Literatura de cordel: novos temas, novos leitores



Baixar 1,26 Mb.
Página1/3
Encontro09.09.2017
Tamanho1,26 Mb.
  1   2   3



LITERATURA DE CORDEL: NOVOS TEMAS, NOVOS LEITORES


Alyere Silva Farias1, José Hélder Pinheiro Alves2

Resumo
Esta pesquisa teve o objetivo de apontar quem são os novos leitores do cordel, quais os seus interesses e o que os motiva a realizar estas leituras. O corpus escolhido para investigação foram os folhetos de Manoel Monteiro, Maria Godelivie e Janduhi Dantas, cordelistas que publicam folhetos na Paraíba e possuem uma produção e uma circulação significativas desde o ano 2000, configurando-se como parte dos autores mais lidos por novos leitores. Com base em entrevistas e levantamentos bibliográficos, realizou-se a análise ,fundamentada em reflexões de CAVIGNAC (2006), GALVÃO (2001), GARCÍA CANCLINI (2007) e AYALA (1997, 2003) e identificou-se as mudanças ocorridas nesta literatura quanto à sua função social, seus espaços de circulação, seus temas e leitores.
Palavras-chave: literatura de cordel; novos leitores; temas;

CORDEL LITERATURE: NEW ISSUES, NEW READERS
This research had the objective to point who the new readers of the cordel are, their interests and what motivates them to perform these readings. The corpus chosen for investigation were the leaflets by Manoel Monteiro, Maria Godelivie and Janduhi Dantas, poets who publish leaflets in Paraíba and have a significant production since 2000, setting up as part of the authors most read by new readers. Based on interviews and bibliographic surveys, the analysis was conducted from CAVIGNAC (2006), GALVÃO (2001), GARCÍA CANCLINI (2007) and AYALA (1997, 2003) and it was identified the changes occurred in this literature as to its social role, their circulation and distribution, their subjects and readers.
Keywords: cordel literature, new readers, themes.
INTRODUÇÃO

A hoje denominada Literatura de Cordel no Nordeste brasileiro configurou-se, entre o final da década de 1890 e meados da década de 1950, como o texto escrito popular em versos, geralmente sextilhas e setilhas de versos setessilábicos e impressos em folhas de jornal in quarto, com o objetivo de divertir e informar a população freqüentadora das feiras e assídua às cantorias, reuniões familiares e demais espaços de manifestação literária popular.

Observa-se que um olhar sobre o percurso histórico do estudo da Literatura de Cordel no Nordeste, aponta que os temas e o público dos folhetos puderam ser identificados a partir da investigação sobre as funções sociais desempenhadas por estes textos ao longo do século XX. Hipóteses sobre para quem eram escritos estes folhetos podem ser levantadas a partir da análise das marcas deixadas pelos autores em seus folhetos.

As marcas, extratextuais ou intratextuais, nos auxiliam a desanuviar a imagem do que se concebe nos estudos sobre a leitura, como leitor implícito, que, na Estética da Recepção de Iser, de acordo com Jouve (2002), consiste nas diretivas de leitura deduzíveis do texto, que são perceptíveis para todos os seus leitores, partindo do pressuposto de que a atribuição de sentido à um texto é realizada da mesma forma por todos os seus leitores.

Mesmo partindo da concepção Iseriana sobre a leitura e o leitor, consideramos que as temáticas abordadas por cada autor dos folhetos de cordel que compõem o corpus de nossa pesquisa ultrapassam em muito essa única perspectiva de análise e também funcionam como elementos identificadores do leitor implícito.

Com o objetivo de investigar, na obra de alguns poetas, a ocorrência de novos temas que ainda não foram incluídos na já vasta classificação das temáticas de folhetos da Literatura de Cordel, e voltando a atenção também para os apontados novos leitores de folhetos, desenvolvemos a presente pesquisa, restrita nesta fase à área de Campina Grande e região, um reconhecido pólo produtor de folhetos de cordel, e à produção de três autores bastante ativos no que diz respeito à publicação de novos folhetos: Manoel Monteiro, Maria Godelivie e Janduhi Dantas.

