Linhas orientadoras para a leitura de poemas de fernando pessoa ortónimo



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LINHAS ORIENTADORAS PARA A LEITURA DE POEMAS DE fernando pessoa ortónimo

CONTEÚDOS ESSENCIAIS




  1. Tensão sentir / pensar

A dualidade do sentir e do pensar, nas suas ambíguas significações de emoção e razão, conhecimento e sensibilidade, manifestam-se com insistência na poesia de Pessoa , quer como ortónimo quer como heterónimo. Há sempre entre estes termos uma tensão permanente . Pessoa exclama « Basta pensar em sentir / para sentir em pensar »1, mas logo depois noutro poema « Que importa , se sentir / É não se conhecer ? » ou ainda , num instante em que se encontra exausto desse esforço de ajustar o pensamento às sensações, acaba por desalentadamente desabafar : « Cansa sentir quando se pensa »2.

Este acordo e desacordo entre sentir e pensar é uma constante na poesia de Pessoa. Só na linguagem poética se pode manifestar essa adequação e inadequação simultânea da razão e da sensibilidade.

O poeta é um fingidor, um racionalizador do sentimento, e a produção poética é uma acção lúdica. O poeta opera pelo distanciamento em relação ao real, pela criação de novas relações significativas de uma interacção constante entre dois núcleos essenciais – o pensamento e a sensibilidade.



Pessoa afirma que « Toda a arte é o resultado da colaboração entre sentir e pensar, não só na acepção de que , ao construir uma obra de arte, a razão trabalha com elementos fornecidos pela sensibilidade, mas também no sentido de o próprio sentimento com que a razão assim trabalha, e que é matéria a que a razão impõe determinada forma- é um sentimento dentro do qual o pensamento colabora3.
« Um dos malefícios de pensar é ver quando se está pensando. Os que pensam com o raciocínio estão distraídos. Os que pensam com a emoção estão dormindo. Os que pensam com a vontade estão mortos. Eu , porém , penso com a imaginação... »4



  1. A dor de pensar e a tensão entre consciência e inconsciência




  • A inteligência é para pessoa um instrumento de destruição que vitima aquele que o maneja, lhe provoca dor, o cansa e corrói, que lhe mina as condições essenciais de felicidade., mas é também graças a essa inteligência que se acorda para a existência, se acorda do sono do nada que é não pensar.

  • O eu poético da poesia ortónima , experimentou a par do orgulho de conhecer a pena de lhe ser inacessível a felicidade dos que não conhecem.Ele sabe que o privilégio de ter uma extraordinária lucidez se paga caro. Quanto mais se conhece mais dor se sente

  • Para ele racionalizar e intelectualizar excesso leva à infelicidade. A felicidade só existe na ordem inversa do pensamento e da consciência. O eu poético deseja ser feliz, só que a felicidade não se coaduna com reflexão, consciência e racionalidade

  • O eu poético assume-se prioritariamente como alguém que submete o sentimento à razão

  • Pessoa e os seus heterónimos são unânimes em exprimir a nostalgia do estado de inconsciência. O poeta pergunta-se se não valerá mais o bem – estar físico do gato que brinca, obediente às leis do instinto. E pergunta-se ainda para que serve essa trituração mental que não conduz a nada. Pessoa inveja a inconsciência de uma flor. Isenta de duplicidade a flor não se defronta com o problema de ser sincera. Existe em muitos passos da sua poesia uma aspiração à vida instintiva, embora normalmente esta aspiração seja apenas momentânea e logo a seguir o poeta reconsidere. Quer e não quer ser inconsciente. Formula então uma ambição impossível : ser inconsciente e ter consciência disso.

  • Para ele , no entanto, ser inconsciente é não ser. Só a inocência e a ignorância são felizes mas não o sabem e para ele ser sem o saber é ser como uma pedra. A alegria inconsciente não é alegria.

  • Ser inconsciente , mas sem deixar de ser consciente é impossível. Essa impossibilidade será a geradora de grande parte da angústia que lhe oprime a alma e que o leva muitas vezes a uma ânsia de libertação. Só que essa libertação não passa por deixar de ser consciente. O poeta mostra-se empenhado no conhecimento, no pensamento , mas também na procura dessa felicidade , apesar da consciência que tem da brevidade da vida



  1. O Eu Fragmentado / Estados de espírito do eu / Eu – Mundo exterior




  • No ortónimo são nítidas as marcas de isolamento, solidão, insegurança, hesitação, dúvida, introspecção, fechamento sobre si, que revelam a incapacidade de um verdadeiro relacionamento pessoal e afectivo.

