Livro-reportagem: amealhando



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II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho

Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004



GT História das Mídia Impressa
Coordenação: Prof. Luís Guilherme Tavares (NEHIB)

Livro-reportagem: amealhando

experiências para contar uma história

Gabriela Weber de Morais

Repórter do Jornal de Santa Catarina, bacharel em Comunicação Social



  • Habilitação Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria

Resumo

Recuperar a história e o conceito de livro-reportagem é buscar, antes de tudo, as origens da própria reportagem. Uma aventura deveras edificante se considerarmos a necessidade de renovação vivida hoje pela mídia impressa brasileira.

Contudo, para propor abordagens diferenciadas através do livro-reportagem, é preciso olhar para trás a fim de extrair o maior aprendizado possível com experiências de outrora. Rever episódios significativos para a reportagem no Brasil e no mundo, avaliando certas iniciativas, permite, por um lado, evitar repetição de falhas e, por outro, acumular inspiração para novas idéias. É com este objetivo que o presente trabalho pretende retomar alguns momentos da história, tanto da reportagem, quanto do livro-reportagem, como também, expor contribuições que este veículo tem trazido para a mídia impressa do país.
Palavras-chave: livro-reportagem, reportagem, história

1. Trilhando o caminho da reportagem
Antes mesmo de a reportagem aparecer como novo gênero jornalístico na década de 20, no Brasil já era conhecida uma espécie de produto intermediário entre o jornalismo e a literatura. Isto porque em 1897, como correspondente do jornal Estado de São Paulo, Euclides da Cunha retratara o cenário da Guerra de Canudos em suas crônicas enviadas ao periódico. Uma coletânea que deu origem ao livro Os Sertões, publicado em 1902.

O difícil enquadramento de Os Sertões em algum gênero literário específico, não é tão relevante. O que interessa realmente é que ele foi um ícone na história do pensamento brasileiro e também, do livro-reportagem.


Não importa muito, do ponto de vista da observação de um processo no tempo histórico, que Os Sertões não sejam um livro-reportagem no sentido estrito do termo. Importa que tenha exibido algumas importantes possibilidades do tratamento jornalístico. Importa que, por analogia de raciocínio, tenha estado para o futuro desenvolvimento do livro-reportagem no Brasil assim como, digamos, Por quem os sinos dobram, tenha estado como estímulo para o jornalismo literário americano dos anos 40 ou 50. (LIMA,1995, p.163)
1.1. João do Rio pinta o cotidiano da cidade maravilhosa

Alguns anos após o lançamento de Os Sertões, surgiu no Rio de Janeiro um formato urbano do que seria chamado mais tarde de reportagem. Foi através das palavras do jornalista João Paulo Alberto Coelho Barreto, mais conhecido pelo seu pseudônimo João do Rio, que as transformações urbanas da capital entre 1900 e 1920 ganharam vida. João do Rio merece destaque na história da imprensa brasileira, principalmente, por ter sido pioneiro em explorar uma nova forma de coletar de informações. Ele não somente costumava entrevistar as fontes, como também se dedicava a uma observação minuciosa da realidade. Duas novas técnicas que seriam amplamente utilizadas no jornalismo interpretativo no país a partir da década de 60.

Nas crônicas jornalísticas de João do Rio já existiam as sementes da grande reportagem, seja através das técnicas de captação ou na maneira de abordar o conteúdo.

A ampliação das informações imediatas (notícias) já se encontra nos três rumos hoje consagrados: o rumo da humanização ("Um mendigo original"), que individualiza um fato social por meio de um perfil representativo; o rumo da ampliação do fato imediato no seu contexto (a maior parte de suas reportagens sobre problemas sociais da época; embora a necessidade de opinar de vez em quando ou até freqüentemente, as matérias permanecem como reportagens mais do que como artigos opinativos, com juízo de valor); e o rumo da reconstituição histórica. Nesta última categoria de jornalismo interpretativo, o autor só toca de leve – são passagens curtas das reportagens, onde a erudição de bolso oferece alguns subsídios para completar a informação presente no seu lastro histórico. O fato significativo como método de trabalho é que João do Rio não se satisfaz com a notícia imediata, o telegrama esqueleticamente informativo. Lança-se na reportagem que pretende mais, vale-se da enquete para ampliar as possibilidades informativas." (MEDINA, 1988, p.62).



1.3. Depois do primeiro impulso, a estagnação.

Após os primeiros vinte anos do século XX em que as modernizações significativas na então capital federal (Rio de Janeiro) foram expressas por João do Rio, a história da reportagem no Brasil passou por um período de pouca evolução. Ela voltaria a renovar-se significativamente somente após a Segunda Guerra. Lima (1995) considera duas hipóteses como causa desse período de poucos avanços. A primeira seria o surgimento de um brilhante realismo social através das obras do romance de 30, que alcançara excelência com escritores como Graciliano Ramos. A segunda hipótese, que não exclui a primeira, seria a repressão imposta pelo regime do Estado Novo, por meio de uma censura rigorosa capaz de inibir qualquer manifestação de uma imprensa questionadora. hipótese também compartilhada por Cremilda Medina.

O Estado Novo, que se implantava no país na segunda metade dos anos trinta, trazia consigo a total decadência do jornalismo de militância política (mensagem opinativa). A censura, exercida e controlada pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, criado em 1937, cerceava a voz da imprensa impedindo-a de manifestar-se livremente. Por outro lado, o governo usava o próprio jornalismo como instrumento de controle, financiando novos veículos e corrompendo jornalistas. (MEDINA, 1988, p.64).

1.4. Anos dourados de O Cruzeiro

O fim do Estado Novo após a Segunda Guerra Mundial permitiu que a imprensa passasse por um processo de desenvolvimento tecnológico acelerado. O que garantiu não só uma expansão dos recursos gráficos, mas também da própria reportagem.

Foi, portanto, na década de 50 que a primeira revista semanal brasileira – O Cruzeiro –, criada em 1928, atingiu seu auge. Apesar de merecer destaque como o primeiro periódico a dedicar atenção especial ao gênero da reportagem no país, a revista O Cruzeiro possui uma história bastante questionável em relação aos seus princípios éticos.

Como Accioly Neto, diretor de redação da revista por mais de 40 anos, demonstra em seu livro de memórias sobre a revista, a primeira dupla de repórteres que se formou no Brasil não parecia ter muita preocupação com a veracidade do que era retratado. Neto (1999, p.109). relata que, "esses dois personagens extraordinários, Manzon e Nasser, formaram, como já disse, em O Cruzeiro uma dupla de grande fama, cuja filosofia podia ser resumida na seguinte frase: a verdade fica mais verdadeira quando exposta com uma razoável dose de fantasia"

Mesmo apresentando certa superficialidade na linha editorial que se preocupava mais com as figuras em destaque na época, do que com a realidade da população, a revista O Cruzeiro merece ser reconhecida como um marco na história da reportagem brasileira. Pois abriu um espaço até então inédito para a grande reportagem, além de ter atingido a tiragem de 850.000 exemplares nos anos 50, quando a população do Brasil na passava de 50 milhões. Sem falar de nomes como Ziraldo e Millôr Fernandes, que também tiveram passagem pela revista. Enfim, uma publicação que viu seus anos dourados e sucumbiu definitivamente na década de 70.

1.5. Experimentando o real

Num ambiente de rápidas mudanças políticas e de amadurecimento da atividade jornalística no país é que se constituiu o veículo classificado por Edvaldo Pereira Lima como a "mais significativa experiência estilística" vivida pelo jornalismo brasileiro, ou seja, a revista Realidade. Uma publicação mensal lançada em novembro de 1965 como a primeira revista de informação geral publicada pelo Grupo Abril.

O Brasil acabara de sair há pouco dos '50 anos em 5 de Juscelino', tínhamos a nova Capital Federal em Brasília, a indústria automobilística já se implantara, o surto desenvolvimentista caminhava para o Centro-Oeste, a juventude optava por novas expressões artísticas na Bossa Nova, no Cinema Novo, na música popular brasileira, no tropicalismo e, menos sofisticadamente, na Jovem Guarda de Roberto Carlos. Fora, o mundo agitava-se com a continuidade da Guerra Fria, a corrida espacial, a rebelião hippie, as novas propostas de liberação sexual. E a nova audiência em constituição no Brasil queria compreender o país em mudança, os novos tempos, o planeta. (LIMA, 1995, p.168).

A revista Realidade veio para ocupar o espaço deixado pela decadência de O Cruzeiro de Chateaubriand e pela falta de um texto contundente de sua maior, a Manchete de Adolpho Block. Mas a Realidade não tomou este espaço reproduzindo o modo de reportar das outras revistas até então existentes. Ao contrário, ela inovou e imprimindo características que até hoje inspiram repórteres no Brasil.

A universalidade temática é uma delas. Ao invés de se limitar aos personagens em destaque na mídia, como fazia freqüentemente O Cruzeiro, Realidade atribuía maior importância aos anônimos esquecidos no meio da multidão. Da mesma forma, proporcionava a seus repórteres liberdade para a escolha da pauta, sempre demonstrando preocupação em não reportar somente o factual. Com isso, Realidade procurava sempre fornecer um panorama contextualizado da contemporaneidade.

Outro aspecto importante é o avanço que a revista Realidade conquista no que se refere à documentação. Pois embora o embasamento documental de suas matérias fosse muito desigual, chegando até mesmo a apresentar falta de visão multiangular e criticidade em algumas delas, ele era exemplar nas matérias de jornalismo científico, pesquisas de opinião e edições especiais. O uso de novas técnicas de captação era uma outra característica marcante da revista, que freqüentemente usava-se a observação participante, permitindo, assim, a imersão total de fotógrafos e repórteres no cotidiano de seus personagens. Seguindo os passos dos "novos jornalistas", eles também bebiam nas fontes do realismo social para buscar o material para suas reportagens.

Mesmo não tenha atingido o nível de experimentalismo alcançado pelo New Journalism, a revista Realidade representou o ápice da liberdade estética na história do jornalismo brasileiro. Até mesmo a falta de unidade de estilo contribuía para que cada profissional pudesse explorar sua expressão pessoal mais adequada a cada circunstância como constata Lima (1995, p.173), "por isso o texto literário valia. O texto onde cada profissional testava a sua força de expressão. Onde cada um manipulava como lhe aprouvesse os elementos da artesania literária emprestados à escritura do real contemporâneo.".

Apesar de ter estreado tantos elementos que influenciam até hoje os rumos da reportagem no Brasil, a revista não conseguiu superar algumas lacunas e por isso não chegou a ocupar o espaço jornalístico específico em que o livro-reportagem pode atuar. Essas lacunas revelam-se principalmente em dois aspectos. O primeiro seria a dificuldade de realizar uma abordagem aprofundada de um único tema. A não ser nas edições especiais que traziam todas as matérias sobre o mesmo assunto, porém com enfoques diferentes. E a segunda seria derivada do formato reportagem-conto – adotado pela revista –, pois ele nem sempre é capaz de preencher todas as necessidades que o leitor tem para entender um assunto. Em outras palavras, por particularizar demais, quase sempre relegava o contexto geral essencial ao jornalismo interpretativo. Mesmo que tenha havido falhas, não se pode deixar de reconhecer a contribuição do veículo para a evolução da reportagem no Brasil, como bem coloca Edvaldo Pereira Lima.

"Evidentemente não se trata de negar o papel importante de uma publicação desta natureza. Tem a sua função: ocupa um patamar superior aos periódicos convencionais. E por seu caráter tanto mais extensivo no plano do aprofundamento de abordagem quanto mais refinado no plano da proposta estética, contribui para que a audiência se acostume a produções jornalísticas nessa linha, fazendo com que uma parcela se interesse em consumir livros-reportagem que ofereçam uma modalidade de informação mais densa. Ao mesmo tempo, modelos como Realidade produzem o efeito benéfico de aperfeiçoar o domínio instrumental dos jornalistas que queiram explorar o vôo de altitude elevada do livro-reportagem." (LIMA, 1995, p.176).