Nesta fase da pesquisa, focalizamos nosso estudo na obra do poeta Manoel Monteiro, cuja produção é bastante numerosa. Para a análise, trabalhamos com um corpus de 70 folhetos e partimos do pressuposto de que a paixão declarada do poeta pelo que chama de Novo Cordel, e consiste na utilização da Literatura de Cordel na sala de aula, seria o guia para a identificação do leitor implícito de seus folhetos.

Procedemos à identificação e reflexão a respeito dos elementos pré-textuais, ou sejam, a presença e disposição de elementos na capa, na contracapa e na quarta-capa (GALVÃO, 2001), em uma primeira fase da pesquisa. Posteriormente, observamos a constituição das temáticas nesse corpus com o objetivo de compreender, na obra de Manoel Monteiro, como se refletem as concepções do novo, tanto em relação aos seus leitores, quanto aos seus temas. Quanto à obra de Maria Godelivie e Janduhi Dantas, realizamos a mesma identificação aplicada á obra de Manoel Monteiro, apesar de seus títulos não serem tão numerosos quanto os do primeiro poeta.



MATERIAL E MÉTODOS
O percurso metodológico seguido compreendeu basicamente os cinco passos descritos a seguir. Inicialmente realizamos o levantamento de um corpus significativo de folhetos publicados, principalmente a partir do ano 2000. A determinação desta data se justifica pelo fato de querermos estudar os novos leitores de folhetos. Em seguida selecionamos as obras dos poetas Manoel Monteiro, Janduhi Dantas e da poetisa Maria Godelivie, cordelistas que têm uma produção significativa e constante, além de suas obras ocuparem novos espaços e circularem bastante, fato comprovando durante a pesquisa Literatura de Cordel: Autores Paraibanos (PIBIC/CNPq-UFCG), na qual comprovou-se a grande vendagem dos folhetos e, principalmente, a introdução destes no espaço escolar.

Os contatos com os poetas selecionados se deram através de telefonemas, encontros e troca de e-mails. Utilizamos ainda o nosso banco de dados que contém entrevistas com os poetas realizadas durante a vigência do projeto Literatura de Cordel:Autores Paraibanos (PIBIC/CNPq-UFCG). Os dados foram avaliados visando depreendermos quais são os leitores que os poetas têm em mente quando produzem seus folhetos, além de observarmos as condições de produção dos mesmos, atentando para os folhetos escritos por encomenda e para a ocorrência de produção de folhetos a partir de determinadas demandas sociais e/ou pessoais. Investigamos também o modo como os autores se articulam para dar visibilidade à suas produções.

O quarto passo desta pesquisa consistiu no estudo dos folhetos com o objetivo de observar a presença de elementos textuais que indiciam ou revelam o tipo de leitor previsto por seus autores. Para este estudo nos fundamentamos nas observações de Galvão (2001) a respeito dos elementos indicadores do público leitor de folhetos de cordel. Por fim foi possível observar o discurso dos poetas escolhidos a respeito de sua atuação social enquanto autores, divulgadores e comercializadores de seus folhetos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A reflexão sobre o leitor de um texto literário deve, necessariamente, considerar as relações existentes entre eles, além de ser indissociável de uma breve abordagem de questões relativas à leitura, que evidenciam estas relações e, em nosso caso, ligam os dois grandes pólos de interesse de nossa pesquisa: o leitor e os temas dos folhetos de cordel.

Inicialmente, é preciso evidenciar que consideramos, nesta pesquisa, o leitor em suas duas instâncias – abstrata e real. Como instância abstrata entendemos o leitor enquanto receptor requerido e definido pelo texto lido em sua particularidade, o que corresponde ao “leitor implícito” de Iser (apud JOUVE, 2002), ao que Lintvell nomeia de “leitor abstrato” e remete ainda ao que Umberto Eco chama de “leitor modelo”. O leitor real, por sua vez, consiste no individuo, ou no público, que realiza, de fato, a leitura.