  • Vários são os poemas , do ortónimo e dos heterónimos , onde a temática da solidão nos aparece. O eu poético aparece-nos triplamente solitário : perdido diante da infinidade cósmica, divorciado dos outros por se ter adiantado demais aos companheiros de viagem e afastado de si próprio por não encontrar a unidade que nem os deuses têm

  • Ao longo da vida e da obra, Pessoa, está obsessivamente só, mas é ele o criador da sua solidão. Pessoa está só por se ter afastado de um mundo de felicidade a que não conseguirá novamente voltar. Perdeu o paraíso e aparecem-nos um conjunto de espaços que recordam um mundo feliz , mas também um outro conjunto de espaços que objectivam a limitação de um presente triste. Depois de perdido o paraíso da alma, o eu poético sente-se deslocado e situado num mundo que não é para ele. Na prisão em que muitas vezes se acha não é mais que um exilado de uma outra vida que pensa voltar a encontrar.

  • Em muitos poemas aparece-nos dominado pelo tédio, pela náusea pelo cansaço. Céptico, angustiado, mas lúcido. Sem vontade , abúlico, sente estranheza e perplexidade. Procura resposta na religião, na metafísica no esoterismo. Refugia-se na noite, no sonho na música. Mas descobre que nenhuma destas respostas é viável e daí a abdicação, daí o fingimento , o outrar-se. Inquieto perante o enigma do mundo, que é indecifrável porque é opaco, sente-se só interiormente, sofre porque pensa, desencanta-se, espera. Os seus momentos breves de plenitude aparecem associados à música, à infância e ao sonho.

  • Melancolia , nostalgia, angústia, tédio, tendência para a resignação, desilusão , abatimento, desalento, infelicidade, timidez, intranquilidade, provocada por uma alma demasiado sensível que não é possível satisfazer suficientemente são assim alguns dos estados de alma com que encontramos o eu poético ;

  • O eu está permanentemente à procura mas consciente de que nunca encontrará; tem ânsia de conhecimento, de descoberta da sua própria identidade ;

  • O eu tenta a racionalização constante das sensações e está em continuo choque entre pensar e sentir,

  • Há em Pessoa , frequentemente , um desajustamento entre o querer e o fazer. O sujeito poético quer o infinito mas fica sempre na metade. Mostra-nos por isso uma resignação dorida de quem sofre a vida sendo incapaz de a viver. O sorriso que traduziria a felicidade está quase sempre ausente da sua poesia. Diz ele « o sorriso é o rumor de uma festa longínqua, em que nada de nós tomas parte , salvo a imaginação »5
    A vida não lhe traz felicidade e por vezes ele alimenta o sonho da viagem, mas nunca chega a sair do cais. Não tem alento para fazer a mala.

  • Existe no eu uma tendência para o misticismo e a espiritualidade, para o misterioso, o obscuro o fingimento;

  • O eu busca o absoluto e um sentido para a vida.

  • Sente muitas vezes estranheza face ao real , que é opaco e impenetrável. Ligado a este sentimento aparece-nos os sentimento de exílio, do mistério, a ideia de que a vida é sonho, ilusão. O sonho é o único lugar de realização do tudo.

  • O exterior aparece muitas vezes como forma de expressar o mundo interior. Assim uma flauta que trina, a brisa que sopra, a nuvem que vaga, o gato que brina, a ceifeira que canta, são pretextos para a deambulação do seu pensamento e possibilitam o extravasar de desencantos, frustrações, tédios, dores.

  • O eu de Pessoa é assim um eu fragmentado. Continuamente sente que foi outro, que pensou outro, que sentiu outro. « sou múltiplo . Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única realidade que não está em nenhuma e está em todas»» são afirmações que encontramos na obra de Pessoa.6

  • A sucessiva mudança de tudo leva-o a sentir-se estranho a si mesmo. A auto-análise aparece com frequência nos poemas do ortónimo. Viajando constantemente ao seu interior, ele enrola cada vez mais o novelo das suas fragmentações . O que encontra dentro de si é um ser perdido no labirinto de si mesmo, não encontrando o fio que conduzirá à saída.




