Licença monitor(a), já cheguei para a aula radiada da Escola Radiofônica da Emissora de Caicó (1963-1967)



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PRÁTICA EDUCATIVA ESCOLAR MEDIADA PELAS AULAS RADIOFÔNICAS DA EMISSORA DE EDUCAÇÃO RURAL DE CAICÓ (1963-1967), SOB A DIREÇÃO PEDAGÓGICA DO MOVIMENTO DE EDUCAÇÃO DE BASE - MEB

Mário Lourenço de Medeiros (mariolourencodcsh@hotmail.com)

Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Investir em métodos e instrumentais que possibilitassem, de forma abrangente, célere e economicamente viável, superar o expressivo contingente de analfabetos que perpassava as estatísticas oficiais do Brasil, na segunda metade do século XX, constituiu-se razão precípua para o investimento em um modelo de prática educativa escolar com o auxílio do rádio.

A Emissora de Educação Rural de Caicó (RN), inaugurada no dia 1º de maio de 1963, assumia o compromisso da transmissão do programa de Educação de Base de Jovens e Adultos, com a direção pedagógica do Movimento de Educação de Base (MEB), no âmbito da circunscrição eclesiástica da Diocese de Caicó, Estado do Rio Grande do Norte, sob o governo do bispo Dom Manuel Tavares de Araújo.

A investigação concluída tem por objeto de estudo a compreensão de uma prática educativa que visava, precipuamente, à instrução das populações campesina e suburbana, especialmente de jovens e adultos, e que, na região do Seridó norte-rio-grandense, encontrou esteio na Emissora de Educação Rural de Caicó, de propriedade desta diocese.

Ressalte-se a postura defensiva que a Igreja Católica, a princípio, adotou em relação aos modernos meios de comunicação de massa. Uma atitude de abertura em função dos meios tecnológicos de comunicação pode-se dizer que principiou com o advento da Carta Encíclica Rerum Novarum (1891), de Leão XIII. Educar a classe trabalhadora pelo ensino católico, pela propagação da fé e pela evangelização, correspondia a um dos princípios dessa Encíclica.

Não se pode esquecer a vertente educativa com a qual, no Brasil, emergiu o rádio. O grande entusiasta da comunicação radiofônica, Edgard Roquette-Pinto, que apoiado por Henrique Morise, fundou a Radio Sociedade do Rio de Janeiro, em 20 de abril de 1923 defendia que o rádio seria o instrumento capaz de disseminar uma educação massiva. Lembra Blois (2004, p. 148-149) que a fundação dessa Rádio foram lançadas “[...] as bases do uso massivo de uma tecnologia da comunicação como instrumento real e efetivo de cidadania e educação para muitos [...].”

O historiador da educação, Fávero (2006, p. 33), esclarece que “[...] o primeiro plano com vistas a resolver o problema educacional do país com ajuda do rádio foi elaborado em 1926 por Roquette Pinto.” Para este, o plano de uma educação verdadeiramente popular previa a instalação de uma rádio-escola sediada na capital de cada Estado, tornando-se ela responsável pela coordenação e nucleação de uma rede de rádio-escolas com a função de retransmitir a programação destinada especialmente à educação dos mais pobres. Nesse sentido, algumas experiências foram tentadas no âmbito nacional, visando essencialmente à alfabetização dos rurícolas. As mais relevantes foram: a Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos (CEAA, 1947-1954), a Campanha Nacional de Educação Rural (CNER, iniciada em 1952) e o Sistema Rádio-Educativo Nacional (SIRENA, 1958).

No Brasil, a primeira rádio pertencente à Igreja Católica seria a “A Rádio Aparecida,” cuja concessão foi obtida no ano de 1954. A grande inspiração, todavia, para a massificação de um ensino escolar a distância no Brasil, viria da experiência colombiana conduzida desde 1947 pela e apoiada pela UNESCO.

A colombiana Acción Cultural Popular (ACPO), constituiu-se a partir de 1947 na precípua inspiração para o uso da tecnologia radiofônica como meio massivo de instrução das populações. No Brasil, o pioneirismo, das Escolas Radiofônicas, sendo o rádio utilizado para a transmissão de aulas, no esteio da experiência colombiana, objetivando a um só tempo alfabetizar e oferecer uma educação escolar de base, coube à Emissora de Educação Rural de Natal. Coube a Dom Eugênio de Araújo Sales, então bispo-auxiliar da Arquidiocese de Natal, no Rio Grande do Norte impulsionar tal experiência. Fora ele enviado em nome da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) a fim de averiguar pessoalmente o que padre Joaquim Salcedo vinha desenvolvendo em Sutatenza, pequena cidade situada numa região montanhosa da Colômbia.

De volta ao Brasil, Dom Eugênio Sales direcionou seus esforços para implantar a Emissora de Educação Rural de Natal, conseguindo inaugurá-la no dia 09 de agosto de 1958. Este prelado, com o pleno conhecimento intelectual e pedagógico dessa nova tecnologia, explicava que havia de se adequar a pedagogia escolar, a um corpo de saberes e procedimentos, condizentes com o repertório e a linguagem didática do sistema de escola radiofônica.