De acordo com Jouve (2002), há no texto um leitor implícito, o público imaginado pelo autor, que é proposto ao leitor real e este último pode assumir este papel ou recusá-lo, fechando o livro. A concepção de leitor implícito desenvolvida por Iser “remete às diretivas de leitura deduzíveis do texto e, como tais, válidas para qualquer leitor”(JOUVE, 2002, p. 44), ou seja, a construção de sentidos do texto é comum a todos os leitores pois é definida pelo próprio texto, e é a relação do leitor com este sentido que consiste na porção subjetiva da recepção de um texto.

É importante salientar que não é fácil distinguir o leitor implícito do leitor real, visto que, quando a leitura se realiza, os dois leitores se mesclam. O leitor implícito para Jouve (2002) é uma conjectura que auxilia a observação do leitor real.

O leitor real enquanto indivíduo que “segura o livro nas mãos, é uma pessoa inteira que, como tal, reage plenamente às solicitações psicológicas e à influência ideológica do texto” (JOUVE, 2002, p. 49). Ele realiza efetivamente a leitura e se implica nela de forma particular. No entanto, a psicanálise defende que há constantes psicológicas invariáveis nos indivíduos que, por consistirem em sujeitos biopsicológicos, são passíveis de análise. A análise do leitor parte, portanto, necessariamente, pela identificação do leitor implícito em direção à recepção do leitor real (JOUVE, 2002).

A identificação do leitor implícito passa, em nossa perspectiva, pela identificação de elementos pré-textuais em que há referência, direta ou indireta, ao leitor. Em seguida é indispensável identificar trechos da narrativa nos quais há referências, diretas ou indiretas, ao leitor, para que se proceda à análise dos aspectos identificados e assim realizar a constituição do(s) perfil (s) do leitor dos folhetos de cordel do autor estudado.

No tocante a pesquisa em Literatura de Cordel, o estudo do leitor implícito observa e busca “nos próprios textos e na materialidade do impresso, marcas indicativas que permitam a reconstrução do leitor pensado pelo autor e/ou editor no momento da produção do objeto de leitura” (GALVÃO, 2001, p. 41).

Os estudos já desenvolvidos sobre a Literatura de Cordel e o seu leitor implícito, mesmo que não utilizem esta nomenclatura, contribuem para que seja possível identificar o pretenso público- leitor dos folhetos. Do final da década de 1890 até a metade do século XX, considera-se que o leitor de folhetos, aqui entendido enquanto público consumidor desta literatura, consistia, de acordo com Galvão (2001), nos freqüentadores de feiras, mercados e demais espaços de circulação do popular, como as casas e depósitos dos poetas e as livrarias, em um primeiro momento, e os correios e demais pontos de distribuição.

Em relação ao leitor real, houve sempre certa dificuldade em se estabelecer um panorama claro, visto que para a realização desse tipo de pesquisa são necessárias entrevistas com o público da época, o que nem sempre é possível. Com base em pesquisas já realizadas a respeito do leitor real das décadas de 30 e 40 do século XX, correspondentes ao final da primeira fase da Literatura de Cordel, é possível afirmar que o público leitor de folhetos era formado predominantemente por homens, mulheres e crianças analfabetos ou semi-alfabetizados, moradores de cidades de pequeno e médio porte e da zona rural.

Depois da grande crise da Literatura de Cordel, nas décadas de 1950 e 1960, com o encarecimento dos meios de produção do folheto, época em que, coincidentemente, houve a maior difusão de novas tecnologias e novas práticas de lazer e obtenção de informações, a circulação de folhetos se amplia na década de 1970, despertando o interesse de turistas e estudantes universitários, além de seu antigo público. Galvão (2001) considera que “atualmente, os folhetos são comprados, basicamente, por turistas e estudantes” (p.41).

Após a reflexão sobre os caminhos teóricos a serem seguidos para analisar quem lê, passamos a pensar sobre o que se lê, considerando o nosso segundo aspecto, os temas presentes nas obras dos autores estudados.