Outra contribuição importante para o aperfeiçoamento da reportagem no Brasil veio em 1966 com a criação do Jornal da Tarde. Um veículo que tinha inicialmente a proposta de abordar como tema principal a cidade de São Paulo. Entre suas características mais significativas estavam a criatividade da linguagem plástica e do texto literário e a tendência para priorizar o jornalismo interpretativo. Infelizmente o patamar de qualidade inicial não foi mantido com o decorrer do tempo, chegando até mesmo em alguns episódios a apresentar certa tendenciosidade como aconteceu nas eleições presidenciais de 1989, conforme Lima relata em seu livro Páginas Ampliadas.



2. Definindo o que é o livro-reportagem
A imprensa periódica, nem sempre tem cumprido seu papel quando o objetivo é proporcionar ao leitor um jornalismo interpretativo abrangente, capaz de oferecer um panorama significativo da contemporaneidade. Na maioria das redações brasileiras, principalmente em jornais menores, pouca atenção é dispensada à pesquisa mais detalhada de pauta. Muito se fala sobre o factual, mas na maioria das vezes se esquece de analisar as causas e as possíveis conseqüências do acontecimento reportado. É, de fato, extremamente difícil encontrar uma matéria que ofereça uma abordagem diferenciada do fato, que transborde as fronteiras do imediato e ofereça uma compreensão mais apurada do contemporâneo. Edvaldo Pereira Lima em seu livro Páginas Ampliadas identifica a pasteurização da matéria informativa na mídia atual e revela por que o livro-reportagem possui as condições de interpretar a contemporaneidade.
Detectar esses conflitos, circunscrever seu sentido, antecipá-los no tempo, buscar suas raízes na interação sistêmica estrangulada são tarefas nobres da reportagem que se proponha a ultrapassar a epiderme rasa dos fatos e penetrar no âmago das questões contundentes do nosso tempo, para proporcionar um conhecimento qualitativo da realidade ao homem contemporâneo. Essa missão escapa muitas vezes ao jornalismo cotidiano e ganha cada vez mais guarida no livro-reportagem. (LIMA, 1995, p.68)
Um exemplo bastante simples e recorrente da falta de criatividade da imprensa atual é o tratamento dado às datas comemorativas. O dia dos namorados, por exemplo, é reportado quase sempre do mesmo jeito, independente do veículo. Todo ano, a mídia apresenta as mesmas histórias, só mudam as personagens. É o amor em qualquer idade, da mais tenra à velhice ou então a história de um casal de namorados que se reencontrou depois de 30 anos. Dificilmente, no entanto, um veículo se propõe a investigar com seriedade a coincidência dessa data e de outras como o dia das mães, o dia dos pais e o dia das crianças estarem todas dispostas no início do mês e, ainda por cima, relativamente bem distribuída ao longo do ano. Seria uma questão mercadológica? Caso seja, quando surgiu e por quem foi inventada? Ou então poderia fazer-se uma análise da individualidade presente na sociedade contemporânea e sua relação com a durabilidade das relações amorosas nos dias atuais. Enfim, uma infinidade de diferentes enfoques que provocassem o questionamento dos leitores.

Porém, notamos uma certa resistência, por vezes até mesmo involuntária, da imprensa periódica em abordar assuntos desconcertantes, que questionem valores e costumes tradicionais. A razão disto talvez seja o medo de perder leitores, ou então, conseqüência das pressões impostas pela produção em ritmo industrial do conteúdo informativo. Não obstante, é preciso apontar casos raros de jornalismo interpretativo de qualidade na mídia periódica, como revela Lima (1995, p.68) "não é intenção nossa desmerecer a excelência de exemplos isolados da grande-reportagem, na imprensa regular, que contribui para o conhecimento da contemporaneidade. Mas é objetivo apontar as limitações conjunturais ao próprio fazer do jornalismo convencional, pelo menos no caso brasileiro, que dificultam sobremaneira o acesso a esse patamar de qualidade".

Em suas definições sobre a função e as características do livro-reportagem, Lima (1995) assinala que a principal virtude do livro-reportagem é a sua capacidade para preencher as lacunas deixadas habitualmente pela cobertura jornalística na sua abordagem do real. Segundo o autor, essa virtude vem sendo alcançada por duas razões. A primeira seria por uma perspicácia superior na abordagem da realidade em termos de pauta. E a segunda, uma conseqüência da diversidade, posto que a falta de preconceitos em relação à escolha da pauta gera uma flexibilidade maior nas etapas posteriores. Assim, sem deixar de lado os preceitos fundamentais do jornalismo, o livro-reportagem amplia sobremaneira a função comunicativa desta atividade.

Mas de que recurso se vale o livro-reportagem para conseguir preencher os espaços deixados pelo jornalismo cotidiano? Edvaldo Pereira Lima acredita que por não estar atrelado à rotina industrial dos veículos periódicos, o livro-reportagem tem, portanto, a possibilidade de experimentar novas formas de captação sem ser premido pelo tempo. O que segundo o autor, o torna "liberto da objetividade reducionista e puramente tecnicista que habitualmente impera na imprensa regular". (1995, p.84). Logo, na elaboração do livro-reportagem, o jornalista fica à vontade para experimentar diferentes procedimentos de captação da realidade, os quais podem ser a observação participante, a história oral ou qualquer outro que exija mais tempo do que a imprensa periódica esteja interessada em dispensar para cobrir um assunto.


2.1. O difícil caminho até o reconhecimento

Como já foi observado no capítulo anterior, Os Sertões, mesmo não podendo ser classificado em uma categoria literária exata, delineou os primeiros traços do caminho que o livro-reportagem viria a percorrer anos mais tarde. Mas não foi apenas no Brasil que o livro-reportagem começava a dar seus os primeiros passos. No hemisfério norte escritores como Dickens, Mark Twain, George Orwell usavam artifícios do realismo social em suas peças literárias que contribuíram enormemente para aproximar o jornalismo da literatura e, conseqüentemente, a reportagem do livro. Um marco dessa trajetória foi o lançamento em 1919 de Dez dias que abalaram o mundo, um relato minucioso do jornalista americano John Reed sobre a Revolução Russa, considerado por muitos como o primeiro livro-reportagem.

Infelizmente o contexto social da primeira metade do século XX, não era muito animador para o desenvolvimento do livro-reportagem. Nessa época, o jornalismo ainda era visto como atividade marginal, enquanto que a literatura de ficção era tida como nobre. Tal disparidade fazia com que escritores de grande potencial com Hemingway fizessem uso da primeira apenas como forma de aperfeiçoar suas habilidades narrativas, para então, se dedicar inteiramente a segunda como coloca Edvaldo Pereira Lima.
"Se de um lado Hemingway contribuiu em alguma medida para a renovação estilística da reportagem, de outro parece-nos evidente que a sua atividade jornalística jamais foi um fim em si mesmo, e sim, sempre um meio para alavancar sua produção primordial, que era a literatura de ficção. Mesmo que, hipoteticamente, desejasse se dedicar integralmente ao jornalismo, é possível que não encontraria, nesse campo condições para se perpetuar tanto quanto conseguia na literatura. Contextualmente, no bojo dessa preferência residia o fato de o jornalismo permanecer como espaço marginal da atividade moderna da escrita. O reconhecimento artístico continuava reservado à prosa e à poesia de ficção, talvez ao ensaio. Em ebulição, porém, o jornalismo teria ainda de reelaborar e projetar, para níveis superiores, sua contínua interação simbólica com a arte literária". (LIMA, 1995, p.146).
O valor atribuído ao livro-reportagem começou a ser alterado a partir do fim da Segunda Guerra, quando surgem reportagens como Hiroshima de John Hersey, publicada originalmente em 1946 ocupando uma edição inteira da revista The New Yorker,e mais tarde sendo editada como livro-reportagem. Além disso, o próprio quadro de alienação em que os escritores norte-americanos de ficção do pós-segunda guerra se inseriram contribuiu significativamente para o reconhecimento do livro-reportagem. Uma vez que estes escritores de ficção, principalmente a partir da década de 50, mostravam-se claramente contaminados pelo prospecto de sucesso prometido pelo american way of life como relata a professora de literatura da Universidade da Flórida, Kathryn Vanspanckeren (1994, p.98) "a maioria desses trabalhos sustentavam a suposição dos anos 50 de que todos americanos tinham um estilo de vida igual ".

