Livro catálogo : I leilão granito



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GRANITO ►

PAIXÃO E SENSIBILIDADE

Uma Compromisso com o Cavalo Mangalarga Marchador


I- Prólogo:

... Introdução: Paulo Miranda - De Diplomata a Impossível

... Apresentação da Obra: Ricardo L. Casiuch- Um trabalho de seleção.

... Granito: Uma definição.
II - 1630 / 1946: Três Séculos de Criação e o Arco da História
... Origens da Invasão Holandesa no Nordeste

... A Família Wan Der Ley em Pernambuco

... O Ciclo da Cana de Açúcar e os Escravos

... A Abolição e o Barão do Granito

... A Transferência para a Bahia: a Nova Fazenda do Granito

III - 1946 / 1972 : O Jovem Criador Wanderley


... As Primeiras Lições Paternas

... A Mudança para o Sertão de Minas Gerais - Nanuque

... Os Animais de Fundação e os Primeiros Grandes Campeonatos da Raça: DIPLOMATA e MOCAMBO AZAGAIA
IV - 1972 / 1997: A Maturidade no Cavalo Mangalarga Marchador
... A) REPRODUTORES DO GRANITO:

A SUCESSÃO DE GERAÇÕES

. ABAÍBA REMO - A Pedra-Mestra

. ARUBÉ BELA CRUZ - Raízes de Grandes Linhagens

. LUNDU DO GRANITO - A Volta às Origens

. CAFUNDÓ OPALA - Um Toque de Refinamento

. NOVOS SEMENTAIS: SAMA CARISMA, CAFUNDÓ DOMINÓ, CRAVO DO GRANITO. SÂNDALO DO GRANITO, TIMBÉ DO GRANITO

. IMPOSSÍVEL A.J.- O Reprodutor Certo na Geração Exata


... B) MATRIZES-PILARES:

UM PLANTEL EM CONSTANTE EVOLUÇÃO


. AZAGAIA . JANGADA

. FAVELA . LUZAKA

. KIZUMBA . ONDA

. NEGA-MALUCA . RAPADURA

. LANÇA . OLINDA

. JAVA . FRANCESA

. EMA . RÔLA

. ROLETA . QUATIARA

. NEVE . SENZALA

. SAMARA . VIÇOSA

. PAQUETÁ . MARÍLIA
... C) GRANITO:
UMA PÁGINA INDELÉVEL NA RAÇA MANGALARGA MARCHADOR
. REPRODUTORES FORMADOS:

NOSSAS ÁRVORES EM OUTROS CAMPOS DE CRIAÇÃO


. MAKTUB .RARO

. VERANEIO .CAMBARÁ

. VULCÃO .ÚNICO

. PANDEIRO .QUENTÃO

. RECIFE .SERTÃO

. TIMBÉ .POSSANTE

. SÂNDALO .GIBI

. URANO .LEME

. RÁDIO .SONHADO
. CAMPEÕES NACIONAIS: UMA TRAJETÓRIA DE VITÓRIAS (1965-1996)
. LIVROS DE MÉRITO: O ÁPICE DE TODA RAÇA
... D) TESTEMUNHOS DE UMA ZOOTECNIA EM EVOLUÇÃO:

. depoimentos sumarizados


V) A PALAVRA DE LÚCIO WANDERLEY:



MINHA VISÃO PARA O SÉCULO XXI”
. O Cavalo Mangalarga Marchador: ‘O Meu Ideal’

. O Andamento: ‘A Minha Sensibilidade’

. A Forma de Criar: ‘Nutrição e Manejo’

. As Pistas de Julgamento: ‘Erros, Acertos e Sugestões’

. Reprodutores: ‘Como Selecioná-los’

. Matrizes: ‘O Berço de Tudo’

. Peões e Tratadores: ‘O Suor Diário’

. Meus Mestres: ‘Um Reconhecimento’

. Minha Família: ‘Um Agradecimento’

GRANITO - PAIXÃO E SENSIBILIDADE


Um Compromisso com o Cavalo Mangalarga Marchador”
Lúcio Flávio S.B. Wanderley

Ricardo L. Casiuch



A todos aqueles que um dia perceberam o que é ser Cavalo.



  1. PRÓLOGO

... Introdução : Paulo Miranda – Âncora Adminstração e Promoções Ltda.