  1. O Passado / A passagem do tempo /A nostalgia do regresso à infância /A Casa




  • A obsessão do paraíso perdido vai colocar-nos no espaço do lar também perdido. O eu perdeu a casa da infância e perdeu também o paraíso de não pensar e da inconsciência.

  • As imagens da casa e do lar encontram-se entre as mais frequentes na poesia de. Fernando Pessoa Ortónimo em muitos dos seus poemas recorda a casa como uma analogia do eu. « A casa que hoje sou » 7. A casa com múltiplas divisões. A casa simples ( de Caeiro ) ou a casa com vários andares, com cave, com sótão e por conseguinte símbolo de verticalidade. O Sótão podendo ser comparado ao pensamento claro e consciente. A cave à entidade obscura, as escuras e secretas profundezas da mente . Corresponde ao estado sombrio do isolamento.

  • A casa de infância é um espaço longínquo, uma região de recordação que constitui a zona de protecção que o poeta a cada passo precisa. Ele por vezes habita-a em sonho e a imagem que nos dá dela é uma fixação de uma infância que ficou para trás. A casa chorada seria o canto do mundo onde ele agora poderia ser feliz. Mas ela já não é, porque não existe. A felicidade não é por isso possível. « Pobre velha casa da minha infância perdida ! »




  • Quando pretende reconstruir por dentro o passado depara-se com um vazio. A infância que lembra não é a infância que teve, mas uma representação actual da infância.




  • « Vivo sempre no presente. O futuro não o conheço. O passado , já não o tenho. Não tenho esperança , nem saudade »8Apesar do que ele diz nestas frases, notamos na leitura da sua poesia ortónima que o bem pressentido esta localizado muitas vezes no passado, numa infância remota. Mas essa infância não é autobiográfica. A infância é um símbolo, o símbolo da inconsciência, do sonho, de uma felicidade longínqua, de candura e claridade. Associadas à infância andam os sinos da aldeia, o jardim, a ama, a velha tia. Mas estas são imagens de uma idade perdida remotíssima. É um paraíso perdido que já não se situa no tempo. De tudo isto resulta a melancolia.

  • Se ao poeta fosse possível destacar um determinado período da sua existência e nele permanecer decerto escolheria o tempo da infância. A descida ao passado da infância tem como causa primeira a decepção e o malogro do presente. No momento actual da sua vida infeliz de adulto, agarra-se a esse tempo que , tal , como o lar perdido, tem o valor de um símbolo. Nele se contém a inconsciência e a irreflexão de uma felicidade que agora quer possuir. A sua memória não guarda do passado a medida da sua duração nem a ordem lógica dos episódio. Numa reconstituição fragmentada , imagina, mais que lembra, acontecimentos isolados que lhe parecem Ter sido instantes decisivos para a construção da felicidade morta. Recorda um tempo cheio de rupturas , de acções sem ligação imediata de duração, só com continuidade na emoção e na razão que a evoca. Do que passou não há referências a duração temporal

  • Na poesia ortónima aparece-nos frequentemente a ideia obsessiva de que mudamos e morremos com o tempo. Muitas vezes até o presente lhe sabe a coisa morta. Na poesia ortónima ele chega mesmo a pensar que não passa de um ponto de convergência entre vários tempos.. Quanto ao futuro ele sabe que está fechado pela morte e diante do futuro fechado está a angústia. Pessoa quer por isso fugir , não ao tempo mas À consciência dele e por isso também o desejo do sono.

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  • Fernando pessoa buscou avidamente a felicidade. Buscou sem a encontrar porque estava obcecado pelo desejo de conhecer. Minado por uma inteligência hipertrofiada quase não era capaz de sentimentos altruístas o que o levava a um a grande solidão. Vive fechado no seu egotismo. No entanto, de quando em vez as brisas favoráveis trazem-lhe visões de « coisas lindas » que estão para além do terraço, do muro. Pensar, sonhar constitui a sua vocação.



5. Tensão sinceridade / Fingimento



  • O poeta é um fingidor » diz Pessoa. A base de toda a arte é não a insinceridade mas sim uma sinceridade traduzida. O poeta finge emoções imaginadas, sentidas no intelecto, artisticamente sinceras e finge também outras vezes, emoções que humanamente sentiu. Mesmo no segundo caso há fingimento porque as emoções passam a ser forma , são filtradas. Dizer por palavras implica um processo de intelectualização. A arte é a intelectualização da sensação ( sentimento ) através da expressão. A emoção do leitor será ainda outra diferente da sentida e da expressa. No acto de ler convergem o objectivo e o subjectivo.

