Lobos de calla



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LOBOS DE CALLA



Tradução de Alda Porto



Copyright © 2003 by Stephen King

Publicado mediante acordo com o autor através de Ralph M. Vicinanza, Ltd.

Proibida a venda em Portugal
Título original

Wolves of the Calla − The Dark Tower V
Todos os direitos desta edição reservados à

EDITORA OBJETIVA LTDA. Rua Cosme Velho, 103

Rio de Janeiro — RJ — CEP: 22241-090

Tel.: (21) 2199-7824 — Fax: (21) 2199-7825



www.objetiva.com.br
Capa

Crama Design Estratégico


Ilustração de Capa

Igor Machado


Revisão

Fátima Fadel

Tais Monteiro

Umberto Figueiredo Pinto


Editoração Eletrônica

Abreu’s System Ltda.

K521

King, Stephen



Lobos de Calla / Stephen King, tradução de Alda Porto.

- Rio de Janeiro : Objetiva, 2006


74lp. ISBN 85-7302-746-0

Tradução de : Wolves of the Calla


1. Literatura americana - Romance. I. Título

CDD B813

Este livro é para Frank Muller,

Que ouve as vozes em minha cabeça

O ARGUMENTO FINAL
Lobos de Calla é o quinto volume de uma história mais longa inspirada pelo poema narrativo “Childe Roland à Torre Negra Chegou”, de Robert Browning. O sexto, Canção de Susannah, será publicado no Brasil no segundo semestre de 2006. O sétimo e último, A Torre Negra, no primeiro semestre de 2007.

O primeiro volume, O Pistoleiro, conta como Roland Deschain de Gilead caça e acaba encontrando Walter, o homem de preto — que fingia amizade com o seu pai, mas na verdade servia ao Rei Rubro no distante Fim do Mundo. Capturar o semi-humano Walter é para Roland um passo no caminho da Torre Negra, onde ele espera poder deter ou mesmo reverter a destruição acelerada cada vez mais rápida do Mundo Médio e a lenta morte dos Feixes de Luz. O subtítulo desse romance é RECOMEÇO.

A Torre Negra é a obsessão de Roland, o seu graal, sua única razão de viver quando o encontramos. Ficamos sabendo que Marten tentou, quando Roland ainda era um garoto, fazer com que o mandassem para o Oeste em desgraça, eliminado do tabuleiro do grande jogo. Roland, contudo, frustrou os seus planos, devido sobretudo à escolha da arma que fez para sua prova de maturidade.

Steven Deschain, pai de Roland, envia o filho e dois amigos (Cuthbert Allgood e Alain Johns) para o baronato de Mejis, no litoral, com a principal intenção de pô-lo além do alcance de Walter. Ali, Roland conhece e se apaixona por Susan Delgado, que se desentendeu com uma bruxa. Rhea do Cöos inveja a beleza da moça, e é particularmente perigosa, porque obteve um dos grandes globos de vidro conhecidos como Curvas do Arco-íris... ou os Globos do Mago. Existem 13 destes ao todo, sendo o mais poderoso e perigoso o Treze Preto. Roland e seus amigos têm muitas aventuras em Mejis, e embora escapem com vida (e com a Curva do Arco-íris cor-de-rosa), Susan Delgado, a linda moça na janela, é queimada na fogueira. Essa história é contada no quarto volume, Mago e Vidro. O subtítulo desse romance é RESPEITO.

No curso das histórias da Torre, descobrimos que o mundo do pistoleiro está relacionado com o nosso de uma forma fundamental e terrível. O primeiro desses elos é revelado quando Jake, um garoto da Nova York de 1977, conhece Roland num posto de parada, muitos anos após a morte de Susan Delgado. Há portas entre o mundo de Roland e o nosso, e uma delas é a morte. Jake se vê no posto de parada depois de ser empurrado na rua 43 e atropelado por um carro. O motorista é um sujeito chamado Enrico Balazar, e o empurrador um criminoso sociopata, Jack Mort, representante de Walter no nível de Nova York da Torre Negra.

Antes de Jake e Roland alcançarem Walter, o garoto torna a morrer... desta vez porque o pistoleiro, diante de uma agonizante escolha entre seu filho simbólico e a Torre Negra, opta pela Torre. As últimas palavras de Jake antes de mergulhar no abismo são: “Vá então. Há outros mundos além deste.”

O confronto final entre Roland e Walter ocorre próximo ao mar Ocidental. Numa longa noite de confabulação, o homem de preto revela o futuro de Roland com um baralho de cartas de tarô de estranho engenho. Três cartas — o Prisioneiro, a Dama das Sombras e a Morte (“mas não para você, pistoleiro”) — chamam em especial a atenção dele.

A Escolha dos Três, com o subtítulo RENOVAÇÃO, começa à margem do mar Ocidental não muito depois que Roland acorda do confronto com Walter. O exausto pistoleiro é atacado por uma horda de carnívoras “lagostrosidades”, e antes que possa escapar perde dois dedos da mão direita e é gravemente envenenado. Roland retoma sua jornada pela borda do mar Ocidental, embora doente e talvez agonizante.

Nessa caminhada, encontra três portas que se erguem sozinhas na praia. Elas se abrem para Nova York em diferentes quandos. De 1987, Roland atrai Eddie Dean, um prisioneiro da heroína; de 1964, atrai Odetta Susannah Holmes, uma mulher que perde as pernas quando o sociopata Jack Mort a empurra na frente de um trem do metrô. É a Dama das Sombras, com uma “outra” violenta escondida no seu cérebro. Esta mulher oculta, a brutal e ardilosa Detta Walker, decide matar Roland e Eddie quando o pistoleiro a atrai para o Mundo Médio.

Roland acha que talvez tenha escolhido os três em apenas Eddie e Odetta, pois esta tem na verdade duas personalidades, mas, quando as duas se fundem numa só em Susannah (graças em grande parte ao amor e coragem de Eddie Dean), o pistoleiro sabe que não é bem assim. Também se dá conta de mais uma coisa: está sendo atormentado pelos pensamentos de Jake, o garoto que falou de outros mundos na hora da morte.

As Terras Devastadas, cujo subtítulo é REDENÇÃO, começa com um paradoxo: para Roland, Jake parece ao mesmo tempo vivo e morto. Na Nova York de fins da década de 1970, Jake Chambers é obcecado pela mesma questão: vivo ou morto? Em qual está ele? Após matarem um gigantesco urso conhecido como Mir (assim chamado pelo Povo Antigo que o temia) ou como Shardik (pelos Grandes Anciãos que o construíram), Roland, Eddie e Susannah refazem o rastro da fera e descobrem o Caminho do Feixe de Luz conhecido como Shardik a Maturin, Urso a Tartaruga. Havia outrora seis desses Feixes, correndo entre os 12 portais que marcam as bordas do Mundo Médio. No ponto onde os Feixes se cruzam, no centro do mundo de Roland (e de todos os mundos), fica a Torre Negra, o nexo de todo onde e quando.

A essa altura, Eddie e Susannah não são mais prisioneiros no mundo de Roland. Apaixonados e bem encaminhados para se tornarem pistoleiros eles mesmos, são participantes totais da missão e seguem Roland, o último seppe-sai (vendedor de morte), pelo Caminho de Shardik, a Via de Maturin.

Num círculo falante não longe do Portal do Urso, o tempo se conserta, o paradoxo acaba, e o verdadeiro terceiro é resgatado. Jake reentra no Mundo Médio no fim de um perigoso ritual em que todos os quatro — ele, Eddie, Susannah e Roland — se lembram dos rostos de seus respectivos pais e se absolvem honrosamente. Não muito depois, o quarteto passa a quinteto, quando Jake se torna amigo de um trapalhão. Os trapalhões, que parecem uma combinação de guaxinim, mão-pelada e cachorro, têm uma capacidade de falar limitada. Jake dá ao novo amigo o nome de Oi.

O caminho dos peregrinos leva-os à cidade de Lud, onde os degenerados sobreviventes de duas antigas facções continuam travando um conflito infindável. Antes de chegarem à cidade, na pequena aldeia de River Crossing, encontram alguns sobreviventes anciãos dos velhos tempos. Eles reconhecem Roland como um colega sobrevivente daqueles dias, antes de o mundo haver seguido adiante, e o homenageiam e a seus companheiros. O Povo Antigo também lhes fala de um monotrilho que talvez ainda corra de Lud para as terras devastadas, ao longo do Caminho do Feixe de Luz e em direção à Torre Negra.

Jake fica assustado, mas não surpreso, com essa notícia; antes de ser arrastado de Nova York, comprou dois livros de uma livraria cujo dono tem o nome instigante de Calvin Tower (Torre). O primeiro é um livro de adivinhações com as respostas rasgadas fora. O outro, Charlie Chuu-Chuu, é um livro de histórias infantis com sombrios ecos do Mundo Médio. Por exemplo, a palavra char significa morte na Língua Superior, que Roland se criou falando em Gilead.

Tia Talitha, a matriarca de River Crossing, dá a Roland uma cruz de prata para usar, e os viajantes prosseguem em seu caminho. Ao atravessarem a destruída ponte que cruza o rio Send, Jake é seqüestrado por um proscrito moribundo (e muito perigoso) chamado Gasher. Este leva seu jovem prisioneiro ao subterrâneo para o Homem do Tiquetaque, o último líder da facção conhecida como os Grays.

Enquanto Roland e Oi partem em busca de Jake, Eddie e Susannah encontram o Berço de Lud, onde o Mono Blaine acorda. Blaine é a última máquina acima da superfície da terra de um vasto sistema de computadores que se estende sob Lud, e resta-lhe apenas um único interesse: enigmas. Ele promete levar os viajantes à parada final do monotrilho... se conseguirem propor-lhe uma adivinhação que ele não consiga resolver. Do contrário, diz, a viagem deles vai terminar na morte: a árvore de charyou, a árvore dos mortos.