A Literatura de Cordel foi, por muito tempo, alvo de estudos e classificações que se fundamentavam na recorrência de temas explorados, ao ponto da questão autoral ser desconsiderada. Hoje, de acordo com Galvão (2001), as temáticas são observadas enquanto parte da obra de cada autor, mas as classificações tradicionais servem de parâmetro para a classificação dos folhetos proposta por estudiosos como Carlos Azevedo e os ciclos temáticos da literatura de cordel e Manuel Cavalcante Proença e os três grupos da poesia popular: narrativa, didática e poemas de forma convencional. A classificação de Marlyse Meyer divide a literatura de cordel da forma tradicional, adotada também por Alves Sobrinho (2003), que diferencia apenas os romances e os folhetos. Liêdo Souza (apud GALVÃO, 2001) observa a classificação tradicional, mas elaborou uma subclassificação a partir de entrevistas realizadas com poetas, editores e vendedores de folhetos por todo o Nordeste

Para a análise dos temas e, especificamente, dos novos temas, utilizamos como base para a nossa classificação a forma tradicional, e como subclassificação seguimos a proposta por José Alves Sobrinho, com 19 grupos divididos conforme o conteúdo e o assunto. Os estudos a respeito dos temas mais recorrentes revelam que estes são os que reafirmam valores que fazem parte do cotidiano da sociedade, como afirmam os depoimentos de leitores de folhetos das décadas de 1930 e 1940 recolhidos por Galvão (2001), que são amor, justiça, luta, traição, falsidade, valentia e persistência.

A importância do humor, em detrimento da função pragmática de fornecer informações é ratificada por Galvão (2001), enquanto elemento essencial para o despertar do interesse dos leitores, configurando-se como um aspecto ativo no cerne das temáticas mais recorrentes nos folhetos de cordel.




MANOEL MONTEIRO:
Manoel Monteiro, natural de Pernambuco e radicado na Paraíba há 50 anos, foi, de inicio, vendedor de folhetos e, mais tarde, tornou-se um autor profícuo, até configurar-se hoje como o principal produtor e incentivador da Literatura de Cordel na região da Paraíba e um dos mais importantes do país.

A participação em projetos de incentivo à Cultura, além da defesa de algumas bandeiras, principalmente no que diz respeito à utilização do folheto de cordel em sala de aula, nos fornecem pistas para o reconhecimento do que se compreende por leitor implícito de seus folhetos. A diversidade de temas abordados em sua produção possibilita, por sua vez, o reconhecimento de classificações citadas por Alves Sobrinho (2003) e a reflexão sobre as diferentes abordagens das temáticas exploradas.

A obra do poeta Manoel Monteiro é vastíssima e de uma notável riqueza de temas. Para atender aos objetivos propostos por nossa pesquisa, utilizamos um corpus composto por 70 títulos de folhetos, número que não compreende todas as publicações do poeta, mas corresponde em sua maioria às obras que podem ser encontradas à venda e compõem hoje o acervo de nossa pesquisa.

Para proceder à análise dos folhetos de Manoel Monteiro, criamos uma categorização para reunir os folhetos que apresentam aspectos de maior ou menor definição de seu leitor, a fim de facilitar as reflexões sobre sua obra. Para esta definição foram considerados principalmente a defesa que o poeta faz da presença da Literatura de Cordel na escola expressa através dos aspectos pré-textuais, como as referências a esse público, nas capas e contracapas dos folhetos. Outro fator definidor a ser considerado em nossa análise é a presença de textos introdutórios em grande parte dos folhetos deste autor.



A primeira divisão de nosso corpus consiste em dois grupos: os que apresentam referência à Literatura de Cordel na escola e os que não apresentam:



Figura 1 = Ausência e Presença de referências à escola nos folhetos

Em relação à primeira divisão dos folhetos, considerando os elementos pré-textuais dos folhetos, o primeiro grupo compõe-se de 42 folhetos, ou 60%, que contém qualquer referência à escola, enquanto o segundo é formado por 28 folhetos, ou 40%, que não apresentam nenhuma referência à escola.

