Linguagem e cultura



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Encontro12.10.2018
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Linguagem como espelho de uma cultura



A palavra cultura, como muitas outras pode ser tomada em vários significados: opõe-se a barbarismo, trabalho do campo, volume de informações, sinônimo de excelência em letras e artes, erudição (cultura inútil) reverência aos deuses. Tomemos aqui, cultura no seu sentido antropológico; maneira como as pessoas usam os meios naturais para garantir sua sobrevivência, seu conforto, seu prazer. Não se fará nenhum julgamento de valor a priori, quanto à qualidade, estética ou intelectual de arte, literatura etc. Cultura será o conhecimento que a pessoa tem em virtude de ser membro de determinada sociedade. Conhecimento, aqui, envolve o saber prático, quanto a saber se algo deve ser feito de determinada maneira para melhor resultado, independentemente de sua veracidade real. Não se distingue, nesse momento, o saber teórico do saber prático, ou mesmo da chamada superstição. A linguagem é um dos traços culturais adquiridos (a par de outros, religião, conduta etc) em função de o indivíduo pertencer a determinada comunidade, não havendo, para isso, disposição inata, nem limitação física, como acontece com habitação, vestuário etc. O indivíduo não cria a linguagem , faz uso daquela que a sociedade lhe transmitiu. Não há limites nas diversas estruturações lingüísticas. Por outro lado, os vocabulários não são isomórficos. Os esquimós não têm uma palavra para neve; os aborígenes da Austrália só contam até quatro. Mesmo dentro de uma comunidade lingüística, a codificação não é constante nem uniforme. (cara, rosto). Entre duas sociedades, haverá sempre um grau maior ou menor de justaposição. Só podemos codificar aquilo que nos é conhecido. Os próprios recursos do sistema permitem aos falantes aumentar a possibilidade de codificação, quando interessa, ou surge a necessidade, não sendo a língua uma finalidade em si mesma e sim um fator de expressão e comunicação social. É uma pauta sobre a qual se realizam os diversos atos de fala. É, também, acompanhamento de cada fato social, permitindo atuação dos membros da comunidade, uns sobre os outros. Daí o caráter mutante das línguas. Todas as línguas estão em mutação, só não mudam mais pelo peso da tradição (gramática e dicionário). Há sempre lacunas lexicais e não só lexicais. (pronomes de tratamento). Há elementos da língua mais resistentes às mudanças: as preposições, conjunções, flexões verbais. Já o inventário dos nomes e verbos está sempre em aberto. Para Humboldt, a diversidade entre as línguas não é só uma questão de sons e signos, é uma questão de visão do mundo, de diferentes perspectivas. Quando se passa de uma língua a outra, perde-se a perspectiva. Lacan diz que nenhuma linguagem pode dizer toda a verdade de outra linguagem, porque ambas são apenas elementos dispersos de uma linguagem inicial e onipresente.

Daí partindo, temos o objeto da Filologia – estudo de uma sociedade através de seus registros escritos (já que orais, antigos não há). Portanto, a primeira tarefa do filólogo é garantir a autenticidade do texto, por processos científicos. Uma vez autenticado o material de trabalho, esbarramos na dificuldade de passar a visão do mundo expressa em um idioma a outro idioma que recorta outra visão do mundo.

Exemplo: A Republica de Platão (em grego politeia) não trata de república, tal como a conhecemos – forma de governo. Trata da coisa pública, de modo geral: Res publĭca. Pathos, em grego pode ser emoção, sensação, sentimento, que em português têm significados diversos. A qual desses significados Aristóteles se refere, na sua Poética. Já o verbo poios , tinha o significado de criar; A poética trata da criação (no caso, a literária) não necessariamente em forma de poesia, tal como a entendemos. É preciso conhecer a época e seu contexto social.

