Lixo (veríssimo)



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I) LIXO ( L. F. VERÍSSIMO)

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam


— Bom dia...
— Bom dia.
— A senhora é do 610.
— E o senhor do 612.
— É.
— Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
— Pois é...
— Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
— O meu quê?
— O seu lixo.
— Ah...
— Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
— Na verdade sou só eu.
— Mmmm. Notei também que o senhor usa muita comida em lata.
— É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
— Entendo.
— A senhora também...
— Me chame de você.
— Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
— É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas como moro sozinha, às vezes sobra...
— A senhora... Você não tem família?
— Tenho, mas não aqui.
— No Espírito Santo.
— Como é que você sabe?
— Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
— É. Mamãe escreve todas as semanas.
— Ela é professora?
— Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
— Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
— O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
— Pois é...
— No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
— É.
— Más notícias?
— Meu pai. Morreu.
— Sinto muito.
— Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
— Foi por isso que você recomeçou a fumar?
— Como é que você sabe?
— De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
— É verdade. Mas consegui parar outra vez.
— Eu, graças a Deus, nunca fumei.
— Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
— Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou.
— Você brigou com o namorado, certo?
— Isso você também descobriu no lixo?
— Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
— E, chorei bastante. Mas já passou.
— Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
— É que eu estou com um pouco de coriza.
— Ah.
— Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
— É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
— Namorada?
— Não.
— Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
— Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
— Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
— Você já está analisando o meu lixo!
— Não posso negar que o seu lixo me interessou.
— Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
— Não! Você viu meus poemas?
— Vi e gostei muito.
— Mas são muito ruins!
— Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
— Se eu soubesse que você ia ler...
— Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
— Acho que não. Lixo é domínio público.
— Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
— Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
— Ontem, no seu lixo..
— O quê?
— Me enganei, ou eram cascas de camarão?
— Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
— Eu adoro camarão.
— Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
— Jantar juntos?
— É.
— Não quero dar trabalho.
— Trabalho nenhum.
— Vai sujar a sua cozinha.
— Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
— No seu lixo ou no meu?

II) Emergência (L. F. VERÍSSIMO)
É fácil identificar o passageiro de primeira viagem. É o que já entra no avião desconfiado. O cumprimento da aeromoça, na porta do avião, já é um desafio para a sua compreensão.
- Bom dia...
- Como assim?
Ele faz questão de sentar num banco de corredor, perto da porta. Para ser o primeiro a sair no caso de alguma coisa dar errado. Tem dificuldade com o cinto de segurança. Não consegue atá-lo. Confidencia para o passageiro ao seu lado:
- Não encontro o buraquinho. Não tem buraquinho?
Acaba esquecendo a fivela e dando um nó no cinto. Comenta, com um falso riso descontraído: "Até aqui, tudo bem". O passageiro ao lado explica que o avião ainda está parado, mas ele não ouve. A aeromoça vem lhe oferecer um jornal, mas ele recusa.
- Obrigado. Não bebo.
Quando o avião começa a correr pela pista antes de levantar vôo, ele é aquele com os olhos arregalados e a expressão de Santa Mãe do Céu! no rosto. Com o avião no ar, dá uma espiada pela janela e se arrepende. É a última espiada que dará pela janela.
Mas o pior está por vir. De repente ele ouve uma misteriosa voz descarnada. Olha para todos os lados para descobrir de onde sai a voz.
"Senhores passageiros, sua atenção, por favor. A seguir, nosso pessoal de bordo fará uma demonstração de rotina do sistema de segurança deste aparelho. Há saídas de emergência na frente, nos dois lados e atrás."
- Emergência? Que Emergência? Quando eu comprei a passagem ninguém falou nada em emergência. Olha, o meu é sem emergência.
Uma das aeromoças, de pé ao seu lado, tenta acalmá-lo.
- Isto é apenas rotina, cavalheiro.
- Odeio a rotina. Aposto que você diz isso para todos. Ai meu santo.
"No caso de despressurização da cabina, máscaras de oxigênio cairão automaticamente de seus compartimentos."
- Que história é essa? Que despressurização? Que cabina?
"Puxe a máscara em sua direção. Isto acionará o suprimento de oxigênio. Coloque a máscara sobre o rosto e respire normalmente."
- Respirar normalmente?! A cabina despressurizada, máscaras de oxigênio caindo sobre nossas cabeças - e ele quer que a gente respire normalmente?!
"Em caso de pouso forçado na água. . ."
- O quê?!
" . . . os assentos de suas cadeiras são flutuantes e podem ser levados para fora do aparelho e. . ."
- Essa não! Bancos flutuantes, não! Tudo, menos bancos flutuantes!
- Calma, cavalheiro.
- Eu desisto! Parem este troço que eu vou descer. Onde é a cordinha? Parem!
- Cavalheiro, por favor. Fique calmo.
- Eu estou calmo. Calmíssimo. Você é que está nervosa e, não sei por quê, está tentando arrancar as minhas mãos do pescoço deste cavalheiro ao meu lado. Que, aliás, também parece consternado e levemente azul.
- Calma! Isso. Pronto. Fique tranquilo. Não vai acontecer nada.
- Só não quero mais ouvir falar em banco flutuante.
- Certo. Ninguém mais vai falar em banco flutuante.
Ele se vira para o passageiro ao lado, que tenta desesperadamente recuperar a respiração, e pede desculpas. Perdeu a cabeça.
- É que banco flutuante foi demais. Imagine só. Todo mundo flutuando sentado. Fazendo sala no meio do Oceano Atlântico!
A aeromoça diz que vai lhe trazer um calmante e aí mesmo é que ele dá um pulo:
- Calmante, por quê? O que é que está acontecendo? Vocês estão me escondendo alguma coisa!
Finalmente, a muito custo, conseguem acalmá-lo. Ele fica rígido na cadeira. Recusa tudo que lhe é oferecido. Não quer o almoço. Pergunta se pode receber a sua comida em dinheiro. Deixa cair a cabeça para trás e tenta dormir. Mas, a cada sacudida do avião, abre os olhos e fica cuidando a portinha do compartimento sobre sua cabeça, de onde, a qualquer momento, pode pular uma máscara de oxigênio e matá-lo do coração.
De repente, outra voz. Desta vez é a do comandante.
- Senhores passageiros, aqui fala o comandante Araújo. Neste momento, à nossa direita, podemos ver a cidade de . . .
Ele pula outra vez da cadeira e grita para a cabina do piloto:
- Olha para a frente, Araújo! Olha para a frente!

III) O padeiro (Rubem Braga)
Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento - mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a "greve do pão dormido". De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.

 Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:

 - Não é ninguém, é o padeiro!

 Interroguei-o uma vez: como tivera a idéia de gritar aquilo?

 "Então você não é ninguém?"

 Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: "não é ninguém, não senhora, é o padeiro". Assim ficara sabendo que não era ninguém...


 Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina - e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.

 Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; "não é ninguém, é o padeiro!"


E assobiava pelas escadas.

IV) O Analista de Bagé Luis Fernando Veríssimo

Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que,

por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vem de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas. Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem educada) mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.

Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.

- Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.

- O senhor quer que eu deite logo no divã?

- Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto.

Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.

- Certo, certo. Eu...

- Aceita um mate?

- Um quê? Ah, não. Obrigado.

- Pos desembucha.

- Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?

- Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.

- Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe.

- Outro...

- Outro?

- Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.

- E o senhor acha...

- Eu acho uma pôca vergonha.

- Mas...

- Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!

***

Contam que outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé. Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.



- Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira...

Mas acabou concordando.

- Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê.

Qual é o causo?

- Bem - disse o home - é que nós tivemos um desentendimento...

- Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo

novo não se mete a espora?

- Eu não meti a espora. Não é, meu bem?

- Não fala comigo!

- Mas essa aí tá mais nervosa que gato em dia de faxina.

- Ela tem um problema de carência afetiva...

- Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência

afetiva é falta de homem.

- Nós estamos justamente atravessando uma crise de relacionamento

porque ela tem procurado experiências extra-conjugais e...

- Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de

maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?

- Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o

verdadeiro eu, entende?

- Ela tá procurando o verdadeiro tu nos outros?

- O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.

- Mais isto tá ficando mais enrolado que linguiça de venda. Te

deita no pelego.

- Eu?


Ela. Tu espera na salinha.

V) HERÓI DA LINGUA Ivan Ângelo

Vocês se lembram do meu amigo Toninho Vernáculo. Já falei dele uma vez, contei histórias da mania que tem de corrigir erros de português. Daí o apelido. Cansei de falar: deixa, Toninho, esta língua é complicada mesmo, até autor consagrado escreve com dicionários e gramáticas à mão.

– Pelo menos eles têm a humildade de consultar os mestres antes de dar a público o que escrevem – respondia o Toninho na sua linguagem em roupa de domingo.

Lembram-se dele? Quando encontra erros de português no seu caminho, telefona para os responsáveis, exige correções em nome da língua pátria e da educação pública. Coisas assim:

– A placa do seu estabelecimento é um atentado contra a língua, induz as pessoas a achar que o errado é o certo, espalha a confusão.

Ultimamente andava se controlando, me telefonava muito menos do que antes, relatando atentados mais graves contra a boa linguagem, praticados por quitandeiros, padeiros, donos de restaurantes, prestadores de serviços em geral – e pasmem: até pela prefeitura (em nomes de ruas), por publicitários, jornais.

Dom Quixote da gramática, Toninho não se dava descanso. Lia coisas assim nos anúncios classificados dos jornais e ficava indignado: baile "beneficiente"; faça "seu" óculos na ótica tal; "aluga-se" dois galpões. Ex-jornalista, aposentado, telefonava para os encarregados dos pequenos anúncios:

– No meu tempo não era assim! Os responsáveis eram responsáveis, cuidavam da correção dos anúncios. O povo não sabe escrever, mas os jornais têm o dever – o dever! – de zelar pela língua!

No convívio diário, arrumava desafetos, humilhados e ofendidos, mas também alguns – os mais humildes – agradecidos pelo ensinamento. Quixoteava lições, fosse qual fosse o interlocutor:

– Não é "fluído" que se diz, é fluido, com a tônica no u. "Fluído" é verbo, é particípio verbal, não pode ser uma coisa. "Gratuíto" não existe, é gratuito que se diz, som mais forte no u. Homem não diz "obrigada", isso é coisa de menino criado entre mulheres; menino fala "obrigado". "Emprestar dele" é promiscuidade brasileira aqui do Sul; o certo da língua é emprestar a alguém, ou tomar emprestado. Não é "o" alface, é a alface, feminino. Não existe isso, "inhoque", que coisa mais feia; o certo é nhoque, do italiano gnocchi. Grama, medida de peso, é masculino: "um" grama, "duzentos" gramas. Quilo se escreve com q, u, i, não existe quilo com k e muito menos com k, y: é comida a quilo e não "a kylo", como se lê na sua placa. Está na hora "do" parabéns é errado; parabéns é plural, como em meus parabéns.

– Peraí, Toninho, agora você exagerou. Hora do parabéns significa: hora de cantar o "Parabéns pra Você". Resumido.

Aceitou, mas resmungando. Bom, um dia desses, telefonaram-me de madrugada: Toninho havia sido preso como pichador de rua. Quê, um homem de 70 anos? Havia algum engano, com certeza. Fomos para a delegacia, uma trinca de amigos.

Engano havia e não havia. Nosso amigo fora realmente flagrado pela polícia com spray e latinha de tinta com pincel, atuando na fachada de uma casa comercial do bairro onde mora. Explicou-se: estava corrigindo os erros de português dos pichadores! Começamos os esforços para livrá-lo da multa e da denúncia, explicamos ao delegado que o ocorrido era fruto de uma mania dele, loucura leve. Por que penalizá-lo por coisa tão pouca? Não ia acontecer de novo.

Aí o delegado explicou qual era a bronca: o Toninho havia pedido para ler seu depoimento, datilografado pelo escrivão, e começou a apontar erros de português no texto do funcionário. A autoridade tinha a pretensão de ser também autoridade em gramática. Aí melou: "teje" preso por desacato.

Com dificuldade convencemos o escrivão da loucura mansa do nosso amigo, e ele liberou o herói da língua pátria.

VI) Caixinhas

Ninguém jamais ficou sabendo o que, exatamente, o Ramão fez para a

mulher, mas um dia ela começou a colecionar caixinhas. Nunca fora de

colecionar nada e, de repente, começou a juntar caixas, caixetas,

potezinhos, estojos. Em pouco tempo, tinha uma coleção considerável. O

próprio Ramão se interessou. Dizia:

- Mostre a sua coleção de caixas, Santinha.

E a Santinha mostrava para as visitas a sua coleção de caixas.

- Que beleza!

As caixas, caixinhas, caixetas, potes, potezinhos, estojos, baús

cobriam algumas mesas e várias estantes. Era realmente uma beleza. Mas,

estranhamente, a Santinha era a que menos se entusiasmava com a própria

coleção. Os outros a admiravam, ela não dizia nada. Ou então fornecia

alguma informação lacônica.

- Essa é chinesa.

Ou:


- É pedra-sabão.

Ninguém mais tinha problemas sobre o que dar para a Santinha no

seu aniversário ou no Natal. Caixas. E as amigas competiam, cada uma

querendo descobrir uma caixa mais exótica para a coleção de Santinha.

Uma caixinha tão pequenininha que só cabia uma ervilha. Um baú laqueado

que, supostamente, pertencera ao Conde D'Eu. Etc, etc. O Ramão também

contribuía. quando saía em uma de suas viagens, nunca deixava de trazer

uma caixinha para a Santinha. Que a Santinha aceitava, sem dizer uma

palavra, e acrescentava à sua coleção. E a coleção já cobria a casa

inteira.


Quando a polícia, alertada pelos vizinhos, entrou na casa, viu o

sangue, viu a Santinha sentada numa cadeira, muda, folheando a Amiga,

mas não viu o Ramão. Só o viu quando começou a abrir as caixinhas.

Havia um pouco do Ramão em cada caixinha. Até na que só cabia uma

ervilha tinha um ossinho. Um fêmur estava no baú do Conde. E a Jacira

ficou escandalizada quando soube que a cabeça do Ramão foi encontrada

numa caixa de chapéu antiga que ela tinha trazido para a Santinha de

Paris. Veja só, de Paris!

Ninguém desculpou a Santinha, mas o consenso geral era de que

alguma o Ramão tinha feito.



VII) Outra do analista de Bagé

O analista de Bagé se declara "freudiano de colá decalco" e "mais ortodoxo que Caximir Buquê", mas isto não o impede de experimentar com novas formas de terapia. Como no caso da mulher do compadre Salustiano. Contam que um dia o compadre Salustiano entrou no consultório, segundo o analista de Bagé, como mata-mosquito em convento. Causando alvoroço. eles há tempo não se viam.

- Guasca velho!

- Cachorrão!

- Índio bem loco!

- Seu bosta!

- Animal!

- Desgraçado!

E se atiraram um nos braços do outro, com tanta força que a Lindaura veio ver se não tinha móvel quebrado. Depois o analista de Bagé mandou o amigo se deitar no divã e desembuchar, que era de graça.

O Salustiano reagiu.

- Epa. Tá me estranhando, compadre? O problema é com a Rosa Flor.

- O que tem?

- A Rosa Flor quer ir pro Rio.

- Ir embora do Rio Grande? Mas enloqueceu.

- Pos é. Diz que não aguenta mais vê campo. Quer ver o mar.

- Mas ela não sabe que mar é igual a campo, com a desvantagem que afunda?

- Sabe, mas não adianta. Aquela, quando decide ir pra um lugar, é como cachorro de cego, só matando.

- Escuta aqui, tchê. Tu desse um trancaço nela?

- Dei trancaço, dei laço, cheguei até a pedi. Foi como mijá em incêndio.

- Côsa, seu. Tu sabe que mulher que vai pro Rio, já desce na rodoviária falada.

- E não sei?

- Me manda ela aqui.

A Rosa Flor, a princípio, não quis dizer nada. Ia para o Rio e pronto. O analista de Bagé abriu um volume do Freud para consulta. Era ali que guardava, numa folha de caderno de armazém, escritas a toco, as máximas do velho Adão, seu pai. Encontrou um precedente: "Pra amarrar cavalo no campo e mulher em casa, só carece de um pau firme.". Deitada no pelego a Rosa Flor confirmou com a cabeça quando o analista perguntou, sutilmente, se o compadre não passava mais a linguiça na farinheira. Era verdade.

O analista botou uma mão na cabeça. Aquilo era a pior coisa que pode acontecer com um gaúcho, fora cair do cavalo ou a filha casar com nordestino. Com a outra mão, começou a desabotoar a braguilha. Fazia qualquer coisa por um amigo.

Ficou combinado que a Rosa Flor teria sessões duas vezes por semana e desistiria daquela história de ir para o Rio. O compadre

Salustiano podia ficar descansado. A honra da Rosa Flor estava salva.



VIII) JÁ NÃO SE FAZEM PAIS COMO ANTIGAMENTE - LOURENÇO DIAFÉRIA
A grande caixa foi descarregada do caminhão com cuidado. De um lado estava escrito assim: "Frágil". Do outro lado estava escrito: "Este lado para cima". Parecia embalagem de geladeira, e o garoto pensou que fosse mesmo uma geladeira. Foi colocada na sala, onde permaneceu o dia inteiro.

À noitinha a mãe chegou, viu a caixa, mostrou-se satisfeita, dando a impressão de que já esperava a entrega do volume.

O menino quis saber o que era, se podia abrir. A mãe pediu paciência. No dia seguinte viriam os técnicos para instalar o aparelho. - O equipamento, corrigiu ela, meio sem graça.

Era um equipamento. Não fosse tão largo e alto, podia-se imaginar um conjunto de som, talvez um sintetizador.

A curiosidade aumentava. À noite o menino sonhou com a caixa fechada.

Os técnicos chegaram cedo, de macacão. Eram dois. Desparafusaram as madeiras, juntaram as peças brilhantes umas às outras, em meia hora instalaram o boneco, que não era maior do que um homem de mediana estatura. O filho espiava pela fresta da porta, tenso.

A mãe o chamou:

- Filhinho, vem ver o papai que a mamãe trouxe.

O filho entrou na sala, acanhado diante do artefato estranho: era um boneco, perfeitamente igual a um homem adulto. Tinha cabelos encaracolados, encanecidos nas têmporas, usava trim, desodorante, fazia a barba com gilete ou aparelho elétrico, sorria, fumava cigarros king-size, bebia uísque, roncava, assobiava, tossia, piscava os olhos - às vezes um de cada vez – assoava o nariz, abotoava o paletó, jogava tênis, dirigia carro, lavava pratos, limpava a casa, tirava o pó dos móveis, fazia estrogonofe, acendia a churrasqueira, lavava o quintal, estendia roupa, passava a ferro, engomava camisas, e dentro do peito tinha um disco que repetia: “Já fez a lição?”. “Como vai, meu bem? Ah, estou tão cansado!”. “Puxa, hoje tive um trabalhão dos diabos!”. “Acho que vou ficar até mais tarde no escritório”. “Você precisava ver o bode que deu hoje lá na firma!”. “Serviço de dona-de-casa nunca é reconhecido!”. “Meu bem, hoje não!...”.

O menino estava boquiaberto. Fazia tempo que sentia falta do pai, o qual havia dado no pé. Nunca se queixara, porém percebia que a mãe também necessitava de um companheiro. E ali estava agora o boneco, com botões, painéis embutidos, registros, totalmente transistorizado. O menino entendia agora por que a mãe trabalhara o tempo todo, muitas vezes chegando bem tarde. Juntara economias, sabe lá com que sacrifícios, para comprar aquele paizão.

- Ele conta histórias, mãe?

Os técnicos olharam o garoto com indiferença.

- Esse é o modelo ZYR-14, mais indicado para atividades domésticas. Não conta histórias. Mas assiste televisão. E pode ser acoplado a um dispositivo opcional, que permite longas caminhadas a campos de futebol. Sabendo manejá-lo, sem forçar, tem garantia para suportar crianças até seis anos. Porém não conta histórias, e não convém insistir, pode desgastar o circuito do monitor.

O garoto se decepcionou um pouco, sem demonstrar isso à mãe, que parecia encantada.

O equipamento paterno, ligado à tomada elétrica (funcionava também com bateria), já havia colocado os chinelos e, sem dizer uma palavra, foi até à mesa e apanhou o jornal.

A mãe puxou o filho pelo braço:

- Agora vem, filhinho. Vamos lá para dentro, deixa teu pai descansar.



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