  • Um poema é um produto intelectual. O poeta exprime dor no poema, mas torna-se estranho a essa dor escrita. A emoção é responsabilidade do leitor e não do criador. O poeta caracteriza-se pelo fingimento. Esse fingimento é o resultado de uma intelectualização de sentimentos. O poeta é um racionalizador de sentimentos e a produção poética é um acto lúdico. O poeta opera pelo distanciamento em relação ao real, pela criação de novas relações significativas, através de uma interacção constante entre o pensamento e a sensibilidade.. è isto que se passa com o artista em geral.O poeta diz ainda que toda a obra de arte é um trabalho de colaboração entre sentir e pensar. A poesia não é a representação directa do real. Para ser poesia, para ser arte, é necessário que o real seja modelizada, transformado previamente pelo fingimento. O coração submeter-se À razão, mas esta não poderá ignorar o sentimento. Ao escrever o poeta distancia-se das sensações, coloca-se ao nível do fingimento., do pensamento, da racionalidade ao nível do que não está ao pé. Quando consegue ultrapassar essa barreira do palpável pode ver a coisa linda, essa coisa que é sempre objecto de procura, porque não é concreta nem palpável.

  • « A composição de um poema lírico deve ser feita não no momento da emoção , mas no momento da recordação dela. Um poema é um produto intelectual. « O acto poético por excelência , diz Pessoa , resulta de um processo de despersonalização de emoções e sentimentos, não necessariamente coincidentes com os do artista, implicando o desdobramento do autor em várias personalidades poéticas »9

  • Fingimento e mentira não são sinónimos em Pessoa . Fingir significa recriar reelaborar, filtrando com a imaginação criadora , deixando no acto da escrita o coração de lado.

  • Coração é sinónimo de sensibilidade; razão é sinónimo de inteligência




  1. Características estéticas de Fernando Pessoa Ortónimo



  • Grande sentido de musicalidade

  • Versificação regular e tradicional

  • Eufonia

  • Rimas, ritmo , aliterações , onomatopeias

  • Transporte ou encadeamento dos versos

  • Adjectivação expressiva

  • Utilização expressiva de modos e tempos verbais

  • Uso frequente do presente do indicativo

  • Paralelismos e repetições

  • Comparações

  • Metáforas

  • Uso de Símbolos

  • Vocabulário geralmente simples

  • Associações inesperadas

  • Desvios sintácticos

  • Pontuação emotiva

  • Uso frequente de frases nominais

  • Paradoxos – reúne numa mesma afirmação antinomias aparentemente inconciliáveis, mas que no pensamento do poeta são conciliáveis. Se o mundo dele é incongruente, contraditório e absurdo, porque não exprimi-lo em paradoxos ? ex- »viver e morrer são a mesma coisa », « Teve razão porque não a teve »10

  • Oxímoros- Associa um substantivo e um adjectivo contraditórios ou qualifica o mesmo substantivo com dois adjectivos antitéticos ( ex. alegre e anónima viuvez. )

  • Preferência pela métrica curta

  • Uso frequente da quadra ( gosto pelo popular )

  • Raciocínios antitéticos

  • Uso do hipérbato

  • Criação de neologismos quer de forma quer de sentido ( girassolar, almar... )- estes neologismos pode traduzir a novidade do modo de ver ou de pensar, o sentimento do artificial e do fabricado, das próprias vivências fingidas, o gosto de surpreender o leitor. Se a substância do poema é produto da inteligência porque não fabricar palavras também?

  • Verbos com sentidos peculiares ( ex. Doer é produzir dor moral, pesar é incomodar, importar... )

  • Emprego do particípio passado e do particípio presente muitas vezes criado neologisticamente.

  • Tendência para substantivar o adjectivo, o advérbio e até o pronome.

Metáforas / palavras símbolo em Fernando Pessoa Ortónimo e heterónimos


Mala – símbolo da arrancada para a viagem da vida. È condição indispensável sem a qual não se pode partir. È a desculpa de Pessoa para não partir. Ele tem desejo de partir mas não tem vontade e assiste-se à oscilação entre o ter de arrumar a mal e a falta de vontade de o fazer.

Elo enquanto homem , e escrevendo como ortónimo ou como Campos é também uma mala. Dentro dessa mala reina a desordem e a perturbação.

