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CENTRO DE LETRAS: EFERVESCÊNCIA LITERÁRIA EM TEMPOS DE FORMAÇÃO DA IDENTIDADE REGIONAL DURANTE A REPÚBLICA –ALGUMAS RELAÇÕES COM LEONOR CASTELLANO

1. CAMINHOS LITERÁRIOS


Estamos de parabéns, os intelectuais, mais uma vez, os nossos elevados dotes de compreensão, cultura e generosidade à causa das letras estadinas1.

A afirmação é de Leonor Castellano2, a qual se referia ao seu trabalho em prol do tradicional Centro de Letras do Paraná. A autora tornou-se reconhecida no meio literário quando se envolveu nas reuniões e encontros do Centro de Letras após a década de 1930, afirmando principalmente concepções direcionadas à formação identitária paranaense. Acredito, segundo a pesquisa bibliográfica do contexto e das fontes, que a autora esteve próxima de ideais difundidos durante a Primeira República (1889-1930), por meio do Centro de Letras do Paraná, o qual foi fundado por Euclides Bandeira e Emiliano Perneta, em 1912, e foi um reduto de grande influência literária do início do século XX até meados do mesmo.

Escritores famosos, simbolistas, os quais em sua maioria eram influenciados pelo positivismo, participavam do cenário curitibano desde o fim do século XIX e até meados do XX, o que ocasionou a formação de diversos centros e clubes pelos quais circulavam a literatura, a poesia, como o Centro de Letras do Paraná (1912), o Club Coritibano (1890), a Revista O Cenáculo (1890), Fanal3 (1911-1913), O Sapo (1892), Academia de Letras do Paraná4 (1922), Academia de Letras José de Alencar (1939)5, entre muitos/as outros/as. Segundo Claudio DeNipoti (DeNipoti, 1996) as revistas e periódicos que se publicavam nessa época eram meios de comunicação para uma geração de escritores paranaenses.

O modo como esses Centros e revistas propagavam seus ideais e a autoafirmação buscada pelos mesmos são aspectos que busco compreender, principalmente quanto ao Centro de Letras. Pierre Bourdieu (BOURDIEU, 1996, pp. 68-69) infere que um campo intelectual - e neste caso compreendo a noção de campo relacionada à cidade de Curitiba, a qual viveu na virada do século XIX um aumento significativo do número de centros intelectuais - é um conjunto de centros literários que emana diretrizes literárias, estimula trocas linguísticas que colaboraram na definição da hierarquia e da organização literária existentes na sociedade. Nesse sentido, muitas das ideias, das falas que os centros irradiaram demonstravam que havia disputas entre os próprios centros. Essa disputa, por sua vez, era evidenciada pelo número de revistas e publicações patrocinadas pelos grupos, como veremos na próxima sessão. Os conteúdos, as formas e as estratégias utilizadas pelos centros e seus escritores é que determinavam a importância e a memória do reduto representado.

Nesse viés, a autoafirmação buscada pelo Centro de Letras, analisada em consoante à efervescência literária das primeiras décadas do século XX, e os recursos utilizados para realizar essa ação, assim como a maneira como Leonor Castellano colaborou com a missão, é o que pretendo analisar. A ênfase dada ao contexto literário e ao Centro de Letras no próximo tópico se dá devido à importância do Centro no tempo em que foi fundado, também para a época em que Castellano foi presidente.
1.1 PÁGINAS ESCRITAS E O CONTEXTO CURITIBANO

O Centro de Letras é um lócus que demonstra um tempo em que a história literária paranaense estava se formando, um lugar que almejou representar essa história por meio da literatura, das discussões, da oratória. Talvez seja difícil para alguém que passa ou adentra o recinto, compreender os princípios de seu criador, Emiliano Perneta, representado por meio de seu busto no salão de entrada, ou ainda, o “aroma” dos velhos livros, da biblioteca, do auditório e aqueles rostos que parecem te observar. Um destes chamou a atenção. Leonor Castellano é também o primeiro rosto feminino em meio a tantos masculinos no Centro de Letras, no cargo de presidente.

Reforço que há uma distância temporal da data de fundação do Centro em relação à entrada de Castellano como membro, e da época em que ela mais representou o Centro de Letras. Apesar do intervalo, as ideias publicadas ou homenagens escritas por Leonor Castellano demonstram que as concepções dos fundadores de 1912 foram defendidas por ela, ainda que esse processo tenha se iniciado cerca de duas décadas depois.

A fomentação de clubes literários, de revistas e de jornais dirigidos por intelectuais que estavam preocupados com a formação da identidade paranaense teve seu início em fins do século XIX. Nessa época havia a intenção de construir essa identidade devido à jovialidade do Estado, o qual havia conquistado sua emancipação no ano de 1853, além da própria influência da Proclamação da República, em 1889. O objetivo era de “encontrar” elementos que diferenciassem o povo paranaense, que demonstrassem que o Paraná era um Estado com uma história própria, independente de São Paulo. Por meio da literatura, do jornalismo, alguns moços6 acreditavam que poderiam permear as condições ideais para o crescimento e o progresso da província. A cidade de Curitiba no início de 1900, enquanto capital, sofreu modificações urbanísticas, como o alargamento de ruas e calçadas, a construção de bondinhos, os quais tornaram a cidade muito diferente dos ares provinciais que existiam até cerca de 1870. Uma modernidade alcançou os ares curitibanos e, neste contexto, clubes e periódicos foram utilizados como ferramentas da propagação de ideias políticas, literárias e sociais.

A efervescência literária era sentida no Brasil, pois em fins do século XIX foi criada a Academia Brasileira de Letras (ABL). Segundo o historiador João Paulo Coelho de Souza Rodrigues (RODRIGUES, 2001, pp. 15-30), a ABL foi criada justamente para não discutir sobre os temas políticos da época, visto que a década de 1890 apresentou muitos problemas decorrentes da República, isto é, havia uma decepção com o governo por parte dos literatos. Mas a partir de 1912, já depois da morte de Machado de Assis (1908), com a saída de Érico Veríssimo, as primeiras diretrizes da ABL foram modificadas com a entrada de políticos como Lauro Muller. O autor aponta que os debates nesse contexto concentravam-se em assuntos como a nacionalidade, a literatura brasileira, o alcance da civilização, mistura de etnias.

Para a historiadora Silvia de Mello (MELLO, 2009, p. 13), no Paraná não foi diferente. De acordo com a autora, intelectuais desse momento perceberam que as ideias relacionadas ao progresso de um Estado estavam vinculadas diretamente à formação cultural da sociedade. Nesse contexto, a feminista e educadora portuguesa Mariana Coelho, amiga de Castellano, a partir de 1930 escreveu a obra O Paraná Mental em1908, na qual organizou uma lista de escritores e obras que ilustravam a riqueza literária que se vivia no Paraná. A intenção em publicar a obra demonstra como Curitiba estava vivendo uma época em que a literatura era valorizada. Entendo dessa forma, pois entre vários nomes citados por Mariana Coelho, alguns são referentes a grandes historiadores e escritores daquele contexto, sendo que todos faziam parte de um ou outro centro: Emiliano Perneta, José Henrique Santa Rita, Romário Martins e Rocha Pombo7. O primeiro, influenciado pelas ideias simbolistas, obtidas com as leituras de livros do poeta Charles Baudelaire, foi o maior propagador do simbolismo no Paraná; já Santa Rita foi organizador dos estatutos do Centro de Letras e amigo de Perneta; Romário Martins, por sua vez, foi responsável por boa parte da escrita da História do Paraná em seu contexto, assim como Rocha Pombo. São homens que a partir de 1890 envolveram a sua escrita com o contexto que vivido em Curitiba. Deste modo, Rocha Pombo, na época em que o livro de Mariana Coelho foi lançado, publicou em um jornal a importância que aquele livro representava no contexto literário vivido por ele e os demais:


Mas assim mesmo como (o livro) está [...] é uma lição que nos deixa; é uma cópia exata da abundância e da espontaneidade com que temos por ali a nossa visão dirigida para um vasto horizonte de larga vida moderna; e com segurança pode julgar-se, pelo que nos dá a autora, da originalidade, do que tem de incisivo, no seu modo de ser, na sua natureza moral, na sua índole e na sua capacidade de cultura, o povo paranaense. (MELLO, 2009, p.13)
O livro e o conteúdo nele contido, para Rocha Pombo, é a realidade que a modernidade advinda da República pôde demonstrar por meio dos trabalhos dos escritores paranaenses, demonstrados na obra de Mariana Coelho. O nacionalismo buscado dentro dos preceitos do tempo da Primeira República estava, de alguma forma, vinculado ao regionalismo paranaense. No que tange a esse assunto, o contexto curitibano não está isolado do âmbito nacional. Como analisado, muitos intelectuais curitibanos mantinham contato com obras como as de Charles Baudelaire e de outros escritores brasileiros que viviam na capital da República ou em São Paulo. No Paraná, este contato se deu principalmente por meio de Emiliano Perneta.

Intelectuais, não só paranaenses, viam esse contexto brasileiro como uma época em que os ideais de progresso (MELLO, 2009, p.13) e os caminhos possíveis deveriam ser investigados e traçados. Para o autor João Paulo Rodrigues (RODRIGUES, 2001, pp.23-24), apesar da ABL – seu objetivo de pesquisa – afirmar que naquele contexto não tinha nenhuma tendência política, havia dois aspectos que norteavam as discussões: um interno (dentro do campo intelectual), no qual os literatos consideravam a ciência (relacionada aos termos etnia e evolução) indiscutível, portanto universal; já o outro seria relativo à ordem social e os problemas ocasionados que atravancavam o progresso.

Os conceitos de nação e de nacionalismo estavam se formando no Brasil, devido à recente Proclamação da República, à Abolição da Escravatura, entre outros. Momentos importantes que mudaram os rumos da história brasileira e que serão discutidos desde o fim da década de 1890 até a consolidação do nacionalismo no Governo Vargas. A modernidade trouxe novidades políticas e culturais que colaboraram na redefinição da sociedade e por isso tornaram-se alvo de disputa entre literatos.

A historiadora Andrea Schactae8 reforça que nos anos de 1920 não havia no Brasil e em Curitiba, um conceito pronto e determinado sobre o que seria o patriotismo, o nacionalismo. Não obstante, a autora ao estudar as comemorações de Tiradentes em Curitiba, no início do século XX, aponta que a identidade paranaense estava sendo vinculada a uma identidade nacional em construção. Portanto, a definição de uma identidade paranaense nos anos de 1920 e 1930, estava afirmando uma identidade nacional, bem como a identidade nacional legitimou a regional, nas cerimônias ao herói nacional.

Sobre essa época, a historiadora Etelvina M. C. Trindade (TRINDADE, 1996, p.87) aponta que juntamente às mudanças do republicanismo, símbolos, mitos e origens foram manipulados pelo conceito nacionalista empregado na cidade, em busca de uma construção do nacionalismo brasileiro e da identidade paranaense. Ainda, as escolas, principalmente as primárias, eram vistas como meios de propagação da mensagem patriótica, e as mulheres como elementos formadores das gerações posteriores. Nesse sentido, crianças e jovens, desde o início “amariam” a Pátria, ou em outras palavras, a República. Em conjunto a essa formação “nacional identitária” novidades também marcaram essa fase na capital paranaense. Com a abertura de casas bancárias, indústrias e a chegada de imigrantes e migrantes, a cidade viveu um processo de urbanização em que regras fiscais e de higienização começaram a ser implementadas.

As inovações alteraram o panorama social e o olhar de muitos curitibanos. E é nessas circunstâncias que intelectuais vão se atrelar às formas de escrita para recompor quais seriam os ideais republicanos para colaborar na formação de um “novo Brasil e de uma nova Curitiba”. Portanto, quanto ao Centro de Letras, se observasse exatamente só o que foi declarado em sua ata de fundação, em seus registros, sem considerar o seu contexto, deixaria para trás o que Bourdieu intitula de gênese social (BOURDIEU, 2010, pp.281-298). Deste modo encontraria o que o Centro de Letras desejava transparecer à crítica e aos jornais, sem denunciar os motivos particulares, “interiores” ao clube. Juntamente à ideia de mudanças e inovações desse contexto, o que concerne a esta pesquisa é: que elementos, além da modernidade já citada, favoreceram a criação de tantos redutos literários, principalmente o Centro de Letras? Como este se formou um lócus tão defendido por Castellano, pelo qual ela lutou e escreveu?

Leonor Castellano, apesar de ter participado do Centro somente nas décadas posteriores a sua fundação, já tinha mais de vinte anos na década de 1920, trabalhava em órgãos públicos, escrevia artigos e, portanto, conviveu com parte da época de efervescência literária em Curitiba. A literatura era importante para a autora, como posso perceber quando retomo uma fala sua, na qual ela definiu a palavra falada como algo que pode ser esquecido, mas a que é registrada em um livro pode permanecer para sempre: não há outro meio de o poder perpetuar, a não ser gravando-o no bronze, esculpindo-o na pedra, burilando-o nas páginas de um livro (CASTELLANO, 1935, p.5). Esta concepção, em que a escrita é analisada como detentora das ideias reais e mais evidentes de um tempo, foi uma característica perpetuada por Castellano e iniciada pelos moços de gerações anteriores. Mais que isso, os registros literários representavam um poder simbólico, uma disputa dentro de um campo intelectual, em que os grupos reafirmavam suas ideias a fim de conquistar um público e para que suas noções fossem vistas como formadoras da identidade.

Até a época próxima da Proclamação da República, o ato de escrever no âmbito político era direcionado a uma elite econômica e política em geral (MELLO, 2009, pp.13-16). Deste modo, não eram muitos que participavam efetivamente da arte de escrever. Entrementes, com a divulgação jornalística e literária de fins do século XIX, a palavra passou a ser vista como algo que deveria ser discutido. Os tons literários e patrióticos ganharam a oportunidade de serem divulgados, de circular nas rodas e revistas de parte da comunidade curitibana. Dar acesso, tornar conhecido esse campo intelectual e as diversas ideias que circulavam nele, foram os ideais de muitos escritores daquele tempo, tanto que muitos apenas ocuparam-se disso ao fundar clubes e escrever colunas destinadas aos jornais e às revistas difundidas naquela sociedade. A esse respeito Mello aponta: “a palavra deixava de estar fechada, restrita a poucos, para tornar-se aberta, conhecida, ter multiplicado o seu uso e sendo usada em suas várias potencialidades. Para tanto, como meio de fortalecer a palavra, agruparam-se em clubes e associações” (MELLO, 2009, pp.13-16).


A arte e a literatura não foram incentivadas apenas pela vontade dos literatos. Os ares modernos não aumentaram somente os empréstimos de livros nas bibliotecas fundadas, mas até mesmo a troca de obras entre pessoas da sociedade. DeNipoti afirma que o número de bibliotecas e livros obteve um aumento significativo, além de que havia a ideia de que a população deveria ser “civilizada” para ocasionar o progresso, influenciada pelo ideal positivista. Um dos modos para que isso acontecesse era investir em bibliotecas públicas e particulares, como era o caso do Club Coritibano9.

Em suma, o melhoramento da tipografia, a aceleração na produção e o aumento no número de publicações e exemplares foram fundamentais para a difusão das novas teorias literárias, obras e romances que também alcançaram um público mais amplo10. Os clubes e centros, ao utilizarem esses mecanismos, puderam construir um saber autorizado, legitimado e principalmente envolveram-se num jogo de poder simbólico.

Os conteúdos e a maneira como falavam os indivíduos que pertenciam aos clubes representavam os ideais em que acreditavam. As concepções de escrita, os suportes de divulgação, de recepção e os temas eram as causas que motivavam a disputa entre os grupos. Bourdieu afirma (BOURDIEU, 2010, p. 286) que a palavra escrita não está inconsciente do seu espaço, do seu tempo histórico. O ato de produção, de apropriação de escritos não está alheio ao que um campo ambiciona. As obras e os escritos que saem de um campo artístico emanam as suas ideias, reforçam os laços entre o “Centro” e os que o dirigem, que escrevem sobre ele e portanto dão continuidade ao processo literário almejado. Ou mesmo, como afere João Paulo Rodrigues (RODRIGUES, 2001, pp. 23-24), a ABL obteve uma posição política por si só, a partir do momento em que estipulou suas regras, estatutos e limites (nem sempre respeitados). O Centro de Letras, mesmo não tendo um ideal político, nem religioso, quando escolheu o seu objetivo de afirmar, ao seu modo, a identidade paranaense, assumiu suas intenções.

No início do século XX estavam ocorrendo alguns movimentos literários em Curitiba. Um deles, o movimento paranista11, obteve destaque e era comandado por intelectuais, políticos e artistas. O Paranismo nada mais era que uma tentativa de resgatar a História do Paraná, ou se necessário fosse, inventá-la. Este movimento iniciou-se em fins do século XIX, porém ganhou força em primórdios do século XX. Essa estratégia em criar significados para a identidade regional, tendo a linguagem como ferramenta, seria uma característica que grupos de uma sociedade podem aderir a fim de programarem uma história literária paranaense. Quanto às ações do paranismo podemos compreendê-las como estratégias que queriam legitimar uma verdade, uma história, “uma tradição inventada”. Segundo Bourdieu, (BOURDIEU, 1998, pp.107-108) o uso da própria história pode ser um meio para se criar uma representação mental, como um poder simbólico sobre uma sociedade. Em Curitiba isso ocorreu através do reconhecimento de emblemas, de bandeiras e da literatura, quando artistas, pintores e intelectuais “resgataram” a história do Paraná.

Ainda, o que tange também as principais discussões desse contexto é o embate que havia entre clericais e anticlericais12. Isso era decorrente da ruptura da Igreja e do Estado, após o fim do Império. A Igreja, por sua vez, instituiu uma diocese efetivada no ano de 1894 em Curitiba, com a intenção de reconquistar o espaço que havia mantido até o ano de 1889 no Estado do Paraná, sendo esta uma estratégia utilizada em todo o Brasil.

Por meio de escolas confessionais dirigidas por congregações e ordens católicas de imigrantes, a Igreja lutou para desmantelar grupos anticlericais, como os das revistas simbolistas O Cenáculo e o da Club Coritibano. As duas décadas seguintes foram marcadas por essa disputa e lideradas ora por Dario Vellozo, ora pelo Padre Desidério Deschand (NEUNDORF, 2009, pp35-40), este por meio das revistas Veritas e Estrela. Para Dario Vellozo, líder da revista O Cenáculo, o Paraná precisava desenvolver sua própria literatura e manter um intercâmbio com outros centros culturais do país. Tais ações colaborariam para desenvolver, em Curitiba, um público intelectualizado que teria suas atenções voltadas a uma nova formação de identidade literária, desligadas de noções religiosas. As atas e boletins do Centro de Letras, estes em geral publicados em triênios até a década de 1930 e posteriormente de dois em dois anos, publicavam também as cartas e telegramas recebidos de outras entidades culturais, além de exemplares de livros13. Isto se dava a fim de tornar a literatura circulante, ao mesmo tempo em que buscavam ser reconhecidos.

Muitos foram os clubes que promoveram a efervescência cultural e literária de Curitiba, ideias que em muitas oportunidades serão próximas aos fundadores homenageados por Castellano. Uma das vertentes literárias foi a constituição do movimento simbolista, o qual era representado por nomes como o de João Itiberê, de Silveira Neto e de Nestor Victor, que eram vistos em destaque. As ramificações e discussões provenientes desse grupo deram notoriedade a Emilio de Menezes, Santa Rita, Dario Vellozo, Emiliano Pernetta, Euclides Bandeira14 e Rocha Pombo. Sem querer fazer uma lista exaustiva de nomes, o meu objetivo em apontar tais “senhores” é o fato de estes homens serem representantes da busca pela formação da identidade cultural e políticas paranaenses, além de alguns serem também positivistas e paranistas.

Emiliano Perneta estava entre os principais autores dos artigos simbolistas, sendo considerado, por Andrade Muricy, o príncipe dos poetas paranaenses e o centro de toda a vida intelectual de sua terra (MELLO, 2009, p.96) Perneta viveu até os 18 anos em Curitiba, época em que já colaborava com a revista A Vida Literária, para onde retornou em 1896, já com 30 anos. O afastamento do ambiente curitibano era recorrente para aqueles que tinham a intenção de estudar ou conhecer mais sobre outras ideias literárias. No caso de Perneta, o que o moveu foi um desejo correlacionado ao objetivo de estudar Direito em São Paulo e de conviver com o meio jornalístico e literário do Rio de Janeiro. Nesse contexto, em uma visita a Curitiba trouxe livros de Charles Baudelaire, o que difundiu amplamente nesta capital os ideais simbolistas. Foi em uma dessas visitas que seu amigo, Henrique Santa Rita também conheceu livros de Baudelaire e foi, posteriormente, um companheiro de conversas e discussões literárias com Perneta, inclusive no Centro de Letras.

As rodas de amizades mantidas por Perneta eram apontadas por Muricy (MELLO, 2009, pp.27-29) como as responsáveis pela “rica” relação entre a simbolista Curitiba e os demais estados. Uma visibilidade que acrescentou reconhecimento ao Estado do Paraná, em nível nacional, que passou a ser visto como um lócus de produção literária e cultural, ao mesmo tempo em que estimulou a escrita paranaense. Sobre isso, discutirei especificamente no próximo tópico, dando ênfase ao Centro de Letras.

1.2 Centro de Letras: um espaço de definições histórico-literárias paranaenses

Segundo o historiador Alexandro Neundorf (NEUNDORF, 2009, p. 41), um dos nomes que mais se destacou da geração simbolista, entre “os novos”15, foi o de Euclides Bandeira. Este era republicano, anticlerical e como resultado das indagações do grupo de Dario Vellozo e em contraste com outros de sua geração, fundaria o Centro de Letras do Paraná, alegando que: “de há muito vinha trabalhando o espírito de nossos homens de letras a organização de um Centro, embora de fato os nossos escritores vivam na mais bela solidariedade espiritual, formando um verdadeiro bloco. Era preciso, porém, um ponto de reunião e essa necessidade está preenchida com o Centro de Letras do Paraná (NEUNDORF, 2009, p. 41).

Na citação percebo que Euclides Bandeira falou sobre o grupo que fundou o Centro de Letras como um “bloco” que agia com os seus interesses, agrupados na formação do clube literário citado. Notamos ainda a palavra “necessidade”. Acredito que se Euclides Bandeira declarou que os intelectuais fundadores tinham a necessidade de reunir-se em um clube, em construir algo que representasse a “fala” e a posição intelectual deles16, o cerne da fundação esteve na formação da identidade regional paranaense.

Neste sentido, o Centro de Letras foi criado com o intuito de colaborar para com o progresso literário do Estado, através da editoração de revistas, livros e conferências. A data escolhida para a fundação do Centro foi a mesma de comemoração do aniversário de 59 anos de emancipação do Estado do Paraná; portanto o “intelectualismo patrício” promovido pelo Centro seria um presente à data festiva e uma estratégia para entrar na história do Paraná, já que estava colaborando para com aquela comemoração. Relembrando então o que o historiador Neundorf demonstra em seu trabalho a respeito da disputa de ideais e de “grupos” intelectuais, afirmo, neste trabalho, que a criação do Centro de Letras não foi ingênua, que sua promoção não está separada de uma gênese social, pois como Bandeira afirmava “era preciso, porém, um ponto de reunião e essa necessidade está preenchida” (NEUNDORF, 2009, p.41)

Infiro de Bourdieu (BOURDIEU, 2010) que a palavra escrita pode ser um capital simbólico que reproduz o que o seu escritor ou o seu grupo representa. Entrementes, mais que isso, é a voz do escritor que não está apenas repetindo, mas sim frisando e de certa forma até impondo. Os vários clubes curitibanos e o Centro de Letras surgiram num contexto em que eram muitas as ideias que circulavam e, por isso, precisavam se impor para conquistar o reconhecimento como centros literários paranaenses. Essa era a motivação. Compreendo, no que tange a esta pesquisa, que os textos e os poemas são as “coisas simbólicas e materiais” que compõem o cenário de disputa entre os grupos.

A preocupação dos fundadores daquele contexto era que todos os membros deveriam estar sempre preocupados em contribuir, através de seus esforços, para a formação da identidade paranaense. O que chama a atenção é o fato de que o Centro de Letras, na época de Castellano, aclamava que o clube tinha uma intenção cívica, como observo a seguir:


O Centro de Letras do Paraná, fundado nesta cidade de Curitiba, capital do Estado do Paraná aos 19 dias do mês de dezembro de 1912 e considerado de “Utilidade Pública” pela Lei nº 2.231 de 9 de abril de 1923, tem por fim concorrer para o progresso cultural do Estado, desenvolvendo, na forma dos presentes estatutos, um programa de aspectos diversos – literário, científico, artístico e cívico.17
Conquistar um crescimento, ou até mesmo colaborar para com a construção de um ambiente literário característico paranaense, era a intenção do Centro de Letras. As reuniões e encontros não tinham por objetivo discutir leituras e poemas, a não ser que fossem de novos escritores paranaenses; o alvo era encontrar meios pelos quais a sua literatura ganharia reconhecimento, fosse de forma artística, literária, científica ou cívica. Quanto a esta última característica, o calor da República e da laicização estimularam o nacionalismo, o civismo, e no caso mais específico do Centro de Letras, o Paranismo. Esta era a roupagem, o interesse da escrita, os assuntos dos contos e das crônicas. Santa Rita, um dos organizadores dos estatutos em 1912, compreendia que o “domínio da palavra manifesta um poder, não é apenas organização [...], mas também de dominar e significar o mundo” (MELLO, 2009, pp.22-30). Essa palavra, a força da literatura e a fundação do grupo do Centro de Letras, sem dúvida eram estratégias para convencer a realidade curitibana da importância da história literária paranaense que eles formavam.

A conotação cívica pode ser notada também na própria organização da biblioteca do Centro de Letras, como percebo ao verificar que os livros escolhidos obedeciam a critérios estabelecidos no estatuto, como vemos a seguir (BANDEIRA, 1958, p.13):


- as estantes de maior realce serão as de autores paranaenses, as quais poderão trazer nomes de escritores paranaenses já falecidos;

- a biblioteca deverá ter orientação eminentemente paranista com o fim de ser especializada e completa em obras e publicações paranaenses;

- por aquisição só poderão ser adquiridas obras paranaenses ou de escritores aqui radicados. (BANDEIRA, 1958, p. 13)
O Centro publicava reedições, mas para um membro tornar-se efetivo deveria apresentar uma obra inédita e dentro das características que citamos, isto é, relacionada a assuntos paranistas e no mínimo radicada no Estado. A exigência de que a obra fosse inédita estimulava a escrita e aumentava a “estante paranaense”. Essas estratégias demonstram que a organização do Centro não era ingênua, como percebemos nos critérios pré-estabelecidos em estatutos da década de 1910 e reafirmados em 1950 por Castellano. Diante disso, como lembra Bourdieu (BOURDIEU, 2010, pp. 69-70), um campo intelectual tem suas várias divisões, em que todas as partes disputam entre si um maior reconhecimento, e para se tornar membro ou integrante – em um segmento – deve passar pelo julgamento e consagração de sua obra. No caso do Centro, a obra inédita e paranista era o modo como alguém poderia ser aceito como membro benemérito (caso fosse convidado a escrever) ou efetivo (por vontade própria). Os membros responsáveis – conselhos, presidente, vice-presidente – eram os que davam permissão ou não, constituindo uma história social do campo, à qual estavam associadas as condições em que se apresentavam as obras e a origem do escritor/escritora.

Portanto, além da organização ser espacial, era também qualitativa, ou seja, a escolha de autores/as e obras paranistas eram preferenciais. Deste modo, a afirmação que fiz logo atrás sobre o Centro ter um objetivo cívico também, torna-se mais contundente com a opção que o Centro fazia sobre o material preterido. A produção literária dos centristas tinha a intenção de convencer que eles formavam a representação mais legítima do Paraná. Pelo empenho assumido pelo grupo e o registro na literatura da História Paranaense é que o Centro deveria ser reconhecido.

Estes elementos (obras, livros) compunham o jogo de disputa que havia e para vencer foram utilizadas estratégias pelos grupos. Para Bourdieu (BOURDIEU, 2010, pp.284-297) o habitus culto, aquilo que permite aos membros de um campo reconhecer o ideal e dá veracidade ao que eles disputam, é justamente o que dá sentido ao que defende; um direito adquirido a quem pertence a um Centro. Nessa pesquisa, compreendo que quem se tornava membro do Centro de Letras propagava em seus escritos noções próprias dos Centros, isto é, dava vida a um lócus que participou de uma disputa literária em Curitiba. Lembrar de homenagear os fundadores foi o modo como Castellano tornou-se reconhecida no meio intelectual.

1.3 As décadas posteriores à de 1910: Leonor Castellano e a constante lembrança dos fundadores de “seu” Centro

Essa geração de autênticos intelectuais lavrava na seara literária brava e fecundamente, por entre as mais variadas crenças e idealidades. Nos seus pendores artísticos debuxavam-se manifestações fervorosas de socialismo, de anti-clericalismo, de revolucionarismo e, ainda, a revelação de cristãos convictos. Cada qual com a sua característica inconfundível, esses moços de outrora, poetas, jornalistas, críticos, pedagogos, médicos, ou advogados, trabalhavam para a continuidade da cultura nacional. (CASTELLANO, 1953, pp.5-7)


A citação é de Leonor Castellano, no prefácio de sua obra Figuras de Ontem e Hoje, publicada no ano de 1953. A autora referiu-se ao grupo que teria fundado a Revista Fanal (1911-1913), a qual tinha inspirações paranistas, além de ter sido o lócus precursor, de mais um reduto literário, o Centro de Letras. Percebo que Manoel Lacerda Pinto18, um dos fundadores de ambos os lugares citados, foi, para Castellano, um dos maiores renomes do Centro de Letras, pois, além de membro do Círculo de Estudos Bandeirantes, tinha “uma dedicação ao serviço da Pátria, de seu Estado, dos seus amigos e da sua Igreja” (CASTELLANO, 1953, p.7). Um homem em cuja história se encontrava também a origem do Centro de Letras.

Havia membros em comum entre o Círculo de Estudos Bandeirantes e o Centro de Letras. Portanto, relembrar homens que fizeram parte da tessitura intelectual dos anos de 1910 era um modo de Castellano reafirmar a presença do Centro de Letras e da memória de quem havia participado do processo de sua formação. Nesse sentido, segundo Michel Pollak (POLLAK, 1989, pp.3-15), compreendo a memória como um elemento constituinte do sentimento coletivo de identidade que colabora na continuidade do grupo e também para a construção de si. Assim como Mary Camargo na mensagem post-mortem direcionada a Castellano intentava uma afirmação do Centro de Letras e a continuidade do trabalho, centristas do Centro de Letras, em toda a existência deste antes de Castellano, tinham o hábito de homenagear, em vida ou não.

Ainda segundo o mesmo autor (BOURDIEU, 2010, pp.284-297), um grupo social constrói ao longo de sua existência, de sua historicidade, a sua imagem, sendo este um modo como se refere aos demais, no campo em que está inserido. Compreendo que a constante lembrança de feitos, acontecimentos e a trajetória de alguns dos membros é uma maneira comum para dar credibilidade à memória de um grupo, para a sociedade a quem se apresenta. Neste viés, um olhar (re)constitutivo do historiador/historiadora sobre o modo como um grupo conta o seu passado torna-se um meio eficiente para compreender parte do mundo social em que se constituiu o Centro de Letras.

Enfatizo que a prática de lembrar homens e mulheres investidos das posições de agentes literários do Centro de Letras como ideais era comum também a Castellano, a partir dos anos de 1930. As homenagens proferidas pela autora não são atípicas ou mesmo inventadas por ela e era uma maneira de trazer à memória os nomes que, segundo ela, participaram ativamente do processo de formação da literatura paranaense. O trabalho que Castellano manteve foi uma continuidade do interesse do Centro de Letras, o mesmo com novas roupagens nas décadas posteriores.

Ressalto que havia entre os fundadores cinco mulheres: Georgina Mongruel, Zaida Zardo, Myrian Catta Preto, Annete Macedo e Alda Silva (BANDEIRA, 1958, pp.2-10). Entretanto Castellano, em seus escritos, não se reportou a elas, embora uma ao menos, Annete Macedo, foi reconhecida como uma grande intelectual e professora durante a sua vida19. Sobre as demais não encontrei muitas informações, mas em relação ao silêncio de Castellano sobre os atos daquelas mulheres sugiro que a memória do Centro de Letras era marcada pela lembrança de seus fundadores, nesse caso, homens. Segundo Andrea Schactae coragem, brio e força são elementos relacionados aos homens, os quais fazem parte do processo histórico que buscava a formação da identidade paranaense e nacional a partir da década de 1920 (SCHACTAE, 2011, pp.17-31). Essa missão pertenceria aos que herdam os lugares e as conquistas desses agentes do passado. Apesar da pesquisa da historiadora estar relacionada à polícia militar do Paraná, entendemos neste estudo que a memória de Castellano, exemplificada no modo como falou dos fundadores do Centro, era em prol de uma legitimação do espaço que ela ocupava. Além disso, a partir dos anos de 1930, apesar de Castellano ser reconhecida em um meio predominante masculino, ela já não mencionava atos ou ideais feministas. Doravante, considero que o fato de ocupar o Centro de Letras com um grande reconhecimento após a década de 1930 e de escrever homenagens sobre mulheres, mesmo que em “tons” diferentes, permite-me compreender que a autora continuou a legitimar um lugar para as mulheres.

Apesar de algumas práticas de Castellano serem parecidas às de seus antecessores, o contexto político, social, econômico e cultural a partir de 1930 foi marcado pelo Estado Novo, um novo modo de governo. A “nacionalização” e a modernização do Brasil foram sentidas no governo do interventor Manoel Ribas (1932-1945). Nesta época Curitiba tinha uma população de 111 mil habitantes e possuía jornais, além de algumas revistas, as quais intentavam refletir um estilo “paranista” (IPARDES, 2006, pp.68-70), como se isto afirmasse a identidade paranaense e inserisse Curitiba, especialmente, dentro do âmbito de modernização nacional. Nesta época, no Paraná (IPARDES, 2006, pp.68-70), Manoel Ribas, nomeado por Vargas, foi interventor por duas vezes e governador, entre os anos de 1930-1945. No que diz respeito aos assuntos tratados neste artigo, Manoel Ribas colaborou para com a intelectualidade e o acesso ao conhecimento, a partir de seu incentivo ao número de escolas, e esteve presente no Centro de Letras e em diversos outros, como a Academia Paranaense de Letras, incentivado artistas através da concessão de bolsas de estudos.

Esses atos do interventor refletiam a prática intervencionista notória do Governo de Vargas, que chegou a promover concursos nas rádios, construiu símbolos e marchinhas de carnaval a fim de consolidar uma noção de nacionalismo, a qual era marcada pelo seu caráter autoritário. Portanto, o incentivo à arte, os direitos trabalhistas e a brasilidade (VELLOSO, 2008, pp.157-170) faziam parte de sua política.

A prática de Vargas em apoderar-se do arsenal e da escrita dos intelectuais pode ser facilmente confirmada, já que no ano de 1943 Vargas tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras, um órgão que tinha como papel coordenar valores para a vida intelectual. Essa ação reforça também o que o historiador João Paulo Rodrigues confirma quanto às mudanças ocorridas ainda no ano de 1912, quando Lauro Muller, sem nunca ter escrito obra alguma, tornou-se membro, acarretando em discussões e até mesmo a saída de Érico Veríssimo (o autor defendia que o papel da Academia era o de definir a estética, moldes e correntes literárias e não discutir política) (RODRIGUES, 2001, pp.15-30).

Quanto a Vargas, o presidente acreditava que os intelectuais percebiam as mudanças sociais necessárias para “consertar” os erros políticos anteriores. No que se refere a esta pesquisa, segundo Mônica Velloso (VELLOSO, 2008, pp.147-148), verificamos que os intelectuais que se relacionavam com o governo Vargas sentiam-se como uma elite dirigente. Não há uma fonte, uma ligação direta entre o Governo Federal e o Centro de Letras, mas por boa parte da história política do Paraná, este esteve ligado ao referido centro. Isto se deu pelo apoio financeiro pedido em diversas ocasiões20, ou no caso de centristas beneméritos que tinham cargos políticos, como os governadores Bento Munhoz da Rocha Neto e Moyses Lupion. O objetivo do Centro de Letras e o apoio do Estado podem ser analisados na seguinte citação de Castellano:
O majestoso edifício que se ergue à Avenida Fernando Moreira número 268, foi construído, na sua quase totalidade, a expensas do benemérito Governo Estadual de Bento Munhoz da Rocha Neto (1951-1955), preclaro centrista, que amparou com largueza e espírito público, uma instituição que tem sabido da expansão das melhores reuniões litero-artísticas, às quais têm concorrido, com as suas presenças, os elementos de grande projeção social e cultural de nossa terra (CASTELLANO, 1953, p.5). (o grifo é meu)

Deste modo, reflito que o Centro de Letras mantinha um apoio do Governo Estadual no contexto, através da figura do governador da época, Bento Munhoz da Rocha Neto (1951-1955). Como Castellano demonstrou, os financiamentos providenciados eram as garantias de uma constante memória lembrada da história do Paraná.

Em revistas do Centro de Letras da década de 195021, Castellano, enquanto presidente da Instituição demonstrou “o espírito paranista” dos trabalhos dos membros daquele clube. Um agradecimento de grande importância ocorreu no ano de 1956, quando Castellano, ocupando as funções de bibliotecária, secretária, tesoureira e diretora social, publicou em um boletim a inauguração da Oficina Gráfica do Centro de Letras do Paraná, a qual ocorreu através de um financiamento (um milhão de cruzeiros) viabilizado pelo Governador Moyses Lupion. Segundo Castellano: “Não há registro, na história intelectual do Paraná, ou do Brasil, de tão alta magnanimidade dos poderes públicos em benefício, assim espontâneo, das belas letras (CASTELLANO, 1957, pp.9-10). Como veremos mais à frente, apesar de Castellano ter saído da presidência no ano de 1954, ela continuou a conquistar espaços e reconhecimento ao Centro de Letras, como a gráfica própria, no ano de 1956.

A respeito da valorização do campo cultural, o sociólogo Sérgio Miceli considera que a crise mundial de 1929 e a própria Segunda Guerra mundial foram incentivo para o Brasil melhorar suas técnicas editoriais, já que a importação tornou-se mais difícil (MICELI, 1979, pp.79-89). Além disso, o crescimento econômico, a criação de faculdades, novos currículos e disciplinas também incentivaram o interesse pela literatura e o acesso aos livros. E é pelos assuntos escolhidos e pela abrangência que o livro ganhou neste contexto, que os intelectuais também passaram a ser cooptados pelo Governo Vargas, justamente por poderem formar “grupos” que teorizavam sobre ideologias políticas e, ao mesmo tempo, difundi-las entre a população, como foi o caso das obras de Plínio Salgado, em 1934 através da Editora José Olympio.

Portanto, a partir da década de 1930, a intelectualidade passou a ser mais valorizada. E é neste contexto que Leonor Castellano adentrou o Centro de Letras, um reduto em que ela pôde se destacar. Para alcançar a permissão de entrada, Castellano escreveu um romance e quando se tornou membro do Centro passou a defendê-lo, muitas vezes lembrando a memória de seus fundadores.

3.3 A ATUAÇÃO E A DEFESA DE CASTELLANO NO MEIO LITERÁRIO DO CENTRO DE LETRAS


Castellano tornou-se membro do Centro de Letras em 03 de março de 1935, onde foi recebida com uma homenagem proferida na ocasião pelo presidente do Centro, Otávio de Sá Barreto, cujas palavras elogiaram a obra de Castellano, Marysa (BARRETO, 1935, p.23). Para Sá Barreto, a autora “soube narrar com fidelidade e emoção a tragédia passional do coração de mulher da personagem principal de sua novela; representa bem um atestado gritante do novo talento feminino em nossa terra. Desse talento que teve como precursoras denodadas Julia da Costa e Mariana Coelho. (BARRETO, 1935, pp.22-24)

Naquele contexto era lisonjeiro ser comparada às duas escritoras, visto que eram as mais reconhecidas no meio literário curitibano. No mesmo discurso de entrada Castellano reportou-se a grandes literatos, filósofos, escritores da História: Platão, Silvio Romero, Varnhagem, Castro Alves, Joaquim Maria de Macedo, José de Alencar, Olavo Bilac, Euclides da Cunha, Julia Lopes, Maria Eugênio Celso22, entre muitas/os outras/os. O modo como Castellano dirige-se aos autores, especialmente a Romário Martins (1953), permite-me sugerir que almejava dar a eles uma tradição histórica. Romário Martins foi o criador do termo paranismo, o qual para ela significava uma ação criadora e progressista d’alma artística do Paraná” (CASTELLANO, 1935, pp.10-17).
A conotação histórica dada a um povo ou um evento, para o historiador Nicolau Sevcenko, é um modo de tornar o presente, a memória que está se formando, como algo que legitime uma tradição, isto é, a literatura e a história são meios de fortalecer e de criar a história de um povo (SEVCENKO, 2009, pp.23-68). Entretanto, o autor, em seu objeto de pesquisa – São Paulo nas primeiras décadas de 1900 –, afirma que a rápida industrialização que se instalou na capital paulistana, os problemas sociais decorrentes do aumento populacional, da abolição da escravatura, os imigrantes, operárias/os e fábricas tornou a/o habitante de São Paulo “ahistórica/o”, ou seja, as histórias antes contadas já não contemplavam mais toda a dinamicidade na cidade e alhures, o presente não se explicava no passado conhecido. Clubes literários e de lazer começaram a se formar, a boemia passou a ser buscada, os cinemas, os espetáculos vieram a contribuir como elementos que compunham uma vivacidade desconhecida até então.

O historiador aponta que era preciso um sentido, uma nova equação de valores (SEVCENKO, 2009, p.23), uma junção das diversas redes e experiências que estavam sendo vividas na capital. Os exemplos utilizados por Sevcenko relacionam-se ao esporte, ao futebol, uma paixão que estava imbricada com o contexto voltado para educação do corpo, da higiene, ao sanitarismo e principalmente às primeiras grandes competições de diversos esportes, inclusive de preparação para as Olimpíadas. E foi justamente neste aspecto que um orador de uma corrida em 1919 aludiu sobre as tradições gregas, relacionando-as com o evento que estava ocorrendo em São Paulo, um ato que Sevcenko intitula de um passado improvável com um presente inconsciente (SEVENCEKO, 2009, p.68). Nesse sentido sugiro que o ato de Castellano em divagar desde a Antiguidade até Romário Martins era uma maneira de tornar legítima a história que ela e outros centristas estavam “fazendo”, de demonstrar a sacralidade dos atos, de mitificar a evolução que a história do Paraná estava alcançando por meio do trabalho do Centro de Letras.

E lembrar escritores/as era o cerne dos escritos de Castellano, como a autora demonstrou ao escrever em 1953 o motivo que impulsionou a criação do Centro de Letras à época de Perneta:
Com a finalidade de reunir todas as correntes intelectuais de sua época, constituindo-se a representação literária de nossa terra. Euclides Bandeira e Emiliano Perneta, nossos gloriosos patronos, ao criarem este cenáculo doavam, à cidade de Curitiba, a primeira República das letras, onde sessenta e sete membros, unidos numa só classe, palpitando pelos mesmos ideais, poderiam apreciar e poderiam transmitir, através da realidade objetiva, todas as belezas da arte ou da natureza, todas as afirmações da inteligência e do saber (CASTELLANO, 1952).
Castellano via-se, em 1952, à frente de propósitos muito semelhantes aos de 1912, por isso trouxemos para a escrita desse texto. Apesar da distância temporal é possível verificar que o trabalho que Castellano desenvolverá nas décadas subsequentes – à de 1930 - é norteado por semelhantes objetivos que encontro na ata de fundação do Centro. Não obstante, acredito que Castellano, a primeira mulher a ocupar a presidência do Centro de Letras, fez com que o Centro se destacasse no contexto curitibano nas décadas de 1940 e 1950, quando comandou a construção da primeira sede do Centro, além de várias exposições que o tornaram um lócus “das atenções” em 1950. É importante frisar que apesar da ata de fundação e de algumas direções e regras, criadas ao longo da história do Centro até o período de Castellano, serem publicadas em jornais, é somente no de 1958 que um grupo, do qual Castellano participou como parte da comissão de propaganda, reuniu toda a documentação, inclusive o ato de fundação de 1912.

Vejo que Castellano, por sua vez, defendia que a intenção do Centro de Letras, ao relembrar a memória e a tradição paranaense iniciada por Perneta e Bandeira, persistia no ano de 1952, quando afirmou que: “as bênçãos de Deus se derramem sobre ti, Paraná muito amado, fazendo de cada filho teu um perfeito, digno, orgulhoso e bravo Guairacá fiel à sua terra, à sua gente, às suas tradições, aos seus heróis imortais (CASTELLANO, 1953, p. 03). O discurso de Castellano, em nome do Centro de Letras, envolveu a apresentação da narrativa histórica de literários que deixaram um “legado patriótico”. Neste sentido, analiso na fala de Castellano que a autora objetivou legitimar o que ela e os membros daquele contexto realizavam em nome da história da instituição.

Uma missão que os membros do Centro conquistaram por meio de exposições e de editorações dos livros, ao mesmo tempo em que se “auto-proclamavam” representantes da memória literária paranaense. Importante lembrar que o fim da década de 1940 foi o tempo em que Castellano mais se envolveu com as atividades do Centro de Letras. Percebo a intenção paranista na seguinte passagem escrita por Castellano, em uma recordação dos compromissos do Centro de Letras, publicada em 1953:
Cem anos completas, Terra Amada... Que sob os teus céus de anil e sob a fronde dos teus heráldicos pinheiros jamais esmoreça o ardor dos teus filhos em prol da tua grandeza cultural. Tão bela, como a sua gloriosa ascensão material e econômica, se elevem o coração do teu povo e as estrofes, ternas e devotas dos teus aedos; as bênçãos de Deus se derramem sobre ti, Paraná, muito amado, fazendo de cada filho fiel à sua terra, à sua gente, às suas tradições, aos seus heróis imortais! Evocamos, com emoção sincera, a memória inextinguível dos nossos patronos e dos centristas, cujas vozes, palpitam em nossos trabalhos (CASTELLANO, 1953, p. 03).
Essa citação compõe a mensagem de abertura da revista, cuja edição é comemorativa dos 100 anos de emancipação do Paraná. Ressalto que o trecho às suas tradições, aos seus heróis imortais é o tema principal que circunda a maioria das reportagens que completam as 100 páginas. Patronos, fundadores e os atuais mantenedores foram lembrados porque teriam, segundo a autora, lutado pelo Paraná.

Para Castellano, os intelectuais do passado e os contemporâneos como ela continuavam a afirmar: “o Paraná do presente não podia deixar de mostrar que Emiliano Perneta, Emilio de Menezes, Euclides Bandeira e Rocha Pombo... têm continuadores, não havendo destruído a sequência das lucubrações generosas e das pesquisas fecundas (CASTELLANO, 1953, p. 03) Verifico que o contexto lembrado por Castellano, do início do século XX, junto ao que eles paulatinamente haviam conquistado nas décadas seguintes, é lembrado como resultado de uma missão, a de elevar o nome do Paraná, e citou que havia continuadores, isto é, a autora sentia-se incluída no grupo intelectual paranaense.

Ao longo de sua trajetória, o reconhecimento de Castellano deu-se em função do Paranismo. O Congresso de escritores e a Exposição de livros (1953), promovidos por ela, tinham por intenção dar notabilidade à literatura paranaense e homenagear os 100 anos de Emancipação do Paraná. Esses objetivos, noto, em uma entrevista concedida por Castellano para o jornal O Dia, pouco antes do Congresso:
Não há memória, na vida intelectual do Paraná, de cometimentos tão extraordinários como o Primeiro Congresso de Escritores e a Primeira Exposição de Originais, Inéditos e de livros paranaenses, programados para festejar a inauguração de nossa sede e, ainda, comemorar condignamente, o primeiro Centenário de Emancipação do Paraná. Esses conclaves só poderiam ser efetuados sob a égide do Centro de Letras que é hoje, sem lisonja nenhuma, a mais operosa e opulenta agremiação literária de nossa terra. Tradicionalmente culto aos nossos fundadores, através desses belos exemplos de devotamento ao torrão natal, e de amor à inteligência paranaense (CASTELLANO, 1953, p. 45).
No ano de 1953 Castellano era vice-presidente e, junto ao presidente, David Carneiro23, buscou elevar o nome do Centro de Letras, dialogando com representantes do Estado, como através das visitas de Moyses Lupion e Bento Munhoz da Rocha Netto. Importante ressaltar que David Carneiro nessa época era um respeitado historiador, de família de produtores de mate e professor universitário, portanto um intelectual com contatos importantes no que tange à sociedade.