Esta predominância de referências à escola nas capas e contracapas dos folhetos é um elemento de confirmação da nossa hipótese sobre o direcionamento da produção de Manoel Monteiro preferencialmente à escola, por conta do seu empenho na difusão do que chama de “Cordel Novo” e a respeito do qual, em nossas contínuas entrevistas desde o ano de 2006, durante o desenvolvimento do projeto “Literatura de Cordel: Autores Paraibanos”, o poeta se posiciona favoravelmente, além de concentrar esforços para que a introdução dos folhetos na escola aconteça de forma sistemática e acabe por ser incorporada ao currículo das disciplinas como fonte conteudística.

Dentre os folhetos que apresentam as referências ao folheto de cordel na escola, observamos que 02, ou 05% dos folhetos, apresentam textos introdutórios que fazem referências à escola, enquanto 39, ou 95% dos folhetos, trazem apenas uma referência na contracapa do folheto que visa promover o uso do folheto na escola:




Figura 2 = tipo de referência à escola
As referências à escola são numerosas na obra de Manoel Monteiro, o que demonstra indícios de uma padronização editorial de suas capas, mas também remete à definição de seu público escolar. Já os folhetos que apresentam pequenos textos introdutórios, que ocupam as contracapas dos folhetos, são raros e não remetem diretamente à já referida concepção de Novo Cordel, o cordel na escola, defendida pelo autor, mas fazem referência às temáticas desenvolvidas em cada um deles.

Os dois folhetos que compõem esse grupo, Poesia Popular – de ler e brincar e Padre Inácio Rolim, fazem referência a escolas diferentes. O primeiro folheto traz um texto explicativo sobre a sua origem: uma oficina de literatura de cordel realizada com os alunos da UEI- Unidade de Educação Infantil, da Universidade Federal de Campina Grande em 2000, e, no final do texto, apresenta o elemento de ligação com a escola, já referido anteriormente, quando o autor observa:


poesia tem gosto de mel e perfume de rosas. Não é por acaso que o FIC – Fundo de Incentivo à Cultura – Augusto dos Anjos, neste ano de 2007, está patrocinando o nosso Projeto: PARAÍBA GRANDES NOMES... onde um maior número de alunos paraibanos terão um noviciado auspicioso com o filão de ouro dos cordéis. A memória de Leandro estará sendo perpetuada nos continuadores de sua obra. (MONTEIRO, 2007 s/n) (grifo nosso)
O comentário do autor esclarece para quem ele escreve: os alunos paraibanos, que serão também os destinatários de seu novo projeto. Entretanto, esta informação não delimita suficientemente o seu leitor, visto que o termo “alunos paraibanos” compreende o público do ensino fundamental até, no mínimo, o ensino médio, ou mesmo os alunos de nível universitário.

No folheto Padre Inácio Rolim, observa-se o seguinte parágrafo no texto introdutório: “O objetivo principal deste PROJETO é possibilitar que os Professores tenham em mãos um material de fácil absorção pelo seu alunado. Se conseguir, estarei pago.” (MONTEIRO, 2004 s/n). Mais uma vez o poeta define o seu público e, evidentemente, indica o perfil de seu leitor implícito. Esta subcategoria compreende, então, os folhetos que, nomeadamente, têm como leitor abstrato o aluno, e, é válido ressaltar, tem como ambiente de leitura a sala de aula.

A segunda categoria de análise, os folhetos que possuem apenas uma vaga referência à escola, inclui folhetos de temas e projetos diferentes. Os 39 folhetos parecem atender ao modelo editorial desenvolvido pelo poeta e trazem, no verso, uma frase que remete à escola, com as seguintes fórmulas, ou sentenças:




SENTENÇA

Nº de folhetos

Porcentagem aproximada3

01

“Para criar no aluno o hábito da leitura, o melhor artifício é oferecer-lhe um cordel”

22

60%

02

“O cordel facilita o trabalho do professor na sala de aula”

10

24%

03

“Professores, utilizem o cordel em sala de aula e surpreendam-se com os resultados obtidos!”