Para Campos, a mala pessoal é um espaço que não se franqueia a qualquer um , um espaço de intimidade, um ponto de convergência de interioridade, um esconderijo que é a própria vida.
Abismo: O abismo é tudo: céu e mar, vida e morte, alma e pensamento. O poeta está situado num mundo abismal porque desconhecido e todas as realidades materiais ou imateriais vão encontrar lugar nesse espaço tremendo e indefinido. No Mundo de Caeiro não há acidentes orográficos que mereçam, tal nome. Ele não tem filosofia; o seu pensamento nunca dá saltos em despenhadeiros. Para Reis o abismo é a alma e a morte. Para Campos é toda a existência. Para este heterónimo o destino do poeta aparece-lhe na alma como um precipício
Ilha Longínqua – O poeta não a objectiva, somente a situa algures nos mares do pacífico e perde-a na imensidade que por ser indefinida é infinita.


Àgua - A poética de Fernando Pessoa é atravessada insistentemente por um elemento que é a ÁGUA. Aparece-nos a água – elemento, a humidade, o orvalho, a chuva, a neve, o oceano, o mar, o rio, catarata, regato, lago, charco. Banha espaços e temos a praia, o cais, o porto, a doca, a ilha, o cabo, a margem. È atravessada por instrumentos- naus, navios, paquetes, barcos. Nele estão marinheiros, gajeiros, pilotos, capitães, piratas, tripulantes. Corre, passa, embarcam nela, naufragam nela, banha e é navegada. È uma água que pode ser parada ou dinâmica, aceite, desejada, triste, profunda. Só não é contente, nem viva nem transparente

Rio – Símbolo do fluir do tempo é comum a Caeiro , Campos e Pessoa Ortónimo. De minuto a minuto são águas diferentes as que passam. Do mesmo modo a substância do ser se transforma. A mudança constante da humanidade, do indivíduo, do pensamento ou do sentimento espelham-se no fluir das águas do rio Os rios calmos que nos aparecem em Reis devem ser por nós imitados no seu curso. Os rios transportam consigo a marca de uma transitoriedade da consciência, da razão e da vida. O pensamento de pessoa tem a fluência e a profundidade de um rio, rio subterrâneo de que desconhece a foz e a nascente, mas que vai desembocar num além que o poeta perde

Caeiro passa como o rio. Reis passa com o rio. Este é o poeta da tristeza da passagem. À sua água está ligado o significado do correr do homem, do correr dos dias, as conjecturas do destino funesto, da morte e por isso essa água é um elemento melancolizante..

Reis defende que devemos deixar-nos ir como a água, vivendo o momento que passa e aceitando-nos como realmente somos, felizes porque inconscientes, divididos dentro de nós com a certeza da brevidade da vida, com a ilusão da liberdade que é a forma de a Ter e indiferentes a tudo. Os rios de Reis são por isso tranquilos porque o ideal de vida ou morte a que ele se quer submeter é determinado por um movimento interior de equilíbrio e lentidão. Na contemplação do movimento calmo da água, aprendamos a sentir-nos ir também. Para ele contemplar a água é morrer. Por isso a poesia de Reis é triste. Contemplar a água é contemplar-se a si próprio no caminho para o fim. Para Campos contemplar a água é ainda conhecer-se vivido pelo tempo é deparar com o tédio e com o absurdo.

A água de Caeiro é aceite. A de reis é aceite mas triste. Triste porque nos acorda para a certeza da morte.


Lago - Na poesia de Pessoa nem sempre a água corre. Embora raramente aparecem os lagos parados , silencioso e solenes. Estes lagos saem do interior de si próprio, do mapa da desgraça que traz gravada em si. Se cada rio reflecte a morte, cada lago a contém. O lago morto é por vezes o seu coração.
Mar- Também o mar aparece com frequência na poesia pessoana. As paisagens marítimas da sua poesia são experiências oníricas.

Campos , em sonho, parte de um cais para o bulício da vida de todos os navios, de toda a gente que neles passa. parte para todas as largadas e todas as chegadas, para tudo que há na vida marítima e que ele quer sentir na própria pele. Quilhas, mastros, velas , rodas do leme, caldeiras, escotilhas, ..., a profusão de paquetes, de navios, a agitação da vida do mar, tudo isso o inebria, o penetra fisicamente e o delírio das coisas do mar toma-o pouco a pouco. O prazer sádico da visão de um capitão enforcado, os fragmentos de corpos na água, as cabeças de criança espalhadas aqui e ali, o próprio sangue derramado no mar, a dor de toda a aventura marítima são o mal de todo o universo concentrado.