Tal alienação tornou-se evidente no início dos anos 60 quando a sociedade americana começou a viver um período de grandes transformações sociais. É neste contexto que surgem movimentos como o do feminismo e o da luta pelos direitos civis liderado por Martin Luter King, e até mesmo contra a guerra do Vietnã. Mesmo presenciando toda essa ebulição social, os ficcionistas americanos da época optam por permanecerem em suas abstrações ao invés de refletir em suas obras os questionamentos e transformações que estavam em curso na sociedade.


2.2. Nasce o "novo jornalismo"

Percebendo a existência do espaço vazio deixado pelos escritores de ficção da época, os jornalistas americanos dos anos 60 começam a penetrar na realidade social para contar o que estava acontecendo no país. Começam pelos features (matérias frias) nos jornais diários, passando então para as edições dominicais dos mesmos, crescendo até atingir as revistas independentes como a The New Yorker e Esquire para finalmente desdobrarem seus talentos sobre o veículo mais adequado para renovação estilística proposta por estes representantes do New Journalism, ou seja, o livro-reportagem.

E assim em 1966, o jornalista e escritor Truman Capote publica a primeira grande obra do New Journalism em formato de livro-reportagem: A sangue frio. O livro, resultado de uma investigação de vários meses do autor sobre a chacina de uma família, já nasceu um clássico. Da mesma geração de Capote, pode-se destacar ainda jornalistas como Tom Wolfe, autor de O teste do ácido do refresco elétrico, Norman Mailer, Gay Talese, entre outros autores que também contribuíram de forma significativa para o reconhecimento do livro-reportagem.
2.3. Caminhos do livro-reportagem no Brasil

No Brasil, a difusão do livro-reportagem começou a ser impulsionada, principalmente, a partir da década de 70, época em que obras, como A ilha de Fernando Morais, conquistam um grande número de leitores. O fim do da ditadura no início dos anos 80, propiciou que grandes jornalistas também fizessem um relato fiel daquilo que presenciaram nos anteriores. Alguns exemplos bem sucedidos dessa linha de livros-reportagem são 1968 – o ano que não acabou de Zuenir Ventura e mais recentemente os dois primeiros volumes da série Ilusões Armadas de Elio Gaspari, os três bastante consistentes no aspecto da documentação.

Embora haja outros renomados jornalistas como, por exemplo, Gilberto Dimenstein, Caco Barcellos, Ricardo Kotscho e Ruy Castro se dedicando a produção de livros-reportagem de excelente qualidade, este veículo ainda precisa amadurecer bastante no nosso país. Segundo Lima (1995), já existe uma grande quantidade de exemplares publicados, porém nem todos conseguem ser ao mesmo tempo rigorosos na apuração e diversificados na temática. O que de acordo com o autor, demonstra a necessidade de se ampliarem os estudos sobre o tema.

CONCLUSÃO

Ainda existe um longo caminho a percorrer para que a história do livro-reportagem ganhe contornos mais fortes no Brasil. Mas aos poucos, livros-reportagem vão ganhando espaço e destaque nas livrarias. E quem sabe um dia, assim como a história da reportagem começa no século XX amplamente influenciada pelo realismo social, também o livro-reportagem possa estimular a descoberta de novos caminhos na literatura de ficção no século XXI. Gabriel García Marquez sempre ressalta que o jornalismo foi fundamental para depurar suas habilidades literárias. Segundo ele, a atividade jornalística despertou o senso de precisão do qual a narrativa descritiva tanto se utiliza.

Desta forma, é possível que ambos cumprindo destinos distintos consigam formar mais leitores. Bibliófilos e ao mesmo tempo amantes do bom jornalismo. Daquele jornalismo que interpreta, que investiga, que acorda os olhos para uma nova realidade, para um diferente ângulo de visão. Enfim um jornalismo ciente de sua história, de seu valor e de seu compromisso em formar cidadãos críticos e responsáveis. Afinal é amealhando experiências passadas que se compreende melhor o presente e se projeta o futuro.

Bibliografia

LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas Ampliadas. São Paulo, Unicamp, 1995.


MEDINA, Cremilda. Notícia ― um produto à venda: jornalismo na sociedade urbana e industrial. 3a ed. São Paulo, Summus, 1993.
VANSPANCKEREN, Kathryn. Outline of american literature. Washington, United States Department of State, 1994



 Livro de Hernest Hemingway




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