04

10%

04

“Senhores professores: utilizem o cordel em sala de aula e surpreendam-se com o aproveitamento”

01

2%

05

“A Secretaria de Educação e Cultura de Campina Grande, instituiu em toda escola da rede pública um acervo de cordel. Parabéns Secretário Pedro Lúcio. Parabéns Prefeita Cozete Barbosa”

01

2%

06

“Expressão cultural do nosso povo: o cordel pode ser uma excelente ferramenta paradidática na sala de aula, não só pela sua importância cultural e pela rica estrutura de ritmo, métrica e rima, como também para promover debates e discussões a respeito das formas de falar e pensar de nosso povo e reatar definitivamente os laços do aluno com a verdadeira cultura brasileira.”

01

2%

Considerando o número de folhetos que empregam a primeira sentença, cerca de 60%, é possível afirmar que a sentença “Para criar no aluno o hábito da leitura, o melhor artifício é oferecer-lhe um cordel” se configurou como fórmula editorial, apesar de não ter se esvaziado no que se refere à caracterização do leitor implícito, visto que pressupõe a leitura dos folhetos por este público. A expressão pode ser observada na figura abaixo:


Figura 1: quarta capa do folheto

“Salvem a fauna! Salvem a Flora! Salvem as Águas do Brasil”
A segunda assertiva também indica a concretização de uma fórmula editorial. A quarta capa se organza da seguinte forma: patrocínio, sentença a respeito do uso do folheto na escola, seguida do endereço da cordelaria e/ou da tipografia, estes dois últimos componentes podem se inverter. Dentre os 10 folhetos que correspondem a 24% deste grupo, 03 folhetos trazem o patrocínio do FIC- Fundo de Incentivo à Cultura – Augusto dos Anjos, e fazem parte do projeto intitulado PARAÍBA GRANDES NOMES: A Xilogravura e o Cordel.

O terceiro grupo, formado por 04 folhetos, volta-se para a escola, mas dirige-se ao professor, também um leitor implícito destes folhetos. Tacitamente, o poeta identifica o aluno como leitor dos folhetos, na medida em que considera que o professor se surpreenderá com os resultados obtidos, que não podem ser obtidos com outro público a não ser os seus alunos.

Os três últimos grupos, formados por apenas um folheto cada, demonstram a liberdade do autor em fornecer marcas pré-textuais de identificação do leitor implícito, dentro dos modelos criados por ele próprio enquanto editor e autor. O primeiro, “Senhores professores: utilizem o cordel em sala de aula e surpreendam-se com o aproveitamento” configura-se apenas como uma reescritura da fórmula “Professores, utilizem o cordel em sala de aula e surpreendam-se com os resultados obtidos!”, assim as considerações a respeito do grupo anterior se aplicam a este.

O penúltimo grupo faz referência à ação, por parte do poder público, de incentivo à Literatura de Cordel na sala de aula, atendendo, assim, aos interesses específicos do autor, e possibilitando a chegada do folheto até o seu público, o aluno.

O último grupo apresenta um breve comentário acerca da Literatura de Cordel enquanto ferramenta paradidática, termo desenvolvido pelas editoras que visam à venda de obras literárias como uma ferramenta auxiliar dos livros considerados didáticos, e não como um escrito que tem um lugar privilegiado no espaço escolar. O comentário revela também que o folheto é direcionado ao público escolar, com o objetivo particular de reatar “os laços do aluno com a verdadeira cultura”.

Nesta última referência o autor revela mais sobre esse seu leitor implícito do que nos outros comentários, por conta da sua especificidade na descrição do que ele compreende por cordel, e dessa forma pode-se concluir que o leitor implícito deste texto é o aluno que precisa de informações culturais e estéticas sobre esta literatura e desenvolve suas capacidades reflexivas e argumentativas.



Os 28 folhetos, ou 39%, que não apresentam referências pré-textuais são, em sua maioria, folhetos escritos por encomenda. Considerando esta informação, decompusemos este grupo em folhetos por encomenda e folhetos livres:




  1   2   3


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal