria de Copacabana, junto com um telefone mudo, 17 baratas e um ratão albino. Entre uma escola de cabeleireiros e uma loja de carimbos. A loja de carimbos, antes, era uma pastelaria. A pastelaria fechou depois de um desentendimento com a Prefeitura sobre a natureza de alguns ingredientes no recheio. Azeitonas pretas ou cocô de rato? Sei não. Foi depois que a pastelaria fechou que o ratão albino apareceu no meu escritório, e tinha um ar culpado. Eu o chamo de Voltaire, porque ele às vezes desaparece, mas sempre volta. Tenho leitura. Mort. Ed Mort. Está na plaqueta.

Eu estava construindo uma armadilha para baratas, com clips de papel e o catálogo telefônico de 1962, quando ela entrou. Era francesa. Vi pelo seu pé dentro da sandália. Conheço mulher pelo pé. Nacionalidade, estado civil, vida pregressa. Um truque que aprendi com um velho duque italiano que um dia apareceu morto na banheira do seu quarto do Copacabana Palace. Comido por piranhas. Um caso estranho. Vou contar tudo num livro, algum dia. Já comecei minha autobiografia várias vezes. Sem sucesso. Sempre conto tudo ― do início humilde na Penha ao atual esplendor entre baratas ― em menos de quatro páginas. Estas malditas frases curtas. Sucinto muito. Ela era francesa.

― Quesquecé? ― perguntei. Tenho leitura. Sem querer me jeangabin.

Ela se surpreendeu. Era linda quando se surpreendia. Tinha um acento bonito, e isso que eu a estava vendo de frente. Chamava-se madame Rousseau e procurava seu marido.

― Jean-Jacques, eu presumo ― disse eu.

Olhei em volta para ver se as baratas e o ratão estavam acompanhando o diálogo. Já que não me abandonavam, que pelo menos me respeitassem. Ela respondeu: Não. Jean-Paul.

― Hmmm disse eu, em francês.

Jean-Paul e madame Rosseau tinham vindo passar o carnaval no Rio. Ele era sociólogo. Ela era antropóloga. Desenvolviam uma tese sobre as civilizações tropicais.

― Vous savez. A inocência do Novo Mundo. O último povo feliz. Etcetera.

Acho que foi o etcetera. Me apaixonei. Pensei em convidá-la para ir até o meu apartamento. Medir o meu crânio, sei lá. Mas me contive. Ela era uma cliente e eu precisava de dinheiro. Estava há meses numa dieta de pedaço de pizza e Fanta uva. E meu apartamento era tão pequeno que para espirrar tinha que abrir a janela. Mort. Ed Mort. Está na plaqueta.

Onde ela vira o marido pela última vez? Fora na frente do Méredien, na terça-feira de carnaval. Passara um bloco, ao meio-dia, e Rosseau não se contivera. Saíra atrás do bloco, gritando para a mulher que o esperasse. Ela não procurara a polícia ou o consulado. Jean-Paul podia estar fazendo pesquisa. Uma vez desaparecera no Congo durante quatro anos e na volta ainda reclamara do atraso do jantar. Madame Rousseau estava acostumada. Mas...

Completei a frase por ela:

― Pour voi de les doutes...

Ela pareceu não entender. Estava nervosa. Perguntei como era o bloco. Tinha um negrão na frente e quatro mulatas? Tinha. O negrão era barrigudo? Era. Camiseta do Vasco? Ela ficou confusa. Vasco? Uí, uí. Lista assim. La croix de Malte.

Conferia. Eu sabia. Disse para ela esperar no hotel. O caso estaria resolvido antes que ela pudesse dizer zut, alors. Tomei nota do número do seu quarto. Mentalmente, porque roubaram o meu bloco de notas e a minha Bic.

O golpe era antigo. Todos os carnavais o negrão Antecedentes que ganhara o nome porque ao nascer já tinha ficha na polícia formava o seu bloco. Passava pela frente dos hotéis em pleno abandono orgiástico (tenho leitura. Mort. Ed Mort. Está na plaqueta). Quando o bloco voltava para a Prado Júnior, vinha cheio de turista atrás. Em confraternização com os nativos. Aí, os nativos faziam a limpa nos turistas. O negrão Antecedentes alegava inocência. Só estava brincando no carnaval, o que que há? Tinha culpa que os turistas se empolgavam?

Encontrei Antecedentes no lugar de sempre. Um bar da Prado, O Condicional, porque lá só dá meliante solto. Ele estava destruindo uma coxa de galinha. Me encarou. Compreendi como a coxa de galinha se sentia. Perguntei pelo francês.

― Que francês?

― Um que saiu no bloco de vocês e até hoje não voltou. Ele gosta de carnaval mas não tanto. A mulher quer ele de volta, e com todas as peças.

Antecedentes pensou um pouco. Engoliu a coxa de galinha e me considerou como sobremesa. Depois perguntou:

― O que é que eu levo?

― A metade que a dona me pagar.

O francês estava num apartamento com as quatro mulatas. Pesquisa. Queria saber tudo sobre a inocência do Novo Mundo e pagava com travellers. Uma das mulatas estava contando que era filha de uma princesa índia com um jacaré, de olho na Lacoste do francês, quando eu entrei. Ele não gostou da interrupção. A muito custo consegui convencê-lo a pelo menos telefonar para a mulher.

Meu trabalho estava feito. Como o francês emprega tudo na pesquisa, madame Rousseau não tem com o que me pagar. O francês foi levado numa expedição ao Vidigal para investigar os hábitos da tribo de uma das mulatas, que pelo pé é gaúcha de Carazinho.

Antecedentes já veio me ver. Quer a sua parte e não aceita desculpas. As baratas vibram. Voltaire me ignora. Mort. Ed Mort. Etcetera.


O clube

― Aqui estamos nós. Cada vez mais velhos...

― E gordos...

― Você está enorme.

― Você também.

― Graças a Deus. Já perdi todos os meus apetites, menos o de comida.

― É o que eu sempre digo: comida é bom e alimenta.

― O clube está deserto. Os criados foram todos embora?

― Você não se lembra? Não há mais criados.

― É mesmo. Não havia mais razão para mantê-los aqui. Afinal, nos reunimos só uma vez por mês.

― Mas eu vivo só para estas reuniões.

― Eu também. Não há mais nada.

― Hrmf.

― Hein?


― Eu disse, "hrmf’. Um barulho de velho. Não significa nada.

― Não compreendo por que esta mesa posta para doze. Do grupo original, só sobramos nós dois.

― É a tradição. Temos que manter a tradição. Cada lugar vazio corresponde a um membro do clube que se foi.

― Ali se sentava o... Como era mesmo?

― O Gastão.

― Gastão, Gastão... Não sei se me lembro...

― Advogado. Morreu aqui na mesa mesmo, com uma espinha de peixe atravessada na garganta. Foi um escândalo. Ele rolou por cima da mesa. Destruiu um pudim de claras que parecia estar ótimo. Nunca o perdoei.



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