Literatura creativa y público joven



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DIRETRIZES PARA FOMENTAR O GOSTO PELA LEITURA CRIATIVA NOS JOVENS
Arturo Martín Vega

Departamento de Biblioteconomia e Documentação.

Universidade Carlos III de Madri.

C/ Madrid, 126. 28903. Getafe (Madrid)

Telefone 00.34.916249256

arturom@bib.uc3m.es




ACOSTUMARA-SE a ler os franceses –os proibidos— na biblioteca do Ginásio, em traduções. Lera Madame Bovary, lera Eugénie Grandet, lera Gargantua – pouco lucrou com a leitura. Com este último ficou impresionado: como um livro podia conter tanta palavra baixa, tanta cena escabrosa, tanta porcaria. Mas achava engraçado, por isso ia lendo” (Fernando Sabino. O encontro marcado. 72ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 45).


Um problema de idade, não de sexo.
Quando nos referimos a público leitor, tem sido normal diferenciar crianças de jovens, e assim com muita freqüência empregam-se ambos os termos para referir-nos à indivíduos de primeira idade (se considerar-mos por segunda idade as pessoas maduras e por terceira os anciões, que é como se denomina de maneira eufemística).
O conceito de literatura infantil e juvenil está diretamente relacionado com o aniversário das pessoas. Esta associação, que a princípio aparece como uma simbiose, resulta difícil de justificar-se e concretizar-se em muitos casos. Se a classificação de documentos que se consideram apropriados para pessoas de tal ou qual idade já é, por si só, complicada e comprometida, não é menos o problema anterior: o que entendemos por criança e por jovem.
Com um critério amplo e relativo, o Escritório do Alto Comissionado das Nações Unidas para os Direitos humanos, na Convenção sobre os Direitos da Criança, celebrada em 20 de novembro de 1989, diz: "... entende-se por criança todo ser humano menor de dezoito anos de idade, salvo se, em virtude da lei que lhe seja aplicável, tenha alcançado antes a maioridade" (Artigo 1, texto obtido em [http://www.unhchr.ch/spanish/html/menu3/b/k2crc_sp.html]. Consulta realizada em 13/06/2002).
Esse documento se baseia principalmente na Declaração de Genebra de 1924 e na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Na última reunião do Escritório do Alto Comissionado para os Direitos Humanos sobre os Direitos da Criança, celebrada em Nova Iorque em abril do ano de 2002, entre os estados assistentes, somente dois não ratificaram o texto da convenção: Somália (provavelmente seus representantes não soubessem ler) e os Estados Unidos da América do Norte (talvez esses soubessem ler, mas não entenderam o conteúdo).
A fórmula anterior, entretanto, pode servir para não ter que empregar duas palabras diferentes: crianças e jovens, mas não serve para aceitar um único tipo de leitores porque se estima que ao redor dos doze anos (isto também é questionável porque antigamente antes dessa idade, os meninos liam à Horácio em latim) a pessoa alcança maturidade suficiente para compreender e assimilar qualquer texto de divulgação, de modo que até então o que mais importa é a técnica de aprender a ler, para depois ter a preocupação de que as pessoas continuem gostando de leitura.
Dentro da primeira etapa, quer dizer: anterior aos doze anos também se tende a recomendar um livro ou outro, incorrendo-se em maior ou menor acerto em função das diferentes idades.
Esta tendência é antiga e se empregou sobre tudo na recomendação de leituras (as guias de leituras têm quatro séculos de existência). Levada a extremos, chegaram a aceitar derivações tão questionáveis como a de distinguir "livros para meninos" e "livros para meninas". Esta norma, que é inadmissível para a literatura científica, aceitou-se em épocas passadas quando se tratava de literatura criativa.
De modo que segue, pronunciava-se, por exemplo, em meados do século XX, um dos repertórios críticos mais famosos daquela época, intitulado Seleção de livros. Esta mesma publicação saiu em Valência pelos anos cinqüenta. Encontramos na feria do livro madrileña (O Rastro) alguns volumens. Nestes está contida uma seleção de obras que supõe quase um milhar de livros avaliados, ou seja, uma quarta parte, aproximadamente, da produção total espanhola daquela época.
Na estrutura da obra há um compartimento reservado à literatura infantil de três categorías: instrutiva, recreativa e religiosa. Segue uma linha similar de avaliação à observada nos repertórios de Ladrão de Guevara e Garmendia y Otaola, quero dizer: com acentuado caráter moralista; mas se esquecemos dos prejuízos expostos nos comentários, ter-se-á que reconhecer que esse tipo de trabalho bibliográfico, os repertórios críticos, é o que mais se necessita hoje.
Podemos ver algumas das frases coletadas nessa obra, tiradas no seu volume 8, aparecido em 1957, no qual se podem ler conselhos, quase sempre em negrito, tais como:
"para meninos desde que começam a ler"

"para meninos de 5 a 8 anos"

"fará as delícias dos meninos até 10 anos"

"meninos de 8 a 12 anos, de ambiente cultivado"

"distrairá às meninas de oito a dez anos, seja qual for seu nível social"

"gostará certamente às meninas de 9 anos em adiante"

"para os moços supõe o dinamismo e contínuo ambiente de luta. Fundo reto sem inconveniente moral"

"para todos -garotos e garotas- a partir dos 14 anos"



"meninos sem outro limite de idade que o da sua capacidade de atenção para os relatos largos"
Na mesma obra há também livros recomendados para mães e professoras para que estas saibam educar às crianças. Outras recomendações se aproveitam e a pesar de apreentarem critérios de valoração que embora possam resultar discutíveis, estabeleceram normas para a leitura naquele momento.
O nível cultural e o estado social, segundo os compiladores do referido repertório, parece que também podem ser fatores decisivos para tirar-se maior benefício da leitura. Entretanto não é demais recordar, que a cultura não distingue classes sociais e que, como apontou Paulo Freire, as pessoas não sabem tudo nem tampouco ignoram tudo, de modo que a maioria pode chegar a aprender as mesmas coisas.
Infelizmente, algumas vezes, as editoras realizam estudos de marketing para editar livros para meninos e para meninas, assim como também para homens e mulheres. Na atualidade, muitos produtos de todos os tipos são produzidos de acordo com a demanda dos usuários, de maneira que quem decide o que terá que fazer são os compradores e não os vendedores. Esta estratégia pode dar grandes benefícios comerciais, mas é um risco para o futuro desenvolvimento da cultura tradicional e, certamente, um freio para a independência dos criadores ou para a criatividade dos escritores.

Matéria, forma e conteúdo.
O apoio das novas tecnologias no âmbito da informação mudam as colocações tradicionais, mas não de modo radical. As crianças podem conhecer mais coisas em menor tempo e a baixo custo. Além disso, cada vez há mais jovens que podem acessar a toda classe de textos em suporte eletrônico a través da Internet.
A vantagem principal de um novo sistema de educação é a facilidade de acesso aos recursos, mas o problema fundamental vai permanecer, como ocorre no processo tradicional, a seleção das leituras.
O critério mais importante para qualificar uma obra de "texto apropriado para crianças", a nosso julgamento, deve continuar sendo o seu conteúdo. O problema é chegar a um acordo para diferenciar os temas que são infantis e os que não são.
Outra variable, não menos relevante, é a forma. Os livros para as crianças de diferentes idades estabelecem-se, a maior parte das vezes, em função do nível de complexidade léxica. O vocabulário pode ser mais fácil ou mais difícil de assimilar, depende da formação cultural da criança. Seria necessário também fazer um estudo quantitativo para assinalar quais os termos que são fáceis e quais resultam incompreensíveis.
De momento, o sistema de avaliação predominante consiste em apreciações subjetivas ou críticas impressionistas. Este método debe ser substituido por estudos quantitativos. Muitos programas informáticos podem, em princípio, gerar listas de concordâncias, a partir das quais poderemos estabelecer diversos níveis de complexidade léxico-semântica.
Contudo, o problema não acaba aquí, quero dizer que não afeta exclusivamente ao significado dos termos. Observei um número considerável de casos de adolescentes que não conseguem entender os níveis mínimos de linguagem como, por exemplo, as do Quijote, uma literatura de léxico popular e escasamente culto (a explicação terá que estar, entre outros motivos, nas expressões em desuso e em que muitas palavras simples podem aludir a coisas já desconhecidas). O problema, neste sentido, adquire uma dimensão psicológica e afeta a usos e costumes. Teremos que analisar se a sensibilidade atual se está afastando da dos clássicos e se este fenômeno tem que ver com a expanção dos suportes eletrônicos na leitura.
A apresentação de textos em monitores deverá conter atrativos suficientes para que chame a atenção dos jovens leitores, caso contrário não poderá substituir a comodidade de ler livros tradicionais.
A aparição de numerosas obras na íntegra em rede mudará provavelmente os hábitos de leitura. Sua gratuidade favorecerá o estímulo à leitura.
Mas não nos iludemos: a disposição pública de qualquer obra, salvo contadas exceções, (quase sempre apoiadas ou subsidiadas por institucões oficiais), resulta do intuito de ver recompensado seu esforço de algum jeito, além do que são contempladas para tal aquelas ja estão insentas dos direitos de autor. O mundo da edição tem, como tantos outros negócios, o objetivo principal de ganhar dinheiro.
A edição eletrônica de obras deve seguir respeitando o copyright, única fonte de benefícios para algumas pessoas. Mesmo que alguns autores renunciem a estes direitos, terá que ter em conta que muitas vezes os titulares das mesmas são as editoras. Por isso as dificuldades para poder oferecer produtos gratuitos às vezes são mais complexas do que parece a princípio.
Infelizmente os produtos literários, que na atualidade se podem consultar em rede, não oferecem total garantia de fidelidade ao texto original e, o que é pior, poucas vezes são edições críticas imprescindíveis as mais das vezes. Uma possível solução pode ser uma compensação econômica significativa por conta do Estado, ao menos se concordar que a cultura é um dos melhores investimentos a longo prazo de todo sistema político.
O projeto mais ambicioso de edição eletrônica de textos no âmbito hispano é a Biblioteca Virtual Cervantes[http://cervantesvirtual.com]. Tem uma seção de obras destinadas ao público infantil e juvenil. Os obstáculos que se podem vislumbrar aquí são os já apontados anteriormente: seleção apropriada, apresentação idônea, cuidado editor.

Projetos de melhora
Entre outros possíveis recursos, ao menos três meios tem a possibilidade de oferecer algumas soluções aos problemas assinalados: guias de leitura, programas docentes de planejamentos de estudos e programas interativos em rede de animação à leitura.
No trabalho intitulado "Recursos informativos e literatura infantil e juvenil" de Arturo Martín Vega y Miguel Ángel Marzal García-Quismondo. Em: Atas do Congresso Internacional de Informação e Documentação INFO 2002. Havana, 22-26 de abril de 2002. Um CD-ROM) compilamos os recursos de informação mais importantes, entre os que figuravam em alguns guias de leitura.
Tais guias merecem uma revisão crítica profunda. A relação das mencionados em dito trabalho terá que acrescentar um livro muito interessante ao que não faz justiça seu desorientador título. Trata-se da obra de Luis Daniel González Bem-vindos à festa! (Madrid: Dossat, 2001. ISBN 84-95312-42-5.
Alguns planos de estudos (principalmente de Escolas Universitárias são ilustrativos para a formação de professores de ensino fundamental) nos quais figura a matéria Literatura Infantil. Na Internet se pode consultar os programas dessa disciplina tanto no ensino básico como nos cursos eventuais. Ver, por exemplo, as páginas da Universidade da Extremadura [http://www.unex.es/interzona/Inte...20Virtual%20proyecto/programa.htm] ou o curso de especialização organizado pela Universidade de Castilla La Mancha durante os anos 2001-2003 [http://www.uclm.es/cepli/objetivos.htm].
O surpreendente é (tendo em conta o peso dessa matéria) que apenas aparecem manuais de história da literatura infantil universal no mercado do livro espanhol. Os de Carolina Toral Peñaranda e Carmen Bravo Villasante já têm mais de uma trintena de anos. Mais recentes, mas de menor cobertura temática e demográfica, som os de Xulio Cobas Brenlla. Historia da literatura infantil e xuvenil galega. A Coruña: s.n., 1991; Caterina Valriu i Linàs. Història da literatura infantil i juvenil catalão. Barcelona: Pirene; A Galera, 1998; Eloy Martos Núñez (ed.) Historia crítica da literatura infantil e ilustrações ibéricas. Mérida: Editora Regional de Extremadura, 2000 e Ana Garralón. Historia portátil da literatura infantil. Madrid: Anaya, 2001
A falta desta classe de recursos, resultaria muito instrutivo o conhecimento de tanta literatura cinza ou fugitiva como flui nos apontamentos desta matéria tomados pelos alunos assim como nos temas privados preparados para concursos públicos.
Hoje é imprescindível revisar toda a história da literatura infantil que oferece objetos de estudo tão interessantes como, por exemplo, detectar produtos que transpassam a fronteira do público infantil (vêm-nos à memória casos como os contos para refletir de Agustín García Calvo ou os textos escritos da série de desenhos animados intitulada Os Simpsons que tanto desagrada à mulher de George Bush), politição da literatura infantil,....
Os programas interativos de fomento à leitura em rede já iniciaram com uma opinião adversa por parte da crítica conservadora.
O êxito ou fracasso desses procedimentos para que as crianças tenham afeição pela leitura dependerá fundamentalmente da configuração dos recursos.
Em todo caso, nestes processos que podemos considerar de entretenimento educativo (edutenimento), terá que diferenciar onde começa e acaba a leitura e onde começa e termina o jogo.
Mediante buscadores é possível localizar dezenas de recursos em Internet (um dos mais interessantes é Edu Rede. Está em [http://www.cajamagica.net/enlaces.html]. Consultado em 17 de junho de 2002). Rafael Reoyo reuniu, de modo muito prático, cinqüenta sites na web em um artigo de revista (o título é retórico demais, "Os 50 sites sobre o LIJ que quis encontrar na rede e nunca teve tempo de procurar". Guia de cegos, 5, 2001, pp. 37-50). Contém cinqüenta recursos de informação em rede com ótimos resumos, alguns dos quais se referem a os sistemas de aprendizagem expostos anteriormente.
O apoio ao trabalho informativo e formativo de certas instituições favorecerá sem dúvida ao apego das crianças à leitura no mundo das novas tecnologias. No âmbito hispano são elogiáveis os esforços, já conhecidos, que vem realizando a Fundação Germán Sánchez Ruipérez através de seu Centro Internacional do Livro Infantil e Juvenil com sede em Salamanca [http://www.fundaciongsr.es].
Objetivos similares, a grosso modo, perseguem, em nosso, país outras duas entidades: a Associação Espanhola de Amigos do Livro Infantil e Juvenil[http://www.amigosdelibro.com] e a Organização Espanhola para o Livro Infantil e Juvenil (OEPLI) [http://www.oepli.org].
Em Iberoamérica destacam, ademais da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) brasileira, o Centro de Difusão e Investigação de Literatura Infantil e Juvenil, fundado em Córdoba (Argentina) em 1983 [http://www.imaginaria.com.ar/00/4/cedilij.htm] e Oficina de Oficinas [http://www.geocities.com/Athens/Forum/2867/], que tem sua sede na Santa Fé de Remará (Colômbia) e que, como nos casos anteriores, preocupa-se com a difusão da literatura infantil em diversas facetas: informação bibliográfica, participação ativa, fomento à leitura, investigação,
Alguns conselhos para administrar a coleção de livros juvenis
A literatura infantil e juvenil concebida como gênero literário é um problema porque não acredito que seja o próprio leitor que defina o gênero, e que talvez o problema esteja na dificuldade que temos em entender o gosto dos jovens, pois, às vezes, consideramos-lhes imaturos e, além disto, porque somos incapazes de pensar como eles.
A produção editorial infantil hoje é tão grande que podemos afirmar que existe um excedente de livros. Isso obriga a realizar tarefas apropriadas para administrar de maneira adequada a coleção e melhorar o entusiasmo pela leitura. À continuação exponho algumas pautas:
1.- No campo da literatura infantil terá que se distinguir entre literatura escrita para crianças e jovens e literatura escrita sobre crianças e jovens. Nesta investigação é preciso excluir o segundo aspecto.
2.- O gênero literário da literatura infantil é o conto por excelência. Estudos de tipo tanto antropológico como lingüístico, realizados por Vladimir Propp, aludem à imaginação dos fatos, baseados primordialmente em tradições populares.
3.- Os clássicos nunca passam de moda. Deve-se elaborar uma lista com os textos que a tradição reconhece de primeira linha. Não devem faltar na coleção as obras mais importantes, por exemplo, de Mark Twain, G. K. Chesterton, Alphonse Daudet, Gerald Durrell, Lewis Caroll, Julho Verne, Emilio Salgari,...
É necessário tomar cuidado com a sensibilidade dos jovens. Alguns clássicos como A história interminável de Michael Ende ou O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint Exupéry, sempre me pareceram um pouco aborrecidos.

4.- Um bom sistema para incentivar o gosto pela leitura é a iniciação desta prática nos gibis (Brasil tem, entre outros, um bom especialista nesta matéria, o professor da Usp Waldomiro Vergueiro).

5.- Os livros do momento. São os de criação recente. Alguns recebem críticas favoráveis, são obras como Harry Potter de J. K. Rowling, ou Manolito gafotas de Elvira Lindo. O assombroso êxito da primeira ultrapassa os limites da literatura infantil e converteu-se em um fenômeno sociológico de primeira ordem ao chamar, também, a atenção dos adultos. Não obstante, terá que se considerar, que parte de seu êxito foi impulsionado pelo assombroso trabalho de divulgação que conseguiram as editoras. Assim como, teremos que aceitar as opiniões contrárias, às vezes encontradas em páginas Web independentes. Aqui, como em outros âmbitos da literatura, mostramo-nos partidários da crítica atrasada ou postergada.
6.- As traduções. A tradução de livros à línguas estrangeiras deve ser o mais fiel possível às fontes vernáculas. Uma tradução pode melhorar, igualar ou piorar a obra original. A literatura infantil teve um enorme desenvolvimento nos países nórdicos, entretanto as versões de algumas obras magistrais como, por exemplo, os contos de Andersen, ainda guardam pouca similitude, neste caso, com os textos em dinamarquês.
7.- Livros que não são para menores. Já em 1613 Sebastián Mey dizia no prólogo de seu Fabulario que “é muito acertada e Santa coisa, não consentir que as crianças leiam toda espécie de livros”. Neste caso se trata de uma questão de censura, mas outras vezes nos encontramos com produtos pouco adequados para a leitura infantil como, por exemplo, As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift que ordinariamente costuma-se ver em adaptações muito resumidas, embora se trate de uma obra de profunda crítica à época georgiana.
O mesmo acontece nas adaptações de Robinson Crusoe para jovens; literatura tremendamente espiritualista, na qual as considerações morais aparecem às vezes recortadas, às vezes omitidas, para que se obtenha uma leitura mais atrativa.
8.- As antologias. São excelentes substitutos de obras completas. Em geral, concentram os textos de maior qualidade e supõem, na maior parte dos casos, fazer economia. Abundam, sobre tudo, as antologias de contos de âmbito internacional, de uma determinada cultura e de escritores em particular.
9.- Os livros eletrônicos. Embora mais incômodos de ler, são também substitutos aceitáveis. Os recursos deste tipo abundam na Internet. Às vezes, os jovens, movidos pelo prohibido, vão direto à textos de acentuado caráter erótico que não conseguem nas livrarias e bibliotecas convencionais.
Nem sempre os livros proibidos são os mais atrativos. O Kama-Sutra, por exemplo, não deixa de ser uma larga, voluptuosa e pesada relação de maneiras de copular, em muitas delas impraticáveis.
10.- Materiais multimídia. O progressivo crescimento das mediatecas oferece aos individuos, interessantes oportunidades para a diversão e a aprendizagem de forma concomitante. Estas duas funções, desenvolvidas por alguns pedagogos norte-americanos nos anos 80, são conhecidas pelo nome de edutenimento (educação + entretenimento)
11.- As coleções. Movidas pelo negócio editorial muitas empresas planejam coleções e séries de literatura infantil. Alguns centros que praticam o starting order se subscrevem a esses lançamentos antes do que os livros estejam à venda. Consideramos que é mais prudente esperar e ver a qualidade das edições subseqüentes, do mesmo modo que nem sempre toda a produção de um excelente escritor seja necesariamente, excelente.
12.- Devem preferi-se as obras nas que, além da aventura, haja humor. Provocar o riso é uma medida acertada para despertar a curiosidade e prender o ânimo do leitor. Os livros de piadas como As melhores piadas de Casseta & Planeta me parecem leituras ótimas para rapazes e garotas.
Em alguns períodos, a moda era as cenas lacrimogêneas, como pode-se ver, por exemplo, em Coração de Amicis.
13.- Guia para formar a coleção. Os tradicionais repertórios de Virginia Haviland (dir.) Children’s Literature: A Guide to Reference Sources. Washington: Library of Congress, 1966) e Anne Pellowski (The World of Childre’s Literature. New York: R. R. Bowker, 1968) seguem sendo úteis. No caso espanhol é preciso acrescentar contribuições mais recentes como a Bibliografia básica para bibliotecas infantis e juvenis (Madrid: Ministério de Cultura, Direção geral do Livro e Bibliotecas, 1986), e sobretudo o interessantissimo manual de referência de Paloma Fernández Avilés, Serviços públicos de leitura para meninos e jovens (Gijón: Trea, 1998) é um trabalho exemplar atualizado; imprescindível para organizar uma biblioteca infantil e para a aquisição de documentos. Contém, além disso, um repertório muito extenso (725 autores e mais de 1 100 livros de ficção) e crítico de literatura criativa para jovens (incluindo gibis, ilustradores,...).

Parece que há uma obsessão em que as crianças leiam acima de tudo e quanto mais melhor. Não sou partidário da quantidade e tãopouco devem preocupar tão as horas de leitura quanto a qualidade das obras.


O problema é determinar a qualidade. A qualidade está intimamente relacionada com a seleção e a seleção resulta às vezes uma questão circunstancial. Por exemplo, as crianças nórdicas gostam muito dos contos de fadas, mas as brasileiras podem se interessar pelos livros de história como o do Eduardo Galeano As veias abertas da América Latina (1ª ed. em espanhol, México: Século XXI, 1971. Existe uma tradução em português, v.g. 37ª ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1996) que durante muitos anos, tanto com governos progressistas como conservadores, vem sendo leitura quase obrigatória para os jovens, na Venezuela, antes de chegar à Universidade.
Finalmente me ocorre expor uma reflexão que considero evidente: quando se fala muito em uma matéria é porque freqüentemente esse tema é problemático. Se estivermos concebendo com insistência programas para que os adolescentes leiam, é porque não lêem tudo o que, em nossa opinião, devem ler; mas tentar convencê-los de que a leitura é fundamental para viver, pode ocasionar efeitos contrários à nossos propósitos.
É difícil conseguir que os jovens leiam, quando o que prepondera na sociedade atual é a cultura da imagem. Se não lêem o suficiente pode atribuir-se a falta de meios materiais para fazê-lo, ou porque não soubemos oferecer-lhes produtos apropriados. Em qualquer caso devemos ser extremamente respeitosos com as pessoas e aceitar, como diz Pennac (Como uma novela. Barcelona: Anagrama, 1992), que um dos direitos do leitor é o direito a não ler. Além do mais, é uma questão que cada indivíduo em particular debe resolver.


ANEXO

Algumas leituras favoritas de minha juventude:


Mark Twain. Tom Sawyer.
As mil e uma noites.
Giovanni Boccacio. Decameron.
Marcel Mithois. Une se jolie petite peste. Traduzida em espanhol como Mi mujer me vuelve loco (Minha mulher me deixa louco).
Groucho Marx. Groucho e eu.
P. G. Wodehouse. O inimitável Jeeves.



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