Tomando o Novo Testamento com documento histórico: é vazado na linguagem oriental, revela o pensamento oriental, com sua visão do mundo. Contar histórias para passar ensinamento sempre foi costume dos povos semitas. Inicialmente, o Evangelho, pelo menos o de S. Mateus, foi escrito em aramaico, muito tempo depois de decorridos os fatos a que se refere. Os Evangelhos de Marcos, Lucas e Mateus são chamados sinóticos, pois guardam uma certa semelhança. O Evangelho de João é o mais distante dos fatos, é um ancião contando suas memórias. Usa a expressão “filhinhos”. Lucas, como médico, era o mais instruído: cita como o Menino Jesus foi enfaixado ao nascer; na passagem da mulher que padece de um fluxo de sangue, os outros Evangelistas mencionam ter ela gasto muito dinheiro com médicos, menos Lucas. Marcos, o menos instruídos, faz frases incompletas, com falta do verbo da oração principal, típico de quem não tem muita intimidade com a linguagem escrita. Como era de se esperar teve poucos leitores, pelo analfabetismo em geral, da época, sobretudo dos primeiros cristãos. Do aramaico, os Evangelhos foram passados ao grego, mas no grego mais simples que o de Platão, a Koiné, já que o Cristianismo penetrou pelas classes mais humildes. Usou-se, por exemplo, o termo diabo (do grego diabolos – dia = através + bolos = lançar). Diabo é aquele que lança obliquamente, “que joga verde para colher maduro”, não necessariamente o ser que habita regiões extra-terrenas ou que aplica terríveis castigos. Na passagem em que Jesus pergunta a Pedro, três vezes: - Tu me amas? Em cada vez usa-se um verbo diferente em aramaico e em grego: phileo (ser adepto) hedon (ter prazer na companhia) e agape (amar como deus). Na terceira vez, Pedro se impacienta , aparentemente. Na verdade discorda da terceira espécie de amor, talvez supondo já um exagero. Quando os discípulos perguntam: És Elias, és esse outro profeta? E dizem: Ho propheta eis (És o profeta), isto é o maior dos profetas, o profeta padrão. No Latim, como não há artigos, perdeu-se a expressividade. Uma solução seria usar um pronome demonstrativo – aquele.

Ainda no Latim, infernus é aquilo que está em posição inferior em relação ao falante, (comparativo de infra) não um lugar de punição eterna. Como pelos vulcões, fontes de água quente, sabia-se haver fogo sob a crosta terrestre, associou-se inferno a fogo eterno e daí a castigo.

Em uma das Epístolas, Paulo diz: “Essas palavras escrevo em grandes letras, com a minha própria mão”. Não são palavras mais importantes que outras e sim escritas sem ajuda de um discípulo (Timóteo ou Barnabé) naquele momento, já que Paulo enxergava com dificuldade.

Passando ao português, temos o primeiro documento escrito em puro português em Camões com Lusíadas, celebrando o grande feito dos lusitanos. Enquanto Gil Vicente usava castelhanismos, D. Dinis provençalismos, Camões produziu a primeira obra no português dito castiço, sem misturas. O poema foi escrito em Goa, onde o autor estava em semi-desterro, pelas suas aventuras amorosas. Foi nomeado “curador de defuntos e ausentes” o que lhe dava lazer suficiente para produzir sua obra e, por outro lado, deixava-o a salvo de outras influências, uma vez que havia poucos europeus nas redondezas.

Em resumo, a língua, através das obras nela vazadas, mostram uma visão do mundo. É manifestação de uma cultura, necessita de uma cultura que lhe dê suporte, sendo a própria língua também suporte dessa cultura. Daí o fracasso das línguas artificiais. O Esperanto é a 35ª tentativa, na história da humanidade, de se criar uma língua artificial. Daí, também, o perigo do abuso dos estrangeirismos, desnecessariamente.


LEIA MAIS:

FIORIN, José Luiz. Linguagem e ideologia. S. Paulo: Ática, 1997.

GNERRE, Maurizio, Linguagem, escrita e poder. S. Paulo: Ática, 1997.

LYONS, John. Linguagem e lingüística. Rio de Janeiro: Zahar, 1987.



ORLANDI, Eny P. A linguagem e seu funcionamento. S. Paulo: Brasiliense, 1983,

PIGNATARI, Décio. Informação, linguagem, comunicação. S. Paulo: Cultrix, 1989.



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