“De Diplomata a Impossível, a Evolução do Granito

Às vésperas de comemorar 40 anos de criação e seleção, o Haras Granito, sob a batuta de Lúcio Wanderley, continua com o mesmo espírito de sua fundação. Dinâmico, criterioso, seletivo, pioneiro, moderno, persistente e sensato. Nenhum empreendimento pode existir por tão longa data, se estes ingredientes não forem bem dosados e administrados.


A visão do titular do ‘Granito’ proporcionou, aos demais criadores, a introdução definitiva de uma linha de conduta dos trabalhos por eles realizados. Os critérios de desenvolvimento de Lúcio Wanderley serviram de base para toda a raça. Definir um cavalo para produção da primeira geração e buscar incessantemente um outro reprodutor que desse continuidade à seleção iniciada. Foi assim que tudo começou, através de Diplomata, seu primeiro Grande Campeão Nacional.
Ainda comemorando os bons resultados, surge Abaíba Remo, que solidificou de vez o criatório ‘Granito’, projetando-o como um dos mais respeitados centros de criação de Mangalarga Marchador. Mas os campeonatos obtidos por Remo e seus inúmeros filhos não eram suficientes para o criador. Ele precisava continuar a eterna busca da evolução zootécnica. Brilha mais uma vez a estrêla de Nanuque, que encontrou em Arubé Bela Cruz o parceiro ideal para acasalar com as filhas de Remo e netas de Diplomata.
Foi um casamento perfeito! Dezenas de produtos campeões, milhares de amizades conquistadas e a consagração definitiva. O título de ‘Melhor Criador e Expositor’ na Exposição Nacional de 1983 não deixa dúvida quanto a competência de Lúcio Wanderley para produzir verdadeiras ‘poções mágicas’ em suas alquimias.
Mesmo assim, era necessário criar novas alternativas para que a estrêla não se apagasse. Entra em cena Lundu do Granito. Mais um Campeão Nacional a serviço de seu proprietário. Com uma prole respeitada e valorizada, principalmente nos dias atuais, este garanhão foi a montaria preferida de Lúcio Wanderely quando ele ainda se encontrava no leste mineiro. Aqui começamos a entender porque os animais ‘Granito’ possuem um tipo para sela tão agradável. Um bom cavalo, acasalado com excelentes e evoluídas matrizes, selecionadas pela capacidade de trabalho, esportividade e o principal: testados pessoalmente por seu criador.
O tempo não pára... Lúcio Wanderley, sabendo disso, continua a procurar novos animais para defender seu criatório. Nesta busca, aparecem de forma mais marcante: Cafundó Dominó, Sama Carisma, Angahy Miron, Cravo do Granito e finalmente, Impossível A.J.
Que belo cavalo! O título de Campeão Nacional é pouco para ele. Ser considerado, indiscutivelmente, um dos melhores filhos de Abaíba Gim, o principal reforço do ‘Granito’ nos últimos 15 anos e o responsável direto pelo brilho nos olhos de Lúcio Wanderley ao ter plena convicção de que Impossível poderá ser comparado a Remo e o manterá, através de sua progênie entre os principais criatórios do país, descrevem melhor o excelente tordilho.
Toda esta narrativa poderá se materializar entre os amigos, criadores, companheiros, aficcionados e admiradores do Mangalarga Marchador, no IIo. Leilão Granito. Se alguém duvida do que está escrito aqui, vá à Sociedade Hípica de Minas Gerais no dia 21 de Julho de 2000 e comprove que aquilo que foi dito é verdadeiro, porque Lúcio Wanderley é ’Gente que Faz’.

...Apresentação da Obra :


UM TRABALHO DE SELEÇÃO
Conheço Lúcio Wanderley desde a década de 70 quando despertei para o mundo do cavalo, particularmente o da Raça Mangalarga Marchador.

Sob o signo da Semana Nacional do Cavalo, sempre promovida pela Comissão Coordenadora da Criação do Cavalo Nacional (C.C.C.C.N.), órgão ligado inicialmente ao Ministério do Exército e, posteriormente, ao Ministério da Agricultura, habituei-me a ouvir nos auto-falantes dos Parques de Exposições de Goiânia, Belo Horizonte, São Paulo, Recife, Salvador e tantos outros, os nomes de José Sylvio Magalhães (‘Pica-Pau Amarelo’), José Geraldo Arêas (‘J.G.’), Antônio Ferreira Pitanguy (‘Barreirinho’), Elias Ferreira de Freitas (‘San Francisco’), Salomão Camargos (‘Serra’), Jorge Augusto de Oliveira (‘Amapá’), Aloysio de Andrade Faria (‘A.F.’) e muitos outros contemporâneos de pistas de julgamento do criador Lúcio Flávio Segundo de Barros Wanderley.

Em 1972, após ter alcançado como proprietário o fato inédito de levantar tanto o Grande Campeonato da Raça para Machos, com Diplomata, quanto o Grande Campeonato da Raça para Fêmeas, com Mocambo Azagaia, resolveu empreender uma nova direção à sua criação, e partiu célere em busca do refinamento e de predicados tão almejados.

Encontrou em Abaíba Remo e Arubé Bela Cruz as duas linhas de cruzamento que norteariam sua seleção: “Firme na Marcha e Forte na Raça”.

Ao longo destes 35 anos de contínuo e persistente respeito ao cavalo, pois o primeiro potro foi “Pioneiro do Granito” nascido em 29 de Setembro de 1962, muito se falou, discutiu e escreveu sobre o ‘Granito’ e suas crias.

Todavia, a par de sua evolução constante, devo reconhecer que há algo nesta tropa que me transporta ao verdadeiro Mangalarga Marchador: esta é a fusão elétrica entre a paixão flamenga e a sensibilidade nordestina que exala de seu criador.

Agora, na busca incessante do próximo reprodutor, Lúcio Wanderley projeta seu próprio sucesso no futuro do ventres do crepúsculo.

Para mim, testemunha que sou de inúmeras passagens da história recente do cavalo Mangalarga Marchador, é motivo de orgulho e prazer ser um dos autores deste relato verdadeiro que passamos aos novatos e, por que não dizer, também aos mais experientes criadores.

Que façam seu próprio julgamento sobre a criação ‘Granito’, e que expressem em suas cocheiras semelhante paixão e sensibilidade.

Delas, bem alicerçadas, frutificará o seu potro do Amanhã!”


Ricardo L. Casiuch


GRANITO: UMA DEFINIÇÃO
Rocha ácida, de granulação grossa a média, constituindo-se, essencialmente, dos seguintes minerais: feldspatos e quartzos. De acordo com estas misturas, os granitos tomam diversos nomes, como a biotita, a moscovita, a hornblenda, os orbiculares, os gráficos.

São conhecidas duas origens diferentes para o granito. Uma em que a rocha se forma, em grande profundidade, na crosta, por lenta cristalização dos minerais, a partir de massa no estado de fusão em alta temperatura - o magma.

A outra, em que a composição granítica resulta da transformação de rocha anterior, geralmente um sedimento, por fenômeno de metamorfismo. Tal processo é conhecido pelo termo genérico de granitização.

Granitos são rochas largamente distribuídas na crosta da Terra. Ocorrem em todos os continentes e têm amplo emprego em trabalhos de cantaria e construção. No Brasil, são excepcionalmente freqüentes no maciço da Serra do Mar. Corpos isolados são também encontrados nos Estados do Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso e Nordeste do país.



(Enciclopédia Barsa - 1987, Vol. 8)

II- “1630/1946: Três Séculos de Criação e o Arco da História




... Origens da Invasão Holandesa no Nordeste
“A potência de um governo não se deixa medir pela superfície, mas pela fidelidade, devoção e respeito dos indivíduos. A palavra imposto soa muito mal; não os aumentem, mesmo que seja para pagar as dívidas do Estado. Só executem as instruções dos diretores da Companhia das Índias Ocidentais se elas forem úteis à Colônia - Nova Holanda.”
Com esse discurso proferido a 6 de maio de 1644, ou seja, após 7 anos de sua chegada ao Brasil, o Conde João Maurício de Nassau (1604-1679) deixava um testamento político para os que habitavam a “Nova Holanda”, colônia que se estendia da Bahia ao Maranhão e que tinha sua capital na Ilha de Antonio Vaz - na cidade de Maurícia, com sede no Palácio das Torres, também conhecido como Friburgo.