Roland resgata Jake, deixando o Homem do Tiquetaque como morto. Mas Andrew Quick não está morto. Zarolho, medonhamente ferido em todo o rosto, é salvo por um homem que diz chamar-se Richard Fannin. Mas Fannin também se identifica como o Estranho Atemporal, um demônio sobre o qual Roland foi advertido.

Os peregrinos continuam sua jornada da cidade em extinção de Lud, desta vez de monotrilho. O fato de a verdadeira mente que governa o mono existir em computadores decrépitos cada vez mais distantes lá atrás não fará a menor diferença de uma forma ou de outra quando o projétil cor-de-rosa tomar os trilhos desgastados ao longo do Caminho do Feixe de Luz à excessiva velocidade de 1.300 quilômetros por hora. A única chance de sobrevivência do grupo é propor a Blaine uma adivinhação que o computador não saiba responder.

No início de Mago e Vidro, Eddie na verdade propõe essa adivinhação, destruindo Blaine com uma arma singularmente humana: a falta de lógica. O mono pára numa versão de Topeka, Kansas, que foi esvaziada por uma doença chamada “supergripe”. Quando recomeçam a jornada ao longo do Caminho do Feixe de Luz (agora uma versão apocalíptica da Interestadual 70), vêem placas perturbadoras. TODOS SAÚDAM O REI RUBRO, avisa uma. CUIDADO COM O TIPO QUE ANDA, informa outra. E, como saberão os leitores alertas, o tipo que anda tem um nome muito semelhante ao de Richard Fannin.

Após contar aos amigos a história de Susan Delgado, Roland e eles chegam a um palácio de vidro verde construído do outro lado da Interestadual 70, e que tem grande semelhança com o que Dorothy Gale procurava em O Mágico de Oz. Na sala do trono desse enorme castelo, eles encontram não o Grande e Terrível Oz, mas o Homem do Tiquetaque, a esplêndida cidade do último refugiado de Lud. Com a morte de Tiquetaque, o verdadeiro Mago se apresenta. É a antiga nêmese de Roland, Marten Broadcloak — conhecido em alguns mundos como Randall Flagg, em outros como Richard Fannin e em outros como John Farson (o Homem Bom). Roland e seus companheiros não conseguem matar essa aparição, que os avisa uma última vez para que desistam de sua busca da Torre (“Só tiros falhos contra mim, Roland, amigo velho”, diz Marten ao pistoleiro), mas conseguem bani-lo.

Após uma última viagem ao Globo do Mago e uma terrível revelação final — que Roland de Gilead matou a própria mãe, confundindo-a com a tal bruxa Rhea —, os andarilhos vêem-se mais uma vez no Mundo Médio, e mais uma vez no Caminho do Feixe de Luz. Eles retomam novamente sua busca, e é aí que os encontraremos nas primeiras páginas de Lobos de Calla.

Este argumento de modo algum resume os quatro primeiros livros do ciclo da Torre, se você não os leu antes de começar este, exorto-o a fazê-lo ou deixar de lado Lobos de Calla. Esses livros são apenas partes de uma única história mais longa, e melhor seria lê-los do início ao fim do que começar no meio.

“Senhor, nosso negócio é chumbo.”

— Steve McQueen,

em Sete Homens e um Destino

“Primeiro chegam sorrisos, depois mentiras. Por último, o tiroteio.”

— Roland Deschain, de Gilead

O sangue que flui em ti

também flui em mim,

quando olho qualquer espelho

é o teu rosto que vejo.

Toma-me a mão,

apóia-te em mim,

estamos quase livres,

menino errante.

— Rodney Crowell

RESISTÊNCIA

19

PRÓLOGO



Roont
1
Tian foi abençoado (embora poucos fazendeiros houvessem usado tal palavra) com três tratos de terra: o Campo do Rio, onde sua família cultivara arroz desde tempos imemoriais; o Campo da Beira da Estrada, onde ka-Jaffords cultivara tubérculos, abóboras e milho durante esses mesmos longos anos e gerações; e o Filho-da-Puta, um trato ingrato que produzia sobretudo pedras, bolhas e esperanças desfeitas. Tian não foi o primeiro Jaffords decidido a arrancar alguma coisa dos oito hectares atrás da casa natal; seu grand-père, seu avô, perfeitamente são na maioria dos outros aspectos, convencera-se de que havia ouro ali. A mãe de Tian estivera igualmente certa de que a terra podia dar porim, um tempero de grande valor. A doidice particular de Tian era madrigal. Claro que daria madrigal no Filho-da-Puta. Tinha de dar. Ele conseguira mil sementes (e lhe custaram um dinheirinho bom), agora estavam escondidas sob as tábuas do assoalho de seu quarto. Restava apenas, antes do plantio no ano seguinte, preparar a terra no Filho-da-Puta. Dessa árdua tarefa, era mais fácil falar do que realizar.

O clã dos Jaffords era abençoado com gado, incluindo três mulas, mas estaria louco quem tentasse usar uma mula no Filho-da-Puta; o animal que desse o azar de ver-se atribuir tal tarefa provavelmente estaria caído de perna quebrada ou morto a ferroadas ao meio-dia do primeiro dia. Um dos tios de Tian quase encontrara esse último destino alguns anos antes. Voltara correndo para casa, gritando no máximo dos pulmões e perseguido por enormes vespas mutantes com ferrões do tamanho de pregos.

Haviam encontrado o ninho (bem, Andy encontrara; as vespas não o incomodavam, tivessem o tamanho que tivessem) e queimaram-no com querosene, mas talvez houvesse outros. E havia buracos. Sim, senhor, muitos buracos, e não se podia queimá-los, podia-se? Não. O Filho-da-Puta ficava no que os antigos chamavam de “terra solta”. Tinha portanto quase tantos buracos quanto pedras, para não falar em pelo menos uma gruta que expelia rajadas de ar nojento, cheirando a matéria em decomposição. Quem sabia que monstros e almas-do-diabo se escondiam em sua negra goela?

E os piores buracos não ficavam onde um homem (ou uma mula) pudesse vê-los. Não, senhor, nem pensar. Os quebra-canelas estavam sempre ocultos entre touceiras de ervas daninhas e mato alto. A mula pisava, ouvia-se um estalido seco como um galho se partindo, e aí a maldita coisa jazia no chão, dentes à mostra, revirando os olhos, zurrando em agonia para o céu. Até a gente acabar com a miséria dele, quer dizer, e o gado era valioso em Calla Bryn Sturgis, mesmo o gado não exatamente amarrado.

Tian, portanto, plantava com a irmã colada em suas pegadas. Não havia motivo para não fazê-lo. Tia era roont, logo para pouco mais servia. Era uma mocetona — os roonts em geral atingiam dimensões prodigiosas — e disposta. Ô Homem Jesus a amava. O Velho fizera-lhe uma árvore de Jesus, que chamava de crusie-fix, e ela usava-o aonde quer que fosse. A coisa balançava de um lado para outro, batendo na pele suada enquanto ela puxava.

O arado era amarrado aos ombros dela por um arreio de couro cru. Atrás, guiando o arado pelos cabos de pau-ferro e a irmã pelas rédeas, Tian grunhia e puxava quando a lâmina afundava e ameaçava atolar-se. Era o fim da Terra Plena, mas quente como o verão ali no Filho-da-Puta; Tia tinha o macacão escuro, molhado e grudado nas coxas longas e carnudas. Toda vez que Tian jogava a cabeça para tirar os cabelos dos olhos o suor voava da cabeleira num chuveiro.

— Cuidado, sua cadela! — gritava. — Essas pedras quebram a lâmina, você está cega?

Cega, não; nem surda; só roont. Ela puxava para a esquerda, com força. Atrás, Tian tropeçava para a frente com uma torção do pescoço e ladrava sua perna contra outra pedra, que não vira e o arado, por milagre, evitara. Ao sentir as primeiras gotas de sangue escorrerem pelos tornozelos, imaginava (e não pela primeira vez) que loucura trouxera os Jaffords até ali. No mais fundo do coração, tinha a idéia de que o madrigal não daria mais que o porim antes, embora se pudesse cultivar a erva-do-diabo; sim, poderia ter cultivado todos os oito hectares com aquela merda, se quisesse. O segredo era mantê-la longe, sempre a primeira tarefa na Terra Plena.

Arr! — gritou. — Devagar, menina! Eu não posso plantar de novo se você desenterrar, posso?

Tia voltou a cara larga, suada e vazia para o céu cheio de nuvens baixas e zurrou uma gargalhada. O Homem Jesus, mas ela até soava como uma jumenta. Mas era risada, risada humana. Tian se perguntava, como às vezes não podia deixar de fazer, se aquela risada significava alguma coisa. Ela entendia algo do que ele dizia ou apenas respondia ao tom da sua voz? Será que algum dos roonts...

— Bom-dia, sai — disse uma voz alta e quase sem tom atrás dele. O dono da voz ignorou o grito de surpresa de Tian. — Belos dias, e que durem sobre a terra. Eu vim aqui de uma boa passeada para me pôr à disposição de vocês.

Tian girou e viu Andy ali parado — em todos os seus 2,10m — e quase caiu de cara no chão quando a irmã deu outro de seus arrancos para a frente. As rédeas do arado foram arrancadas de suas mãos e voaram em torno do pescoço com um estalo audível. Tia, ignorando esse desastre potencial, deu outro passo à frente. Ao fazê-lo, cortou o fôlego do irmão. Ele lançou um arquejo tossido, engasgado, e mordeu as correias. Andy a tudo isso assistiu com seu sorriso largo e sem sentido de sempre.

Tia tornou a arrancar e Tian foi erguido do chão. Caiu em cima de uma pedra que se enterrou violentamente no rego de suas nádegas, mas pelo menos pôde voltar a respirar. Por enquanto, pelo menos. Maldito campo infeliz! Sempre fora assim! Sempre seria!

Tian tornou a agarrar a correia de couro, antes que ela se apertasse de novo em seu pescoço, e berrou:

— Agüenta aí, sua cadela! Ôoa, se não quer que eu torça esses peitões inúteis da sua frente!

Tia parou de muito boa vontade e olhou para trás para ver o que era. Alargou o sorriso. Ergueu o braço musculoso — reluzente de suor — e apontou.