O investimento feito naquele momento histórico pela Arquidiocese Católica de Natal, ao selecionar modernos meios para desenvolver um programa educativo de base, é compatível com a noção de ação cultural discutida por Certeau (1995), vez que esta nos possibilita inscrever a abordagem da prática educativa em tela, insertas em experiências que, embora institucionalmente pensadas, na sua prática podem transbordar e desbordar dos contornos oficialmente concebidos inserindo criatividades e fissuras produtoras e, simultaneamente, instauradoras de novos anseios.

É imperioso reconhecer que, até então, a educação escolar cultivada pela Igreja Católica com suas inúmeras e tradicionais escolas católicas pagas, que serviam basicamente às elites em regra, impedia que a elas tivesse acesso a maioria das camadas carentes da população em idade escolar. Utilizar-se dos rápidos e abrangentes meios eletrônicos de comunicação social seria uma possibilidade de também educar, instruir e evangelizar um vasto universo de pessoas excluídas da educação formal. Nesse momento a Igreja Católica ampliava a importância de que se revestiam os modernos meios de comunicação social, dentre eles o rádio, como instrumentos favoráveis à ação evangelizadora e formativa, sem abrir mão da educação sistemática e formal.

Tendo por lume a experiência pioneira de educação radiofônica levada a cabo pela Arquidiocese de Natal, que logo foi transportada para Sergipe, por Dom José Távora, então bispo de Aracaju, a Igreja Católica e o governo brasileiro estabeleceram parceira para a ampliação daquele programa educativo, resultando da criação do Movimento de Educação de Base (MEB).

O convênio assinado entre a CNBB e a Presidência da República do Brasil restou materializado pelo Decreto nº 50.370 de 21 de maio de 1961, que atribuía ao MEB a tarefa de “[...] ministrar educação de base às populações das áreas subdesenvolvidas do Norte, Nordeste e Centro Oeste do País, através de programas radiofônicos especiais com recepção organizada.” (DECRETO Nº 50.370, DE 21 DE MAIO DE 1961, fl. 1, grifo nosso). Por seu turno, o Governo Federal comprometia-se a facilitar a concessão de canais de radiodifusão aos bispos diocesanos que desejassem emissoras para transmissão de programas de educação de base pelo sistema de escolas radiofônicas.

Na cidade seridoense de Caicó, o programa de educação de base ou de “formação” de base como tarefa pedagógica da “Rádio Rural” operacionalizado na modalidade das escolas radiofônicas foi, sem dúvida, dirigido em princípio para um público bem especial: homens, mulheres, jovens e adolescentes da zona rural. As escolas radiofônicas seriam o ambiente educativo que viabilizaria a escolarização básica, a catequese, a politização e a mudança de mentalidade do(a) agricultor(a) analfabeto(a). Na primeira mensagem lida pelo padre Itan Pereira da Silva, Diretor pioneiro da Emissora, conclamou a população rural a abraçar a causa educacional e por meio dela, a politizar-se.

Você que tem um filho que não pode estudar porque tem que lutar no pesado logo cedo. Você que é analfabeto e não conhece a civilização. Agricultor do sertão. Hoje é o seu dia. Você sofre tudo isso, mas agora sabe que tem uma Rádio para defendê-lo e sobretudo para ajudá-lo. Você agora vai educar-se e politizar-se. Através das escolas radiofônicas receberá alfabetização e educação de base. Terá instrução e poderá ser um homem livre, um habitante da civilização moderna. (SILVA, 1963, fl. 8).

Dom Manuel Tavares de Araújo, terceiro bispo da diocese de Caicó (1959-1978) foi, sem dúvida, o grande baluarte que coordenou a campanha de aquisição e instalação da Emissora Rural de Caicó. Não se pode, entretanto, esquecer a força condutora de Dom Eugênio Sales para o nascimento dessa estação de rádio, como recorda o próprio Dom Manuel:

Dom Eugênio foi à Colômbia onde havia um padre que tinha instituído uma rádio rural. Quando Dom Eugênio chegou me chamou para organizar a coisa com o devido cuidado. Foi quando foi fundada a Rádio Rural. (ARAÚJO, DOM MANUEL..., 2003, grifo nosso).

Inaugurada a 1º de maio de 1963, as primeiras aulas transmitidas pela Rádio-Escola da Emissora Rural foram levadas ao ar pelo MEB em Caicó, no dia 1º de outubro desse mesmo ano. Tais aulas radiadas eram concebidas como uma saída emergencial e racional para a socialização de uma educação a distância, especialmente pela minimalização dos custos atinentes ao empreendimento. Mas, sobretudo, pensada para a elevação cívica, moral, econômica, social e espiritual do homem sertanejo.

Um “sistema radiofônico” consistia em uma estrutura local envolvendo uma equipe que contava com o suporte tecnológico comunicativo de uma Emissora de Rádio. Caberia a cada equipe implantar nas comunidades escolhidas as Escolas Radiofônicas, dotá-las com o monitor e o material técnico mínimo necessário, incluindo a indispensabilidade do rádio receptor para a transmissão diária das aulas e para acompanhar o aprendizado dos alunos-ouvintes. Todo “Sistema Radioeducativo”, recebia a gerência do MEB Nacional.