No mar vê o poeta o meio dinâmico proporcional À sua dinâmica. A do mar na sua violência recebe facilmente todos os caracteres psicológicos de um tipo de cólera e no praiar clamo recebe também a serenidade dos sonhos passados e dos anseios felizes.

Mas o mar cansa. Um dia regressa-se ao porto.. Desaparece o mar movimentado para aparecer o mar calmo inatingível.

Temos ainda o mar da Mensagem. È a própria substancia dos sonhos de religiosidade e de vida. É um mar arquétipo, cheio de profundo sentido mítico. Um mar ideia em que Pessoa descreve destinos espirituais numa busca de Absoluto, e onde se cumpre a vida de cada ser humano .È um mar anónimo total ou infinito sempre sinónimo de absoluto. Pessoa tem por ele o respeito de quem o vencer e a admiração de quem o enaltece.

Na poética de Campos o mar tem a força de um adversário com quem é obrigatório medir-se.

Em todos os outros têm a tranquilidade de um símbolo materno, apela a uma existência uterina.

A água é símbolo de horizontalidade.



Ar – O ar aparece frequentemente usado como símbolo na estética pessoana. É no ar que ele integra os sonhos, com que constrói o tempo, os versos e a vida. O poeta tende para uma verticalidade, para um destino de grandeza e de elevação. O ar é o elemento material fundamental nessa ascensão.

Na obra de Pessoa temos vários modos de captar a sua vocação ascensional, através d e objectivações que o ar tem: o vento, a brisa, o som, o voo, a nuvem, o céu, a noite.

Som céu, ar , brisa, nuvem, vento, luz , sombra, são uma escala ao longo da qual o poeta experimenta graus de sensibilidade especial. São a substância da libertação do eu. Levam-no à esfera da altitude imaginária, conduzem-no a um universo lírico especial de um além e de outro além e de um mais além ainda. O ar é um dos grande s símbolos associados ao desejo de liberdade triunfante, aspiração a uma libertação da matéria. Ao r é a conquista de um espaço de altitude, de verticalidade e de solidão.

Árvores - O arvoredo toma jeitos de imagem de ascensão.


Noite – a noite é para Pessoa uma totalidade. É cheia de mistério e de religiosidade. È uma noite-ideia em que inscreve a procura de um Absoluto. Ponto de partida para o sonho, para a emoção poética, para o acordar do pensamento, para a esperança. Noite enigma, mas noite libertadora. Noite sem margem ou contorno porque o sonho não tem obstáculo.

Campos foi de todos o que objectivou este símbolo com mais plenitude. Nele a noite é uma unidade em que tudo se priva da sua individuação. O espaço só tem uma dimensão. Montes e árvores fundem-se. A realidade é incolor e informe, a matéria não tem acidentes, porque tudo perde as arestas e as cores. A noite é o instante único em que este poeta sempre recomeça o mundo e a esperança.


Mas em Pessoa ortónimo às vezes a noite é também morte. È sinónimo de vazio e desconhecido À volta do poeta e dentro dele. È destruição. O poeta abandona as ilusões, os meios com que luta na vida , abdica de tudo para apelar a um aniquilamento.

Vento – Elemento harmónico. Não é violência, nem voz agressiva, porque não participa da cólera de um universo, mas de um sonho de sublimação libertadora. O vento contribui para a ascensão das folhas e para a elevação das coisas depositadas no chão.

Música – a música é uma caricia do sonho puro.
Céu – lugar em que as formas não desempenham nenhum papel. É o espaço que se vê mas onde não há nada que ver. O longínquo do céu e do imediato do poeta conjugam-se. Está também ligado ao anseio de ascensão .Está ligado à verticalidade.

1 Pessoa Ortónimo

2 Idem

3 Fernando Pessoa, « Páginas de Estética e de Teoria Literária » Ed. Ática

4 Fernando Pessoa- Bernardo soares , « Livro do desassossego »

5 In Fernando pessoa « Páginas de Doutrinação Estética »

6 Fernando Pessoa , « Páginas de estética e de teoria literária »

7 Pessoa Ortónimo

8 Fernando Pessoa – Bernardo Soares , « Livro do Desassossego »

9 in Maria teresa Azevedo « Em torno do Poeta Fingidor »

10 Pessoa Ortónimo





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