Grandes transformações empreenderam os holandeses no Nordeste brasileiro, especialmente no tocante ao desenvolvimento das Capitanias de Pernambuco, Paraíba, Itamaracá e Rio Grande do Norte, recuperando engenhos de cana-de-açúcar, financiando o plantio e a importação de escravos, expandindo culturas alimentares (como a mandioca), implantando assembléias de representantes eleitos nos distritos da “Nova Holanda”, satisfazendo o convívio dos três grupos religiosos mais importantes: os calvinistas, os católicos, e os judeus; criando novas cidades e povoados, trazendo artistas e cientistas para a côrte de Nassau, entre eles os pintores Franz Post, Albert Eckout, o naturalista e astrônomo Jorge Marcgrave e o botânico Willem Piso.

Todavia, o contrato de trabalho de Nassau com a Cia. das Índas Ocidentais estava em atrito ao final de 1643, quando ele desejava transformar a Cidade de Maurícia na capital do seu império tropical, opondo-se aos diretores da Cia. que entendiam ser Recife apenas um entreposto comercial para o açúcar extraído dos engenhos.

Nassau, portanto, pediu demissão em caráter irrevogável de sua condição de almirante-general por suas conquistas na Terra Brasilis, e resolveu retornar para a Europa aos 40 anos de idade, sendo aclamado por suas tropas formadas na partida, além de saudações de artilharia e lágrimas da população.

Na Europa foi elevado à condição de Príncipe do Império em 1652, sendo posteriormente comandante-chefe e marechal-de-campo do exército holandês.

Um de seus auxiliares mais próximos, Jaspah Nienho Wan Der Ley, capitão do exército maurício, resolve então não acompanhar seu comandante na volta ao velho continente.

Por razões do coração, liga-se à uma belíssima morena da família Albuquerque (luso-pernambucana), abrindo mão de heranças, propriedades e títulos deixados na Metrópole européia.
São palavras do eminente hipólogo João Pessoa de Souza, o famoso ‘João Boiadeiro’ das Exposições Nacionais do Cavalo Mangalarga Marchador, em 1988 na crônica ‘A Criação de Cavalos no Brasil – Tradição Pernambucana’:
“(...) Vale também como exemplo a Família Wanderley, aqui representada pelos Paranhos e na Bahia e Minas Gerais pelos irmãos Marcos, Marcelo e Lúcio. Descendem, pois, do Capitão da Cavalaria Jaspah Nienho Wan Der Ley, ou aportuguesadamente, Wanderley, natural do Eleitorado de Brandemburgo, sendo portanto alemão. Era ‘Senhor’ dos Engenhos Algodoais, Utinga de Cima e Utinga de Baixo, todos no Cabo. Casou-se com Maria de Melo, filha de Manuel Gomes de Melo, ‘Senhor’ do Engenho Trapiche, também no Cabo, e de Adriana de Almeida. Ao falecer, deixou 4 filhos: João Maurício – nome em homenagem ao Príncipe de Nassau e que ficou como tradição na família, Manuel, Gaspar e Adriana. Por sua formação militar da Arma de Cavalaria, transmitiu aos seus descendentes o amor pela criação de cavalos.(...)”

Para finalizar este tópico, básico conjunto da memória história nacional, vale recordar as pernambucanas palavras de Gilberto Freyre, célebre autor de “Casa Gande e Senzala”, clássico dos clássicos:


(...) “O maior dos conquistadores de Olinda e de Recife, o Conde Maurício de Nassau, terminou, no século XVIII, conquistado por esses encantos: os de Recife e de Olinda. Tanto que há quem pense ter sido sonho do ilustre alemão, europeu de Renascença, fundar no Brasil um principado, do qual Recife teria sido a capital. Nassau, neste caso, aqui teria permanecido. Com que resultado? Germanizando esta parte do Brasil? É pouco provável. É possível que ele, Nassau, viesse a se abrasileirar de tal modo em recifense, com um tanto de olindense, que até cor morena tivesse adquirido ao sol das praias de seu principado tropical. E - quem sabe - amante para o resto da vida de morena recifense ou olindense. O Recife recorda-se de Nassau como um quase recifense. Como homem de fora que se tornou no Brasil quase de casa. Como conquistador que se transformou em conquistado: digno de ter estátua em praça recifense. E o Brasil que conquistou Nassau foi principalmente o Recife. O Recife intransigentemente o Recife, e não um mole, dengoso, passivo Recife.”(...)