Enquanto a comunidade caicoense e de todo o Seridó festejava naquele 1º de maio de 1963, a inauguração oficial da sua Emissora de Educação Rural, acontecimento impar na vida de Caicó, os integrantes da Equipe local estudavam os fundamentos da educação de base; treinados, moldados para assumir no Seridó potiguar a missão educativa que a Igreja Diocesana lhes confiara e ainda inédita nessa Região ─ a propagação dessa educação.

Começou no Centro de Treinamento de Líderes [em Ponta Negra] um curso intensivo de 12 dias para equipes de educação de base do MEB com a direção da equipe nacional do Movimento de Educação de Base, que se deslocou a Natal especialmente com esse sentido. Participam do curso 7 elementos do MEB de Caicó e 6 de Mossoró além das equipes recém formadas nas áreas pilotos do Movimento da Arquidiocese de Natal. Vieram também para o curso as novas equipes do MEB do Maranhão, do Ceará e de Pernambuco. As aulas tiveram início no dia primeiro de maio, se estendendo até o dia 12 do corrente. Versam sobre os fundamentos da educação de base, possibilitando assim para os cursistas uma visão do importante trabalho que irão realizar nas diversas áreas subdesenvolvidas do Nordeste (EDUCAÇÃO DE BASE TREINA EQUIPE..., 1963, p. 6).

A equipe pedagógica precursora, João Samuel de Araújo (Coordenador), Zélia Gurgel Soares (Professora-radiofônica), Raimundo Silva (Supervisor), Maria de Lourdes Lima (Supervisora), Adeilce Gomes (Supervisora) e Iara Diniz Gurgel (Contabilista). A essa Equipe precursora caberia a missão desbravadora de implantar as aulas radiofônicas ou radiadas (como assim chamadas), na Região do Seridó do Rio Grande do Norte.

Imbuída da incumbência de oferecer a homens e mulheres sertanejos, prioritariamente da zona rural, uma educação de base transformadora coadjuvada pela disponibilidade de um meio tecnológico de comunicação midiática, foi enviada a primeira correspondência para o MEB Nacional pelo MEB Sistema de Caicó, no dia 30 de maio de 1963. Assinada por João Samuel de Araújo, Coordenador, a carta atesta a euforia e a disposição da Equipe local para o trabalho e fora dirigida a Osmar [Fávero], componente da Equipe Nacional. “Osmar, conforme ficou planejado no estágio de Natal, iniciamos o nosso trabalho no dia 21 deste. Estamos fazendo o levantamento das primeiras áreas e animados com o trabalho.” (ARAÚJO, J. S., 1963, fl. 1, grifo nosso).

O empenho em desenvolver um trabalho formativo pelo investimento na promoção dos sertanejos era, digamos, auto-realizante. O treinamento em Natal, fora empolgante. Rememorar os trabalho iniciante do MEB Caicó, seu primeiro Coordenador confessa ter sido exercício de super-homem.

Relembrar o trabalho que iniciamos junto com Zélia [Gurgel], Raimundo, Adeilce, Lourdinha e Iara Diniz. Chamados hoje de anos dourados, aqueles momentos foram realmente de muitas felicidades. [...] Desde o momento que recebemos o treinamento adequado para desenvolvermos o nosso projeto, na verdade, uma verdadeira lavagem cerebral, no bom sentido, toda Equipe se engajou num tipo de trabalho que fazia de cada um de nós um verdadeiro super-homem, visto não haver nenhum obstáculo que fosse considerado intransponível por qualquer membro da Equipe. (ARAÚJO, J. S., 2003).

A orientação do MEB indicava que a instalação de cada Escola Radiofônica fosse precedida de um estudo prévio da área, identificando problemas humanos e existenciais das comunidades, incluído o credo religioso, os serviços ali disponíveis e as carências presentes. Igualmente relevante seria levantar termos peculiares do linguajar das comunidades, aqueles mais presentes na fala dos seus habitantes, como sugeria o método Paulo Freire de alfabetização. Os registros permitiriam, a posteriori, ser inseridos no planejamento do conteúdo das aulas radiofônicas tornando-as mais atraentes e motivadoras, interligadas às vivências de seus alunos-ouvintes, numa espécie de investigação-ação. A Escola Radiofônica teria suas especificidades metodológicas, pedagógicas e acima de tudo técnicas e tecnológicas. Por elas e por meio delas ter-se-ia:

Um professor num microfone multiplicando-se por 10, 100 e 1000 outros professores, graças a uma rede radiofônica de recepção organizada, de imensa simplicidade, onde, em cada unidade, está um receptor e junto dele um modesto monitor, obedecendo às vozes de comando que vêm de longe, mas vêm redentoras, ensinando a ler, a escrever, a contar, ensinando elementos de agricultura, de educação sanitária, de higiene, de moral, de economia geral, de economia doméstica, de vida cívica e espiritual, dando a milhares de homens e mulheres, moços e adolescentes, a notícia do que vai pelo mundo, pelo seu país, pelo seu Estado, pelo seu Território, pelo seu meio e até pela sua casa. É claro que as Escolas Radiofônicas não pretendem substituir a escola primária. Elas são uma solução de massa para um problema que, encarado no seu todo, estava semeando desesperança e pânico. (TAVORA, [1961], fl. 2).