— Andy! — disse. — Andy veio!

— Eu não sou cego — disse Tian, levantando-se e esfregando os fundilhos. Estaria sangrando também aquela parte dele? Ó bom Homem Jesus, achava que sim.

— Bom-dia, sai — disse Andy a ela, e bateu três vezes na garganta metálica com os três dedos de metal. — Longos dias e belas noites.

Embora Tia houvesse sem dúvida ouvido a resposta padrão a isso — E que você tenha isso em dobro — mil vezes ou mais, pôde apenas erguer a cara idiota e zurrar sua risada de jumento. Tian sentiu um surpreendente momento de dor, não nos braços, na garganta ou no ofendido traseiro, mas no coração. Lembrou-se vagamente dela quando menina: bonitinha e esperta como um vaga-lume, tão inteligente quanto se poderia desejar. Depois...

Mas antes que pudesse terminar o pensamento, veio-lhe uma premonição. Sentiu o coração afundar. A notícia ia chegar enquanto ele estava ali fora, pensou. Ali naquele trato esquecido por Deus onde nada é bom e toda sorte é má. Era hora, não era? Passava da hora.

— Andy — disse.

— Sim! — disse Andy, sorrindo. — Andy, seu amigo! De volta de um ótimo passeio e às suas ordens. Gostaria do seu horóscopo, sai Tian? É a Terra Cheia. A lua está vermelha, o que se chamava de Lua da Caçadora no Mundo Médio, quer dizer. Vai chegar um amigo. Os negócios vão prosperar! Você terá duas idéias, uma boa e outra ruim...

— A ruim foi vir aqui arar este campo — disse Tian. — Esqueça meu maldito horóscopo, Andy. Por que está aqui?

Andy sorriu, na certa porque não se perturbava — era um robô afinal, o último em Calla Bryn Sturgis por quilômetros e quilômetros em volta —, mas a Tian ele pareceu perturbar-se mesmo assim. O robô parecia uma figura de adulto desenhada com traços, incrivelmente alto e magro. Pernas e braços prateados. A cabeça era um barril de aço inoxidável com olhos elétricos. O corpo, que não passava de um cilindro, era de ouro. Gravada no meio — no que seria o peito de um homem —, sua legenda:


NORTH CENTRAL POSITRONICS, LTDA.

EM ASSOCIAÇÃO COM

INDÚSTRIAS LaMERK

APRESENTA
ANDY
Design: MENSAGEIRO (Várias Outras Funções)

Serial # DNF-44821-V-63


Por que ou como sobrevivera aquela coisa tola, quando todo o resto dos robôs desaparecera — havia gerações —, Tian nem sabia nem ligava. Podia-se vê-lo em Calla (não se aventurava além de suas fronteiras) andando sobre as pernas prateadas incrivelmente finas, olhando para toda parte, de vez em quando dando estalidos para si mesmo quando armazenava (ou talvez expurgava — quem sabia?) informação. Cantava cantigas, passava adiante fuxicos e boatos de uma ponta a outra da aldeia — o Robô Mensageiro era um andarilho incansável — e parecia gostar de distribuir horóscopos sobre tudo, embora na localidade se concordasse que faziam pouco sentido.

Mas tinha uma função, e isso significava muito.

— Por que veio aqui, seu saco de pregos e raios? Me responda! São os Lobos? Eles estão vindo do Trovão?

Tian ficou ali parado, olhando de baixo a estúpida face metálica sorridente de Andy, o suor esfriando na pele, rezando com toda a força para que a coisa idiota dissesse não e oferecesse seu horóscopo de novo, ou talvez cantasse “The Green Corn A-Dayo”, todos os vinte ou trinta versos.

Mas tudo que Andy disse, ainda a sorrir, foi:

— Sim, sai.

— Cristo e o Homem Jesus — disse Tian (obtivera do Velho a idéia de que os dois nomes se referiam à mesma coisa, mas jamais se dera ao trabalho de perguntar). — Quanto tempo?

— Uma lua de dias antes que eles cheguem — respondeu Andy, ainda a sorrir.

— De cheia a cheia?

— Por aí assim, sai.

Trinta dias, então, mais ou menos. Trinta dias até os Lobos. E não havia sentido em esperar que Andy estivesse errado. Ninguém sabia como o robô podia saber que eles estavam vindo do Trovão com tanta antecedência, mas ele sabia. E jamais se enganava.

— À porra com sua má notícia! — gritou Tian furioso com o tremor que ouviu na própria voz. — Pra que serve você?

— Sinto muito que a notícia seja ruim — disse Andy. Suas entranhas estalaram audivelmente, os olhos faiscaram um azul mais forte, e ele deu um passo à frente. — Não gostaria que eu lhe dissesse o seu horóscopo? É o fim da Terra Plena, um momento particularmente propício para concluir um negócio e conhecer novas pessoas.

— E à porra com sua falsa profecia também!

Tian abaixou-se, pegou um torrão de terra e atirou-o no robô. Uma pedra enterrada no torrão ressoou no couro metálico de Andy. Tia arque-jou e se pôs a chorar. Andy recuou um passo, a sombra arrastando-se no campo do Filho-da-Puta. Mas o sorriso detestável e idiota continuou.

— Que tal uma cantiga? Eu aprendi uma engraçada com os mannis do norte da aldeia: se chama “Em Época de Perda, que Deus Seja seu Patrão”. — Em algum ponto no fundo das entranhas de Andy veio o trêmulo apito de um cano, seguido por uma onda de teclas de piano. — É assim...

O suor rolando pela face e grudando os colhões a coçar nas coxas. O fedor de sua própria obsessão. Tia com a cara idiota voltada para o céu. E aquele robô idiota portador de más notícias preparando-se para cantar alguma espécie de hino dos mannis.

— Cale a boca, Andy. — Falou bastante calmo, mas por entre dentes cerrados.

Sai — concordou o robô, e caiu em misericordioso silêncio.

Tian foi até a irmã que berrava, abraçou-a e sentiu o forte (mas não desagradável) cheiro dela. Não havia nenhuma obsessão nisso, apenas o cheiro do trabalho e obediência. Deu um suspiro e começou a alisar o trêmulo braço da moça.

— Deixe disso, sua babaca chorona — disse.

As palavras podem ter sido feias, mas o tom era bondoso ao extremo, e foi ao tom que ela reagiu. Começou a calar-se. O irmão ficou com a chama do quadril dela pulsando logo abaixo de sua caixa torácica (Tia tinha quase um palmo a mais que ele), e é provável que qualquer estranho que parasse para olhá-los ficasse espantado com a semelhança dos rostos e a grande dessemelhança dos tamanhos. A semelhança pelo menos se justificava: os dois eram gêmeos.

Ele consolou a irmã com uma mistura de carinhos e xingamentos — nos anos desde que ela voltara roont do leste os dois modos de expressão eram a mesma coisa para Tian Jaffords —, e finalmente ela parou de chorar. E quando um pardal cruzou o céu voando, fazendo volteios e emitindo a habitual série de piados, ela apontou-o e riu.

Surgia em Tian uma sensação tão estranha à sua natureza que ele nem a reconhecia.

— Não está direito — disse. — Não, senhor. Pelo Homem Jesus e todos os deuses que existem, não está, não. — Olhou para o leste, onde as colinas ondulavam para longe numa crescente e membranosa escuridão que podiam ser nuvens, mas não eram. Eram as bordas do Trovão. — Não está direito fazerem isso com a gente.

— Tem certeza de que não gostaria de ouvir seu horóscopo, sai? Eu vejo reluzentes moedas e uma bela dama morena.

— As damas morenas vão ter de passar sem mim — disse Tian, e pôs-se a tirar o arreio dos largos ombros da irmã. — Eu sou casado, como você sabe muito bem.

— Muitos homens casados dão os seus pulinhos — observou Andy. A Tian, pareceu quase presunçoso.

— Não os que amam as esposas. — Tian pôs o arreio nos ombros (ele próprio o fizera, pois havia uma acentuada escassez de tachas para seres humanos na maioria dos celeiros de ferramentas) e voltou-se para a casa. — E não os camponeses, de qualquer modo. Me mostre um fazendeiro que pode dar pulinhos que eu beijo seu rabo brilhante. Vamos, Tia. Tire-os e os coloque no chão.

— Pra casa?

— Isto mesmo.

— Almoçar em casa? — Ela olhava-o com uma expressão confusa e esperançosa. — Batatas? — Uma pausa. — Molho de carne?

— Claro — disse Tian. — Por que não, diabos?

Tia deu um salto e pôs-se a correr para a casa. Havia alguma coisa quase assustadora nela quando corria. Como observara um dia o pai, não muito antes da queda que o levara para sempre: “Clara ou escura, aí está um monte de carne em movimento.”

Tian saiu andando devagar atrás dela, cabisbaixo, atento aos buracos que a irmã parecia evitar sem sequer olhar, como se uma parte profunda dela houvesse mapeado o local de cada um. A estranha sensação nova continuava a crescer e crescer. Ele conhecia a raiva — qualquer camponês que perdera vacas para a doença do leite ou visse uma tempestade de granizo abater seu milho a conhecia bem —, mas aquilo era mais fundo. Era fúria, uma coisa nova. Andava devagar, cabisbaixo, punhos cerrados. Não teve consciência de que Andy vinha atrás até o robô dizer:

— Tem outra notícia, sai. No noroeste da aldeia, no Caminho do Feixe de Luz, estranhos do Mundo Exterior...

— Foda-se o Feixe de Luz, fodam-se os estranhos e foda-se você também — disse Tian. — Me deixe em paz, Andy.

Andy ficou ali parado por um instante, cercado pelas pedras, matos e montículos inúteis do Filho-da-Puta, o ingrato trato de terra dos Jaffords. Dentro dele estalaram relés. Os olhos faiscaram. E ele decidiu ir conversar com o Velho. O Velho jamais o mandava se foder. O Velho sempre estava disposto a ouvir seu horóscopo.

E sempre estava interessado em estranhos.

Andy partiu para a aldeia e Nossa Senhora da Serenidade.

2
Zalia Jaffords não viu o marido e a cunhada voltando do Filho-da-Puta; não ouviu Tia mergulhar a cabeça repetidas vezes no barril de água de chuva do lado de fora do celeiro e soprar a umidade dos lábios como um cavalo. Zalia estava no lado sul da casa, pendurando a roupa e de olho nas crianças. Só soube que Tian voltara ao vê-lo olhando-a pela janela da cozinha. Ficou muito mais surpresa por vê-lo ali do que pela sua aparência. Tinha o rosto de uma palidez cinza, a não ser pelos dois borrões de cor no alto das bochechas e um terceiro brilho no centro da testa parecendo uma marca a fogo.

Ela largou os poucos pregadores que ainda trazia presos na roupa da cesta e encaminhou-se para a casa.

— Aonde vai, mamãe? — gritou Heddon.

— Aonde vai, mamãe? — ecoou Hedda.

— Esqueçam — disse ela. — Só fiquem de olho nos ka-bebês.

Puur-quê? — choramingou Hedda.

Fizera desse choramingo uma ciência. Um dia desses ia esticá-lo um pouco demais e a mãe lhe daria uma porrada na cabeça.

— Porque vocês são os mais velhos — ela disse.

— Mas...

— Cale a boca, Hedda Jaffords.

— A gente toma conta deles, mãe — disse Heddon. Seu Heddon era sempre simpático; na certa não tão inteligente quanto a irmã, mas inteligência não era tudo. Longe disso. — Quer que a gente termine de pendurar a roupa?

Hed-don... — disse a irmã.

O irritante choramingo de novo. Mas Zalia não tinha tempo para eles. Apenas lançou um olhar aos outros; Lyman e Lia, que tinham cinco anos, e Aaron, dois. Aaron sentava-se nu no chão, batendo feliz duas pedras uma na outra. Era um raro não gêmeo, e como as mulheres da aldeia a invejavam por isso! Porque Aaron sempre estaria seguro. Os outros, porém, Heddon e Hedda... Lyman e Lia...

De repente compreendeu o que podia significar, ele de volta à casa no meio do dia daquele jeito. Rezou aos deuses para estar errada, mas quando chegou à cozinha e viu a maneira como ele olhava para as crianças, teve quase certeza.

— Diga que não são os Lobos — pediu numa voz seca e frenética. — Diga que não são.

— São — respondeu Tian. — Trinta dias... Andy disse: de lua a lua. E nisso Andy nunca...

Antes que prosseguisse, Zalia Jaffords levou as palmas das mãos às têmporas e deu um grito. No pátio ao lado, Hedda deu um salto. Mais um instante e estaria correndo para a casa, mas Heddon a conteve.

— Eles não vão levar ninguém jovem como Lyman e Lia, vão? — perguntou Zalia. — Hedda ou Heddon, talvez, mas certamente não os pequenos. Ora, eles só farão seis anos dentro de meio ano!

— Os Lobos têm levado crianças até de três anos, e você sabe disso — falou Tian.

Abria e fechava as mãos, abria e fechava. A sensação dentro dele continuava a crescer — a sensação mais profunda que a simples raiva. Ela olhou-o, as lágrimas escorrendo pela face.

— Talvez seja hora de dizer não — disse Tian numa voz que mal reconhecia como sua.

— Como podemos nós? — sussurrou ela. — Como, em nome de Deus, podemos nós?

— Não sei — disse ele. — Mas venha cá, mulher, estou pedindo. Ela foi, lançando uma última olhada aos cinco filhos lá atrás no quintal — como para assegurar-se de que ainda estavam todos lá, que nenhum Lobo os levara ainda —, e depois atravessou a sala de visitas. O grand-père sentava-se em sua poltrona do canto ao lado da lareira, cabeça baixa, cochilando e sibilando pela boca murcha desdentada.

Daquela sala, via-se o celeiro. Tian puxou a esposa até a janela e apontou:

— Ali — disse. — Está vendo, mulher? Está vendo bem?

Claro que ela via. A irmã de Tian, com quase 2m de altura, estava de pé com as alças do macacão abaixadas e os peitões reluzindo com água do barril de chuva com que os borrifava. Parado na porta do celeiro via-se Zalman, irmão da própria Zalia. Quase 2,20m, do tamanho de lorde Perth, alto como Andy, e com uma cara tão vazia quanto a da moça. Um parrudo rapaz olhando uma parruda moça com os peitos de fora daquele jeito bem podia estar exibindo um volume nas calças, mas nenhum havia nas de Zally. Nem haveria jamais. Era um roont.

Ela se voltou para Tian. Os dois se olharam, um homem e uma mulher não roonts, mas apenas por azar. Até onde sabiam, bem podiam ser Zalman e Tia ali parados olhando Tian e Zalia junto ao celeiro, maiores no corpo e vazios na cabeça.

— Claro que estou vendo — disse ela. — Você acha que eu sou cega?

— Isso não faz você às vezes desejar ser? — perguntou ele. — Vê-los assim?

Zalia não respondeu.

— Não está direito, mulher. Não está direito. Nunca esteve.

— Mas desde tempos imemoriais...

— Fodam-se os tempos imemoriais também! — gritou Tian. — São crianças! Nossas crianças!

— Quer que os Lobos incendeiem Calla até o chão, então? Que nos deixem de garganta cortada, os olhos fritos na cara? Foi o que aconteceu antes. Você sabe que foi.

Ele sabia, claro. Mas quem daria um jeito, senão os homens de Calla Bryn Sturgis? Certamente não havia autoridade, nem mesmo um xerife, alta ou baixa, naquelas paragens. Estavam por conta própria. Mesmo muito tempo atrás, quando os Baronatos Interiores fulgiam com luz e ordem, eles teriam visto pouquíssimos sinais daquela vida brilhante lá fora. Aquelas eram as terras de fronteira, e a vida ali sempre fora estranha. Então os Lobos haviam começado a aparecer, e a vida tornara-se muito mais estranha. Havia quanto tempo começara aquilo? Quantas gerações? Tian não sabia, mas achava “tempos imemoriais” tempo demais. Os Lobos já saqueavam as aldeias de fronteira quando o grand-père era jovem, sem dúvida — o próprio irmão gêmeo do grand-père fora levado quando os dois estavam sentados no chão, brincando.

— Eles levaro ele purquê ele tava mais perto da istrada — dissera-lhes muitas vezes o grand-père. — Se eu saio de casa primêro que ele, ficava mais perto da istrada e eles levava eu, Deus é bom!

Então beijava o crucifixo de madeira que o Velho lhe dera, olhava para o céu e cacarejava.

Mas o próprio avô de seu avô lhe dissera que em seu dia — o que haveria sido cinco ou talvez seis gerações atrás, se os cálculos de Tian estavam certos — os Lobos atacavam do Trovão em seus cavalos cinzentos. Certa vez perguntara ao Velho: E quase todos os bebês eram gêmeos naquele tempo? Algum dos velhos algum dia disse isso? O grand-père pensara um pouco e balançara a cabeça. Não lembrava o que os anciães diziam a respeito, sim ou não.

Zalia olhava-o ansiosa.

— Você não está em estado de pensar nessas coisas, eu aposto, depois de passar a manhã no terreno pedregoso.

— Meu estado de espírito não vai mudar a hora da chegada nem quem irão levar — disse Tian.

— Você não vai fazer nenhuma tolice, Ti, vai? Nenhuma tolice, e ainda por cima sozinho.

— Não — disse ele.

Sem hesitação. Já começara a fazer planos, ela pensou, e permitiu-se um tênue brilho de esperança. Certamente ele não podia fazer nada contra os Lobos — nenhum deles podia —, mas Tian estava longe de ser idiota. Numa aldeia camponesa onde homem nenhum pensava além de plantar a próxima leira (plantar os cadáveres nas noites de sábado), ele era uma meia anomalia. Sabia escrever o próprio nome; sabia escrever palavras que diziam EU TE AMO, ZALLIE (e a conquistara com elas, mesmo ela não sabendo lê-las ali no chão); sabia somar os números e também contá-los dos pequenos para os grandes, que dizia ser ainda mais difícil. Seria possível...?

Parte dela não queria concluir o pensamento. E assim, quando voltou o coração e a mente de mãe para Hedda e Heddon, Lia e Lyman, parte dela quis ter esperança.

— E aí?


— Vou convocar uma Assembléia da Cidade. Vou mandar a pena.

— Eles virão?

— Quando souberem da notícia, cada homem de Calla vai aparecer. Discutiremos a questão. Talvez desta vez eles queiram lutar. Talvez queiram lutar por seus bebês.

Atrás deles, uma velha voz rachada disse:

— Seu idiota assassino.

Tian e Zalia voltaram-se, de mãos dadas, para olhar o velho. Assassino era uma palavra forte, mas Tian achou que o velho os olhava — olhava para ele — com um ar bastante bondoso.

— Por que diz isso, grand-père? — ele perguntou.

— Os home sai dessa asembréia qui tu pensa e vai queimar metade dos campo, se são bebum — disse o velho. — Home sóbrio... — Balançou a cabeça. — Tu nunca qui vai incontrá um.

— Acho que desta vez você talvez esteja errado, grand-père — disse Tian, e Zalia sentiu um gélido terror apertar seu coração. E o que enterrava nele, quente, era aquela esperança.

3
Teria havido menos resmungos se ele lhes desse pelo menos um aviso de uma noite, mas Tian não faria isso. Eles não podiam se dar ao luxo nem de uma noite de repouso. E quando mandou Heddon e Hedda com a pena, eles vieram. Tian sabia que viriam.

O Salão da Assembléia de Calla ficava no fim da rua Alta da aldeia, além do Armazém Geral de Took e na esquina do Pavilhão, agora empoeirado e escuro com o fim do verão. Logo as senhoras da aldeia começariam a decorá-lo para a Colheita, mas nunca se fazia uma longa Noite da Colheita em Calla. As crianças sempre adoravam ver os homens de palha jogados na fogueira, claro, e os mais ousados roubavam seu quinhão de beijos ao se aproximar a noite, mas só isso. Os enfeites e festivais podiam servir para o Mundo Médio e o Mundo Interior, mas ali não era nenhum dos dois. Ali tinham coisas mais sérias com que se preocupar que Festivais do Dia da Colheita.

Coisas como os Lobos.

Alguns dos homens — dos ricos fazendeiros do oeste às três fazendas de gado do sul — vieram a cavalo. Eisenhart da Rocking B chegou a trazer o rifle e bandoleiras cruzadas no peito. (Tian Jaffords duvidava que as balas servissem para alguma coisa, ou que o velho rifle disparasse, mesmo que alguma delas servisse.) Uma delegação dos mannis veio amontoada numa carroça puxada por uma parelha de mutantes castrados — um com três olhos, o outro com uma coluna de carne rósea brotando das costas. A maioria dos homens de Calla veio em jumentos e burros, metidos em calças brancas e longas camisas coloridas. Tiravam os empoeirados sombreiros pelos cordões ao entrarem no Salão da Assembléia, olhando-se nervosos uns aos outros. Bancos de pinho simples. Sem mulheres e nenhum dos roonts, encheram menos de trinta dos noventa bancos. Conversava-se um pouco, mas ninguém ria.

Tian postou-se de pé na frente com a pena na mão, olhando o sol descer para os lados do horizonte, o ouro aprofundando-se firme para uma cor que parecia sangue infectado. Quando tocou a terra, Tian lançou mais uma olhada à rua Alta. Estava vazia, a não ser por três ou quatro roonts sentados nos degraus do Took’s. Todos enormes e inúteis, exceto para levantar pedras do chão. Não viu mais homens nem mais jumentos chegando. Inspirou fundo, soltou o ar, tornou a inspirar e ergueu o olhar para o céu que escurecia.

— Homem Jesus, eu não acredito em ti — disse. — Mas se está aí, me ajude agora. Agradeça a Deus.

Entrou e fechou as portas do Salão da Assembléia com um pouco mais de força do que haveria sido necessário. A conversa cessou. Cento e quarenta homens, a maioria de fazendeiros, viram-no andar até a frente da sala, as largas pernas da calça branca drapejando, as botas rangendo no piso de pau-ferro. Esperava estar aterrorizado àquela altura, talvez até sem fala. Era um camponês, não um ator de palco nem um político. Então se lembrou dos filhos, e quando ergueu o olhar para os homens, viu que não tinha dificuldade para encará-los. A pena em sua mão não tremeu. Quando falou, as palavras seguiam-se facilmente umas às outras, com naturalidade e coerência. Talvez não fossem o que ele esperava — talvez o grand-père tivesse razão sobre isso —, mas eles pareciam bastante dispostos a escutar.

— Vocês todos sabem quem eu sou — disse ali parado, com as mãos entrelaçadas em torno do cabo da antiquada pena avermelhada. — Tian Jaffords, filho de Luke, marido de Zalia Hoonik, quer dizer. Ela e eu temos cinco filhos, dois pares e um não gêmeo.

Ouviram-se baixos murmúrios, com muita probabilidade devido à sorte de Tian e Zalia terem o seu Aaron. Ele esperou que as vozes cessassem.

— Eu vivi em Calla toda a minha vida. Partilhei do khef de vocês como vocês partilharam do meu. Agora peço que escutem o que tenho a dizer.

— Nós agradecemos, sai — murmuraram eles. Pouco menos que uma resposta padrão, mas Tian se sentiu encorajado.

— Os Lobos estão chegando — disse. — Eu soube disso por Andy. Trinta dias de lua a lua e eles estarão aqui.

Mais murmúrios em voz baixa. Tian ouviu consternação e revolta, mas não surpresa. Quando se tratava de espalhar notícias, Andy era muitíssimo eficiente.

— Mesmo aqueles entre nós que sabem ler e escrever um pouco quase não têm papel para escrever — disse Tian —, por isso eu não posso lhes dizer com nenhum grau de certeza quando vieram a última vez. Não há registros conhecidos, só o boca a boca. Eu sei que estava bem crescido... Faz mais de vinte anos...

— Vinte e quatro — disse uma voz no fundo da sala.

— Não, 23 — corrigiu outra mais à frente. Reuben Caverra levantou-se. Era um homem gordo, de alegre cara redonda. A alegria desaparecera agora, porém, e via-se apenas angústia. — Levaram Ruth, minha mana, peço que me escutem.

Um murmúrio — na verdade não mais que um vocalizado suspiro de concordância — veio dos homens amontoados nos bancos. Podiam ter-se espalhado, mas preferiram ficar ombro a ombro. Às vezes havia conforto no desconforto, calculou Tian.

Reuben disse:

— A gente estava brincando debaixo do grande pinheiro no pátio da frente quando eles chegaram. Eu fiz uma marca naquela árvore cada ano depois. Mesmo depois que eles trouxeram ela de volta, continuei marcando. São 23 marcas e 23 anos. — E com isso, sentou-se.

— Vinte e três ou 24, não faz diferença — disse Tian. — Aqueles que eram crianças quando os Lobos vieram da última vez estão adultos agora e tiveram filhos eles próprios. Há uma bela colheita aqui para aqueles bastardos. Uma bela colheita de crianças. — Fez uma pausa, dando-lhes uma chance de pensar na idéia seguinte por si mesmos antes de dizê-la em voz alta. — Se deixarmos que isso aconteça — falou por fim. — Se nós deixarmos os Lobos levarem nossos filhos para o Trovão, para depois devolvê-los como roonts.

— Que mais diabos a gente pode fazer? — gritou um homem sentado num dos bancos do meio. — Eles não são humanos!

A isso, ouviu-se um murmúrio geral (e infeliz) de concordância.

Um dos mannis se levantou, ajeitando a capa azul-escura nos ombros. Olhou os outros em volta com olhos melancólicos. Não eram loucos aqueles olhos, mas a Tian ele parecia muito longe de racional.

— Eu peço que me escutem — disse o homem.

— Nós agradecemos, sai. — Respeitoso, mas reservado. Ver um manni na aldeia era uma coisa rara, e ali havia oito, todos num bando. Tian alegrara-se com a vinda deles. Quando nada, o aparecimento dos mannis acentuava a mortal seriedade da questão.

— Escutem o que o Livro dos mannis diz: Quando o Anjo da Morte passou por Ayjip, matou o primogênito de cada casa onde não se espalhara o sangue de um cordeiro sacrificial nos umbrais. Assim diz o Livro.

— Louvado seja o Livro — disseram os outros mannis.

— Talvez devêssemos fazer a mesma coisa — prosseguiu o porta-voz deles. Tinha a voz calma, mas uma veia pulsava loucamente em sua testa. — Talvez devamos transformar os próximos trinta dias numa festa de alegria pelos pequenos, e depois botá-los para dormir, e deitar seu sangue sobre a terra. Que os Lobos levem os cadáveres para o leste, se quiserem.

— Você é louco — disse Benito Cash, indignado e ao mesmo tempo quase rindo. — Você e toda a sua gente. Nós não vamos matar nossos bebês.

— Não seria melhor que os que voltam estivessem mortos? — perguntou o manni. — Grandes cascas inúteis. Favas debulhadas.

— Ié, e os irmãos e irmãs deles? — perguntou Vaughn Eisenhart. — Pois os Lobos só levam um de cada dois, como você bem sabe.

Levantou-se um segundo manni, este com uma sedosa barba branca batendo no peito. O primeiro se sentou. O velho Henchick olhou os outros em volta, depois para Tian.

— Você está com a pena, meu jovem. Eu posso falar?

Tian fez-lhe sinal que fosse em frente. Não era, de modo algum, um mau começo. Que examinassem inteiramente o caixão onde estavam metidos, examinassem até os cantos. Confiava em que veriam que no fim não havia alternativa: que os Lobos levassem um em cada dois abaixo da idade da puberdade como sempre fizeram, ou que eles se levantassem e lutassem. Mas para ver isso precisavam entender que todas as outras opções eram becos sem saída.

O velho falou pacientemente. Até com pesar.

— Essa é uma idéia terrível, é, sim. Mas pensem nisso, sais: se os Lobos chegassem e nos encontrassem sem filhos, podiam nos deixar em paz para todo o sempre.

— Ié, podiam, sim — roncou um dos pequenos fazendeiros, que se chamava Jorge Estrada. — E talvez não. Manni-sai, você mataria de fato todas as crianças de uma aldeia pelo que pode ser?

Um forte rumor de concordância percorreu a multidão. Outro pequeno fazendeiro, Garrett Strong, levantou-se. Tinha uma cara de cachorro truculenta. Enfiara os polegares no cinto.

— É melhor nós matarmos todos — disse. — Bebês e adultos igualmente.

O manni não pareceu revoltado com isso. Nem qualquer dos outros de capas azuis à sua volta.

— É uma opção — disse o velho. — Nós discutiríamos isso se outros quisessem. — Sentou-se.

— Eu, não — disse Garrett. — Seria como cortar a porra da cabeça para poupar o barbear, peço que me escutem.

Houve risadas e gritos de Bem falado. Garrett tornou a sentar-se, parecendo um pouco menos tenso, e pôs o chapéu ao lado do de Vaughn Eisenhart. Um dos outros fazendeiros, Diego Adams, escutava, os negros olhos atentos.

Ergueu-se outro pequeno fazendeiro — Bucky Javier. Tinha olhos azuis intensos, numa pequena cabeça que parecia pender para trás do queixo com uma barbicha.

— E se fôssemos embora por algum tempo? — perguntou. — Se levássemos nossos filhos e voltássemos para o oeste. Até o braço oeste do Grande Rio, talvez?

Houve um momento de pensativo silêncio diante dessa ousada idéia. O braço oeste do Whye ficava quase no Mundo Médio... onde, segundo Andy, surgira recentemente e desaparecera mais recentemente ainda um grande palácio de vidro verde. Tian já ia responder quando Eben Took, o dono do armazém, o fez por ele. Tian sentiu um alívio. Esperava falar o mínimo possível. Quando acabassem de discutir, lhes diria o que restava.

— Vocês estão loucos? — perguntou Eben. — Os Lobos vêm, vêem que partimos e queimam tudo até o chão: fazendas e ranchos, safras e depósitos, raiz e galho. Para que voltaríamos nós?

— E se eles forem atrás de nós? — interveio Jorge Estrada. — Você acha que seria difícil nos seguir para tipos como os Lobos? Eles tocariam fogo na aldeia, como diz Took, nos seguiriam e levariam as crianças do mesmo jeito.

Mais ruidosa concordância. Batidas de botas nas tábuas de pinho do assoalho. E alguns gritos de Escutem ele, escutem ele!

— Além disso — disse Neil Faraday, levantando-se e segurando o enorme e imundo sombreiro na frente —, eles nunca roubam todas as nossas crianças.

Falou num tom assustado de “sejam razoáveis” que deixou Tian irritado. Era a opinião que temia acima de todas as outras. O apelo à razão de uma falsidade mortal.

Um dos mannis, este mais jovem e sem barba, deu uma risada alta de desdém.

— Ah, uma salva em cada duas. E isso torna tudo certo, torna? Deus o abençoe!

Podia ter falado mais, mas Henchick baixou a mão torta sobre o braço do rapaz, que não disse mais nada, embora tampouco baixasse a cabeça submisso. Tinha os olhos ardentes, os lábios uma fina linha branca.

— Não digo que isso esteja certo — disse Neil. Começara a girar o sombreiro de uma maneira que deixava Tian meio tonto. — Mas temos de enfrentar os fatos, não temos? Ié. Eles não levam todos. Ora, minha filha, Georgina, é tão capaz e esperta...

— É, sim, e seu filho George é um desastrado de cabeça oca — disse Ben Slightman. Era o capataz de Eisenhart, e não tinha muita paciência com idiotas. Tirou os óculos, limpou-os com um lenço e tornou a pô-los. — Eu o vejo sentado nos degraus do Took’s quando passo a cavalo pela rua. Vejo muito bem. Ele e alguns outros igualmente cabeças ocas.

— Mas...


— Eu sei — disse Slightman. — É uma decisão difícil. Talvez seja melhor algumas cabeças ocas do que todos mortos. — Fez uma pausa. — Ou todos levados em vez de apenas metade.

Gritos de Escutem ele e Nós agradecemos quando Ben Slightman se sentou.

— Eles sempre nos deixam alguns para prosseguirmos, não deixam? — perguntou um pequeno fazendeiro cuja casa ficava logo a oeste da de Tian perto da fronteira de Calla. Chamava-se Louis Haycox, e falou num tom de voz pensativo e amargo. Por baixo do bigode, os lábios curvavam-se num sorriso que não tinha muito humor. — Nós não vamos matar nossos filhos — disse, olhando para os mannis. — E a bênção de Deus para vocês, cavalheiros, mas eu não acredito que mesmo vocês pudessem fazer isso, chegar até o matadouro. Ou não todos. Não podemos pegar mala e cuia e ir para o oeste... ou para outro lado... porque deixamos as fazendas atrás. Eles incendeiam tudo, claro, e vêm atrás das crianças do mesmo jeito. Precisam delas, sabe Deus por quê.

“Sempre retornamos à mesma coisa: somos fazendeiros, a maioria. Fortes quando pomos a mão no solo, fracos quando não. Eu tenho dois guris, de quatro anos, e os amo muito. Odiaria perder qualquer um dos dois. Mas daria um para ficar com o outro. E minha fazenda. — Murmúrios de concordância. — Que outra escolha temos nós? Eu digo o seguinte: seria o pior erro do mundo enfurecer os Lobos. A não ser, claro, que possamos resistir a eles. Se fosse possível, eu resistiria. Mas não vejo como.”

Tian sentiu o coração murchar a cada palavra de Haycox. Quanto de sua indignação o homem roubara? Deuses e o Homem Jesus!

Wayne Overholser levantou-se. Era o mais bem-sucedido fazendeiro de Calla Bryn Sturgis, e tinha uma vasta pança inclinada para provar isso.

— Peço que me escutem.

— Nós agradecemos, sai — murmuraram os outros.

— Eu vou contar a vocês o que vou fazer — disse ele, olhando em volta. — O que nós sempre fizemos, é isso. Algum de vocês quer falar em resistir aos Lobos? Será algum de vocês tão louco assim? Com o quê? Lanças e pedras, alguns arcos e bahs? Talvez quatro velhos calibres como aquele ali? — Apontou o dedo para o rifle de Eisenhart.

— Não faça gozação com meu pau-de-fogo, filho — disse Eisenhart, mas com um sorriso triste.

— Eles vão vir e levar as crianças — disse Overholser, olhando em volta. — Algumas. Depois vão nos deixar em paz durante uma geração ou mais tempo. Assim é, assim tem sido, e minha opinião é que deixem pra lá. — Elevaram-se rumores de desaprovação, mas ele esperou que cessassem. — Vinte e três ou 24 anos, não importa — continuou, quando todos se calaram de novo. — De qualquer modo é um longo tempo. Um longo tempo de paz. Será que vocês esqueceram umas coisas, gente? Uma é que as crianças são uma safra como outra qualquer. Deus sempre manda mais. Eu sei que isso parece duro. Mas é como temos vivido e como temos de continuar.

Tian não esperou por nenhuma das respostas padrão. Se fossem mais adiante por esse caminho, qualquer chance que ele pudesse ter de dissuadi-los estaria perdida. Ergueu a pena de opópanax e disse:

— Escutem o que eu digo! Querem ouvir, eu peço?

— Nós agradecemos, sai — responderam eles. Overholser olhava-o desconfiado.



E você tem razão de me olhar desse jeito, pensou Tian. Pois eu estou farto desse bom senso covarde, estou mesmo.

— Wayne Overholser é um homem esperto e bem-sucedido — disse —, e eu odeio falar contra a posição dele por esses motivos. E por outros também: ele é velho o bastante para ser meu pai.

— Cuidado que ele não seja seu pai — gritou o único trabalhador da fazenda de Garrett Strong, que se chamava Rossiter, e houve uma risada geral. Até Overholser sorriu com a piada.

— Filho, se você odeia mesmo falar contra mim, não fale — disse. Continuava a sorrir, mas apenas com a boca.

— Mas eu devo — disse Tian. Começou a andar devagar de um lado para outro diante dos bancos. Em suas mãos, a pena cor de ferrugem de opópanax oscilava. Ele ergueu a voz ligeiramente, para que entendessem que não mais falava apenas ao grande fazendeiro. — Eu devo, porque sai Overholser é velho suficiente para ser meu pai. Os filhos dele estão crescidos, vocês sabem disso, uma moça e um rapaz. — Fez uma pausa, depois fulminou: — Nascidos com dois anos de diferença.

Ambos individuais, não gêmeos, em outras palavras. Ambos a salvo dos Lobos, embora ele não precisasse dizer isso em voz alta. A multidão murmurou.

Overholser corou com um vermelho forte e perigoso.

— Isso é uma coisa dos diabos para você dizer. Minha opinião não tem nada a ver com esse negócio de individual ou duplo! Me dê essa pena, Jaffords. Eu preciso dizer mais algumas coisas.

Mas as botas começaram a patear nas tábuas, primeiro devagar, e depois ganhando velocidade até chocalharem como granizo. Overholser olhou em volta furioso, tão rubro agora que estava quase roxo.

— Eu quero falar! — gritou. — Vocês não querem me ouvir, eu peço.

Gritos de Não, não, Agora não, Jaffords está com a pena e Sente-se e escute soaram em resposta. Tian teve a idéia de que Overholser estava aprendendo — e surpreendentemente tarde na vida — que muitas vezes havia um profundo ressentimento contra o mais rico e mais bem-sucedido da aldeia. Os menos afortunados ou menos espertos (a maioria das vezes eram os mesmos) podiam levantar os chapéus quando a gente rica passava em suas buckas ou carruagens baixas, podiam mandar um porco ou vaca mortos como agradecimento quando a gente rica emprestava seus empregados para ajudar na construção de uma casa ou celeiro, os ricos podiam ser aplaudidos na Assembléia de Fim de Ano por ajudarem a comprar o piano que agora estava na música do Pavilhão. Mas os homens de Calla batiam com as botas para abafar a voz de Overholser com uma certa satisfação selvagem.

Overholser, não acostumado a ser barrado dessa maneira — perplexo, na verdade —, tentou mais uma vez.

Eu gostaria de falar, peço-lhes, eu tenho a pena!

— Não — disse Tian. — Mais tarde se quiser, mas agora, não.

Isso na verdade recebeu aplausos, sobretudo dos menores dos pequenos fazendeiros e alguns de seus trabalhadores. Os mannis não se juntaram. Estavam agora amontoados de forma tão compacta que pareciam uma mancha de tinta azul no meio do salão. Era visível que se sentiam espantados com aquela virada. Vaughn Eisenhart e Diego Adams, enquanto isso, aproximaram-se para ladear Overholser e falar-lhe em voz baixa.

Você tem uma chance, pensou Tian. É melhor aproveitá-la ao máximo. Ergueu a pena, e eles se calaram.

— Todos terão uma chance de falar — disse. — Quanto a mim, digo o seguinte: não podemos prosseguir assim, simplesmente curvando a cabeça e ficando quietos enquanto os Lobos levam nossas crianças. Eles...

— Sempre as devolvem — disse timidamente um trabalhador chamado Farren Posella.

Elas voltaram como meras cascas! — gritou Tian, e ouviram-se alguns gritos de Escutem ele. Ainda não basta, porém, pensou Tian. Não basta nem um pouco. Ainda não.

Tornou a baixar a voz. Não queria discutir com eles. Overholser tentara isso e não fora a parte alguma, ou tudo ou nada.

— Elas voltam como cascas. E daí? Que significa isso para nós? Alguns podem não dizer nada, que os Lobos sempre fizeram parte de nossa vida em Calla Bryn Sturgis, como um ou outro ciclone ou tremor de terra. Mas não é verdade. Eles vêm há seis gerações, no máximo. Mas Calla está aqui há mil anos ou mais.

O velho manni de ombros ossudos e olhos tristes levantou-se a meio.

— Ele diz a verdade, gente. Houve fazendeiros aqui... e muita gente manni entre eles... quando a escuridão no Trovão ainda não havia baixado, muito menos os Lobos.

Eles receberam isso com ares de espanto. Isso pareceu satisfazer o velho, que assentiu com a cabeça e sentou-se.

— Assim, no curso maior do tempo, os Lobos são quase uma coisa nova — disse Tian. — Seis vezes eles vieram e durante talvez 120 ou 140 anos. Quem sabe? Pelo que sabemos, o tempo amaciou, de algum modo.

Um baixo rumor. Alguns assentimentos.

— Em todo caso, uma vez a cada geração — continuou Tian. Tinha consciência que se formava um contingente hostil em torno de Overholser, Eisenhart e Adams. Ben Slightman podia ou não estar com eles; provavelmente estava. Aqueles ele não mudaria mesmo que fosse dotado de uma língua de anjo. Bem, podia passar sem eles, talvez. Se pegasse o resto. — Eles vieram uma vez em cada geração. E quantas crianças levaram? Três dúzias. Quatro?

Sai Overholser pode não ter bebês, mas eu tenho; não um par de gêmeos, mas dois. Heddon e Hedda, Lyman e Lia. Amo os quatro, mas em um mês redondo dois deles serão levados. E quando voltarem, serão roont. Qualquer faísca que torne completo um ser humano estará apagada para sempre.”

Escutem ele, escutem foi o grito que varreu a sala como um suspiro.

— Quantos de vocês têm gêmeos sem cabelos além dos da cabeça? — perguntou Tian. — Levantem as mãos.

Seis homens ergueram a mão. Depois oito. Uma dúzia. Toda vez que Tian começava a pensar que eram só aqueles, outra mão relutante se erguia. No fim, contou 22, e claro que nem todos que tinham filhos estavam ali. Via que Overholser estava consternado com um número tão grande. Diego Adams levantara a mão, e Tian ficou contente por ver que ele se afastara um pouco de Overholser, Eisenhart e Slightman. Três dos mannis haviam erguido a mão. Jorge Estrada, Louis Haycox. Muitos outros ele conhecia, o que não surpreendia de modo algum, na verdade; conhecia quase todos aqueles homens. Provavelmente todos, a não ser alguns sujeitos errantes que trabalhavam em pequenas fazendas por baixos salários e comida quente.

— Cada vez que eles vêm e levam nossas crianças, levam um pouco mais de nossos corações e almas — disse Tian.

— Ora, vamos — disse Eisenhart. — Isso é um pouco de exagero...

— Cale a boca, fazendeiro — disse uma voz. Era de um homem que chegara atrasado, o da cicatriz na testa. Era chocante em sua raiva e desdém. — Ele está com a pena. Deixe-o falar até o fim.

Eisenhart virou-se para marcar quem lhe falara desse jeito. Viu, e não deu resposta. E Tian não se surpreendeu.

— Obrigado, père — respondeu Tian, em voz calma. — Já quase acabei. Continuo pensando nas árvores. A gente tira as folhas de uma árvore forte e ela vive. Talha muitos nomes na casca e a casca torna a crescer. A gente pode até tirar um pouco do miolo, que ela vive. Mas se continuar tirando o miolo, vai chegar uma hora em que mesmo a árvore mais forte morre. Eu já vi isso, e é uma coisa feia. Elas morrem de dentro pra fora. A gente vê nas folhas, que vão ficando amarelas do tronco até as pontas dos galhos. E é isso que os Lobos estão fazendo a esta pequena cidade. O que estão fazendo com nossa Calla.

— Escutem ele! — gritou Freddy Rosário, da fazenda vizinha. — Escutem muito bem ele.

Ele próprio tinha gêmeos, embora ainda fossem de peito e provavelmente estivessem a salvo. Tian prosseguiu:

— Vocês dizem que se resistirmos e lutarmos eles matarão todos nós e incendiarão Calla da fronteira leste à oeste.

É — disse Overholser. — É o que eu digo. E não sou o único.

De toda a sua volta vieram rumores de concordância.

— No entanto, toda vez que simplesmente ficamos de lado, de cabeça baixa e mãos abertas enquanto os Lobos levam o que nos é mais caro que nossas colheitas, casas ou celeiros, eles tiram um pouco mais do miolo da árvore que é esta aldeia! — Tian falou forte, agora de pé, ainda com a pena erguida numa das mãos. — Se não nos levantarmos e lutarmos logo, seremos roonts nós mesmos!

Altos gritos de Escutem ele! Exuberante batedura de botas. Até mesmo alguns aplausos.

George Telford, outro fazendeiro de gado, sussurrou brevemente para Eisenhart e Overholser. Eles escutaram e balançaram a cabeça. Telford levantou-se. Tinha cabelos prateados, era bronzeado e bonitão, naquela maneira curtida que as mulheres parecem gostar.

— Já acabou, filho? — perguntou bondosamente, como se perguntaria a uma criança se já brincara bastante por uma tarde e estava pronta para ir dormir.

— É, acho que sim — disse Tian.

Sentia-se de repente desanimado. Telford não era fazendeiro na mesma escala de Vaughn Eisenhart, mas tinha uma língua de prata. Tian teve a idéia de que ia perder aquela, afinal.

— Pode me dar a pena, então?

Tian pensou em retê-la, mas de que ia adiantar? Falara o melhor que pudera. Tentara. Talvez ele e Zalia devessem arrumar a trouxa e ir para o oeste eles próprios, de volta às Médias. Lua a lua até os Lobos chegarem, segundo Andy. Podia-se ter uma boa dianteira em relação ao problema em trinta dias.

Passou a pena.

— Todos apreciamos o ardor do jovem sai Jaffords, e certamente ninguém duvida de sua coragem — disse George Telford. Falava com a pena colada no lado esquerdo do peito, sobre o coração. Os olhos percorriam a platéia, parecendo querer fazer contato, contato amigo, com cada homem. — Mas temos de pensar tanto nas crianças que ficariam quanto nas que seriam levadas, não temos? Na verdade, temos de proteger todas as crianças, sejam gêmeos, trigêmeos ou individuais, como o sai Aaron de Jaffords.

Voltou-se então para Tian.

— Que dirão vocês a seus filhos quando os Lobos atirarem nas mães deles e talvez atearem fogo aos grand-pères com suas varas-de-fogo? Que podem dizer para tornar normal o barulho daqueles gritos a noite toda? Para suavizar o cheiro de peles e colheitas queimadas? São essas as almas que estaremos salvando? Ou o miolo da árvore de uma árvore de faz-de-conta?

Fez uma pausa, dando a Tian uma chance de responder, mas Tian não tinha resposta a dar. Quase os conquistara... mas não contara com Telford. O filho-da-puta da língua de veludo, que também havia muito passara da idade em que precisaria preocupar-se com a batida dos Lobos na sua porta, nos grandes cavalos cinzentos.

Telford assentiu com a cabeça, como se o silêncio de Tian não fosse mais que o esperado, e tornou a voltar-se para os bancos.

— Quando os Lobos chegam — disse —, vêm com armas que despejam fogo... as varas-de-fogo, vocês conhecem... e armas, e coisas voadoras de metal. Não me lembro o nome destas...

— Bolas que zumbem — gritou alguém.

— Bolas de fogo — gritou outro.

— Invisíveis! — gritou um terceiro.

Telford balançava a cabeça e sorria delicadamente. Um professor com bons alunos.

— Sejam o que forem, cruzam o ar voando e buscam os alvos, e quando localizam, lançam lâminas voadoras afiadas como navalhas. Podem despir uma pessoa da cabeça aos pés em cinco segundos, não deixando nada em cima além de um círculo de sangue e pêlos. Não duvidem de mim, pois eu vi.

Escutem ele, escutem bem ele! — gritaram os homens nos bancos. Tinham os olhos enormes e assustados.

— Os próprios Lobos são terríveis — prosseguiu Telford, passando suavemente de uma história de beira de fogueira para outra. — Parecem um pouco com os homens, mas não são homens; são um tanto maiores e muito mais pavorosos. E aqueles a quem eles servem no distante Trovão são de longe mais terríveis. Vampiros, eu soube. Homens com cabeças de pássaros e outros animais, talvez. Ronins insepultos com capacetes quebrados. Guerreiros do Olho Escarlate.

Os homens murmuraram. Até Tian escutou uma correria de patas de ratos em suas costas à menção do Olho.

Os Lobos eu vi; o resto me contaram — continuou Telford. — E embora eu não acredite em tudo, acredito em muita coisa. Mas esqueçam o Trovão e o que pode se entocar lá. Fiquemos com os Lobos. Eles é que são nosso problema, e problema suficiente. Sobretudo quando aparecem armados até os dentes! — Balançou a cabeça, com um sorriso medonho. — Que faríamos nós? Será que podemos derrubá-los dos cavalos cinzentos com foices, sai Jaffords? Você acha?

Um sorriso de escárnio acolheu isso.

— Não temos armas que resistam contra eles — disse Telford. Era agora seco e prático, um homem dizendo ao que tudo se resumia. — Mesmo que as tivéssemos, somos camponeses, fazendeiros e criadores de gado, não guerreiros. Nós...

— Pare com essa conversa de covarde, Telford. Devia envergonhar-se.

Arquejos chocados acolheram esse arrepiante pronunciamento. Costas e pescoços estalaram, quando os homens se voltaram para ver quem falara. Devagar, pois, como para dar-lhes exatamente o que esperavam, o recém-chegado de cabelos prateados e longa barba, usando um longo capote de gola dobrada, levantou-se lentamente do banco no fundo da sala. A cicatriz em sua testa — em forma de cruz — brilhava à luz das lâmpadas de querosene.