(...) “ Assim é o Recife com relação a Olinda: duas cidades numa só. O ‘rosto gordo de frente’ é o de Olinda. O ‘perfil magro’ é o do Recife. As duas cidades formam uma cidade única que só se torna duas aos olhos do adventício quando ele compara a que se vê de frente com a que avista de lado”(...)

... A Família Wan Der Ley em Pernambuco
Instalados nos municípios de Ipojuca, Serienhem, Rio Formoso, e significativamente presentes na Zona Canavieira Sul de Pernambuco, os descendentes de Jaspah Wan Der Ley exerceram presença incisiva na economia local implantando canaviais, usinando o caldo melaço e produzindo o açúcar mascavo, tão exigente de mão-de-obra escrava. Já então, misturados por casamentos e uniões com os Cavalcantes, Tenórios, Lins, Brittos, Albuquerques, Barros, Mesquitas e demais famílias rurais nordestinas, os Wan Der Ley absorveram a identidade luso-pernambucana e distanciaram-se cada vez mais dos hábitos holandeses.

... O Ciclo da Cana-de-Açúcar e os Escravos
No século XVII, a escravidão era fato comum, sendo normal a transformação de prisioneiros de guerra em escravos, mesmo em alguns países da Europa.

Na cana-de-açúcar, era fundamental o emprego maciço de mão humana, e o escravo passou a ser a única solução possível. Primeiramente, tentou-se submeter o índio caçado na região ou comercializado por bandeirantes. Contudo, este não adaptou-se ao trabalho braçal, pois em sua estrutura familiar era a mulher que exercia a função do trabalho. A ele, chefe familiar, competia pescar, caçar, e guerrear. Portanto, produzia pouco quando subjugado e em geral morria logo depois de aprisionado. Coube, por conseguinte, à importação de negros africanos, importados a peso de ouro, preencher esta lacuna na economia canavieira.

Visitando os leilões de Recife, os senhores de engenho os adquiriam vindos de Angola, Congo, Benguela, Cabinda, Mina, Quiloa e Rebôlo.

Instalados na senzalas, circulavam pelo cotidiano das construções rurais da época: a moenda, a casa de purgar, as fornalhas, a casa dos cobres, galpões e a casa-grande. Semi-enterradas no solo, as senzalas eram barracões em série, com uma só porta, sem janelas, apresentando diminutos respiradouros.

Ao raiar do dia, encaminhando-se para as plantações, recebiam uma ração de comida, descansando a pequenos intervalos para as refeições. De sol a sol, sofriam na própia pele o destino brutal lhes reservado, sobrevivendo, em média, por dez anos até perder força e saúde. Raros eram os que conseguiam escapar da brutalidade, seja fugindo para quilombos ou servindo como feitores e nas tarefas domésticas na casa-grande.

... A Abolição e o Barão do Granito
“Abolição! Abolição! É o coro da nação!”
A 3 de março de 1888, na abertura da Câmara Parlamentar do Rio de Janeiro, discursava a Princesa Isabel:
- “... Confio que não hesitareis, Senhores Deputados e Senadores, em apagar do direito pátrio a única exceção que nele figura, em antagonismo com o espírito cristão e liberal de nossas instituições.”
No dia 8 de março de 1988 a Câmara recebe o projeto imperial:

“Artigo 1º- É declarada extinta, desde a data desta lei, a escravidão no Brasil.

Artigo 2º- Revogam-se as disposições ao contrário”
Às 15:30 horas do dia 13 de maio de 1888, em público, Isabel recebe a Lei Áurea para assinar.

Nas ruas, nas casas, nos palácios, a população vibra e dança sob os foguetes. Encerrava-se um ciclo de 300 anos que culminara com o movimento abolicionista nas décadas de 70 e 80 do século XIX.

Aproximando-se do Barão de Cotegipe, João Maurício de Wanderley (outro descendente do antigo capitão holandes), a princesa lhe pergunta:

- “Então, Sr. Barão, ganhei ou não ganhei a partida?”

E o senador do império respondeu-lhe:



- “Ganhou a partida, mas perdeu o Trono!”
Da Europa chegou um telegrama:

Abraços à Redentora. Seu pai, Pedro.”