A rede radiofônica estruturada pela materialidade tecnológica interpelada por um(a) professor(a) locutor(a), um monitor(a) e um receptor cativo ─ o rádio ─ dinamizaria a alfabetização de um contingente de adolescentes, jovens e adultos, urbanos e rurais.

Nessa missão pedagógica o MEB Caicó, logo em 1963 radicou 50 Escolas Radiofônicas em quatro municípios: Jardim de Piranhas, São Fernando, São João do Sabugi e Caicó, matriculando 973 alunos. O município de Cruzeta foi incorporado como área de trabalho desse Sistema em 1964.

No alvorecer do MEB Caicó, os programas por ele produzidos resultavam da própria concepção inicial da constituição de uma Rádio direcionada à educação de homens e mulheres sertanejos, especialmente do meio rural. Nas palavras de Santos (2007), para desenvolver a missão do Movimento “[...] o rádio era o elemento mais forte.”

É indubitável que a escassez de escolas primárias na zona rural foi, em parte, suprida na Região do Seridó pelas transmissões da Emissora Rural, as quais também contribuiriam para a Sé Romana atestar o papel cada vez mais relevante dos mass media no vasto domínio da formação humana. Reconhece o magistério católico que o emprego desses meios,

Nas regiões com poucas possibilidades de escolarização oferecem vantagens sobre diversos aspectos: educação religiosa, formação de base, luta contra o analfabetismo, ensino de técnicas agrícolas, medicina, higiene e métodos de desenvolvimento comunitário. (COMMUNIO ET PROGRESSIO..., 2003, p. 98).

O primeiro contato da Equipe do MEB Caicó com os materiais logísticos indispensáveis à Escola e às aulas radiadas (cartilhas, fios para antenas, lâmpadas ─ tipo lampião ─, pilhas e receptores), deu-se ao mesmo tempo com o trabalho de investigação nas áreas daqueles pré-falados municípios. A Equipe esforçou-se para no primeiro mês de atividade (maio de 1963) levar ao ar programas radiofônicos destinados a preparar as comunidades destinatárias a compreender, aceitar e articular-se no pretendido trabalho educativo. Em meio aos programas da Rádio Rural ─ veículo e suporte material da ilustração ideada ─ esclareceram pedagogicamente as finalidades e a metodologia radiofônica das Escolas.

O MEB Caicó, quer utilizando-se de programas radiofônicos, quer de publicações jornalísticas, propedeuticamente buscava incutir na sociedade seridoense a imprescindibilidade da instrução escolar, permanentemente. Nesse desiderato estava, todavia, consciente não ser a escola, por si mesma, fator suficiente a implementar uma mudança de vida para melhoras palpáveis espiritual e materialmente. Incorporando retoricamente, nessa nova era de cultura cristã, o discurso contrário para em seguida rebatê-lo, alertava a Equipe do MEB local:

Mas não deixa de haver quem diga, não acredito que escola faça alguém mudar de vida. Na verdade, só pela escola é impossível essa mudança; mas é através dessas escolas que os homens do campo que vivem abandonados, irão se esclarecendo e tomando consciência de seus direitos e obrigações como cidadãos brasileiros e filhos de Deus. Com essa tomada de consciência sentirão a necessidade de se unirem, de fundarem cooperativas e também outras organizações que o levarão a uma promoção. (EDUCAR PARA MUDAR ─ MEB, 1963, p. 2, grifo nosso).

Por tarefa dos integrantes do MEB Caicó, as comunidades recebiam o material básico, rádio cativo (por sintonizar apenas a Rádio Rural de Caicó), lampião, cartilhas, dentre outros materiais básicos. Todavia, até para fugir ao mero, digamos, assistencialismo, naquele tempo já bastante criticado por Freire (2001), haveriam os alunos-ouvintes que prover condições técnicas e materiais para transmissão e recepção das aulas radiofônicas.

Então, não existiam verbas para isso [alimentação dos aparelhos]. Como é que eles faziam para comprar pilhas e gás? Escreviam [para os programas radiofônicos] dizendo os tipos de campanhas que eles faziam, porque já serviam de modelo para outros. E a gente divulgava como é que foi feito naquela comunidade. Eles faziam rifas. Faziam um forrozinho passando a fita; botava uma fita [de tecido] no ombro [dos presentes], aí cada um dava o que podia. Faziam campanhas assim. (MEDEIROS, J. C., 2007).

Uma vez inaugurada a Rádio, treinados os membros da equipe local do MEB, e radicadas 50 escolas na zona rural de 4 municípios, em primeiro de outubro de 1963, a Rádio Rural de Caicó transmitia para centenas de alunos sua primeira aula radiofônica. O script devidamente preparado, a voz juvenil e vivaz da professora-radiofônica Zélia Gurgel transpunha as barreiras espácio-temporais do vasto Seridó potiguar se fazendo presente, simultaneamente, em várias comunidades rurais onde, grupos de alunos, ─ alguns, jamais haviam freqüentado uma escola ─, sob a orientação do(a) monitor(a), ansiosamente recebiam os primeiros ensinamentos escolares.

Era o principiar de um ritual escolar a repetir-se diariamente. Nos estúdios da Emissora, às 18h e 5 minutos, logo após a transmissão da “Ave-Maria”, semanalmente, de segunda à sexta-feira, cercada pelos artefatos tecnológicos de uma estação de rádio, que permitiam a multiplicação de sua voz, destendendo sua presença, ampliando a força comunicativa, a professora-radiofônica se esforçava ao máximo para estabelecer a interatividade com as turmas, com os alunos-ouvintes. Almejava-se que eles se sentissem, de fato, numa sala de aula, atentos para assimilar os ensinamentos ministrados. Saudosa por aquela experiência inédita, prelúdio de sua vida profissional, Zélia Gurgel, testemunha:

Nas visitas [às comunidades] a gente verificava que muita gente estava se alfabetizando, porque, além da comunicação da professora que procurava o máximo ser interativa com eles, conversando mesmo como se estivesse numa sala de aula, havia o monitor treinado. Então, a orientação era que quando terminasse o tempo da transmissão da aula o monitor continuasse com eles exercitando aquilo que tinha sido ensinado. (GURGEL; LIMA, 2007).

A efetiva Escola Radiofônica transmissora da aula radiada requeria também os trabalhos imprescindíveis do controlista, função desempenhada por um funcionário da Rádio. De posse de uma cópia do script a ser seguido pela professora-radiofônica, a esse profissional caberia executar as inserções sonoras constante de fundo-musical próprio dessas transmissões e das canções previamente selecionadas, em consonância com os assuntos abordados.

Na verdade, para que tais aulas radiadas fossem levas ao ar, um considerável número de pessoas e materiais era acionado, desde a concepção até a execução final. Em se tratando da preparação das aulas, a professora-radiofônica discutia previamente a temática com toda a Equipe local, tendo a preocupação de produzir e transmitir uma aula partindo de situações concretas, evitando conceitos abstratos e linguajar alheio ao vocabulário dos camponeses, clientela prioritária a ser atingida. “Eu que era professora radiofônica, eu escrevia as aulas, mas essas aulas eram avaliadas por toda a equipe. Nenhuma aula saia só com o meu [entendimento], com a minha responsabilidade.” (GURGEL; LIMA, 2007). Trabalho docente de uma equipe pedagógica, ademais,

A equipe de supervisores se reunia e discutia. A gente tinha o roteiro e a partir dali a gente ia preparar [as aulas], ia ver questões bem ligadas ao dia-a-dia deles [alunos], à realidade. Muitas vezes a gente aproveitava, começava a aula até com um depoimento deles, aproveitava alguma informação, alguma coisa de carta, um acontecimento da comunidade e encima disso se desenvolvia toda a aula. (MEDEIROS, J. C., 2007).

No concernente à execução das aulas radiadas, além da professora-locutora e do sonoplasta controlista, nos transmissores da Emissora estava permanentemente vigilante um funcionário responsável para garantir o equipamento em pleno uso, inclusive acionando de imediato o Diretor técnico da Rádio, quando identificasse algum defeito nas transmissões.

Além dos elementos pedagógicos a serem considerados no planejamento, preparação e execução de uma aula rotineira, tais como, objetivos, motivação inicial, desenvolvimento, recursos didáticos utilizados, e verificação da aprendizagem, numa aula radiofônica deveriam ser observados: “[...] técnica de ‘script’ radiofônico, seleção de músicas e controle da parte musical, boa voz e vivacidade do professor locutor.” (PLANEJAMENTO DA PROGRAMAÇÃO RADIOFÔNICA DO MEB, [1965b], fl. 6).

Nas palavras de Raimundo Silva, supervisor da Equipe pioneira, logo após à radicação de Escolas, as emissões das primeiras aulas radiadas, pouco tempo depois da inauguração da Rádio Rural de Caicó, deixaram eufóricos seus educandos aprendizes.

Então, nós tivemos as primeiras aulas no rádio com as nossas professoras Lourdinha e Zélia Gurgel e havia muita esperança no povo, sobretudo da zona rural, porque em cada comunidade era fundada uma escola, onde havia muita gente. Naquele tempo havia muita gente no campo, mais do que na cidade. Então, nós instalávamos a escola com quadro-negro, um rádio cativo e com as cartilhas que serviam para o monitor, geralmente era uma moça, alguns rapazes foram também, e os alunos. Todos tinham o material. (SILVA, R., 2005).

O cuidado para estabelecer e preservar a cadeia comunicativa a pressupor decodificação por parte do receptor ocupava lugar tenente no esforço das professoras-locutoras, em consonância com as orientações do MEB Nacional. As aulas partiam dos textos propostos pelas cartilhas,

[...] mas, dentro da linguagem do povo. Era uma linguagem muito acessível, muito simples que as professoras usavam, nunca usavam palavras difíceis. Se tinha uma palavra mais complicada elas traduziam na hora da explicação. Cada sistema produzia suas próprias aulas, baseado naquele livro-texto aprovado pela equipe nacional e pelos bispos. (SILVA, R., 2005).

A efetividade ou não da comunicação a permear as aulas radiadas era aferida pelas constantes visitas que as professoras-locutoras, na companhia dos supervisores, realizavam à sede das escolas, além dos materiais produzidos pelos alunos e enviados para a divulgação no rádio.

Muitas vezes a gente deixava a aula gravada. Na época, poucas pessoas tinham gravador. Era um gravador grande, daqueles das carretas grandes que se dispunha [no MEB]. Lá tinham bem dois ou três e a gente gravava a aula. Tinham as pessoas da Emissora que a gente confiava no desempenho deles e faziam direitinho. Então, muitas vezes a gente assistia com eles [monitores e alunos] lá na escola, a aula. Tinham os encontros, tinham dias de estudos, tinham reuniões com os monitores ou animadores de comunidades. (MEDEIROS, J. C., 2007).

Uma série de procedimentos haveria que ser observada relativamente às aulas do rádio. Para tanto, o MEB Nacional, nos treinamentos e nos materiais que fazia publicar insistia no planejamento prévio levando em consideração: o quê seria, como seria e quando seria ensinado, para ser apreendido (pelo monitor) e apreendido igualmente pelos estudantes espalhados pela zona rural do Seridó.

O monitor constituía-se, portanto, agente chave no tocante à recepção das aulas radiofônicas, pois dele dependia a chamada “recepção organizada”, bem como o seu trabalho voluntário garantia a minimização dos custos de manutenção das Escolas Radiofônicas. Era o elo entre cada escola radiofônica em particular e a Equipe local do MEB. A ele caberia receber e distribuir os materiais, acompanhar as aulas, tomar a freqüência dos alunos, orientar na execução dos exercícios propostos pela professora-locutora, além de cuidar da conservação e da reposição dos materiais indispensáveis ao funcionamento da Escola Radiofônica, tais como pilhas para o rádio e gás para a lâmpada, dentre outros.

É bem verdade que os monitores eram desprovidos de remuneração financeira e ainda deviam conseguir meios de prover minimamente o funcionamento das aulas radiadas. Expedito Jorge, que exerceu tal função, reconhece, porém, que eles não deixavam de obter ganhos. Estes, todavia, não eram pecuniários, e sim de ordem intelectual, cognitiva, permitindo inclusive, em certos casos, acesso à Universidade.

Eu era monitor e aluno, mas também não ganhava nada; ganhava porque a gente estava aprendendo também. E foi uma aprendizagem tão boa que depois, inclusive, passei a fazer parte da equipe Regional [do MEB] daqui de Caicó. E teve muitas pessoas, muitos dos meus companheiros que também se promoveram. Teve deles que chegou até à Universidade. Com a escola radiofônica sentiu o interesse e continuou estudando e chegou a se formar nos bancos universitários; foi muito importante isso. (MEDEIROS, J., 2005).

Programas radiofônicos foram surgindo intentando um racional uso do meio técnico no preenchimento das demandas educacionais estritamente identificadas. Conversando com Monitores e Alunos, por exemplo, tratava-se de um programa com duração de uma hora, levado ao ar às 18h e 5 minutos, todos os sábados. Sua razão de ser eram as aulas radiadas veiculadas durante a semana, das quais figurava como uma espécie de desdobramento. Assumia ele, porém, um caráter predominantemente interativo e lúdico. Constituía-se em um fórum vivo de diálogo entre a Rádio Rural, a equipe local do MEB, monitores e alunos.

Em seus relatos Zélia Gurgel e Lourdinha Lima, respectivamente primeira professora-radiofônica e supervisora do MEB Caicó, lembram que a partir das aulas radiadas e das visitas às comunidades,

[...] quando a gente começou a descobrir lideranças, músicos, pessoas que tocavam sanfona, aí apareceu outro programa, no sábado, só com as comunidades; pessoas que formaram grupo e vinham com os instrumentos todos. [...] Com suas poesias! Suas músicas! (GURGEL; LIMA, 2007).

Os alunos, por seu turno, regozijavam em poder dar testemunho da aprendizagem demonstrando seus primeiros escritos, cartas, poesias, versos. As cartas serviam inclusive para a Equipe do MEB atestar o desenvolvimento dos alunos no tocante ao desenvolvimento da expressão escrita e no trato com o vocabulário.

Reunidos em torno do rádio, nas comunidades rurais, espalhados por sítios e fazendas do Seridó, alunos, monitores e suas famílias sintonizados na Rádio Rural de Caicó vibravam ouvindo a divulgação das mensagens por eles produzidas, escutando seus nomes anunciados e transmitidos para centenas de outras comunidades. Reitere-se que as cartas recebidas pela Equipe local, assim funcionavam como termômetro da aprendizagem, do grau de desenvolvimento e de progresso alcançado pelos alunos subscritores.

Na parceria com a Rádio Rural de Caicó, as professoras e professores radiofônicos elaboraram e transmitiram aulas radiadas voltadas à valorização dos saberes acumulados pelos sertanejos seridoenses. A partir de tais saberes buscaram inserir-lhes em aprendizados escolares aptos à sua elevação como pessoa, enfim, como homens capazes de compreender e dialogar com os aspectos técnicos, axiológicos e culturais da sociedade moderna.

O aprendizado sozinho, individual, sem a inserção formal na Escola Radiofônica da Emissora de Caicó, mesmo no período em que esta estava em plena ascensão, também era realidade. Um outro líder rural, Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São João do Sabugi, revela como aprendeu com a ajuda de um cadernozinho e lápis, com as aulas radiadas:

Na época em que começaram as escolas do MEB [Caicó] em 1963, a gente possuía um rádio, lá no Sítio Pedrecal, possuía um radinho à pilha, daqueles rádios ABC, e eu comecei a ouvir pelo rádio o programa da Escola Radiofônica. E eu, naquela época, não tinha quem me ensinasse, mas eu pegava o cadernozinho e ia anotando. Minha mãe já tinha ensinado alguma coisa a mim, eu já sabia escrever o meu nome, e fui anotando alguma coisa repassada pela Escola Radiofônica, através da Emissora Rural de Caicó. E eu tenho o prazer de dizer, nesse momento, que eu tive a satisfação de aprender a ler e a escrever através desse programa. Era um programam todo dia; naquele horário, nós chegávamos do serviço e estava preparado para assistir àquela aula. Já que nós, naquela época, não tínhamos aulas, eram difíceis as escolas, não tinha escola no sítio, a gente só trabalhava, e por isso é que eu não sou formado. Se tivesse uma escola como tem hoje, eu, com certeza, tinha a minha formatura. Mas, mesmo assim, aprendi muito através da escola radiofônica do MEB, que nos ajudou bastante a quem realmente tinha interesse em aprender. (MORAES, 2007).

É imperioso registrar que com a instauração do governo militar no Brasil, a partir de 1964, o trabalho educativo do MEB sofreu sérias restrições, especialmente pelo corte das verbas que financiavam o Movimento. Sem os valores monetários, indispensáveis ao adimplemento das despesas gerais, especialmente a folha de pagamento com pessoal, difícil seria prosseguir com as Escolas Radiofônicas cujas aulas eram transmitidas dos estúdios da Rádio Rural de Caicó. Elas dependiam do governo, na realidade, do MEC. As dificuldades financeiras são evocadas por Monsenhor Tércio, desde o início, um dos baluartes da Rádio Rural de Caicó:

[...] em dado momento aí vem a Revolução. A Revolução está muito perto das emissoras e então, a ação da Emissora [Rural] começa a cair na qualidade do produto que a gente vai querer, porque vem, o próprio MEB entra em suspeita. Há uma vigilância muito grande e como o MEB é nacional, dependia demais do MEC e o MEC tinha a chave do dinheiro. E o MEC forçou uma mudança de tom, de foco para a alfabetização. (ARAÚJO, T., 2005).

Certo é que, malgrado tais imposições, no ano de 1966 ainda foram criadas 6 novas Escolas em toda área de atuação do Sistema Caicó. No ano seguinte 39 Escolas Radiofônicas ainda estão em plena atividade, instaladas em 6 dos 22 municípios pertencentes à Diocese de Caicó. Estavam elas assim distribuídas: 6 em Caicó, 7 em Jucurutu, 9 em Cruzeta, 12 em São João do Sabugi, 4 em Jardim de Piranhas e apenas 1 em Serra Negra do Norte. (RELATÓRIO ANUAL DO MEB CAICÓ..., 1967, fl. 8).

É certo que desde a inauguração da Rádio, até por volta do ano de 1967, período aqui investigado, as aulas radiofônicas eram proferidas por uma professora-locutora, a partir dos estúdios da Emissora Rural e captadas pelos rádios com recepção cativa organizada, instalados em diferentes localidades, onde se haviam radicado as Escolas Radiofônicas. Acompanhados pelo monitor, os alunos aprendiam a ler, a escrever e a contar partindo de problemas e situações culturais concretas que lhes eram sugeridas. A escolarização ou a educação de base, nessa fase, pretendiam à luz de um ideal educativo de homem e de sociedade, ancorada nas vivências existenciais e materiais, conforme propunha Freire (2005), ser conscientizadora, lendo o mundo em conjunto com as aprendizagens escolares. Aliás, o ideal de homem almejado em diferentes estágios históricos e humanos, nunca

[...] é um esquema vazio, independente do espaço e do tempo. É uma forma viva que se desenvolve no solo de um povo e persiste através das mudanças históricas. Recolhe e aceita todas as transformações do seu destino e todas as fases do seu desenvolvimento histórico. (JAEGER, 2001, p. 15).

A abrangência dos temas geradores inspiradores dos conteúdos abordados pelas Escolas Radiofônicas é, pois, atestada por Expedito Jorge de Medeiros. Monitor e aluno da Escola radicada na comunidade Badaruco, em Cruzeta (1965-1967), posteriormente membro da Equipe do MEB Caicó (1970-1973), e até hoje assessor da Federação dos Trabalhadores da Agricultura no Estado do Rio Grande do Norte (FETARN). Por suas múltiplas vivências educacionais e educativas assegura os roteiros pedagógicos da educação de base, sob os auspícios da Equipe local, chancelada pelo bispo Diocesano.

Se discutia também as questões políticas, que realmente a Escola Radiofônica era uma escola que procurava educar em todos os aspectos. Não era só o aprender ler, escrever, nem contar. Se falava na educação econômica, na educação religiosa, na educação social, na educação política e tal. Todos esses aspectos a gente discutia e tirava os encaminhamentos. (MEDEIROS, J., 2005, grifo nosso).

É indubitável, portanto, que o MEB Caicó, valendo-se, sobretudo, das ondas sonoras da Rádio Rural com o módulo programático Escola radiofônica, e da abertura por esta propiciada, primava por uma educação humana geral, segundo parâmetros daquele Movimento Nacional. No segundo semestre de 1966, a geografia conceitual dos temas geradores emanaria pelos roteiros relativos a “[...] dignidade do ser humano, dignidade da mulher, valor do trabalho humano, função social do trabalho, instrumentos de ação sobre a natureza: de trabalho, de vida social, intelectual e espiritual.” (RELATÓRIO ANUAL DO MEB CAICÓ..., 1967, fl. 9).

A ativa intervenção dessas Escolas dependia, em grande parte, de recursos tecnológicos avançados ou já conhecidos, e providenciados, produzidos e remetidos pelo MEB Nacional aos Sistemas locais para subsidiar o trabalho docente dos professores-locutor, monitores e supervisores.

Não se pode olvidar que a constituição da Escola e a veiculação das aulas radiofônicas elaboradas pelo MEB local e levadas ao ar pelas ondas sonoras da Emissora de Educação Rural de Caicó, estritamente interligadas à grade programática a exemplo de Conversando com o Sertanejo, Conversa com Monitores e Alunos, Correio Rural, Cultura e Alegria, dentre outros, integravam a “educação escolar de base” que encontrou na Rádio Rural de Caicó nicho muitíssimo privilegiado.

Foi a partir do seu âmago, compartilhando com a variedade de tempo do camponês seridoense, quando reunidos nos terreiros e alpendres dos sítios, que o MEB Caicó retroalimentou e difundiu suas noções de cultura e de tempo de vida nessa ambiência sertaneja rural. Este teria sido o lugar no qual e a partir do qual a Equipe Diocesana do MEB pôde melhor ilustrar especificidades de sua práxis educativa enquanto movimento popular. Mais uma vez, tais balizamentos nos remetem a Michel de Certeau. Para ele, referir-se à cultura no plural nos faz refletir sobre o lócus de onde nos reportamos. Desse modo:

Nada que pertença aos outros transpõe esse limite sem que nos chegue morto, pois nada que nos foge existe, inevitavelmente. A prática e a teoria da cultura ascendem à honradez quando renunciamos à pretensão de superar por generalidades o fosso que separa os lugares onde se enuncia uma vivência. (CERTEAU, 1995, p. 241).

Reconhecendo as vivências de homens e mulheres camponeses, lugares e tempos de manifestações, seus laços com a cultura local e universal, o Emissora Rural de Caicó, com o seu módulo Rádio Escola, dirigido pelo MEB local, contribuiu para cimentar uma formação relativamente geral pela educação de base, almejando também promover a mudança coletiva de estruturas arcaicas em parte ainda vigentes.

Vê-se que a Escola e as aulas radiofônicas, com seu tempo escolar, com as transmissões da Rádio Rural de Caicó e recebimento por um canal cativo, com material didático e pedagógico utilizado como suporte para uma educação escolar renovada, objetivando formar homens e mulheres no sertão seridoense, testemunharam, em certa medida, êxitos pretendidos. Um monitor integrante desse Sistema escreve radiante para a Equipe local: “Os alunos estão satisfeitíssimos. Alguns estão encontrando grande facilidade nos Bancos e Cooperativas para fazerem seus negócios, por já serem alfabetizados.” (BOLETIM DO MEB, 1965, p. 3). O professor-monitor reporta-se, evidentemente, a aquisições culturais socializadas pela Escola Radiofônica da Emissora Diocesana.

A prática educativa que se utilizou do rádio para disseminar uma educação massiva constituiu-se numa experiência marcante no âmbito da educação a distância. A análise das fontes revela a um só tempo, a pujança e os limites daquela prática educativa que grassou pelo sertão do Seridó potiguar e como a “Rádio de Caicó”, a um só tempo, a acolheu, deu suporte, e potencializou-a possibilitando a muitos campesinos uma inserção em aprendizagens escolares envolvendo confecção de artefatos do artesanato regional e local, identificação e valorização das manifestações folclóricas autóctones, implemento de novas técnicas de plantio, de cultivo, de conservação e de higiene pessoal, a participação em organizações associativas e comunitárias (sindicatos de trabalhadores rurais, cooperativas, clubes de mães, grupos de jovens, times de futebol), a utilização de recursos tecnológicos já difundidos pela civilização, tais como o rádio, os livros, as revistas, os jornais e os mecânicos equipamentos agrícolas. Aquelas aulas radiofônicas, além de propiciar vivências escolares, converteu-se em uma experiência marcante que dotou muitos sertanejos de conhecimentos básicos, fundamentais à vivência no mundo moderno.



Referências

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