A ação de Castellano em reforçar uma tradição literária, à exemplificação de personalidades a se admirar, demonstra, pensando em um conceito de Bourdieu, a maneira como uma instituição e os membros desta sessão do campo intelectual curitibano propagam a sua representação (BOURDIEU, 2010). Entendo, neste caso, que Bourdieu aponta que um processo de construção de uma memória coletiva social só obtém sucesso quando reproduz as relações sociais e os símbolos destas já existentes. Isto é, as falas relativas ao Centro de Letras, de Castellano, utilizavam argumentos relacionados à história e à tradição para reforçar a noção do coletivo e, ao mesmo tempo, as características descritas estavam ligadas ao conceito de Pátria e de identidade paranaense.

Já o Estado e a Prefeitura de Curitiba, em diversos momentos estiveram também ligados ao Centro, segundo Castellano (CASTELLANO, 1952, p. 06). Lembrando que foi também com essas ajudas que Castellano conseguiu reunir dinheiro para a construção da sede do Centro, após 40 anos da existência do mesmo. Retomo então suas palavras quanto ao período de formação do Centro e o apoio recebido: Presidente Carlos Cavalcanti, em 1914, patrocinando a edição de livros; Presidente Caetano Munhoz da Rocha, em 1923, declarando de utilidade pública o Centro de Letras do Paraná. No entanto, além da colaboração estadual, alguns prefeitos da época em que ela foi presidente são ressaltados como importantes para a história do Centro (ao sancionar leis que autorizavam a doação de prêmios e por concederem o terreno do Centro), juntamente à câmara municipal e à Assembleia Legislativa24. Alguns homens importantes para a sociedade eram mantenedores e frequentadores do Centro de Letras. Referimo-nos à Associação Comercial do Paraná25, a qual tinha entre os seus membros muitos homens pertencentes às instituições das áreas de Letras, Direito, Comerciais.

A atuação de Castellano no Centro de Letras sofreu alguns obstáculos justamente nessa época. Esta afirmação é decorrente de um episódio ocorrido no ano de 1953, de acordo com a seguinte citação de David Carneiro (ano, página), presidente naquele ano: “sem oposição não há combate. Sem combate, não pode haver vitória, nem glórias a exaltar. Nossa melhor resposta às palavras da insidiosa mentira são nossas ações; são as coisas que realizamos apesar da ausência de ajuda e contando apenas com o próprio esforço.


Carneiro referiu-se ao fato do Congresso Brasileiro de Escritores e da Primeira exposição de Originais, Inéditos e de Livros Paranaenses (236 escritos expostos), ideias de Castellano, não inaugurarem a festa dos 100 anos de Emancipação do Estado do Paraná, por decisão de uma comissão estadual. Castellano era vice-presidente e, preocupada em afirmar os eventos como de grande alcance, publicou duas reportagens cujos conteúdos contestaram qualquer tipo de fracasso, ao contrário, descreveram o congresso e a inauguração da sede como acontecimentos de sucesso literário.

Uma das reportagens foi a de Zenon Leite, um membro correspondente de Porto Alegre. A autora o indagou sobre o que achava da gestão daquele momento. Zenon, por sua vez, disse que o Centro nos últimos quatro anos tinha publicado seus melhores textos, os quais honravam os patronos do centro, graças aos esforços de Castellano e David Carneiro. A autora utilizou não somente esse volume, mas todas as revistas carimbadas pelo nome “Centro de Letras”, para evidenciar a sua missão e dos intelectuais do Centro, a de elevar o nome do Paraná e o seu trabalho. A efervescência literária do início do século certamente ainda dava seus frutos e Castellano reforçou isso, como posso notar ainda em outras duas reportagens, sendo a primeira de Deolindo Amorim, um escritor que residia no Rio de Janeiro:


Existe vida intelectual, sustentando a tradição espiritual que se formou através de uma linha de continuidade marcante e luminosa. Temos um exemplo, e bem característico, no Paraná, cujas atividades acadêmicas impressionam vivamente, tanto pelo número de produções, como pelo espírito de fidelidade ao glorioso passado da Província. Paraná, como se sabe, é uma terra de tradições literárias. As letras e as artes fazem parte do mais alto requinte da vida social. A Revista do Centro de Letras é uma demonstração de equilíbrio entre o espírito conservador e o ritmo de renovação a que estão sujeitos as formas e os conceitos... (AMORIM, 1952, pp.77-80)
Castellano almejou, ao publicar essa entrevista em seus relatórios, demonstrar o seu trabalho como intelectual, em nome do Centro de Letras. Uma das últimas tentativas de tornar o Centro de Letras reconhecido verifico em um boletim de 1957 (CASTELLANO, 1957, pp.37-45). A entrevista é do jornal Gazeta, de São Paulo, em maio de 1956, intitulada por Castellano de Em favor da cultura brasileira26. Nesta, a autora fala sobre os números de trabalhos divulgados, sobre os seus atos enquanto presidente, as coberturas jornalísticas, o apoio do Estado e a tessitura intelectual desde os tempos de Rocha Pombo até os anos de 1950, nos quais ela se inclui.

Castellano, em nome da literatura e do Paraná, buscou consolidar ou reafirmar a tradição mantida pelo Centro de Letras, a fim de fazer crescer ainda mais o Centro e o seu próprio reconhecimento. O Centro tinha quase 40 anos de existência e o Encontro de Escritores Paranaenses foi o primeiro do gênero a ser promovido. Nesse viés, vejo a estratégia de Castellano em tornar o Cento de Letras um difusor da literatura paranaense.

A preocupação nesse artigo foi demonstrar o contexto literário que o Paraná vivia no início do século XX, e principalmente a época em que teria surgido o Centro de Letras, também sob o olhar e a participação de Castellano. Entendo que a abordagem é importante, devido ao fato de que Castellano passou a frequentar o recinto a partir da década de 1930, de onde publicou muitos de seus escritos. Além disso, não foi somente um assíduo membro, mas também trabalhou pelo Centro de Letras, utilizando o nome do lugar para publicar suas ideias e relembrando a tessitura intelectual dos primórdios do século XX.

Nos escritos do Centro de Letras divulgados sobre a “missão” do Centro, Castellano não se reportou ao envolvimento das mulheres. Entretanto, posso constatar que o Centro de Letras foi um lugar onde ela pôde homenagear mulheres, as quais também estavam formando o Brasil, ou trabalhando por ele. Mesmo que elas estivessem sob o respaldo do patriotismo, da noção de participação cívica dos anos de 1930-1950, foram mulheres que ocuparam espaços caracterizados até pouco antes como pertencentes aos homens. Apesar de não lembrar as mulheres que fizeram parte da fundação do Centro, o fato de ser mulher e de estar à frente deste demonstra como acreditava que a intelectualidade era mais uma opção para as mulheres estarem no mundo público.




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