No meio da escalada do movimento abolicionista, ao lado de figuras destemidas como Joaquim Nabuco, André Rebouças, José do Patrocínio e Castro Alves, formava um advogado e político pernambucano, senhor de engenhos do município de Ipojuca, o Dr. José Manoel de Barros Wanderley. Decidindo-se por esta nova profissão de fé, entende ser melhor o exemplo que partisse de dentro de casa: alforria todos os seus escravos antes mesmo da Lei Áurea ser assinada.

Reconhecido por sua atitude liberal, caráter irretocável, firmeza de princípios e liderança política, achou por bem o Imperador D. Pedro II lhe conferir o título de “Barão do Granito” em decreto imperial de 25 de março de 1888.

Dois argumentos eram defendidos por José Manoel de Barros Wanderley para acelerar a libertação de seus escravos:

. o trabalho livre, isto é, o assalariado, produzia muito mais que o escravo;

. que todos os homens possuem direitos naturais à liberdade e à igualdade, logo a escravidão feria à Bíblia e à Constituição Brasileira, pois estas estavam baseadas em princípios fundamentalmente liberais.

Ao mesmo tempo, escravos fugiam das fazendas dos conservadores anti-abolicionistas, queimando-lhes as plantações. No entanto, difícil continuou também a ser a vida do ex-escravo, pois com a chegada dos imigrantes europeus, qualificados e alfabetizados, processou-se o desemprego da nova massa de trabalhadores livres.



... A Transferência para a Bahia: a nova Fazenda do Granito
O 5º filho do Barão, Argemiro de Barros Wanderley, entendeu bem esta situação da economia nacional que se arrastava na primeira metade do Século XX, e decide mudar-se para a Bahia em 1946. Corria a Era Pós-Vargas, a IIª Guerra Mundial chegara ao fim, e com a vitória das Forças Aliadas das Democracias Liberais (Estados Unidos - Inglaterra - França), o Estado Novo de Getúlio Vargas não resistiu a pressão do povo. Em 1946 reabriram-se os trabalhos da Assembléia Constituinte, que promulgou a quarta Constituição do país, e o General Emílio Gaspar Dutra, eleito pelo PSD, assumia a nova presidência. Getúlio eleger-se-ia como senador pelo PTB.

Em termos econômicos, a política liberal imperava, com o Estado abrindo as fronteiras para a importação de bens manufaturados, principalmente dos EUA, o que levou rapidamente a duas conseqüencias: o esgotamento das reservas de dólares acumuladas durante os anos de guerra e a falência de indústrias nacionais, as quais não podiam competir com os melhores e os mais baratos produtos importados.

A 2 de julho de 1946, portanto, chega a Salvador (Bahia) o navio do Lloyd Brasileiro com a família de Argemiro de Barros Wanderley, disposta a se instalar no município de Santa Inês, na fazenda recém adquirida: a Fazenda do Granito, dedicando-se à produção da pecuária bovina, que encontraria na carne preços excelentes para servir ao Nordeste.



  1. 1946/1972: O Jovem Criador Wanderley



…As Primeiras Lições Paternas
Lúcio Wanderley iniciou-se na vida a cavalo montando os animais de seu pai, Argemiro de Barros Wanderley, desde os 2 anos de idade no Engenho da família em Palmares-PE. Seu pai, excelente cavaleiro, dava a todos os filhos o exemplo de como usar e gostar deste belo animal que é o cavalo. Em 1946, entendendo que chegara ao fim seu ciclo de agricultor em Pernambuco, decide Argemiro, o 5º filho do Barão, a se transferir com todos os seus para a Bahia. Vende então as terras de canaviais e adquire a Fazenda Granito, em Santa Ines-BA. Lá, inicia seu ciclo de pecuária e seus filhos passam a ajudá-lo de corpo inteiro na tarefa de abrir a fazenda, transformando áreas abandonadas em pastos produtivos.

Tendo, aos 8 anos, falecido Lúcio Flavio, 4º filho do casal Argemiro e Laura, recebeu o 10º filho o nome de Lúcio Flavio Segundo. O velho Argemiro, conforme testemunharam seus filhos e companheiros de época, foi até o fim da vida um excelente cavaleiro e uma das melhores mãos de rédeas de sua geração.



….A Mudança para o Sertão de Minas Gerais-Nanuque

Em 1959, Lúcio Flávio Segundo inicia sua propria criação, passando a registrá-la a partir de 1962. Foi seu primeiro produto Pioneiro do Granito (Guarany x Itaparica), nascido em Setembro de 1962, apesar da criação de cavalos no Granito ter se iniciado em 1959 e a numeração somente ser adotada a partir de 1965, conjuntamente com a ordem alfabética, e aí encontramos o Abaeté do Granito (Guarany x Lente do Granito). Lúcio, trazendo no sangue a mensagem de seus sucessivos avós, ainda moleque montava nos bons cavalos de sela que o pai fazia questão de manter, e assim justificou a sua própria seleção: na perna, nas mãos, no segurar de rédeas, identificando seu ideal no cavalo Mangalarga Marchador que a Bahia já criava em outros eméritos rebanhos.


É o próprio Lúcio que nos conta esta nova fase de sua vida:
“(...) Comecemos pelas adaptações.
Viemos de Pernambuco, de família classe média, meu pai trabalhava com engenho de cana-de-açúcar.
Desembarquei em Salvador, comprei uma égua ‘Cerejeira’, e em seguida instalei-me em Santa Inês (BA), adquirindo cinco fêmeas Campolina numa concorrência pública.
Sem dinheiro, comprava cavalos comuns por puro amor e prazer. Esse amor foi a única coisa que não mudou em minha vida.
Mudei-me para Nanuque (MG), sabendo que tipo de cavalo gostaria de montar. Um Mangalarga Marchador, por exemplo. Idealizei e agi. Rapidamente.
Vendi o lote de Campolinas e outros cavalos que tinha, trocando por éguas da Raça Mangalarga Marchador”
E continua:
“ Em 1966 me transferi para Nanuque-MG, uma região ainda muito pouco explorada, apresentando apenas caminhos de madeireiros. Mas podia vislumbrar seu grande potencial como pólo da pecuária de corte, a profissão que aprendera com papai e meus irmãos mais velhos. BR 101 (a litorânea) não existia, e o acesso era feito pela BR 116 (a tradicional Rio-Bahia). Fui em busca de terras férteis onde pudesse criar e engordar bois. Em Nanuque fixei minha residência e lá estou até hoje com minha família.(...)”
Em homenagem à memoria de seu avô, adotou o sufixo “Granito”, afeiçoando-se ainda mais ao cavalo Marchador, paixão que o levaria a gravar, na granítica pedra, o amor de sua família ao nobre animal, eternamente.

…Os Animais de Fundação e os Primeiros Grandes Campeonatos da Raça: DIPLOMATA E MOCAMBO AZAGAIA
Em 1969, saindo em busca de seu primeiro reprodutor de realce, o jovem Lúcio Wanderley adquire em Pedro Leopoldo (MG), nas mãos de Chico Soli, o DIPLOMATA, sobre quem um dia expressou-se um dos maiores conhecedores da Raça Mangalarga Marchador em todos os tempos, Antenor de Oliveira Paiva:

Diplomata: O Cavalo de Alta Categoria
Há mais de 20 anos conheço Lúcio Wanderley, criador de Mangalarga Marchador em Nanuque-MG.

Em 1969, Lúcio falou-me que estava precisando de um reprodutor de alto gabarito. Eu, conhecendo em Pedro Leopoldo o reprodutor Diplomata, fiz a indicação para ele - o animal pertencia ao Chico Soli- o qual procedeu a venda, na época, por Dois Mil e Setecentos Réis.

Diplomata era filho do reprodutor Derby, da criação de ‘Chiquinho da Olga’ (Francisco Carneiro Ribeiro) e possuía a marca F.R. de Conceição do Rio Verde-MG. A sua mãe era uma égua Mangalarga Marchador adquirida em Alfenas.

Pela Fazenda Modelo, em Pedro Leopodo, passaram grandes reprodutores da raça: Derby, Seta Caxias, Baluarte; sendo que o dócil, nobre e grande marchador Derby competia com os demais palmo a palmo.

Derby morreu na Fazenda Modelo, pois foi o único a não ser emprestado.

Belo Horizonte, 13 de Julho de 1987


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