Era o Velho.

Telford recuperou-se com relativa rapidez, mas quando falou, Tian achou que ele ainda estava chocado.

— Peço perdão, père Callahan, mas sou eu que estou com a pena...

— Para o inferno com sua pena infiel e com seu covarde conselho — disse père Callahan.

Desceu o corredor central, andando com o sombrio balanço da artrite. Não era tão velho quanto o sábio manni, nem o grand-père de Tian (que diziam ser a pessoa mais velha não apenas ali, mas em Calla Lockwood ao sul), mas parecia de algum modo um pouco mais que os dois. Mais velho que as eras. Alguma coisa disso sem dúvida tinha a ver com os olhos obcecados que viam o mundo debaixo da cicatriz na testa (Zalia dizia que ele mesmo a fizera). Mais tinha a ver com o som dele. Embora estivesse ali havia anos suficientes para construir aquela estranha igreja do Homem Jesus e converter meia Calla à sua doutrina espiritual, nem mesmo um estranho seria tapeado para acreditar que père Callahan era dali. A estrangeirice estava na fala plana e anasalada e no muitas vezes obscuro jargão que usava (“gíria de rua”, como a chamava). Sem dúvida viera de um daqueles outros mundos de que os mannis viviam falando, embora nunca mencionasse isso e Calla Bryn Sturgis não fosse sua terra. Tinha aquela autoridade seca e inquestionável que tornava difícil disputar seu direito a falar, com ou sem a pena.

Mais jovem que o grand-père de Tian ele podia ser, mas père Callahan ainda era o Velho.

4
Agora ele examinava os homens de Calla Bryn Sturgis, sem sequer olhar para George Telford. A pena cedia na mão deste. Ele se sentou no primeiro banco, ainda segurando-a.

Callahan começou com um dos seus termos de gíria, mas eles eram camponeses e ninguém precisava pedir explicações.

— Isso é titica de galinha.

Examinou-os por mais tempo. A maioria não retribuiu o seu olhar. Após um instante, até Eisenhart e Adams baixaram os olhos. Overholser manteve a cabeça erguida, mas sob o duro olhar do Velho parecia mais petulante que desafiador.

— Titica de galinha — repetiu o homem de capote negro e gola dobrada, enunciando cada sílaba.

Uma pequena cruz de ouro luziu sob a dobra da gola dobrada para trás. Na testa, a outra cruz — a que Zalia dizia que ele fizera na própria carne com a unha do polegar, como penitência parcial por algum pecado terrível — fulgia sob as lâmpadas como uma tatuagem.

— Este rapaz não é um dos meus, mas ele tem razão, e eu acho que todos vocês sabem disso. Sabem em seus corações. Mesmo você, Sr. Overholser. E você, George Telford.

— Não sei nada disso — disse Telford, mas a voz era fraca e despida daquele encanto persuasivo anterior.

— Todas as suas mentiras vão deixá-los zarolhos, era o que minha mãe lhes teria dito.

Callahan deu a Telford um débil sorriso que Tian não queria dirigido a si. E então Callahan se voltou para ele.

— Eu nunca vi a coisa mais bem posta do que você colocou esta noite, filho. Nós agradecemos, sai.

Tian ergueu a mão débil e conseguiu dar um sorriso mais débil ainda. Sentia-se como uma personagem numa tola peça de festa, salvo no último instante por uma improvável intervenção sobrenatural.

— Eu sei muito de covardia, e que isso sirva a vocês — disse Callahan aos homens no banco. Ergueu a mão direita, deformada e torcida por uma velha queimadura, olhou-a fixo e deixou-a cair ao lado. — Tenho experiência pessoal, se poderia dizer. Sei como uma decisão covarde leva a outra... e a outra... e a outra... até ser tarde demais para voltar atrás, tarde demais para mudar. Sr. Telford, eu lhe garanto que a árvore da qual o jovem Sr. Jaffords falou não é faz-de-conta. Calla corre sério perigo. Suas almas correm perigo.

— Ave-Maria, cheia de graça — disse alguém no lado esquerdo da sala —, o Senhor é convosco. Bendito o fruto do vosso ventre, Je...

— Guarde isso — cortou Callahan. — Guarde pro domingo. — Seus olhos, faíscas azuis, estudavam-nos. — Por esta noite, esqueçam Deus, Maria e o Homem Jesus. Esqueçam as varas-de-fogo e as bolas que zumbem dos Lobos, também. Vocês têm de lutar. São os homens de Calla, não são? Então ajam como homens. Parem de se comportar como cachorros se arrastando de barriga no chão para lamber as botas de um amo cruel.

Overholser tornou-se vermelho-escuro com isso, e começou a levantar-se. Diego Adams agarrou o seu braço e falou-lhe ao ouvido. Por um instante, Overholser permaneceu como estava, paralisado numa espécie de agachamento cruel, e depois voltou a sentar-se. Adams levantou-se.

— Soa bem, padrone — disse com seu sotaque pesado. — Soa corajoso. Mas ainda tem algumas perguntas, talvez. Haycox fez uma delas. Como podem camponeses levantar-se contra assassinos armados?

— Contratando assassinos armados nossos — respondeu Callahan.

Houve um momento de absoluto e pasmo silêncio. Era quase como se o Velho houvesse passado para outra língua. Finalmente Adams disse, cautelosamente:

— Eu não compreendo.

— Claro que não — disse o Velho. — Então ouçam e aprendam, fazendeiro Adams e todos vocês, escutem e aprendam. A menos de seis dias de cavalo a noroeste de nós, e seguindo para sudeste pelo Caminho do Feixe de Luz, vêm três pistoleiros e um “aprendiz”. — Sorriu do espanto deles. Depois voltou-se para Slightman. — O “aprendiz” não é muito mais velho que seu filho Ben, mas já é tão rápido quanto uma serpente e mortal como um escorpião. Os outros são de longe mais rápidos e mortais. Eu soube por Andy, que os viu. Querem grossos calibres? Estão à disposição. Eu acertei meu relógio e garanto.

Desta vez, Overholser se levantou por inteiro. O rosto ardia como se ele tivesse febre. O barrigão tremia.

— Que história pra menino dormir é essa? — perguntou. — Se existiram tais homens, deixaram de existir com Gilead. E Gilead é poeira no vento há mil anos.

Não houve murmúrios de apoio ou contestação. Não houve murmúrios de espécie alguma. A multidão continuava paralisada, apanhada na reverberação da única palavra mítica: pistoleiros.

— Você está errado — disse Callahan —, mas não precisamos brigar por isso. Vamos ver por nós mesmos. Irá um pequeno grupo, eu acho. O Jaffords aqui... eu próprio... e que tal você, Overholser? Quer vir?

Não existem pistoleiros — rugiu Overholser. Às suas costas, levantou-se Jorge Estrada.

Père Callahan, que a graça de Deus recaia sobre o senhor...

— ...e sobre você, Jorge.

— ...mas mesmo que existissem pistoleiros, como poderiam três resistir a quarenta ou sessenta? E não quarenta ou sessenta homens normais, mas quarenta ou sessenta Lobos?

— Escutem ele, o que ele diz faz sentido! — gritou Eben Took, o dono do armazém.

— E por que eles iriam lutar por nós? — continuou Estrada. — Nós conseguimos viver de um ano para outro, não mais. Que poderíamos oferecer a eles, além de algumas refeições quentes? E quem aceita morrer por comida?

Escutem ele, escutem ele! — gritaram em uníssono Telford, Over-holser e Eisenhart. Os outros patearam fortemente as tábuas.

O Velho esperou até que a pateada cessasse e disse:

— Eu tenho livros na reitoria. Meia dúzia.

Embora a maioria deles soubesse disso, a idéia de livros — todo aquele papel — ainda provocou um suspiro geral de espanto.

— Segundo um deles, os pistoleiros eram proibidos de aceitar recompensas. Supõe-se que é porque eram descendentes de Arthur Eld.

— O Eld! O Eld! — sussurraram os mannis, e vários ergueram punhos no ar com o primeiro e o quarto dedos esticados.



Formando chifres, pensou o Velho. Vai, Texas. Conseguiu abafar uma risada, mas não o sorriso que aflorou aos seus lábios.

— Estamos falando dos casos sem remédio que vagam pela terra, fazendo boas ações? — perguntou Telford numa voz ligeiramente gozadora. — Certamente você está velho demais para essas histórias, Père.

— Não são casos sem remédio — disse pacientemente Callahan. — São pistoleiros.

— Como podem três homens resistir aos Lobos, Père? — ouviu-se perguntar Tian.

Segundo Andy, um dos pistoleiros era na verdade uma mulher, mas Callahan não viu necessidade de turvar as águas mais ainda (embora a parte demoníaca dele quisesse, ainda assim).

— Isso é uma questão para o dinh deles, Tian. Vamos perguntar a ele. E eles não estariam lutando apenas pela comida, você sabe. De jeito nenhum.

— Por que mais, então? — perguntou Bucky Javier.

Callahan achava que iam querer a coisa que estava debaixo do assoalho de sua igreja. E isso era bom, porque aquela coisa acordara. O Velho, que um dia fugira de um lugar chamado a Terra de Jerusalém, Jerusalem’s Lot, queria livrar-se dela. Se não se livrasse dela em breve, ela ia matá-lo.

— Na hora, Sr. Javier — disse. — Tudo na hora certa, sai.

Enquanto isso, começara um sussurro no Salão da Assembléia. Percorreu os bancos de boca em boca, uma brisa de esperança e medo.



Pistoleiros.

Pistoleiros a oeste, vindos do Mundo Médio.

E era verdade, que Deus os ajudasse. Os últimos filhos letais de Arthur Eld, avançando para Calla Bryn Sturgis pelo Caminho do Feixe de Luz. Ka como o vento.

— Hora de ser homens — disse-lhes père Callahan. Por baixo da cicatriz na testa, os olhos ardiam como lâmpadas. Mas seu tom não deixava de ser compassivo. — Hora de resistir, cavalheiros. Hora de resistir e ser autênticos.

PARTE UM



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